{"id":1068,"date":"2013-01-21T02:03:02","date_gmt":"2013-01-21T04:03:02","guid":{"rendered":"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/?p=1068"},"modified":"2018-06-01T16:02:22","modified_gmt":"2018-06-01T19:02:22","slug":"jornal-19-marcoabril-de-2007-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/2013\/01\/jornal-19-marcoabril-de-2007-2\/","title":{"rendered":"Jornal 19: Mar\u00e7o\/Abril de 2007"},"content":{"rendered":"<p><a name=\"indice\"><\/a><\/p>\n<p>Leia as mat\u00e9rias online:<\/p>\n<ul>\n<li><a href=\"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/?p=1068#titulo1\">Unidade na luta contra o PAC e as Reformas<\/a><\/li>\n<li><a href=\"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/?p=1068#titulo2\">A luta das mulheres<\/a><\/li>\n<li><a href=\"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/?p=1068#titulo3\">Por um movimento negro anticapitalista, independente dos partidos e antigovernista<\/a><\/li>\n<li><a href=\"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/?p=1068#titulo4\">Buraco do Metr\u00f4 de S\u00e3o Paulo e as PPPs<\/a><\/li>\n<li><a href=\"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/?p=1068#titulo5\">Aquecimento global, culpa do homem?<\/a><\/li>\n<li><a href=\"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/?p=1068#titulo6\">Chavez e o Socialismo<\/a><\/li>\n<li><a href=\"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/?p=1068#titulo7\">Socorram-me: subi no \u00f4nibus em Marrocos &#8211; Cr\u00edtica do Filme Babel Mo\u00e7\u00e3o de Rep\u00fadio contra a Pris\u00e3o de Marcelo Buzetto<\/a><\/li>\n<\/ul>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><a name=\"titulo1\"><\/a><\/p>\n<h1>Unidade na luta contra o PAC e as Reformas<\/h1>\n<\/div>\n<p><b>POR UM PLANO ALTERNATIVO DOS TRABALHADORES! <\/b><\/p>\n<p>Com o PAC (Plano de Acelera\u00e7\u00e3o do Crescimento), o que se pretende \u00e9 que o Estado invista novamente grandes somas de dinheiro p\u00fablico em obras de interesse dos grandes empres\u00e1rios, o que eles pr\u00f3prios n\u00e3o se disp\u00f5em a fazer, apesar de toda sua defesa da \u201clivre iniciativa\u201d. Al\u00e9m disso, o governo Lula pretende aprovar, com a ajuda do Congresso Nacional e do Judici\u00e1rio, um conjunto de leis favor\u00e1veis aos empres\u00e1rios e contra os trabalhadores.<\/p>\n<p>Vejamos as principais medidas do PAC e sua l\u00f3gica:<\/p>\n<p><b>PARA OS EMPRES\u00c1RIOS&#8230;INCENTIVOS. <\/b><\/p>\n<p><b>a) Eleva\u00e7\u00e3o do Programa Piloto de Investimentos (PPI)<\/b> de 0,2% do PIB (R$ 4,9 bilh\u00f5es) para 0,5% (cerca de R$ 11 bilh\u00f5es neste ano e R$ 67,8 bilh\u00f5es at\u00e9 2010) em projetos destinados a baratear os custos de produ\u00e7\u00e3o, distribui\u00e7\u00e3o e exporta\u00e7\u00e3o das mercadorias das transnacionais \u2013 as chamadas obras de infra-estrutura \u2013, que s\u00e3o caras e de retorno demorado, como portos, rodovias, aeroportos, usinas, obras de saneamento, etc. Em vez de melhorar e construir mais escolas, universidades, hospitais, moradias e promover a Reforma Agr\u00e1ria, o governo vai aplicar bilh\u00f5es de reais em empreendimentos voltados para aumentar a lucratividade das empresas.<\/p>\n<p><b>\u00a0<\/b><b>b) Utiliza\u00e7\u00e3o do FGTS<\/b> (Fundo de Garantia por Tempo de Servi\u00e7o). Inicialmente ser\u00e3o R$ 5 bilh\u00f5es, que podem subir para at\u00e9 80% do patrim\u00f4nio l\u00edquido do FGTS, de cerca de R$ 20 bilh\u00f5es. Com esse dinheiro ser\u00e1 criado um fundo para aplica\u00e7\u00f5es em obras de infra-estrutura como as citadas acima. Se os investimentos desse fundo derem preju\u00edzo ou renderem menos do que a corre\u00e7\u00e3o atual, os trabalhadores poder\u00e3o ser prejudicados quando forem receber seu FGTS.<\/p>\n<p><b>c) Isen\u00e7\u00f5es de impostos para as empresas de semicondutores, TV digital<\/b>, ind\u00fastria do a\u00e7o, constru\u00e7\u00e3o civil, de transportes, portos, energia e saneamento b\u00e1sico. Isen\u00e7\u00e3o de impostos sobre a venda de computadores de mesa e laptops at\u00e9 R$ 4.000. Antes o limite era de R$ 2.500 a R$ 3.000. N\u00e3o h\u00e1 garantia alguma de que essas isen\u00e7\u00f5es ser\u00e3o repassadas aos pre\u00e7os.<\/p>\n<p><b>d) Diminui\u00e7\u00e3o da taxa de juros de 13,75% para 9% sobre os empr\u00e9stimos do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econ\u00f4mico e Social) para as empresas que queiram investir em infra-estrutura.<\/b> Al\u00e9m disso, a quantia a ser emprestada aumenta de 70% para 80% do valor do empreendimento, e o prazo de pagamento ao BNDES sobe de 14 para 20 anos. Isso \u00e9 que \u00e9 um estado paternalista&#8230; com os empres\u00e1rios!<\/p>\n<p><b>e) Amplia\u00e7\u00e3o do programa de compra da casa pr\u00f3pria. <\/b>Esse dinheiro sair\u00e1 do FGTS, ou seja, do dinheiro dos trabalhadores.Uma medida demag\u00f3gica, pois R$ 1 bilh\u00e3o para essa finalidade \u00e9 um valor irris\u00f3rio, comparado ao total de investimentos que ir\u00e3o beneficiar os empres\u00e1rios. Al\u00e9m disso, esse cr\u00e9dito se restringe aos trabalhadores formais, na faixa de 1 a 3 sal\u00e1rios m\u00ednimos, deixando de fora os trabalhadores sem registro em carteira e os desempregados.<\/p>\n<p><b>f) Regulamenta\u00e7\u00e3o do artigo 23 da Constitui\u00e7\u00e3o<\/b>, com o objetivo de \u201cdestravar a legisla\u00e7\u00e3o ambiental\u201d. O governo e as empresas querem criar formas de driblar a legisla\u00e7\u00e3o ambiental e passar por cima de v\u00e1rios \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos que v\u00eam barrando a constru\u00e7\u00e3o de usinas e outras obras de grande impacto ambiental.<\/p>\n<p><b>g) Cria\u00e7\u00e3o do chamado marco regulat\u00f3rio<\/b>, ou seja, leis que visam garantir a seguran\u00e7a e os lucros das PPP\u2019s (Parcerias P\u00fablico-Privadas), nos setores de meio ambiente, gera\u00e7\u00e3o de energia, etc.; Em \u00faltimo caso, o estado dever\u00e1 pagar indeniza\u00e7\u00f5es a eventuais preju\u00edzos das empresas. Vemos aqui o cinismo dos defensores de que \u201co lucro \u00e9 a remunera\u00e7\u00e3o do <i>risco<\/i> do capital\u201d.<\/p>\n<p><b>h) Manuten\u00e7\u00e3o do pagamento dos juros da D\u00edvida P\u00fablica<\/b>. O pagamento dos juros da D\u00edvida \u00e9 um dos maiores respons\u00e1veis pelo atraso da qualidade de vida no pa\u00eds. S\u00f3 durante o primeiro mandato de Lula, foram pagos R$ 439,247 bilh\u00f5es. No or\u00e7amento de 2007, est\u00e3o previstos mais de R$ 160 bilh\u00f5es (!). Mesmo assim, a D\u00edvida P\u00fablica continua crescendo e j\u00e1 atingiu a soma de R$ 1,1 trilh\u00e3o (quase 50% do PIB)! Na pr\u00e1tica, essa d\u00edvida j\u00e1 foi paga. Mas os especuladores querem manter a extra\u00e7\u00e3o de dinheiro do pa\u00eds e dos trabalhadores, para encher o bolso dos grandes especuladores internacionais.<\/p>\n<p>Os grandes agiotas da D\u00edvida P\u00fablica tamb\u00e9m tiveram seu PAC: a taxa b\u00e1sica de juros, a Selic (Sistema Especial de Liquida\u00e7\u00e3o e de Cust\u00f3dia), que remunera os t\u00edtulos da D\u00edvida, foi mantida em 13%, a maior taxa de juros do mundo.<\/p>\n<p><b>\u00a0<\/b><b>PARA OS TRABALHADORES&#8230; A CONTA<\/b><\/p>\n<p><b>a) Sal\u00e1rio m\u00ednimo Miser\u00e1vel at\u00e9 2023<\/b>. A partir de 2008, o aumento do m\u00ednimo levar\u00e1 em conta a infla\u00e7\u00e3o mais o crescimento do PIB de dois anos antes. N\u00e3o haver\u00e1 sequer a reposi\u00e7\u00e3o das perdas hist\u00f3ricas com a infla\u00e7\u00e3o dos anos anteriores, para n\u00e3o falar na bandeira hist\u00f3rica do sal\u00e1rio m\u00ednimo do DIEESE (Departamento Intersindical de Estat\u00edsticas e Estudos Socioecon\u00f4micos), sequer mencionada.<\/p>\n<p><b>b) O teto m\u00e1ximo para o aumento do sal\u00e1rio dos servidores p\u00fablicos<\/b> fica fixado pela infla\u00e7\u00e3o anual mais 1,5% de aumento real. Da mesma forma que no sal\u00e1rio m\u00ednimo, s\u00e3o \u201cesquecidas\u201d todas as perdas salariais dos servidores p\u00fablicos, pois 1,5% n\u00e3o cobre nem a diferen\u00e7a entre a infla\u00e7\u00e3o real e a oficial.<\/p>\n<p>Entretanto, os sal\u00e1rios dos pol\u00edticos e ju\u00edzes seguem aumentando, e bastante. Depois de serem obrigados a recuar do aumento de 91%, aprovaram a proposta de reposi\u00e7\u00e3o da infla\u00e7\u00e3o dos \u00faltimos 4 anos. Mas quando os trabalhadores lutam para repor suas perdas salariais \u2013 como em Alagoas \u2013, esses senhores dizem que isso gera infla\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p><b>c) Corte de verbas p\u00fablicas da sa\u00fade e da Previd\u00eancia Social. <\/b>No Or\u00e7amento de 2007, o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade vai perder R$ 5,8 bilh\u00f5es. Da Previd\u00eancia, Educa\u00e7\u00e3o, Desenvolvimento Social, Trabalho, Cultura e Esportes v\u00e3o sair outros R$ 2,35 bilh\u00f5es. Al\u00e9m disso, haver\u00e1 a diminui\u00e7\u00e3o do valor do aux\u00edlio-doen\u00e7a e cria\u00e7\u00e3o de mais empecilhos para o trabalhador receber esse direito.<\/p>\n<p><b>\u00a0<\/b><b>d) Cria\u00e7\u00e3o do F\u00f3rum Nacional da Previd\u00eancia Social<\/b> unindo governo, empres\u00e1rios e as centrais pelegas (CUT, For\u00e7a Sindical, CGT) para discutir propostas para a Previd\u00eancia. Esse F\u00f3rum nada mais \u00e9 do que uma forma de tentar respaldar a Reforma da Previd\u00eancia como uma proposta consensual da sociedade ou de sua maioria. Mas j\u00e1 \u00e9 amplamente divulgado que empres\u00e1rios e governo querem o aumento da idade m\u00ednima para at\u00e9 65 anos, a equipara\u00e7\u00e3o da aposentadoria da mulher \u00e0 do homem e o fim da aposentadoria especial dos professores e outras fun\u00e7\u00f5es insalubres.<\/p>\n<p><b>\u00a0<\/b><b>e) Implementa\u00e7\u00e3o da Super-Receita.<\/b> A emenda 3 do Projeto de Lei 6272\/05, aprovada em 13 de fevereiro, une as secretarias de arrecada\u00e7\u00e3o e fiscaliza\u00e7\u00e3o dos minist\u00e9rios da Fazenda e da Previd\u00eancia num \u00fanico \u00f3rg\u00e3o. Os resultados ser\u00e3o ac\u00famulo de fun\u00e7\u00f5es e perda na qualidade de atendimento, pois o governo n\u00e3o prev\u00ea concursos para a contrata\u00e7\u00e3o de mais funcion\u00e1rios que est\u00e3o em falta. Al\u00e9m disso, a emenda aprovada permite aos empregadores contratarem trabalhadores informais \u201cdisfar\u00e7ados\u201d de aut\u00f4nomos.<\/p>\n<p><b>A PARTE N\u00c3O DIVULGADA&#8230;<\/b><\/p>\n<p>Al\u00e9m das medidas acima, h\u00e1 outras na mesma linha, n\u00e3o divulgadas ainda por serem claramente antipopulares:<\/p>\n<p><strong>f<\/strong><b>) Prorroga\u00e7\u00e3o da al\u00edquota de 0,38% da CPMF por mais 10 anos.<\/b> Esse imposto foi criado no governo FHC, com a desculpa de arrecadar uma verba extra para a sa\u00fade. Depois passou a usado para cobrir parte do pagamento dos juros da D\u00edvida P\u00fablica. Pela lei, ele vigora at\u00e9 o final de 2007. Mas o PT quer sua prorroga\u00e7\u00e3o, ou seja&#8230; torn\u00e1-la definitiva.<\/p>\n<p><strong>g<\/strong><b>) Prorroga\u00e7\u00e3o da desvincula\u00e7\u00e3o de 20 % das verbas da Uni\u00e3o por mais 10 anos.<\/b> A vincula\u00e7\u00e3o, prevista na Constitui\u00e7\u00e3o, \u00e9 a forma concreta de obrigar os governos a investirem na sa\u00fade e na educa\u00e7\u00e3o um percentual fixo de verbas em rela\u00e7\u00e3o ao PIB. Durante a presid\u00eancia de FHC, foi aprovada a desvincula\u00e7\u00e3o, ou seja, um corte de 20% nessas verbas fixas. Essa parcela ficou livre para o governo gastar como quiser. Na pr\u00e1tica, sempre foi gasta para cumprir o super\u00e1vit prim\u00e1rio, leia-se, para pagar juros aos agiotas internos e externos. Como essa lei que criou a desvincula\u00e7\u00e3o atual de 20% tamb\u00e9m se esgota em 2007, o governo pretende prorrog\u00e1-la por mais 10 anos.<\/p>\n<p><b>\u00a0h<\/b><b>) Corre\u00e7\u00e3o da tabela do imposto de renda em 4,5% at\u00e9 2010.<\/b> Al\u00e9m de n\u00e3o repor os v\u00e1rios anos de defasagem, a corre\u00e7\u00e3o das faixas da tabela do imposto de renda n\u00e3o segue sequer a infla\u00e7\u00e3o real, que tem sido o dobro desse valor.<\/p>\n<p><b>\u00a0<\/b><\/p>\n<h3><b>OS ARGUMENTOS POR TR\u00c1S DO PAC E SUAS CONTRADI\u00c7\u00d5ES<\/b><\/h3>\n<p>O principal argumento por tr\u00e1s do PAC \u00e9 que, havendo crescimento econ\u00f4mico, teremos a gera\u00e7\u00e3o de empregos e a distribui\u00e7\u00e3o de renda de que o pa\u00eds necessita.<\/p>\n<p>Mas a realidade mostra o contr\u00e1rio. Durante os anos 90, com o Plano Real, e mesmo nos primeiros quatro anos do governo Lula, houve crescimento econ\u00f4mico e apesar disso o desemprego, a degrada\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os p\u00fablicos e a concentra\u00e7\u00e3o de renda s\u00f3 se agravaram. A promessa, j\u00e1 insuficiente, de gerar 10 milh\u00f5es de empregos foi um fiasco, pois j\u00e1 se sabe at\u00e9 mesmo pelos dados oficiais (for\u00e7ados para baixo), que o desemprego no pa\u00eds teve alta em 2006 e chegou a 10% da popula\u00e7\u00e3o economicamente ativa. (UOL &#8211; Economia 25\/01\/2007).<\/p>\n<p>O que tanto os empres\u00e1rios quanto o governo querem encobrir \u00e9 que, no est\u00e1gio atual do capitalismo, \u00e9 poss\u00edvel haver\u00a0 crescimento econ\u00f4mico sem novas contrata\u00e7\u00f5es, ou at\u00e9 mesmo com aumento do desemprego, como nos mostra a experi\u00eancia de v\u00e1rios pa\u00edses. Essa realidade tem a ver com a nova fase do capitalismo: a globaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Antigamente, a tecnologia n\u00e3o era t\u00e3o alta. Para o capitalista ampliar a produ\u00e7\u00e3o e, dessa forma aumentar seus lucros, precisava contratar mais funcion\u00e1rios e gastar uma parte maior do capital em sal\u00e1rios, direitos trabalhistas e rendimentos da classe m\u00e9dia. Assim, indiretamente, o sistema tamb\u00e9m aumentava seu mercado consumidor, reproduzindo-se e expandindo-se continuamente.<\/p>\n<p>Entretanto, com o enorme desenvolvimento da tecnologia sob controle do capital, a partir dos anos 70 ocorreu a invers\u00e3o dessa l\u00f3gica: a tend\u00eancia passou a ser de elimina\u00e7\u00e3o maci\u00e7a de postos de trabalho, diminui\u00e7\u00e3o dos sal\u00e1rios e dos direitos trabalhistas e a queda dos rendimentos da classe m\u00e9dia.<\/p>\n<p>Um exemplo entre muitos \u00e9 o caso da Volks, que recentemente demitiu 3.600 trabalhadores ao mesmo tempo em que batia recordes de produ\u00e7\u00e3o e exporta\u00e7\u00e3o. Por isso, mesmo que haja crescimento econ\u00f4mico da ordem de 4% ou 5%, o problema do desemprego n\u00e3o ser\u00e1 resolvido nem amenizado.\u00a0 E isso n\u00e3o vai mudar enquanto n\u00e3o for questionado o controle do capital sobre a tecnologia, enquanto ela for usada para aumentar os lucros e n\u00e3o para o bem-estar da sociedade.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 \u00e1rea social, mesmo que aumente o crescimento econ\u00f4mico, tampouco teremos aumento significativo dos investimentos, pois o pagamento dos agiotas financeiros da D\u00edvida P\u00fablica n\u00e3o deixa espa\u00e7o para uma pol\u00edtica efetiva de investimento social e distribui\u00e7\u00e3o de renda. Al\u00e9m disso, com mais isen\u00e7\u00f5es e cr\u00e9ditos para as grandes empresas, cair\u00e1 a arrecada\u00e7\u00e3o do estado e mais verbas ser\u00e3o cortadas da sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o p\u00fablicas.<\/p>\n<p>Cada vez mais, o governo ter\u00e1 de fazer o assistencialismo para os mais pobres e miser\u00e1veis \u00e0s custas dos trabalhadores formais e da classe m\u00e9dia. Essa tem sido sua l\u00f3gica nesses \u00faltimos quatro anos e tudo indica que pretende aprofund\u00e1-la. Mas, at\u00e9 quando os trabalhadores e a classe m\u00e9dia v\u00e3o aceitar pagar essa conta cada vez maior?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3><b>DIANTE DA CRISE ESTRUTURAL DO CAPITAL, O PAC SOMENTE APROFUNDAR\u00c1 OS PROBLEMAS ECON\u00d4MICOS E SOCIAIS<\/b><\/h3>\n<p>Ao eliminar postos de trabalho e precarizar as condi\u00e7\u00f5es de trabalho e o poder de compra da classe m\u00e9dia, o capital est\u00e1 destruindo parte importante de seu mercado consumidor. Assim, provoca sua pr\u00f3pria crise de expans\u00e3o.<\/p>\n<p>A contradi\u00e7\u00e3o entre o crescimento permanente e cada vez mais r\u00e1pido da capacidade produtiva do sistema <i>versus <\/i>um mercado consumidor em lento crescimento, ou com tend\u00eancia \u00e0 estagna\u00e7\u00e3o, \u00e9 a principal marca da crise estrutural do capital.<\/p>\n<p>Por mais que tente atenuar essa contradi\u00e7\u00e3o, criando milhares de necessidades artificiais nos setores que ainda podem consumir, o capital n\u00e3o consegue reverter sua crise estrutural, que tende a se agravar e se tornar convulsiva com o passar dos anos. Por sua vez, essa crise leva \u00e0 disputa cada vez mais acirrada pelos mercados existentes, entre as grandes corpora\u00e7\u00f5es e entre os estados nacionais que as representam. As conseq\u00fc\u00eancias s\u00e3o desastrosas, desde uma maior precariza\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de vida dos trabalhadores, degrada\u00e7\u00e3o do ambiente, at\u00e9 guerras pelo controle dos mercados ou das mat\u00e9rias-primas.<\/p>\n<p>Definitivamente, n\u00e3o ser\u00e1 atrav\u00e9s do crescimento econ\u00f4mico capitalista, cada vez mais dif\u00edcil, mais excludente e mais destrutivo, que as grandes massas ser\u00e3o incorporadas ao consumo, mesmo dos itens mais b\u00e1sicos. As tend\u00eancias do per\u00edodo do capitalismo em crise estrutural apontam no sentido contr\u00e1rio: de aumento do desemprego e da mis\u00e9ria.<\/p>\n<p>Assim, se o PAC \u201cder certo\u201d, seu resultado ao final de 2010 ser\u00e1 apenas o de possibilitar uma maior taxa de explora\u00e7\u00e3o do trabalho pelo capital e uma maior apropria\u00e7\u00e3o do dinheiro p\u00fablico pelos grandes empres\u00e1rios. J\u00e1 o retorno social ser\u00e1 minguado ou nenhum. A\u00ed ent\u00e3o, surgir\u00e3o novas reivindica\u00e7\u00f5es de mais benesses, numa l\u00f3gica de decad\u00eancia que s\u00f3 se aprofundar\u00e1, enquanto o pa\u00eds estiver sendo gerido de acordo com a l\u00f3gica de submiss\u00e3o aos interesses do capital, como se estes fossem compat\u00edveis e n\u00e3o antag\u00f4nicos aos interesses da maioria da popula\u00e7\u00e3o, e dos trabalhadores em particular.<\/p>\n<p>Se os projetos do governo Lula se efetivarem, em 2010 teremos um pa\u00eds muito mais dependente das grandes transnacionais, muito mais privatizado, com os servi\u00e7os p\u00fablicos mais mercantilizados e mais caros, com sal\u00e1rios muito mais arrochados, e com piores \u00edndices de desemprego.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3><b>BUROCRACIA PETISTA: IMPLEMENTANDO O PROJETO CAPITALISTA&#8230; A SEU MODO<\/b><\/h3>\n<p>Diferente da burguesia, que preferia um ataque direto e frontal ao movimento, a burocracia petista n\u00e3o quer esgotar t\u00e3o rapidamente seu principal capital: a capacidade de conter os movimentos sociais.<\/p>\n<p>A equipe do governo Lula n\u00e3o tem diferen\u00e7as com o projeto burgu\u00eas em geral, implementado desde FHC, mas utiliza formas mais disfar\u00e7adas e mediadas, de modo a confundir e dividir a classe trabalhadora, ci\u00eancia mesquinha que aprendeu nos anos em que esteve \u00e0 frente dos movimentos, cumprindo o papel de conten\u00e7\u00e3o das lutas, freando greves gerais e impulsionando acordos como o da C\u00e2mara Setorial em 1991 ou o da Previd\u00eancia em 1998.<\/p>\n<p>Esse processo de ataques mais mediados aos trabalhadores leva a uma recupera\u00e7\u00e3o mais segura dos lucros do capital, por\u00e9m mais lenta do que o necess\u00e1rio para que os setores da burguesia que atuam no Brasil possam concorrer com os que atuam em outros pa\u00edses.<\/p>\n<p>Esse foi o motivo das reclama\u00e7\u00f5es dos empres\u00e1rios e seus analistas, que argumentam que o PAC \u00e9 progressivo, mas que \u00e9 preciso ir muito al\u00e9m, no sentido de realizar rapidamente as \u201creformas estruturais\u201d, da Previd\u00eancia, Trabalhista, Tribut\u00e1ria Pol\u00edtica, um maior super\u00e1vit prim\u00e1rio, etc., etc.<\/p>\n<p>Delfim Neto, mais experiente, frisou por\u00e9m que \u201cn\u00e3o se pode esquecer que h\u00e1 uma sociedade no meio do caminho&#8230;\u201d<\/p>\n<p>O problema para a burguesia \u00e9 que impor seu receitu\u00e1rio n\u00e3o est\u00e1 mais t\u00e3o f\u00e1cil como nos anos anteriores.\u00a0 Nos dias atuais, os EUA enfrentam cada vez mais problemas em sua estrat\u00e9gia de domina\u00e7\u00e3o super-imperialista e a Am\u00e9rica Latina passa por ciclos de rebeli\u00f5es populares que deram origem a governos nacionalistas mais \u00e0 esquerda. Um pacote de Reformas e ataques frontais poderia despertar a rea\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora do maior pa\u00eds da Am\u00e9rica Latina e o \u00fanico ainda sob controle.<\/p>\n<p>Nesse contexto, a burocracia petista bate no peito e busca reafirmar para o imperialismo norte-americano e europeu, e para os setores da burguesia interna, a sua import\u00e2ncia na preserva\u00e7\u00e3o da ordem. Ela \u00e9 o \u00fanico setor social e pol\u00edtico capaz tanto de administrar as contradi\u00e7\u00f5es entre os v\u00e1rios setores da burguesia como, principalmente, de manter a paralisia e a dispers\u00e3o dos maiores batalh\u00f5es da classe trabalhadora e dos miser\u00e1veis.<\/p>\n<p>A burguesia, embora reclame e exija mais, sabe que pelo menos por enquanto precisa da burocracia no poder, e est\u00e1 disposta a toler\u00e1-la mais um pouco, desde que continue no \u201ccaminho certo\u201d. Evidentemente n\u00e3o contam que o movimento de massas possa surpreender e atrapalhar seus planos&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3><b>UNIDADE DOS TRABALHADORES E DA ESQUERDA SOCIALISTA PARA ENFRENTAR O PAC E AS REFORMAS!<\/b><\/h3>\n<p>Diante dessa situa\u00e7\u00e3o, a tarefa pr\u00e1tica que se imp\u00f5e \u00e0 classe trabalhadora \u00e9 derrotar esse <b>P<\/b>lano de <b>A<\/b>rrocho e <b>C<\/b>ortes.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso explodir os pilares desse pacote, impedindo o uso indiscriminado e autorit\u00e1rio do FGTS, os cortes nos servi\u00e7os p\u00fablicos e o arrocho salarial, os aumentos e prorroga\u00e7\u00f5es de impostos, a Reforma da Previd\u00eancia, a aceita\u00e7\u00e3o dos p\u00edfios reajustes do sal\u00e1rio m\u00ednimo, etc. Desmascarar as manobras que est\u00e3o por tr\u00e1s do discurso da burguesia e do governo Lula (PT), e de seus defensores, como a CUT, a UNE, a UBES,&#8230; eis o desafio da agita\u00e7\u00e3o e da propaganda socialistas.<\/p>\n<p>Do ponto de vista organizativo e pr\u00e1tico, tem enorme import\u00e2ncia o <b>Encontro Unificado dos Trabalhadores Contra o PAC e as Reformas<\/b>, convocado pela CONLUTAS, INTERSINDICAL, Consulta Popular, Pastorais, CONLUTE e outras entidades representativas para o dia <b>25\/03<\/b> em S\u00e3o Paulo. Temos que garantir a mais ampla convoca\u00e7\u00e3o e sua prepara\u00e7\u00e3o pela base, atrav\u00e9s de encontros regionais e estaduais.<\/p>\n<p>O momento atual exige maior unidade dos trabalhadores e da esquerda socialista contra os ataques do governo e dos patr\u00f5es. As diverg\u00eancias com os companheiros da INTERSINDICAL quanto \u00e0 perman\u00eancia ou n\u00e3o na CUT, embora importantes, devem ficar em segundo plano, desde que n\u00e3o impe\u00e7am as lutas e a independ\u00eancia de a\u00e7\u00f5es frente \u00e0 CUT.<\/p>\n<p>O objetivo central do Encontro Nacional deve ser discutir e aprovar um <b>Calend\u00e1rio de Lutas<\/b> unificadas contra o PAC e as Reformas e um <b>Programa Alternativo dos Trabalhadores<\/b> para a situa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Para que esses objetivos sejam alcan\u00e7ados, \u00e9 fundamental que o Encontro garanta a democracia necess\u00e1ria para a discuss\u00e3o das propostas e, caso n\u00e3o haja consenso, a sua vota\u00e7\u00e3o, a fim de que as diverg\u00eancias n\u00e3o sejam sufocadas, mas se aprovem os encaminhamentos decididos pela maioria.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso aprender com os erros do I Encontro da Assembl\u00e9ia Popular onde, em nome de um falso consenso, as propostas diferentes foram impedidas de serem discutidas e votadas, o que contribuiu para a posterior desagrega\u00e7\u00e3o daquela iniciativa.\u00a0 Tamb\u00e9m n\u00e3o se podem repetir os erros do I Congresso da CONLUTAS, em que a apresenta\u00e7\u00e3o das Teses e a discuss\u00e3o a fundo das propostas \u2013 uma tradi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica dos Congressos da classe trabalhadora &#8211; foram substitu\u00eddas por longos Pain\u00e9is expositivos, o caderno de teses foi fragmentado, e emendas importantes feitas nos grupos n\u00e3o foram levadas ao Plen\u00e1rio.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso uma din\u00e2mica que d\u00ea conta da diversidade das id\u00e9ias e, ao mesmo tempo, garanta a m\u00e1xima unidade na luta.<\/p>\n<p><b>S\u00d3 OS TRABALHADORES PODEM APRESENTAR UM PLANO ALTERNATIVO AO CAPITALISMO!<\/b><br \/>\nUm plano coerente para enfrentar pela raiz os problemas de independ\u00eancia, desenvolvimento econ\u00f4mico e social do pa\u00eds, deve ter uma l\u00f3gica completamente oposta ao PAC. Deve priorizar os interesses sociais da maioria e o equil\u00edbrio social e ambiental. Assim, os crit\u00e9rios para o que \u00e9 priorit\u00e1rio devem ser totalmente invertidos e, logicamente, quem dever\u00e1 pagar a conta tamb\u00e9m:<\/p>\n<ul>\n<li>N\u00e3o pagamento da D\u00edvida P\u00fablica (interna e externa). Investimento desse dinheiro em um Plano de Obras e Servi\u00e7os P\u00fablicos decidido pelos trabalhadores, com a constru\u00e7\u00e3o de hospitais, creches, escolas, universidades, transportes p\u00fablicos, etc;<\/li>\n<li>Estatiza\u00e7\u00e3o do sistema financeiro sob controle dos trabalhadores, para por fim \u00e0 especula\u00e7\u00e3o financeira e \u00e0 agiotagem;<\/li>\n<li>Corte imediato da taxa de juros para 6% ao ano. Fim da remessa de capitais a outros pa\u00edses. Monop\u00f3lio do com\u00e9rcio exterior e controle do c\u00e2mbio nas m\u00e3os do Estado, sob o controle dos trabalhadores;<\/li>\n<li>Reestatiza\u00e7\u00e3o das empresas privatizadas sob controle dos trabalhadores e readmiss\u00e3o dos demitidos;<\/li>\n<li>Sal\u00e1rio m\u00ednimo do DIEESE (R$ 1564,52), reposi\u00e7\u00e3o das perdas salariais para todos os trabalhadores e aposentados;<\/li>\n<li>Registro em carteira e direitos trabalhistas a todos os trabalhadores;<\/li>\n<li>Fim da terceiriza\u00e7\u00e3o e dos contratos tempor\u00e1rios;<\/li>\n<li>Prioridade ao transporte coletivo a pre\u00e7o de custo, com passe-livre aos estudantes e desempregados;<\/li>\n<li>Redu\u00e7\u00e3o imediata da jornada de trabalho para 36 horas ou menos sem redu\u00e7\u00e3o dos sal\u00e1rios;<\/li>\n<li>Cotas raciais proporcionais aos negros e ind\u00edgenas nas universidades, concursos p\u00fablicos e empregos em geral;<\/li>\n<li>Reforma Agr\u00e1ria com a extin\u00e7\u00e3o do latif\u00fandio e a distribui\u00e7\u00e3o das terras aos trabalhadores rurais sem-terra;<\/li>\n<li>Expropria\u00e7\u00e3o sem indeniza\u00e7\u00e3o das fazendas do agro-neg\u00f3cio e sua coloca\u00e7\u00e3o sob controle dos trabalhadores;<\/li>\n<li>Por um governo socialista dos trabalhadores, apoiado em suas organiza\u00e7\u00f5es de luta;<\/li>\n<li>Pela apropria\u00e7\u00e3o coletiva da riqueza social. Por uma sociedade socialista.<\/li>\n<\/ul>\n<p><a href=\"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/?p=1068#indice\">\u25b2 voltar ao \u00edndice<\/a><\/p>\n<div>\n<h1><\/h1>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h1><a name=\"titulo2\"><\/a><\/h1>\n<h1>A luta das mulheres<\/h1>\n<\/div>\n<p align=\"center\"><b>A capacidade e a beleza da mulher n\u00e3o devem ser instrumentos da opress\u00e3o capitalista!<\/b><\/p>\n<p>\u00a0Ao abordarmos a situa\u00e7\u00e3o da mulher trabalhadora na sociedade hoje \u00e9 importante voltarmos ao passado para relembrarmos nossa luta:<\/p>\n<p>Quando a esp\u00e9cie humana se dispersava da \u00c1frica para as outras partes do mundo, o centro dos grupos era a dupla m\u00e3e e crian\u00e7a e, apesar de existir a divis\u00e3o sexual do trabalho, n\u00e3o existiam rela\u00e7\u00f5es autorit\u00e1rias nem escravizadoras entre homens e mulheres.<\/p>\n<p>Com o surgimento da agricultura, do excedente e da apropria\u00e7\u00e3o desse excedente (propriedade) o homem passa a querer controlar n\u00e3o apenas a natureza mas tamb\u00e9m as rela\u00e7\u00f5es produtivas e sociais e busca submeter a mulher \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de mera auxiliar para a realiza\u00e7\u00e3o de suas metas.<\/p>\n<p>As mulheres n\u00e3o assistem a todos estes acontecimentos pacificamente. Enfrentam a Inquisi\u00e7\u00e3o na Idade M\u00e9dia. Promovem revoltas e questionamentos, durante a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, contra a mis\u00e9ria a que estavam submetidas e muitas s\u00e3o decapitadas ou queimadas por isso. No ano em que o <i>Manifesto Comunista<\/i> \u00e9 escrito as lutadoras feministas realizam seu primeiro encontro em que reivindicavam o fim da sociedade de domina\u00e7\u00e3o patriarcal.<\/p>\n<p>Tempos depois, em 8 de mar\u00e7o de 1857, quando protestavam contra as p\u00e9ssimas condi\u00e7\u00f5es de trabalho,\u00a0 os sal\u00e1rios de mis\u00e9ria e a redu\u00e7\u00e3o da jornada de trabalho nas ind\u00fastrias t\u00eaxteis de Nova York, 129 oper\u00e1rias, reunidas dentro de uma f\u00e1brica, s\u00e3o queimadas por ordem dos patr\u00f5es.<\/p>\n<p>Durante o s\u00e9culo XX a luta n\u00e3o \u00e9 menos \u00e1rdua. A necessidade dos capitalistas (entenda-se empres\u00e1rios) de manter suas taxas de lucro juntamente com as guerras pela hegemonia do mercado mundial piora as condi\u00e7\u00f5es de vida dos trabalhadores. As mulheres s\u00e3o obrigadas, disputando com os homens, a ocupar v\u00e1rios postos de trabalho para derrubar a m\u00e9dia salarial de nossa classe.<\/p>\n<p>Diante da capacidade de desenvolvermos nossas potencialidades entramos, cada vez mais, num mercado de trabalho altamente competitivo, machista e injusto al\u00e9m de carregarmos o fardo do trabalho dom\u00e9stico.<\/p>\n<p>A dupla jornada de trabalho, que nasceu com a sociedade patriarcal, passa a ser explorada ao extremo e se quis\u00e9ssemos nos organizar ter\u00edamos que partir para a tripla jornada.E assim \u00e9 feito&#8230;<\/p>\n<p>Na Revolu\u00e7\u00e3o Russa s\u00e3o as mulheres que convocam a primeira greve geral que serve de estopim contra a Monarquia. Assumem a consci\u00eancia socialista e s\u00e3o intransigentes contra a opress\u00e3o, a servid\u00e3o dom\u00e9stica e por uma R\u00fassia livre. Conquistam o direito de decidirem sobre seus corpos, de div\u00f3rcio, de exigir judicialmente do pai o sustento para os filhos. Reivindicam e organizam restaurantes, lavanderias e creches p\u00fablicas para terem mais tempo livre do trabalho dom\u00e9stico. Saem do espa\u00e7o privado (dentro de casa) para realizar encontros, confer\u00eancias e congressos internacionais que unificam suas reivindica\u00e7\u00f5es e as colocam em condi\u00e7\u00e3o de atuarem com os demais trabalhadores.<\/p>\n<p>No Brasil, na d\u00e9cada de 70, realizam o I Congresso das Oper\u00e1rias Metal\u00fargicas, em S\u00e3o Bernardo, no ABC paulista, em que constatam as m\u00e1s condi\u00e7\u00f5es de vida, a falta de creches nos locais de trabalho, a viol\u00eancia dos chefes e a discrimina\u00e7\u00e3o sexual, ainda hoje em nossos meios.<\/p>\n<p>A conquista de alguns direitos na Constitui\u00e7\u00e3o Federal \u2013 igualdade de direitos trabalhistas, previdenci\u00e1rios e sociais, o fim da proibi\u00e7\u00e3o da maternidade e o direito a terra \u2013 se deu atrav\u00e9s de muita luta de trabalhadoras em sua tripla jornada\u00a0 e que, a partir dos sindicatos, se juntaram aos demais trabalhadores.<\/p>\n<p>No entanto, o s\u00e9culo XXI chegou trazendo, para n\u00f3s mulheres, novas formas de imposi\u00e7\u00e3o, opress\u00e3o e morte que requerem tamb\u00e9m outras formas de dizer \u201cn\u00e3o\u201d ao sistema de explora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Sabemos que nesse sistema somos levadas, desde muito cedo, a desejar ser m\u00e3e, a cultivar o corpo magro e atraente, a ser executora de tarefas chatas e f\u00e1ceis, a sonhar com o casamento, a se tornar uma excelente e obediente dona-de-casa que somente se sentir\u00e1 feliz quando encontrar um marido que reconhe\u00e7a suas qualidades e a proteja. A finalidade maior disso tudo \u00e9 procurar nos desencorajar diante dos menores comportamentos independentes e nos fazer ver a liberdade como algo limitado e monstruoso.<\/p>\n<p>Contrariar as regras ou adaptar-se a elas custa-nos muito: Vemos meninas gr\u00e1vidas cada vez mais novas e assumindo sozinhas os beb\u00eas. Mortes por anorexia e bulimia para atender as exig\u00eancias do mercado da moda e da m\u00eddia. Depress\u00e3o por se sentirem gordas e feias. Aumento do n\u00famero de abortos, da prostitui\u00e7\u00e3o velada e da objetifica\u00e7\u00e3o do corpo da mulher nas propagandas (cervejas, carros, internet). Sem falar do alto n\u00famero de mulheres que sofrem com a viol\u00eancia dom\u00e9stica.<\/p>\n<p>Infelizmente alguns sindicatos embarcam nessa cruel onda capitalista e promovem as <i>Semanas da Beleza<\/i>, em que alguns servi\u00e7os s\u00e3o oferecidos sem custo em troca da promo\u00e7\u00e3o de marcas de cosm\u00e9tico, contribuindo para o estelionato dermatol\u00f3gico (est\u00edmulo ao consumo de produtos e cirurgias para elevar a auto-estima). Enquanto isso, cruzam os bra\u00e7os para os verdadeiros ataques \u00e0 auto-estima da mulher trabalhadora, ou seja, a opress\u00e3o, a carga elevada de trabalho, os baixos sal\u00e1rios, a dupla jornada, a exig\u00eancia para que realize o trabalho dom\u00e9stico e o pouco tempo dedicado ao prazer.<\/p>\n<p>At\u00e9 mesmo a participa\u00e7\u00e3o das mulheres na CUT (Central \u00danica dos Trabalhadores) foi diminuindo em contraste com o aumento do trabalho feminino. A cota de 30% de mulheres nos \u00f3rg\u00e3os de decis\u00e3o nunca refletiu a quantidade de mulheres no mercado de trabalho e, mesmo, se mant\u00e9m.<\/p>\n<p>A tal <i>Secretaria de Mulheres<\/i>, que no in\u00edcio era coordenada por homens, est\u00e1 totalmente submetida e trabalhando para implementar as pol\u00edticas do governo Lula para as mulheres, ou seja, p\u00f4r fim \u00e0 licen\u00e7a maternidade e aos direitos trabalhistas com a pr\u00f3xima contra-reforma trabalhista.<\/p>\n<p>As mulheres que a coordenam calaram-se diante da Reforma da Previd\u00eancia (que atingiu diretamente a classe que vende a for\u00e7a de trabalho, aumentando o tempo de contribui\u00e7\u00e3o e extinguindo a aposentadoria por idade) e da investida do governo contra as dom\u00e9sticas, h\u00e1 pouco tempo. Est\u00e3o h\u00e1 muitos anos fora das f\u00e1bricas, j\u00e1 fazem parte da burocracia sindical e implementam a l\u00f3gica que distancia cada vez mais as mulheres da participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e sindical.<\/p>\n<p>A maioria das organiza\u00e7\u00f5es que era de esquerda no per\u00edodo da Ditadura Militar sucumbiu. Hoje quase todas est\u00e3o no poder sob fajutas denomina\u00e7\u00f5es de socialistas, de comunistas, de verde, de trabalhadores. Aproveitaram-se da queda da burocracia stalinista do Leste Europeu para confundir a classe trabalhadora contra o socialismo, \u00fanico sistema capaz de colocar a mulher, e conseq\u00fcentemente a humanidade, em uma situa\u00e7\u00e3o superior.<\/p>\n<p>Somente agora, no novo mil\u00eanio, as trabalhadoras juntamente com os demais trabalhadores iniciam uma t\u00edmida reorganiza\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s de novas coordena\u00e7\u00f5es de lutas (Conlutas\/Intersindical), mas que ainda n\u00e3o incorporam as desempregadas ou subempregadas.<\/p>\n<p>Essas coordena\u00e7\u00f5es devem estar, tamb\u00e9m, a servi\u00e7o da luta das jovens trabalhadoras estudantes, que ingressamos agora no mercado de trabalho e que novamente enfrentamos os problemas das m\u00e1s condi\u00e7\u00f5es de trabalho, baixos sal\u00e1rios, jornadas de trabalho irregulares, falta de direitos trabalhistas com pomposos nomes de: estagi\u00e1rias, operadoras de telemarketing, teleoperadoras, etc.<\/p>\n<p>Continuar a luta iniciada por nossas ancestrais n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil. A luta, como mulher trabalhadora, pela sobreviv\u00eancia, independ\u00eancia intelectual e financeira, melhores condi\u00e7\u00f5es de trabalho e respeito aos nossos valores \u00e9 cada vez mais necess\u00e1ria. Precisamos transformar o 08 de Mar\u00e7o \u2013 <i>Dia Internacional de Luta da Mulher <\/i>em mais um dia de luta de todos os <a href=\"mailto:oprimid@s\">oprimidos<\/a>, contra todas as formas de explora\u00e7\u00e3o capitalista e por uma sociedade justa.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/?p=1068#indice\">\u25b2 voltar ao \u00edndice<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a name=\"titulo3\"><\/a><\/p>\n<div>\n<h1>Por um movimento negro anticapitalista, independente dos partidos e antigovernista<\/h1>\n<\/div>\n<p>O Brasil tem uma d\u00edvida hist\u00f3rica com os descendentes de africanos escravizados e que ainda n\u00e3o foi saldada. De uma hora para outra seis milh\u00f5es de seres humanos, seq\u00fcestrados de sua terra de forma cruel e selvagem, passaram de <b>mercadoria valiosa<\/b> \u00e0 terr\u00edvel fardo. Foram jogados na rua da amargura por uma lei que p\u00f4s fim \u00e0 escravid\u00e3o legal, mas, n\u00e3o indenizou as v\u00edtimas da escravid\u00e3o, e negou a esse povo o direito ao trabalho remunerado, \u00e0 terra e \u00e0 inclus\u00e3o social. Desde que o primeiro africano escravizado aqui pisou, deu-se in\u00edcio a um processo de luta por sua liberdade, atrav\u00e9s dos quilombos, do suic\u00eddio coletivo e do aborto. Essa luta se estende at\u00e9 os dias de hoje, mesmo que tenha mudado de forma. Zumbi, grande l\u00edder revolucion\u00e1rio, n\u00e3o questionou apenas a escravid\u00e3o, mas tamb\u00e9m o sistema de governo e da produ\u00e7\u00e3o social da vida<b>, <\/b>pois a forma de conv\u00edvio no quilombo era muito diferente da vida na col\u00f4nia.<\/p>\n<p>Hoje as ONG\u2019s, mantidas e reguladas pelo governo, servem para levar a pol\u00edtica oficial para dentro do movimento negro, pulverizando e interferindo no mesmo. Dando verbas e subven\u00e7\u00f5es para projetos isolados, transformam o movimento em dois blocos: os antigovernistas e os governistas. Dentro destes ainda temos os de direita e os que pertencem \u00e0 esquerda reformista que se mostram incapazes de solucionar os problemas da popula\u00e7\u00e3o, e com nenhum interesse em resolver os problemas dos negros, defendendo a causa negra em seus discursos nos dias de festa apenas com o objetivo de manter a divis\u00e3o do movimento. Esta pulveriza\u00e7\u00e3o foi estrategicamente planejada para facilitar a a\u00e7\u00e3o da classe dominante e do governo que a representa, seja de direita ou da esquerda reformista. Ao conceder algumas migalhas \u00e0s nossas organiza\u00e7\u00f5es, governo e empres\u00e1rios encontram defensores para refor\u00e7ar o mito da democracia racial.Afirmam que o governo n\u00e3o pode resolver em oito anos o que n\u00e3o foi resolvido em quinhentos, e que a Ford n\u00e3o \u00e9 racista porque a Funda\u00e7\u00e3o Ford d\u00e1 verbas para projetos de combate ao racismo. Entretanto, nesse governo h\u00e1 grandes dificuldades na titulariza\u00e7\u00e3o das terras de quilombo, n\u00e3o se avan\u00e7a nas cotas proporcionais no mercado de trabalho, avan\u00e7a-se pouco nas cotas universit\u00e1rias, e ainda diz <b>\u201co principal empecilho para o desenvolvimento do pa\u00eds s\u00e3o os ambientalistas e os quilombolas\u201d.<\/b><\/p>\n<p>Estamos num momento dif\u00edcil para o conjunto da classe explorada, pois est\u00e1 sob novo ataque do governo petista de Lula, atrav\u00e9s do PAC, com o aval da direita e das centrais sindicais. Lula vai\u00a0 investir parte consider\u00e1vel do FGTS em\u00a0 obras que beneficiar\u00e3o apenas a classe exploradora, sem garantia aos trabalhadores. A burguesia ser\u00e1 beneficiada com portos, aeroportos e estradas para exportar a produ\u00e7\u00e3o, sem obriga\u00e7\u00f5es de contrapartida financeira ou de cria\u00e7\u00e3o de empregos por parte da burguesia. N\u00e3o est\u00e1 previsto no PAC a constru\u00e7\u00e3o de escolas, universidades, hospitais, verbas para a reforma agr\u00e1ria ou para a\u00e7\u00f5es afirmativas.<\/p>\n<p>Zumbi, questionando escravid\u00e3o, sistema de governo e produ\u00e7\u00e3o social da vida, nos deu um exemplo a ser seguido. Isso mostra que o movimento negro deve abster-se de acordos com as elites e o governo que as representa, pois utilizaram o escravismo para impulsionar o capitalismo. Sendo assim, \u00e9 o capitalismo e toda sua base de sustenta\u00e7\u00e3o nosso principal inimigo. Se n\u00e3o formos capazes de compreender isso, n\u00e3o seremos capazes de derrotar nosso principal inimigo.<\/p>\n<p>\u00c9 neste contexto que diversas organiza\u00e7\u00f5es negras a n\u00edvel nacional est\u00e3o instalando o Congresso Nacional de Negros e Negras, com objetivo de construir um Projeto Pol\u00edtico de na\u00e7\u00e3o do Povo Negro para o Brasil, a ser instalado em Belo Horizonte, MG, e que ter\u00e1 a dura\u00e7\u00e3o de um ano. Esse Congresso ser\u00e1 vitorioso e dar\u00e1 um grande salto de qualidade se for capaz de lan\u00e7ar as bases necess\u00e1rias para a constru\u00e7\u00e3o de uma Organiza\u00e7\u00e3o Pol\u00edtica Revolucion\u00e1ria, centralizada pela base em organismos de discuss\u00e3o, e que seja independente do governo e dos patr\u00f5es, tendo como objetivo central a destrui\u00e7\u00e3o do sistema capitalista. Sabemos que n\u00e3o ser\u00e1 uma tarefa f\u00e1cil, mas n\u00e3o existe um meio termo. Isso n\u00e3o se constr\u00f3i da noite para o dia, como a liberdade n\u00e3o veio sem uma luta sem tr\u00e9guas.<\/p>\n<p>Devemos construir a unidade em torno de um programa que prepare a milit\u00e2ncia negra para o combate, atrav\u00e9s da forma\u00e7\u00e3o e a\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1rias. Sendo assim, o Congresso ter\u00e1, se respeitada a democracia, legitimidade para coordenar campanhas nacionais que possam mobilizar nosso povo. Al\u00e9m das campanhas <b>\u201cReaja ou ser\u00e1 Morto, Reaja ou ser\u00e1 Morta\u201d <\/b>e <b>\u201cn\u00e3o gaste seu dinheiro em lojas que n\u00e3o contratam negros\u201d,<\/b> podemos propor a \u201cLei de Responsabilidade Racial\u201d, em contraposi\u00e7\u00e3o \u00e0 lei de responsabilidade fiscal cujo principal objetivo era barrar investimentos sociais nas \u00e1reas pobres para garantir o lucro dos empres\u00e1rios com o pagamento da d\u00edvida p\u00fablica. Essa nossa lei colocar\u00e1 atr\u00e1s das grades o governante que n\u00e3o cumprir a lei de proporcionalidade. Em troca da ades\u00e3o da parte branca da classe explorada, seria lan\u00e7ado junto o movimento por uma <b>\u201cLei de Responsabilidade<\/b><b> Social<\/b>\u201d, para prender e tornar ineleg\u00edvel o governante que priorizar o pagamento da d\u00edvida \u00e0s custas do desemprego, da fome e da mis\u00e9ria de nosso povo, preto ou branco.<\/p>\n<p>Se investirmos nosso precioso tempo num congresso para construir um projeto pol\u00edtico que priorize acordos a portas fechadas em detrimento da luta organizada de nosso povo, perderemos tempo e desperdi\u00e7aremos uma oportunidade \u00edmpar que talvez n\u00e3o tenhamos t\u00e3o cedo, visto que o \u00faltimo Congresso Nacional de Negros se deu h\u00e1 mais de 50 anos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3>CHAMADO \u00c0S ORGANIZA\u00c7\u00d5ES REVOLUCION\u00c1RIAS<\/h3>\n<p>Diversas organiza\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias se colocam solid\u00e1rias a luta negra, e est\u00e1 dada a oportunidade de mostrar essa solidariedade. O movimento negro n\u00e3o disp\u00f5e de recursos para produzir todos os materiais necess\u00e1rios para a convoca\u00e7\u00e3o do Congresso. Para construirmos a independ\u00eancia que necessitamos, precisamos de recursos pr\u00f3prios que ainda n\u00e3o temos. Por isso, \u00e9 interessante que as organiza\u00e7\u00f5es solid\u00e1rias nos ajudem a construir um congresso que garanta a participa\u00e7\u00e3o do povo \u201cp\u00e9 de barro\u201d no congresso. Sua doa\u00e7\u00e3o necessariamente n\u00e3o precisa ser em dinheiro, que \u00e9 muito bem vindo. Mas, na confec\u00e7\u00e3o de materiais, principalmente das teses para discuss\u00e3o. Acreditamos que para muitos de nossos irm\u00e3os negros a maior parte do conte\u00fado das teses ser\u00e1 novidade. Al\u00e9m disso, as organiza\u00e7\u00f5es poder\u00e3o disponibilizar espa\u00e7o f\u00edsico para a realiza\u00e7\u00e3o das plen\u00e1rias e tamb\u00e9m realizar a discuss\u00e3o em suas respectivas bases, seja sindicato, movimento social ou coletivos de discuss\u00f5es.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/?p=1068#indice\">\u25b2 voltar ao \u00edndice<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a name=\"titulo4\"><\/a><\/p>\n<div>\n<h1>Buraco do Metr\u00f4 de S\u00e3o Paulo e as PPPs<\/h1>\n<\/div>\n<p>Em janeiro, o Brasil viu estarrecido o desastre que culminou com 7 v\u00edtimas nas obras do metr\u00f4 de S\u00e3o Paulo. Todas elas, trabalhadores que passavam pelo local ou trabalhavam na obra. Este fato n\u00e3o \u00e9 isolado no presente empreendimento. Mais trabalhadores j\u00e1 perderam a vida em acidentes anteriores em mais duas futuras esta\u00e7\u00f5es, mas n\u00e3o tiveram repercuss\u00e3o alguma pela m\u00eddia, pois, at\u00e9 ent\u00e3o, n\u00e3o havia preju\u00edzos para os burgueses assassinos. Este teve repercuss\u00e3o, pois, al\u00e9m de vitimar trabalhadores, abriu-se uma cratera de 38 metros de di\u00e2metro por 80 de profundidade, que determinou a interdi\u00e7\u00e3o de um corredor expressivo da cidade, que \u00e9 a Marginal Pinheiros, o que impossibilitou a oculta\u00e7\u00e3o pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Com tantas ocorr\u00eancias e vidas ceifadas, surgiram explica\u00e7\u00f5es de diversos matizes, sendo que algumas beiram a insanidade, como acusar a ocorr\u00eancia de chuvas nesta \u00e9poca, como se a natureza fosse culpada, ou n\u00e3o fosse previs\u00edvel a ocorr\u00eancia de elevados \u00edndices pluviom\u00e9tricos nesta \u00e9poca. Por mais notoriedade que a imprensa tenha dado ao fato, nenhum meio de comunica\u00e7\u00e3o deu-lhe o tratamento devido, apontando que o problema central da obra (e de TODAS que est\u00e3o por vir) \u00e9 o modelo de contrata\u00e7\u00e3o para execu\u00e7\u00e3o da obra, que s\u00e3o as Parcerias P\u00fablico-Privadas (PPP).<\/p>\n<p>A obra do metr\u00f4 em quest\u00e3o \u00e9 o primeiro grande empreendimento de infra-estrutura do pa\u00eds sob a \u00e9gide da legisla\u00e7\u00e3o das PPPs, institu\u00edda pelo governo Lula, por meio da promulga\u00e7\u00e3o da lei 11079\/04, sob a justificativa de que o Estado n\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es de, sozinho, dar conta da demanda de infra-estrutura que o pa\u00eds necessita para crescer. Ocorre que os interesses dos trabalhadores n\u00e3o s\u00e3o os mesmos interesses dos capitalistas, e estes far\u00e3o de tudo para garantir os seus lucros.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3>DESASTRE ANUNCIADO<\/h3>\n<p>Em 2006, os metrovi\u00e1rios fizeram paralisa\u00e7\u00f5es, com a finalidade de fazer o governo paulista recuar com o modelo de contrata\u00e7\u00e3o por meio de PPP, sob a alega\u00e7\u00e3o de que seria uma forma fraudulenta de privatizar o metr\u00f4, e que por isso a iniciativa privada colocaria o interesse econ\u00f4mico acima dos interesses da popula\u00e7\u00e3o. A imprensa burguesa caiu de pau em cima dos metrovi\u00e1rios e o governo paulista cumpriu o seu papel de proteger os lucros, acionando o Minist\u00e9rio P\u00fablico para sufocar o movimento.<\/p>\n<p>A preocupa\u00e7\u00e3o na contrata\u00e7\u00e3o tem todo o sentido, pois a legisla\u00e7\u00e3o da PPP, na pr\u00e1tica, impede que a Administra\u00e7\u00e3o P\u00fablica seja a gestora do empreendimento, al\u00e9m de colocar nas m\u00e3os dos pr\u00f3prios executores da obra o poder de fiscaliza\u00e7\u00e3o. \u00c9 o que determina o art. 9\u00ba <i>caput, \u00a0<\/i>combinado com o \u00a7 4\u00bada lei das PPPs. Observem:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><i>art.<\/i><i> 9\u00ba &#8211; Antes da celebra\u00e7\u00e3o do contrato, dever\u00e1 ser constitu\u00edda sociedade de prop\u00f3sito espec\u00edfico, incumbida <b>de implantar e gerir o objeto da parceria<\/b>.<\/i><\/p>\n<p><i>(&#8230;)<\/i><\/p>\n<p>\u00a74\u00ba Fica <b>vedado<\/b> \u00e0 Administra\u00e7\u00e3o P\u00fablica ser titular da maioria do capital votante das sociedades de que trata esse Cap\u00edtulo.(Grifos do autor)<\/p>\n<p>Ora, se o poder p\u00fablico n\u00e3o pode gerir e nem ter o controle do capital votante, a lei d\u00e1 carta branca para que a burguesia fa\u00e7a como quiser a obra. \u00c9 not\u00f3rio que h\u00e1 ind\u00edcios de problemas de qualidade e de quantidade de materiais empregados, colocando em risco a vida de toda a popula\u00e7\u00e3o. Tudo isso com a finalidade de maximizar os lucros. A maior prova disso \u00e9 que n\u00e3o houve nenhum alarme que orientasse os trabalhadores e a popula\u00e7\u00e3o das imedia\u00e7\u00f5es para abandonarem o local pela movimenta\u00e7\u00e3o do solo. Outro exemplo \u00e9 a quantidade de concreto insuficiente para dar sustenta\u00e7\u00e3o \u00e0s paredes do t\u00fanel, provocando ent\u00e3o o desastre.<\/p>\n<p>O n\u00famero de v\u00edtimas s\u00f3 n\u00e3o foi maior porque os pr\u00f3prios oper\u00e1rios do local perceberam o in\u00edcio do deslizamento de terra. Uns conseguiram sair a tempo, outros foram simplesmente expelidos pelo deslocamento de ar provocado pelo desabamento de terra.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3>OS EMPREITEIROS E O PT: TUDO A VER<\/h3>\n<p>N\u00e3o existe um Estado imparcial, ou em que todos s\u00e3o iguais perante a lei. \u00c9 uma discuss\u00e3o falsa, pois todo poder tem o seu car\u00e1ter de classe. Com o governo do PT n\u00e3o seria diferente. E o fato do Lula ser oriundo da classe oper\u00e1ria, n\u00e3o quer dizer que o poder, hoje, est\u00e1 nas m\u00e3os dos trabalhadores. O Lula e o PT est\u00e3o a servi\u00e7o da burguesia e movimentam as estruturas do Estado para tal fim. Basta ver as doa\u00e7\u00f5es de campanha para confirmar a tese.<\/p>\n<p>Foi publicado na Folha de S\u00e3o Paulo do dia 30 de janeiro de 2007 os financiadores das campanhas de Aldo Rebelo (PC do B-SP) e de Arlindo Chinaglia (PT-SP) para a C\u00e2mara dos Deputados. As construtoras Odebrech, Camargo Correa e OAS foram os maiores doadores\u00a0 de ambos candidatos. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que o PT\u00a0 aprovou as PPPs.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3>ABAIXO AS PPPs!<\/h3>\n<p>A Parceria P\u00fablico-Privada \u00e9 mais uma medida do governo neoliberal do PT para encher os cofres dos capitalistas empreiteiros. Seguindo a cartilha tucana, o governo Lula \u00e9 um vetor da aplica\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica da burguesia e quem paga a conta somos n\u00f3s, os trabalhadores. Diferentemente do PSDB, que vendeu quase todas as estatais, o PT quer tirar o dever do Estado de prover a infra-estrutura, fazendo com que a Administra\u00e7\u00e3o fique com os riscos (que n\u00f3s suportamos) do empreendimento, para garantir os lucros dos empreiteiros.<\/p>\n<p>Neste sentido, temos que nos mobilizar contra as PPPs e apoiar a luta dos metrovi\u00e1rios de S\u00e3o Paulo para evitar a privatiza\u00e7\u00e3o do metr\u00f4. Pela revoga\u00e7\u00e3o do contrato de concess\u00e3o da Linha 4!<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/?p=1068#indice\">\u25b2 voltar ao \u00edndice<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a name=\"titulo5\"><\/a><\/p>\n<div>\n<h1>Aquecimento global, culpa do homem?<\/h1>\n<\/div>\n<p>No rastro da confer\u00eancia da ONU sobre mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, nos \u00faltimos dias a m\u00eddia em suas diversas vers\u00f5es (a Rede Globo, por exemplo, apresentou no JN reportagem de uma semana) tem insistentemente falado do aquecimento global, desequil\u00edbrio ambiental, queimadas,\u00a0 efeito estufa, etc. Nada de novo porque a destrui\u00e7\u00e3o \u00e9 vis\u00edvel a todos. O novo nessas imagens chocantes \u00e9 o diagn\u00f3stico proferido pelos \u201cacr\u00edticos\u201d rep\u00f3rteres e pela declara\u00e7\u00e3o da ONU de que a culpa por tamanha destrui\u00e7\u00e3o \u00e9 o pr\u00f3prio homem e de que tal capacidade destrutiva \u00e9 inerente ao pr\u00f3prio homem. Mas de que homem est\u00e3o falando? Do Jos\u00e9? Da Maria? Daqueles que todos os dias saem para vender a \u00fanica mercadoria (for\u00e7a de trabalho) que t\u00eam? Ou daqueles que controlam os meios de produ\u00e7\u00e3o e, portanto, determinam o que e como produzir sem levar em considera\u00e7\u00e3o a destrui\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es ambientais, pois a \u00fanica coisa que lhes interessa \u00e9 o lucro?<\/p>\n<p>A afirma\u00e7\u00e3o desses rep\u00f3rteres na apar\u00eancia \u00e9 verdadeira, mas na realidade ela \u00e9 completamente insuficiente para explicar a realidade e a causa de tamanha destrui\u00e7\u00e3o do planeta e de seus recursos naturais. N\u00e3o se trata de apresentar um relat\u00f3rio do que ocorre no planeta (tanto porque \u00e9 vis\u00edvel como a m\u00eddia tem se encarregado disso), mas compreender por que, sob o dom\u00ednio do capital, a destrui\u00e7\u00e3o da natureza n\u00e3o s\u00f3 recuar\u00e1 como ser\u00e1 cada vez mais intensa.<\/p>\n<p>O foco da m\u00eddia burguesa tem objetivos claros, um dos quais \u00e9 retirar da produ\u00e7\u00e3o capitalista a responsabilidade por tais danos. Logo, nessa discuss\u00e3o torna-se urgente abrir uma batalha ideol\u00f3gica contra esse enfoque, porque se n\u00e3o identificamos as reais causas tamb\u00e9m n\u00e3o conseguiremos apresentar sa\u00eddas que solucionem de fato o problema<\/p>\n<p>Partimos do pressuposto de que analisamos os homens e suas a\u00e7\u00f5es n\u00e3o como indiv\u00edduos isolados, mas como seres sociais que cumprem determinado papel na produ\u00e7\u00e3o material da vida e com a consci\u00eancia determinada pelas rela\u00e7\u00f5es sociais que cercam essa produ\u00e7\u00e3o, ou seja, o homem \u00e9 um ser social que em rela\u00e7\u00e3o com a natureza produz tudo aquilo que \u00e9 necess\u00e1rio para sua exist\u00eancia. \u00c9 importante compreender essa qualidade eminentemente humana, pois \u00e9 ela a respons\u00e1vel, pelo seu trabalho, na transforma\u00e7\u00e3o do mundo (ou da natureza).<\/p>\n<p>Assim \u00e9 perfeitamente claro que a natureza \u00e9 fundamental, na verdade uma condi\u00e7\u00e3o, para a produ\u00e7\u00e3o das necessidades materiais dos humanos. O homem para produzir precisa relacionar-se com ela. Essa rela\u00e7\u00e3o \u00e9 determinada pelo n\u00edvel do desenvolvimento das t\u00e9cnicas e instrumentos de produ\u00e7\u00e3o acumulados pela humanidade. O determinante passa a ser, portanto, as rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o que foram constru\u00eddas nesse processo produtivo e que ser\u00e1 a base real ou material das rela\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, ideol\u00f3gicas, etc.<\/p>\n<p>Mas nem toda produ\u00e7\u00e3o ou rela\u00e7\u00e3o do homem com a natureza \u00e9 destrutiva. A apropria\u00e7\u00e3o privada daquilo que \u00e9 produzido coletivamente (socialmente) obriga que o homem estabele\u00e7a rela\u00e7\u00f5es estranhas \u00e0 sua condi\u00e7\u00e3o de produtor, alienando-se (para alguns, estranhamento) do produto do trabalho, do pr\u00f3prio homem e da natureza. A aliena\u00e7\u00e3o faz com que o homem n\u00e3o exer\u00e7a um dom\u00ednio consciente, mas sim destrutivo sobre a natureza. Dessa forma, a aliena\u00e7\u00e3o op\u00f5e os indiv\u00edduos e a coletividade de maneira que as a\u00e7\u00f5es n\u00e3o correspondem \u00e0s necessidades da humanidade.<\/p>\n<p>Ainda resta uma quest\u00e3o a esclarecer que \u00e9 o fato de que \u00e9 pelo trabalho humano que a natureza \u00e9 destru\u00edda. \u00c8 uma contradi\u00e7\u00e3o, mas tem explica\u00e7\u00e3o. Na sociedade burguesa, portanto, numa sociedade em que as rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o se desenvolvem sob hegemonia do capital, o trabalho aparece para todos os homens de forma negativada, ou seja, alienada, processo pelo qual o trabalhador se afasta das esferas da decis\u00e3o dos atos relacionados a sua atividade.<\/p>\n<p>Essa rela\u00e7\u00e3o \u00e9 que vai determinar a sua consci\u00eancia. Assim a \u201cvis\u00e3o\u201d de mundo e a a\u00e7\u00e3o dos indiv\u00edduos ser\u00e3o formadas conforme a posi\u00e7\u00e3o que ocupa na rela\u00e7\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o. Se o indiv\u00edduo \u2013 social \u2013 \u00e9 dono dos meios de produ\u00e7\u00e3o, sua vis\u00e3o de mundo e sua pr\u00e1tica v\u00e3o estar marcadas pelas necessidades que essa condi\u00e7\u00e3o imp\u00f5e; se, do lado oposto, for um trabalhador, a sua \u201cvis\u00e3o mundana\u201d vai corresponder a essa situa\u00e7\u00e3o, bem como sua a\u00e7\u00e3o. Ocorre que essa vis\u00e3o de mundo dos indiv\u00edduos est\u00e1, dialeticamente, relacionada com uma \u201cconsci\u00eancia coletiva\u201d moldada pelo dom\u00ednio da classe que se apropria da riqueza produzida socialmente, como forma de justificar o seu poder econ\u00f4mico e pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Como as id\u00e9ias da sociedade s\u00e3o as mesmas da classe dominante, a burguesia se aproveita para apresentar, nesse caso, a destrui\u00e7\u00e3o da natureza, o particular como universal. Quando se fala de homem, ser humano, etc. e de sua pr\u00e1tica destrutiva, fala-se de um homem hist\u00f3rico, social, forjado conforme as rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o. Mas a burguesia e seus ide\u00f3logos apresentam esse \u201ctipo humano\u201d como express\u00e3o universal humana. O fato de que o homem no capitalismo destrua a natureza n\u00e3o significa que em qualquer \u00e9poca hist\u00f3rica ocorrer\u00e1 essa destrui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A partir dessas conclus\u00f5es eu pergunto \u00e0queles (e ao rep\u00f3rter) que dizem que o mundo est\u00e1 acabando por culpa do homem: de qual homem est\u00e1 falando? O trabalhador, que \u00e9 obrigado a vender a sua for\u00e7a de trabalho e disponibiliz\u00e1-la aos patr\u00f5es para qualquer coisa, ou o burgu\u00eas, que vai direcionar a produ\u00e7\u00e3o para aquilo que d\u00e1 mais lucro (mesmo que destrua rios, mares, florestas, etc.)?<\/p>\n<p>A luta ideol\u00f3gica contra o capital exige que rechacemos tanto a id\u00e9ia da destrui\u00e7\u00e3o dos recursos naturais pela \u201cmaldade natural\u201d dos indiv\u00edduos como a responsabiliza\u00e7\u00e3o generalizada dos homens. \u00c8 o capitalismo e sua forma destrutiva de produzir que s\u00e3o os respons\u00e1veis pelos problemas ambientais do mundo. Essa quest\u00e3o \u00e9 importante ser destacada porque, se \u00e9 o trabalhador, com as motos-serras e outros instrumentos, que realiza o ato, ele o faz unicamente por conta de que ao dispor sua for\u00e7a de trabalho ao capitalista \u00e9 este quem vai determinar onde e como aplicar aquela for\u00e7a. A atividade humana n\u00e3o se coloca de maneira independente com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sociedade e, fundamentalmente, \u00e9 uma atividade que deve ser localizada historicamente, a partir de homens com \u201cvis\u00e3o de mundo\u201d burguesa, determinada, repito, pelo papel que ocupa nas rela\u00e7\u00f5es do modo de produ\u00e7\u00e3o. Eis Marx: \u201c\u00e9 necess\u00e1rio explicar esta consci\u00eancia pelas contradi\u00e7\u00f5es da vida material, pelo conflito existente entre as for\u00e7as produtivas sociais e as rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Para colocar as coisas no seu devido lugar: A produ\u00e7\u00e3o capitalista \u00e9 a respons\u00e1vel pela destrui\u00e7\u00e3o a que o planeta est\u00e1 submetido. O capital controla todos os processos produtivos \u2013 destrutivos ou n\u00e3o \u2013 e os homens s\u00e3o apenas instrumentos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3>CONSUMISMO E NECESSIDADES ARTIFICIAIS: IDEOLOGIA \u00c0 SERVI\u00c7O DA PRODU\u00c7\u00c3O DESTRUTIVA<\/h3>\n<p>A crise estrutural pela qual passa o capital o obriga a desenvolver mecanismos que empurrem as contradi\u00e7\u00f5es provocadas pela crise para o futuro. Entre esses mecanismos \u2013econ\u00f4micos e ideol\u00f3gicos \u2013, para citar alguns, est\u00e1 a taxa de uso decrescente das mercadorias, que \u00e9 a fabrica\u00e7\u00e3o de produtos com uma vida \u00fatil menor (Mesz\u00e1ros), a cultura do consumismo e a cria\u00e7\u00e3o de necessidades artificiais para as pessoas. Principalmente essas duas \u00faltimas medidas s\u00e3o acompanhadas de uma forte campanha publicit\u00e1ria.<\/p>\n<p>Para que haja produ\u00e7\u00e3o \u2013 espa\u00e7o privilegiado para a realiza\u00e7\u00e3o da mais-valia \u2013 \u00e9 necess\u00e1rio haver o consumo. Ocorre que o desenvolvimento tecnol\u00f3gico possibilitou salto na produtividade, ou seja, produz-se muito e, se h\u00e1 constantemente uma alta produ\u00e7\u00e3o, logo chegar\u00e1 a um limite porque n\u00e3o haver\u00e1 mais ningu\u00e9m para consumir. Como o capital resolve essa contradi\u00e7\u00e3o? Um: produz-se bens com dura\u00e7\u00e3o mais curta (voc\u00ea j\u00e1 deve ter ouvido falar que hoje as coisas duram menos) para que haja troca desses bens; dois: quando s\u00f3 essa medida n\u00e3o \u00e9 suficiente passa a criar necessidades artificiais.<\/p>\n<p>O celular \u00e9 um bom exemplo. Estima-se que j\u00e1 existem mais de 90 milh\u00f5es de aparelhos no pa\u00eds. Massificado h\u00e1 10 anos aproximadamente, foi a cada ano ou menos ganhando \u201cnovas\u201d fun\u00e7\u00f5es, como filmar, tirar foto, mapa para controlar filhos e tantas outras fun\u00e7\u00f5es, ou seja, para que as pessoas troquem de aparelho (consumam) os fabricantes \u201cinventam\u201d todas essas coisas. Para tudo isso se realizar vem a propaganda relacionando esses produtos \u00e0 alegria, \u00e0 jovialidade, \u00e0 eleg\u00e2ncia, como se ao adquirir aquele produto voc\u00ea se transformasse. Pode-se citar outras mercadorias, como o carro, por exemplo.<\/p>\n<p>Quanta mat\u00e9ria-prima (recursos naturais) gasta-se para produzir esses produtos que, sob uma administra\u00e7\u00e3o consciente, n\u00e3o seriam necess\u00e1rios? E o que fazer com o lixo que \u00e9 altamente danoso para a natureza? Pense em quantos produtos desnecess\u00e1rios h\u00e1 \u00e0 nossa volta e quanto dano eles causam \u00e0 natureza. Ent\u00e3o a causa de tanta polui\u00e7\u00e3o e desequil\u00edbrio ambiental \u00e9 a produ\u00e7\u00e3o massiva voltada para o lucro. Para o capital n\u00e3o interessa se destr\u00f3i ou n\u00e3o, interessa se h\u00e1 lucro. A vida n\u00e3o tem import\u00e2ncia para o capital, a menos que seja fonte de lucro (como tr\u00e1fico de \u00f3rg\u00e3os humanos).<\/p>\n<p>Esses exemplos s\u00e3o provas de que o capital em cada ato traz consigo mais destrui\u00e7\u00e3o. Imagine se metade da popula\u00e7\u00e3o da China e outra metade da \u00cdndia tivessem um carro, o que seria do planeta? Eis uma contradi\u00e7\u00e3o fundamental para o capital e para a humanidade.<\/p>\n<h3>MUITO BL\u00c1, BL\u00c1 E NADA DE PR\u00c1TICO<\/h3>\n<p>Para a burguesia estar se preocupando \u00e9 porque a destrui\u00e7\u00e3o est\u00e1 em um n\u00edvel acima do cr\u00edtico. O problema \u00e9 que n\u00f3s n\u00e3o temos acesso a todas as informa\u00e7\u00f5es, uma vez que a burguesia nunca exp\u00f5e os problemas na sua totalidade, liberando apenas aquilo que n\u00e3o tem mais como esconder. Mesmo do ponto de vista deles \u00e9 necess\u00e1rio que se fa\u00e7a algo porque o que est\u00e1 em jogo n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a nossa exist\u00eancia, mas tamb\u00e9m a deles.<\/p>\n<p>No fim de janeiro e in\u00edcio de fevereiro realizou-se a confer\u00eancia da ONU que discutiu as mudan\u00e7as do clima no planeta. Os relat\u00f3rios falam de subida dos oceanos, buraco de oz\u00f4nio, culpa o homem por esses problemas, etc. N\u00e3o vimos responsabiliza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o capitalista (nem temos essa ilus\u00e3o) e muito menos propostas concretas de solu\u00e7\u00e3o. O motivo \u00e9 \u00f3bvio: por ser uma organiza\u00e7\u00e3o \u00e0 servi\u00e7o do capital imperialista ela jamais atacar\u00e1 seu amo.<\/p>\n<p>As t\u00edmidas e ineficientes medidas \u2013 como o protocolo de Kyoto, que restringe a emiss\u00e3o de CO<sub>2<\/sub> em 5%, quando seria necess\u00e1rio pelo menos 60% \u2013 n\u00e3o saem do papel tamb\u00e9m por conta da competi\u00e7\u00e3o e dos interesses interimperialistas. Substituir a produ\u00e7\u00e3o de energia baseada em combust\u00edveis f\u00f3sseis por outros tipos de energia significaria a fal\u00eancia de grandes monop\u00f3lios e Estados que dependem desse tipo de neg\u00f3cio. Esse \u00e9 s\u00f3 um de v\u00e1rios exemplos, mas poder\u00edamos citar o caso das ind\u00fastrias de papel que destroem os len\u00e7\u00f3is fre\u00e1ticos e as florestas com as imensas planta\u00e7\u00f5es de eucaliptos, ou ainda a monocultura na produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola que devasta o ecossistema.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3>S\u00d3 OS TRABALHADORES E A PRODU\u00c7\u00c3O SOCIALISTA PODEM SALVAR O MUNDO<\/h3>\n<p>Para se contrapor e resistir ao processo destrutivo para o qual seu trabalho foi disponibilizado, \u00e9 necess\u00e1rio o desenvolvimento de uma consci\u00eancia anticapitalista e socialista que seja capaz de reorganizar a forma com que os homens produzem suas necessidades, com um dom\u00ednio consciente sobre as for\u00e7as da natureza, superando a oposi\u00e7\u00e3o do homem \u00e0 natureza que o capitalismo imp\u00f4s.<\/p>\n<p>Uma produ\u00e7\u00e3o sob controle dos trabalhadores vai decidir o que, como e para que produzir com base nas necessidades da coletividade. Se for mais importante produzir ve\u00edculos com energias alternativas, menos poluente, e voltados para o transporte coletivo, \u00e9 isso que se vai produzir. Se a produ\u00e7\u00e3o de celulares significa uma amea\u00e7a para o meio ambiente, ele ser\u00e1 substitu\u00eddo por outro sistema de comunica\u00e7\u00e3o. A apropria\u00e7\u00e3o e dom\u00ednio da natureza de maneira consciente v\u00e3o direcionar a produ\u00e7\u00e3o para as necessidades vitais da sociedade. Enquanto houver risco de fome, produzir bens de primeira necessidade ser\u00e1 a prioridade. Qualquer produ\u00e7\u00e3o ser\u00e1 considerada como uma totalidade de benef\u00edcios e males que pode provocar para o conjunto da sociedade: se pode poluir um rio ou n\u00e3o, se pode provocar um descontrole ambiental ou n\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas uma sociedade como essa \u00e9 a nega\u00e7\u00e3o do capital e de sua produ\u00e7\u00e3o destrutiva. \u00c9 uma sociedade de m\u00e1xima realiza\u00e7\u00e3o humana, de perfeita sintonia entre homem e natureza e de organiza\u00e7\u00e3o consciente de todo o processo de produ\u00e7\u00e3o. Esse conjunto de rela\u00e7\u00f5es sociais vai criar as condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para uma nova consci\u00eancia humana, pois n\u00e3o haver\u00e1 mais conflito entre as for\u00e7as de produ\u00e7\u00e3o e as rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O desenvolvimento dessa nova consci\u00eancia torna-se mais urgente do que nunca, pois o mundo sob a hegemonia do capital est\u00e1 em perigo e em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o de todas as formas de vida. Por isso reafirmamos que a disjuntiva \u201csocialismo ou barb\u00e1rie\u201d \u00e9 mais atual do que nunca: ou o socialismo ou o fim do g\u00eanero humano. Venha lutar pelo socialismo e por uma nova sociedade, que podem se realizar somente por um processo revolucion\u00e1rio em que os trabalhadores construam seus organismos de poder<\/p>\n<p>Mas tamb\u00e9m n\u00e3o podemos esperar o socialismo, pois h\u00e1 o risco de n\u00e3o dar mais tempo de salvar a natureza. \u00c9 necess\u00e1rio um processo mundial de mobiliza\u00e7\u00e3o para exigir dos governos medidas concretas para conter a destrui\u00e7\u00e3o do planeta (como a redu\u00e7\u00e3o de 60% nas emiss\u00f5es de CO). Como medida educativa para os trabalhadores, os sindicatos (e principalmente a CONLUTAS) devem come\u00e7ar a incluir nas pautas de reivindica\u00e7\u00f5es propostas de controle do que produzir e como produzir, como a proibi\u00e7\u00e3o de despejar res\u00edduos nos rios, exig\u00eancia de severas puni\u00e7\u00f5es \u00e0s empresas que poluem e responsabilidades de recolher as embalagens e produtos que prejudiquem o meio ambiente. E caso n\u00e3o cumpram, as empresas devem ser estatizadas e colocadas sob controle dos trabalhadores.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/?p=1068#indice\">\u25b2 voltar ao \u00edndice<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a name=\"titulo6\"><\/a><\/p>\n<div>\n<h1>Chavez e o Socialismo<\/h1>\n<p style=\"text-align: right;\">Daniel M. Delfino<\/p>\n<\/div>\n<p>Ao iniciar seu segundo mandato como presidente da Venezuela, em janeiro de 2007, o coronel Hugo Ch\u00e1vez anunciou um pacote de medidas que segundo ele estariam lan\u00e7ando seu pa\u00eds no rumo do \u201csocialismo do s\u00e9culo XXI\u201d.<\/p>\n<p>Entre essas medidas, estariam a nacionaliza\u00e7\u00e3o de empresas de setores estrat\u00e9gicos, como os de telefonia e energia el\u00e9trica (inclusive algumas de propriedade da estadunidense AES, dona da Eletropaulo no Brasil), o fim de algumas parcerias da estatal venezuelana de petr\u00f3leo PDVSA com grupos estrangeiros, a revoga\u00e7\u00e3o da autonomia do Banco Central, a cassa\u00e7\u00e3o da concess\u00e3o de uma das emissoras de TV que apoiaram ativamente o golpe de 2002, a mudan\u00e7a da estrutura administrativa, com a substitui\u00e7\u00e3o das prefeituras por conselhos locais, e a troca do pr\u00f3prio nome oficial do pa\u00eds para \u201cRep\u00fablica Socialista da Venezuela\u201d. Esse pacote \u201csocialista\u201d de Ch\u00e1vez foi lan\u00e7ado por iniciativa presidencial, por fora do Congresso Nacional venezuelano.<\/p>\n<p>Imediatamente, desencadeou-se a rea\u00e7\u00e3o da imprensa burguesa em todo o mundo, inclusive no Brasil. O caso foi tratado como esc\u00e2ndalo nas manchetes de jornal e nos editoriais raivosos dos bem-pensantes guardi\u00f5es da ordem. O l\u00edder venezuelano foi acusado de dinossauro, retr\u00f3grado, tirano, ditador, inimigo da democracia, etc., al\u00e9m de ser lembrado como amigo do \u201clouco\u201d e \u201cterrorista\u201d presidente do Ir\u00e3 Ahmadinejad, amigo de Fidel Castro, etc.<\/p>\n<p>Os jornalistas da grande imprensa, como bons mercen\u00e1rios a servi\u00e7o do capital, est\u00e3o sempre atentos e vigilantes, prontos para condenar ao fogo do inferno qualquer ato que desagrade minimamente o mercado. Os lacaios letrados da burguesia exercem uma marca\u00e7\u00e3o cerrada sobre quaisquer iniciativas de soberania dos povos, por mais insignificantes que sejam, condenando-as de sa\u00edda e impedindo que sejam entendidas e debatidas. Por meio da interdi\u00e7\u00e3o do debate, estabelece-se um monop\u00f3lio da opini\u00e3o, atrav\u00e9s do qual a discuss\u00e3o sobre qualquer quest\u00e3o se transforma em um mon\u00f3logo no qual apenas os detentores do poder podem se expressar. Uma vez que o pensamento \u00fanico neoliberal n\u00e3o pode jamais ser contestado, segue-se automaticamente a ladainha de que o consenso de Washington deve ser obedecido \u00e0 risca, o capitalismo \u00e9 o \u00fanico horizonte poss\u00edvel de liberdade e felicidade humana, etc. Toda e qualquer possibilidade de alternativa deve ser descartada em nome da obedi\u00eancia aos interesses do capital.<\/p>\n<p>Id\u00e9ias como socialismo, nacionalismo, soberania, latino-americanismo, precisam ser banidas do discurso, como se se tratasse de horrendos palavr\u00f5es, blasf\u00eamias e sacril\u00e9gios. A den\u00fancia do imperialismo, da domina\u00e7\u00e3o estrangeira, da espolia\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses, do massacre sobre os povos, \u00e9 tratada com desd\u00e9m, como se fosse uma \u201cquest\u00e3o superada\u201d, agora que todos supostamente usufruem as \u201cbenesses\u201d da \u201cglobaliza\u00e7\u00e3o\u201d. Nenhum pa\u00eds pode jamais ousar buscar um caminho pr\u00f3prio para tentar resolver os problemas de sua popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Evidentemente, existe um grande exagero de ambas as partes, que impede a compreens\u00e3o exata do que est\u00e1 se passando. Nem o pacote de Ch\u00e1vez \u00e9 de fato socialista, e nem a m\u00eddia burguesa tem o direito de conden\u00e1-lo. A campanha da m\u00eddia contra Ch\u00e1vez busca isol\u00e1-lo como fonte de uma esp\u00e9cie de amea\u00e7a \u201cpopulista\u201d e \u201cantidemocr\u00e1tica\u201d que estaria contaminando a Am\u00e9rica Latina, colocando em cheque a \u201cestabilidade\u201d da economia de mercado, cujo funcionamento \u201charmonioso\u201d \u00e9 a \u00fanica garantia de \u201cpaz e prosperidade\u201d.<\/p>\n<p>O exemplo de Ch\u00e1vez est\u00e1 sendo seguido por Evo Morales na Bol\u00edvia, e j\u00e1 foram anunciados passos semelhantes por parte de Rafael Correa no Equador (entre esses passos o n\u00e3o pagamento dos juros da d\u00edvida externa) e Daniel Ortega na Nicar\u00e1gua. Al\u00e9m disso, as parcerias do governo venezuelano com Cuba t\u00eam servido para revitalizar o regime de Fidel. Como se tudo isso n\u00e3o bastasse, o l\u00edder venezuelano estaria exercendo uma discreta press\u00e3o sobre o restante dos governos ditos \u201cde esquerda\u201d no continente, como o de Lula no Brasil, Kirchner na Argentina (que acaba de admitir a fal\u00eancia do modelo de previd\u00eancia privada), Tabar\u00e9 Vasquez no Uruguai e Michele Bachelet no Chile. Esses governantes de perfil mais \u201cmoderado\u201d, que na verdade s\u00e3o alunos aplicados do modelo neoliberal, sofrem algum constrangimento na compara\u00e7\u00e3o com o \u201cradical\u201d Chavez. O exemplo venezuelano mostra que h\u00e1 outros caminhos para os pa\u00edses latino-americanos, e essa demonstra\u00e7\u00e3o \u00e9 perigosa porque invalida na pr\u00e1tica a tese de que \u201cn\u00e3o h\u00e1 alternativa\u201d \u00e0 pol\u00edtica econ\u00f4mica ortodoxa aplicada em tais pa\u00edses.<\/p>\n<p>Desenvolve-se uma esp\u00e9cie de disputa subterr\u00e2nea entre essas duas vertentes da \u201cesquerda\u201d governante latino-americana. Do ponto de vista do capital, \u00e9 absolutamente crucial que os governantes amig\u00e1veis ao mercado, como Lula e os demais, sejam os vencedores da disputa. Lula deve aparecer como a \u00fanica vers\u00e3o de \u201cesquerda\u201d poss\u00edvel. Para isso, Ch\u00e1vez deve ser devidamente demonizado, suas id\u00e9ias devem aparecer como absurdas, seus planos invi\u00e1veis, sua revolu\u00e7\u00e3o bolivariana uma aventura irrespons\u00e1vel.<\/p>\n<p>O fato de que o conjunto de medidas tenha sido anunciado diretamente pelo Presidente e n\u00e3o pelo Congresso \u00e9 apresentado como evid\u00eancia de um suposto pendor ditatorial de Ch\u00e1vez. Convenientemente, a hipocrisia burguesa esquece que, desde sua primeira elei\u00e7\u00e3o em 1998, Ch\u00e1vez j\u00e1 venceu de maneira esmagadora mais de meia d\u00fazia de vota\u00e7\u00f5es, entre elei\u00e7\u00f5es, plebiscitos e referendos. Al\u00e9m disso, foi v\u00edtima de um golpe de Estado em 2002, tendo sido reconduzido ao poder pela mobiliza\u00e7\u00e3o maci\u00e7a das massas populares. Mais de um milh\u00e3o de venezuelanos cercou o pal\u00e1cio presidencial, exigindo o retorno do presidente democraticamente eleito. Depois de reempossado, Chavez n\u00e3o reprimiu os golpistas, e somente agora em 2007 cassou a concess\u00e3o de uma \u00fanica das v\u00e1rias emissoras de TV que constru\u00edram o golpe. Ainda assim, acusam-no de antidemocr\u00e1tico.<\/p>\n<p>A quase unanimidade que Ch\u00e1vez conseguiu em seu pa\u00eds est\u00e1 entalada na garganta da burguesia latino-americana, que n\u00e3o se cansa de buscar pretextos os mais absurdos para deslegitim\u00e1-lo. No que se refere ao caso do pacote \u201csocialista\u201d em quest\u00e3o, o Congresso venezuelano \u00e9 composto exclusivamente por parlamentares de partidos chavistas. E foram os pr\u00f3prios partidos rivais que desistiram de participar das \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es legislativas. Nesse caso, o fato de o conjunto de medidas \u201csocialistas\u201d de 2007 ter sido apresentado diretamente pelo presidente n\u00e3o faz a menor diferen\u00e7a. A vota\u00e7\u00e3o no Congresso n\u00e3o passa de uma simples formalidade, uma esp\u00e9cie de debate interno ao conjunto dos partidos chavistas.<\/p>\n<p>Entretanto, apesar de toda a popularidade de Ch\u00e1vez em seu pa\u00eds e da repercuss\u00e3o internacional de suas a\u00e7\u00f5es, o seu movimento est\u00e1 longe de merecer ser chamado de socialista. As medidas anunciadas no in\u00edcio deste ano n\u00e3o s\u00e3o sequer anticapitalistas. Permanecem nos limites do velho nacionalismo burgu\u00eas. No mesmo dia em que as medidas \u201crevolucion\u00e1rias\u201d foram anunciadas, as bolsas de valores se recuperaram do susto: haver\u00e1 indeniza\u00e7\u00e3o para os acionistas das empresas nacionalizadas. Ou seja, Ch\u00e1vez n\u00e3o est\u00e1 desapropriando o imperialismo. Nacionaliza\u00e7\u00e3o com indeniza\u00e7\u00e3o \u00e9 uma medida que n\u00e3o foge \u00e0 estrita legalidade capitalista, j\u00e1 que respeita a institui\u00e7\u00e3o fundamental da propriedade privada.<\/p>\n<p>O nacionalismo burgu\u00eas ultra-tardio de Ch\u00e1vez constitui um fen\u00f4meno peculiar do capitalismo perif\u00e9rico no contexto hist\u00f3rico da crise estrutural do sistema. Na atual situa\u00e7\u00e3o de crise, determinada pela queda das taxas de lucro, aumenta a voracidade do capital e diminui a sua capacidade de oferecer melhorias \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de vida das massas. As melhorias precisam ser arrancadas com muita luta e ao custo de medidas nacionalistas como as de Ch\u00e1vez. E para al\u00e9m das simples melhorias, qualquer solu\u00e7\u00e3o definitiva exige procedimentos realmente revolucion\u00e1rios, mudan\u00e7as muito mais profundas do que aquelas anunciadas na ret\u00f3rica chavista. Entretanto, os agentes pol\u00edticos do capital, na forma dos governos imperialistas, reprimem tais atitudes como atos de banditismo.<\/p>\n<p>O caso se torna especialmente mais grave quando se trata de um pa\u00eds que, como a Venezuela, possui reservas de petr\u00f3leo que a colocam como uma das maiores produtoras mundiais dessa preciosa mercadoria. A economia atual ainda \u00e9 maci\u00e7amente dependente de petr\u00f3leo. Nada est\u00e1 sendo feito, nem mesmo a m\u00e9dio ou longo prazo, para substituir a matriz energ\u00e9tica em vigor por fontes de tipo renov\u00e1vel. Isso faz com que se desenhe um cen\u00e1rio de disputa feroz entre as pot\u00eancias imperialistas pelas reservas restantes. Mantido o atual ritmo de consumo (o qual est\u00e1 em constante expans\u00e3o devido \u00e0 recente coloniza\u00e7\u00e3o capitalista da China e da \u00cdndia), as reservas atualmente existentes devem durar por mais uma ou duas d\u00e9cadas. A inevit\u00e1vel aproxima\u00e7\u00e3o do esgotamento das reservas naturalmente finitas e a expans\u00e3o desenfreada do consumo fazem com que os pre\u00e7os do petr\u00f3leo experimentem uma tend\u00eancia irrevers\u00edvel de alta.<\/p>\n<p>A alta do pre\u00e7o do petr\u00f3leo permite a Ch\u00e1vez melhorar a assist\u00eancia social ao povo venezuelano. O centro da luta nacionalista contra a burguesia venezuelana consiste justamente na disputa pelo controle da PDVSA. A estatal era tratada como patrim\u00f4nio privado pelas fam\u00edlias aristocr\u00e1ticas do pa\u00eds. Ch\u00e1vez retomou o controle governamental sobre a empresa e passou a usar parte da renda para financiar os programas sociais. \u00c9 essa invers\u00e3o de prioridades do Estado que a burguesia venezuelana n\u00e3o perdoa. Programas de alfabetiza\u00e7\u00e3o e de assist\u00eancia m\u00e9dica s\u00e3o oferecidos a uma popula\u00e7\u00e3o pauperizada que jamais tivera um tratamento minimamente humano da parte do Estado burgu\u00eas olig\u00e1rquico, tanto na Venezuela como no restante da Am\u00e9rica Latina. Os programas sociais sustentados com a renda petroleira tornam Ch\u00e1vez eleitoralmente imbat\u00edvel, especialmente entre os pobres.<\/p>\n<p>Entretanto, isso n\u00e3o \u00e9 suficiente para romper o c\u00edrculo de mis\u00e9ria da popula\u00e7\u00e3o. A Venezuela n\u00e3o possui outros tipos de ind\u00fastrias importantes al\u00e9m do petr\u00f3leo. A burguesia venezuelana n\u00e3o possui iniciativa econ\u00f4mica pr\u00f3pria e sobrevive como uma camada parasit\u00e1ria que se alimenta da corrup\u00e7\u00e3o da PDVSA e do Estado para sustentar circuitos de consumo de luxo. Est\u00e1 mais voltada para Miami do que para o pr\u00f3prio pa\u00eds. A popula\u00e7\u00e3o pobre vive na informalidade econ\u00f4mica. No interior do pa\u00eds, camponeses s\u00e3o mortos por jagun\u00e7os a mando dos grileiros em disputas pela terra. Ao mesmo tempo, a capital Caracas, cercada por um cintur\u00e3o de favelas, continua sendo uma das cidades mais violentas do continente.<\/p>\n<p>Parte da popula\u00e7\u00e3o j\u00e1 percebeu que as medidas assistenciais s\u00e3o insuficientes para romper com a situa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica de domina\u00e7\u00e3o e mis\u00e9ria. Em muitos setores os trabalhadores venezuelanos j\u00e1 se mobilizam de forma independente do chavismo. Na greve patronal de 2003, os oper\u00e1rios da PDVSA assumiram diretamente o controle da produ\u00e7\u00e3o em v\u00e1rias instala\u00e7\u00f5es. Entretanto, cessada a greve, Ch\u00e1vez devolveu o poder aos mesmos gerentes sabotadores e corruptos expulsos pelos trabalhadores. Essa busca de atitudes conciliadoras revela a limita\u00e7\u00e3o de Ch\u00e1vez, a qual se funda em sua origem social. Como militar de origem, o dirigente venezuelano \u00e9 incapaz de romper com os limites de sua classe. O tipo de lideran\u00e7a chavista \u00e9 incapaz de desenvolver as tarefas de uma transforma\u00e7\u00e3o realmente socialista, porque n\u00e3o rompe com o respeito burgu\u00eas pela propriedade.<\/p>\n<p>Os l\u00edderes hist\u00f3ricos do nacionalismo burgu\u00eas latino-americano, como Per\u00f3n na Argentina, Jo\u00e3o Goulart no Brasil e Allende no Chile, no momento dos enfrentamentos decisivos, em que foram confrontados com a rea\u00e7\u00e3o burguesa conservadora na forma de golpes militares e interven\u00e7\u00f5es imperialistas, recusaram-se a cruzar a fronteira de classe e a desenvolver formas de poder socialistas capazes de resistir aos golpes. Recusaram-se a armar as massas, dissolver os \u00f3rg\u00e3os repressivos do Estado (For\u00e7as armadas, pol\u00edcia, judici\u00e1rio, etc.) e reconhecer os organismos de poder popular em gesta\u00e7\u00e3o. Dada a conduta conciliadora de Ch\u00e1vez diante do golpe e de outros enfrentamentos, nada leva a crer que sua postura v\u00e1 ser diferente.<\/p>\n<p>N\u00e3o existe via nacionalista burguesa para o socialismo; o nacionalismo burgu\u00eas, conforme ensina a Hist\u00f3ria, conduz \u00e0 rea\u00e7\u00e3o burguesa e ao golpe fascista. A sua fraqueza cong\u00eanita o impede de enfrentar a burguesia de modo conseq\u00fcente. A \u00fanica via para o socialismo \u00e9 a organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica independente do proletariado e a eleva\u00e7\u00e3o de sua consci\u00eancia de classe.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o fundamental \u00e9 que n\u00e3o se alterou a estrutura de classes da sociedade venezuelana. Alteraram-se t\u00e3o somente alguns aspectos da condu\u00e7\u00e3o do Estado. Falar em socialismo nesse caso n\u00e3o passa de uma grosseira mistifica\u00e7\u00e3o. Essa mistifica\u00e7\u00e3o interessa \u00e0 burguesia, que assim pode atacar Ch\u00e1vez pelo que ele n\u00e3o \u00e9 e impedir que os trabalhadores se diferenciem dele pelo que de fato \u00e9. E a mistifica\u00e7\u00e3o interessa tamb\u00e9m ao pr\u00f3prio Ch\u00e1vez, que pode assim neutralizar a esquerda socialista venezuelana e imunizar-se de cr\u00edticas da esquerda internacional.<\/p>\n<p>Ao anunciar suas medidas nacionalistas-burguesas como se fossem \u201csocialistas\u201d, Ch\u00e1vez coloca a esquerda venezuelana e latino-americana numa esp\u00e9cie de \u201carmadilha\u201d. Todos os socialistas ficam \u201cobrigados\u201d a lhe dar apoio contra a rea\u00e7\u00e3o conservadora, e nesse ato de apoio correm o risco de perder a perspectiva da necessidade da a\u00e7\u00e3o e da organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica independente da classe trabalhadora.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso sair dessa armadilha e dizer as coisas claramente: Ch\u00e1vez \u00e9 inimigo dos trabalhadores, na medida em que mant\u00e9m o Estado como instrumento do poder de classe da burguesia, de garantia da propriedade privada, da explora\u00e7\u00e3o capitalista, da extra\u00e7\u00e3o de mais-valia, e de todas as formas de opress\u00e3o. Ainda que a burguesia odeie ferozmente Chavez, a \u00fanica coisa que este lhe tirou foi parte da renda da PDVSA. O \u201crevolucion\u00e1rio\u201d bolivariano nem sequer reconheceu o controle dos oper\u00e1rios sobre a produ\u00e7\u00e3o, devolvendo a empresa aos sabotadores, como vimos.<\/p>\n<p>Os socialistas devem sim marchar lado a lado com os bolivarianos e chavistas, ajudando a organizar o povo venezuelano contra a rea\u00e7\u00e3o burguesa e imperialista, mas sem jamais abrir m\u00e3o da independ\u00eancia pol\u00edtico-organizativa e de um programa socialista e revolucion\u00e1rio.<\/p>\n<p>A independ\u00eancia de classe dos trabalhadores se expressa pela constru\u00e7\u00e3o de organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e organismos de luta aut\u00f4nomos. Essas s\u00e3o as \u00fanicas condi\u00e7\u00f5es em que se pode realmente construir o socialismo. Os trabalhadores devem lutar por seu pr\u00f3prio programa e sustentar essa luta com suas pr\u00f3prias for\u00e7as. Jamais se pode acreditar que algum dirigente burgu\u00eas ir\u00e1 realizar as tarefas da transforma\u00e7\u00e3o socialista. A capitula\u00e7\u00e3o da esquerda a governos burgueses, sejam eles \u201cradicais\u201d como Ch\u00e1vez ou \u201cmoderados\u201d como Lula s\u00f3 pode resultar em derrotas e trag\u00e9dias, como j\u00e1 demonstrou a Hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 outra sa\u00edda para os trabalhadores, tanto na Venezuela como no restante da Am\u00e9rica Latina e no mundo, a n\u00e3o ser desenvolver suas a\u00e7\u00f5es e sua organiza\u00e7\u00e3o de forma independente dos governos de plant\u00e3o, mesmo em se tratando de governos de perfil aparentemente nacionalista e popular. O socialismo somente pode ser constru\u00eddo por meio da organiza\u00e7\u00e3o dos pr\u00f3prios trabalhadores. As formas de organiza\u00e7\u00e3o desenvolvidas para a luta, como os comandos de greve, conselhos por local de trabalho, c\u00edrculos oper\u00e1rios, organiza\u00e7\u00f5es de bairro, conselhos populares, etc., s\u00e3o a base para as formas de gest\u00e3o da futura sociedade socialista. O socialismo somente pode ser constru\u00eddo de maneira sustent\u00e1vel por meio de organiza\u00e7\u00f5es materialmente enraizadas, ideologicamente coesas e politicamente independentes. Jamais ser\u00e1 concedido por decreto de uma lideran\u00e7a esclarecida, por mais aparentemente determinada e bem-intencionada que seja.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/?p=1068#indice\">\u25b2 voltar ao \u00edndice<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a name=\"titulo7\"><\/a><\/p>\n<div>\n<h1>Socorram-me: subi no \u00f4nibus em Marrocos &#8211; Cr\u00edtica do Filme Babel<\/h1>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: right;\" align=\"center\">Daniel M. Delfino<\/p>\n<p>\u00a0Babel \u00e9 o nome da torre cuja malfadada constru\u00e7\u00e3o est\u00e1 narrada na B\u00edblia, no livro do G\u00eanesis (cap. 11:2-9). Os homens tentaram construir uma torre alta o suficiente para alcan\u00e7ar o c\u00e9u. Mas Deus ficou irritado com a prepot\u00eancia de suas criaturas, por terem a ousadia de querer alcan\u00e7ar seus dom\u00ednios. Para impedir que isso acontecesse, Ele confundiu suas l\u00ednguas, para que n\u00e3o pudessem mais se entender (at\u00e9 aquele momento, todos na Terra falavam o mesmo idioma).<\/p>\n<p>Essa explica\u00e7\u00e3o mitol\u00f3gica da B\u00edblia para a origem das diferentes l\u00ednguas cont\u00e9m a admiss\u00e3o invertida de uma premissa dotada de importantes implica\u00e7\u00f5es antropol\u00f3gicas: se todos os homens falassem a mesma l\u00edngua, seriam realmente capazes de alcan\u00e7ar o c\u00e9u. Os homens se tornariam iguais a Deus, senhores do mundo. Essa id\u00e9ia repugna o pensamento religioso, que considera qualquer castigo divino bastante adequado para a inadmiss\u00edvel arrog\u00e2ncia de querer igualar-se a Deus. Esconde-se a\u00ed o segredo de toda a religi\u00e3o: a submiss\u00e3o humana. A tentativa de construir a torre foi um gesto promet\u00e9ico esmagado pela Hist\u00f3ria, em nome de Deus.<\/p>\n<p>Para quem n\u00e3o se contenta com a submiss\u00e3o, mas pelo contr\u00e1rio, luta pela emancipa\u00e7\u00e3o humana, a possibilidade de que todos os homens se entendam se coloca como uma necessidade crucial. A possibilidade de uma real comunica\u00e7\u00e3o \u00e9 fundamental para que os homens se tornem senhores de suas vidas e deixem de se submeter \u00e0s pot\u00eancias alienadas da religi\u00e3o, do moralismo, dos costumes, da ci\u00eancia tecnicista, do mercado, do Estado, etc., construindo formas de rela\u00e7\u00f5es autenticamente humanas.<\/p>\n<p>Qual \u00e9 o obst\u00e1culo que impede a comunica\u00e7\u00e3o entre os seres humanos no presente, no nosso mundo real?<\/p>\n<p>O filme \u201cBabel\u201d nos mostra alguns desses obst\u00e1culos. Ao trazer \u00e0 discuss\u00e3o o epis\u00f3dio b\u00edblico, atrav\u00e9s da pr\u00f3pria escolha desse t\u00edtulo, os realizadores do filme prop\u00f5em a tese de que vivemos hoje em nosso mundo numa esp\u00e9cie de Babel de l\u00ednguas confusas, e que por isso os homens n\u00e3o se entendem e s\u00e3o infelizes.<\/p>\n<p>Para provar essa tese, \u201cBabel\u201d nos mostra uma s\u00e9rie de epis\u00f3dios em que os mal-entendidos originam situa\u00e7\u00f5es tr\u00e1gicas e pat\u00e9ticas. As trag\u00e9dias poderiam talvez ser evitadas ou minoradas se os homens se conhecessem e fossem capazes de se entender, \u00e9 nisso que acreditam seus realizadores. Nesse sentido, \u201cBabel\u201d cumpre um papel importante como obra de arte na tarefa de ajudar a dissolver os empecilhos para a compreens\u00e3o m\u00fatua no nosso mundo.<\/p>\n<p>\u201cBabel\u201d se comp\u00f5e de quatro hist\u00f3rias diferentes, que se passam em tr\u00eas pa\u00edses, Marrocos, M\u00e9xico e Jap\u00e3o, em linhas de tempo ligeiramente deslocadas umas das outras. A conex\u00e3o entre as diferentes hist\u00f3rias \u00e9 acidental, improv\u00e1vel e quase absurda. O absurdo das situa\u00e7\u00f5es extraordin\u00e1rias retratadas situa-se perigosamente bastante pr\u00f3ximo da \u201cnormalidade\u201d do cotidiano. A normalidade est\u00e1 por um fio. Basta que os indiv\u00edduos se desviem um pouco da sua rotina para esbarrar nos improv\u00e1veis e absurdos eventos presenciados.<\/p>\n<p>No interior do Marrocos, dois filhos de um pastor de cabras brincam de tiro ao alvo com o rifle do pai, atirando contra um \u00f4nibus. Essa irresponsabilidade ter\u00e1 conseq\u00fc\u00eancias homicidas. O tiro acerta uma turista estadunidense, transformando a viagem num pesadelo para o marido, desesperado para encontrar formas de socorr\u00ea-la naquele lugar prec\u00e1rio. Ao mesmo tempo, a bab\u00e1 mexicana que cuida dos filhos do casal nos Estados Unidos comete a pequena irresponsabilidade de levar consigo as crian\u00e7as para uma escapada at\u00e9 o M\u00e9xico, para ir \u00e0 festa de casamento de seu filho. Na volta, o sobrinho que dirigia o carro, num arroubo de macheza latina, tenta fugir do arb\u00edtrio e do autoritarismo da pol\u00edcia no posto de controle da fronteira, transformando o passeio festivo num pesadelo no deserto. Enquanto isso, a investiga\u00e7\u00e3o sobre a turista estadunidense alvejada no Marrocos vai parar no Jap\u00e3o, onde se descobre que o rifle usado no suposto \u201catentado\u201d pertenceu a um ca\u00e7ador amador que deixou a arma de presente para o guia de seu \u00faltimo saf\u00e1ri, que por sua vez o revendeu para o pastor de cabras. O japon\u00eas se torna suspeito de contrabando internacional de armas. A pol\u00edcia o encontra atrav\u00e9s de sua filha surda-muda, que tenta entregar-se sexualmente para o policial, no auge do seu desespero por n\u00e3o ter um namorado, que, por fim, a levar\u00e1 \u00e0 beira do suic\u00eddio.<\/p>\n<p>Descritos assim de forma linear como no par\u00e1grafo acima, os acontecimentos n\u00e3o possuem a menor l\u00f3gica. Expostos na tela do cinema, na devida (des)ordem temporal do encadeamento das cenas, esses mesmos acontecimentos readquirem a nossos olhos a estranha plausibilidade do real. Ao presenciarmos os epis\u00f3dios de \u201cBabel\u201d, identificamos claramente o nosso mundo real e seus absurdos. O real \u00e9 indiz\u00edvel, imposs\u00edvel de ser totalmente contido em simples e toscas palavras, mas \u00e9 ilustr\u00e1vel, pass\u00edvel de ser exibido e entendido em pel\u00edcula de cinema.<\/p>\n<p>A arte \u00e9 o terreno em que se pode construir a unidade entre os homens separados por l\u00ednguas, costumes e culturas. \u201cBabel\u201d acrescenta mais um tijolo na promet\u00e9ica torre de Babel da compreens\u00e3o m\u00fatua que precisamos construir para superar nossa aliena\u00e7\u00e3o. Entretanto, seus realizadores, como os dois garotos marroquinos, atiram no que v\u00eaem para acertar no que n\u00e3o v\u00eaem. Ao colocar em discuss\u00e3o a incomunicabilidade humana sob o aspecto das diferen\u00e7as ling\u00fc\u00edsticas e culturais, aspecto destacado na pr\u00f3pria escolha do t\u00edtulo, os autores de \u201cBabel\u201d revelam inadvertidamente algumas das verdadeiras causas dessa incomunicabilidade: as rela\u00e7\u00f5es de poder.<\/p>\n<p>O que impede a real compreens\u00e3o entre os homens e perpetua os conflitos n\u00e3o \u00e9 a diferen\u00e7a ling\u00fc\u00edstica e cultural, mas as diferen\u00e7as de classe. A divis\u00e3o de classes se reproduz sobre a base de rela\u00e7\u00f5es materiais de for\u00e7a, que exigem precisamente a incomunicabilidade como corol\u00e1rio. A incomunicabilidade se expressa sob a forma de narrativas pr\u00e9-concebidas, ideologicamente moldadas para instrumentalizar o confronto necessariamente hostil com o diferente e viabilizar seu controle pela for\u00e7a. Uma dessas narrativas pr\u00e9-concebidas \u00e9 aquela que diz que os povos \u00e1rabes s\u00e3o terroristas. Logo, se uma turista estadunidense leva um tiro no Marrocos, isso s\u00f3 pode ser um ato terrorista. Outra narrativa diz que os mexicanos s\u00e3o vagabundos, b\u00eabados, viciados, bandidos, que entram nos Estados Unidos para roubar empregos e cometer crimes. Logo, se um jovem e uma senhora mexicanos levam duas crian\u00e7as loiras no banco de tr\u00e1s, isso s\u00f3 pode ser um seq\u00fcestro.<\/p>\n<p>As rela\u00e7\u00f5es de classe vigentes transformam ideologicamente os povos subalternos em terroristas e seq\u00fcestradores, legitimando a violenta repress\u00e3o de que s\u00e3o v\u00edtimas. A brutalidade da pol\u00edcia marroquina contra seu pr\u00f3prio povo, a atitude de atirar primeiro e perguntar depois, explicita a fun\u00e7\u00e3o do Estado burgu\u00eas perif\u00e9rico: subjugar a popula\u00e7\u00e3o local em nome da necessidade de cumprir obedientemente o que dele espera a \u201ccomunidade internacional\u201d, ou seja, os Estados Unidos. A presteza da pol\u00edcia japonesa em localizar a origem da arma do crime se justifica pelo mesmo motivo. Essa \u00e9 a raiz de todos os mal-entendidos expostos.<\/p>\n<p>Os cidad\u00e3os dos Estados Unidos ocupam a posi\u00e7\u00e3o praticamente incontestada de protagonistas do drama mundial, e o fazem em grande parte gra\u00e7as ao poder do cinema. Gra\u00e7as ao cinema estadunidense, as plat\u00e9ias do mundo inteiro se acostumaram a rir do que eles riem, se assustar com o que se assustam, odiar o que odeiam, chorar pelo que choram, sentir o que eles sentem. Os estadunidenses s\u00e3o os her\u00f3is, a as plat\u00e9ias se identificam com eles, torcem por eles, querem ser como eles. S\u00e3o eles que contam, suas vidas s\u00e3o as \u00fanicas que importam.<\/p>\n<p>A televis\u00e3o nos informa que a hist\u00f3ria da turista alvejada no Marrocos teve um \u201cfinal feliz\u201d: a mulher estadunidense acabou n\u00e3o morrendo. Final feliz para quem, cara p\u00e1lida? E quanto ao garoto marroquino que foi morto num tiroteio no momento em que tentava escapar da pol\u00edcia com seu irm\u00e3o e seu pai? E o que far\u00e1 com eles a pol\u00edcia marroquina, bem como a pol\u00edcia estadunidense com o jovem mexicano que fugiu, e a bab\u00e1 mexicana que foi deportada, etc. O que acontece com eles? Onde est\u00e1 o final feliz? Ora, s\u00e3o coadjuvantes, e o que acontece com eles n\u00e3o importa. \u00c9 \u201csecund\u00e1rio\u201d. Tudo o que importa s\u00e3o os \u201cprotagonistas\u201d, j\u00e1 que os astros Brad Pitt e Cate Blanchet est\u00e3o na sua pele e fornecem com sua simples presen\u00e7a estelar a raz\u00e3o para que a maior parte do p\u00fablico v\u00e1 ao cinema.<\/p>\n<p>\u201cBabel\u201d acerta ao mostrar o ponto de vista desses \u201ccoadjuvantes\u201d. Mas aparentemente erra ao supor que o problema das diferen\u00e7as humanas est\u00e1 na incomunicabilidade ling\u00fc\u00edstica; suposi\u00e7\u00e3o expressa na refer\u00eancia que o t\u00edtulo traz ao epis\u00f3dio b\u00edblico da confus\u00e3o das l\u00ednguas. As l\u00ednguas s\u00e3o conven\u00e7\u00f5es criadas arbitrariamente e desenvolvidas pelo uso e pelo costume. \u00c9 para real\u00e7ar o car\u00e1ter acidental e arbitr\u00e1rio das diferen\u00e7as ling\u00fc\u00edsticas que escolhemos o maior pal\u00edndromo da l\u00edngua portuguesa para o t\u00edtulo desse coment\u00e1rio.<\/p>\n<p>Lida ao contr\u00e1rio, a frase \u201csocorram me subi no \u00f4nibus em Marrocos\u201d diz a mesma coisa do que diz no sentido normal. O significado de \u201cBabel\u201d n\u00e3o est\u00e1 nessa bizarra coincid\u00eancia, que n\u00e3o \u00e9 mesmo mais do que simples coincid\u00eancia. O significado do filme \u00e9 a ilustra\u00e7\u00e3o de alguns exemplos das barreiras que separam os homens. Mais do que incomunicabilidade ling\u00fc\u00edstica formal, o problema da humanidade est\u00e1 na incomunicabilidade substancial socialmente criada.<\/p>\n<p>Pessoas que falam uma mesma l\u00edngua podem muito bem n\u00e3o se entender. O que o casal estadunidense estava fazendo no Marrocos, em primeiro lugar? O deslocamento espacial n\u00e3o os ajudou a superar a dist\u00e2ncia que imperava em seu casamento, devido \u00e0 perda de um filho que ambos n\u00e3o haviam encontrado meios de elaborar e assimilar psicologicamente em conjunto.<\/p>\n<p>E o que dizer da garota japonesa surda-muda? A sua incomunicabilidade com o pai, com o policial, com os jovens do sexo oposto, n\u00e3o est\u00e1 em sua defici\u00eancia auditiva e expressiva, mas na impossibilidade de enunciar um conte\u00fado que a sociedade japonesa n\u00e3o admite como comunic\u00e1vel: a necessidade sexual das mulheres. Eis um conte\u00fado que nenhuma sociedade, seja ocidental ou oriental, elaborou adequadamente. Que o digam um dos garotos marroquinos e a irm\u00e3 com seu jogo er\u00f3tico adolescente.<\/p>\n<p>Desde as rela\u00e7\u00f5es de poder internacionais at\u00e9 as opress\u00f5es moralistas mais sutis s\u00e3o aqui dissecadas. Esse epis\u00f3dio far\u00e1 o jovem e precoce Youssef tornar-se adulto antes do tempo e assumir toda a responsabilidade, inclusive pela morte do irm\u00e3o. N\u00e3o seria nenhuma surpresa se ele se transformasse naquilo que os guardi\u00f5es da ordem chamam impropriamente de \u201cterrorista\u201d, mas que seria mais adequado chamar de revolucion\u00e1rio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nome original: \u201cBabel\u201d<\/p>\n<p>Produ\u00e7\u00e3o: Estados Unidos\/M\u00e9xico<\/p>\n<p>Ano: 2006<\/p>\n<p>Idiomas: Ingl\u00eas, Espanhol, Franc\u00eas, Japon\u00eas, B\u00e9rbere e \u00c1rabe<\/p>\n<p>Diretor: Alejandro Gonz\u00e1lez I\u00f1\u00e1rritu<\/p>\n<p>Roteiro: Guillermo Arriaga<\/p>\n<p>Elenco: Brad Pitt, Cate Blanchet, Gael Garc\u00eda Bernal, Adriana Barraza, Rinko Kikuchi<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/?p=1068#indice\">\u25b2 voltar ao \u00edndice<\/a><\/p>\n<div>\n<h1><\/h1>\n<h1><a name=\"titulo8\"><\/a><\/h1>\n<h1>Mo\u00e7\u00e3o de Rep\u00fadio contra a Pris\u00e3o de Marcelo Buzetto<\/h1>\n<\/div>\n<p>Ataques t\u00edpicos de um governo burgu\u00eas s\u00e3o desferidos contra os lutadores, enquanto os assassinos de sem-terras e outros lutadores continuam livres e impunes. Esta \u00e9 a justi\u00e7a do Estado Burgu\u00eas, esta \u00e9 a justi\u00e7a do Governo Lula.<\/p>\n<p>Esta afirma\u00e7\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel quando analisamos os atuais aliados de Lula e suas a\u00e7\u00f5es no governo, p.e. sua rela\u00e7\u00e3o com Blairo Maggi, governador reeleito do Mato Grosso, considerado o maior produtor individual de soja transg\u00eanica do mundo. E a libera\u00e7\u00e3o da soja transg\u00eanica, mais um dos ataques deste governo dito de esquerda \u00e0 economia familiar, ao MST e \u00e0 economia sustent\u00e1vel, capitulando aos interesses do agrobusiness, da UDR, das multinacionais dos agrot\u00f3xicos e das sementes transg\u00eanicas.<\/p>\n<p>Existem atualmente cerca de 200 militantes dos movimentos sociais presos, v\u00edtimas de persegui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, numa clara tentativa de intimidar os movimentos sociais e frear a sua luta.<\/p>\n<p>Como parte desses ataques, foi preso no \u00faltimo dia 19 de janeiro o companheiro Marcelo Buzetto. Diante disso, queremos expressar nosso rep\u00fadio \u00e0 pris\u00e3o ao companheiro Marcelo, e nossa solidariedade ao mesmo.<\/p>\n<p>Conclamamos \u00e0 todos os lutadores que se somem ao Comit\u00ea Pela Liberta\u00e7\u00e3o dos Presos Pol\u00edticos do MST.<\/p>\n<p>&#8211; Liberdade para Marcelo Buzetto.<\/p>\n<p>&#8211; Liberdade para todos os militantes dos movimentos sociais presos, v\u00edtimas de persegui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p>&#8211; Pris\u00e3o para todos que atentam contra a vida dos trabalhadores.<\/p>\n<p>&#8211; Pris\u00e3o para os criminosos do latif\u00fandio.<\/p>\n<p>&#8211; Extin\u00e7\u00e3o das mil\u00edcias armadas, financiadas e mantidas pelo latif\u00fandio.<\/p>\n<p>&#8211; Reforma Agr\u00e1ria e Urbana sob o controle dos trabalhadores.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Espa\u00e7o Socialista, 28\/01\/2007.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/?p=1068#indice\">\u25b2 voltar ao \u00edndice<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Leia as mat\u00e9rias online: Unidade na luta contra o PAC e as Reformas A luta das mulheres Por um movimento<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[99],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1068"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1068"}],"version-history":[{"count":14,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1068\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2362,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1068\/revisions\/2362"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1068"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1068"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1068"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}