{"id":1333,"date":"2013-01-27T12:45:40","date_gmt":"2013-01-27T14:45:40","guid":{"rendered":"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/?p=1333"},"modified":"2018-06-01T16:02:27","modified_gmt":"2018-06-01T19:02:27","slug":"jornal-04-novembro-de-2001","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/2013\/01\/jornal-04-novembro-de-2001\/","title":{"rendered":"Jornal 04: Novembro de 2001"},"content":{"rendered":"<p>Leia as mat\u00e9rias online:<\/p>\n<ul>\n<li><a href=\"#materia_1\">Apresenta\u00e7\u00e3o<\/a><\/li>\n<li><a href=\"#materia_2\">Revigorar a luta pelo Socialismo.<\/a><\/li>\n<li><a href=\"#materia_3\">Sujeitos da Revolu\u00e7\u00e3o: A Classe Trabalhadora<\/a><\/li>\n<li><a href=\"#materia_4\">A Emancipa\u00e7\u00e3o dos Trabalhadores ser\u00e1 Obra dos Pr\u00f3prios Trabalhadores<\/a><\/li>\n<li><a href=\"#materia_5\">Avan\u00e7os e Limites do Novo Internacionalismo<\/a><\/li>\n<li><a href=\"#materia_6\">Os Revolucion\u00e1rios e o Estado<\/a><\/li>\n<li><a href=\"#materia_7\">Faz falta uma Nova Concep\u00e7\u00e3o de Organiza\u00e7\u00e3o<\/a><\/li>\n<li><a href=\"#materia_8\">Revolucion\u00e1ri@s: Unamos na Nossa Diversidade<\/a><\/li>\n<\/ul>\n<h2><a id=\"materia_1\"><\/a>APRESENTA\u00c7\u00c3O<\/h2>\n<p>A ofensiva do capital, a crise da perspectiva socialista como alternativa ao capitalismo, e a enorme dificuldade dos revolucion\u00e1rios recuperarem seu papel, imp\u00f5e a todos n\u00f3s a necessidade de um esfor\u00e7o por restabelecer novos pilares de uma concep\u00e7\u00e3o da revolu\u00e7\u00e3o socialista.<\/p>\n<p>Com esta publica\u00e7\u00e3o, n\u00f3s do Espa\u00e7o Socialista, pretendemos impulsionar um di\u00e1logo com os ativistas dos movimentos sociais, nossos leitores e simpatizantes acerca de alguns temas que, mais do que nunca, devem ser rediscutidos criticamente pelos revolucion\u00e1rios para que consigamos nos armar para a luta contra o capital, que \u00e9 cada vez mais complexa.<\/p>\n<p>Consideramos isso uma necessidade por entendermos que todo o processo do Leste Europeu a que se chamou &#8220;socialismo real&#8221; nos deixou, entre outras, uma li\u00e7\u00e3o das mais importantes, a de que o marxismo n\u00e3o \u00e9 um dogma e, portanto, precisa ser \u201crejuvenescido\u201d a partir das experi\u00eancias das lutas dos trabalhadores contra o capitalismo.<\/p>\n<p>N\u00e3o podemos dar \u201cvelhas respostas aos novos problemas\u201d. Sem abandonar as experi\u00eancias hist\u00f3ricas dos trabalhadores, com seus acertos e erros, julgamos ser necess\u00e1rio rediscutir quest\u00f5es defendidas at\u00e9 bem pouco tempo com toda \u00eanfase pela maioria da esquerda revolucion\u00e1ria, inclusive n\u00f3s, e que a partir da nova realidade entendemos estarem, na sua totalidade questionadas.<\/p>\n<p>Estamos firmemente convencidos de que \u00e9 preciso imprimir um novo curso \u00e0 teoria e \u00e0 pr\u00e1tica pol\u00edtica dos revolucion\u00e1rios marxistas. Tal convic\u00e7\u00e3o surge, por um lado, do balan\u00e7o profundamente autocr\u00edtico que fazemos de nossa trajet\u00f3ria<\/p>\n<p>passada e por outro, dos acontecimentos que no final dos anos 90 modificaram a geografia pol\u00edtica do planeta: a mundializa\u00e7\u00e3o do capital e as revolu\u00e7\u00f5es contra o estalinismo no Leste Europeu.<\/p>\n<p>Com esses artigos iniciamos uma s\u00e9rie em que estaremos colocando algumas discuss\u00f5es e conclus\u00f5es que temos acumulado neste \u00faltimo per\u00edodo, e que n\u00e3o est\u00e3o fechadas, pois tudo est\u00e1 sob o permanente julgamento da luta de classes.<\/p>\n<p>Refor\u00e7amos o convite a todos que queiram contribuir nesse processo de elabora\u00e7\u00e3o com observa\u00e7\u00f5es, cr\u00edticas e textos, inclusive pol\u00eamicos, que possibilitem os nossos contato<\/p>\n<h2><a id=\"materia_2\"><\/a>Revigorar a luta pelo Socialismo<\/h2>\n<p>Chegamos ao novo mil\u00eanio com uma nova perspectiva: a de reconstruir a luta pelo socialismo. Dizemos reconstruir porque as burocracias dos Estados do Leste e da ex-URSS, sob o nome de &#8220;socialismo real&#8221;, constru\u00edram um regime que nada tinha a ver com o socialismo, muito pelo contr\u00e1rio. Eram pa\u00edses marcados pela decad\u00eancia das condi\u00e7\u00f5es sociais e o aniquilamento das m\u00ednimas liberdades democr\u00e1ticas. Eram Estados burocr\u00e1ticos, onde uma minoria controlava e se apropriava do produto do trabalho da imensa maioria do povo.<\/p>\n<p>Assim, \u00e9 importante deixar claro, em primeiro lugar, que aqueles pa\u00edses (e hoje Cuba ou China) em que os trabalhadores se levantaram contra a tirania e explora\u00e7\u00e3o jamais representaram qualquer forma de socialismo e nem caminhavam neste sentido. Havia um controle de uma minoria sobre toda a sociedade, controlando o Estado.<\/p>\n<p>Todos esses burocratas tinham uma coisa em comum: serem usurpadores das lutas, conquistas da classe trabalhadora e do produto de seu trabalho. Foi assim com as revolu\u00e7\u00f5es do s\u00e9culo XX e \u00e9 assim nas nossas lutas di\u00e1rias, onde sempre aparece \u201cum dirigente para apontar o caminho\u201d e retirar desses processos o que eles t\u00eam de mais importante que \u00e9 participa\u00e7\u00e3o direta de milh\u00f5es de explorados contra o sistema que os oprime e explora. Assim como \u201cesses dirigentes\u201d traem nossas lutas na atualidade aqueles tra\u00edram grandes revolu\u00e7\u00f5es, se aliando ao capital mundial.<\/p>\n<p>Com as mobiliza\u00e7\u00f5es de milh\u00f5es de trabalhadores contra as condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e sociais desses pa\u00edses e a queda espetacular das burocracias do Leste Europeu, simbolizada na queda do muro de Berlim, uma d\u00favida se instalou na cabe\u00e7a de milh\u00f5es de lutadores em todo o mundo: o socialismo acabou?<\/p>\n<p>Os ide\u00f3logos e lacaios da burguesia logo se aproveitaram dessa situa\u00e7\u00e3o e sa\u00edram gritando, repetindo como papagaios o coro de que o socialismo acabou. Os grandes poderes capitalistas festejaram a morte do socialismo. Mas, se enganaram. Bastaram poucos anos para que novamente o capitalismo estivesse totalmente questionado. \u00c9 cada vez mais contundente a cr\u00edtica contra a &#8220;globaliza\u00e7\u00e3o&#8221;, contra o &#8220;neo-liberalismo&#8221; e seus efeitos provocando uma s\u00e9ria crise de &#8220;legitimidade&#8221; desse sistema, poucas vezes vistas na d\u00e9cada de 90.<\/p>\n<p>N\u00f3s dizemos: o socialismo \u00e9 historicamente poss\u00edvel e necess\u00e1rio e urgente para a humanidade.<\/p>\n<p>N\u00f3s somos portadores do sonho de que os trabalhadores consigam construir uma nova sociedade em que n\u00e3o haja mais fome, mis\u00e9ria, guerra, polui\u00e7\u00e3o e desmatamentos, enfim, uma sociedade sem exploradores e sem explorados, em que haja o exerc\u00edcio de um autogoverno da maioria dos trabalhadores atrav\u00e9s de seus organismos de luta.<\/p>\n<p>Esse sonho precisa ser difundido e enriquecido junto aos trabalhadores e explorados do mundo inteiro.<\/p>\n<p>Nesta nova \u00e9poca hist\u00f3rica a alternativa \u201csocialismo ou barb\u00e1rie\u201d (colocado por Rosa Luxemburgo no in\u00edcio do s\u00e9culo) n\u00e3o s\u00f3 \u00e9 atual, como adquiriu para o conjunto da humanidade uma plena significa\u00e7\u00e3o imediata e hist\u00f3rica. A realidade cotidiana de explora\u00e7\u00e3o e marginaliza\u00e7\u00e3o de milh\u00f5es de seres humanos, a opress\u00e3o, as guerras, a crise ecol\u00f3gica do planeta e a persistente amea\u00e7a das armas de destrui\u00e7\u00e3o massiva colocam para todos n\u00f3s que, ou acabamos com o capitalismo ou a barb\u00e1rie alcan\u00e7ar\u00e1 n\u00edveis que jamais imaginamos.<\/p>\n<p>Imposs\u00edvel contar as v\u00edtimas da barb\u00e1rie capitalista: Vietn\u00e3, Brasil, Argentina, Cor\u00e9ia, 1\u00aa e 2\u00aa Guerras, Iraque, Chech\u00eania, Nicar\u00e1gua, El Salvador, Afeganist\u00e3o, etc. O capitalismo, se continuar a existir, vai levar a humanidade \u00e0 sua pr\u00f3pria destrui\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o s\u00f3 nos resta uma sa\u00edda: lutar por uma nova sociedade.<\/p>\n<p>Na sociedade socialista que defendemos, a humanidade construir\u00e1 novos valores de solidariedade e fraternidade, uma nova moral e uma nova cultura que permita ao homem se emancipar enquanto esp\u00e9cie. Uma nova sociedade onde aqueles que foram humilhados e pisoteados durante milhares de anos pelo capital v\u00e3o se tornar sujeitos de seu pr\u00f3prio destino e v\u00e3o decidir o qu\u00ea, como e quando fazer as coisas que s\u00e3o de interesses de toda a coletividade.<\/p>\n<p>Precisamos reconstruir a teoria do socialismo. O socialismo n\u00e3o pode ser mais confundido com as desgra\u00e7as da ex-URSS e dos pa\u00edses do Leste, com o assassinato dos estudantes na China (Pra\u00e7a da Paz Celestial) e os absurdos produzidos por outros pa\u00edses que se diziam ou ainda se dizem socialistas.<\/p>\n<p>Revigorar a luta pelo socialismo tamb\u00e9m significa redescobrir v\u00e1rios revolucion\u00e1rios, como Gramsci, Rosa Luxemburgo, etc, que ficaram &#8220;esquecidos&#8221;. Esse redescobrimento deve ser a partir das id\u00e9ias e do pensamento original e n\u00e3o de interpreta\u00e7\u00f5es que foram surgindo e que, n\u00e3o rara as vezes, &#8220;adicionaram&#8221; id\u00e9ias completamente alheias ao pensamento e pr\u00e1tica desses revolucion\u00e1rios.<\/p>\n<p>Aqui queremos apontar alguns elementos que achamos ser de fundamental import\u00e2ncia para que constem de um projeto de revigoramento da luta pelo socialismo.<\/p>\n<h3>O SOCIALISMO SER\u00c1 MUNDAL OU N\u00c3O SER\u00c1.<\/h3>\n<p>A mundializa\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o capitalista e a liberaliza\u00e7\u00e3o dos fluxos de capitais financeiros criou, incontestavelmente, uma \u00fanica economia-mundo. Por outro lado, tamb\u00e9m h\u00e1 a constitui\u00e7\u00e3o de uma frente mundial pol\u00edtico\/militar dos pa\u00edses imperialistas que visa intervir em qualquer mobiliza\u00e7\u00e3o ou processo revolucion\u00e1rio. Diante dessa realidade caiu por terra qualquer possibilidade de socialismo num s\u00f3 pais. O proletariado deve responder a altura construindo seu pr\u00f3prio poder em escala mundial. S\u00f3 uma revolu\u00e7\u00e3o que se expanda pelo mundo inteiro ter\u00e1 for\u00e7as para destruir completamente o capitalismo.<\/p>\n<h3>A REVOLU\u00c7\u00c3O \u00c9 UM PROCESSO HIST\u00d3RICO.<\/h3>\n<p>O socialismo n\u00e3o vir\u00e1 apenas com a tomada do poder dos burgueses, mas ser\u00e1 todo um processo onde a humanidade experimentar\u00e1 formas e mecanismos de constru\u00e7\u00e3o da nova sociedade sem nenhum tipo de privil\u00e9gio.<\/p>\n<p>N\u00e3o basta uma mera altera\u00e7\u00e3o nas formas de Estado ou de propriedade dos meios de produ\u00e7\u00e3o (privada para estatal). As rela\u00e7\u00f5es entre as pessoas ter\u00e3o que se revolucionar permanentemente.<\/p>\n<p>Ter\u00e1 que se dar um combate \u00e0 morte contra toda e qualquer forma de domina\u00e7\u00e3o, explora\u00e7\u00e3o, opress\u00e3o e principalmente a aliena\u00e7\u00e3o das decis\u00f5es mais importantes;<\/p>\n<h3>SOCIALIZA\u00c7\u00c3O DOS MEIOS DE PRODU\u00c7\u00c3O.<\/h3>\n<p>Por muito tempo se confundiu que estatiza\u00e7\u00e3o e socializa\u00e7\u00e3o fosse a mesma coisa. Para n\u00f3s n\u00e3o \u00e9 a mesma coisa. A estatiza\u00e7\u00e3o \u00e9 o controle dos meios de produ\u00e7\u00e3o nas m\u00e3os de um Estado (capitalista ou n\u00e3o) e socializa\u00e7\u00e3o \u00e9 a apropria\u00e7\u00e3o DIRETA de todo o planejamento e produ\u00e7\u00e3o dos produtos necess\u00e1rios para toda a coletividade pelos produtores e consumidores;<\/p>\n<h3>FIM DO ESTADO.<\/h3>\n<p>A exist\u00eancia de qualquer tipo de estado (capitalista ou mesmo &#8220;oper\u00e1rio\u201d) pressup\u00f5e uma opress\u00e3o na sociedade. Contra a id\u00e9ia dominante na esquerda tradicional e como marxistas lutamos pelo fim do estado. No processo revolucion\u00e1rio, os trabalhadores precisar\u00e3o de uma forma de organiza\u00e7\u00e3o geral para o combate \u00e0 rea\u00e7\u00e3o burguesa. Mas dever\u00e1 estar desde o in\u00edcio subordinada \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria e caminhar no sentido de sua supress\u00e3o, na medida em que as formas de auto-organiza\u00e7\u00e3o e democracia direta forem assumindo as antigas fun\u00e7\u00f5es do estado.<\/p>\n<h3>DEMOCRACIA DIRETA.<\/h3>\n<p>J\u00e1 dissemos que todo processo revolucion\u00e1rio come\u00e7a a perder seu f\u00f4lego exatamente quando as decis\u00f5es mais importantes s\u00e3o entregues para &#8220;meia d\u00fazia de dirigentes&#8221; e os trabalhadores deixam de se fazerem presentes e transformarem, eles mesmos, a condi\u00e7\u00e3o a que est\u00e3o submetidos. Defendemos a democracia direta dos trabalhadores auto-organizados, descartando e lutando contra qualquer possibilidade de exist\u00eancia de partido \u00fanico.<\/p>\n<p>O planejamento coletivo da produ\u00e7\u00e3o colocar\u00e1 fim ao uso irracional e \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o dos recursos naturais<\/p>\n<h2><a id=\"materia_3\"><\/a>SUJEITOS DA REVOLU\u00c7AO: A CLASSE TRABALHADORA<\/h2>\n<p>Hoje, os ide\u00f3logos burgueses, e mesmo uma s\u00e9rie de movimentos sociais, ativistas, intelectuais e at\u00e9 trabalhadores questionam n\u00e3o s\u00f3 a posi\u00e7\u00e3o e o papel do proletariado, mas at\u00e9 mesmo sua pr\u00f3pria exist\u00eancia como classe e inclusive a atividade que o identifica: o trabalho.<\/p>\n<p>Esses questionamentos e nega\u00e7\u00f5es se ap\u00f3iam nas apar\u00eancias do per\u00edodo atual &#8211; de crise e tentativa\/possibilidade de recomposi\u00e7\u00e3o de sua identidade, m\u00e9todos de luta e organiza\u00e7\u00e3o \u2013 e n\u00e3o na ess\u00eancia do papel social do trabalho e dos trabalhadores.<\/p>\n<p>\u00c9 fundamental e decisivo reconhecer os \u00eaxitos e fracassos hist\u00f3ricos da classe em luta pela emancipa\u00e7\u00e3o social e entender suas causas, transformando em li\u00e7\u00f5es,<\/p>\n<p>assim como compreender as mudan\u00e7as que levaram \u00e0 crise e ao fim um per\u00edodo da luta de classes, ao mesmo tempo em que j\u00e1 h\u00e1 mostras das novas tend\u00eancias deste novo per\u00edodo em que entramos.<\/p>\n<p>Hoje, a melhor forma de entendermos a for\u00e7a e o papel da classe oper\u00e1ria em toda a sua profundidade \u00e9 olharmos para a totalidade da classe: a classe trabalhadora mundial como sujeito da produ\u00e7\u00e3o mundializada do s\u00e9culo XXI.<\/p>\n<p>A pr\u00f3pria mundializa\u00e7\u00e3o capitalista colocou 80% dos produtos e servi\u00e7os produzidos no mundo sob o dom\u00ednio de 200 grandes corpora\u00e7\u00f5es transnacionais. E quem produz de fato a riqueza mundial, desde a opera\u00e7\u00e3o dos modernos e avan\u00e7ados processos produtivos at\u00e9 a realiza\u00e7\u00e3o das tarefas mais humilhantes e degradantes? S\u00e3o os trabalhadores<br \/>\ndo mundo todo, interligados na cadeia da produ\u00e7\u00e3o capitalista mundializada, ainda que com todos os problemas da aliena\u00e7\u00e3o decorrentes.<\/p>\n<h3>AS BASES ECON\u00d4MICAS DO PAPEL DA CLASSE TRABALHADORA<\/h3>\n<p>O capital \u00e9 antes de tudo uma rela\u00e7\u00e3o social controladora, cujos tent\u00e1culos se estendem atualmente a todas as esferas da vida humana, na sede pelo lucro. Sua constante expans\u00e3o quantitativa \u00e9 sua condi\u00e7\u00e3o de sobreviv\u00eancia, somente possibilitada pela intensifica\u00e7\u00e3o brutal da explora\u00e7\u00e3o e da conseq\u00fcente destrui\u00e7\u00e3o da natureza e dos seres humanos.<\/p>\n<p>O interc\u00e2mbio da for\u00e7a de trabalho por um sal\u00e1rio \u00e9 o v\u00e9u que encobre a explora\u00e7\u00e3o que sofrem os trabalhadores, pois o sal\u00e1rio corresponde ao menor valor por eles criado, que \u00e9 em sua maior por\u00e7\u00e3o, apropriado pelos capitalistas.. Essa rela\u00e7\u00e3o se estabeleceu historicamente pela expropria\u00e7\u00e3o que destituiu os trabalhadores de seus meios de produ\u00e7\u00e3o obrigando-os a venderem a \u00fanica coisa que lhes restou: a sua capacidade de trabalho, agora considerada com mera mercadoria, cada vez mais desvalorizada e explorada, quantitativamente descartada, mas intensamente utilizada e nunca eliminada.<\/p>\n<p>Se a rela\u00e7\u00e3o capital s\u00f3 \u00e9 capaz de subsistir enquanto puder levar a uma apropria\u00e7\u00e3o da mais-valia, e dado que na sociedade dos seres humanos a produ\u00e7\u00e3o de valor s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel pelo trabalho decorre da\u00ed que a<\/p>\n<p>sociedade aparentemente todo-poderosa do capital \u00e9 na verdade a sociedade dependente do trabalho vivo, dos trabalhadores, por mais que hoje ela se esforce para se apresentar como capaz de elimina-lo.<\/p>\n<p>Mas se o trabalho (enquanto trabalho social) continua sendo, hoje mais do que nunca, o elemento central da sociedade, ainda que na sua forma alienada, estranhada, desprovida do controle dos pr\u00f3prios trabalhadores, \u00e9 justamente a partir dos sujeitos do trabalho, que se pode potencializar, tornando real a possibilidade da liberta\u00e7\u00e3o, da emancipa\u00e7\u00e3o humana, tomando em suas m\u00e3os, juntamente com os demais setores oprimidos da sociedade, a condu\u00e7\u00e3o das enormes for\u00e7as produtivas desenvolvidas sob o regime do capital, utilizando-as desta vez para a livre satisfa\u00e7\u00e3o das necessidades humanas.<\/p>\n<p>Dessa forma compartilhamos com Ricardo Antunes a tese de que:<\/p>\n<p>\u201c&#8230;Embora heterogeneizado, complexificado e fragmentado, as possibilidades de uma efetiva emancipa\u00e7\u00e3o humana ainda podem encontrar concretude e viabilidade social a partir das revoltas e rebeli\u00f5es que se originam centralmente no mundo do trabalho; um processo de emancipa\u00e7\u00e3o simultaneamente do trabalho e pelo trabalho. Esta n\u00e3o exclui nem suprime outras formas de rebeldia e contesta\u00e7\u00e3o. Mas, vivendo numa sociedade que produz mercadorias, valores de troca, as revolta do trabalho t\u00eam estatuto de centralidade\u201d. (Adeus ao Trabalho?)<\/p>\n<h3>A SITUA\u00c7\u00c3O DA CLASSE TRABALHADORA HOJE<\/h3>\n<p>A classe trabalhadora se diversificou e aqueles padr\u00f5es de organiza\u00e7\u00e3o que foram forjados em outros per\u00edodos (os sindicatos de categoria e os partidos pol\u00edticos com atua\u00e7\u00e3o parlamentar) se esgotaram como formas eficazes de resist\u00eancia ao aumento da explora\u00e7\u00e3o e muito mais como alternativas estrat\u00e9gicas de emancipa\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora, coisa que na sua grande maioria, as burocracias dirigentes desses aparatos sempre fizeram de tudo para impedir, com suas teorias sobre a humaniza\u00e7\u00e3o do capitalismo (Estado de Bem-Estar Social) ou da possibilidade da coexist\u00eancia pac\u00edfica com ele (Estados Burocr\u00e1ticos do Leste Europeu).<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 quest\u00e3o de aumento de trabalhadores: aumenta o n\u00famero de pessoas que trabalham, mas diminui o n\u00famero de pessoas com carteiras assinadas. Os setores da economia formal est\u00e3o diminuindo bastante. Surgiu o desemprego estrutural, uma margem de trabalhadores que sob a \u00f3tica do capitalismo s\u00e3o considerados descart\u00e1veis.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, n\u00f3s vivemos uma situa\u00e7\u00e3o onde o proletariado, como classe, principalmente aqueles setores mais tradicionais, que se organizavam antes, passa por uma crise, uma crise de identidade, por uma crise de organiza\u00e7\u00e3o, por uma crise de alternativas, de resist\u00eancia e de horizontes.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o do movimento sindical \u00e9 que hoje ele n\u00e3o consegue minimamente dar respostas \u00e0 altura dos ataques, fruto n\u00e3o s\u00f3 da burocratiza\u00e7\u00e3o das suas dire\u00e7\u00f5es, mas at\u00e9 da pr\u00f3pria situa\u00e7\u00e3o da classe. Essa confus\u00e3o da nossa classe talvez seja o elemento que permita que tenham mais destaques nas lutas do que antes, os movimentos antiglobaliza\u00e7\u00e3o e da juventude.<\/p>\n<h3>REFORMISMO X REVOLU\u00c7\u00c3O<\/h3>\n<p>Reforma ou revolu\u00e7\u00e3o continua mais presente do que nunca. N\u00e3o acreditamos em qualquer possibilidade de que haja uma transforma\u00e7\u00e3o radical da rela\u00e7\u00e3o de explora\u00e7\u00e3o capital-trabalho se n\u00e3o for por um rompimento brusco com a ordem instaurada.<\/p>\n<p>Com a ofensiva do capital, colocando &#8220;a olhos vistos&#8221; a barb\u00e1rie capitalista, um setor importante do velho movimento oper\u00e1rio levanta como consigna central: &#8220;abaixo o neoliberalismo&#8221;, sem questionar a fundo o sistema capitalista.<\/p>\n<p>Pelas pr\u00f3prias caracter\u00edsticas da explora\u00e7\u00e3o capitalista mundializada, est\u00e1 cada vez mais distante qualquer possibilidade, pac\u00edfica, de se obter conquistas econ\u00f4micas. N\u00e3o vemos que seja poss\u00edvel acabar com a fome e a mis\u00e9ria com solu\u00e7\u00f5es paliativas. H\u00e1 poucas possibilidades de conseguir melhoria do n\u00edvel de vida dos trabalhadores nos marcos do capitalismo globalizado.<\/p>\n<p>Os reformistas est\u00e3o representados nas mais distintas organiza\u00e7\u00f5es, como sindicatos (CUT, For\u00e7a sindical, etc), partidos pol\u00edticos (PT, PC do B, etc), ONGS e outras entidades do movimento popular e sindical. T\u00eam como pol\u00edtica central construir um &#8220;outro capitalismo, mais humano&#8221;. O velho reformismo sustentava mudar o sistema por dentro, de maneira gradual, com conquista de postos parlamentares e sindicatos e que as reformas iriam gradualmente mudando o car\u00e1ter do sistema. J\u00e1 o neo-reformismo n\u00e3o trabalha mais com a utopia de mudar o sistema. Para ele, n\u00e3o h\u00e1 outro caminho que mudar as faces do capitalismo.<\/p>\n<p>O combate ao reformismo (novo e velho) \u00e9 fundamental para se construir uma consci\u00eancia anticapitalista, principalmente porque partem do pressuposto de aceitarem a domina\u00e7\u00e3o capitalista sobre a humanidade e tamb\u00e9m porque milh\u00f5es de pessoas que lutam s\u00e3o influenciadas por essas correntes reformistas por falta de uma alternativa revolucion\u00e1ria e socialista. Outro elemento complicador \u00e9 que essas dire\u00e7\u00f5es reformistas est\u00e3o \u00e0 frente de lutas de resist\u00eancia, defensivas, que lutam com uma limita\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e ideol\u00f3gica, pelo fato de n\u00e3o verem uma proposta alternativa ao capitalismo.<\/p>\n<p>\u00c9 fundamental a luta pelo agrupamento dentro do movimento dos coletivos anticapitalistas e de sua afirma\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 contra a ideologia do neo-reformismo, mas tamb\u00e9m para a constru\u00e7\u00e3o e apresenta\u00e7\u00e3o de uma proposta de emancipa\u00e7\u00e3o socialista.<\/p>\n<p>Outra a\u00e7\u00e3o nefasta do reformismo na atualidade \u00e9 a defesa das institui\u00e7\u00f5es burguesas como o parlamento e o direito \u00e0 cidadania sem que seja feita uma cr\u00edtica mais radical contra os mecanismos ideol\u00f3gicos de domina\u00e7\u00e3o. Evidentemente que devemos defender o aprofundamento das conquistas democr\u00e1ticas, exigi-las, inclusive para demonstrar aos trabalhadores e explorados que o capitalismo \u00e9 o sistema mais antidemocr\u00e1tico, que sua democracia vai s\u00f3 at\u00e9 onde n\u00e3o impe\u00e7a seus lucros. Assim a a\u00e7\u00e3o de defesa da democracia burguesa, sob os regimes democr\u00e1ticos, termina por ser uma pol\u00edtica reacion\u00e1ria. Defender a igualdade de todos perante a lei, sem fazer uma cr\u00edtica radical contra o capital, \u00e9 aceitar a diferen\u00e7a social, \u00e9 estabelecer uma igualdade formal.<\/p>\n<h3>ESTRAT\u00c9GIA E PERSPECTIVAS<\/h3>\n<p>Apesar de que a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as ainda est\u00e1 a favor da burguesia, podemos afirmar com certeza de que existe a gesta\u00e7\u00e3o de um amplo movimento anticapitalista e anti-imperialista, ou seja, existem mais espa\u00e7os para estarmos militando. As mobiliza\u00e7\u00f5es antiglobaliza\u00e7\u00e3o e a situa\u00e7\u00e3o da Argentina s\u00e3o exemplos claros.<\/p>\n<p>Na atualidade existe uma outra perspectiva para as lutas dos trabalhadores, pois at\u00e9 o chamado consenso de Washington est\u00e1 sendo mais profundamente questionado, inclusive por setores da pr\u00f3pria burguesia (os setores que s\u00e3o contra o ALCA, por exemplo). Sem d\u00favida que eles implementam, mas n\u00e3o significam que defendem o liberalismo com o mesmo entusiasmo, pois algumas medidas v\u00e3o contra os seus interesses. Antes eles tinham uma proposta: o Estado m\u00ednimo, o mercado, o crescimento, a desregulamenta\u00e7\u00e3o, a privatiza\u00e7\u00e3o. Hoje, discurso capitalista \u00e9 mais comodista: \u201cA situa\u00e7\u00e3o que est\u00e1 a\u00ed n\u00e3o pode mudar\u201d. \u00c9 um discurso mais fraco do que era em 1990. Na verdade existe uma crise de legitimidade do neoliberalismo.<\/p>\n<p>Assim os movimentos sociais podem cumprir um duplo papel: o car\u00e1ter de ativismo, que a classe operaria n\u00e3o est\u00e1, pelo menos por hora, cumprindo e o outro \u00e9 que s\u00e3o setores primordiais para acumula\u00e7\u00e3o de for\u00e7as socialistas.<\/p>\n<p>Estamos num per\u00edodo de acumula\u00e7\u00e3o onde as for\u00e7as revolucion\u00e1rias, socialistas e aut\u00f4nomas se desenvolvam em diversos aspectos, desde o sindical, cultural, \u00e9tnico at\u00e9 novas experi\u00eancias comunit\u00e1rias. O capitalismo tem que ser combatido em todos os campos e das formas mais criativas poss\u00edveis at\u00e9 o ponto em que esses novos m\u00e9todos de combate prefigurem as formas de poder da classe no futuro. N\u00e3o h\u00e1 separa\u00e7\u00e3o entre os organismos de luta e de resist\u00eancia da classe que se desenvolvem contra a barb\u00e1rie capitalista e a sua constru\u00e7\u00e3o, como embri\u00f5es de organismos de poder da classe. Tem que haver uma liga\u00e7\u00e3o entre esses dois aspectos.<\/p>\n<p>A \u00fanica garantia de que o processo de produ\u00e7\u00e3o n\u00e3o vai ser alienado \u00e9 se os pr\u00f3prios produtores tomarem a gest\u00e3o e o controle desse processo. \u00c9 por isso que o Marx fala da associa\u00e7\u00e3o dos produtores livres, isto \u00e9, somente quando os produtores gerirem coletivamente a sociedade e todas as formas de sociabilidade \u00e9 que n\u00f3s vamos ter uma sociedade livre, pois aqueles que produzem v\u00e3o produzir de acordo com os interesses coletivos da classe e da sociedade.<\/p>\n<p>\u00c9 necess\u00e1ria a retomada da educa\u00e7\u00e3o da classe, da sua hist\u00f3ria e por a\u00ed, da sua identidade enquanto classe, que \u00e9 um dos elementos mais importantes que se perdeu. De certa forma, o pr\u00f3prio ressurgimento do anarquismo \u00e9 parte de um resgate, numa outra situa\u00e7\u00e3o, da pr\u00f3pria hist\u00f3ria do movimento oper\u00e1rio que se apagou e que \u00e9 necess\u00e1rio se rediscutir e se rever para poder encontrar as li\u00e7\u00f5es e responder aos desafios que est\u00e3o colocados na atualidade.<\/p>\n<p>A reconstru\u00e7\u00e3o de uma identidade de classe \u00e9 uma outra preocupa\u00e7\u00e3o que devemos ter em rela\u00e7\u00e3o ao nosso trabalho cotidiano. Assim, al\u00e9m de uma interven\u00e7\u00e3o real, concreta nas atividades e na luta de classes da forma que for poss\u00edvel, o papel educativo de uma organiza\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria, neste momento, cumpre um papel fundamental de recuperar a hist\u00f3ria de combate ao capital, protagonizado pelo proletariado mundial.<\/p>\n<p>Isso come\u00e7a at\u00e9 mesmo na capacidade das pessoas se indignarem com a realidade, de verem a explora\u00e7\u00e3o, de verem a injusti\u00e7a da realidade, de forma que se possa florescer e avan\u00e7ar at\u00e9 que se possa desenvolver uma consci\u00eancia de classe.<\/p>\n<p>Para uma pr\u00e1tica socialista, realmente revigorada, temos que encarar a discuss\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o, da sa\u00fade e outras fun\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, na perspectiva real de que deve a classe assumir essas tarefas sem a inger\u00eancia do Estado.<\/p>\n<p>A interven\u00e7\u00e3o dos revolucion\u00e1rios no dia-a-dia, enquanto um movimento social, \u00e9 determinante na constru\u00e7\u00e3o de uma nova perspectiva para a humanidade. Assim deve ser o trabalho de conscientiza\u00e7\u00e3o do proletariado, ou seja, a partir de uma realidade concreta dos explorados.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso uma nova estrat\u00e9gia de uni\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o. Temos que ir para os bairros, escolas, juventude e setores que vivem do trabalho. Hoje, o movimento de resist\u00eancia \u00e9 bastante disperso e atomizado onde cada movimento pega apenas alguns aspectos da realidade e por a\u00ed se confrontam contra ele (o sistema) refletindo apenas uma determinada realidade do meio em que esteja inserido.<\/p>\n<p>Talvez por isso exista todo um sentimento que vai no sentido de poder reunir os v\u00e1rios agrupamentos dispersos para poder trocar experi\u00eancias e ter uma interven\u00e7\u00e3o, uma a\u00e7\u00e3o minimamente unificada que possa aparecer como alternativa aos velhos e podres aparatos existentes.<\/p>\n<p>Precisamos desenvolver o exerc\u00edcio de perceber a realidade e tentar interferir, acompanhando, sendo parte, propondo, errando, junto com os trabalhadores. Tentar aprender com as li\u00e7\u00f5es que o movimento vai tomando com a pr\u00f3pria atitude.<\/p>\n<p>Outra quest\u00e3o fundamental \u00e9 a da comunica\u00e7\u00e3o para uma filosofia de a\u00e7\u00e3o. Uma filosofia de pr\u00e1tica revolucionaria de fato. Al\u00e9m de jornais, que \u00e9 o tradicional, temos a tarefa de tentar desenvolver outras formas de comunica\u00e7\u00e3o que sejam capazes de contribuir com o movimento dos trabalhadores e aumentarmos os recursos humanos pra essa tarefa de constru\u00e7\u00e3o de algo diferente.<\/p>\n<h2><a id=\"materia_4\"><\/a>A EMANCIPA\u00c7\u00c3O DOS TRABALHADORES SER\u00c1 OBRA DOS PR\u00d3PRIOS TRABALHADORES<\/h2>\n<p>\u00c9 uma frase muito utilizada por v\u00e1rios setores da esquerda e escritores, mas nos parece que de forma extremamente abstrata, pois n\u00e3o \u00e9 compreendida e praticada em seu real sentido e significado.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso recuperar a li\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica de Marx de que a emancipa\u00e7\u00e3o dos trabalhadores ser\u00e1 obra dos pr\u00f3prios trabalhadores. A possibilidade de que a revolu\u00e7\u00e3o seja permanente e de que avance at\u00e9 a constru\u00e7\u00e3o do socialismo, s\u00f3 pode existir se a revolu\u00e7\u00e3o e seu programa forem parte da consci\u00eancia das mais amplas massas de explorados e oprimidos. Esta consci\u00eancia significa n\u00e3o s\u00f3 a compreens\u00e3o geral e concreta do processo em curso, mas tamb\u00e9m a organiza\u00e7\u00e3o consciente do proletariado e oprimidos, de forma independente e dirigida pelas pr\u00f3prias massas de maneira amplamente democr\u00e1tica. Consci\u00eancia e auto-organiza\u00e7\u00e3o s\u00e3o, pois, duas caracter\u00edsticas necess\u00e1rias para o triunfo socialista dos processos revolucion\u00e1rios.<\/p>\n<p>A esquerda tradicional, tratando os trabalhadores como incapazes de guiar o seu pr\u00f3prio destino, tem atuado no sentido de assumir tarefas, que por sua pr\u00f3pria natureza e necessidade, s\u00e3o da classe trabalhadora de conjunto. Tem procurado (sem sucesso) substituir o proletariado em a\u00e7\u00f5es, que se tornam marginais e distantes das reais necessidades da classe trabalhadora.<\/p>\n<p>Sem os trabalhadores, como sujeitos da transforma\u00e7\u00e3o social n\u00e3o existe revolu\u00e7\u00e3o. Essa cr\u00edtica \u00e9 central para n\u00f3s, pois muitos ainda militam com a id\u00e9ia de \u201cconstruir o partido\u201d para que este, com a ajuda das massas, fa\u00e7a a revolu\u00e7\u00e3o. O que significa, na pr\u00e1tica, ter uma rela\u00e7\u00e3o utilit\u00e1ria com os oprimidos, de \u201cus\u00e1-los\u201d para fazer a revolu\u00e7\u00e3o e depois constituir o poder do ou dos partidos e n\u00e3o do conjunto da classe trabalhadora e dos oprimidos.<\/p>\n<p>Negamos o conceito de partido-guia da classe oper\u00e1ria, assim como conceito de crise de dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria, ou seja, de que a crise da humanidade \u00e9 uma crise de dire\u00e7\u00e3o, que \u00e9 uma crise de partido. A vit\u00f3ria de uma revolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o depende somente de organiza\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias, mas da sua inter-rela\u00e7\u00e3o com v\u00e1rios outros elementos, entre os quais os mais importantes s\u00e3o a consci\u00eancia, a auto-organiza\u00e7\u00e3o e a decis\u00e3o dos trabalhadores de realizarem a revolu\u00e7\u00e3o. Assim procuramos retomar a import\u00e2ncia do elemento subjetivo (da consci\u00eancia) da classe trabalhadora, compreendendo-a como principal elemento do processo revolucion\u00e1rio. Uma organiza\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria tamb\u00e9m deve ter bem claro que o seu papel n\u00e3o \u00e9 de ficar \u201cditando ordens\u201d e muito menos de ser o guia da \u201crevolu\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Com isso n\u00e3o queremos menosprezar a import\u00e2ncia da exist\u00eancia e desenvolvimento das organiza\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias, pois t\u00e3o pouco acreditamos na possibilidade de que a classe trabalhadora possa desenvolver uma consci\u00eancia revolucion\u00e1ria e socialista de forma espont\u00e2nea e dispersa, sem a organiza\u00e7\u00e3o e atua\u00e7\u00e3o coordenada dos seus elementos revolucion\u00e1rios. O papel dos revolucion\u00e1rios \u00e9 ajudar a classe a desenvolver sua rebeldia e suas manifesta\u00e7\u00f5es em luta consciente contra o capital e pelo socialismo. Por isso achamos necess\u00e1rio a constru\u00e7\u00e3o de organiza\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias e program\u00e1ticas como uma necessidade para que as diversas experi\u00eancias e reflex\u00f5es da classe n\u00e3o se percam, mas sejam continuamente processadas e acumuladas nessa rela\u00e7\u00e3o entre os trabalhadores e essas organiza\u00e7\u00f5es. Mas n\u00e3o podemos pensar a revolu\u00e7\u00e3o sem uma a\u00e7\u00e3o autodeterminada dos trabalhadores e demais oprimidos, da qual sejamos parte.<\/p>\n<p>Buscamos realizar esta critica de forma pr\u00e1tica. Deve estar presente em nossa atua\u00e7\u00e3o cotidiana a luta por desenvolver essa consci\u00eancia de que qualquer luta contra o capital s\u00f3 pode ir adiante se for exercido diretamente por setores cada vez maiores at\u00e9 atingir o conjunto da classe e demais oprimidos, ou seja, da maioria da sociedade.<\/p>\n<p>A exist\u00eancia de organiza\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias, assim como de todas as organiza\u00e7\u00f5es independentes do Estado e da classe burguesa, \u00e9 parte fundamental da resist\u00eancia da classe, pois ao se organizar por fora das institui\u00e7\u00f5es burguesas e de sua l\u00f3gica, os trabalhadores podem reapropriar-se do seu tempo livre utilizando-o para satisfazer algumas de suas verdadeiras necessidades, libertando-se, mesmo que por algum tempo e somente em alguns aspectos, da domina\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica e ideol\u00f3gica, ao mesmo tempo em que exercita sua autonomia e forma novos valores de solidariedade e humanidade.<\/p>\n<h3>A ORGANIZA\u00c7\u00c3O DOS REVOLUCION\u00c1RIOS E O PODER<\/h3>\n<p>Enfrentar o capitalismo com efic\u00e1cia, hoje, implica compreender como ele se organiza &#8211; sua totalidade &#8211; que abarca desde o aspecto geogr\u00e1fico (o capitalismo est\u00e1 mundializado) at\u00e9 o da sua penetra\u00e7\u00e3o em todos aspectos da vida humana.<\/p>\n<p>Hoje, quando a classe trabalhadora encontra-se dispersa e buscando reconstituir-se enquanto tal, mais do que nunca, \u00e9 decisivo o papel dos revolucion\u00e1rios, no sentido de que os trabalhadores possam se constituir como classe o mais r\u00e1pido poss\u00edvel e fazer frente ao ataque cada vez mais centralizado e global do Capital, que ocorre, tanto do ponto de vista material &#8211; com o aumento brutal da explora\u00e7\u00e3o e da mis\u00e9ria &#8211; como tamb\u00e9m ao ataque ideol\u00f3gico &#8211; em que a burguesia usa todo o seu aparato de Estado, os meios de comunica\u00e7\u00e3o, a domina\u00e7\u00e3o cultural, as modernas t\u00e9cnicas psicol\u00f3gicas &#8211; para perpetuar sua domina\u00e7\u00e3o e impedir a constitui\u00e7\u00e3o de uma verdadeira consci\u00eancia da classe trabalhadora.<\/p>\n<p>A grosso modo est\u00e3o colocadas duas formas opostas de dar o combate contra o capitalismo. Uma, de concentrar a luta na tomada do poder do Estado. Esse foi um dos mais graves erros pol\u00edticos\/te\u00f3ricos do s\u00e9culo XX, porque a quase totalidade do movimento marxista (diferente das id\u00e9ias de Marx) ao longo do s\u00e9culo perdeu a no\u00e7\u00e3o de que o processo revolucion\u00e1rio deve ir al\u00e9m da destrui\u00e7\u00e3o do Estado burgu\u00eas e sua substitui\u00e7\u00e3o por um poder dos trabalhadores. Deve avan\u00e7ar em dire\u00e7\u00e3o ao fim do pr\u00f3prio estado.<\/p>\n<p>No processo revolucion\u00e1rio russo e nas revolu\u00e7\u00f5es vitoriosas posteriores, desenvolveu-se a id\u00e9ia de que os revolucion\u00e1rios tomam o poder de Estado, modificando-o, mas ao mesmo tempo o fortalecendo como aparato.<\/p>\n<p>Essa concep\u00e7\u00e3o levou a que o estado tomasse uma din\u00e2mica pr\u00f3pria a servi\u00e7o dos interesses do seu corpo de burocratas e se convertesse em inimigo dos trabalhadores, de sua luta pela revolu\u00e7\u00e3o mundial e por sua autodetermina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O Estado se tornou a express\u00e3o e o fator impulsionador da aliena\u00e7\u00e3o e da explora\u00e7\u00e3o dos trabalhadores, terminando por reconhecer sua pr\u00f3pria impot\u00eancia enquanto subsistema de explora\u00e7\u00e3o regido pela mesma l\u00f3gica do capital (extra\u00e7\u00e3o de mais valia, mercado, estado), pois antes mesmo que as revolu\u00e7\u00f5es anti-burocr\u00e1ticas explodissem, esses estados j\u00e1 estavam empenhados no processo de restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo. Quando ca\u00edram as ditaduras burocr\u00e1ticas do Leste Europeu, com a R\u00fassia em primeiro plano, ficou demonstrado, que esse tipo de estrat\u00e9gia n\u00e3o pode se constituir em uma alternativa ao capitalismo.<\/p>\n<p>Contra essa concep\u00e7\u00e3o estatista da revolu\u00e7\u00e3o julgamos ser necess\u00e1rio retomar e desenvolver a genu\u00edna concep\u00e7\u00e3o marxiana que, ao nosso ver, compreende que a revolu\u00e7\u00e3o deve ser, ela mesma, o processo de quebra n\u00e3o s\u00f3 das rela\u00e7\u00f5es capitalistas de produ\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m a quebra do poder estatal burgu\u00eas e em certo sentido a quebra do pr\u00f3prio poder estatal enquanto aparato aut\u00f4nomo, ao instituir no lugar do estado burgu\u00eas um estado-n\u00e3o-estado, ou um semi-estado. Um estado dos trabalhadores que j\u00e1 n\u00e3o seja um estado no sentido pr\u00f3prio do termo mas que, ao se constituir como for\u00e7a organizada da maioria da sociedade contra uma minoria (os exploradores) seja desde o seu in\u00edcio, n\u00e3o uma organiza\u00e7\u00e3o totalit\u00e1ria e todo-poderosa, mas a express\u00e3o e impulsionadora das livres manifesta\u00e7\u00f5es de a\u00e7\u00e3o e auto-organiza\u00e7\u00e3o da classe, travando desde o seu primeiro momento de exist\u00eancia uma batalha no sentido de que os trabalhadores tomem em suas m\u00e3o todos os aspectos da luta revolucion\u00e1ria e da vida social.<\/p>\n<p>A defini\u00e7\u00e3o de que a revolu\u00e7\u00e3o \u00e9 um processo de quebra do Estado, n\u00e3o apenas do estado burgu\u00eas, mas at\u00e9 mesmo do estado enquanto aparato totalit\u00e1rio e independente, por cima da sociedade, substituindo-o por um estado-n\u00e3o-estado \u00e9 uma no\u00e7\u00e3o que deve guiar a nossa pr\u00e1tica de luta di\u00e1ria e em todas as esferas. O capital e o estado devem ser combatidos em todas as suas frentes. Isso significa lutar para que os trabalhadores e oprimidos em geral desenvolvam suas energias, sua criatividade e espontaneidade na luta permanente contra a tentativa do estado e do capital de subordinar todos os momentos de nossa exist\u00eancia \u00e0s necessidades de lucro.<\/p>\n<p>A experi\u00eancia do Leste Europeu indica que a classe trabalhadora deve come\u00e7ar a se preparar, hoje mesmo, para que, no processo da revolu\u00e7\u00e3o, esteja em melhores condi\u00e7\u00f5es de se libertar e assumir o poder de fato, ou seja, possa assumir as decis\u00f5es que norteiam a vida social. A classe trabalhadora precisa se constituir como alternativa, n\u00e3o s\u00f3 alternativa de gest\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o mas de gest\u00e3o da sociedade como um todo, numa nova cultura, com novos valores que j\u00e1 prefigurem um novo homem e um novo mundo.<\/p>\n<p>Para n\u00f3s parece l\u00f3gico, que ao defendermos o fim do estado, tamb\u00e9m dever\u00e1 desaparecer todas as institui\u00e7\u00f5es e formas de representa\u00e7\u00e3o e hierarquia. Haver\u00e1 uma administra\u00e7\u00e3o dos bens p\u00fablicos e dos recursos naturais de forma horizontal, pela totalidade dos povos.<\/p>\n<h3>COMO O PROLETARIADO PODE CONSTRUIR O SEU PODER?<\/h3>\n<p>A grande quest\u00e3o da revolu\u00e7\u00e3o e sua tarefa \u00e9 desenvolver organismos e formas de poder da maioria que permitam liberdade de a\u00e7\u00e3o e express\u00e3o, e que ao mesmo tempo combine essas diversas iniciativas num \u00fanico movimento coordenado que enfrente e destrua o capitalismo. Isso s\u00f3 pode ser constru\u00eddo e desenvolvido a partir de experi\u00eancias pr\u00e1ticas da classe, com erros e acertos.<\/p>\n<p>Devemos nos apoiar em experi\u00eancias, como a Russa que demonstrou claramente que, se o poder deixa de estar nas m\u00e3os da maioria e \u00e9 monopolizado por um partido ou por uma minoria, fatalmente estar\u00e1 condenada ao fracasso.<\/p>\n<p>A burguesia consegue manter seu dom\u00ednio sobre o proletariado, tanto o pressionando materialmente com a amea\u00e7a do desemprego cada vez crescente, como exercendo um controle cada vez mais sofisticado sobre o trabalho, e tamb\u00e9m apropriando-se do seu tempo livre e de sua fam\u00edlia, atrav\u00e9s da televis\u00e3o, do r\u00e1dio, das manifesta\u00e7\u00f5es culturais, do lazer, etc.<\/p>\n<p>O rompimento com essa situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 como m\u00e1gica, \u00e9 todo um processo de constru\u00e7\u00e3o de uma autonomia do proletariado, no sentido de construir mecanismos que enfrente essas armas (poderosas) da burguesia e ao mesmo tempo construa formas de poder aut\u00f4nomo, ou seja, no processo revolucion\u00e1rio faz parte o desenvolvimento de um \u201cpoder dos de baixo\u201d.<\/p>\n<p>Os embri\u00f5es desse novo poder da classe e de um novo mundo, precisam necessariamente serem impulsionados e desenvolvidos hoje mesmo, ainda que de forma limitada (pois vivemos numa sociedade regida pelo capital e pelo estado ), n\u00e3o s\u00f3 como experi\u00eancias de poder prolet\u00e1rio, mas tamb\u00e9m como prova concreta da possibilidade de constru\u00e7\u00e3o de uma outra sociedade superadora do capitalismo.<\/p>\n<p>Pensamos que o exerc\u00edcio da democracia direta \u00e9 fundamental e deve ser exercida pelos organismos dos explorados. Mas seria fazer fetiche da democracia direta, se n\u00e3o tivermos claro que esta tamb\u00e9m precisa ser exercitada. Quando houver necessidade de algumas formas de representa\u00e7\u00e3o estas devem ser rotativas, revog\u00e1veis e vistas como fruto da necessidade moment\u00e2nea, mas sempre buscando desenvolver a iniciativa e a auto-organiza\u00e7\u00e3o da classe.<br \/>\nPrecisamos de uma nova pr\u00e1tica militante que confie na capacidade da classe dos produtores de desenvolver sua pr\u00f3pria a\u00e7\u00e3o e auto-organiza\u00e7\u00e3o para construir uma nova sociedade. Por isso estamos nos propondo, enquanto uma das organiza\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias, a ser parte ativa e consciente dos processos de auto-organiza\u00e7\u00e3o do proletariado.<\/p>\n<h2><a id=\"materia_5\"><\/a>AVAN\u00c7OS E LIM\u00cdTES DO NOVO INTERNACIONALISMO<\/h2>\n<p>O surgimento do movimento AGP (a\u00e7\u00e3o global dos povos) vem modificar a atmosfera modorrenta destes anos de refluxo do movimento dos explorados. Vinda a luz nas mobiliza\u00e7\u00f5es de Seattle em 1999, a AGP trouxe de maneira pr\u00e1tica, a luta internacionalista contra o capital, a despeito das quimeras ideol\u00f3gica em torno das quais giram a maioria dos grupos de esquerda.<\/p>\n<p>Muito tem se afirmado sobre a mundializa\u00e7\u00e3o do capital, principalmente nos meios jornal\u00edsticos que tratam de embelezar o status quo e se preocupam em infundir nos trabalhadores e explorados a inexist\u00eancia de alternativas ao capitalismo. Fazendo coro com a burguesia e seus meios de difus\u00e3o ideol\u00f3gicos, os partidos de esquerda (sejam os oficialmente reformista ou pretensamente revolucion\u00e1rios) defendem somente a luta por melhorar as condi\u00e7\u00f5es dentro do capitalismo, de tentar humaniz\u00e1-lo, de lutar contra o neo-liberalismo, seja atrav\u00e9s das lutas sindicais de categorias sejam atrav\u00e9s das elei\u00e7\u00f5es. Esquecem que ao expandir o seu dom\u00ednio sobre todo o mundo de maneira direta e incontest\u00e1vel, o capitalismo acirra uma s\u00e9rie de contradi\u00e7\u00f5es sociais, pol\u00edticas, econ\u00f4micas e culturais que est\u00e3o levando a humanidade \u00e0 barb\u00e1rie e que n\u00e3o h\u00e1 margens de reforma para aliviar o sofrimento dos trabalhadores. No seu movimento de valoriza\u00e7\u00e3o, o capitalismo n\u00e3o est\u00e1 preocupado em produzir bens que satisfa\u00e7am as necessidades da humanidade. Sua preocupa\u00e7\u00e3o central \u00e9 valorizar-se, indiferentemente se o meio para isto seja a produ\u00e7\u00e3o de alimentos, de armas ou de drogas. E temos visto a op\u00e7\u00e3o dos capitalistas pelas drogas, armas e, principalmente, o dinheiro puro e simples fruto de especula\u00e7\u00f5es na economia-cassino das bolsas de valores, das d\u00edvidas externas e internas, respons\u00e1veis pela atraso, fome, mis\u00e9ria e destrui\u00e7\u00e3o de pa\u00edses e continentes inteiros.<\/p>\n<p>Mas ao mesmo tempo em que o capitalismo cria uma situa\u00e7\u00e3o qualitativamente nova no que diz respeito a internacionaliza\u00e7\u00e3o da economia, vai corroendo uma das principais travas que o movimento revolucion\u00e1rio sofreu no per\u00edodo do p\u00f3s guerra que foi o nacionalismo e o mito do Estado-Na\u00e7\u00e3o j\u00e1 que a mundializa\u00e7\u00e3o do capital coloca em contato direto milh\u00f5es de produtores e consumidores por meios de comunica\u00e7\u00e3o cada vez mais velozes..<\/p>\n<p>Isto n\u00e3o ocorria no per\u00edodo anterior do p\u00f3s-guerra at\u00e9 os anos 80. Apoiado pela burocracia dos Estados burocr\u00e1ticos (URRS, China, Cuba), que tinha interesse em manter os trabalhadores sob seu dom\u00ednio atomizados e desorganizados para poder explor\u00e1-los, e pelas burocracias sindicais e partid\u00e1rias que fortalecidas com o boom capitalista do p\u00f3s guerra, o imperialismo na fase fordista centrou suas a\u00e7\u00f5es em conter os trabalhadores nos restritos marcos dos Estados Nacionais, infundindo-lhes que o Estado de Bem Estar Social era o m\u00e1ximo que eles poderiam alcan\u00e7ar em troca de se subordinarem aos dom\u00ednios do capital, uma vez que a revolu\u00e7\u00e3o socialista era uma utopia que nunca seria alcan\u00e7ada, bastando olhar para a URRS e Leste Europeu e ver a situa\u00e7\u00e3o dos povos desses pa\u00edses&#8230;<\/p>\n<p>Este esquema ruiu com a crise capitalista dos anos 70 e com a queda do muro de Berlim. A crise do modelo fordista do capitalismo e a queda do estalinismo abriu um novo ciclo hist\u00f3rico na luta de classes e, dentre outras coisas, colocou os trabalhadores frente a necessidade de encontrar um novo curso para seu movimento na luta contra o capital.<\/p>\n<p>No entanto, houve, no decorrer dos anos 70 e 80, v\u00e1rias lutas importantes onde os trabalhadores foram derrotados (Inglaterra, EUA, It\u00e1lia) e que gerou um refluxo que se mant\u00e9m e que impede at\u00e9 o momento, que o movimento oper\u00e1rio retome a cena dos enfrentamentos contra o capital.<\/p>\n<p>Esta situa\u00e7\u00e3o pela qual passa o movimento oper\u00e1rio obscurece um fato transcendental que \u00e9 o novo marco das lutas contra o capital se d\u00e1 na esfera internacional. Este conceito presente no in\u00edcio do movimento oper\u00e1rio, foi abandonado com a ascens\u00e3o das burocracias sindicais e estalinistas aos postos de dire\u00e7\u00e3o dos sindicatos e partidos de esquerda. Hoje, o marco nacional est\u00e1 questionado pela pr\u00f3pria burguesia ao expandir seus dom\u00ednios e neg\u00f3cios pelo mundo. O livre movimento de capitais pressup\u00f5e fim de barreiras alfandeg\u00e1rias e as pol\u00edticas econ\u00f4micas devem ser homog\u00eaneas e ajustar-se aos ditames dos especuladores.<\/p>\n<p>Frente a fal\u00eancia dos Estados e governos diante do novo ciclo hist\u00f3rico, o imperialismo tem procurado construir novas organiza\u00e7\u00f5es que lhe d\u00eaem suporte no seu movimento de valoriza\u00e7\u00e3o. Estas organiza\u00e7\u00f5es s\u00e3o a OMC e o Banco Mundial, al\u00e9m do velho FMI, e tem se comportado como um verdadeiro governo sobre todos os pa\u00edses, especialmente sobre os pa\u00edses subdesenvolvidos. Imp\u00f5e pol\u00edtica de juros, de abertura de mercado, de privatiza\u00e7\u00f5es, de patentes de tecnologia e de investimentos, aos governos de plant\u00e3o, cabendo a estes apenas aplicar tais pol\u00edticas, sob pena de verem o capital migrar para outros pa\u00edses que lhe sejam mais favor\u00e1veis.<\/p>\n<p>Frente a essa realidade \u00e9 que surge a AGP, num marco defensivo, como uma rea\u00e7\u00e3o aos novos senhores do mundo, que governam sem controle e que definem o destino de milh\u00f5es de pessoas a mis\u00e9ria e \u00e0 fome.<\/p>\n<h3>AS VIRTUDES DO NOVO INTERNACIONALISMO<\/h3>\n<p>Um dos elementos mais importantes que se destaca com o movimento AGP \u00e9 que esta foge dos padr\u00f5es normais de organiza\u00e7\u00e3o, aos quais estamos acostumados. Lembrando que o movimento oper\u00e1rio retrocedeu em sua consci\u00eancia internacionalista no p\u00f3s guerra fruto das rela\u00e7\u00f5es estabelecidas pelas dire\u00e7\u00f5es estalinistas e pelo imperialismo. O internacionalismo prolet\u00e1rio passou a ser apenas uma bandeira na m\u00e3o de pequenos grupos de esquerda. Tornou-se tamb\u00e9m sin\u00f4nimo de Internacional partid\u00e1ria e assim, ficou circunscrito ao jarg\u00e3o abstrato de uma esquerda isolada e palco de lutas fracionais.<\/p>\n<p>A luta internacionalista, conduzida pela esquerda vanguardista n\u00e3o atingia setores do proletariado e reduzia-se a comemora\u00e7\u00f5es anuais ritualist\u00edcas. A AGP vem transformar este quadro. N\u00e3o consideramos que o internacionalismo tenha sido recuperado, longe disto. No entanto, ao a AGP centrar a sua luta contra o centro do poder institucional do capital, arregimenta setores de vanguarda e de massa. Questiona de maneira pr\u00e1tica o papel das organiza\u00e7\u00f5es como o FMI, a OMC e promove uma luta de maneira concreta contra as ditas organiza\u00e7\u00f5es. Deste modo, supera de maneira brilhante, uma etapa de propaganda que ficava restrita aos pequenos agrupamentos e traz a discuss\u00e3o para um circulo muito mais amplo do movimento, promovendo um choque contra-cultural sobre os trabalhadores, que ao verem as imagens televisivas dos confrontos de rua em Seattle e Washington, passam a questionar o FMI e a OMC. Com isso, abre-se grandes oportunidades para a realiza\u00e7\u00e3o de trabalhos de conscientiza\u00e7\u00e3o junto ao movimento prolet\u00e1rio.<\/p>\n<p>O segundo elemento a se destacar \u00e9 que a AGP rompe com os padr\u00f5es economicistas do movimento oper\u00e1rio tradicional. Ao abordar em seu manifesto as v\u00e1rias facetas da domina\u00e7\u00e3o do capital neste ciclo onde se insere a mundializa\u00e7\u00e3o e dos seus desdobramentos sobre a realidade, consegue ser ponte de mobiliza\u00e7\u00e3o de amplos setores que est\u00e3o por fora das estruturas tradicionais de mobiliza\u00e7\u00e3o. Com seu manifesto, a AGP procura se inserir em v\u00e1rios setores como ind\u00edgenas, feministas, imigrantes, juventude, etc e o que \u00e9 mais importante, respeitando as diversidade e as identidades de cada movimento. Consegue desse modo ser aglutinador de for\u00e7as e n\u00e3o um entrave \u00e0s mobiliza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A forma organizativa (caberia falar em n\u00e3o-forma organizativa) da AGP \u00e9 sem d\u00favida a mais desconcertante sacada. Ao se definir como uma n\u00e3o-organiza\u00e7\u00e3o, e entendemos como um n\u00e3o-aparelho que seja controlado\/controlador, a AGP elimina com um s\u00f3 golpe, toda a tradi\u00e7\u00e3o secular da esquerda tradicional e leva um questionamento pr\u00e1tico sobre os dogmas organizativos que regem as esquerdas tradicionais. N\u00e3o criando um aparelho, elimina a necessidade da parafern\u00e1lia burocr\u00e1ticas, com suas respectivas burocracias, e evita que surjam grupos ou fra\u00e7\u00f5es que lutem em torno do controle deste aparelho a fim de se beneficiar das regalias econ\u00f4micas e de status que o dom\u00ednio do aparelho traz. Evitam tamb\u00e9m a possibilidade de repress\u00e3o e de coopta\u00e7\u00e3o ao n\u00e3o ser uma organiza\u00e7\u00e3o institucional a qual os governos deveriam se dirigir. Resgata praticamente, em estado puro, o conceito central de uma organiza\u00e7\u00e3o de ser um meio de organizar e n\u00e3o um fim em si mesmo. Ou seja, s\u00f3 pela n\u00e3o- organiza\u00e7\u00e3o (aparelh\u00edstica) \u00e9 que foi poss\u00edvel organizar lutas contra a OMC e por em movimento uma gama de setores que nunca estariam juntos atrav\u00e9s das organiza\u00e7\u00f5es tradicionais. O resgate do conceito de organiza\u00e7\u00e3o como meio e n\u00e3o como fim \u00e9 uma conquista que n\u00e3o pode se perder. Cabe tamb\u00e9m ressaltar a horizontalidade e a aus\u00eancia de l\u00edderes, o que nos leva ao terreno da auto organiza\u00e7\u00e3o e da auto disciplina para enfrentar o capital, derrubando o mito do centralismo democr\u00e1tico no aspecto de que o controle das dire\u00e7\u00f5es \u00e9 fundamental para o sucesso de uma a\u00e7\u00e3o. Seattle e Washington falam por si s\u00f3s.<\/p>\n<h3>ELEMENTOS PARA REFLEX\u00c3O SOBRE O NOVO INTERNACIONALISMO<\/h3>\n<p>Nos reivindicamos dos marcos de luta propostos pela AGP. No entanto, nos cabe apresentar alguns questionamentos sobre o movimento AGP. A contradi\u00e7\u00e3o fundamental da sociedade \u00e9 a contradi\u00e7\u00e3o entre capital e trabalho e da\u00ed derivam todas as outras. Neste ponto cremos que falta ao movimento AGP uma maior defini\u00e7\u00e3o program\u00e1tica, a fim de superar os marcos difusos de uma luta contra o capitalismo neoliberal. As a\u00e7\u00f5es feitas at\u00e9 aqui, promovidas pela AGP, foram irrepreens\u00edveis, mas faltaram em atingir os destacamentos da classe trabalhadora para a\u00e7\u00f5es de maior f\u00f4lego contra o capitalismo e cremos que este \u00e9 o mais importante limite do novo internacionalismo.<\/p>\n<p>Ao n\u00e3o ter defini\u00e7\u00f5es mais claras sobre a quest\u00e3o de classe, a AGP acaba concentrando-se apenas em a\u00e7\u00f5es de car\u00e1ter superestruturais, perdendo a oportunidade de transformar este movimento em uma pot\u00eancia contra o capitalismo. Por exemplo a AGP poderia desenvolver uma campanha contra a discrimina\u00e7\u00e3o do trabalho imigrante, contra o desemprego, contra o trabalho infantil, etc<\/p>\n<p>Falta tamb\u00e9m no programa uma defini\u00e7\u00e3o de que tipo de sociedade queremos que suplante a atual. Nesse sentido, as defini\u00e7\u00f5es program\u00e1ticas da AGP s\u00e3o difusas e podem n\u00e3o servir para orientar uma luta mais ampla contra o capitalismo. Corre-se o risco de que sejam alimentadas ilus\u00f5es do tipo &#8220;retorno ao modelo econ\u00f4mico fordista&#8221; ou &#8220;humaniza\u00e7\u00e3o do capitalismo&#8221; o que seria um erro, tendo em vista que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel humanizar o capitalismo.<\/p>\n<p>Outro elemento pol\u00eamico \u00e9 o do privil\u00e9gio da desobedi\u00eancia civil e da n\u00e3o viol\u00eancia como forma central de mobiliza\u00e7\u00e3o. Cremos que \u00e9 equivocado definir a priori como o movimento vai se mobilizar. E mais, o descarte de que n\u00e3o ser\u00e1 empregada a viol\u00eancia. O Estado capitalista domina tanto por meio da viol\u00eancia institucional como por meio extra legais. Estas formas de viol\u00eancia s\u00f3 podem ser enfrentadas de maneira resoluta pelo emprego da for\u00e7a do movimento de milh\u00f5es de trabalhadores e explorados. Somente a an\u00e1lise cuidadosa da correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as \u00e9 que pode dizer se podemos ou n\u00e3o empregar a for\u00e7a para nos defender dos ataques do capitalismo ou mesmo para derrot\u00e1-lo. N\u00e3o cabe ao movimento fazer apologia da utiliza\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia. Mas cabe ter claro a necessidade de defesa frente aos ataques dos Estados Capitalistas, a desconfian\u00e7a dos \u00f3rg\u00e3os da justi\u00e7a e da democracia burguesa e de que a transforma\u00e7\u00e3o radical das formas de propriedade e de sociedade implicar\u00e3o na utiliza\u00e7\u00e3o de meios violentos.<\/p>\n<p>Este debate insere-se no marco de que queremos avan\u00e7ar na supera\u00e7\u00e3o do capitalismo. Nossos referenciais s\u00e3o os da revolu\u00e7\u00e3o total contra o capital. Com isso queremos resgatar o que de melhor existiu na luta de todos os revolucion\u00e1rios, independente de qual corrente ideol\u00f3gica, aprender com os erros do passado e transformar estas experi\u00eancias em ensinamentos e programa. N\u00e3o faremos isto isoladamente nem acreditamos que tal empreitada seja cumprida por um grupo ou partido. Somente o esfor\u00e7o conjunto de todos os lutadores poder\u00e3o cumprir com esta tarefa.<\/p>\n<p>A AGP surge em um momento da realidade da luta de classes e \u00e9 fruto desta realidade. Suas virtudes prenunciam um caminho que o movimento anticapitalista dever\u00e1 percorrer para ter sucesso na supera\u00e7\u00e3o do capitalismo: o da auto organiza\u00e7\u00e3o e auto disciplina, da democracia direta e sem burocratas da solidariedade e do respeito as identidades.<\/p>\n<p>Os limites de programa inserem-se no marco da etapa atual da luta de classe, de refluxo e de desmoraliza\u00e7\u00e3o de todo um setor da vanguarda, das crises ideol\u00f3gicas que afetam milh\u00f5es de trabalhadores em todo o mundo. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel afirmar a priori o programa acabado para a luta pelo socialismo. Ser\u00e1 preciso muita luta e paci\u00eancia, debates e estudos para que possamos chegar a uma proposta superadora do capitalismo, que mobilize milh\u00f5es de mulheres e homens. O primeiro passo foi dado. Ao colocar em movimento setores de vanguarda ampla e ganhar as ruas contra as institui\u00e7\u00f5es de governo global do capitalismo, a AGP deu um passo fundamental para ajudar a supera\u00e7\u00e3o do estado atual das coisas. Caber\u00e1 aos milhares de ativistas em cada pa\u00eds, que se mobilizam sob suas bandeiras fazer avan\u00e7ar n\u00e3o s\u00f3 o movimento mas tamb\u00e9m o programa.<\/p>\n<h2><a id=\"materia_6\"><\/a>OS REVOLUCION\u00c1RIOS E O ESTADO<\/h2>\n<p>Um dos grandes desafios te\u00f3ricos e pr\u00e1ticos colocados para o movimento revolucion\u00e1rio ap\u00f3s a queda do Muro de Berlim \u00e9 entender o atual papel do Estado e a necessidade de uma ruptura com o estatismo (defesa de um &#8220;Estado oper\u00e1rio&#8221; como um fim em si mesmo) que marcou profundamente as principais correntes do movimento revolucion\u00e1rio, no s\u00e9culo XX.<\/p>\n<p>Hoje essa quest\u00e3o adquire uma complexidade maior, em fun\u00e7\u00e3o da conjuntura de ofensiva neoliberal, pois a burguesia tem como discurso a constru\u00e7\u00e3o de um chamado Estado m\u00ednimo, atacando as conquistas dos trabalhadores e a privatizando as estatais.<\/p>\n<p>Qual deve ser a posi\u00e7\u00e3o dos revolucion\u00e1rios frente \u00e0s privatiza\u00e7\u00f5es, por exemplo? A partir de que id\u00e9ias discutiremos com os trabalhadores? Como vincular as resist\u00eancias cotidianas contra determinados aspectos do aparato estatal com a luta pela emancipa\u00e7\u00e3o humana? Qual o conceito de socialismo que devemos defender? Queremos construir um Estado oper\u00e1rio?<\/p>\n<h3>O ESTADO NOS TEMPOS DE MUNDIALIZA\u00c7\u00c3O<\/h3>\n<p>A luta contra o Estado \u00e9 uma luta concreta. Deve ser travada a todo o momento pelos revolucion\u00e1rios. \u00c9 uma luta cotidiana, implac\u00e1vel. E quase todas correntes revolucion\u00e1rias, sucumbiram a esta luta, seja quando &#8220;estiveram no poder&#8221; ou mesmo quando foram oposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o basta simplesmente negar o Estado. \u00c9 preciso que a pr\u00e1tica militante esteja a servi\u00e7o deste preceito. E mais ainda quando a conjuntura coloca o movimento frente a situa\u00e7\u00f5es aparentemente contradit\u00f3rias, como lutar contra a privatiza\u00e7\u00e3o das estatais e ao mesmo tempo pela autonomia e, consequentemente contra o Estado.<\/p>\n<p>Uma das quest\u00f5es que a globaliza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica trouxe \u00e0 tona foi a crise do Estado-Na\u00e7\u00e3o, concebido pela ordem mundial do p\u00f3s-guerra. Baseado nisto, a burguesia imperialista, querendo reverter a crise do sistema capitalista, investiu contra o chamado Estado-de-Bem-Estar-Social e contra o poder de regulamenta\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica exercido por esse modelo, criado pela pr\u00f3pria burguesia para sair da crise do p\u00f3s-guerra e enfrentar o movimento oper\u00e1rio.<\/p>\n<p>Como parte da pol\u00edtica de enfrentar a crise econ\u00f4mica dos anos 70, que encerrou o ciclo de crescimento do p\u00f3s-guerra a burguesia, em todo o mundo, desencadeou uma profunda mudan\u00e7a no regime de acumula\u00e7\u00e3o e que entre outras coisas al\u00e9m do ataque sobre os trabalhadores em todo o mundo passou a desmontar o sistema de bem estar social e de regulamenta\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e a enfraquecer o papel de agente de fomento econ\u00f4mico que os Estados tiveram ap\u00f3s a II Grande Guerra.<\/p>\n<p>Essa nova fase do capital tem como elemento central a exig\u00eancia de liberdade absoluta de sua movimenta\u00e7\u00e3o e lucratividade (desregulamenta\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, fim da pol\u00edtica de substitui\u00e7\u00e3o das importa\u00e7\u00f5es, fim das reservas de mercado, flexibiliza\u00e7\u00e3o das leis trabalhistas, privatiza\u00e7\u00e3o, etc.). \u00c9 a fase da predomin\u00e2ncia do capital financeiro.<\/p>\n<p>Estas pol\u00edticas vieram mudar a configura\u00e7\u00e3o do sistema de domina\u00e7\u00e3o da burguesia e conseq\u00fcentemente colocou em quest\u00e3o o papel do Estado, da maneira como tinha sido desenvolvido no p\u00f3s-guerra, ou seja, modificou os princ\u00edpios que regiam as pol\u00edticas econ\u00f4micas naquele per\u00edodo hist\u00f3rico (desenvolvimento do mercado interno, fomento econ\u00f4mico e planejamento por parte dos governos) por outros baseados na ideologia livre cambista (abertura de fronteiras \u00e0 mercadorias e capitais, deslocamento do papel de condu\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas produtivas do Estado, desregulamenta\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, etc.).<\/p>\n<p>A queda do muro de Berlim e do sistema burocr\u00e1tico sovi\u00e9tico veio aparentemente dar raz\u00e3o \u00e0 onda neoliberal e seus preceitos. A pr\u00f3pria burguesia levou \u201c\u00e1gua ao moinho\u201d da crise do sistema de Estados ao se lan\u00e7ar ferozmente contra a participa\u00e7\u00e3o ativa do Estado na economia.<\/p>\n<p>No entanto, n\u00e3o podemos concluir, em base a todas estas transforma\u00e7\u00f5es, que o Estado tenha perdido o significado para a burguesia e de que seja poss\u00edvel exercer a domina\u00e7\u00e3o mundial sem contradi\u00e7\u00f5es ou de que n\u00e3o \u00e9 mais necess\u00e1rio o Estado para dominar o mundo.<\/p>\n<p>Ledo engano! Mais do que nunca as burguesias precisam de seus Estados para seguir dominando e explorando os trabalhadores e para manter seu sistema que n\u00e3o se sustentaria um minuto sequer sem a presen\u00e7a de um aparelho repressivo (f\u00edsico e ideol\u00f3gico) e que garanta o funcionamento da economia para a burguesia manter seus lucros. Um pequenino exemplo foi o caso da greve da pol\u00edcia no Brasil em julho, colocando a burguesia nacional e o governo em crise.<\/p>\n<p>Hoje em dia vemos em todas as partes do mundo e sentimos na pr\u00f3pria pele o poder do Estado, sua interven\u00e7\u00e3o cada vez maior, na vida social, desde as fun\u00e7\u00f5es de seguran\u00e7a at\u00e9 as ideol\u00f3gicas e de controle. O Estado tem desempenhado suas fun\u00e7\u00f5es de outra maneira. Assim n\u00e3o podemos esquecer de que ele esta a todo momento na vida das pessoas, seja atrav\u00e9s da pol\u00edtica, da a\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica em favor da burguesia, da repress\u00e3o e controle, na cultura, no lazer e at\u00e9 na arte!. Podemos, com certeza, afirmar que o Estado tem cada vez mais estendido seus tent\u00e1culos em pr\u00f3 de uma classe social, a burguesia, sem fingir ser um Estado de todos.<\/p>\n<p>O que de fato ocorreu foi uma mudan\u00e7a na forma do Estado exercer o seu papel, no marco dos novos preceitos econ\u00f4micos vigentes, de subordina\u00e7\u00e3o ao capital financeiro. Mas n\u00e3o s\u00f3 isso, pois redefine tamb\u00e9m o papel das classes sociais e da pol\u00edtica. Nesse sentido, \u00e9 correto afirmar que estamos em um novo per\u00edodo, aberto com a queda do muro de Berlim, da URRS e da mundializa\u00e7\u00e3o do capital.<\/p>\n<p>Temos que entender que a burguesia n\u00e3o \u00e9 principista. Se hoje faz juras de amor ao livre com\u00e9rcio e deplora a interven\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica do Estado, ontem ela exaltava a rigidez econ\u00f4mica e abominava a id\u00e9ia de libera\u00e7\u00e3o. O que ela tem em mente \u00e9 sempre um \u00fanico princ\u00edpio: O QUE \u00c9 MAIS LUCRATIVO E SEGURO.<\/p>\n<p>Para n\u00f3s \u00e9 fundamental entender que o Estado burgu\u00eas tem um papel definido e imut\u00e1vel: SER UM INSTRUMENTO DE DOMINA\u00c7\u00c3O E OPRESS\u00c3O SOBRE OS TRABALHADORES E EXPLORADOS EM GERAL.<\/p>\n<p>Se em um determinado momento o Estado, for\u00e7ado por uma situa\u00e7\u00e3o de lutas da classe trabalhadora, concedeu benef\u00edcios, isso tinha a finalidade de manter o regime capitalista. O Estado, dentro dos seus princ\u00edpios, busca controlar as classes sociais desfavorecidas e servir aos prop\u00f3sitos do capital financeiro. No entanto, setores da burguesia, principalmente a imperialista, utiliza o Estado em proveito pr\u00f3prio, seja para as fun\u00e7\u00f5es acima descritas ou mesmo para mediar e enfrentar outros setores da burguesia na luta pelo lucro, como \u00e9 o caso da brida Embraer\/Bombardier e da ALCA.<\/p>\n<h3>SOCIALISMO DE ESTADO?<\/h3>\n<p>No marco de um dom\u00ednio esmagador do estalinismo e da social democracia, n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil entender porque o socialismo revolucion\u00e1rio se tornou profundamente estatista. O peso do Estado e da pol\u00edtica, como meio de obter reformas, juntamente com o peso social adquirido pelas institui\u00e7\u00f5es da classe trabalhadora dentro do sistema capitalista (sindicatos, cargos parlamentares e executivos, etc), fizeram com que os revolucion\u00e1rios se iludissem com as reformas e passassem a realizar suas a\u00e7\u00f5es visando &#8220;ganhar&#8221; espa\u00e7o dentro do aparelho de Estado e de suas institui\u00e7\u00f5es. N\u00e3o foram poucos os que sucumbiram a esta situa\u00e7\u00e3o e capitularam, sepultando de vez a centralidade da luta contra o aparato estatal burgu\u00eas.<\/p>\n<p>Houve ent\u00e3o, uma adapta\u00e7\u00e3o te\u00f3rica e program\u00e1tica a essa situa\u00e7\u00e3o que impediu as correntes revolucion\u00e1rias de se apresentarem como alternativa e ajudar a desenvolver uma consci\u00eancia de classe realmente socialista. Um dos casos mais gritantes foi a elabora\u00e7\u00e3o trotskista do conceito de Estado oper\u00e1rio degenerado para a URRS e depois estendido para os outros Estados dominados pelos PC\u00b4s no p\u00f3s-guerra. Essa teoria e pol\u00edtica tiveram v\u00e1rios desdobramentos, dentre os quais a apologia e defesa da URRS e desses Estados, que terminou por contribuir na crise terminal em que esta corrente se encontra. Ainda hoje existem correntes que afirmam que a R\u00fassia, a China e a Iugosl\u00e1via s\u00e3o Estados oper\u00e1rios e que devem ser defendidos por todos os revolucion\u00e1rios.<\/p>\n<p>Esta dupla adapta\u00e7\u00e3o (ao Estado burgu\u00eas e ao burocr\u00e1tico) levou a que a maioria das correntes que se reivindicavam revolucion\u00e1rias tivesse uma atua\u00e7\u00e3o superestrutural e alienada frente aos trabalhadores que elas diziam representar. Neste sentido as a\u00e7\u00f5es destas correntes giravam em torno das elei\u00e7\u00f5es, das disputas sindicais e do choque entre correntes. Baseados nisso podemos explicar as in\u00fameras rupturas que houve em todo o mundo (existem hoje em dia mais de 40 \u201cInternacionais Revolucion\u00e1rias\u201d).<\/p>\n<p>A luta por cargos nos aparatos (sindical, estatal, etc) e para aparecer para as massas dominou a pol\u00edtica das correntes e moldou seu comportamento, tanto internamente como externamente (burocratismo, sectarismo, autoproclama\u00e7\u00e3o intoler\u00e2ncia, aliena\u00e7\u00e3o, arrog\u00e2ncia, etc).<\/p>\n<p>Esta pr\u00e1tica tem a ver com o car\u00e1ter alienado da pol\u00edtica de muitas correntes. Como partem da adapta\u00e7\u00e3o ao Estado, que por si s\u00f3 \u00e9 a aliena\u00e7\u00e3o da sociedade, das suas decis\u00f5es e funcionamento, sua pr\u00e1tica resulta em uma pol\u00edtica e teoria alienadas.<\/p>\n<p>Se estas correntes chegassem a &#8220;tomar o poder&#8221; imporiam aos trabalhadores as mesmas pr\u00e1ticas alienantes que a burguesia. Basta ver as correntes que tinham ou t\u00eam seus pontos de refer\u00eancia no Leste Europeu, R\u00fassia, China ou Cuba, onde sequer denunciam o car\u00e1ter alienado da situa\u00e7\u00e3o da classe oper\u00e1ria nestes pa\u00edses.<\/p>\n<p>Quase todas as correntes, tiveram sua vida focada na \u201ctomada do Pal\u00e1cio de Inverno\u201d, onde o grande objetivo era a chamada tomada do poder do Estado. A partir da\u00ed, acreditavam elas, estavam dadas as condi\u00e7\u00f5es iniciais para levar adiante o projeto do socialismo.<\/p>\n<p>E quais seriam as conseq\u00fc\u00eancias disto? Novamente a cria\u00e7\u00e3o de um Estado alienado e opressor sobre os trabalhadores, mesmo que seus dirigente achassem o contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>Para n\u00f3s a luta pelo socialismo deve ter como finalidade a destrui\u00e7\u00e3o do Estado. Essa estrat\u00e9gia deve ser constru\u00edda desde j\u00e1 na pr\u00e1tica cotidiana. Desde j\u00e1 precisamos impulsionar junto com os setores mais avan\u00e7ados dos trabalhadores a constru\u00e7\u00e3o\/reconstru\u00e7\u00e3o de valores socialistas que se choquem com os da sociedade burguesa. \u00c9 necess\u00e1rio reconstruirmos o projeto de sociedade socialista, impulsionando a auto-determina\u00e7\u00e3o social da classe oper\u00e1ria e dos explorados em geral, incentivando toda iniciativa que rompa a passividade das pessoas, que as possibilitem tomar coletivamente seus destinos nas pr\u00f3prias m\u00e3os.<\/p>\n<p>Este processo passa por uma nova forma de atua\u00e7\u00e3o e milit\u00e2ncia. O foco sai das institui\u00e7\u00f5es e das lutas internas pelo poder, seja ele de Estado ou sindicatos, e passa a ser o desenvolvimento dos organismos aut\u00f4nomos da classe como um todo, pela constru\u00e7\u00e3o de novos valores, socialistas e humanos. E essa luta deve ser travada em todas as esferas: escola, bairro, f\u00e1brica, fam\u00edlia.<\/p>\n<p>O enfrentamento com o Estado seguramente vai existir e estar\u00e1 colocada a quest\u00e3o: quem dirigir\u00e1 a sociedade? E no momento que isto estiver colocado, os trabalhadores ter\u00e3o que Ter condi\u00e7\u00f5es de n\u00e3o s\u00f3 destruir a sociedade antiga, arrancando todos os valores burgueses, mas devem ser capazes de construir uma sociedade nova, rompendo com a aliena\u00e7\u00e3o e inaugurando uma nova era.<\/p>\n<p>Num processo revolucion\u00e1rio os trabalhadores e os explorados ter\u00e3o a necessidade de constituir o seu poder contra a burguesia. Este necessitar\u00e1 de formas de coordena\u00e7\u00e3o e decis\u00e3o que se apoiem e sejam a express\u00e3o real do movimento da classe. Em outras palavras, este novo Estado j\u00e1 deve ser a nega\u00e7\u00e3o de si mesmo, um estado-n\u00e3o-estado, tendo como tarefas centrais 1) o desenvolvimento da iniciativa e da criatividade dos trabalhadores e, conseq\u00fcentemente, o desaparecimento do pr\u00f3prio estado e 2) o desenvolvimento da revolu\u00e7\u00e3o e da destrui\u00e7\u00e3o do capitalismo em todo o planeta.<\/p>\n<p>O socialismo ou \u00e9 obra dos trabalhadores ou n\u00e3o ser\u00e1 socialismo. Somente a a\u00e7\u00e3o de homens e mulheres conscientes, tomando seus destinos nas pr\u00f3prias m\u00e3os, de forma democr\u00e1tica e en\u00e9rgica poder\u00e1 derrotar a burguesia e construir um mundo novo.<\/p>\n<h3>E AS EMPRESAS P\u00daBLICAS?<\/h3>\n<p>O entendimento do papel e do combate ou n\u00e3o ao estado t\u00eam conseq\u00fc\u00eancias pr\u00e1ticas na atua\u00e7\u00e3o das correntes. O caso das privatiza\u00e7\u00f5es \u00e9 um exemplo.<\/p>\n<p>De maneira geral, todos os setores envolvidos levantam a bandeira de n\u00e3o privatiza\u00e7\u00e3o das estatais de maneira n\u00e3o-cr\u00edtica, inclusive defendendo-as como patrim\u00f4nio do povo.<\/p>\n<p>O resultado dessa luta n\u00f3s sabemos. Tem sido uma imensa derrota, pois a maioria dessas empresas foram privatizadas, em todos os pa\u00edses. O que aconteceu?<\/p>\n<p>Em todos os pa\u00edses onde houve a privatiza\u00e7\u00e3o e mesmo nos estados do Leste Europeu e URSS, os trabalhadores n\u00e3o assumiram a defesa da luta contra a privatiza\u00e7\u00e3o. Eles n\u00e3o identificavam estas empresas ou estes Estados como sendo seus. E isto as correntes de esquerda n\u00e3o questionam nunca, defendem a propriedade estatal, como sendo dos trabalhadores, se calando sobre o fato de que, no capitalismo, essas empresas est\u00e3o atreladas a um estado que serve aos interesses do capital.<\/p>\n<p>\u00c9 importante ressaltar que somos radicalmente contra as privatiza\u00e7\u00f5es, mas n\u00e3o pelas mesmas raz\u00f5es (ideol\u00f3gicas) que as<\/p>\n<p>correntes de esquerda. N\u00e3o tratamos dessa quest\u00e3o fazendo um fetiche da propriedade estatal como sendo melhor ou pior que a propriedade privada. A exist\u00eancia da propriedade significa que h\u00e1 explora\u00e7\u00e3o e aliena\u00e7\u00e3o dos trabalhadores desta propriedade, pois eles n\u00e3o s\u00e3o donos do seu destino, s\u00e3o apenas dentes da engrenagem para gera\u00e7\u00e3o de lucro, que em \u00faltima inst\u00e2ncia vai para as m\u00e3os da burguesia.<\/p>\n<p>O fato de que a propriedade seja estatal n\u00e3o quer dizer que a situa\u00e7\u00e3o do trabalhador seja qualitativamente diferente daquele que pertence \u00e0 iniciativa privada. Ele continua alienado da propriedade e do destino do seu produto. O produto do seu trabalho n\u00e3o lhe pertence, nem sua atividade e est\u00e1 alienado e enfrentado com os outros trabalhadores.<\/p>\n<p>O que n\u00e3o podemos perder de vista nunca \u00e9 que, pelo fato de estar alienado, o trabalhador n\u00e3o se identifica com o seu trabalho. E isso \u00e9 um fato e n\u00e3o uma ideologia ou uma quest\u00e3o de pol\u00edtica. O fato de que os outros trabalhadores que n\u00e3o pertenciam as empresas estatais n\u00e3o as tenha defendido baseia-se nisso, na aliena\u00e7\u00e3o do processo de trabalho e de n\u00e3o ver nas empresas estatais qualquer diferen\u00e7a essencial com a iniciativa privada.<\/p>\n<p>O centro de luta contra as privatiza\u00e7\u00f5es \u00e9 denunciar o car\u00e1ter de explora\u00e7\u00e3o da propriedade e da aliena\u00e7\u00e3o. Isso significa dialogar com os trabalhadores no sentido de questionar a forma da propriedade a que est\u00e3o submetidos, de que eles poderiam assumir o controle de sua atividade, de planej\u00e1-la junto com a popula\u00e7\u00e3o, de oferecer outro tipo de servi\u00e7o e produto \u00e0 popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h2><a id=\"materia_7\"><\/a>FAZ FALTA UMA NOVA CONCEP\u00c7\u00c3O DE ORGANIZA\u00c7\u00c3O<\/h2>\n<p>O funcionamento e estrutura de uma organiza\u00e7\u00e3o devem ter como referencial a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as, a realidade da luta de classes e suas contradi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u00c9 evidente que a forma de organiza\u00e7\u00e3o e rela\u00e7\u00e3o entre os revolucion\u00e1rios n\u00e3o deve ser engessada, utilizada da mesma maneira em qualquer etapa da luta de classes. Cada etapa exige uma forma e um m\u00e9todo, pois o nosso inimigo, o capital, tamb\u00e9m se modifica (como o camale\u00e3o), buscando se perpetuar.<\/p>\n<p>Assim, sob um regime ditatorial, os trabalhadores sempre souberam desenvolver novas formas de organiza\u00e7\u00e3o, que permitissem manter a luta e ao mesmo tempo preservar a vida dos companheiros. Da mesma forma, sob o chamado regime democr\u00e1tico burgu\u00eas, os trabalhadores devem desenvolver formas de organiza\u00e7\u00e3o que questionem a ordem estabelecida, sem depositar nenhuma ilus\u00e3o na democracia dos ricos.<\/p>\n<p>Na etapa em que vivemos, grande parte dos ativistas, da vanguarda e dos jovens em geral, buscam fazer algo novo. Recha\u00e7am todo aquele que tente impor sua verdade, sua linha, sua consigna, suas receitas, ignorando e substituindo o processo real que est\u00e3o vivendo. Os partidos, inclusive os da esquerda, est\u00e3o fortemente questionados. E \u00e9 muito justo que este sentimento seja assim, pois foram anos de erros, equ\u00edvocos e trai\u00e7\u00f5es. Em nome da revolu\u00e7\u00e3o e do centralismo democr\u00e1tico se praticaram os maiores absurdos, trai\u00e7\u00f5es, persegui\u00e7\u00f5es e falsifica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Mas, ao mesmo tempo, devemos combater a id\u00e9ia que a burguesia tenta nos passar de que \u201cn\u00e3o \u00e9 preciso nenhuma forma de organiza\u00e7\u00e3o independente, porque vivemos numa democracia plena, onde a partir do exerc\u00edcio da cidadania e do voto \u00e9 poss\u00edvel resolver todos os problemas que nos afligem\u201d.<\/p>\n<p>Consideramos necess\u00e1rio que os trabalhadores, mais do que nunca, se organizem para se defender e se reconstituir enquanto classe em todos os aspectos da vida, contrapondo-se a todas as formas de domina\u00e7\u00e3o, sejam econ\u00f4micas, pol\u00edticas, ideol\u00f3gicas, culturais, etc. Esta \u00e9 uma quest\u00e3o central para que possamos superar os problemas: termos como refer\u00eancia a luta contra a totalidade do sistema.<\/p>\n<p>Para n\u00f3s, \u00e9 absolutamente central a constru\u00e7\u00e3o de um novo tipo de organiza\u00e7\u00e3o, que expresse a constru\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica do m\u00e1ximo de rela\u00e7\u00f5es e elementos que combatam a l\u00f3gica do capitalismo e da aliena\u00e7\u00e3o e representem os embri\u00f5es da nova sociedade que vai se construir.<\/p>\n<p>O chamado \u201cnovo movimento internacional e anticapitalista\u201d tem nos mostrado que nova organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o significa um novo nome, uma nova dire\u00e7\u00e3o, um novo jornal, uma nova sede. Significa uma nova forma de funcionamento, uma nova concep\u00e7\u00e3o de milit\u00e2ncia revolucion\u00e1ria. E para n\u00f3s, significa desafiar a nossa hist\u00f3ria e reconstruir tudo outra vez, sob uma nova \u00f3tica.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, al\u00e9m da responsabilidade de desenvolver essa nova filosofia organizativa a partir da realidade da luta de classes, tamb\u00e9m temos uma outra tarefa fundamental que \u00e9 construir uma nova consci\u00eancia e pr\u00e1tica de milit\u00e2ncia em que todos se sintam, se percebam capazes e procurem ser sujeitos de sua milit\u00e2ncia, de que podem fazer (ou aprender a fazer) as mesmas coisas que os companheiros mais experientes fazem.<\/p>\n<p>N\u00e3o basta que exista uma democracia formal. \u00c9 necess\u00e1rio que os militantes queiram e procurem exerc\u00ea-la realmente. E isso vai desde o simples uso de um computador at\u00e9 as decis\u00f5es mais importantes da pol\u00edtica revolucion\u00e1ria.<\/p>\n<p>A organiza\u00e7\u00e3o deve colocar como uma de suas preocupa\u00e7\u00f5es centrais o desenvolvimento total da potencialidade dos militantes, rompendo com a tradicional divis\u00e3o entre \u201calguns\u201d que se apropriam da informa\u00e7\u00e3o, do conhecimento te\u00f3rico e, portanto, das decis\u00f5es e \u201coutros\u201d que se ocupam da atividade pr\u00e1tica cotidiana no bairro, na escola ou na f\u00e1brica. Todos devemos assumir a constru\u00e7\u00e3o de um novo conceito de milit\u00e2ncia, em que a atua\u00e7\u00e3o de cada um e do coletivo, como um todo, combine pr\u00e1tica cotidiana com a busca da informa\u00e7\u00e3o e constru\u00e7\u00e3o do conhecimento. Ao desenvolvermos nossas atividades devemos sempre levar em conta n\u00e3o apenas os objetivos imediatos a serem cumpridos, mas tamb\u00e9m essa tarefa que \u00e9 estrat\u00e9gica.<\/p>\n<p>N\u00e3o podemos abordar este tema, sem tamb\u00e9m colocar que houve (e ainda h\u00e1) uma pr\u00e1tica, \u00e0 qual n\u00e3o escapou quase nenhuma das organiza\u00e7\u00f5es da esquerda revolucion\u00e1ria, em que a constru\u00e7\u00e3o do partido ou da organiza\u00e7\u00e3o aparece como um fim em si mesma e n\u00e3o como um meio para ajudar o desenvolvimento da consci\u00eancia revolucion\u00e1ria e auto-organiza\u00e7\u00e3o do proletariado. O partido se apresentava como um fator determinante por cima do processo real, n\u00e3o considerando a classe como sujeito da revolu\u00e7\u00e3o e do socialismo.<\/p>\n<p>As organiza\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias n\u00e3o podem substituir a classe na realiza\u00e7\u00e3o das tarefas da derrubada do capital e na condu\u00e7\u00e3o da futura sociedade socialista. Tampouco nenhuma coordena\u00e7\u00e3o ou dire\u00e7\u00e3o pode substituir o conjunto da milit\u00e2ncia em suas tarefas de compreens\u00e3o e avan\u00e7o da consci\u00eancia entre os trabalhadores.<\/p>\n<p>Defendemos um funcionamento extremamente democr\u00e1tico das organiza\u00e7\u00f5es dos revolucion\u00e1rios, rompendo com os m\u00e9todos sect\u00e1rios e centralistas do passado, quando as dire\u00e7\u00f5es impunham sobre os militantes uma disciplina na teoria e no programa que impedia o imprescind\u00edvel debate e a elabora\u00e7\u00e3o coletiva.<\/p>\n<p>O estalinismo conseguiu impor \u00e0s organiza\u00e7\u00f5es dos trabalhadores, contaminando inclusive setores do marxismo revolucion\u00e1rio, uma concep\u00e7\u00e3o de organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que nada tinha a ver com a tradi\u00e7\u00e3o do proletariado e do movimento revolucion\u00e1rio.<\/p>\n<p>Precisamos recuperar a tradi\u00e7\u00e3o do movimento revolucion\u00e1rio que at\u00e9 o in\u00edcio do s\u00e9c. XX era de ampla democracia nas organiza\u00e7\u00f5es, de uma vida interna onde todos colaboravam na elabora\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica e da teoria. A pr\u00f3pria hist\u00f3ria do bolchevismo at\u00e9 os primeiros anos da Revolu\u00e7\u00e3o Russa \u00e9 de exist\u00eancia de correntes internas, de debates p\u00fablicos e livre express\u00e3o de id\u00e9ias. Sem negarmos os seus erros, o bolchevismo durante muitos anos foi um partido extremamente democr\u00e1tico, com publica\u00e7\u00e3o aberta, sem censura a qualquer posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Era tradi\u00e7\u00e3o a exist\u00eancia de correntes internas no partido.<\/p>\n<p>Estamos nos propondo a construir uma organiza\u00e7\u00e3o com a concep\u00e7\u00e3o de que seja perfeitamente poss\u00edvel e louv\u00e1vel conviver com as diferen\u00e7as dentro de um campo comum.<\/p>\n<p>Pensamos que uma organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica deve ter plena liberdade de discuss\u00e3o sobre todo e qualquer um dos temas, com debates p\u00fablicos, com plena liberdade para qualquer setor, tend\u00eancia ou agrupamento de publicar seus pr\u00f3prios \u00f3rg\u00e3os de imprensa.<\/p>\n<p>A unidade ou \u201cdisciplina\u201d de uma organiza\u00e7\u00e3o s\u00f3 pode ser alcan\u00e7ada ou conquistada de forma volunt\u00e1ria, livremente assumida pelos militantes, por convencimento pr\u00f3prio e n\u00e3o por imposi\u00e7\u00e3o de uma dire\u00e7\u00e3o. A centraliza\u00e7\u00e3o na a\u00e7\u00e3o s\u00f3 pode se dar a partir de uma compreens\u00e3o comum da realidade e das tarefas e confian\u00e7a m\u00fatua entre os militantes.<\/p>\n<p>Assim, a democracia de uma organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ser abstrata. Tem que ser um exerc\u00edcio permanente entre todos. Devemos colocar acima de todas as disputas pol\u00edticas, um funcionamento democr\u00e1tico. Deve impulsionar a educa\u00e7\u00e3o e criar mecanismos para o desenvolvimento das discuss\u00f5es sobre todos os temas do programa e t\u00e1tica da organiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Dessa maneira, a diversidade e a pluralidade devem adquirir e reafirmar seu sentido na constru\u00e7\u00e3o de uma forte homogeneidade: a luta contra o capitalismo e pelo socialismo, em transformar em uma totalidade todos os processos de luta que hoje est\u00e3o completamente fragmentados e desarticulados.<\/p>\n<p>A luta contra o capital, leva a uma necessidade de coordena\u00e7\u00e3o e, em momentos cruciais, at\u00e9 de uma centraliza\u00e7\u00e3o, porque enfrentamos cada vez mais uma sociedade centralizada. Para n\u00f3s, a centraliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o significa a hierarquiza\u00e7\u00e3o militar. N\u00e3o pode significar a falta de debates, de discuss\u00f5es, de autonomia. Pode parecer um paradoxo, mas a necessidade de centraliza\u00e7\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m necessidade de democracia. Uma greve decidida pelos trabalhadores tamb\u00e9m tem que ser centralizada, imposta sobre a minoria, porque dentro do proletariado h\u00e1 v\u00e1rios elementos indecisos em momentos cruciais da luta de classe. Em v\u00e1rias condi\u00e7\u00f5es de luta se n\u00e3o houver centraliza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 movimento. Mas, nesses casos deve ser precedida da m\u00e1xima discuss\u00e3o e se restringir \u00e0 a\u00e7\u00e3o e n\u00e3o \u00e0s id\u00e9ias.<\/p>\n<p>Nos opomos \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de uma organiza\u00e7\u00e3o em que exista uma hierarquia, cheia de dirigentes (e dirigidos) que tenha rela\u00e7\u00f5es de poder internas a ela. Nos opomos \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de uma organiza\u00e7\u00e3o burocr\u00e1tica, formal, onde exista aqueles que pensam e aqueles que fazem, aqueles que dominam o poder e aqueles que ficam ouvindo e executando as tarefas. Lutamos pela constru\u00e7\u00e3o de uma organiza\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria, ligada aos trabalhadores, que seja parte da classe trabalhadora e do processo revolucion\u00e1rio.<\/p>\n<h2><a id=\"materia_8\"><\/a>REVOLUCION\u00c1RI@S: UNAMOS NA NOSSA DIVERSIDADE<\/h2>\n<p>Entre as quest\u00f5es que tamb\u00e9m queremos discutir, est\u00e1 o resgate da estrat\u00e9gia, que h\u00e1 muito tempo foi descartada ou colocada com o \u00fanico objetivo de unificar organiza\u00e7\u00f5es: a unidade dos revolucion\u00e1rios.<\/p>\n<p>\u00c9 pura ilus\u00e3o acreditar que todos os revolucion\u00e1rios possam estar reunidos em uma \u00fanica organiza\u00e7\u00e3o. A exist\u00eancia de v\u00e1rias organiza\u00e7\u00f5es e outros tantos revolucion\u00e1rios atuando individualmente expressa a diversidade da classe trabalhadora. Por isso o movimento revolucion\u00e1rio deve ser compreendido em toda a sua amplitude. Isso deve-se n\u00e3o s\u00f3 a crise do marxismo, mas tamb\u00e9m devido as mudan\u00e7as ocorridas nos \u00faltimos anos. \u00c9 imposs\u00edvel que pessoas que querem &#8220;mudar o mundo&#8221; pensem da mesma maneira.<\/p>\n<p>A constru\u00e7\u00e3o e reconstru\u00e7\u00e3o de estrat\u00e9gias e programas devem ocorrer no di\u00e1logo das diversas<\/p>\n<p>organiza\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias com os trabalhadores e destas entre si.<\/p>\n<p>Nesse processo deve haver amplos espa\u00e7os para o debate, experi\u00eancias em comum ou interc\u00e2mbio de experi\u00eancias diferenciadas e condi\u00e7\u00f5es para a elabora\u00e7\u00e3o coletiva.<\/p>\n<p>Pensamos que \u00e9 fundamental procurar atuar na luta de classes de forma unit\u00e1ria. Isso pode fortalecer a atua\u00e7\u00e3o dos revolucion\u00e1rios e a forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da classe trabalhadora. A unidade e a conviv\u00eancia de diversas organiza\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias na luta de classes \u00e9 uma importante fonte de aprendizado para o movimento como um todo.<\/p>\n<p>\u00c9 evidente que a unidade das organiza\u00e7\u00f5es e indiv\u00edduos, atuando conjuntamente com os trabalhadores, potencializa a luta contra o capital.<\/p>\n<p>Diante da necessidade de desenvolver as id\u00e9ias do socialismo no movimento, n\u00e3o podemos acreditar que o trabalho de grupos min\u00fasculos agindo de forma individualizada e descoordenada vai atingir tal objetivo. Por isso, adquire enorme import\u00e2ncia o impulso \u00e0s diversas formas de unifica\u00e7\u00e3o e coordena\u00e7\u00e3o entre os coletivos e indiv\u00edduos revolucion\u00e1rios, a forma\u00e7\u00e3o de comit\u00eas de lutas espec\u00edficas, f\u00f3runs de discuss\u00e3o e elabora\u00e7\u00e3o te\u00f3rica e a\u00e7\u00f5es conjuntas.<\/p>\n<p>Entendemos ser perfeitamente poss\u00edvel uma organiza\u00e7\u00e3o lutar pelas suas id\u00e9ias e ao mesmo tempo defender a unidade entre os revolucion\u00e1rios. A luta pelo desenvolvimento das id\u00e9ias socialistas entre os trabalhadores, contra o conceito de partido \u00fanico, pela constru\u00e7\u00e3o de organismos independentes dos trabalhadores, s\u00e3o quest\u00f5es que n\u00e3o podem ser negadas, pelo contr\u00e1rio, s\u00e3o cada vez mais urgentes .<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Leia as mat\u00e9rias online: Apresenta\u00e7\u00e3o Revigorar a luta pelo Socialismo. 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