{"id":124,"date":"2009-01-03T17:49:56","date_gmt":"2009-01-03T17:49:56","guid":{"rendered":"http:\/\/espacosocialista.org\/?q=node\/124"},"modified":"2018-05-04T21:46:23","modified_gmt":"2018-05-05T00:46:23","slug":"chavez-e-o-socialismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/2009\/01\/chavez-e-o-socialismo\/","title":{"rendered":"Chavez e o Socialismo"},"content":{"rendered":"<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 14.2pt;\"><span style=\"font-size: 11pt; font-family: Arial;\">Ao iniciar seu segundo mandato como presidente da Venezuela, em janeiro de 2007, o coronel Hugo <span class=\"SpellE\">Ch\u00e1vez<\/span> anunciou um pacote de medidas que segundo ele estariam lan\u00e7ando seu pa\u00eds no rumo do \u201csocialismo do s\u00e9culo XXI\u201d.<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 14.2pt;\"><span style=\"font-size: 11pt; font-family: Arial;\">Entre essas medidas, <span class=\"GramE\">estariam a nacionaliza\u00e7\u00e3o de empresas de setores estrat\u00e9gicos<\/span>, como os de telefonia e energia el\u00e9trica (inclusive algumas de propriedade da estadunidense AES, dona da Eletropaulo no Brasil), o fim de algumas parcerias da estatal venezuelana de petr\u00f3leo PDVSA com grupos estrangeiros, a revoga\u00e7\u00e3o da autonomia do Banco Central, a cassa\u00e7\u00e3o da concess\u00e3o de uma das emissoras de TV que apoiaram ativamente o golpe de 2002, a mudan\u00e7a da estrutura administrativa, com a substitui\u00e7\u00e3o das prefeituras por conselhos locais, e a troca do pr\u00f3prio nome oficial do pa\u00eds para \u201cRep\u00fablica Socialista da Venezuela\u201d. Esse pacote \u201csocialista\u201d de <span class=\"SpellE\">Ch\u00e1vez<\/span> foi lan\u00e7ado por iniciativa presidencial, por fora do Congresso Nacional venezuelano.<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 14.2pt;\"><span style=\"font-size: 11pt; font-family: Arial;\">Imediatamente, desencadeou-se a rea\u00e7\u00e3o da imprensa burguesa em todo o mundo, inclusive no Brasil. O caso foi tratado como esc\u00e2ndalo nas manchetes de jornal e nos editoriais raivosos dos bem-pensantes guardi\u00f5es da ordem. O l\u00edder venezuelano foi acusado de dinossauro, retr\u00f3grado, tirano, ditador, inimigo da democracia, etc., al\u00e9m de ser lembrado como amigo do \u201clouco\u201d e \u201cterrorista\u201d presidente do Ir\u00e3 <span class=\"SpellE\">Ahmadinejad<\/span>, amigo de Fidel Castro, etc.<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 14.2pt;\"><span style=\"font-size: 11pt; font-family: Arial;\">Os jornalistas da grande imprensa, como bons mercen\u00e1rios a servi\u00e7o do capital, est\u00e3o sempre atentos e vigilantes, prontos para condenar ao fogo do inferno qualquer ato que desagrade minimamente o mercado. Os lacaios letrados da burguesia exercem uma marca\u00e7\u00e3o cerrada sobre quaisquer iniciativas de soberania dos povos, por mais insignificantes que sejam, condenando-as de sa\u00edda e impedindo que sejam entendidas e debatidas. Por meio da interdi\u00e7\u00e3o do debate, estabelece-se um monop\u00f3lio da opini\u00e3o, atrav\u00e9s do qual a discuss\u00e3o sobre qualquer quest\u00e3o se transforma em um mon\u00f3logo no qual apenas os detentores do poder podem se expressar. Uma vez que o pensamento \u00fanico neoliberal n\u00e3o pode jamais ser contestado, segue-se automaticamente a ladainha de que o consenso de Washington deve ser obedecido \u00e0 risca, o capitalismo \u00e9 o \u00fanico horizonte poss\u00edvel de liberdade e felicidade humana, etc. Toda e qualquer possibilidade de alternativa deve ser descartada em nome da obedi\u00eancia aos interesses do capital.<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 14.2pt;\"><span style=\"font-size: 11pt; font-family: Arial;\">Id\u00e9ias como socialismo, nacionalismo, soberania, latino-americanismo, precisam ser banidas do discurso, como se <span class=\"SpellE\">se<\/span> tratasse de horrendos palavr\u00f5es, blasf\u00eamias e sacril\u00e9gios. A den\u00fancia do imperialismo, da domina\u00e7\u00e3o estrangeira, da espolia\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses, do massacre sobre os povos, \u00e9 tratada com desd\u00e9m, como se fosse uma \u201cquest\u00e3o superada\u201d, agora que todos supostamente usufruem as \u201cbenesses\u201d da \u201cglobaliza\u00e7\u00e3o\u201d. Nenhum pa\u00eds pode jamais ousar buscar um caminho pr\u00f3prio para tentar resolver os problemas de sua popula\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 14.2pt;\"><span style=\"font-size: 11pt; font-family: Arial;\">Evidentemente, existe um grande exagero de ambas as partes, que impede a compreens\u00e3o exata do que est\u00e1 se passando. Nem o pacote de <span class=\"SpellE\">Ch\u00e1vez<\/span> \u00e9 de fato socialista, e nem a m\u00eddia burguesa tem o direito de conden\u00e1-lo. A campanha da m\u00eddia contra <span class=\"SpellE\">Ch\u00e1vez<\/span> busca isol\u00e1-lo como fonte de uma esp\u00e9cie de amea\u00e7a \u201cpopulista\u201d e \u201cantidemocr\u00e1tica\u201d que estaria contaminando <span class=\"GramE\">a Am\u00e9rica Latina, colocando em cheque<\/span> a \u201cestabilidade\u201d da economia de mercado, cujo funcionamento \u201charmonioso\u201d \u00e9 a \u00fanica garantia de \u201cpaz e prosperidade\u201d.<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 14.2pt;\"><span style=\"font-size: 11pt; font-family: Arial;\">O exemplo de <span class=\"SpellE\">Ch\u00e1vez<\/span> est\u00e1 sendo seguido por <span class=\"SpellE\">Evo<\/span> Morales na Bol\u00edvia, e j\u00e1 foram anunciados passos semelhantes por parte de Rafael Correa no Equador (entre esses passos o n\u00e3o pagamento dos juros da d\u00edvida externa) e Daniel Ortega na Nicar\u00e1gua. Al\u00e9m disso, as parcerias do governo venezuelano com Cuba t\u00eam servido para revitalizar o regime de Fidel. Como se tudo isso n\u00e3o bastasse, o l\u00edder venezuelano estaria exercendo uma discreta press\u00e3o sobre o restante dos governos ditos \u201cde <span class=\"GramE\">esquerda\u201d no continente, como o<\/span> de Lula no Brasil, <span class=\"SpellE\">Kirchner<\/span> na Argentina (que acaba de admitir a fal\u00eancia do modelo de previd\u00eancia privada), <span class=\"SpellE\">Tabar\u00e9<\/span> Vasquez no Uruguai e Michele <span class=\"SpellE\">Bachelet<\/span> no Chile. Esses governantes de perfil mais \u201cmoderado\u201d, que na verdade s\u00e3o alunos aplicados do modelo neoliberal, sofrem algum constrangimento na compara\u00e7\u00e3o com o \u201cradical\u201d <span class=\"SpellE\">Chavez<\/span>. O exemplo venezuelano mostra que h\u00e1 outros caminhos para os pa\u00edses latino-americanos, e essa demonstra\u00e7\u00e3o \u00e9 perigosa porque invalida na pr\u00e1tica a tese de que \u201cn\u00e3o h\u00e1 alternativa\u201d \u00e0 pol\u00edtica econ\u00f4mica ortodoxa aplicada em tais pa\u00edses.<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 14.2pt;\"><span style=\"font-size: 11pt; font-family: Arial;\">Desenvolve-se uma esp\u00e9cie de disputa subterr\u00e2nea entre essas duas vertentes da \u201cesquerda\u201d governante latino-americana. Do ponto de vista do capital, \u00e9 absolutamente crucial que os governantes amig\u00e1veis ao mercado, como Lula e os demais, sejam os vencedores da disputa. Lula deve aparecer como a \u00fanica vers\u00e3o de \u201cesquerda\u201d poss\u00edvel. Para isso, <span class=\"SpellE\">Ch\u00e1vez<\/span> deve ser devidamente <span class=\"SpellE\">demonizado<\/span>, suas id\u00e9ias devem aparecer como absurdas, seus planos invi\u00e1veis, sua revolu\u00e7\u00e3o <span class=\"SpellE\">bolivariana<\/span> uma aventura irrespons\u00e1vel.<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 14.2pt;\"><span style=\"font-size: 11pt; font-family: Arial;\">O fato de que o conjunto de medidas tenha sido anunciado diretamente pelo Presidente e n\u00e3o pelo Congresso \u00e9 apresentado como evid\u00eancia de um suposto pendor ditatorial de <span class=\"SpellE\">Ch\u00e1vez<\/span>. Convenientemente, a hipocrisia burguesa esquece que, desde sua primeira elei\u00e7\u00e3o em 1998, <span class=\"SpellE\">Ch\u00e1vez<\/span> j\u00e1 venceu de maneira esmagadora mais de meia d\u00fazia de vota\u00e7\u00f5es, entre elei\u00e7\u00f5es, plebiscitos e referendos. Al\u00e9m disso, foi v\u00edtima de um golpe de Estado em 2002, tendo sido reconduzido ao poder pela mobiliza\u00e7\u00e3o maci\u00e7a das massas populares. Mais de um milh\u00e3o de venezuelanos cercou o pal\u00e1cio presidencial, exigindo o retorno do presidente democraticamente eleito. Depois de reempossado, <span class=\"SpellE\">Chavez<\/span> n\u00e3o reprimiu os golpistas, e somente agora em 2007 cassou a concess\u00e3o de uma \u00fanica das v\u00e1rias emissoras de TV que constru\u00edram o golpe. Ainda assim, acusam-no de antidemocr\u00e1tico.<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 14.2pt;\"><span style=\"font-size: 11pt; font-family: Arial;\">A quase unanimidade que <span class=\"SpellE\">Ch\u00e1vez<\/span> conseguiu em seu pa\u00eds est\u00e1 entalada na garganta da burguesia latino-americana, que n\u00e3o se cansa de buscar pretextos os mais absurdos para deslegitim\u00e1-lo. No que se refere ao caso do pacote \u201csocialista\u201d em quest\u00e3o, o Congresso venezuelano \u00e9 composto exclusivamente por parlamentares de partidos <span class=\"SpellE\">chavistas<\/span>. E foram os pr\u00f3prios partidos rivais que desistiram de participar das \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es legislativas. Nesse caso, o fato de o conjunto de medidas \u201csocialistas\u201d de 2007 ter sido apresentado diretamente pelo presidente n\u00e3o faz a menor diferen\u00e7a. A vota\u00e7\u00e3o no Congresso n\u00e3o passa de uma simples formalidade, uma esp\u00e9cie de debate interno ao conjunto dos partidos <span class=\"SpellE\">chavistas<\/span>.<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 14.2pt;\"><span style=\"font-size: 11pt; font-family: Arial;\">Entretanto, apesar de toda a popularidade de <span class=\"SpellE\">Ch\u00e1vez<\/span> em seu pa\u00eds e da repercuss\u00e3o internacional de suas a\u00e7\u00f5es, o seu movimento est\u00e1 longe de merecer ser chamado de socialista. As medidas anunciadas no in\u00edcio deste ano n\u00e3o s\u00e3o sequer <span class=\"SpellE\">anticapitalistas<\/span>. Permanecem nos limites do velho nacionalismo burgu\u00eas. No mesmo dia em que as medidas \u201crevolucion\u00e1rias\u201d foram anunciadas, as bolsas de valores se recuperaram do susto: haver\u00e1 indeniza\u00e7\u00e3o para os acionistas das empresas nacionalizadas. Ou seja, <span class=\"SpellE\">Ch\u00e1vez<\/span> n\u00e3o est\u00e1 desapropriando o imperialismo. Nacionaliza\u00e7\u00e3o com indeniza\u00e7\u00e3o \u00e9 uma medida que n\u00e3o foge \u00e0 estrita legalidade capitalista, j\u00e1 que respeita a institui\u00e7\u00e3o fundamental da propriedade privada.<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 14.2pt;\"><span style=\"font-size: 11pt; font-family: Arial;\">O nacionalismo burgu\u00eas <span class=\"GramE\">ultra-tardio<\/span> de <span class=\"SpellE\">Ch\u00e1vez<\/span> constitui um fen\u00f4meno peculiar do capitalismo perif\u00e9rico no contexto hist\u00f3rico da crise estrutural do sistema. Na atual situa\u00e7\u00e3o de crise, determinada pela queda das taxas de lucro, aumenta a voracidade do capital e diminui a sua capacidade de oferecer melhorias \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de vida das massas. As melhorias precisam ser arrancadas com muita luta e ao custo de medidas nacionalistas como as de <span class=\"SpellE\">Ch\u00e1vez<\/span>. E para al\u00e9m das simples melhorias, qualquer solu\u00e7\u00e3o definitiva exige procedimentos realmente revolucion\u00e1rios, mudan\u00e7as muito mais profundas do que aquelas anunciadas na ret\u00f3rica <span class=\"SpellE\">chavista<\/span>. Entretanto, os agentes pol\u00edticos do capital, na forma dos governos imperialistas, reprimem tais atitudes como atos de banditismo.<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 14.2pt;\"><span style=\"font-size: 11pt; font-family: Arial;\">O caso se torna especialmente mais grave quando se trata de um pa\u00eds que, como a Venezuela, possui reservas de petr\u00f3leo que a colocam como uma das maiores produtoras mundiais dessa preciosa mercadoria. A economia atual ainda \u00e9 maci\u00e7amente dependente de petr\u00f3leo. Nada est\u00e1 sendo feito, nem mesmo a m\u00e9dio ou longo prazo, para substituir a matriz energ\u00e9tica em vigor por fontes de tipo renov\u00e1vel. Isso faz com que se desenhe um cen\u00e1rio de disputa feroz entre as pot\u00eancias imperialistas pelas reservas restantes. Mantido o atual ritmo de consumo (o qual est\u00e1 em constante expans\u00e3o devido \u00e0 recente coloniza\u00e7\u00e3o capitalista da China e da \u00cdndia), as reservas atualmente existentes devem durar por mais uma ou duas d\u00e9cadas. A inevit\u00e1vel aproxima\u00e7\u00e3o do esgotamento das reservas naturalmente finitas e a expans\u00e3o desenfreada do consumo fazem com que os pre\u00e7os do petr\u00f3leo experimentem uma tend\u00eancia irrevers\u00edvel de alta.<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 14.2pt;\"><span style=\"font-size: 11pt; font-family: Arial;\">A alta do pre\u00e7o do petr\u00f3leo permite a <span class=\"SpellE\">Ch\u00e1vez<\/span> melhorar a assist\u00eancia social ao povo venezuelano. O centro da luta nacionalista contra a burguesia venezuelana consiste justamente na disputa pelo controle da PDVSA. A estatal era tratada como patrim\u00f4nio privado pelas fam\u00edlias aristocr\u00e1ticas do pa\u00eds. <span class=\"SpellE\">Ch\u00e1vez<\/span> retomou o controle governamental sobre a empresa e passou a usar parte da renda para financiar os programas sociais. \u00c9 essa invers\u00e3o de prioridades do Estado que a burguesia venezuelana n\u00e3o perdoa. Programas de alfabetiza\u00e7\u00e3o e de assist\u00eancia m\u00e9dica s\u00e3o oferecidos a uma popula\u00e7\u00e3o <span class=\"SpellE\">pauperizada<\/span> que jamais tivera um tratamento minimamente humano da parte do Estado burgu\u00eas olig\u00e1rquico, tanto na Venezuela como no restante da Am\u00e9rica Latina. Os programas sociais sustentados com a renda petroleira tornam <span class=\"SpellE\">Ch\u00e1vez<\/span> eleitoralmente imbat\u00edvel, especialmente entre os pobres. <\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 14.2pt;\"><span style=\"font-size: 11pt; font-family: Arial;\">Entretanto, isso n\u00e3o \u00e9 suficiente para romper o c\u00edrculo de mis\u00e9ria da popula\u00e7\u00e3o. A Venezuela n\u00e3o possui outros tipos de ind\u00fastrias importantes al\u00e9m do petr\u00f3leo. A burguesia venezuelana n\u00e3o possui iniciativa econ\u00f4mica pr\u00f3pria e sobrevive como uma camada parasit\u00e1ria que se alimenta da corrup\u00e7\u00e3o da PDVSA e do Estado para sustentar circuitos de consumo de luxo. Est\u00e1 mais voltada para Miami do que para o pr\u00f3prio pa\u00eds. A popula\u00e7\u00e3o pobre vive na informalidade econ\u00f4mica. No interior do <span class=\"GramE\">pa\u00eds, camponeses<\/span> s\u00e3o mortos por jagun\u00e7os a mando dos grileiros em disputas pela terra. Ao mesmo tempo, a capital Caracas, cercada por um cintur\u00e3o de favelas, continua sendo uma das cidades mais violentas do continente.<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 14.2pt;\"><span style=\"font-size: 11pt; font-family: Arial;\">Parte da popula\u00e7\u00e3o j\u00e1 percebeu que as medidas assistenciais s\u00e3o insuficientes para romper com a situa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica de domina\u00e7\u00e3o e mis\u00e9ria. Em muitos setores os trabalhadores venezuelanos j\u00e1 se mobilizam de forma independente do <span class=\"SpellE\">chavismo<\/span>. Na greve patronal de 2003, os oper\u00e1rios da PDVSA assumiram diretamente o controle da produ\u00e7\u00e3o em v\u00e1rias instala\u00e7\u00f5es. Entretanto, cessada a greve, <span class=\"SpellE\">Ch\u00e1vez<\/span> devolveu o poder aos mesmos gerentes sabotadores e corruptos expulsos pelos trabalhadores. Essa busca de atitudes conciliadoras revela a limita\u00e7\u00e3o de <span class=\"SpellE\">Ch\u00e1vez<\/span>, a qual se funda em sua origem social. Como militar de origem, o dirigente venezuelano \u00e9 incapaz de romper com os limites de sua classe. O tipo de lideran\u00e7a <span class=\"SpellE\">chavista<\/span> \u00e9 incapaz de desenvolver as tarefas de uma transforma\u00e7\u00e3o realmente socialista, porque n\u00e3o rompe com o respeito burgu\u00eas pela propriedade.<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 14.2pt;\"><span style=\"font-size: 11pt; font-family: Arial;\">Os l\u00edderes hist\u00f3ricos do nacionalismo burgu\u00eas latino-americano, como Per\u00f3n na Argentina, Jo\u00e3o Goulart no Brasil e <span class=\"SpellE\">Allende<\/span> no Chile, no momento dos enfrentamentos decisivos, em que foram confrontados com a rea\u00e7\u00e3o burguesa conservadora na forma de golpes militares e interven\u00e7\u00f5es imperialistas, <span class=\"GramE\">recusaram<\/span>-se a cruzar a fronteira de classe e a desenvolver formas de poder socialistas capazes de resistir aos golpes. <span class=\"GramE\">Recusaram<\/span>-se a armar as massas, dissolver os \u00f3rg\u00e3os repressivos do Estado (For\u00e7as armadas, pol\u00edcia, judici\u00e1rio, etc.) e reconhecer os organismos de poder popular em gesta\u00e7\u00e3o. Dada a conduta conciliadora de <span class=\"SpellE\">Ch\u00e1vez<\/span> diante do golpe e de outros enfrentamentos, nada leva a crer que sua postura v\u00e1 ser diferente.<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 14.2pt;\"><span style=\"font-size: 11pt; font-family: Arial;\">N\u00e3o existe via nacionalista burguesa para o socialismo; o nacionalismo burgu\u00eas, conforme ensina a Hist\u00f3ria, conduz \u00e0 rea\u00e7\u00e3o burguesa e ao golpe fascista. A sua fraqueza cong\u00eanita o impede de enfrentar a burguesia de modo conseq\u00fcente. A \u00fanica via para o socialismo \u00e9 a organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica independente do proletariado e a eleva\u00e7\u00e3o de sua consci\u00eancia de classe.<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 14.2pt;\"><span style=\"font-size: 11pt; font-family: Arial;\">A quest\u00e3o fundamental \u00e9 que n\u00e3o se alterou a estrutura de classes da sociedade venezuelana. Alteraram-se t\u00e3o somente alguns aspectos da condu\u00e7\u00e3o do Estado. Falar em socialismo nesse caso n\u00e3o passa de uma grosseira mistifica\u00e7\u00e3o. Essa mistifica\u00e7\u00e3o interessa \u00e0 burguesia, que assim pode atacar <span class=\"SpellE\">Ch\u00e1vez<\/span> pelo que ele n\u00e3o \u00e9 e impedir que os trabalhadores se diferenciem dele pelo que de fato \u00e9. E a mistifica\u00e7\u00e3o interessa tamb\u00e9m ao pr\u00f3prio <span class=\"SpellE\">Ch\u00e1vez<\/span>, que pode assim neutralizar a esquerda socialista venezuelana e imunizar-se de cr\u00edticas da esquerda internacional.<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 14.2pt;\"><span style=\"font-size: 11pt; font-family: Arial;\">Ao anunciar suas medidas <span class=\"SpellE\">nacionalistas-burguesas<\/span> como se fossem \u201csocialistas\u201d, <span class=\"SpellE\">Ch\u00e1vez<\/span> coloca a esquerda venezuelana e latino-americana numa esp\u00e9cie de \u201carmadilha\u201d. Todos os socialistas ficam \u201cobrigados\u201d a lhe dar apoio contra a rea\u00e7\u00e3o conservadora, e nesse ato de apoio <span class=\"GramE\">correm o risco de perder a perspectiva da necessidade da a\u00e7\u00e3o e da organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica independente da classe trabalhadora<\/span>. <\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 14.2pt;\"><span style=\"font-size: 11pt; font-family: Arial;\">\u00c9 preciso sair dessa armadilha e dizer as coisas claramente: <span class=\"SpellE\">Ch\u00e1vez<\/span> \u00e9 inimigo dos trabalhadores, na medida em que mant\u00e9m o Estado como instrumento do poder de classe da burguesia, de garantia da propriedade privada, da explora\u00e7\u00e3o capitalista, da extra\u00e7\u00e3o de mais-valia, e de todas as formas de opress\u00e3o. Ainda que a burguesia odeie ferozmente <span class=\"SpellE\">Chavez<\/span>, a \u00fanica coisa que este lhe tirou foi parte da renda da PDVSA. O \u201crevolucion\u00e1rio\u201d <span class=\"SpellE\">bolivariano<\/span> nem sequer reconheceu o controle dos oper\u00e1rios sobre a produ\u00e7\u00e3o, devolvendo a empresa aos sabotadores, como vimos.<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 14.2pt;\"><span style=\"font-size: 11pt; font-family: Arial;\">Os socialistas devem sim marchar lado a lado com os <span class=\"SpellE\">bolivarianos<\/span> e <span class=\"SpellE\">chavistas<\/span>, ajudando a organizar o povo venezuelano contra a rea\u00e7\u00e3o burguesa e imperialista, mas sem jamais abrir m\u00e3o da independ\u00eancia <span class=\"SpellE\">pol\u00edtico-organizativa<\/span> e de um programa socialista e revolucion\u00e1rio.<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 14.2pt;\"><span style=\"font-size: 11pt; font-family: Arial;\">A independ\u00eancia de classe dos trabalhadores se expressa pela constru\u00e7\u00e3o de organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e organismos de luta aut\u00f4nomos. Essas s\u00e3o as \u00fanicas condi\u00e7\u00f5es em que se pode realmente construir o socialismo. Os trabalhadores devem lutar por seu pr\u00f3prio programa e sustentar essa luta com suas pr\u00f3prias for\u00e7as. Jamais se pode acreditar que algum dirigente burgu\u00eas ir\u00e1 realizar as tarefas da transforma\u00e7\u00e3o socialista. A capitula\u00e7\u00e3o da esquerda a governos burgueses<span class=\"GramE\">, sejam<\/span> eles \u201cradicais\u201d como <span class=\"SpellE\">Ch\u00e1vez<\/span> ou \u201cmoderados\u201d como Lula s\u00f3 pode resultar em derrotas e trag\u00e9dias, como j\u00e1 demonstrou a Hist\u00f3ria.<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 14.2pt;\"><span style=\"font-size: 11pt; font-family: Arial;\">N\u00e3o h\u00e1 outra sa\u00edda para os trabalhadores, tanto na Venezuela como no restante da Am\u00e9rica Latina e no mundo, a n\u00e3o ser desenvolver suas a\u00e7\u00f5es e sua organiza\u00e7\u00e3o de forma independente dos governos de plant\u00e3o, mesmo em se tratando de governos de perfil aparentemente nacionalista e popular. O socialismo somente pode ser constru\u00eddo por meio da organiza\u00e7\u00e3o dos pr\u00f3prios trabalhadores. As formas de organiza\u00e7\u00e3o desenvolvidas para a luta, como os comandos de greve, conselhos por local de trabalho, c\u00edrculos oper\u00e1rios, organiza\u00e7\u00f5es de bairro, conselhos populares, etc., <span class=\"GramE\">s\u00e3o a base<\/span> para as formas de gest\u00e3o da futura sociedade socialista. O socialismo somente pode ser constru\u00eddo de maneira sustent\u00e1vel por meio de organiza\u00e7\u00f5es materialmente enraizadas, ideologicamente coesas e politicamente independentes. Jamais ser\u00e1 concedido por decreto de uma lideran\u00e7a esclarecida, por mais aparentemente determinada e bem-intencionada que seja.<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 14.2pt;\"><span style=\"font-size: 11pt; font-family: Arial;\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 11pt; font-family: Arial;\">Daniel M. Delfino<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify; text-indent: 14.2pt;\" class=\"MsoNormal\"><span style=\"font-size: 11pt; font-family: Arial;\">Ao iniciar seu segundo mandato como presidente da Venezuela, em janeiro de 2007, o coronel Hugo <span class=\"SpellE\">Ch&aacute;vez<\/span> anunciou um pacote de medidas que segundo ele estariam lan&ccedil;ando seu pa&iacute;s no rumo do &ldquo;socialismo do s&eacute;culo XXI&rdquo;.<o:p><\/o:p><\/span><\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[76,64],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/124"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=124"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/124\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6053,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/124\/revisions\/6053"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=124"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=124"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=124"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}