{"id":1423,"date":"2013-02-01T19:49:35","date_gmt":"2013-02-01T21:49:35","guid":{"rendered":"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/?p=1423"},"modified":"2018-05-05T17:21:36","modified_gmt":"2018-05-05T20:21:36","slug":"resolucoes-sobre-situacao-internacional-da-conferencia-de-2012","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/2013\/02\/resolucoes-sobre-situacao-internacional-da-conferencia-de-2012\/","title":{"rendered":"Resolu\u00e7\u00f5es sobre situa\u00e7\u00e3o internacional da Confer\u00eancia de 2012"},"content":{"rendered":"<p><a title=\"Vers\u00e3o em PDF\" href=\"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/?attachment_id=1426\"><img decoding=\"async\" alt=\"\" src=\"http:\/\/www.espacosocialista.org\/sites\/default\/files\/MINIATURA%20DOc%20interNacional%202012.jpg\" width=\"180\" \/><\/p>\n<p><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Esse documento se comp\u00f5e de tr\u00eas partes: 1\u00ba) elementos de an\u00e1lise \u2013 Economia, Fatores estruturais; Consequ\u00eancias de longo prazo; A era da \u201causteridade\u201d; Necessidade de uma reconfigura\u00e7\u00e3o; As v\u00e1rias formas da guerra imperialista; A guerra social pelas vias democr\u00e1ticas, Democracia burguesa e avan\u00e7o da direita; Mundializa\u00e7\u00e3o do capital, fragmenta\u00e7\u00e3o da classe e crescimento da ultradireita; A Europa e a instabilidade na zona do euro, Estados Unidos, A lenda dos 50% do PIB mundial, Imperialismo, G8, G20 e \u201cemergentes\u201d; O caso dos chamados \u201cBRICs\u201d; A desacelera\u00e7\u00e3o da Primavera \u00c1rabe, Oriente M\u00e9dio, Am\u00e9rica Latina; 2\u00ba) resolu\u00e7\u00f5es; e 3\u00ba) palavras de ordem.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Economia<\/b><\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o mundial segue sendo determinada pelas consequ\u00eancias da crise econ\u00f4mica de 2008. As pol\u00edticas adotadas pela burguesia para administrar a crise e obter uma retomada do crescimento em 2009 e 2010 provocaram uma reca\u00edda em 2011, que de certa forma se prolonga em 2012. A estabiliza\u00e7\u00e3o que a burguesia obteve no curto prazo foi fruto de tr\u00eas fatores principais: 1\u00ba) o ataque generalizado sobre a classe, com as demiss\u00f5es, redu\u00e7\u00f5es de sal\u00e1rios, retirada de direitos, etc.; 2\u00ba) a interven\u00e7\u00e3o do Estado, com o disp\u00eandio de trilh\u00f5es de d\u00f3lares; e 3\u00ba) o crescimento que se manteve alto em alguns pa\u00edses perif\u00e9ricos importantes, principalmente os chamados BRICs. A crise se manifestou em sua primeira etapa como uma crise no mercado financeiro, que provocou uma redu\u00e7\u00e3o do cr\u00e9dito e do com\u00e9rcio mundial, com impacto na produ\u00e7\u00e3o. Para resolver o problema do cr\u00e9dito, o Estado socorreu as institui\u00e7\u00f5es financeiras, absorvendo para si o endividamento. Isso provocou a crise das d\u00edvidas soberanas na zona do euro em 2011, com novas instabilidades no mercado financeiro que permanecem ao longo do ano de 2012.<\/p>\n<p>A taxa de crescimento do PIB mundial oscilou de 3,94% em 2007 (\u00faltimo ano antes da crise) para 1,5% em 2008 e para -2,05% em 2009, auge da crise, e retomando os 4% em 2010 e 2011 (dados do Banco Mundial, via google public data), com previs\u00e3o de alcan\u00e7ar 3,5% em 2012 (World Economic Outlook, FMI, edi\u00e7\u00e3o de abril de 2012). Podemos falar de uma \u201crecupera\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica\u201d, no que se refere \u00e0 produ\u00e7\u00e3o f\u00edsica e aos resultados financeiros das empresas, mas n\u00e3o de uma supera\u00e7\u00e3o da crise, mesmo nos marcos capitalistas, devido a fatores como a escala do endividamento p\u00fablico e privado, a deteriora\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de vida de importantes setores da popula\u00e7\u00e3o nos pa\u00edses centrais, a instabilidade social da\u00ed decorrente, que permanece tamb\u00e9m em regi\u00f5es como o Oriente M\u00e9dio, a instabilidade tamb\u00e9m no terreno geopol\u00edtico (dificuldades no interior da UE e tamb\u00e9m em rela\u00e7\u00e3o ao Oriente M\u00e9dio), etc.; fatores que projetam a continuidade da crise para o futuro imediato.<\/p>\n<p>As dificuldades para administra\u00e7\u00e3o da crise e as fragilidades do crescimento atual permitem afirmar que a crise segue em andamento. Mesmo que a m\u00e9dia mundial aponte para uma din\u00e2mica de crescimento econ\u00f4mico ao longo deste ano, o fato de que esse crescimento esteja muito fraco num determinado conjunto de economias nacionais n\u00e3o \u00e9 um problema secund\u00e1rio, pois pode ter consequ\u00eancias pol\u00edticas de peso. A situa\u00e7\u00e3o de crise ainda permanece vigente, pois mesmo num momento de crescimento os fatores que podem provocar uma reca\u00edda continuam presentes. Desde 2008 o mundo vive em um \u201cestado de emerg\u00eancia permanente\u201d, um \u201cestado de s\u00edtio econ\u00f4mico\u201d, no sentido de que o risco de uma nova reca\u00edda n\u00e3o foi afastado. O temor de uma reca\u00edda na crise e as medidas para evit\u00e1-la determinam as pol\u00edticas da burguesia no atual per\u00edodo e as respostas que a classe trabalhadora ser\u00e1 obrigada a desenvolver.<\/p>\n<p><b>Fatores estruturais<\/b><\/p>\n<p>\u00c9 qualitativo o fato de a Zona do Euro e a Uni\u00e3o Europ\u00e9ia estarem com o crescimento econ\u00f4mico \u2013 oficial \u2013 muito aqu\u00e9m daquilo que \u00e9 necess\u00e1rio para impulsionar a economia. Oficialmente a Zona do Euro teve crescimento negativo de 0,2%. Apenas Alemanha (0,3) e Fran\u00e7a (estagnada) n\u00e3o tiveram resultado negativo no \u00faltimo trimestre. Nos pa\u00edses que comp\u00f5e a Uni\u00e3o Europeia 8 pa\u00edses est\u00e3o em recess\u00e3o. \u00c9 qualitativo pelo fato de que esses problemas, que se acumulam h\u00e1 anos, n\u00e3o encontram solu\u00e7\u00f5es r\u00e1pidas, principalmente pelas sa\u00eddas constru\u00eddas anteriormente estarem se esgotando, como \u00e9 o caso do papel da China no mercado mundial.<\/p>\n<p>O processo de financeiriza\u00e7\u00e3o e endividamento que se prolonga desde meados dos anos 1970 resultou em massas de capital fict\u00edcio que possuem valor nominal muitas vezes maior do que o total da produ\u00e7\u00e3o mundial. O valor nominal do capital fict\u00edcio em circula\u00e7\u00e3o na forma de derivativos e outros pap\u00e9is especulativos alcan\u00e7ou US$ 720 trilh\u00f5es no per\u00edodo entre 2007 e 2009, enquanto que o PIB mundial estava em US$ 62 trilh\u00f5es (dados do dossi\u00ea \u201cQuem manda no mundo\u201d, do Le Monde Diplomatique Brasil, pg. 23).<\/p>\n<p><b>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/b>O pr\u00f3prio capital produtivo, embora seja a \u00fanica fonte de valor, se torna uma esfera subordinada, submetendo-se \u00e0 l\u00f3gica especulativa, colocando-se sob controle das fra\u00e7\u00f5es financeiras do capital, que perseguem estrat\u00e9gias de valoriza\u00e7\u00e3o globais. O pr\u00f3prio Estado se transformou numa ag\u00eancia a servi\u00e7o do capital financeiro. Na verdade, a fuga para a esfera da especula\u00e7\u00e3o\/endividamento que se intensificou a partir de determinado momento hist\u00f3rico \u00e9 uma express\u00e3o da crise estrutural do capital, em que a queda da taxa de lucro atinge um ponto tal que o capital n\u00e3o pode mais seguir se valorizando pelas vias \u201cnormais\u201d, pela via preponderante da produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em face dessa dificuldade estrutural, as alternativas utilizadas no passado, como a destrui\u00e7\u00e3o de capital sobrante pela via \u201ccl\u00e1ssica\u201d da depress\u00e3o e das guerras mundiais, t\u00eam se mostrado, por enquanto, pol\u00edtica e socialmente impratic\u00e1veis. Diante dessa dificuldade, recorreu-se ent\u00e3o, entre outras medidas, \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de capital fict\u00edcio como paliativo. O capital fict\u00edcio \u00e9 um papel que representa uma expectativa de lucro futuro que \u00e9 vendida no presente. Acontece que o lucro que pode ser gerado no presente jamais alcan\u00e7a a mesma propor\u00e7\u00e3o prometida por esse capital fict\u00edcio. Ao inv\u00e9s de fazer o ajuste de contas e admitir que a expectativa de lucro era irreal, e que portanto o valor que era atribu\u00eddo ao papel n\u00e3o ser\u00e1 alcan\u00e7ado, esse papel \u00e9 revendido a outros compradores por um pre\u00e7o ainda maior. Cria-se uma \u201cbola de neve\u201d de pap\u00e9is sem valor que s\u00e3o soterrados por outros pap\u00e9is com pre\u00e7o cada vez maior.<\/p>\n<p>Estamos falando de uma situa\u00e7\u00e3o em que o sistema capitalista como um todo recorre \u00e0 financeiriza\u00e7\u00e3o da economia como modo de funcionamento predominante. Entretanto, ainda que o capital financeiro apare\u00e7a somente como uma sa\u00edda de exce\u00e7\u00e3o do capital, na verdade, a pr\u00f3pria exist\u00eancia do capital financeiro decorre do funcionamento do sistema social do capital. O capital financeiro n\u00e3o \u00e9 algo &#8220;estranho&#8221;, &#8220;de fora&#8221; do funcionamento do capitalismo. Na verdade, ele \u00e9 a forma mais irracional e acabada do pr\u00f3prio funcionamento do capital: ele gera a ilus\u00e3o de que dinheiro cria mais dinheiro, simples assim! O que se esconde nesse tipo ilus\u00e3o \u00e9 que o pr\u00f3prio capital \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o social e que, portanto, para que seja alcan\u00e7ada essa gera\u00e7\u00e3o de mais-dinheiro, faz-se necess\u00e1ria a explora\u00e7\u00e3o ao m\u00e1ximo do trabalho. E \u00e9 aqui que reside outro problema: mesmo com o aumento da explora\u00e7\u00e3o do trabalho, em nenhuma hip\u00f3tese o montante a ser extra\u00eddo da explora\u00e7\u00e3o daria conta de tornar rent\u00e1vel todo capital hoje existente. Muito pelo contr\u00e1rio, o que se d\u00e1 \u00e9: com o aumento da necessidade de se extrair um montante da explora\u00e7\u00e3o sempre maior, os capitais em concorr\u00eancia fazem de tudo para ter menos custos na produ\u00e7\u00e3o e uma maior produtividade, o que acarreta um desemprego estrutural crescente. Esse mesmo desemprego estrutural crescente cria novas e maiores dificuldades para que circulem as mercadorias, resultando na pr\u00f3pria inviabilidade de muitos capitais. Temos, ent\u00e3o, como resultado, uma situa\u00e7\u00e3o incontrol\u00e1vel em que o capitalismo vai se colocando em um beco sem sa\u00edda: o capital financeiro termina sendo o seu grande problema e a \u00fanica solu\u00e7\u00e3o para sua manuten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para que essa bola de neve especulativa se pusesse em movimento e continuasse funcionando foram necess\u00e1rias v\u00e1rias medidas por parte do Estado em favor do capital financeiro. A desregulamenta\u00e7\u00e3o das finan\u00e7as deu um salto com a mundializa\u00e7\u00e3o do capital nas \u00faltimas d\u00e9cadas, juntamente com as demais pol\u00edticas neoliberais. A sobreviv\u00eancia do mecanismo foi ainda favorecida pela queda dos Estados burocr\u00e1ticos (que possibilitou a explora\u00e7\u00e3o de um &#8220;novo&#8221; mercado) e a subsequente crise da alternativa socialista (que intensificou a desmobiliza\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora). Essa desmobiliza\u00e7\u00e3o abriu caminho para uma brutal ofensiva pol\u00edtica e ideol\u00f3gica sobre as conquistas, a organiza\u00e7\u00e3o e a consci\u00eancia dos trabalhadores, em n\u00edvel mundial. Como resultado dessa ofensiva ideol\u00f3gica e da derrota e desmobiliza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores, a burguesia conseguiu limpar o terreno para uma aplica\u00e7\u00e3o tranquila das pol\u00edticas neoliberais por praticamente duas d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Consequ\u00eancias de longo prazo<\/b><\/p>\n<p>Os efeitos mais nefastos da irracionalidade e insustentabilidade do mecanismo da bola de neve especulativa v\u00eam \u00e0 tona com mais intensidade a cada crise peri\u00f3dica A crise iniciada em 2008 representa o limite para esse mecanismo e para o atual padr\u00e3o de funcionamento do capitalismo neoliberal mundializado. O volume de capital fict\u00edcio acumulado se tornou grande demais para ser deixado \u00e0 pr\u00f3pria sorte, mas ao mesmo tempo n\u00e3o h\u00e1 um poder capaz de impor controle ao movimento desse capital. O sistema se depara com uma de suas contradi\u00e7\u00f5es essenciais, o fato de que n\u00e3o haja um \u00fanico Estado mundial do capital, mas v\u00e1rios Estados nacionais em competi\u00e7\u00e3o uns com os outros em defesa dos interesses das suas burguesias. Os Estados mais fortes podem impor sobre os mais fracos as consequ\u00eancias da administra\u00e7\u00e3o das defici\u00eancias do sistema. Um pa\u00eds como os Estados Unidos, apesar de ter sido o epicentro de irradia\u00e7\u00e3o da \u00faltima crise, sai dela menos debilitado do que as pot\u00eancias de segundo escal\u00e3o da Europa, porque conta com o recurso da emiss\u00e3o de d\u00f3lares (mesmo que para os pr\u00f3prios Estados Unidos, o impacto da crise tenha sido muito grande).<\/p>\n<p>As consequ\u00eancias da crise mais recente, como dissemos, se far\u00e3o sentir ainda por muito tempo, de modo que podemos afirmar que estamos no limiar de uma mudan\u00e7a de etapa hist\u00f3rica. H\u00e1 dois motivos que permitem supor que n\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel uma volta \u00e0s condi\u00e7\u00f5es anteriores. Primeiro, porque a queima de capital fict\u00edcio (e de capital sobreacumulado em geral) foi muito limitada, e as quantidades desses pap\u00e9is em poder do Estado e das corpora\u00e7\u00f5es s\u00e3o grandes demais para caber em qualquer medida racional. As margens para a rolagem desses pap\u00e9is se estreitam gradativamente e se torna mais urgente encontrar algu\u00e9m para pagar a conta. Esse movimento de descarregar sobre a popula\u00e7\u00e3o em geral e a classe trabalhadora os custos do ajuste j\u00e1 est\u00e1 em andamento desde 2008 com os pacotes de salvamento e as medidas de \u201causteridade\u201d, e vai prosseguir pelos pr\u00f3ximos anos. Pelas propor\u00e7\u00f5es do ajuste necess\u00e1rio, o ataque sobre os trabalhadores na verdade apenas come\u00e7ou.<\/p>\n<p>Um brutal ataque sobre as condi\u00e7\u00f5es de vida dos trabalhadores dos pa\u00edses imperialistas est\u00e1 em curso e n\u00e3o deve parar at\u00e9 que o capital que opera nesses pa\u00edses encontre a\u00ed condi\u00e7\u00f5es de valoriza\u00e7\u00e3o. Os Estados imperialistas seguem numa corrida para se tornarem mais competitivos uns em rela\u00e7\u00e3o aos outros. Precisam rebaixar sal\u00e1rios, benef\u00edcios, direitos, gastos sociais, servi\u00e7os p\u00fablicos, condi\u00e7\u00f5es de vida em geral. O sucesso de cada pa\u00eds na aplica\u00e7\u00e3o desses ataques determinar\u00e1 o seu sucesso na tentativa de permanecer \u00e0 tona entre as maiores economias mundiais. E pode determinar tamb\u00e9m o seu fracasso, pois a classe trabalhadora come\u00e7a a se mover em resposta \u00e0 crise.<\/p>\n<p>Eis ent\u00e3o o segundo motivo pelo qual a crise de 2008 representa um divisor de \u00e1guas: a partir de 2011 a classe trabalhadora come\u00e7ou a reagir aos ataques. As maiores mobiliza\u00e7\u00f5es de massa vivenciadas em mais de 20 anos tomaram lugar em 2011 e um estado de intranquilidade prossegue ao longo de 2012. No primeiro momento de impacto da crise, em 2008, a classe trabalhadora foi pega completamente desprevenida e for\u00e7ada a aceitar uma onda de demiss\u00f5es e ajustes. Entretanto, o mesmo n\u00e3o aconteceu em 2011, quando os ajustes foram confrontados por gigantescas mobiliza\u00e7\u00f5es e greves. As lutas contra os ajustes tiveram como principais protagonistas os funcion\u00e1rios p\u00fablicos, v\u00edtimas da pol\u00edtica de cortes e sucateamento dos servi\u00e7os p\u00fablicos, e a juventude, por onde grassa uma taxa de desemprego calamitosa, com peso minorit\u00e1rio do setor oper\u00e1rio. Em seu conjunto o levante da classe trabalhadora \u00e9 um fen\u00f4meno progressivo, mesmo que ainda pade\u00e7a de grandes limites pol\u00edticos, fruto da crise da alternativa socialista.<\/p>\n<p>Os efeitos da derrota da d\u00e9cada de 1990 e da ofensiva pol\u00edtica e ideol\u00f3gica da burguesia come\u00e7am a ficar para tr\u00e1s com a retomada das lutas. Mesmo assim, as condi\u00e7\u00f5es para a supera\u00e7\u00e3o da crise da alternativa socialista est\u00e3o apenas come\u00e7ando a se colocar no cen\u00e1rio. Depois de d\u00e9cadas os trabalhadores retomaram a consci\u00eancia de que \u00e9 poss\u00edvel lutar, fortalecidos pelas li\u00e7\u00f5es da Primavera \u00c1rabe, que prossegue, com todas as suas contradi\u00e7\u00f5es. O foco das lutas em n\u00edvel mundial deve estar na Europa, onde os trabalhadores possuem mais conquistas hist\u00f3ricas, que do ponto de vista do capital representam uma gordura a ser queimada, mas que n\u00e3o devem ser entregues facilmente. Podemos esperar por enfrentamentos muito duros no continente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>A era da \u201causteridade\u201d<\/b><\/p>\n<p>Devido a essas duas quest\u00f5es, a profundidade dos problemas a serem administrados pelo capital e o ressurgimento da disposi\u00e7\u00e3o de luta da classe trabalhadora, a crise de 2008 representa um ponto em rela\u00e7\u00e3o ao qual j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 mais retorno poss\u00edvel. Aquela relativamente tranquila aplica\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas neoliberais de d\u00e9cadas atr\u00e1s deu lugar a um estado permanente de atrito pol\u00edtico e dif\u00edceis negocia\u00e7\u00f5es entre os Estados, e tamb\u00e9m de conflitos sociais potenciais ou abertos no interior de v\u00e1rios pa\u00edses. N\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel tratar dos neg\u00f3cios como antes, pois as margens de manobra est\u00e3o mais estreitas. Essas dificuldades n\u00e3o s\u00e3o passageiras ou conjunturais, pois dizem respeito a problemas estruturais que n\u00e3o podem mais ser ocultos.<\/p>\n<p>Os Estados Unidos apresentam uma d\u00edvida externa de US$ 15.81 trilh\u00f5es, equivalentes a 103% do PIB (dados para junho de 2012, dispon\u00edveis embaseado em <a href=\"https:\/\/www.cia.gov\/library\/publications\/the-world-factbook\/rankorder\/2079rank.html\">https:\/\/www.cia.gov\/library\/publications\/the-world-factbook\/rankorder\/2079rank.html<\/a> e <a href=\"http:\/\/www.jedh.org\/jedh_instrument.html\">http:\/\/www.jedh.org\/jedh_instrument.html<\/a>). Essa cifra se refere ao total da d\u00edvida externa p\u00fablica e privada dos pa\u00edses, e os dados se referem ao per\u00edodo entre 2010 e 2012. Na mesma lista, o endividamento total da Uni\u00e3o Europ\u00e9ia era de US$ 13,72 trilh\u00f5es, equivalentes a 85% do seu PIB. H\u00e1 casos mais dram\u00e1ticos, como o Reino Unido (endividamento de 360% do PIB) e Holanda (344%), n\u00e3o muito citados. Os chamados PIGS apresentavam \u00edndice de endividamento bem \u201cmenor\u201d: 217% (Portugal), 174% (Gr\u00e9cia), 108% (It\u00e1lia e Irlanda), 84% (Espanha). A press\u00e3o sobre os pa\u00edses mais endividados por parte dos mercados financeiros n\u00e3o decorre exatamente do volume total de endividamento, que se refere a d\u00e9bitos de longo prazo, p\u00fablicos e privados, mas ao d\u00e9ficit p\u00fablico e de curto prazo.<\/p>\n<p>Na lista que se refere ao endividamento p\u00fablico, os Estados Unidos devem 62% do PIB, enquanto que os pa\u00edses em situa\u00e7\u00e3o mais problem\u00e1tica s\u00e3o o Jap\u00e3o (198%), a Gr\u00e9cia (143%) e a It\u00e1lia (120%). Quando se considera por\u00e9m o volume absoluto da d\u00edvida, os Estados Unidos s\u00e3o os maiores devedores do mundo, com US$ 9,13 trilh\u00f5es, seguidos do Jap\u00e3o (US$ 8,51 trilh\u00f5es) e logo atr\u00e1s, mas bem abaixo, Alemanha (US$ 2,44 trilh\u00f5es) e It\u00e1lia (US$ 2,11 trilh\u00f5es). A China aparece numa situa\u00e7\u00e3o confort\u00e1vel, com uma d\u00edvida p\u00fablica que equivale a 19% do PIB, com um volume total de US$ 1,90 trilh\u00e3o. O Brasil j\u00e1 deve 59% do PIB, ou US$ 1,28 trilh\u00e3o. Como na tabela anterior, os dados se referem ao per\u00edodo entre 2010 e 2012\u00a0 (<a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Government_debt#y_country\">http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Government_debt#By_country<\/a>). O total do d\u00e9ficit p\u00fablico mundial est\u00e1 em US$ 46,21 trilh\u00f5es (<a href=\"http:\/\/ca.gdc.economist.com.s3.amazonaws.com\/index.html#ebt_per_capita+2012+o+cn+us+br\">http:\/\/ca.gdc.economist.com.s3.amazonaws.com\/index.html#debt_per_capita+2012+o+cn+us+br<\/a>).<\/p>\n<p>A velocidade em que cresce o endividamento tamb\u00e9m aumentou. O d\u00e9ficit p\u00fablico dos Estados Unidos teve um acr\u00e9scimo de US$ 5 trilh\u00f5es entre 2008 e 2011, resultado dos pacotes de salvamento \u00e0s empresas (Dados do Departamento do Tesouro e outros \u00f3rg\u00e3os na tabela \u201cRecent additions to the public debt of the United States\u201d dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/United_States_public_debt\">http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/United_States_public_debt<\/a> e recolhidos a partir dos seguites links: <a href=\"http:\/\/www.treasurydirect.gov\/NP\/BPDLogin?application=np\">http:\/\/www.treasurydirect.gov\/NP\/BPDLogin?application=np<\/a>, <a href=\"http:\/\/www.treasurydirect.gov\/govt\/reports\/pd\/histdebt\/histdebt.htm\">http:\/\/www.treasurydirect.gov\/govt\/reports\/pd\/histdebt\/histdebt.htm<\/a>, <a href=\"http:\/\/www.gpo.gov\/fdsys\/pkg\/BUDGET-2011-TAB\/pdf\/BUDGET-2011-TAB.pdf\">http:\/\/www.gpo.gov\/fdsys\/pkg\/BUDGET-2011-TAB\/pdf\/BUDGET-2011-TAB.pdf<\/a> e <a href=\"http:\/\/www.bea.gov\/national\/index.htm#gdp\">http:\/\/www.bea.gov\/national\/index.htm#gdp<\/a>). Na Europa o endividamento p\u00fablico tamb\u00e9m aumentou enormemente em poucos anos, passando de uma m\u00e9dia de 60% do PIB em 2007, antes da crise, para mais de 80% em 2011 (dados do Eurostat no gr\u00e1fico \u201cD\u00edvida p\u00fablica em percentagem do PIB\u201d em <a href=\"http:\/\/www.google.com\/publicdata\/directory?hl=pt-PT&amp;dl=pt-PT\">http:\/\/www.google.com\/publicdata\/directory?hl=pt-PT&amp;dl=pt-PT<\/a>). Esse aumento explosivo do endividamento p\u00fablico somente se explica com os gastos extraordin\u00e1rios contra\u00eddos pelos governos para as v\u00e1rias modalidades de salvamento das empresas por causa da crise (redu\u00e7\u00e3o de impostos, empr\u00e9stimos subsidiados, redu\u00e7\u00e3o dos juros, perd\u00e3o de d\u00edvidas, compra de t\u00edtulos \u201ct\u00f3xicos\u201d, etc.).<\/p>\n<p>Uma grande reconfigura\u00e7\u00e3o da ordem mundial ser\u00e1 necess\u00e1ria, mudando a forma como a burguesia gerencia o capitalismo e o discurso dos seus representantes no Estado. As receitas tradicionais de pol\u00edtica econ\u00f4mica \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o n\u00e3o d\u00e3o conta do problema. O principal problema, do ponto de vista do gerenciamento da crise, \u00e9 o fato de que, quando houver um novo agravamento da crise, os Estados ter\u00e3o menos muni\u00e7\u00e3o para gastar salvando grandes bancos e empresas, pois queimaram volumes incalcul\u00e1veis de dinheiro para tirar a economia do risco de depress\u00e3o na primeira etapa da crise atual. Apenas isso j\u00e1 projeta no horizonte uma aura sombria de incerteza. Os pr\u00f3prios gestores da burguesia trocaram seu discurso do triunfalismo da \u201cglobaliza\u00e7\u00e3o\u201d e da \u201cNova Economia\u201d de d\u00e9cadas passadas para uma amarga predica\u00e7\u00e3o da &#8220;austeridade&#8221;.<\/p>\n<p>O projeto dos gestores do capital \u00e9 diluir as consequ\u00eancias da crise num largo per\u00edodo de tempo, uma \u201cGrande Recess\u00e3o\u201d, como tem sido chamado o pr\u00f3ximo per\u00edodo que se prev\u00ea para a economia mundial. Projetam-se v\u00e1rios anos ou talvez mais de uma d\u00e9cada de baixo crescimento, tempo ao longo do qual os Estados ter\u00e3o que realizar ajustes estruturais (ou seja, rebaixar as condi\u00e7\u00f5es de vida dos seus trabalhadores), reduzir seu endividamento, fortalecer suas empresas, realizar uma queima organizada de algumas por\u00e7\u00f5es de capital fict\u00edcio; tudo isso sem provocar novas crises financeiras ou crises fiscais, e principalmente, sem provocar instabilidades pol\u00edticas, ou seja, rea\u00e7\u00f5es dos trabalhadores. Esse \u00e9 o plano da burguesia, com a promessa (na verdade irrealiz\u00e1vel) de que depois do purgat\u00f3rio dos ajustes venha o para\u00edso da retomada do crescimento. Resta saber se conseguir\u00e3o aplic\u00e1-lo sem que a classe trabalhadora apresente outro projeto. O mais prov\u00e1vel, por\u00e9m, \u00e9 que justamente devido \u00e0 aus\u00eancia de uma racionalidade coletiva superior a todas as burguesias e dos correspondentes instrumentos de gest\u00e3o, as contradi\u00e7\u00f5es voltem a se manifestar numa nova crise c\u00edclica em poucos anos.<\/p>\n<p><b>Necessidade de uma reconfigura\u00e7\u00e3o<\/b><\/p>\n<p>Os Estados Unidos, epicentro da crise, reencontraram um meio de voltar ao crescimento por meio de um ataque brutal sobre os seus trabalhadores, mas tamb\u00e9m socializando com o restante do mundo capitalista as suas instabilidades, inundando o mercado financeiro com d\u00f3lares. O FED aplicou a pol\u00edtica de \u201cal\u00edvio quantitativo\u201d, que significou colocar mais d\u00f3lares em circula\u00e7\u00e3o, para permitir que os neg\u00f3cios continuassem em andamento, mesmo com o risco de infla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Combinado com o ataque aos trabalhadores, essa pol\u00edtica de desvaloriza\u00e7\u00e3o do d\u00f3lar tornou as mercadorias estadunidenses mais baratas. Trata-se de uma pol\u00edtica consciente de buscar reverter o gigantesco d\u00e9ficit da balan\u00e7a comercial ou impedir que aumente. O d\u00e9ficit comercial dos Estados Unidos foi de US$ 726,3 bilh\u00f5es em 2011, um incremento no d\u00e9ficit de 14,46%, na compara\u00e7\u00e3o com 2010. Apenas com a China o d\u00e9ficit foi de US$ 295,4 bilh\u00f5es, seguido de M\u00e9xico (US$ 65,5 bilh\u00f5es), Jap\u00e3o (US$ 62,6 bilh\u00f5es), Alemanha (US$ 49,2 bilh\u00f5es) e Canad\u00e1 (US$ 35,7 bilh\u00f5es). Com o Brasil houve super\u00e1vit de US$ 11,6 bilh\u00f5es (os dados s\u00e3o do Departamento do Com\u00e9rcio do governo estadunidense, dispon\u00edveis no site Brasil Global.Net., mantido pelo Minist\u00e9rio das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores, <a href=\"http:\/\/www.brasilglobalnet.gov.br\/Noticias\/frmDetalhe.aspx?noticia=447\">http:\/\/www.brasilglobalnet.gov.br\/Noticias\/frmDetalhe.aspx?noticia=447<\/a>, publicado em 23.2.2012). Essa pol\u00edtica tem repercuss\u00f5es tamb\u00e9m no plano externo, com as press\u00f5es sobre a China para que valorize sua moeda. Essa press\u00e3o \u00e9 exercida n\u00e3o apenas pelos Estados Unidos, mas pelo conjunto dos pa\u00edses imperialistas. Todos sentem a necessidade de diminuir o d\u00e9ficit comercial com a China. Ao mesmo tempo, dependem da economia chinesa para financiar suas d\u00edvidas.<\/p>\n<p>Essa rela\u00e7\u00e3o de conflito-depend\u00eancia com a China \u00e9 uma das caracter\u00edsticas do capitalismo atual. Assim como a China, h\u00e1 um conjunto de pa\u00edses que vem adquirindo maior peso devido ao seu crescimento econ\u00f4mico, os quais precisam ser contemplados de alguma forma na gest\u00e3o do sistema. O grupo dos pa\u00edses mais ricos do mundo, o G-8, foi ampliado para G-20 na tentativa de encontrar solu\u00e7\u00f5es comuns para a gest\u00e3o da crise em 2008. Ao mesmo tempo em que s\u00e3o chamados para discuss\u00e3o, os pa\u00edses do G-20 s\u00e3o chamados tamb\u00e9m a assumir responsabilidades na defesa do projeto em aplica\u00e7\u00e3o. Pa\u00edses como o Brasil s\u00e3o chamados a fazer aportes ao FMI para ajudar a apagar o inc\u00eandio da crise banc\u00e1ria na Europa.<\/p>\n<p>Enquanto os Estados Unidos tentam se recuperar e os maiores pa\u00edses perif\u00e9ricos s\u00e3o parcialmente integrados na gest\u00e3o do sistema, a Europa luta para se manter \u00e0 tona. Apesar do gigantesco d\u00e9ficit comercial e d\u00e9ficit p\u00fablico dos Estados Unidos, n\u00e3o foi o d\u00f3lar que mais sofreu com a crise, mas o euro, devido aos problemas dos pa\u00edses da periferia europeia. Para tentar salvar o euro e tentar salvar a si mesma, a Alemanha tem tentado for\u00e7ar as burguesias dos demais pa\u00edses europeus a aceitar a sua condu\u00e7\u00e3o na imposi\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas de \u201causteridade\u201d.<\/p>\n<p>A burguesia mundial procura construir a sua unidade contra os trabalhadores no projeto da &#8220;austeridade&#8221;, ao mesmo tempo em que cada fra\u00e7\u00e3o nacional da burguesia precisa se reconstruir para se manter viva na disputa interimperialista contra as demais. Por conta da aplica\u00e7\u00e3o desse projeto, as rela\u00e7\u00f5es entre os Estados est\u00e3o sendo reorganizadas. As pot\u00eancias imperialistas precisam reafirmar seus interesses e colocar cada um no seu lugar na \u201ccadeia alimentar\u201d do capitalismo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>As v\u00e1rias formas da guerra imperialista<\/b><\/p>\n<p>No passado as disputas interimperialistas provocadas pelas crises eram resolvidas por meio da guerra entre as maiores pot\u00eancias, que se transformavam em guerras mundiais. No cen\u00e1rio atual, em que todas as grandes pot\u00eancias e at\u00e9 algumas m\u00e9dias possuem arsenais nucleares, o cen\u00e1rio de uma guerra mundial apocal\u00edptica est\u00e1 longe de ser o mais prov\u00e1vel. Entretanto, a insanidade de alguns setores da burguesia nunca pode ser totalmente descartada como possibilidade, mesmo que distante. A luta pela paz e pelo desarmamento das pot\u00eancias nucleares deve estar sempre colocada como horizonte.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo em que a guerra mundial total est\u00e1 descartada como possibilidade imediata, as guerras limitadas ou de menor intensidade se tornam uma possibilidade mais presente e amea\u00e7adora. O estado de press\u00e3o permanente sobre o Ir\u00e3 por conta de seu programa nuclear e as amea\u00e7as de interven\u00e7\u00e3o direta na S\u00edria s\u00e3o exemplos desse tipo de guerra. Tais guerras podem atender ao triplo objetivo de destruir capital sobrante, fazer girar a roda da demanda por meio de encomendas do Estado ao complexo industrial-militar, e garantir \u00e0s pot\u00eancias vencedoras o controle sobre regi\u00f5es estrat\u00e9gicas como o Oriente M\u00e9dio e \u00c1sia Central, fontes de petr\u00f3leo e g\u00e1s natural. Essas guerras podem ser travadas entre os Estados Unidos (acompanhados talvez da OTAN) e a R\u00fassia e\/ou China, n\u00e3o diretamente, caso em que se transformariam em guerras mundiais, mas indiretamente, atrav\u00e9s de seus aliados na regi\u00e3o, como Israel e Ar\u00e1bia Saudita de um lado, S\u00edria e Ir\u00e3 de outro.<\/p>\n<p>O \u201cestado de emerg\u00eancia permanente\u201d ou \u201cestado de s\u00edtio econ\u00f4mico\u201d tem como fei\u00e7\u00e3o pol\u00edtica o estado de beliger\u00e2ncia permanente, as guerras e amea\u00e7as de guerra. Al\u00e9m das guerras regulares entre Estados, est\u00e3o em vigor tamb\u00e9m as guerras declaradas sem inimigo definido, como a \u201cguerra ao terror\u201d e a \u201cguerra \u00e0s drogas\u201d. Tais guerras podem se prolongar indefinidamente, movendo-se de um alvo ao outro, de um pa\u00eds para outro, sempre que alguma amea\u00e7a fantasma como a \u201cAl Qaeda\u201d for mobilizada para reativar o estado de p\u00e2nico e \u00f3dio chauvinista da opini\u00e3o p\u00fablica. Do Iraque e Afeganist\u00e3o para a S\u00edria e o Ir\u00e3, da Col\u00f4mbia para o M\u00e9xico, as guerras sem alvo definido tamb\u00e9m n\u00e3o t\u00eam fim e podem se prolongar indefinidamente no tempo. Primeiro \u00e9 Saddam, depois Bin Laden, depois algum chef\u00e3o do tr\u00e1fico de drogas, e assim sucessivamente.<\/p>\n<p>Para c\u00famulo do cinismo, h\u00e1 tamb\u00e9m as interven\u00e7\u00f5es que se disfar\u00e7am de \u201cajuda humanit\u00e1ria\u201d, como no Haiti, ou de defesa da \u201cdemocracia\u201d, como na L\u00edbia. Com isso cria-se a legitimidade para a interven\u00e7\u00e3o armada de grandes pot\u00eancias imperialistas, especialmente os Estados Unidos, no territ\u00f3rio de pa\u00edses formalmente soberanos. Tropas de terra, bombardeios com avi\u00f5es-rob\u00f4s, bases militares permanentes, agentes de espionagem, etc., estendem seus tent\u00e1culos por todo o globo terrestre, atuando mesmo que n\u00e3o haja um estado de guerra formalmente declarado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>A guerra social pelas vias democr\u00e1ticas<\/b><\/p>\n<p>Sob o pretexto de combater esses inimigos artificiais, a militariza\u00e7\u00e3o visa na verdade destruir a contesta\u00e7\u00e3o e a luta social nos pa\u00edses e regi\u00f5es estrat\u00e9gicas em disputa, impedindo a organiza\u00e7\u00e3o e a luta dos trabalhadores e dos povos contra os interesses imperialistas.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da guerra direta e das \u201cguerras infinitas\u201d, n\u00e3o se podem descartar tamb\u00e9m os golpes de Estado. No caso de pa\u00edses perif\u00e9ricos como os da Am\u00e9rica Latina, em que as margens de manobra diante da crise mundial s\u00e3o ainda menores, os setores mais reacion\u00e1rios n\u00e3o podem admitir qualquer perda m\u00ednima de controle sobre o Estado, qualquer possibilidade de amea\u00e7a aos seus interesses, qualquer possibilidade de um cen\u00e1rio em que os trabalhadores possam colocar em pauta suas reivindica\u00e7\u00f5es. Por isso apelam para golpes de Estado, como em Honduras em 2009 e no Paraguai em 2012. Trata-se de golpes desfechados a partir das regras da pr\u00f3pria democracia burguesa, por meio de processos fraudulentos, mas que acabam por se impor institucionalmente.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m podemos classificar como golpes de Estado a imposi\u00e7\u00e3o de governos como os de Papademos na Gr\u00e9cia e Monti na It\u00e1lia nos primeiros meses de 2012. S\u00e3o governantes impostos diretamente pelos bancos para garantir que os governos desses pa\u00edses sigam aplicando os planos de &#8220;austeridade&#8221; e pagando aos bancos \u00e0 custa do sofrimento de suas popula\u00e7\u00f5es. No caso da Gr\u00e9cia houve elei\u00e7\u00f5es recentemente, em que um representante de um dos partidos oficiais foi legitimado para aplicar o memorando de ajuste das institui\u00e7\u00f5es europeias. Foram necess\u00e1rias duas vota\u00e7\u00f5es para constituir um governo, nas quais a popula\u00e7\u00e3o grega foi bombardeada com a amea\u00e7a de caos caso n\u00e3o votasse \u201ccorretamente\u201d, ou seja, de acordo com os interesses dos bancos.<\/p>\n<p>O discurso ideol\u00f3gico da n\u00e3o interven\u00e7\u00e3o do Estado, t\u00edpico do auge do neoliberalismo, foi substitu\u00eddo na pr\u00e1tica por uma esp\u00e9cie de \u201cconsenso de Pequim\u201d, em que o Estado assume o papel central de sustenta\u00e7\u00e3o da economia capitalista, com caracter\u00edsticas mais autorit\u00e1rias. Isso n\u00e3o significa que o capital financeiro, maior benefici\u00e1rio da desregulamenta\u00e7\u00e3o neoliberal, tenha sido alijado do poder pol\u00edtico, mas pelo contr\u00e1rio. O Estado precisa se tornar mais autorit\u00e1rio e reduzir a democracia a uma farsa precisamente com o objetivo de viabilizar o saque dos fundos p\u00fablicos para socorrer as institui\u00e7\u00f5es financeiras. A submiss\u00e3o direta do Estado ao capital financeiro resulta em um regime de caracter\u00edsticas mais autorit\u00e1rias, em que a democracia formal \u00e9 atropelada para impor diretamente e sem media\u00e7\u00f5es os interesses dos bancos.<\/p>\n<p>Tal \u00e9 o car\u00e1ter da democracia burguesa na \u00e9poca atual, uma democracia em que se pode expressar qualquer opini\u00e3o, desde que n\u00e3o signifique um questionamento aos fundamentos do sistema. Pode-se dizer qualquer coisa, desde que fique no terreno da opini\u00e3o e n\u00e3o tenha consequ\u00eancias pr\u00e1ticas. Pode-se fazer uma confer\u00eancia mundial como a Rio+20 com o discurso de proteger o meio ambiente para fazer exatamente o contr\u00e1rio, sacramentar a continuidade da destrui\u00e7\u00e3o. Pode-se fazer greve, desde que n\u00e3o cause preju\u00edzos aos patr\u00f5es e mantenha os servi\u00e7os em funcionamento. Pode-se fazer manifesta\u00e7\u00f5es, desde que n\u00e3o paralise o tr\u00e2nsito, n\u00e3o incomode ningu\u00e9m, n\u00e3o seja notado, ou seja, n\u00e3o manifeste realmente nada. Qualquer coisa que v\u00e1 al\u00e9m desse roteiro previamente tra\u00e7ado \u00e9 tratado como crime. A repress\u00e3o aos movimentos sociais por meio de gigantescos operativos policiais, judiciais e midi\u00e1ticos se tornou uma rotina em escala mundial.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da repress\u00e3o por parte do Estado, os trabalhadores em movimento, seus setores de vanguarda, militantes e dirigentes, enfrentam a persegui\u00e7\u00e3o direta da patronal, os assassinatos nas m\u00e3os de jagun\u00e7os e mil\u00edcias, as pris\u00f5es arbitr\u00e1rias e torturas, demiss\u00f5es e processos administrativos, persegui\u00e7\u00e3o e ass\u00e9dio moral, as cal\u00fanias e campanhas de difama\u00e7\u00e3o na m\u00eddia, etc. Tudo isso visa intimidar as vanguardas em luta e mant\u00ea-las isoladas do contato com o restante da classe trabalhadora, para impedir que o germe da mobiliza\u00e7\u00e3o se espalhe.<\/p>\n<p><b>Democracia burguesa e avan\u00e7o da direita<\/b><\/p>\n<p>Nos momentos de crise a sociedade acaba passando por uma polariza\u00e7\u00e3o em que os seus elementos mais extremos se manifestam e algumas media\u00e7\u00f5es artificias se dissolvem. As contradi\u00e7\u00f5es se explicitam de forma mais pura. A gest\u00e3o da sociedade nas m\u00e3os da classe dominante aparece em toda a sua crueza como um brutal absurdo: trilh\u00f5es de d\u00f3lares sendo entregues aos bancos e milh\u00f5es de pessoas passando fome, morrendo de doen\u00e7as trat\u00e1veis, sendo exterminados em guerras travadas contra seus interesses, vivendo na mis\u00e9ria material e espiritual.<\/p>\n<p>Essa gest\u00e3o \u00e9 realizada por meio do Estado, para cuja administra\u00e7\u00e3o rotineira forma-se um imenso campo de consenso pol\u00edtico entre os partidos da ordem, desde os partidos burgueses conservadores tradicionais, at\u00e9 os partidos de \u201cesquerda\u201d, reformistas, centristas, stalinistas reciclados e ex-revolucion\u00e1rios, todos comprometidos com a continuidade da ordem, contra as solu\u00e7\u00f5es \u201cextremas\u201d. Os planos de &#8220;austeridade&#8221; s\u00e3o o horizonte com que trabalham, com matizes de diferencia\u00e7\u00e3o apenas no ritmo da aplica\u00e7\u00e3o dos ataques \u00e0 popula\u00e7\u00e3o. O que ningu\u00e9m se atreve \u00e9 a questionar todo o projeto que est\u00e1 em curso, de modo que todos esses partidos funcionam como representantes da burguesia.<\/p>\n<p>Contra esse imenso centro pol\u00edtico pr\u00f3-&#8220;austeridade&#8221;, levantam-se setores sociais e manifesta\u00e7\u00f5es com car\u00e1ter de classe e metodologia opostas: a ultradireita de um lado e as lutas dos trabalhadores do outro. De um lado, cresce a indigna\u00e7\u00e3o, a revolta e o desejo de lutar contra essa realidade, por parte dos trabalhadores afetados pelas medidas de &#8220;austeridade&#8221;, na forma da greve e das mobiliza\u00e7\u00f5es da juventude, controladas com relativa dificuldade pelas burocracias sindicais e partid\u00e1rias. De outro lado, cresce o apelo das solu\u00e7\u00f5es da extrema direita, que colocam a culpa da crise em setores da classe trabalhadora, imigrantes, negros, \u00e1rabes, mu\u00e7ulmanos, homossexuais, jogando uma parte da classe contra a outra. Prometem uma solu\u00e7\u00e3o \u201cnacional\u201d para os problemas sem questionar o capitalismo. Mobilizam a ignor\u00e2ncia e a despolitiza\u00e7\u00e3o de amplos setores da classe para apoiar pol\u00edticas que s\u00e3o contr\u00e1rias aos seus interesses. Esses setores de ultradireita crescem e se organizam em diversos pa\u00edses, formam partidos e alcan\u00e7am resultados eleitorais expressivos. Em meio \u00e0 desorganiza\u00e7\u00e3o e fragmenta\u00e7\u00e3o da esquerda revolucion\u00e1ria, a ultradireita vai colhendo seus frutos.<\/p>\n<p>Al\u00e9m dessa express\u00e3o eleitoral, o pensamento conservador de modo geral encontra maior respaldo e legitima\u00e7\u00e3o social do que antes. Al\u00e9m dos partidos neofascistas, as seitas religiosas crescem entre a classe trabalhadora. Pol\u00edticos ultraconservadores nos Estados Unidos querem aprovar leis antiaborto, pelo ensino do criacionismo b\u00edblico, pela \u201ccura\u201d de homossexuais, etc. Nos pa\u00edses em que as ditaduras foram varridas pela Primavera \u00c1rabe, ganham elei\u00e7\u00f5es os partidos isl\u00e2micos, com uma ideologia conservadora, patriarcal, machista e homof\u00f3bica. Nos centros \u201cdesenvolvidos\u201d do capitalismo, nos pa\u00edses imperialistas e nas metr\u00f3poles da periferia os ataques \u00e0s minorias, imigrantes, negros, \u00e1rabes, mu\u00e7ulmanos, homossexuais, intelectuais, etc., s\u00e3o organizados por bandos fascistas para intimidar esses setores.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Mundializa\u00e7\u00e3o do capital, fragmenta\u00e7\u00e3o da classe e crescimento da ultradireita.<\/b><\/p>\n<p>A mundializa\u00e7\u00e3o colocou o capital numa posi\u00e7\u00e3o bastante vantajosa em rela\u00e7\u00e3o ao trabalho no que se refere \u00e0s possibilidades de gerir suas opera\u00e7\u00f5es em escala global. N\u00e3o \u00e9 apenas o capital especulativo que circula entre os pa\u00edses, mas tamb\u00e9m a pr\u00f3pria produ\u00e7\u00e3o. Grandes empresas transnacionais estabelecem bases em dezenas de pa\u00edses e podem arbitrar, com grande liberdade de movimento entre esses diversos territ\u00f3rios, onde ser\u00e3o feitos os investimentos, onde ser\u00e3o montadas as f\u00e1bricas, onde ser\u00e1 dado o acabamento final dos produtos, onde ser\u00e1 comprada a mat\u00e9ria prima, como ser\u00e1 feito o transporte intercontinental, etc., e principalmente, onde e a que pre\u00e7o ser\u00e3o contratados os trabalhadores.<\/p>\n<p>Com essa flexibilidade, as grandes empresas podem for\u00e7ar para baixo o pre\u00e7o da for\u00e7a de trabalho em n\u00edvel mundial, for\u00e7ando trabalhadores de um determinado pa\u00eds a aceitar os sal\u00e1rios e condi\u00e7\u00f5es de trabalho mais baixas dispon\u00edveis. Isso \u00e9 feito mediante a amea\u00e7a de transferir os neg\u00f3cios para outros pa\u00edses onde os custos s\u00e3o mais baratas, levando embora os empregos, ou trazendo trabalhadores \u201cimportados\u201d. Como n\u00e3o h\u00e1 resist\u00eancia \u00e0 altura por parte do movimento sindical e muito menos dos governos, para impor a nacionaliza\u00e7\u00e3o das empresas que fecharem ou amea\u00e7arem se transferir, o que acaba acontecendo \u00e9 o oposto, a mundializa\u00e7\u00e3o do mercado de trabalho local, a sua regula\u00e7\u00e3o efetiva pelos pre\u00e7os mundiais, ou seja, o estabelecimento de regras e contratos de acordo com o que \u00e9 mais vantajoso para as empresas.<\/p>\n<p>Essa mundializa\u00e7\u00e3o do mercado de trabalho no interior do pa\u00eds divide os trabalhadores em v\u00e1rios setores, os mais velhos contra os mais jovens, os nacionais contra os imigrantes, e assim por diante, em diversas combina\u00e7\u00f5es. Os mais velhos, que tem mais compromissos assumidos ao longo da vida, fam\u00edlia, etc., se revoltam com a \u201cinvas\u00e3o\u201d de jovens que aceitam trabalhar por baixos sal\u00e1rios. Os \u201cnativos\u201d se revoltam com a \u201cinvas\u00e3o\u201d do pa\u00eds por negros, \u00e1rabes, latinos, mu\u00e7ulmanos, etc., que v\u00eam \u201croubar seus empregos\u201d. Os jovens se revoltam por n\u00e3o ter empregos como os dos seus pais, que lhes permitam sair de casa, etc. Os imigrantes, confinados em bairros perif\u00e9ricos, em empregos precarizados e em condi\u00e7\u00f5es de vida inferiores, se revoltam com a persegui\u00e7\u00e3o policial, o racismo, o autoritarismo dos chefes, etc. Ao mesmo tempo, formam a clientela e a for\u00e7a de trabalho de pequenos e grandes neg\u00f3cios criminosos, do tr\u00e1fico de drogas internacional, das m\u00e1fias, etc. Quando acontecem lutas trabalhistas, \u00e9 muito mais dif\u00edcil que os sindicatos, partidos ou qualquer organiza\u00e7\u00e3o possa organizar uma classe assim fragmentada. A maioria das correntes se acomoda com a defesa de um determinado setor, abandonando os demais.<\/p>\n<p>Com isso, \u00e9 mais f\u00e1cil para a burguesia jogar os trabalhadores de um pa\u00eds contra os de outros pa\u00edses, alimentando rivalidades nacionalistas, ressentimentos e \u00f3dio racial e religioso, xenofobia, etc. \u00c9 desse caldo de cultura que se alimentam as organiza\u00e7\u00f5es de extrema direita, neonazistas e fascistas. Esses grupos prometem o retorno da velha prosperidade, dos empregos, sal\u00e1rios e condi\u00e7\u00f5es de vida do velho Estado do bem-estar social, mediante a expuls\u00e3o dos estrangeiros e dos diferentes em geral. Com suas promessas eleitorais de limpeza \u00e9tnica, volta da seguran\u00e7a, volta da moralidade, volta dos valores crist\u00e3os, os partidos de extrema-direita obt\u00e9m resultados eleitorais expressivos.<\/p>\n<p>Um dos exemplos mais marcantes desse crescimento eleitoral da ultradireita foi o de Marine Le Pen, na Fran\u00e7a, com 27% no primeiro turno das elei\u00e7\u00f5es presidenciais de 2012, chegando a terceiro lugar. Seu discurso foi parcialmente assumido pelo segundo colocado, o presidente Sarkozy, que tentava reelei\u00e7\u00e3o (e perdeu), e apelou para os valores tradicionais (conservadores) da Fran\u00e7a contra a amea\u00e7a estrangeira. Tamb\u00e9m chamou a aten\u00e7\u00e3o a expressiva vota\u00e7\u00e3o do partido \u201cAurora Dourada\u201d na Gr\u00e9cia, que obteve 7% dos votos nas elei\u00e7\u00f5es de 2012, elegendo 18 deputados para o parlamento grego, que tem 300 cadeiras. A Aurora Dourada defende a expuls\u00e3o de todos os imigrantes da Gr\u00e9cia para deixar os empregos para os gregos. Seu l\u00edder \u00e9 um ex-militar formado pela CIA que combateu como volunt\u00e1rio ao lado dos nacionalistas s\u00e9rvios para exterminar mu\u00e7ulmanos na guerra da B\u00f3snia nos anos 90, defende a volta da ditadura dos coron\u00e9is (que governou a Gr\u00e9cia entre 1967 e 1974), adota a sauda\u00e7\u00e3o nazista, um s\u00edmbolo semelhante \u00e0 su\u00e1stica em sua bandeira e diz que Hitler deveria ter vencido a guerra. Mais moderado (ou menos monstruoso), o partido \u201cGregos Independentes\u201d, tamb\u00e9m de extrema direita, obteve 12% dos votos.<\/p>\n<p>Outro fen\u00f4meno importante \u00e9 o do Tea Party nos Estados Unidos (o nome foi tirado da \u201crevolta do ch\u00e1\u201d de Boston, em 1773, quando comerciantes americanos se revoltaram contra o monop\u00f3lio do ch\u00e1 estabelecido pela Inglaterra e se disfar\u00e7aram de \u00edndios para jogar carregamentos de ch\u00e1 no mar, no porto de Boston, e esse fato foi o estopim que detonou a forma\u00e7\u00e3o do movimento independentista, que proclamou a emancipa\u00e7\u00e3o das 13 col\u00f4nias em 1776), a ala de extrema-direita do partido republicano, que acaba de indicar Paul Ryan como vice na chapa de Mitt Romney para concorrer \u00e0 Casa Branca. O Tea Party defende um programa econ\u00f4mico radicalmente neoliberal (corte de impostos das empresas e grandes fortunas, corte de gastos nos programas sociais, fim das regulamenta\u00e7\u00f5es no mercado financeiro, fim das restri\u00e7\u00f5es ambientais \u00e0s atividades das corpora\u00e7\u00f5es) e uma vis\u00e3o social fundamentalista crist\u00e3 (contra o casamento homossexual, contra o uso de contraceptivos, contra o aborto, contra a pesquisa com c\u00e9lulas tronco, em defesa do ensino do criacionismo b\u00edblico, a favor da expuls\u00e3o de imigrantes).<\/p>\n<p>Essas ideias s\u00e3o bastante populares nos setores mais ignorantes do eleitorado, tamb\u00e9m propensos a odiar negros, latinos, asi\u00e1ticos, mu\u00e7ulmanos, etc., e a acreditar nas mais delirantes teorias da conspira\u00e7\u00e3o (como a de que Obama n\u00e3o nasceu em territ\u00f3rio estadunidense, secretamente pratica a religi\u00e3o isl\u00e2mica e \u00e9 um \u201ccomunista\u201d enviado pela ONU para invadir os Estados Unidos, instalar um regime ditatorial, acabar com as \u201cliberdades democr\u00e1ticas\u201d e abrir caminho para o saque da na\u00e7\u00e3o por b\u00e1rbaros negros, latinos, asi\u00e1ticos, mu\u00e7ulmanos, homossexuais, etc.). Foi com base nesse tipo de cren\u00e7a que um terrorista de extrema direita matou 6 pessoas num tempo sikh no Estado de Wisconsin. Sites na internet defendem o assassinato de Obama como um ato patri\u00f3tico que libertaria o pa\u00eds da amea\u00e7a \u201ccomunista\u201d, mu\u00e7ulmana e homossexual.<\/p>\n<p>Portanto, al\u00e9m dos partidos organizados de extrema direita disputando elei\u00e7\u00f5es e obtendo resultados expressivos, temos o fen\u00f4meno de grupos clandestinos e ativistas agindo individualmente em defesa de sua \u201ccausa\u201d. Esse fen\u00f4meno existe n\u00e3o apenas nos Estados Unidos, mas tamb\u00e9m na Europa, como o noruegu\u00eas que matou mais de 77 pessoas em um acampamento da juventude do partido trabalhista (atual partido governante) em 2011 para protestar contra a invas\u00e3o do continente por mu\u00e7ulmanos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Caracter\u00edsticas das lutas<\/b><\/p>\n<p>Ao longo de v\u00e1rias d\u00e9cadas de reformas neoliberais, a burguesia criou camadas de trabalhadores separadas por n\u00edveis de remunera\u00e7\u00e3o, direitos e organiza\u00e7\u00e3o diferenciados. De um lado, h\u00e1 uma camada de trabalhadores mais velhos, que ingressou no mercado de trabalho sob um determinado conjunto de regras salariais, de benef\u00edcios, de aposentadoria, de sindicaliza\u00e7\u00e3o, etc., e que trabalha num n\u00facleo reduzido de empresas estrat\u00e9gicas. De outro lado, h\u00e1 uma massa de trabalhadores mais jovens, que j\u00e1 entra no mercado para trabalhar mais, ganhando menos, sem seguran\u00e7a com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 aposentadoria, em trabalhos precarizados, tempor\u00e1rios, etc. Esse escalonamento entre as diversas gera\u00e7\u00f5es de trabalhadores explica porque os jovens est\u00e3o na linha de frente da luta contra as medidas de \u201causteridade\u201d e as demais consequ\u00eancias da crise, pois suas perspectivas de futuro s\u00e3o cada vez mais reduzidas.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, os trabalhadores das antigas gera\u00e7\u00f5es e n\u00facleos industriais mais estrat\u00e9gicos s\u00e3o a base de sustenta\u00e7\u00e3o da antiga burocracia sindical ligada aos velhos partidos social-democratas (hoje \u201csocial-liberais\u201d) e ex-stalinistas reciclados, que cumprem o papel de impedir a unifica\u00e7\u00e3o das lutas. Em muitos pa\u00edses essa antiga burocracia sindical participa diretamente da gest\u00e3o das empresas, como uma esp\u00e9cie de departamento de recursos humanos externalizado, com a fun\u00e7\u00e3o de legitimar os sucessivos acordos com demiss\u00f5es, rebaixamento dos sal\u00e1rios, retirada de benef\u00edcios, revoga\u00e7\u00e3o de direitos, precariza\u00e7\u00e3o, etc. Isso explica tamb\u00e9m o rep\u00fadio dos jovens aos sindicatos, partidos e quaisquer formas de organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, postura prevalecente nos atuais movimentos de luta.<\/p>\n<p>Desde o in\u00edcio da crise mundial v\u00e1rios movimentos de luta dos trabalhadores foram desencadeados em resposta aos ataques da burguesia. Os mais importantes desses movimentos, como a Primavera \u00c1rabe, Ocupar Wall Street (e seus derivados), os Indignados, revoltas da juventude, etc., al\u00e9m das v\u00e1rias greves gerais em pa\u00edses europeus j\u00e1 foram analisados por n\u00f3s desde o seu aparecimento em 2011 passada. Consideramos esses movimentos como progressivos, em fun\u00e7\u00e3o de terem representado uma reentrada da classe trabalhadora na cena pol\u00edtica com um peso que n\u00e3o se via em v\u00e1rias d\u00e9cadas, modificando ligeiramente a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as e dificultando a aplica\u00e7\u00e3o dos planos da burguesia. Entretanto, identificamos que esses movimentos possuem s\u00e9rios limites, como: 1\u00ba) o fato de que lutam por quest\u00f5es parciais, como objetivos pol\u00edticos ou econ\u00f4micos restritos, sem colocar em quest\u00e3o o capitalismo como um todo e a necessidade de super\u00e1-lo, 2\u00ba) a recusa em desenvolver formas de organiza\u00e7\u00e3o permanentes que deem sequ\u00eancia e organicidade \u00e0s lutas e que permitam \u00e0 classe se reconstruir como sujeito, 3\u00ba) a nega\u00e7\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica ou antipartidarismo, o rep\u00fadio aos partidos organizados, que se estende \u00e0s organiza\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias.<\/p>\n<p>Desde o in\u00edcio de 2011 v\u00e1rias lutas continuaram eclodindo, reproduzindo aproximadamente as mesmas caracter\u00edsticas dos movimentos acima. De toda forma, a situa\u00e7\u00e3o mundial se mant\u00e9m com o importante aspecto de que o imperialismo n\u00e3o consegue aplicar sua pol\u00edtica com a mesma desenvoltura de d\u00e9cadas passadas ou mesmo dos primeiros anos da crise. A resist\u00eancia da classe trabalhadora \u00e9 muito mais massiva e tamb\u00e9m multifacetada, ainda que permane\u00e7a atravessada pelos limites acima. Podemos citar v\u00e1rios exemplos pontuais dessa resist\u00eancia ao longo do \u00faltimo per\u00edodo aberto pela nova situa\u00e7\u00e3o mundial.<\/p>\n<p>Um elemento que permanece desde o in\u00edcio da d\u00e9cada passada \u00e9 a resist\u00eancia armada em pa\u00edses como Iraque e Afeganist\u00e3o contra a ocupa\u00e7\u00e3o militar estadunidense e imperialista. Desde o in\u00edcio da invas\u00e3o o imperialismo jamais alcan\u00e7ou um grau de estabilidade que lhe permitisse desenvolver seus neg\u00f3cios como tinha sido originalmente planejado, o que fez com que o custo humano, pol\u00edtico e financeiro da invas\u00e3o fosse muito maior do que os ganhos. Por outro lado, os setores que lideram a resist\u00eancia n\u00e3o t\u00eam qualquer identidade com o programa e os m\u00e9todos oper\u00e1rios e revolucion\u00e1rios: s\u00e3o grupos armados isl\u00e2micos e sect\u00e1rios. Ainda assim, h\u00e1 um rep\u00fadio da popula\u00e7\u00e3o em geral contra a invas\u00e3o imperialista, mesmo que n\u00e3o se reflita em apoio expl\u00edcito \u00e0s lutas armadas. Em fevereiro de 2012 uma onda de protestos varreu o Afeganist\u00e3o depois que foram reveladas imagens de soldados estadunidenses queimando c\u00f3pias do Alcor\u00e3o ou urinando sobre os cad\u00e1veres de soldados afeg\u00e3os. Esse tipo de ofensa j\u00e1 era conhecido e j\u00e1 havia provocado protestos anteriores no pr\u00f3prio Afeganist\u00e3o e em outros pa\u00edses de maioria mu\u00e7ulmana. Entretanto, os protestos de 2012 alcan\u00e7aram uma escala t\u00e3o grande que o pr\u00f3prio Obama foi for\u00e7ado a pedir desculpas. Os afeg\u00e3os protestavam n\u00e3o apenas contra a presen\u00e7a estrangeira, mas contra a condi\u00e7\u00e3o de mis\u00e9ria da maioria de sua popula\u00e7\u00e3o, com palavras de ordem dirigidas igualmente contra os Estados Unidos e contra o governo t\u00edtere de Hamid Karzai.<\/p>\n<p>A \u00cdndia \u00e9 uma das estrelas dos chamados BRICs e um dos novos para\u00edsos da expans\u00e3o capitalista baseada na superexplora\u00e7\u00e3o de for\u00e7a de trabalho barata, com \u00edndices de crescimento pr\u00f3ximos daqueles da China. Entre fevereiro e mar\u00e7o de 2012 uma gigantesca greve geral paralisou partes importantes do pa\u00eds, com ades\u00e3o de algo em torno de 100 milh\u00f5es de trabalhadores, em luta contra a carestia (impulsionada principalmente pela alta dos pre\u00e7os do petr\u00f3leo), pela implanta\u00e7\u00e3o de direitos trabalhistas e benef\u00edcios sociais (praticamente 80% da for\u00e7a de trabalho indiana est\u00e1 no mercado informal), e contra a corrup\u00e7\u00e3o do governo. As greves foram comandadas por centrais sindicais atreladas a partidos que pertencem \u00e0 coaliz\u00e3o governista, por isso a luta n\u00e3o avan\u00e7ou, mas a ades\u00e3o massiva expressa o amplo descontentamento entre os trabalhadores. A mis\u00e9ria ainda domina amplas regi\u00f5es do pa\u00eds, tanto nas aldeias do interior como nas favelas em torno das metr\u00f3poles, e h\u00e1 inclusive focos de luta armada em v\u00e1rios estados.<\/p>\n<p>O massacre de 34 trabalhadores de minas de ouro e prata em greve em Marikana, \u00c1frica do Sul (h\u00e1 ainda a informa\u00e7\u00e3o de pelo menos mais dez assassinatos de trabalhadores que lutam por melhores condi\u00e7\u00f5es de vida e sal\u00e1rio), por policiais fortemente armados, demonstra tamb\u00e9m a necessidade de unidade da classe trabalhadora e da internacionaliza\u00e7\u00e3o das lutas contra os governos, partidos e sindicatos que defendem os interesses das grandes corpora\u00e7\u00f5es e empresariado. Consideramos que as empresas que atuavam no ramo da minera\u00e7\u00e3o durante o regime do apartheid continuam atuando e discriminando cruelmente os trabalhadores negros e mantendo-os em condi\u00e7\u00f5es subumanas em favelas ao redor das minas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>A Europa e a instabilidade na zona do euro<\/b><\/p>\n<p>A Europa foi o continente para onde se deslocou o epicentro da crise iniciada nos Estados Unidos em 2008. Ao longo de todo o ano de 2011 o foco da crise passou de um pa\u00eds para outro da periferia europeia. Portugal, Irlanda, Gr\u00e9cia, Espanha, os chamados PIGS (\u201cporcos\u201d na sigla pejorativa em ingl\u00eas), foram um por um \u201cresgatados\u201d por pacotes de salvamento da chamada \u201ctroika\u201d (Uni\u00e3o Europeia, Banco Central Europeu, FMI). Esses pacotes consistem em empr\u00e9stimos de dezenas de bilh\u00f5es de d\u00f3lares para que esses pa\u00edses paguem suas d\u00edvidas de curto prazo com os bancos e especuladores internacionais. Para receber os empr\u00e9stimos, os governos precisam se comprometer em aprovar medidas de &#8220;austeridade&#8221; contra suas popula\u00e7\u00f5es. Esses chamados \u201cajustes\u201d constam de um documento que est\u00e1 sendo chamado de \u201cmemorando\u201d.<\/p>\n<p>Na realidade, o dinheiro desses pacotes nem chega a entrar no pa\u00eds, vai direto para os bancos credores. O pa\u00eds assim \u201cbeneficiado\u201d fica manietado pelos acordos e obrigado a pagar longos parcelamentos a essas institui\u00e7\u00f5es, mais ou menos como aconteceu com os pa\u00edses latino-americanos nas d\u00e9cadas de 1980 e 1990, for\u00e7ados a aceitar planos neoliberais para receber pacotes de ajuda do FMI. A novidade \u00e9 que se trata de pa\u00edses da Europa, continente com o melhor n\u00edvel de vida do planeta, em que os trabalhadores estavam acostumados a d\u00e9cadas de condi\u00e7\u00f5es de trabalho e servi\u00e7os sociais de qualidade.<\/p>\n<p>Na Irlanda, o pacote da troika foi aprovado por meio de plebiscito. Em Portugal houve uma greve geral, mas o memorando passou. Na Gr\u00e9cia foi preciso realizar duas elei\u00e7\u00f5es, com amea\u00e7a de caos contra o pa\u00eds, para que se formasse um governo comprometido com o memorando, sempre debaixo de mobiliza\u00e7\u00f5es massivas. A batalha se deslocou ent\u00e3o para a Espanha, pa\u00eds muito maior e mais importante que os outros tr\u00eas. O pacote da troika foi aprovado para salvar os bancos espanh\u00f3is, no mesmo momento em que os subs\u00eddios para as minas de carv\u00e3o do norte do pa\u00eds eram cortados. O corte amea\u00e7a milhares de empregos diretos e indiretos, num pa\u00eds que tem a maior taxa de desemprego do continente, tendo como resposta uma greve dos mineiros.<\/p>\n<p>O esfor\u00e7o da troika para for\u00e7ar a aprova\u00e7\u00e3o dos pacotes \u00e9 uma batalha de vida ou morte para a burguesia alem\u00e3 e francesa sustentar a exist\u00eancia do euro. Para o grande capital alem\u00e3o e franc\u00eas, a exist\u00eancia de um gigantesco mercado comum com moeda \u00fanica \u00e9 vital para as suas exporta\u00e7\u00f5es. Os grandes pa\u00edses da Europa transformam os pa\u00edses menores do continente em col\u00f4nias econ\u00f4micas por meio da moeda \u00fanica. For\u00e7ados a comerciar com os grandes sem terem moeda pr\u00f3pria, os pa\u00edses menores, com menor poderio econ\u00f4mico, se endividam crescentemente e s\u00e3o for\u00e7ados a recorrer aos pacotes de salvamento.<\/p>\n<p>A sobreviv\u00eancia do euro \u00e9 fundamental para que a Europa tenha alguma chance de lutar no mercado mundial contra a concorr\u00eancia dos Estados Unidos e do Jap\u00e3o. O problema \u00e9 que nem todas as burguesias europeias concordam com os termos impostos pela Alemanha. As negocia\u00e7\u00f5es por meio das quais os planos de \u201causteridade\u201d s\u00e3o impostos a cada pa\u00eds s\u00e3o cada vez mais dif\u00edceis. No contexto dessas negocia\u00e7\u00f5es a pr\u00f3pria Fran\u00e7a se prestou em certo momento a servir de porta-voz dos pa\u00edses menores e da \u201cEuropa social\u201d contra a ortodoxia pr\u00f3-\u201causteridade\u201d da Alemanha, mas sem muita efetividade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Estados Unidos<\/b><\/p>\n<p>Os Estados Unidos foram um dos pa\u00edses em que a economia voltou a crescer depois da crise. Entretanto, o que mais chamou a aten\u00e7\u00e3o no crescimento obtido e na chamada \u201crecupera\u00e7\u00e3o\u201d \u00e9 que o ritmo da queda do desemprego foi o menor j\u00e1 visto em toda a hist\u00f3ria das recupera\u00e7\u00f5es p\u00f3s-crise anteriores. As empresas voltaram a produzir, vender e obter lucro, sem contratar de volta os trabalhadores que foram demitidos no auge da crise. Isso s\u00f3 foi poss\u00edvel de uma maneira, atrav\u00e9s de um violento ataque sobre a classe trabalhadora estadunidense. Um n\u00famero menor de trabalhadores nas empresas foi for\u00e7ado a aceitar uma carga maior de servi\u00e7o, com os mesmos sal\u00e1rios ou menores, menos benef\u00edcios, direitos, etc. Houve tamb\u00e9m renova\u00e7\u00e3o do maquin\u00e1rio e dos softwares, visando tornar as empresas mais competitivas.<\/p>\n<p>Tudo isso responde pela \u201crecupera\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica\u201d da economia estadunidense. Os problemas que originaram a crise continuam presentes. O endividamento p\u00fablico e privado, das empresas e dos consumidores, continua alt\u00edssimo. H\u00e1 uma nova bolha, a do cr\u00e9dito estudantil, amea\u00e7ando estourar no mercado financeiro. E acima de tudo, as condi\u00e7\u00f5es sociais no pa\u00eds v\u00eam piorando ano a ano desde o in\u00edcio da crise.<\/p>\n<p>O governo da uni\u00e3o e os governos estaduais e municipais fazem cortes brutais no or\u00e7amento e demitem em massa t\u00e9cnicos, professores, m\u00e9dicos, enfermeiros, assistentes sociais, policiais, bombeiros, fechando departamentos inteiros, escolas, hospitais, etc., precarizando o atendimento \u00e0 popula\u00e7\u00e3o. Como uma boa parte da popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode pagar pelo atendimento das redes privadas, s\u00e3o deixados \u00e0 pr\u00f3pria sorte. As pens\u00f5es e ajudas a idosos e indigentes tamb\u00e9m s\u00e3o cortadas ou reduzidas. Os \u00edndices sociais nos Estados Unidos pioram sensivelmente e os bols\u00f5es de pobreza se multiplicam no cora\u00e7\u00e3o das grandes cidades.<\/p>\n<p>Essa degrada\u00e7\u00e3o social n\u00e3o se reflete ainda em um aumento das lutas. A burocracia sindical da AFL-CIO, principal central sindical do pa\u00eds, permanece apoiando o partido democrata, de Obama, que concorre \u00e0 reelei\u00e7\u00e3o. A pol\u00edtica desse setor \u00e9 a do nacionalismo econ\u00f4mico, culpando os trabalhadores de outros pa\u00edses por roubar empregos estadunidenses, e chamando os trabalhadores estadunidenses a \u201cvestir a camisa\u201d das empresas para reativar a economia (enquanto o desemprego permanece alto para os padr\u00f5es hist\u00f3ricos do pa\u00eds). Da mesma forma, as entidades dos movimentos de negros, latinos, mulheres, jovens, etc., continuam em boa parte apoiando o partido democrata.<\/p>\n<p>Nas elei\u00e7\u00f5es estadunidenses a burguesia literalmente paga para eleger os governantes. Os candidatos recebem doa\u00e7\u00f5es milion\u00e1rias para suas campanhas vindas de grandes empresas ou dos empres\u00e1rios individualmente. Campanhas milion\u00e1rias s\u00e3o necess\u00e1rias para convencer os eleitores a votar, j\u00e1 que o voto n\u00e3o \u00e9 obrigat\u00f3rio. N\u00e3o h\u00e1 financiamento p\u00fablico das campanhas nem hor\u00e1rio gratuito para os partidos, e os meios de comunica\u00e7\u00e3o cobram caro para veicular an\u00fancios, como qualquer an\u00fancio comercial. O grau de apoio a uma candidatura \u00e9 medido pelo montante de doa\u00e7\u00f5es que recebe para a campanha.<\/p>\n<p>At\u00e9 o momento a burguesia estadunidense aposta na continuidade da administra\u00e7\u00e3o Obama, n\u00e3o na volta dos republicanos, como forma preferencial de gerir seus interesses. Ao mesmo tempo, do lado republicano, cresce a penetra\u00e7\u00e3o do \u201cTea Party\u201d, o setor de ultradireita, que na elei\u00e7\u00e3o passada foi visto como uma esp\u00e9cie de novidade aned\u00f3tica, mas que na atual elei\u00e7\u00e3o polarizou com o \u201ccentro\u201d republicano a disputa para a indica\u00e7\u00e3o do candidato Mitt Romney. A direitiza\u00e7\u00e3o do partido republicano provoca uma direitiza\u00e7\u00e3o geral da pol\u00edtica da uni\u00e3o e dos estados, na dire\u00e7\u00e3o de mais ataques e \u201causteridade\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>A lenda dos 50% do PIB mundial<\/b><\/p>\n<p>Uma das lendas mais difundidas no momento de manifesta\u00e7\u00e3o aguda da crise foi a de que os pa\u00edses \u201cemergentes\u201d em breve teriam 50% ou mais do PIB mundial. O problema dessa lenda \u00e9 a defini\u00e7\u00e3o exata do que seriam pa\u00edses \u201cemergentes\u201d. O tema da classifica\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses em blocos \u00e9 pol\u00eamico, pois os crit\u00e9rios variam. Na \u00e9poca da Guerra Fria se falava em 1\u00ba, 2\u00ba e 3\u00ba mundos, correspondendo respectivamente aos pa\u00edses capitalistas desenvolvidos, aos pa\u00edses do antigo bloco sovi\u00e9tico e ao restante do mundo \u201csubdesenvolvido\u201d. Dentro desse bloco do \u201crestante do mundo\u201d \u00e0s vezes se fazia a distin\u00e7\u00e3o entre os pa\u00edses \u201cem desenvolvimento\u201d e os pa\u00edses muito pobres. Com a dissolu\u00e7\u00e3o da URSS e do bloco sovi\u00e9tico os crit\u00e9rios mudaram. As listas passaram a falar em \u201cmercados emergentes\u201d como eufemismo para designar os pa\u00edses pobres e criar a ilus\u00e3o de que o \u201cfim do socialismo\u201d e a ado\u00e7\u00e3o do \u201clivre mercado\u201d levaria aqueles que aplicassem as pol\u00edticas neoliberais a um r\u00e1pido crescimento e a se tornarem \u201cricos\u201d.<\/p>\n<p>A lista mais antiga dos chamados \u201cpa\u00edses ricos\u201d \u00e9 a da OCDE (Organiza\u00e7\u00e3o para Coopera\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento Econ\u00f4mico), fundada na Europa para reconstru\u00e7\u00e3o do continente depois da II Guerra Mundial e depois estendida para pa\u00edses de outros continentes. Fazem parte da OCDE: \u00c1ustria, B\u00e9lgica, Dinamarca, Fran\u00e7a, Gr\u00e9cia, Isl\u00e2ndia, Irlanda, It\u00e1lia, Luxemburgo, Noruega, Pa\u00edses Baixos, Portugal, Reino Unido, Su\u00e9cia, Su\u00ed\u00e7a, Turquia, Alemanha, Espanha, Canad\u00e1, Estados Unidos, Jap\u00e3o, Finl\u00e2ndia, Austr\u00e1lia, Nova Zel\u00e2ndia, M\u00e9xico, Rep\u00fablica Checa, Hungria, Pol\u00f4nia, Coreia do Sul, Eslov\u00e1quia, Chile, Eslov\u00eania. A OCDE inclui pa\u00edses pobres como M\u00e9xico e Chile, ou pa\u00edses recentemente empobrecidos, como a Gr\u00e9cia, mas ignora os chamados BRICs.<\/p>\n<p>O problema do conceito de \u201cemergentes\u201d \u00e9 que ele parte de uma vis\u00e3o da hist\u00f3ria econ\u00f4mica em que n\u00e3o h\u00e1 conflitos nem domina\u00e7\u00e3o, e os pa\u00edses \u201cricos\u201d se tornaram \u201cricos\u201d por seus pr\u00f3prios m\u00e9ritos. Os pobres, por sua vez, s\u00e3o pobres por causa de sua pr\u00f3pria incompet\u00eancia. Mas, segundo essa \u201cteoria\u201d, se seguirem as receitas dos economistas burgueses, do FMI e outros \u00f3rg\u00e3os, um dia esses pa\u00edses v\u00e3o se tornar \u201cricos\u201d. Enquanto est\u00e3o \u201cna transi\u00e7\u00e3o\u201d para um dia serem \u201cricos\u201d, todos os pa\u00edses pobres, tanto os miser\u00e1veis como os que est\u00e3o numa condi\u00e7\u00e3o intermedi\u00e1ria, em r\u00e1pido crescimento, s\u00e3o chamados de \u201cemergentes\u201d. Com isso, a luta de classes \u00e9 colocada para escanteio e cria-se uma vis\u00e3o em que os pa\u00edses est\u00e3o numa esp\u00e9cie de corrida, alguns com mais velocidade, outros com menos, alguns sendo ultrapassados, outros estacionando.<\/p>\n<p>Nessa vis\u00e3o \u00e9 como se todos tivessem partido de uma mesma linha de largada, em condi\u00e7\u00f5es iguais, todos tivessem as mesmas chances e oportunidades, e o seu m\u00e9rito ou compet\u00eancia definisse as mudan\u00e7as de posi\u00e7\u00f5es. Essa vis\u00e3o id\u00edlica esconde os processos hist\u00f3ricos de domina\u00e7\u00e3o imperial, pelo qual um pequeno grupo de pa\u00edses dividiu o restante do mundo, massacrou e escravizou suas popula\u00e7\u00f5es, saqueou suas riquezas e se estabeleceu como conquistador. \u00c9 isso que explica a desigualdade entre os pa\u00edses, e n\u00e3o a sua \u201ccompet\u00eancia\u201d em seguir o \u201cmodelo\u201d e \u201cemergir\u201d para um dia se tornarem \u201cricos\u201d. A verdade \u00e9 que n\u00e3o h\u00e1 chances iguais, pois o desenvolvimento capitalista \u00e9 desigual e combinado, com a pobreza de uns sustentando a riqueza dos outros, entre os pa\u00edses, as classes e os indiv\u00edduos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Imperialismo, G8, G20 e \u201cemergentes\u201d<\/b><\/p>\n<p>A literatura marxista desfaz essa confus\u00e3o e estabelece uma diferen\u00e7a n\u00edtida entre pa\u00edses imperialistas e pa\u00edses perif\u00e9ricos. O imperialismo, na defini\u00e7\u00e3o de L\u00eanin, \u00e9 a fus\u00e3o entre o capital financeiro (que na sua origem \u00e9 a fus\u00e3o entre os bancos e a ind\u00fastria, e se desdobra depois sob outras formas) e o Estado, com vistas \u00e0 exporta\u00e7\u00e3o de capital para pa\u00edses coloniais, nos quais uma taxa de lucro mais elevada (baixa composi\u00e7\u00e3o org\u00e2nica do capital) compensaria a queda da taxa de lucro na metr\u00f3pole. Os pa\u00edses imperialistas, al\u00e9m de terem o poderio militar necess\u00e1rio para expandir seus neg\u00f3cios por outros continentes, dominam a produ\u00e7\u00e3o de bens de produ\u00e7\u00e3o, s\u00e3o geradores aut\u00f4nomos de ci\u00eancia e tecnologia, e exercem tamb\u00e9m uma influ\u00eancia cultural al\u00e9m de suas fronteiras. Das duas guerras mundiais do s\u00e9culo XX, que foram guerras entre as pot\u00eancias imperialistas, emergiram os Estados Unidos como principal pot\u00eancia imperialista (ao lado da antiga URSS), seguido por um conjunto de pa\u00edses imperialistas de menor poder.<\/p>\n<p>Esse grupo de pa\u00edses imperialistas reuniu-se no que foi chamado de G7 (Estados Unidos, Jap\u00e3o, Alemanha, Fran\u00e7a, Reino Unido, It\u00e1lia e Canad\u00e1), com encontros anuais desde 1975, sendo depois ampliado para G8 com a inclus\u00e3o da R\u00fassia (como \u201cherdeira\u201d do posto de superpot\u00eancia da antiga URSS, depois da restaura\u00e7\u00e3o capitalista). Desde a \u00e9poca de sua forma\u00e7\u00e3o houve mudan\u00e7as no peso desses pa\u00edses na economia mundial, com a China chegando ao posto de 2\u00aa maior economia do mundo e o Brasil ao 6\u00ba. Embora tenham alcan\u00e7ado essa posi\u00e7\u00e3o, Brasil e China n\u00e3o participam do G8. O PIB somado dos pa\u00edses do G8 chegou a US$ 35,517 trilh\u00f5es em 2011, para um total mundial de US$ 69,659 trilh\u00f5es. Este c\u00e1lculo foi efetuado a partir dos dados da Lista de Pa\u00edses por PIB Nominal do FMI (dispon\u00edvel em <a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Anexo:Lista_de_pa%C3%ADses_por_PIB_nominal\">http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Anexo:Lista_de_pa%C3%ADses_por_PIB_nominal<\/a> e baseado em: Fundo Monet\u00e1rio Internacional, World Economic Outlook Database, Abril de 2012: Nominal GDP list of countries. Dados para o ano de 2011.. Acessado em 20 abr. 2012.). Ou seja, apenas o G8 sozinho possui metade do PIB mundial.<\/p>\n<p>N\u00e3o sendo parte do G8, China e Brasil comp\u00f5em o G20, grupo formado a partir da crise de 2008 para encontrar \u201csolu\u00e7\u00f5es\u201d do ponto de vista do capital (n\u00e3o se pode confundir esse G20 com o grupo de mesmo nome formado em 2003, no \u00e2mbito das negocia\u00e7\u00f5es da OMC, quando um grupo composto por grandes pa\u00edses exportadores de commodities, especialmente agr\u00edcolas, travou uma batalha contra os pa\u00edses centrais por acordos mais vantajosos a suas exporta\u00e7\u00f5es). O G20 formado para administrar a crise \u00e9 composto pelo G8 mais 11 pa\u00edses (\u00c1frica do Sul, Argentina, Brasil, M\u00e9xico, China, Coreia do Sul, \u00cdndia, Indon\u00e9sia, Ar\u00e1bia Saudita, Turquia e Austr\u00e1lia) e uma representa\u00e7\u00e3o da Comiss\u00e3o Europ\u00e9ia. Os chefes de Estado do G20 se re\u00fanem semestralmente desde 2008, al\u00e9m de reuni\u00f5es e consultas permanentes entre seus ministros de finan\u00e7as e dirigentes de bancos centrais.<\/p>\n<p>O PIB somado dos 11 \u201cconvidados\u201d do G20 \u00e9 de US$ 18,279 trilh\u00f5es, ou seja, pouco mais da metade do G8&#8230; Na classifica\u00e7\u00e3o do FMI, todos os pa\u00edses do mundo que n\u00e3o fazem parte do G7 s\u00e3o chamados de \u201cmercados emergentes\u201d, com exce\u00e7\u00e3o de Cuba e Cor\u00e9ia do Norte, que est\u00e3o fora porque n\u00e3o s\u00e3o economias de mercado. O movimento de expans\u00e3o de capital em dire\u00e7\u00e3o a espa\u00e7os de valoriza\u00e7\u00e3o relativamente inexplorados n\u00e3o se limita aos BRICs, estendendo-se tamb\u00e9m a um conjunto de outros pa\u00edses perif\u00e9ricos, como Turquia, Rep\u00fablica Checa, Indon\u00e9sia, etc., e toda uma nova gera\u00e7\u00e3o de \u201ctigres\u201d econ\u00f4micos prestes a serem assolados pelas contradi\u00e7\u00f5es da industrializa\u00e7\u00e3o acelerada.<\/p>\n<p><b>\u00a0<\/b><\/p>\n<p><b>O caso dos chamados \u201cBRICs\u201d &#8211; I<\/b><\/p>\n<p>Um dos temas recorrentes na an\u00e1lise da situa\u00e7\u00e3o mundial tem sido o papel desempenhado pelos grandes pa\u00edses perif\u00e9ricos. H\u00e1 o discurso de que esses pa\u00edses tiraram a economia mundial da crise e mesmo de que representam as futuras grandes pot\u00eancias do capitalismo, em substitui\u00e7\u00e3o a Estados Unidos, Europa e Jap\u00e3o, ou no m\u00ednimo ao lado deles, num mundo chamado \u201cmultipolar\u201d. Tais pa\u00edses foram agrupados na sigla \u201cBRICs\u201d (\u201ctijolos\u201d em ingl\u00eas) pelo economista Jim O\u2019Neill, funcion\u00e1rio do banco Goldman &amp; Sachs, a partir das iniciais de Brasil, R\u00fassia, \u00cdndia e China (aos quais se acrescentou posteriormente a \u00c1frica do Sul, mas sem que haja consenso sobre essa \u00faltima incorpora\u00e7\u00e3o por parte dos usu\u00e1rios do termo \u201cBRICs\u201d). H\u00e1 v\u00e1rios problemas nesse discurso a respeito dos \u201cBRICs\u201d que precisam ser desmontados se quisermos alcan\u00e7ar uma compreens\u00e3o cient\u00edfica do que est\u00e1 acontecendo na realidade mundial.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, \u00e9 preciso analisar o conte\u00fado e o significado do crescimento econ\u00f4mico desses pa\u00edses. \u00c9 verdade que os \u201cBRICs\u201d responderam por boa parte do crescimento mundial no momento imediatamente posterior \u00e0 crise de 2008 e que a China, por exemplo, tem experimentado taxas de crescimento dignas da Revolu\u00e7\u00e3o Industrial, com algo em torno de 10% ao ano h\u00e1 pelo menos 30 anos. Com isso, o pa\u00eds saltou para o 2\u00ba maior PIB mundial em poucas d\u00e9cadas. Entretanto, esse crescimento tem se dado na maior parte devido \u00e0 mais valia absoluta, ou seja, extens\u00e3o da jornada de trabalho, t\u00edpica dos pa\u00edses perif\u00e9ricos, mais do que \u00e0 mais valia relativa, que vem dos ganhos de produtividade, t\u00edpica dos pa\u00edses imperialistas, onde predomina elevada composi\u00e7\u00e3o org\u00e2nica do capital e alta tecnologia. O capital mundializado se serve de territ\u00f3rios onde \u00e9 poss\u00edvel estender a n\u00edveis subumanos a jornada e a explora\u00e7\u00e3o dos trabalhadores para compensar uma taxa de lucro que n\u00e3o consegue mais obter nos pa\u00edses centrais.<\/p>\n<p>A maior parte desse crescimento diz respeito \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de manufaturas para exporta\u00e7\u00e3o para os mercados consumidores dos Estados Unidos, Europa e Jap\u00e3o. Transnacionais estadunidenses, europeias e japonesas se instalaram na China para explorar uma m\u00e3o de obra abundante e barata. Nesse caso, a China representa uma reprodu\u00e7\u00e3o em tamanho gigante da receita dos chamados \u201ctigres asi\u00e1ticos\u201d, pa\u00edses da periferia asi\u00e1tica como Cor\u00e9ia do Sul, Taiwan, Cingapura, etc., exaltados como modelo de sucesso na d\u00e9cada de 1990 por terem se transformado em plataformas de exporta\u00e7\u00e3o. Esse modelo, no caso da China, funciona devido a uma associa\u00e7\u00e3o sui generis entre a burocracia do Partido Comunista, que controla o Estado, as for\u00e7as armadas e as finan\u00e7as do pa\u00eds, com as transnacionais estrangeiras, para explorar a for\u00e7a de trabalho. Esse modelo depende do controle ditatorial sobre a for\u00e7a de trabalho, na maioria migrantes vindos do interior do pa\u00eds, contratados sob condi\u00e7\u00f5es extremamente prec\u00e1rias, sem qualquer prote\u00e7\u00e3o social e sem qualquer organiza\u00e7\u00e3o sindical ou trabalhista independente.<\/p>\n<p>As enormes taxas de crescimento n\u00e3o significam que tais pa\u00edses perif\u00e9ricos estejam enriquecendo a maioria de sua popula\u00e7\u00e3o, mas que est\u00e3o produzindo mais para as transnacionais, que ficam com a boa parte do lucro e o remetem para suas matrizes imperialistas. Tamb\u00e9m n\u00e3o significam que estejam se tornando pot\u00eancias imperialistas, pois carecem de uma s\u00e9rie de pr\u00e9-requisitos para isso, como o poder de interven\u00e7\u00e3o em outros pa\u00edses (por mais que R\u00fassia e China sejam pot\u00eancias nucleares), influ\u00eancia geopol\u00edtica e cultural, etc. (a China tem expandido seus interesses para outros continentes, mas sua influ\u00eancia ainda n\u00e3o se compara a que os pa\u00edses imperialistas cl\u00e1ssicos tiveram e ainda det\u00e9m).<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, os \u201cBRICs\u201d carecem da capacidade de gerar endogenamente altera\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas. Esses pa\u00edses n\u00e3o dominam a tecnologia de produ\u00e7\u00e3o de bens de produ\u00e7\u00e3o, alicerce para o desenvolvimento capitalista independente. Campos de atividade estrat\u00e9gicos como design de produtos, microeletr\u00f4nica, softwares, etc., permanecem como monop\u00f3lio das transnacionais imperialistas. Esses campos demandam muitas d\u00e9cadas ou mesmo s\u00e9culos de investimento pesado em pesquisa cient\u00edfica para que sejam dominados por um determinado pa\u00eds. A burocracia chinesa apenas come\u00e7ou a dar passos nessa dire\u00e7\u00e3o e est\u00e1 longe de poder desenvolver tecnologia pr\u00f3pria compar\u00e1vel \u00e0 de Estados Unidos, Jap\u00e3o e Europa. A R\u00fassia ainda det\u00e9m alguma \u201cexpertise\u201d em termos de tecnologia armamentista, nuclear e aeroespacial (heran\u00e7a do per\u00edodo sovi\u00e9tico), a \u00cdndia possui armas nucleares e alguma capacidade em softwares, e sobre o Brasil, nesse campo, nem sequer \u00e9 preciso se estender, j\u00e1 que o pa\u00eds passa por um processo de desindustrializa\u00e7\u00e3o e especializa\u00e7\u00e3o regressiva.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>O caso dos chamados \u201cBRICs\u201d &#8211; II<\/b><\/p>\n<p>Em segundo lugar, com rela\u00e7\u00e3o aos \u201cBRICs\u201d, \u00e9 preciso discutir se o seu modelo de crescimento \u00e9 vi\u00e1vel ou pode permanecer ao longo do tempo sem perturba\u00e7\u00f5es. J\u00e1 citamos acima o caso da China, que exporta uma porcentagem enorme da sua produ\u00e7\u00e3o. Qual \u00e9 o destino da produ\u00e7\u00e3o chinesa nos momentos em que o mercado mundial est\u00e1 retra\u00eddo, como agora, em que os consumidores estadunidenses e europeus est\u00e3o diminuindo suas compras? O mercado interno ainda n\u00e3o \u00e9 capaz de absorver a maior parte dessa produ\u00e7\u00e3o atualmente exportada, devido justamente \u00e0 baixa remunera\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho, que \u00e9 o grande atrativo da China para as multinacionais.<\/p>\n<p>Existe, por\u00e9m uma burguesia chinesa em forma\u00e7\u00e3o ou que retorna\/associa-se \u00e0 di\u00e1spora chinesa (milh\u00f5es de chineses que fugiram da revolu\u00e7\u00e3o em 1949 para outros pa\u00edses do sudeste asi\u00e1tico, mais ou menos como os cubanos que fugiram para Miami, e que se tornaram especialistas em determinados nichos de mercado nos pa\u00edses de ado\u00e7\u00e3o) e pode responder por esse consumo. A quest\u00e3o ent\u00e3o passa a ser como manter essa burguesia nascente\/emergente longe do poder pol\u00edtico, que permanece monopolizado pela burocracia do Partido Comunista. E ainda, \u00e9 preciso encontrar uma f\u00f3rmula para manter a classe trabalhadora d\u00f3cil e domesticada diante da ostenta\u00e7\u00e3o dessa burguesia e da ditadura e dos privil\u00e9gios dos burocratas, dadas as condi\u00e7\u00f5es de vida degradantes de centenas de milh\u00f5es de trabalhadores migrantes e a mis\u00e9ria de outras centenas de milh\u00f5es que permanecem no campo.<\/p>\n<p>Milhares de conflitos sociais acontecem todos os anos na China, com greves parciais de empresas e ramos de produ\u00e7\u00e3o, motins e protestos, ocupa\u00e7\u00f5es de prefeituras e pr\u00e9dios p\u00fablicos, suic\u00eddio em massa de trabalhadores em determinados ramos e f\u00e1bricas, etc. A classe trabalhadora chinesa n\u00e3o est\u00e1 suportando passivamente o peso da superexplora\u00e7\u00e3o que lhe foi imposta. Apesar desse estado de conflitividade social crescente, as lutas permanecem isoladas, carecendo de unidade, organiza\u00e7\u00e3o independente (sindicatos s\u00e3o proibidos e todas as inst\u00e2ncias s\u00e3o controladas pela burocracia do partido e do Estado), programa e consci\u00eancia. Mas esse estado de dispers\u00e3o n\u00e3o deve continuar para sempre&#8230;\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Al\u00e9m desse problema pol\u00edtico interno, a burocracia tem que lidar com problemas geopol\u00edticos, pois o resultado das suas exporta\u00e7\u00f5es \u00e9 o ac\u00famulo de uma reserva gigantesca de moeda internacional, o d\u00f3lar, que fica no pa\u00eds, nas m\u00e3os da burocracia, depois que as transnacionais remetem sua parte para as matrizes. Pois bem, o d\u00f3lar tem seu valor cada vez mais questionado devido ao ritmo com que crescem os chamados \u201cd\u00e9ficits g\u00eameos\u201d da economia estadunidense, o d\u00e9ficit do governo e o da balan\u00e7a comercial. Para impedir a queda do d\u00f3lar e a desvaloriza\u00e7\u00e3o de sua reserva, o BC chin\u00eas compra t\u00edtulos da d\u00edvida p\u00fablica estadunidense. Com isso, torna-se de certa forma \u201cprisioneiro\u201d de uma rela\u00e7\u00e3o simbi\u00f4ntica com a economia estadunidense, emprestando dinheiro para que o d\u00f3lar se mantenha e os consumidores estadunidenses possam comprar mercadorias chinesas, num circuito que alimenta o crescimento do d\u00e9ficit da balan\u00e7a comercial estadunidense e das reservas chinesas, e assim sucessivamente. Essa parceria com os Estados Unidos est\u00e1 sempre por um fio, na medida em que os chineses amea\u00e7am se desfazer dessa reserva em d\u00f3lares e acumular outra moeda, seja euro ou outra a ser criada internacionalmente.<\/p>\n<p>Os conflitos com os Estados Unidos n\u00e3o se limitam ao terreno da moeda. Os Estados Unidos apoiam outros pa\u00edses asi\u00e1ticos nos seus conflitos de fronteira com a China, ou apoiam a independ\u00eancia do Tibete atualmente ocupado pela China, apoiam a independ\u00eancia de Taiwan que a China tenta reverter, al\u00e9m de amea\u00e7ar constantemente a Cor\u00e9ia do Norte, aliado da China. E ainda, h\u00e1 o problema da depend\u00eancia chinesa do petr\u00f3leo do Oriente M\u00e9dio, territ\u00f3rio em que os Estados Unidos projetam sua aventura imperial (no momento, o alvo \u00e9 o Ir\u00e3). Trata-se, portanto de uma parceria em estado de permanente tens\u00e3o devido a fatores que s\u00e3o estruturais e n\u00e3o facilmente super\u00e1veis.<\/p>\n<p>Por \u00faltimo, \u00e9 preciso destacar que o modelo de crescimento dos \u201cBRICs\u201d \u00e9 ambientalmente insustent\u00e1vel, devido ao tipo de industrializa\u00e7\u00e3o da China, \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia e outros ecossistemas pela expans\u00e3o da fronteira agr\u00edcola no Brasil, \u00e0 degrada\u00e7\u00e3o da infraestrutura russa, herdada do per\u00edodo sovi\u00e9tico, etc. Tais pa\u00edses n\u00e3o conseguiriam manter seu ritmo de crescimento sem manter o n\u00edvel de destrui\u00e7\u00e3o ambiental atualmente praticado, raz\u00e3o pela qual se op\u00f5em \u00e0s restri\u00e7\u00f5es \u00e0 polui\u00e7\u00e3o discutidas nos f\u00f3runs ambientais oficiais da ONU (as quais, por sua vez, s\u00e3o propostas por pa\u00edses que j\u00e1 exportaram suas ind\u00fastrias \u201csujas\u201d para a periferia e agora precisam saquear os recursos como terras f\u00e9rteis e \u00e1gua pot\u00e1vel dessas regi\u00f5es). Independentemente do fato de que o debate ambiental seja feito \u00e0 revelia dos interesses dos trabalhadores, a degrada\u00e7\u00e3o ambiental provocada pelo modelo de crescimento dos \u201cBRICs\u201d \u00e9 um problema real que pode se converter em um limitador para esse modelo.<\/p>\n<p>\u00c9 discut\u00edvel enfim que a China ou o conjunto dos \u201cBRICs\u201d possam manter o seu crescimento imperturb\u00e1vel diante de fatores fora do seu controle, como uma poss\u00edvel desacelera\u00e7\u00e3o devido \u00e0 queda das exporta\u00e7\u00f5es para Estados Unidos, Europa e Jap\u00e3o, as lutas da classe trabalhadora chinesa, atomizadas e desorganizadas, mas radicalizadas e disseminadas, o crescimento da demanda por alimentos por causa da migra\u00e7\u00e3o de camponeses para as cidades, etc.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>O caso dos chamados \u201cBRICs\u201d &#8211; III<\/b><\/p>\n<p>A ideologia burguesa produz absurdos em s\u00e9rie a partir da vis\u00e3o fragmentada e desconectada da realidade, negando a unidade dial\u00e9tica e contradit\u00f3ria da totalidade hist\u00f3rica. A economia \u00e9 tomada em separado para forjar a unidade arbitr\u00e1ria de um conjunto de pa\u00edses, pelo simples fato de que s\u00e3o os que mais cresceram na \u00faltima d\u00e9cada, como se por isso fossem uma absoluta novidade na cena mundial. Ora, a R\u00fassia (como herdeira do poderio sovi\u00e9tico) e a China s\u00e3o pot\u00eancias mundiais h\u00e1 v\u00e1rias d\u00e9cadas (a China h\u00e1 mil\u00eanios)! N\u00e3o s\u00e3o novidade nenhuma! Pertencem ao seleto rol dos membros permanentes com poder de veto no Conselho de Seguran\u00e7a da ONU desde os anos 1940! O Conselho de Seguran\u00e7a tem como membros permanentes a 1\u00aa (Estados Unidos), a 2\u00aa (China), a 5\u00aa (Fran\u00e7a), a 7\u00aa (Inglaterra) e a 9\u00aa (R\u00fassia) economias mundiais, mas exclui a 3\u00aa (Jap\u00e3o), a 4\u00aa (Alemanha) e a 6\u00aa (Brasil). Qual \u00e9 o crit\u00e9rio para incluir umas e excluir outras? Certamente n\u00e3o \u00e9 apenas econ\u00f4mico, mas militar, geopol\u00edtico e hist\u00f3rico!<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, s\u00e3o pa\u00edses hist\u00f3rica e culturalmente muit\u00edssimo distintos entre si. A China \u00e9 uma pot\u00eancia mundial h\u00e1 praticamente 5 mil anos, com uma civiliza\u00e7\u00e3o riqu\u00edssima e orgulhosa, e a R\u00fassia \u00e9 um Estado da periferia europeia que mal havia se constitu\u00eddo antes do ano mil da era crist\u00e3, e se converteu em pot\u00eancia relevante apenas nos \u00faltimos dois s\u00e9culos. A \u00cdndia tamb\u00e9m \u00e9 uma sociedade multimilenar e uma pot\u00eancia nuclear de menor porte, mas possui tamb\u00e9m uma hist\u00f3ria absolutamente distinta e uma composi\u00e7\u00e3o social de caracter\u00edsticas muito pr\u00f3prias. Convivem em seu interior enclaves mundializados e \u201chigh tech\u201d como Bombaim e um oceano de aldeias camponesas que formam um caleidosc\u00f3pio \u00e9tnico e religioso, que inclui o regime de castas, o separatismo isl\u00e2mico, \u201cpogrooms\u201d peri\u00f3dicos, o conflito de fronteiras com o vizinho (e tamb\u00e9m \u201cnuclearizado\u201d Paquist\u00e3o), etc. E o que o Brasil tem a ver com esses pa\u00edses, seja em termos de hist\u00f3ria e cultura, seja de peso pol\u00edtico e militar? Tais perguntas o \u201cconceito\u201d de \u201cBRICs\u201d deixa sem resposta (e nem precisamos adicionar o \u201cS\u201d de \u00c1frica do Sul para complicar ainda mais a equa\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<p>As diferen\u00e7as assinaladas entre os componentes dos BRICs n\u00e3o apagam as semelhan\u00e7as entre eles, que inclusive n\u00e3o se restringem ao terreno da economia, que foi o crit\u00e9rio que levou um ide\u00f3logo burgu\u00eas a criar tal \u201cconceito\u201d para agrup\u00e1-los. Os BRICs s\u00e3o pa\u00edses de industrializa\u00e7\u00e3o recente (n\u00e3o t\u00e3o recente no caso da R\u00fassia, que j\u00e1 tinha uma base industrial relativamente desenvolvida, e do Brasil, que contraditoriamente, est\u00e1 se desindustrializando para se especializar em commodities), que experimentam um processo acelerado de urbaniza\u00e7\u00e3o, com todo o corol\u00e1rio de problemas que isso representa em termos de falta de moradia, saneamento, sa\u00fade, transporte p\u00fablico, etc., e de outra parte o ac\u00famulo de lixo, polui\u00e7\u00e3o, viol\u00eancia, etc. Cruza-se com isso as rivalidades raciais, religiosas, lingu\u00edsticas, culturais, que separam e op\u00f5em os trabalhadores entre si ou os op\u00f5em ao aparato do Estado enquanto minorias oprimidas, v\u00edtimas de exterm\u00ednio, pogrooms, persegui\u00e7\u00e3o, racismo, intoler\u00e2ncia, etc.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>O caso dos chamados \u201cBRICs\u201d &#8211; IV<\/b><\/p>\n<p>Os BRICs n\u00e3o s\u00e3o um desafio \u00e0 ordem capitalista instalada, no sentido de que n\u00e3o trazem consigo um modelo econ\u00f4mico e pol\u00edtico alternativo ao capitalismo. O que eles representam \u00e9 uma poss\u00edvel mudan\u00e7a no equil\u00edbrio de for\u00e7as entre as pot\u00eancias no interior do pr\u00f3prio capitalismo. Essa mudan\u00e7a, por sua vez, n\u00e3o tem nada de imprevista ou estranha em rela\u00e7\u00e3o a l\u00f3gica essencial do sistema, mas \u00e9 antes uma manifesta\u00e7\u00e3o dessa l\u00f3gica profundamente problem\u00e1tica. Uma vez atingida uma determinada composi\u00e7\u00e3o org\u00e2nica do capital num determinado conjunto de pa\u00edses (imperialistas) e aproximando-se os limites da extra\u00e7\u00e3o de mais valia relativa, o sistema tem como uma de suas op\u00e7\u00f5es, al\u00e9m da destrui\u00e7\u00e3o de capital (que n\u00e3o tem acontecido na escala necess\u00e1ria para reativar o sistema, muito longe disso), a exporta\u00e7\u00e3o de capital excedente para pa\u00edses com estruturas produtivas mais primitivas, em que prevalece a mais valia absoluta.<\/p>\n<p><b>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/b>A exporta\u00e7\u00e3o de capital para regi\u00f5es inexploradas traz um al\u00edvio imediato ao sistema nos primeiros anos e d\u00e9cadas, mas causa um problema pol\u00edtico num prazo mais longo. A concentra\u00e7\u00e3o de capital nas novas regi\u00f5es pode fazer com que as novas fra\u00e7\u00f5es do capital ganhem vida aut\u00f4noma e esbocem a tend\u00eancia de lutar contra as antigas na disputa por mercados. E na nossa realidade atual, isso aconteceria num mundo em que os mercados est\u00e3o particularmente saturados e j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 mais novas fronteiras para expans\u00e3o. Os BRICs est\u00e3o nesse est\u00e1gio de concentrar em si grandes quantidades de capital e de buscar autonomizar-se em rela\u00e7\u00e3o aos poderes imperialistas, com exce\u00e7\u00e3o do Brasil, cuja burguesia n\u00e3o tem nem ambi\u00e7\u00e3o nem capacidade para aventuras geopol\u00edticas, (por mais que se tenha festejado poucos anos atr\u00e1s a \u201cpol\u00edtica externa independente\u201d do governo Lula). O momento em que os BRICs emergem no cen\u00e1rio \u00e9 extremamente delicado, pois quando o que o capitalismo mais precisa \u00e9 de coordena\u00e7\u00e3o e coopera\u00e7\u00e3o, mais o que despontam s\u00e3o disputas.<\/p>\n<p>A China possui a sua rela\u00e7\u00e3o simbi\u00f4ntica-conflitiva com os Estados Unidos, maior pot\u00eancia mundial, em que os dois acompanham milimetricamente os movimentos um do outro. Cada um tem como objetivo de longo prazo encontrar formas de sair dessa rela\u00e7\u00e3o em posi\u00e7\u00e3o mais vantajosa, mas nenhuma das formas dispon\u00edveis pode ser acionada sem provocar conflitos no curto prazo. Por exemplo, os Estados Unidos n\u00e3o podem retirar em massa suas transnacionais da China, pois n\u00e3o h\u00e1 outro local para onde deslocar a produ\u00e7\u00e3o de forma vantajosa, e a China n\u00e3o tem outro mercado consumidor do mesmo porte para onde exportar seus produtos. Em qualquer caso, os conflitos provocados por essa rela\u00e7\u00e3o refletem interesses de diferentes personifica\u00e7\u00f5es do capital, nunca os interesses dos trabalhadores.<\/p>\n<p>A R\u00fassia \u00e9 governada por um setor que representa os restos do antigo aparato de seguran\u00e7a interna da URSS. Desde Stalin, passando por Kruschev, Brejnev e Gorbatchev, os governantes da R\u00fassia s\u00e3o ex-dirigentes do colossal aparato policial constru\u00eddo pela burocracia sovi\u00e9tica, com a exce\u00e7\u00e3o de Yeltsin. O recentemente reeleito Putin tamb\u00e9m representa esse setor e busca remediar os estragos na estatura geopol\u00edtica russa provocados pela d\u00e9cada neoliberal de Ieltsin. As for\u00e7as armadas est\u00e3o sendo reaparelhadas e o cerco montado pelos Estados Unidos via OTAN est\u00e1 sendo cada vez mais desafiado. O governo Putin funciona como uma autocracia, brutalmente corrupta e autorit\u00e1ria, que governa para os \u201camigos do rei\u201d, burgueses que acumularam imenso patrim\u00f4nio \u00e0s custas do saque ao antigo patrim\u00f4nio p\u00fablico sovi\u00e9tico, em privatiza\u00e7\u00f5es mafiosas. Aos inimigos, sejam fra\u00e7\u00f5es concorrentes da burguesia (isto \u00e9, mafiosos dissidentes), e tamb\u00e9m outros setores da classe m\u00e9dia e dos trabalhadores em luta por maior democracia, estende-se a dureza da repress\u00e3o e da lei. Economicamente, a R\u00fassia \u00e9 dependente das exporta\u00e7\u00f5es de petr\u00f3leo e g\u00e1s natural para a Europa.<\/p>\n<p>A \u00cdndia \u00e9 internamente o mais heterog\u00eaneo dos \u201cBRICs\u201d, mas em seu interior prevalece o setor que tenta imitar o modelo chin\u00eas de plataforma de exporta\u00e7\u00e3o, n\u00e3o exatamente de commodities, mas de servi\u00e7os e softwares, a partir de algumas ilhas de excel\u00eancia, deixando o interior do pa\u00eds e o entorno das metr\u00f3poles entregue \u00e0 mis\u00e9ria ancestral. Por sua vez, o Brasil \u00e9 tamb\u00e9m governado por uma burocracia que representa o conjunto do capital que opera no pa\u00eds, sem ser o porta-voz direto de nenhum setor, mas beneficiando a todos (bancos, agroneg\u00f3cio, constru\u00e7\u00e3o civil, montadoras estrangeiras), conduzindo a integra\u00e7\u00e3o do pa\u00eds no mercado mundial como fornecedor de commodities e manufaturas de baixo valor.<\/p>\n<p>Por essas caracter\u00edsticas, tais pa\u00edses n\u00e3o formam um \u201cbloco\u201d (a n\u00e3o ser em disputas comerciais ocasionais que n\u00e3o refletem mais do que interesses pontuais e tempor\u00e1rios das fra\u00e7\u00f5es da burguesia) nem apresentam nenhum \u201cprojeto\u201d de sociedade ou de \u201cciviliza\u00e7\u00e3o\u201d diferente daquele que \u00e9 imposto pela fra\u00e7\u00e3o hegem\u00f4nica da burguesia mundial, o capital financeiro. Al\u00e9m de n\u00e3o serem em seu conjunto um contrapeso aos interesses do imperialismo (no \u00e2mbito do G20 compactuam com o projeto da \u201causteridade\u201d e assumem a sua parte na tarefa de geri-lo), tamb\u00e9m n\u00e3o s\u00e3o eles pr\u00f3prios portadores de um projeto imperialista pr\u00f3prio em condi\u00e7\u00f5es de competir com o das demais pot\u00eancias.<\/p>\n<p>O uso do termo \u201cBRICs nos meios de comunica\u00e7\u00e3o e acad\u00eamicos burgueses em um momento de crise, em que as contradi\u00e7\u00f5es se agudizam, \u00e9 feito como se este conjunto de pa\u00edses representasse um \u201cmodelo\u201d de sucesso que pudesse levar a um desenvolvimento ilimitado dentro do pr\u00f3prio capitalismo, o que levaria a uma melhora nas condi\u00e7\u00f5es de vida dos trabalhadores nos pa\u00edses que adotarem tal \u201cmodelo\u201d. Este discurso tem um conte\u00fado ideol\u00f3gico que est\u00e1 a servi\u00e7o de ocultar um fato determinante da realidade, que \u00e9 uma crise com o grau de profundidade como a que atravessamos. Esta forma de apresenta\u00e7\u00e3o da realidade tamb\u00e9m representa uma forma de defesa da manuten\u00e7\u00e3o do projeto de sociedade colocado pela burguesia, e contra o avan\u00e7o da consci\u00eancia dos trabalhadores da necessidade de uma ruptura para alem do capital e rumo a uma sociedade sem classes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>A desacelera\u00e7\u00e3o da Primavera \u00c1rabe<\/b><\/p>\n<p>O principal elemento da nova situa\u00e7\u00e3o mundial inaugurada em 2011, a Primavera \u00c1rabe, foi o estopim para uma onda de lutas dos trabalhadores e da juventude em n\u00edvel mundial. Apesar de se tratar de um fen\u00f4meno que mudou a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as em n\u00edvel mundial, recolocando os trabalhadores e a juventude em movimento, n\u00e3o se trata de um processo unit\u00e1rio, mas de uma s\u00e9rie de acontecimentos que num curto espa\u00e7o de tempo percorreram sociedades muito diferentes. A Primavera \u00c1rabe n\u00e3o foi a mesma coisa no Egito e na L\u00edbia, para ficar em apenas dois exemplos.<\/p>\n<p>Os pa\u00edses do Norte da \u00c1frica e do Oriente M\u00e9dio n\u00e3o formam uma totalidade homog\u00eanea, apesar dos estere\u00f3tipos. O que h\u00e1 de comum \u00e9 o fato de serem pa\u00edses perif\u00e9ricos, governados por burguesias d\u00e9beis e associadas ao imperialismo, mas ferozes na repress\u00e3o aos seus povos. H\u00e1 nesse conjunto de pa\u00edses alguns dos maiores produtores de petr\u00f3leo do mundo, e tamb\u00e9m a maior hostilidade \u00e0 domina\u00e7\u00e3o imperialista vigente em qualquer regi\u00e3o. Essa hostilidade se manifesta n\u00e3o como hostilidade ao capitalismo, mas \u00e0 domina\u00e7\u00e3o nacional, e aparece traduzida na linguagem religiosa do islamismo.<\/p>\n<p>Essa combina\u00e7\u00e3o explosiva de governantes corruptos e autorit\u00e1rios com seus povos, mas ao mesmo tempo subservientes a um imperialismo que \u00e9 odiado pelo povo, finalmente explodiu na forma de revoltas em 2011. Essas revoltas foram motivadas por causas econ\u00f4micas, como a alta do pre\u00e7o dos alimentos, o desemprego da juventude e a falta de perspectivas com o fechamento da \u201cv\u00e1lvula de escape\u201d da imigra\u00e7\u00e3o para a Europa. Entretanto, elas se traduziram em linguagem pol\u00edtica como lutas democr\u00e1ticas, contra o aspecto autorit\u00e1rio dos regimes em vigor na maioria dos pa\u00edses. N\u00e3o se converteram em lutas sociais contra a domina\u00e7\u00e3o de classe.<\/p>\n<p>Atrav\u00e9s da \u201cbrecha democr\u00e1tica\u201d, o imperialismo interveio para instalar outros governantes capazes de viabilizar a continuidade da pilhagem dos recursos. Por meio dessa brecha, os Estados Unidos e a Europa \u201cmilitarizaram\u201d a insurrei\u00e7\u00e3o popular na L\u00edbia e a transformaram numa sangrenta guerra civil, por meio da qual puderam construir um governo t\u00edtere. O mesmo processo est\u00e1 sendo testado na S\u00edria, dessa vez com a oposi\u00e7\u00e3o da R\u00fassia e da China, obst\u00e1culo mais dif\u00edcil de contornar. Nos demais casos, como Egito, Tun\u00edsia, I\u00eamen, os governantes foram for\u00e7ados a se retirar antes que a insurrei\u00e7\u00e3o popular avan\u00e7asse contra as institui\u00e7\u00f5es do regime e alcan\u00e7assem modifica\u00e7\u00f5es mais radicais.<\/p>\n<p>Em todos esses pa\u00edses a aus\u00eancia de uma alternativa social anticapitalista limitou as lutas ao aspecto democr\u00e1tico. Com isso, foram feitas concess\u00f5es, como as elei\u00e7\u00f5es, as constitui\u00e7\u00f5es e alguns direitos civis e democr\u00e1ticos. Entretanto, essas concess\u00f5es serviram para empossar o \u00fanico tipo de oposi\u00e7\u00e3o organizada que existia, os partidos isl\u00e2micos, que s\u00e3o socialmente conservadores. A elasticidade da democracia burguesa permitiu a forma\u00e7\u00e3o de novos governos que aparentemente correspondiam ao desejo popular por democracia, mas que na pr\u00e1tica mantinham o controle da burguesia e do imperialismo.<\/p>\n<p>Entretanto, os motivos originais da Primavera \u00c1rabe, a crise econ\u00f4mica mundial e seus reflexos, como a carestia e o desemprego, n\u00e3o foram resolvidos. Por isso, as tens\u00f5es sociais tendem a continuar. As lutas e greves devem continuar explodindo nos v\u00e1rios pa\u00edses, mas n\u00e3o devem alcan\u00e7ar o mesmo porte daquelas verificadas em 2011, capazes de derrubar os governos. As popula\u00e7\u00f5es n\u00e3o est\u00e3o mais no mesmo estado de exalta\u00e7\u00e3o e ofensiva em que estiveram em 2011. Est\u00e3o na expectativa dos resultados que as vit\u00f3rias democr\u00e1ticas podem trazer, mas que n\u00e3o trar\u00e3o, sabemos. Por outro lado, tais popula\u00e7\u00f5es n\u00e3o retornaram para o estado de passividade em que permaneceram por d\u00e9cadas, pois as li\u00e7\u00f5es de que \u00e9 poss\u00edvel lutar dificilmente ser\u00e3o apagadas da mem\u00f3ria dessa gera\u00e7\u00e3o, mesmo naqueles pa\u00edses em que n\u00e3o houve queda dos governos. Essas li\u00e7\u00f5es ficar\u00e3o \u201cguardadas\u201d para os momentos em que as contradi\u00e7\u00f5es em desenvolvimento gerarem novos conflitos, que exigir\u00e3o a sua utiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Oriente M\u00e9dio<\/b><\/p>\n<p>A pe\u00e7a chave de todo o processo da Primavera \u00c1rabe foi o Egito, maior, mais populoso e mais rico pa\u00eds da regi\u00e3o, onde o controle das for\u00e7as armadas sobre os elementos fundamentais da vida social jamais foi de fato revogado, mesmo nos momentos mais agudos do levantamento popular (at\u00e9 porque os militares controlam diretamente um ter\u00e7o das empresas do pa\u00eds). O longo tempo decorrido desde a deposi\u00e7\u00e3o de Mubarak at\u00e9 a elei\u00e7\u00e3o de um presidente da Irmandade Isl\u00e2mica foi usado para que os militares consolidassem seu poder. Ao mesmo tempo em que o povo se mantinha na expectativa da elei\u00e7\u00e3o, o esp\u00edrito combativo arrefeceu com a vit\u00f3ria parcial alcan\u00e7ada, as lutas mais radicalizadas dos trabalhadores e que amea\u00e7avam avan\u00e7ar para uma consci\u00eancia classista foram sufocadas, e o aparato repressivo se reconstituiu.<\/p>\n<p>A continuidade do controle dos militares foi fundamental para o imperialismo do ponto de vista geopol\u00edtico, pois o Egito \u00e9 um aliado crucial dos Estados Unidos no conflito Israel-palestinos. Os tratados de paz entre o Egito e Israel s\u00e3o a garantia de que os palestinos n\u00e3o ter\u00e3o nenhum ponto de apoio na principal pot\u00eancia do Norte da \u00c1frica. Ao mesmo tempo em que conseguiu manter o Egito sob seu controle apesar da Primavera \u00c1rabe, os Estados Unidos est\u00e3o buscando destruir um dos poucos focos de relativa independ\u00eancia na regi\u00e3o, a S\u00edria, justamente gra\u00e7as \u00e0 Primavera \u00c1rabe. A luta por democracia est\u00e1 sendo usada para for\u00e7ar a derrubada de um governante que representava um parco suporte aos palestinos, gra\u00e7as ao apoio dado aos setores pr\u00f3-palestinos no L\u00edbano. Foi criado um ex\u00e9rcito guerrilheiro para enfrentar o governo s\u00edrio, mas de forma artificial e a partir do exterior, com intermedia\u00e7\u00e3o da Ar\u00e1bia Saudita, sem conex\u00e3o com a oposi\u00e7\u00e3o popular no interior, que de qualquer forma \u00e9 mais fraca do que nos outros pa\u00edses como o Egito ou mesmo a L\u00edbia. Esse mecanismo deve ser a t\u00e1tica do imperialismo para derrubar o governo s\u00edrio, sem se envolver numa guerra direta, caso em que sofreria a oposi\u00e7\u00e3o da R\u00fassia e da China.<\/p>\n<p>Esse mesmo expediente, o de se colocar como porta-voz da democracia, aproveitando o embalo da Primavera \u00c1rabe, n\u00e3o p\u00f4de ser usado pelo imperialismo para o Ir\u00e3. Nesse caso, ressuscitou-se o velho e batido mote do programa nuclear iraniano como amea\u00e7a. Tamb\u00e9m \u00e9 improv\u00e1vel uma interven\u00e7\u00e3o militar direta, devido ao impasse em que as for\u00e7as imperialistas se envolveram no Iraque e no Afeganist\u00e3o. Os dois pa\u00edses foram deixados semidestru\u00eddos e entregues a autodilacera\u00e7\u00e3o das rivalidades tribais e religiosas, sem construir governos est\u00e1veis que viabilizassem a pilhagem de seus recursos petrol\u00edferos, como tinha sido originalmente previsto. Esse exemplo e o c\u00e1lculo dos custos financeiros e humanos proibitivos de uma invas\u00e3o direta ao Ir\u00e3 tornam essa guerra a hip\u00f3tese menos prov\u00e1vel, mesmo com as escaramu\u00e7as diplom\u00e1ticas periodicamente veiculadas na m\u00eddia internacional.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Am\u00e9rica Latina<\/b><\/p>\n<p>A crise mundial do capitalismo encontrou os pa\u00edses \u00e1rabes e do norte da \u00c1frica entregues a ditaduras corruptas e subservientes. Na Am\u00e9rica Latina, ao contr\u00e1rio, a crise vem sendo gerida por governos de ret\u00f3rica antineoliberal e em alguns casos anti-imperialista. A direita tradicional e os neoliberais assumidos j\u00e1 tinham sido varridos do governo da maior parte dos pa\u00edses como resultado das lutas do in\u00edcio da d\u00e9cada passada. Essas lutas produziram mobiliza\u00e7\u00f5es massivas contra os resultados mais desastrosos do neoliberalismo, em pa\u00edses como Argentina, Bol\u00edvia e Equador. As lutas de car\u00e1ter popular (sem a hegemonia de setores organizados enquanto proletariado) chegaram a derrubar governos nesses pa\u00edses. Entretanto, tiveram como produto distorcido a elei\u00e7\u00e3o de governos \u201cde esquerda\u201d que faziam oposi\u00e7\u00e3o aos conservadores e neoliberais tradicionais. O mais \u201cousado\u201d desses governos, o de Ch\u00e1vez na Venezuela, chegou a falar em \u201csocialismo do s\u00e9culo XXI\u201d para dar nome ao seu projeto.<\/p>\n<p>A Am\u00e9rica Latina foi o continente em que se concentraram os mais importantes movimentos em resposta \u00e0 crise c\u00edclica anterior, em 2000 e 2001, na forma das lutas de setores populares em geral, sem presen\u00e7a ou hegemonia de setores organizados de trabalhadores, contra as consequ\u00eancias do neoliberalismo. Esses movimentos foram desviados para a disputa eleitoral e resultaram na elei\u00e7\u00e3o de governantes nacionalista burgueses, inspirados e representados pelo chavismo venezuelano. Depois de um primeiro momento de chegada ao poder, com discursos altissonantes e pr\u00e1ticas assistencialistas, esses governantes passaram por um momento de consolida\u00e7\u00e3o, desfrutando da conjuntura favor\u00e1vel do auge do ciclo econ\u00f4mico de 2002 a 2007 e alcan\u00e7ando a reelei\u00e7\u00e3o, exportando o \u201cmodelo\u201d, etc. Nesse per\u00edodo viveu-se a alta do pre\u00e7o das commodities agr\u00edcolas, minerais e hidrocarbonetos, em que esses pa\u00edses s\u00e3o especializados, o que deu aos seus governantes margens de manobra para a rela\u00e7\u00e3o assistencialista com a popula\u00e7\u00e3o e para certa estabilidade na rela\u00e7\u00e3o com a burguesia.<\/p>\n<p>A crise atual exauriu as margens de manobra desses governos. Antes era poss\u00edvel fazer concess\u00f5es parciais aos trabalhadores, na forma de pol\u00edticas assistenciais, bancadas pelos recursos gerados pela exporta\u00e7\u00e3o de commodities petrol\u00edferas, minerais ou agr\u00edcolas, parcialmente nacionalizadas em alguns desses pa\u00edses, no bojo do \u00faltimo ciclo de crescimento da economia mundial. Com o esgotamento desse ciclo, a queda dos pre\u00e7os das commodities, e consequentemente, da arrecada\u00e7\u00e3o estatal com a venda direta ou indireta dessas mercadorias, o or\u00e7amento p\u00fablico ficou mais apertado. A crise sobrecarregou os or\u00e7amentos com um encargo adicional, a ajuda aos bancos e empresas para evitar o mergulho dos pa\u00edses do continente no mesmo grau de recess\u00e3o que atingiu os pa\u00edses avan\u00e7ados.<\/p>\n<p>A disputa pelos or\u00e7amentos p\u00fablicos se tornou mais acirrada entre as fra\u00e7\u00f5es da burguesia e os setores da burocracia que impulsionavam esses governos \u201cde esquerda\u201d. Tanto os de perfil social-liberal como os de tipo nacionalista burgu\u00eas reciclado s\u00e3o for\u00e7ados a priorizar a continuidade do funcionamento da economia capitalista, a garantia do lucro das empresas, o pagamento dos juros ao capital financeiro, os cortes or\u00e7ament\u00e1rios. O assistencialismo e as pequenas concess\u00f5es j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o suficientes para contentar a popula\u00e7\u00e3o, que permanece vivenciando a mis\u00e9ria capitalista, e desencadeia alguns movimentos limitados com exig\u00eancias e diferencia\u00e7\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o a esses governantes (como no caso da luta dos camponeses origin\u00e1rios bolivianos contra a passagem de uma estrada a servi\u00e7o de empreendimentos de transnacionais no territ\u00f3rio TIPNIS em 2011). Ao mesmo tempo, a burguesia parte para a ofensiva, buscando retomar o controle do Estado pela via eleitoral, baseada em acusa\u00e7\u00f5es de corrup\u00e7\u00e3o, inefici\u00eancia administrativa, autoritarismo, etc., mas tamb\u00e9m na insatisfa\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando a via eleitoral n\u00e3o \u00e9 suficiente, come\u00e7am a haver movimentos abertamente golpistas contra tais governos, como aconteceu em Honduras em 2009 e no Paraguai em 2012. Qualquer movimento no sentido de que possam querer fugir da prioridade que \u00e9 a sustenta\u00e7\u00e3o do capital \u00e9 punido com golpes de estado ou amea\u00e7as golpistas. Essas puni\u00e7\u00f5es s\u00e3o alavancadas por campanhas c\u00ednicas da m\u00eddia centradas no discurso contra a corrup\u00e7\u00e3o e o aparelhamento do Estado que grassam em tais governos.<\/p>\n<p>Ou ainda, o \u201cdesvio\u201d em rela\u00e7\u00e3o aos interesses estritos do capital pode ser punido com resultados eleitorais desfavor\u00e1veis, pois a direita tradicional tem um amplo repert\u00f3rio de argumentos para explorar nas disputas eleitorais, desde a corrup\u00e7\u00e3o e inefici\u00eancia geral do Estado, a amea\u00e7a do \u201ccomunismo\u201d ou de Hugo Ch\u00e1vez, a necessidade da altern\u00e2ncia \u201cdemocr\u00e1tica\u201d de partidos, at\u00e9 a continuidade da mis\u00e9ria e dos problemas sociais, viol\u00eancia, etc.<\/p>\n<p>O mais tr\u00e1gico \u00e9 que a derrota de tais governos, pela via golpista ou \u201cdemocr\u00e1tica\u201d eleitoral, repercute n\u00e3o apenas sobre seus dirigentes e partidos (que de resto s\u00e3o tamb\u00e9m inimigos dos trabalhadores), mas sobre a popula\u00e7\u00e3o em geral e a classe trabalhadora que neles confiaram. A vit\u00f3ria da direita tradicional legitima a ofensiva contra os restos de conquistas, lutas e organiza\u00e7\u00e3o popular e dos trabalhadores. \u00c9 cada vez mais importante e urgente lutar para desenvolver alternativas de organiza\u00e7\u00e3o independentes dos partidos governistas, contra a direita tradicional e contra os governos \u201cde esquerda\u201d e nacionalistas burgueses reciclados, pois somente a organiza\u00e7\u00e3o independente pode representar defesa contra os golpes e o retorno da direita tradicional aos governos e contra os ataques da burguesia \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de vida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Resolu\u00e7\u00f5es<\/b><\/p>\n<p>1. A situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica dos pa\u00edses centrais aponta para a persist\u00eancia da crise e a probabilidade de que se resolva em um curto espa\u00e7o de tempo \u00e9 muito pequena. As medidas que os governos e os \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos governamentais (FED, Banco Central Europeu, etc.) s\u00e3o obrigados a adotarem aumentam as contradi\u00e7\u00f5es que, por sua vez, empurra os trabalhadores para a mobiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Assim, apontamos, como tend\u00eancia geral da correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as, para o fato de que as lutas sigam. No entanto, tamb\u00e9m apontamos para, a partir da crise de alternativa e do papel das dire\u00e7\u00f5es pol\u00edtico-sindicais desses processos, que \u00e9 pouco prov\u00e1vel que elas adquiram um car\u00e1ter de ofensiva, ou seja, continuam se defendendo das medidas do projeto de ajuste que o capital desfere contra os trabalhadores tanto nos pa\u00edses perif\u00e9ricos como nos pa\u00edses centrais.<\/p>\n<p>Mesmo com o car\u00e1ter defensista \u00e9 muito prov\u00e1vel que a exist\u00eancia dessas lutas empurre governos e pa\u00edses para a crise pol\u00edtica, como \u00e9 o caso da situa\u00e7\u00e3o grega e espanhola. Como exemplo podemos citar as in\u00fameras greves gerais na Gr\u00e9cia e a passeata dos mineiros das Ast\u00farias at\u00e9 Madri.<\/p>\n<p>Como organiza\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria nos cabe apoi\u00e1-las com a realiza\u00e7\u00e3o de campanhas pol\u00edticas, ajudando a que a classe trabalhadora mundial possa desenvolver sua consci\u00eancia pol\u00edtica.<\/p>\n<p>A exist\u00eancia dessas lutas e a dificuldade de o capital aplicar a fundo o seu projeto sem resist\u00eancia da classe trabalhadora s\u00e3o marcas dessa nova situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica mundial, a qual caracterizamos como de instabilidade econ\u00f4mica, pol\u00edtica e social. Isso quer dizer que \u00e9 improv\u00e1vel que o imperialismo consiga impor seu projeto na dimens\u00e3o que necessita para, pelo menos, jogar a crise para um futuro mais distante.<\/p>\n<p>Se as lutas dos trabalhadores s\u00e3o defensistas, tamb\u00e9m merece destacar que \u00e9 um processo desigual, com n\u00edveis e ritmos distintos de um pa\u00eds para outro, mas o que determina a situa\u00e7\u00e3o mais global \u00e9 neste momento a impossibilidade de o imperialismo impor uma derrota hist\u00f3rica ao proletariado e assim conseguir impor uma ordem contrarrevolucion\u00e1ria.<\/p>\n<p>2. Essas contradi\u00e7\u00f5es devem explodirnum processo de crise aguda ainda mais s\u00e9rio do que o de 2008. Ainda que a burguesia consiga impedir essa explos\u00e3o na forma de uma crise mundial geral ou depress\u00e3o, as instabilidades no mercado financeiro e na pol\u00edtica internacional, com picos de localizados de pa\u00eds para pa\u00eds ou regi\u00e3o para regi\u00e3o, continuar\u00e3o dando a t\u00f4nica no per\u00edodo. Dentro de um processo de crise estrutural ou decl\u00ednio do capitalismo h\u00e1 v\u00e1rios ciclos e mudan\u00e7as no padr\u00e3o de acumula\u00e7\u00e3o, com fases distintas como as das d\u00e9cadas de 1970-80 (em que se deu a gesta\u00e7\u00e3o do neoliberalismo) e as de 1990-2000 (em que se deu a queda dos Estados burocr\u00e1ticos e o auge da mundializa\u00e7\u00e3o neoliberal). A crise atual \u00e9 uma crise c\u00edclica no interior de um processo de crise estrutural. \u00c9 tamb\u00e9m o fim de um padr\u00e3o de acumula\u00e7\u00e3o do capitalismo que durava d\u00e9cadas. A crise atual representa o fim do per\u00edodo \u201ccl\u00e1ssico\u201d da mundializa\u00e7\u00e3o neoliberal. Entramos num novo per\u00edodo, em que um novo modelo ter\u00e1 que ser imposto pela burguesia. O capital precisa se reorganizar e definir um novo padr\u00e3o de acumula\u00e7\u00e3o. Ser\u00e1 preciso construir um novo acordo entre os imperialismos e as burguesias e setores dirigentes dos pa\u00edses perif\u00e9ricos de maior peso para viabilizar a continuidade do sistema. Esse acordo n\u00e3o ser\u00e1 obtido sem conflito, pois \u00e9 preciso definir quem ser\u00e1 o perdedor. A disputa interimperialista em si n\u00e3o significa necessariamente uma possibilidade de desafio \u00e0 ordem capitalista. Para que esse desafio aconte\u00e7a \u00e9 preciso que o antagonista hist\u00f3rico do capital, a classe trabalhadora, se coloque em cena como portadora de um projeto social alternativo.<\/p>\n<p>3. Os ciclos econ\u00f4micos est\u00e3o mundializados e sincronizados a partir da refer\u00eancia da economia dominante, que s\u00e3o os Estados Unidos. Os pa\u00edses perif\u00e9ricos chamados \u201cBRICs\u201d n\u00e3o formam qualquer tipo de unidade no sentido pol\u00edtico ou mesmo econ\u00f4mico, nem s\u00e3o portadores de nenhum projeto alternativo ao do imperialismo, e de outro lado n\u00e3o t\u00eam ainda condi\u00e7\u00f5es de lutar por um projeto imperialista pr\u00f3prio. Os BRICs n\u00e3o s\u00e3o ainda aspirantes \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de imperialistas, s\u00e3o economias dominadas de grande porte, que partilham uma rela\u00e7\u00e3o especial de simbiose e conflitividade em rela\u00e7\u00e3o aos imperialismos tradicionais.S\u00e3o pa\u00edses com fun\u00e7\u00f5es espec\u00edficas subordinadas dentro do sistema capitalista mundial. Dentro desse conjunto, o Brasil tem a fun\u00e7\u00e3o de subcentro do imperialismo na Am\u00e9rica do Sul e na rela\u00e7\u00e3o que desenvolve com alguns pa\u00edses da \u00c1frica. O crescimento desse grupo de pa\u00edses \u00e9 parte de uma busca do capital por espa\u00e7os de valoriza\u00e7\u00e3o, baseados na mais valia absoluta, sem que contudo consiga fugir de suas contradi\u00e7\u00f5es. Esses pa\u00edses est\u00e3o longe de representar um manancial inesgot\u00e1vel para a acumula\u00e7\u00e3o de capital, pois seu crescimento est\u00e1 determinado por limites que tem a ver com seus pap\u00e9is espec\u00edficos subordinados na ordem capitalista.<\/p>\n<p>4. A crise do capitalismo n\u00e3o \u00e9 apenas uma crise da economia capitalista, mas uma crise do sistema capitalista. Al\u00e9m de ser um modo de funcionamento da economia, um modo de produ\u00e7\u00e3o, o capitalismo \u00e9 tamb\u00e9m um modo de domina\u00e7\u00e3o, que se comp\u00f5e de um conjunto de institui\u00e7\u00f5es dedicadas a reproduzir a hierarquia social em que as personifica\u00e7\u00f5es do capital concentram e exercem o poder econ\u00f4mico e social. Essas institui\u00e7\u00f5es est\u00e3o centralizadas no Estado, cuja legitima\u00e7\u00e3o se mostra mais dif\u00edcil na medida em que a crise explicita perante a sociedade o seu papel como garantidor do funcionamento do capitalismo, e em \u00faltima inst\u00e2ncia, como instrumento do seu setor dominante, o capital financeiro.<\/p>\n<p>5. A burguesia sempre apresentar\u00e1 algum tipo de projeto de gest\u00e3o ou pol\u00edtica econ\u00f4mica, afinal sua fun\u00e7\u00e3o como classe dominante \u00e9 gerenciar o sistema, mas nenhum projeto pode solucionar as contradi\u00e7\u00f5es ativadas pela crise estrutural, pode apenas afast\u00e1-las momentaneamente. N\u00e3o h\u00e1 solu\u00e7\u00e3o para a crise, por mais que a burguesia apresente pol\u00edticas, programas e discursos, pois as contradi\u00e7\u00f5es n\u00e3o podem ser objetivamente resolvidas nos marcos do capitalismo. Tamb\u00e9m n\u00e3o houve uma queima maci\u00e7a de capital como na crise de 1929 e nas Guerras Mundiais. A queima da maior partedo capital sobrante \u00e9 imposs\u00edvel pelo fato de que as empresas se tornaram grandes demais para quebrar. O capital precisa impor uma derrota hist\u00f3rica sobre a classe trabalhadora para recompor a taxa de lucro, mas sem uma guerra mundial, deve faz\u00ea-lo por meio de guerras parciais.<\/p>\n<p>6. O novo projeto da burguesia para gest\u00e3o do capitalismo ainda n\u00e3o est\u00e1 definido. O que se prev\u00ea nos c\u00edrculos dirigentes e intelectuais burgueses \u00e9 a continuidade das medidas emergenciais adotadas durante a crise por um per\u00edodo de tempo indefinido, ou seja, a sua transforma\u00e7\u00e3o em medidas permanentes. A \u201causteridade\u201d passa a ser o discurso dominante e a l\u00f3gica de todos os governantes burgueses. E por \u201causteridade\u201d entende-se o controle total do or\u00e7amento p\u00fablico pelo capital financeiro, em preju\u00edzo da popula\u00e7\u00e3o e dos trabalhadores, for\u00e7ados a enfrentar a degrada\u00e7\u00e3o das suas condi\u00e7\u00f5es de vida.<\/p>\n<p>7. A crise de 2008 encontrou os gestores do capital desprevenidos, mas ainda com cartas na manga para gerenciar a situa\u00e7\u00e3o. Colaborou para isso o fato de que a classe trabalhadora estava ainda menos preparada. No momento atual o capital j\u00e1 est\u00e1 de \u201csobreaviso\u201d e realizando os ajustes preventivos para a pr\u00f3xima reca\u00edda na crise, mesmo que agora tenha menos muni\u00e7\u00e3o. O capital pode apelar para deslocar as contradi\u00e7\u00f5es por meio de formas autorit\u00e1rias ou \u201cdemocr\u00e1ticas\u201d. O capital pode deslocar os seus investimentos de um pa\u00eds para outro, de uma cidade para outra, colocando setores da classe trabalhadora em conflito uns contra os outros. Enquanto n\u00e3o houver uma ofensiva da classe trabalhadora, os ajustes v\u00e3o sendo aplicados pela via eleitoral, pelo parlamento, judici\u00e1rio e outras institui\u00e7\u00f5es, com a colabora\u00e7\u00e3o dos sindicatos burocratizados.<\/p>\n<p>8. A crise de 2008 encontrou a classe trabalhadora pol\u00edtica e ideologicamente desarmada, de modo que n\u00e3o houve resist\u00eancia s\u00e9ria. A partir de 2011 a situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica est\u00e1 mais polarizada, e a classe trabalhadora est\u00e1 mais mobilizada. Existe uma nova correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as. A imposi\u00e7\u00e3o dos ajustes n\u00e3o se d\u00e1 de maneira autom\u00e1tica. H\u00e1 dificuldade para o capital impor os ajustes que s\u00e3o necess\u00e1rios, pois h\u00e1 setores da classe trabalhadora que se levantam em luta contra tais ajustes. Nessas lutas t\u00eam prevalecido os funcion\u00e1rios p\u00fablicos e a juventude trabalhadora desempregada, mas h\u00e1 tamb\u00e9m segmentos da classe que trabalham no setor produtivo em luta, embora minorit\u00e1rios. De modo geral, a classe oper\u00e1ria industrial n\u00e3o se p\u00f4s em luta de forma massiva. A luta anticapitalista precisa ser internacionalizada e incorporar os trabalhadores por outros aspectos para al\u00e9m do local de trabalho, como a organiza\u00e7\u00e3o por bairro, por demandas como transporte, quest\u00f5es ambientais, etc.<\/p>\n<p>9. Existe hoje uma superacumula\u00e7\u00e3o de capital, especialmente de capital especulativo, fict\u00edcio. Esse capital financeiro especulativo \u00e9 o setor cujos interesses prevalecem na condu\u00e7\u00e3o da economia mundial. A ditadura do capital financeiro leva a uma diminui\u00e7\u00e3o dos espa\u00e7os democr\u00e1ticos. O Estado se coloca cada vez mais como agente direto da sobreviv\u00eancia do capital e instrumento espec\u00edfico do capital financeiro. No novo padr\u00e3o de funcionamento as fun\u00e7\u00f5es de planejamento do Estado passam a ser assumidas diretamente por institui\u00e7\u00f5es representativas do capital financeiro. FMI, Banco Mundial, BCE, FED, etc., passam a ditar a pol\u00edtica de governo para os diversos Estados e fiscalizar o seu cumprimento. Os governantes eleitos passam a ter o papel de administrar as medidas ditadas pelas finan\u00e7as, as quais s\u00e3o assumidas como \u00fanico programa pol\u00edtico poss\u00edvel. Presidentes e primeiro-ministros s\u00e3o testa de ferro e rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas dos bancos.<\/p>\n<p>10. O per\u00edodo agudo de uma crise econ\u00f4mica, em que acontecem as quedas da produ\u00e7\u00e3o e do com\u00e9rcio, quebras de bolsas de valores, fal\u00eancias de bancos e empresas, demiss\u00f5es em massa, etc., tem sempre uma dura\u00e7\u00e3o limitada, pois o Estado adota medidas para evitar que esse processo siga sua pr\u00f3pria l\u00f3gica, e consegue alcan\u00e7ar alguma estabiliza\u00e7\u00e3o. O problema \u00e9 que a cada crise o Estado tem menos muni\u00e7\u00e3o para gastar com essas medidas de estabiliza\u00e7\u00e3o. Na crise atual a quantidade de dinheiro do Estado gasta com a estabiliza\u00e7\u00e3o foi muito grande e a oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 \u201causteridade\u201d cresceu enormemente dentro da sociedade. O pr\u00f3ximo per\u00edodo agudo de crise ter\u00e1 consequ\u00eancias sociais e pol\u00edticas muito maiores que a de 2008. \u00c9 imposs\u00edvel determinar exatamente quando a atual estabiliza\u00e7\u00e3o vai se esgotar, se em um, dois anos ou mais, mas n\u00e3o muito mais do que isso. O que \u00e9 certo \u00e9 que a polariza\u00e7\u00e3o entre as classes deve se acirrar e as lutas devem ser muito mais agudas. Lutas com car\u00e1ter de rebeli\u00e3o social ou mesmo revolu\u00e7\u00f5es voltar\u00e3o a ser possibilidades hist\u00f3ricas prov\u00e1veis.<\/p>\n<p>11. A crise da alternativa socialista n\u00e3o se limita \u00e0 esfera da pol\u00edtica, pois atinge toda a subjetividade humana, todos os aspectos do processo de se colocar como sujeito na realidade. Entretanto, a partir da crise capitalista atual, a situa\u00e7\u00e3o mudou. O capitalismo pode voltar a ser questionado e os elementos desse questionamento encontram terreno f\u00e9rtil para germinar nas lutas detonadas pela crise atual.<\/p>\n<p>12. O socialismo n\u00e3o \u00e9 uma ideia, mas o processo de movimenta\u00e7\u00e3o da realidade. Dentro de uma sociedade cada vez mais socializada e interligada, o dom\u00ednio sobre as coisas \u00e9 cada vez mais restrito e privatizado. O socialismo tem como base objetiva a interliga\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o e das rela\u00e7\u00f5es sociais. Essa base objetiva se choca com as rela\u00e7\u00f5es capitalistas que imp\u00f5em o dom\u00ednio de uma restrita minoria. A possibilidade da revolu\u00e7\u00e3o socialista volta a se colocar na realidade. Se as revolu\u00e7\u00f5es v\u00e3o ser vitoriosas ou n\u00e3o, e se v\u00e3o desenvolver uma consci\u00eancia e conte\u00fado socialistas, isso depende da interven\u00e7\u00e3o dos revolucion\u00e1rios.<\/p>\n<p><b>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/b>13. Ap\u00f3s o balan\u00e7o hist\u00f3rico das tentativas de concretizar a perspectiva socialista ao longo do s\u00e9culo XX \u2013 que se mostraram insuficientes e contribu\u00edram para o descr\u00e9dito da alternativa socialista nos dias atuais -, \u00e9 necessidade imperativa aos revolucion\u00e1rios de hoje, que apresentem uma perspectiva claramente distinta das anteriores em termos de socialismo, que 1) se contraponha diretamente a qualquer perspectiva reformista; 2) seja anti-Stalinista; 3) defenda, claramente e ofensivamente, um sociedade autodeterminada, baseada no controle social da produ\u00e7\u00e3o (em harmonia com o meio-ambiente) pelos trabalhadores, \u00e0 servi\u00e7o dos interesses e necessidades sociais e humanas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Palavras de ordem<\/b><\/p>\n<p>1. Solidariedade \u00e0s lutas dos trabalhadores em todos os pa\u00edses, independentemente de ra\u00e7a, religi\u00e3o ou orienta\u00e7\u00e3o sexual;<\/p>\n<p>2. Em defesa dos empregos, sal\u00e1rios, benef\u00edcios, direitos e condi\u00e7\u00f5es de vida dos trabalhadores em todos os pa\u00edses, contra as pol\u00edticas de \u201causteridade\u201d e os cortes nos gastos p\u00fablicos;<\/p>\n<p>3. Contra as pol\u00edticas de ajuste ditadas pelo capital financeiro, contra as privatiza\u00e7\u00f5es e aumento de impostos;<\/p>\n<p>4. Pelo n\u00e3o pagamento das d\u00edvidas aos especuladores internacionais, pelo cancelamento da d\u00edvida dos pa\u00edses pobres, por repara\u00e7\u00f5es dos pa\u00edses imperialistas aos pa\u00edses da \u00c1frica pelos s\u00e9culos de escraviza\u00e7\u00e3o;<\/p>\n<p>5. Reafirmamos a necessidade de indeniza\u00e7\u00e3o financeira por parte de todos os pa\u00edses que saquearam e ainda saqueiam as riquezas do continente africano no geral e da \u00c1frica do Sul, em espec\u00edfico. Repudiamos a a\u00e7\u00e3o do PC africano e da COSATO por n\u00e3o reivindicar a imediata soltura dos trabalhadores presos durante a manifesta\u00e7\u00e3o que resultou no massacre de Marikana.<\/p>\n<p>5. Em defesa dos direitos civis e democr\u00e1ticos, pelo direito de greve e de manifesta\u00e7\u00e3o, contra a criminaliza\u00e7\u00e3o dos movimentos sociais;<\/p>\n<p>6. Contra os partidos neonazistas e de ultradireita, contra a xenofobia, o racismo, a homofobia e o machismo, direitos iguais para os trabalhadores imigrantes independentemente de ra\u00e7a, religi\u00e3o ou orienta\u00e7\u00e3o sexual;<\/p>\n<p>7. Contra as invas\u00f5es e guerras imperialistas, fora os imperialistas do Iraque e do Afeganist\u00e3o. Fora Israel da Palestina, fim do Estado de Israel, por um Estado laico e multi\u00e9tnico que re\u00fana o proletariado israelense e palestino. Contra a interven\u00e7\u00e3o imperialista no Ir\u00e3. Nem Assad nem interven\u00e7\u00e3o imperialista na S\u00edria, por uma sa\u00edda independente dos trabalhadores.<\/p>\n<p>8. Pelo desarmamento das pot\u00eancias imperialistas e desmantelamento dos arsenais de armas de destrui\u00e7\u00e3o em massa, nucleares, qu\u00edmicas e biol\u00f3gicas;<\/p>\n<p>9. Em defesa da soberania dos povos e contras as invas\u00f5es imperialistas, que nenhum pa\u00eds seja for\u00e7ado a se desarmar at\u00e9 que haja o desarmamento das pot\u00eancias imperialistas;<\/p>\n<p>10. Contra o agroneg\u00f3cio, os transg\u00eanicos e a destrui\u00e7\u00e3o ambiental, contra a especula\u00e7\u00e3o com alimentos, em defesa da agricultura familiar e da soberania alimentar dos povos;<\/p>\n<p>11. Contra a destrui\u00e7\u00e3o ambiental provocada pelas corpora\u00e7\u00f5es imperialistas, expropria\u00e7\u00e3o sob controle dos trabalhadores das empresas que cometerem crimes ambientais;<\/p>\n<p>12. Contra os golpes de Estado, fraudes eleitorais e interven\u00e7\u00f5es imperialistas na soberania dos pa\u00edses, contra o golpe no Paraguai e a fraude eleitoral no M\u00e9xico;<\/p>\n<p>13. Em defesa das conquistas democr\u00e1ticas nos pa\u00edses \u00e1rabes, contra os militares no Egito e o governo do CNT na L\u00edbia, pelo avan\u00e7o das reivindica\u00e7\u00f5es dos trabalhadores;<\/p>\n<p>14. Nenhuma confian\u00e7a nos governos burocr\u00e1ticos, nacionalistas e isl\u00e2micos, pela organiza\u00e7\u00e3o independente dos trabalhadores;<\/p>\n<p>15. Por governos dos trabalhadores baseados em suas organiza\u00e7\u00f5es de luta;<\/p>\n<p>16. Por uma sociedade socialista internacional.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; &nbsp; Esse documento se comp\u00f5e de tr\u00eas partes: 1\u00ba) elementos de an\u00e1lise \u2013 Economia, Fatores estruturais; Consequ\u00eancias de longo<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5,64],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1423"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1423"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1423\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1468,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1423\/revisions\/1468"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1423"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1423"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1423"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}