{"id":159,"date":"2009-03-17T10:33:15","date_gmt":"2009-03-17T10:33:15","guid":{"rendered":"http:\/\/espacosocialista.org\/?q=node\/159"},"modified":"2018-05-04T21:46:00","modified_gmt":"2018-05-05T00:46:00","slug":"a-miseria-o-espetaculo-e-suas-perversidades","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/2009\/03\/a-miseria-o-espetaculo-e-suas-perversidades\/","title":{"rendered":"A mis\u00e9ria, o espet\u00e1culo e suas perversidades"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"western\" style=\"margin-bottom: 0cm;\" align=\"center\">\u00a0(Coment\u00e1rio sobre o filme \u201cQuem quer ser um milion\u00e1rio\u201d)<\/p>\n<p class=\"western\" style=\"margin-bottom: 0cm;\" align=\"justify\">O grande vencedor do Oscar 2009 tem como principal m\u00e9rito o fato de ter escolhido um favelado como protagonista. Afinal, mais de um bilh\u00e3o de pessoas s\u00e3o favelados hoje no mundo. Vivemos no \u201cPlaneta favela\u201d, t\u00edtulo de um livro de Mike Davis que descreve a estarrecedora realidade dessa por\u00e7\u00e3o nada desprez\u00edvel da popula\u00e7\u00e3o humana. A favela \u00e9 o retrato acabado do fracasso da civiliza\u00e7\u00e3o capitalista. Desemprego, subemprego, trabalho informal, biscates, mendic\u00e2ncia, prostitui\u00e7\u00e3o, doen\u00e7as, fome, viol\u00eancia, crime; s\u00e3o a realidade social dessa popula\u00e7\u00e3o. Esgoto a c\u00e9u aberto, lixo, fezes, cad\u00e1veres em decomposi\u00e7\u00e3o, ratos e moscas s\u00e3o a realidade material. Um bilh\u00e3o de pessoas vive literalmente na merda (h\u00e1 uma cena em que o protagonista do filme em quest\u00e3o ilustra graficamente o que quer dizer \u201cviver na merda\u201d).<\/p>\n<p class=\"western\" style=\"margin-bottom: 0cm;\" align=\"justify\">Pouco acima dessa camada de favelados, temos as tamb\u00e9m numerosas camadas dos pobres, dos remediados, dos trabalhadores explorados formalmente, que comp\u00f5em a imensa maioria da humanidade, para quem a simples sobreviv\u00eancia \u00e9 um desafio cotidiano. Isso \u00e9 um grotesco absurdo em face da abund\u00e2ncia de recursos e de capacidade produtiva dispon\u00edvel no planeta. O sistema funciona de fato apenas para uma restrita minoria. Nada pode ser mais eloq\u00fcente do que essa realidade para demonstrar o fracasso estrepitoso do capitalismo, do livre mercado, da globaliza\u00e7\u00e3o, do progresso, do desenvolvimento, do crescimento, etc. Pedir a cada um desses 1 bilh\u00e3o de pessoas que continue suportando a vida no inferno por mais um dia sequer, apenas para que a min\u00fascula elite internacional dos banqueiros, executivos, especuladores, aventureiros e rapinantes de toda esp\u00e9cie que controlam a economia mundial possam seguir desfrutando do luxo obsceno em que se refestelam; \u00e9 dar mostras de um sadismo verdadeiramente hediondo.<\/p>\n<p class=\"western\" style=\"margin-bottom: 0cm;\" align=\"justify\">Entretanto, \u00e9 exatamente isso que fazem os gestores do sistema, os tecnocratas e ide\u00f3logos mercen\u00e1rios encarregados de reciclar cotidianamente as promessas furadas da viabilidade do capitalismo e propag\u00e1-las maci\u00e7amente por todos os canais e meios de comunica\u00e7\u00e3o que intoxicam diariamente a consci\u00eancia coletiva. Por esse motivo, os m\u00e9ritos de um filme que tem a coragem de expor as entranhas de uma sociedade perif\u00e9rica como a da \u00cdndia devem ser sempre destacados. Trata-se de uma abordagem diametralmente oposta \u00e0 do \u201cCaminho das \u00cdndias\u201d da rede Globo, que optou por mostrar a \u00cdndia dos nababos e maraj\u00e1s.<\/p>\n<p class=\"western\" style=\"margin-bottom: 0cm;\" align=\"justify\"><img decoding=\"async\" style=\"border: 15px solid white;\" src=\"http:\/\/www.espacosocialista.org\/sites\/default\/files\/ndia.jpg\" alt=\"\" align=\"left\" \/><\/p>\n<p class=\"western\" style=\"margin-bottom: 0cm;\" align=\"justify\">Por falar em Globo e em Brasil, \u201cPlaneta Favela\u201d registra o fato de que nosso pa\u00eds tem 51,7 milh\u00f5es de favelados, e a \u00cdndia 158,4 milh\u00f5es, o que corresponde a 36,6 e 55,5 por cento da popula\u00e7\u00e3o urbana dos dois pa\u00edses respectivamente. Mas nem tudo na nossa ind\u00fastria cultural \u00e9 pura mistifica\u00e7\u00e3o. Por vezes a realidade tamb\u00e9m aparece. \u201cQuem quer ser um milion\u00e1rio\u201d tem um predecessor importante no seu g\u00eanero, o brasileiro \u201cCidade de Deus\u201d, do qual recebe n\u00edtidas influ\u00eancias. Al\u00e9m do cen\u00e1rio de mis\u00e9ria, semelhante em Bombaim (cidade que os inventores de modismos resolveram rebatizar com o insosso nome de \u201cMumbai\u201d) e no Rio de Janeiro, temos um protagonista que tenta fazer seu caminho sem se envolver com o crime, embora esse tenha sido o meio em que cresceu. No que se refere \u00e0 narrativa, temos tamb\u00e9m o recurso \u00e0 linhas temporais intercaladas que comp\u00f5em o quebra-cabe\u00e7as da vida dos personagens. Finalmente, no aspecto puramente est\u00e9tico, temos o estilo de edi\u00e7\u00e3o, o ritmo acelerado, as cores fortes.<\/p>\n<p class=\"western\" style=\"margin-bottom: 0cm;\" align=\"justify\">Ao escolher um favelado como protagonista, \u201cQuem quer ser um milion\u00e1rio\u201d tem a oportunidade de retratar as diversas formas de opress\u00e3o de que essa popula\u00e7\u00e3o \u00e9 v\u00edtima. A opress\u00e3o se manifesta n\u00e3o apenas na condi\u00e7\u00e3o material, mas tamb\u00e9m nas diversas formas de preconceito, discrimina\u00e7\u00e3o e viol\u00eancia, n\u00e3o apenas f\u00edsica, mas tamb\u00e9m psicol\u00f3gica.<\/p>\n<p class=\"western\" style=\"margin-bottom: 0cm;\" align=\"justify\">O t\u00edtulo do filme se refere a um programa de televis\u00e3o do tipo de perguntas e respostas. No Brasil tivemos h\u00e1 alguns anos o \u201cShow do Milh\u00e3o\u201d, apresentado pelo grotesco Silvio Santos (que ali\u00e1s fez sua fortuna explorando a credulidade dos pobres), imita\u00e7\u00e3o de um modelo internacionalmente difundido, prova de que na ind\u00fastria do espet\u00e1culo nada se cria, tudo se copia. No filme, o programa \u00e9 inesperadamente vencido por um concorrente que vive na favela. Jamal Malik \u00e9 um t\u00edpico representante do emergente capitalismo indiano: trabalha servindo ch\u00e1 aos operadores de telemarketing. Ele \u00e9 o subalterno entre os subalternos da classe trabalhadora, parte da gigantesca massa humana an\u00f4nima triturada nas engrenagens implac\u00e1veis do superlucro globalizado.<\/p>\n<p class=\"western\" style=\"margin-bottom: 0cm;\" align=\"justify\">Ningu\u00e9m na televis\u00e3o, dos produtores ao p\u00fablico, acredita que Jamal tem a m\u00ednima chance de acertar as perguntas do programa. Mas ele acerta uma ap\u00f3s a outra, e seu pr\u00eamio em dinheiro vai aumentando rodada ap\u00f3s rodada. Antes que ele chegue \u00e0 pergunta final, os produtores do programa tentam descartar-se dele nos bastidores e o acusam de ser um fraudador. Um favelado jamais poderia ter acertado as perguntas sem algum tipo de expediente il\u00edcito. Favelado n\u00e3o \u00e9 gente, n\u00e3o pode vencer nunca. Est\u00e1 fora do script.<\/p>\n<p class=\"western\" style=\"margin-bottom: 0cm;\" align=\"justify\">Os \u00f3rg\u00e3os da repress\u00e3o, por outro lado, cumprem fielmente o roteiro que deles se espera. O favelado \u00e9 torturado para confessar o crime que n\u00e3o cometeu. L\u00e1 como aqui, a pol\u00edcia bate primeiro e pergunta depois. Ningu\u00e9m sequer cogita na possibilidade de o vencedor do concurso ter realmente acertado as perguntas, at\u00e9 que a tortura se prove ineficaz e o infeliz tenha a oportunidade de falar. Para explicar para a pol\u00edcia como acertou as perguntas do programa, Jamal tem que narrar uma s\u00e9rie de incidentes de sua vida, pois cada resposta tinha rela\u00e7\u00e3o com algo que aprendeu por ter sofrido na pele. Desdobra-se ent\u00e3o a narrativa de sua vida, desde a inf\u00e2ncia at\u00e9 o momento em que chega ao programa de TV.<\/p>\n<p class=\"western\" style=\"margin-bottom: 0cm;\" align=\"justify\">Al\u00e9m do \u201ccrime\u201d de ser favelado, Jamal deve pagar pela ousadia de tentar transgredir as normas e mudar sua realidade. O favelado s\u00f3 pode conseguir algo depois de apanhar muito e ganhar traumas e cicatrizes. Depois da tortura policial e de apresentar as justificativas para cada uma das respostas que acertou, ele ter\u00e1 a chance de voltar ao programa e arriscar a sorte na pergunta final. O detalhe \u00e9 que a tortura e o interrogat\u00f3rio transcorrem longe dos olhares do p\u00fablico. O inferno vivido por Jamal n\u00e3o pode ser televisionado. O favelado n\u00e3o pode ser humanizado, seu sofrimento n\u00e3o pode ser partilhado pelo espectador. A televis\u00e3o suprime a brutalidade do real e a dissolve na superficialidade do estere\u00f3tipo. O p\u00fablico do programa inevitavelmente desenvolve uma empatia por Jamal e torce por ele, mas nem sequer desconfia dos horrores pelos quais ele passou para chegar at\u00e9 ali, desde sua inf\u00e2ncia distante at\u00e9 a tortura policial ali mesmo, \u00e0s v\u00e9speras da pergunta final.<\/p>\n<p class=\"western\" style=\"margin-bottom: 0cm;\" align=\"justify\"><img decoding=\"async\" style=\"border: 15px solid white;\" src=\"http:\/\/www.espacosocialista.org\/sites\/default\/files\/milh\u00e3o.jpg\" alt=\"\" align=\"right\" \/><\/p>\n<p class=\"western\" style=\"margin-bottom: 0cm;\" align=\"justify\">O mundo do espet\u00e1culo \u00e9 um mundo ass\u00e9ptico, higienista, forjado, embalado para presente e emoldurado pelo sorriso artificial e monstruoso dos apresentadores de TV. Um mundo de fantasia que dissimula por meio da hipocrisia profissional a verdadeira realidade dos seres humanos. A demanda por \u201creality shows\u201d expressa justamente isso, a necessidade do p\u00fablico de torcer por personagens com os quais possa se identificar. Os \u201creality shows\u201d fornecem tais personagens, mas n\u00e3o modificam a dramaturgia b\u00e1sica do espet\u00e1culo, apenas substituem os atores profissionais que encenam o conto de fadas por amadores com os quais o p\u00fablico se considera mais parecido. Nenhum reality show mergulha na realidade de um ser humano com a mesma profundidade de que somente a verdadeira arte, a literatura, o teatro, e alguns raros filmes s\u00e3o capazes.<\/p>\n<p class=\"western\" style=\"margin-bottom: 0cm;\" align=\"justify\">Um dos m\u00e9ritos de \u201cQuem quer ser um milion\u00e1rio\u201d \u00e9 humanizar seus personagens, valorizando sua trajet\u00f3ria de vida. Jamal adquiriu uma diversificada (e terr\u00edvel) experi\u00eancia de vida na favela, nas ruas, na mendic\u00e2ncia, no trabalho. Vivenciou a barb\u00e1rie dos conflitos religiosos, o trauma da orfandade, a precariedade da mendic\u00e2ncia, o horror da explora\u00e7\u00e3o do trabalho infantil, enquanto as pessoas mais pr\u00f3ximas dele resvalavam para o crime e a prostitui\u00e7\u00e3o. Conheceu a inveja, o autoritarismo e por fim a trai\u00e7\u00e3o da parte do pr\u00f3prio irm\u00e3o. Mas ele conheceu tamb\u00e9m a amizade e o companheirismo que unificam os miser\u00e1veis e as pessoas que atravessam situa\u00e7\u00f5es extremas. Conheceu at\u00e9 mesmo o amor, que foi o fio de esperan\u00e7a que o manteve firme e vivo enquanto era massacrado pela vida e levado pela correnteza dos acontecimentos.<\/p>\n<p class=\"western\" style=\"margin-bottom: 0cm;\" align=\"justify\">Depois de passar por esse purgat\u00f3rio, Jamal faz jus ao pr\u00eamio milion\u00e1rio do programa de TV. Chegamos ent\u00e3o ao ponto limite do filme. \u201cQuem quer ser um milion\u00e1rio\u201d nos mostra a realidade do favelado, humaniza sua trajet\u00f3ria, cria no espectador a empatia pelo personagem, nos faz torcer por ele e vibrar por sua vit\u00f3ria; tudo isso \u00e9 bastante louv\u00e1vel e excepcional no cinema, mas \u00e9 feito no bojo de uma solu\u00e7\u00e3o narrativa tamb\u00e9m artificial, que termina por endossar o mecanismo b\u00e1sico do espet\u00e1culo e seus pressupostos ideol\u00f3gicos.<\/p>\n<p class=\"western\" style=\"margin-bottom: 0cm;\" align=\"justify\">O problema come\u00e7a na forma como Jamal vence o pr\u00eamio. Ele acerta a pergunta final no chute, sem realmente saber a resposta. Com isso fica referendada a concep\u00e7\u00e3o de que o conhecimento, no seu aspecto acad\u00eamico, formal, livresco, \u00e9 algo sup\u00e9rfluo, e se pode \u201cvencer na vida\u201d sem ele. A cultura nesse caso aparece como algo que n\u00e3o \u00e9 de fato necess\u00e1rio, que n\u00e3o enriquece a vida, que n\u00e3o recompensa aquele que se esfor\u00e7a para adquir\u00ed-la; enfim, algo que n\u00e3o \u00e9 preciso conquistar e se pode viver muito bem sem t\u00ea-la.<\/p>\n<p class=\"western\" style=\"margin-bottom: 0cm;\" align=\"justify\">O segundo problema est\u00e1 no pr\u00f3prio conceito do que significa \u201cvencer na vida\u201d, ou seja, ficar milion\u00e1rio. Refor\u00e7a-se um ideal de realiza\u00e7\u00e3o em que o indiv\u00edduo n\u00e3o pode simplesmente ser o que ele \u00e9, ele precisa ser como os \u201cvencedores\u201d. Ou o indiv\u00edduo \u00e9 parte da massa miser\u00e1vel, ou \u00e9 parte da elite privilegiada. O favelado \u00e9 festejado, mas apenas pelo fato de que ele \u201cvence\u201d e deixa de ser favelado para se tornar milion\u00e1rio.<\/p>\n<p class=\"western\" style=\"margin-bottom: 0cm;\" align=\"justify\">O terceiro problema, resultante do anterior, \u00e9 que se acaba referendando assim o culto ao dinheiro e aos bens materiais. \u00c9 evidente que a mis\u00e9ria material \u00e9 um mal, mas isso n\u00e3o torna automaticamente um bem a abund\u00e2ncia de bens materiais. Especialmente quando tal abund\u00e2ncia \u00e9 resultante das mesmas rela\u00e7\u00f5es sociais que produzem a mis\u00e9ria, o modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista.<\/p>\n<p class=\"western\" style=\"margin-bottom: 0cm;\" align=\"justify\">O quarto problema est\u00e1 na idealiza\u00e7\u00e3o do amor rom\u00e2ntico. Como numa novela da Globo, em que o final feliz \u00e9 sempre um casamento (ou pior, v\u00e1rios casamentos), o filme indiano termina numa festa em que o casal de protagonistas fica junto. Ao contr\u00e1rio do que a ind\u00fastria do romantismo para consumo popular insiste em dizer, o casamento n\u00e3o \u00e9 onde os problemas terminam, \u00e9 onde eles come\u00e7am.<\/p>\n<p class=\"western\" style=\"margin-bottom: 0cm;\" align=\"justify\">O quinto problema est\u00e1 na frase que encerra o filme, quando aparece a alternativa que responde \u00e0 pergunta colocada ao espectador logo no come\u00e7o: \u201cestava escrito\u201d. Isso quer dizer que o destino dos personagens j\u00e1 estava tra\u00e7ado. Com isso, refor\u00e7a-se a id\u00e9ia nefasta de que n\u00e3o \u00e9 o homem que faz sua hist\u00f3ria, \u00e9 alguma for\u00e7a sobrenatural que determina o curso dos acontecimentos. Sendo assim, n\u00e3o \u00e9 preciso se esfor\u00e7ar para modificar a vida, basta se deixar levar. Nesse ponto, \u201cQuem quer ser um milion\u00e1rio\u201d coincide um pouco com outro concorrente do Oscar, \u201cO curioso caso de Benjamin Button\u201d, em que o destino e o roteiro determinam a vida do personagem, sem que ele tenha muita interfer\u00eancia e aprenda algo significativo atrav\u00e9s da luta.<\/p>\n<p class=\"western\" style=\"margin-bottom: 0cm;\" align=\"justify\">Por \u00faltimo, e tamb\u00e9m mais grave, est\u00e1 o fato de que a solu\u00e7\u00e3o para o problema do favelado \u00e9 puramente individual. Com toda a ruptura que representa por conta da escolha de seu tema e do retrato humano que faz do personagem, o filme permanece prisioneiro da l\u00f3gica do espet\u00e1culo. As narrativas da ind\u00fastria cultural refor\u00e7am a cren\u00e7a de que \u201cqualquer um pode chegar l\u00e1\u201d e impedem o indiv\u00edduo de pensar em sua pr\u00f3pria vida ao contemplar a vida dos \u201cvencedores\u201d que protagonizam o espet\u00e1culo.<\/p>\n<p class=\"western\" style=\"margin-bottom: 0cm;\" align=\"justify\">Jamal fica milion\u00e1rio, mas a favela continua l\u00e1, com o esgoto a c\u00e9u aberto, lixo, fezes, cad\u00e1veres em decomposi\u00e7\u00e3o, ratos e moscas. Os favelados assistem pela TV e comemoram em toda \u00cdndia a vit\u00f3ria de um dos seus, mas continuam favelados. Aceitam assim a perman\u00eancia de um sistema em que um em 1 bilh\u00e3o pode ficar milion\u00e1rio, mas os restantes permanecem miser\u00e1veis. Um sistema em que um afro-descendente pode chegar a presidente dos Estados Unidos, mas os africanos sucumbem na barb\u00e1rie das guerras tribais legadas pelo saque do continente realizado pelo imperialismo.<\/p>\n<p class=\"western\" style=\"margin-bottom: 0cm;\" align=\"justify\">\u00c9 tudo uma quest\u00e3o de sorte, de destino, de acertar um palpite. Se voc\u00ea for um pr\u00e9-destinado, parab\u00e9ns, pois se tornar\u00e1 um milion\u00e1rio. Quanto a n\u00f3s todos, continuaremos na merda.<\/p>\n<p class=\"western\" style=\"margin-bottom: 0cm;\" align=\"justify\">Daniel M. Delfino<\/p>\n<p class=\"western\" style=\"margin-bottom: 0cm;\" align=\"justify\">15\/03\/2009<\/p>\n<p class=\"western\" style=\"margin-bottom: 0cm;\" align=\"justify\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p align=\"justify\" class=\"western\" style=\"margin-bottom: 0cm;\">\n&nbsp;<\/p>\n<p align=\"center\" class=\"western\" style=\"margin-bottom: 0cm;\">(Coment&aacute;rio sobre o filme &ldquo;Quem quer ser um milion&aacute;rio&rdquo;)<\/p>\n<p align=\"justify\" class=\"western\" style=\"margin-bottom: 0cm;\">\n&nbsp;<\/p>\n<p align=\"justify\" class=\"western\" style=\"margin-bottom: 0cm;\">\n&nbsp;<\/p>\n<p align=\"justify\" class=\"western\" style=\"margin-bottom: 0cm;\">\n&nbsp;<\/p>\n<p align=\"justify\" class=\"western\" style=\"margin-bottom: 0cm;\">O grande vencedor do Oscar 2009 tem como principal m&eacute;rito o fato de ter escolhido um favelado como protagonista. Afinal, mais de um bilh&atilde;o de pessoas s&atilde;o favelados hoje no mundo. Vivemos no &ldquo;Planeta favela&rdquo;, t&iacute;tulo de um livro de Mike Davis que descreve a estarrecedora realidade dessa por&ccedil;&atilde;o nada desprez&iacute;vel da popula&ccedil;&atilde;o humana. A favela &eacute; o retrato acabado do fracasso da civiliza&ccedil;&atilde;o capitalista. Desemprego, subemprego, trabalho informal, biscates, mendic&acirc;ncia, prostitui&ccedil;&atilde;o, doen&ccedil;as, fome, viol&ecirc;ncia, crime; s&atilde;o a realidade social dessa popula&ccedil;&atilde;o. Esgoto a c&eacute;u aberto, lixo, fezes, cad&aacute;veres em decomposi&ccedil;&atilde;o, ratos e moscas s&atilde;o a realidade material. Um bilh&atilde;o de pessoas vive literalmente na merda (h&aacute; uma cena em que o protagonista do filme em quest&atilde;o ilustra graficamente o que quer dizer &ldquo;viver na merda&rdquo;).<\/p>\n<p align=\"justify\" class=\"western\" style=\"margin-bottom: 0cm;\">Pouco acima dessa camada de favelados, temos as tamb&eacute;m numerosas camadas dos pobres, dos remediados, dos trabalhadores explorados formalmente, que comp&otilde;em a imensa maioria da humanidade, para quem a simples sobreviv&ecirc;ncia &eacute; um desafio cotidiano. Isso &eacute; um grotesco absurdo em face da abund&acirc;ncia de recursos e de capacidade produtiva dispon&iacute;vel no planeta. O sistema funciona de fato apenas para uma restrita minoria. Nada pode ser mais eloq&uuml;ente do que essa realidade para demonstrar o fracasso estrepitoso do capitalismo, do livre mercado, da globaliza&ccedil;&atilde;o, do progresso, do desenvolvimento, do crescimento, etc. Pedir a cada um desses 1 bilh&atilde;o de pessoas que continue suportando a vida no inferno por mais um dia sequer, apenas para que a min&uacute;scula elite internacional dos banqueiros, executivos, especuladores, aventureiros e rapinantes de toda esp&eacute;cie que controlam a economia mundial possam seguir desfrutando do luxo obsceno em que se refestelam; &eacute; dar mostras de um sadismo verdadeiramente hediondo.<\/p>\n<p align=\"justify\" class=\"western\" style=\"margin-bottom: 0cm;\">Entretanto, &eacute; exatamente isso que fazem os gestores do sistema, os tecnocratas e ide&oacute;logos mercen&aacute;rios encarregados de reciclar cotidianamente as promessas furadas da viabilidade do capitalismo e propag&aacute;-las maci&ccedil;amente por todos os canais e meios de comunica&ccedil;&atilde;o que intoxicam diariamente a consci&ecirc;ncia coletiva. Por esse motivo, os m&eacute;ritos de um filme que tem a coragem de expor as entranhas de uma sociedade perif&eacute;rica como a da &Iacute;ndia devem ser sempre destacados. Trata-se de uma abordagem diametralmente oposta &agrave; do &ldquo;Caminho das &Iacute;ndias&rdquo; da rede Globo, que optou por mostrar a &Iacute;ndia dos nababos e maraj&aacute;s.<\/p>\n<p align=\"justify\" class=\"western\" style=\"margin-bottom: 0cm;\"><img decoding=\"async\" align=\"left\" style=\"border: 15px solid white;\" src=\"http:\/\/www.espacosocialista.org\/sites\/default\/files\/ndia.jpg\" \/><\/p>\n<p align=\"justify\" class=\"western\" style=\"margin-bottom: 0cm;\">Por falar em Globo e em Brasil, &ldquo;Planeta Favela&rdquo; registra o fato de que nosso pa&iacute;s tem 51,7 milh&otilde;es de favelados, e a &Iacute;ndia 158,4 milh&otilde;es, o que corresponde a 36,6 e 55,5 por cento da popula&ccedil;&atilde;o urbana dos dois pa&iacute;ses respectivamente. Mas nem tudo na nossa ind&uacute;stria cultural &eacute; pura mistifica&ccedil;&atilde;o. Por vezes a realidade tamb&eacute;m aparece. &ldquo;Quem quer ser um milion&aacute;rio&rdquo; tem um predecessor importante no seu g&ecirc;nero, o brasileiro &ldquo;Cidade de Deus&rdquo;, do qual recebe n&iacute;tidas influ&ecirc;ncias. Al&eacute;m do cen&aacute;rio de mis&eacute;ria, semelhante em Bombaim (cidade que os inventores de modismos resolveram rebatizar com o insosso nome de &ldquo;Mumbai&rdquo;) e no Rio de Janeiro, temos um protagonista que tenta fazer seu caminho sem se envolver com o crime, embora esse tenha sido o meio em que cresceu. No que se refere &agrave; narrativa, temos tamb&eacute;m o recurso &agrave; linhas temporais intercaladas que comp&otilde;em o quebra-cabe&ccedil;as da vida dos personagens. Finalmente, no aspecto puramente est&eacute;tico, temos o estilo de edi&ccedil;&atilde;o, o ritmo acelerado, as cores fortes.<\/p>\n<p align=\"justify\" class=\"western\" style=\"margin-bottom: 0cm;\">Ao escolher um favelado como protagonista, &ldquo;Quem quer ser um milion&aacute;rio&rdquo; tem a oportunidade de retratar as diversas formas de opress&atilde;o de que essa popula&ccedil;&atilde;o &eacute; v&iacute;tima. A opress&atilde;o se manifesta n&atilde;o apenas na condi&ccedil;&atilde;o material, mas tamb&eacute;m nas diversas formas de preconceito, discrimina&ccedil;&atilde;o e viol&ecirc;ncia, n&atilde;o apenas f&iacute;sica, mas tamb&eacute;m psicol&oacute;gica.<\/p>\n<p align=\"justify\" class=\"western\" style=\"margin-bottom: 0cm;\">O t&iacute;tulo do filme se refere a um programa de televis&atilde;o do tipo de perguntas e respostas. No Brasil tivemos h&aacute; alguns anos o &ldquo;Show do Milh&atilde;o&rdquo;, apresentado pelo grotesco Silvio Santos (que ali&aacute;s fez sua fortuna explorando a credulidade dos pobres), imita&ccedil;&atilde;o de um modelo internacionalmente difundido, prova de que na ind&uacute;stria do espet&aacute;culo nada se cria, tudo se copia. No filme, o programa &eacute; inesperadamente vencido por um concorrente que vive na favela. Jamal Malik &eacute; um t&iacute;pico representante do emergente capitalismo indiano: trabalha servindo ch&aacute; aos operadores de telemarketing. Ele &eacute; o subalterno entre os subalternos da classe trabalhadora, parte da gigantesca massa humana an&ocirc;nima triturada nas engrenagens implac&aacute;veis do superlucro globalizado.<\/p>\n<p align=\"justify\" class=\"western\" style=\"margin-bottom: 0cm;\">Ningu&eacute;m na televis&atilde;o, dos produtores ao p&uacute;blico, acredita que Jamal tem a m&iacute;nima chance de acertar as perguntas do programa. Mas ele acerta uma ap&oacute;s a outra, e seu pr&ecirc;mio em dinheiro vai aumentando rodada ap&oacute;s rodada. Antes que ele chegue &agrave; pergunta final, os produtores do programa tentam descartar-se dele nos bastidores e o acusam de ser um fraudador. Um favelado jamais poderia ter acertado as perguntas sem algum tipo de expediente il&iacute;cito. Favelado n&atilde;o &eacute; gente, n&atilde;o pode vencer nunca. Est&aacute; fora do script.<\/p>\n<p align=\"justify\" class=\"western\" style=\"margin-bottom: 0cm;\">Os &oacute;rg&atilde;os da repress&atilde;o, por outro lado, cumprem fielmente o roteiro que deles se espera. O favelado &eacute; torturado para confessar o crime que n&atilde;o cometeu. L&aacute; como aqui, a pol&iacute;cia bate primeiro e pergunta depois. Ningu&eacute;m sequer cogita na possibilidade de o vencedor do concurso ter realmente acertado as perguntas, at&eacute; que a tortura se prove ineficaz e o infeliz tenha a oportunidade de falar. Para explicar para a pol&iacute;cia como acertou as perguntas do programa, Jamal tem que narrar uma s&eacute;rie de incidentes de sua vida, pois cada resposta tinha rela&ccedil;&atilde;o com algo que aprendeu por ter sofrido na pele. Desdobra-se ent&atilde;o a narrativa de sua vida, desde a inf&acirc;ncia at&eacute; o momento em que chega ao programa de TV.<\/p>\n<p align=\"justify\" class=\"western\" style=\"margin-bottom: 0cm;\">Al&eacute;m do &ldquo;crime&rdquo; de ser favelado, Jamal deve pagar pela ousadia de tentar transgredir as normas e mudar sua realidade. O favelado s&oacute; pode conseguir algo depois de apanhar muito e ganhar traumas e cicatrizes. Depois da tortura policial e de apresentar as justificativas para cada uma das respostas que acertou, ele ter&aacute; a chance de voltar ao programa e arriscar a sorte na pergunta final. O detalhe &eacute; que a tortura e o interrogat&oacute;rio transcorrem longe dos olhares do p&uacute;blico. O inferno vivido por Jamal n&atilde;o pode ser televisionado. O favelado n&atilde;o pode ser humanizado, seu sofrimento n&atilde;o pode ser partilhado pelo espectador. A televis&atilde;o suprime a brutalidade do real e a dissolve na superficialidade do estere&oacute;tipo. O p&uacute;blico do programa inevitavelmente desenvolve uma empatia por Jamal e torce por ele, mas nem sequer desconfia dos horrores pelos quais ele passou para chegar at&eacute; ali, desde sua inf&acirc;ncia distante at&eacute; a tortura policial ali mesmo, &agrave;s v&eacute;speras da pergunta final.<\/p>\n<p align=\"justify\" class=\"western\" style=\"margin-bottom: 0cm;\"><img decoding=\"async\" align=\"right\" style=\"border: 15px solid white;\" src=\"http:\/\/www.espacosocialista.org\/sites\/default\/files\/milh&atilde;o.jpg\" \/><\/p>\n<p align=\"justify\" class=\"western\" style=\"margin-bottom: 0cm;\">O mundo do espet&aacute;culo &eacute; um mundo ass&eacute;ptico, higienista, forjado, embalado para presente e emoldurado pelo sorriso artificial e monstruoso dos apresentadores de TV. Um mundo de fantasia que dissimula por meio da hipocrisia profissional a verdadeira realidade dos seres humanos. A demanda por &ldquo;reality shows&rdquo; expressa justamente isso, a necessidade do p&uacute;blico de torcer por personagens com os quais possa se identificar. Os &ldquo;reality shows&rdquo; fornecem tais personagens, mas n&atilde;o modificam a dramaturgia b&aacute;sica do espet&aacute;culo, apenas substituem os atores profissionais que encenam o conto de fadas por amadores com os quais o p&uacute;blico se considera mais parecido. Nenhum reality show mergulha na realidade de um ser humano com a mesma profundidade de que somente a verdadeira arte, a literatura, o teatro, e alguns raros filmes s&atilde;o capazes.<\/p>\n<p align=\"justify\" class=\"western\" style=\"margin-bottom: 0cm;\">Um dos m&eacute;ritos de &ldquo;Quem quer ser um milion&aacute;rio&rdquo; &eacute; humanizar seus personagens, valorizando sua trajet&oacute;ria de vida. Jamal adquiriu uma diversificada (e terr&iacute;vel) experi&ecirc;ncia de vida na favela, nas ruas, na mendic&acirc;ncia, no trabalho. Vivenciou a barb&aacute;rie dos conflitos religiosos, o trauma da orfandade, a precariedade da mendic&acirc;ncia, o horror da explora&ccedil;&atilde;o do trabalho infantil, enquanto as pessoas mais pr&oacute;ximas dele resvalavam para o crime e a prostitui&ccedil;&atilde;o. Conheceu a inveja, o autoritarismo e por fim a trai&ccedil;&atilde;o da parte do pr&oacute;prio irm&atilde;o. Mas ele conheceu tamb&eacute;m a amizade e o companheirismo que unificam os miser&aacute;veis e as pessoas que atravessam situa&ccedil;&otilde;es extremas. Conheceu at&eacute; mesmo o amor, que foi o fio de esperan&ccedil;a que o manteve firme e vivo enquanto era massacrado pela vida e levado pela correnteza dos acontecimentos.<\/p>\n<p align=\"justify\" class=\"western\" style=\"margin-bottom: 0cm;\">Depois de passar por esse purgat&oacute;rio, Jamal faz jus ao pr&ecirc;mio milion&aacute;rio do programa de TV. Chegamos ent&atilde;o ao ponto limite do filme. &ldquo;Quem quer ser um milion&aacute;rio&rdquo; nos mostra a realidade do favelado, humaniza sua trajet&oacute;ria, cria no espectador a empatia pelo personagem, nos faz torcer por ele e vibrar por sua vit&oacute;ria; tudo isso &eacute; bastante louv&aacute;vel e excepcional no cinema, mas &eacute; feito no bojo de uma solu&ccedil;&atilde;o narrativa tamb&eacute;m artificial, que termina por endossar o mecanismo b&aacute;sico do espet&aacute;culo e seus pressupostos ideol&oacute;gicos.<\/p>\n<p align=\"justify\" class=\"western\" style=\"margin-bottom: 0cm;\">O problema come&ccedil;a na forma como Jamal vence o pr&ecirc;mio. Ele acerta a pergunta final no chute, sem realmente saber a resposta. Com isso fica referendada a concep&ccedil;&atilde;o de que o conhecimento, no seu aspecto acad&ecirc;mico, formal, livresco, &eacute; algo sup&eacute;rfluo, e se pode &ldquo;vencer na vida&rdquo; sem ele. A cultura nesse caso aparece como algo que n&atilde;o &eacute; de fato necess&aacute;rio, que n&atilde;o enriquece a vida, que n&atilde;o recompensa aquele que se esfor&ccedil;a para adquir&iacute;-la; enfim, algo que n&atilde;o &eacute; preciso conquistar e se pode viver muito bem sem t&ecirc;-la.<\/p>\n<p align=\"justify\" class=\"western\" style=\"margin-bottom: 0cm;\">O segundo problema est&aacute; no pr&oacute;prio conceito do que significa &ldquo;vencer na vida&rdquo;, ou seja, ficar milion&aacute;rio. Refor&ccedil;a-se um ideal de realiza&ccedil;&atilde;o em que o indiv&iacute;duo n&atilde;o pode simplesmente ser o que ele &eacute;, ele precisa ser como os &ldquo;vencedores&rdquo;. Ou o indiv&iacute;duo &eacute; parte da massa miser&aacute;vel, ou &eacute; parte da elite privilegiada. O favelado &eacute; festejado, mas apenas pelo fato de que ele &ldquo;vence&rdquo; e deixa de ser favelado para se tornar milion&aacute;rio.<\/p>\n<p align=\"justify\" class=\"western\" style=\"margin-bottom: 0cm;\">O terceiro problema, resultante do anterior, &eacute; que se acaba referendando assim o culto ao dinheiro e aos bens materiais. &Eacute; evidente que a mis&eacute;ria material &eacute; um mal, mas isso n&atilde;o torna automaticamente um bem a abund&acirc;ncia de bens materiais. Especialmente quando tal abund&acirc;ncia &eacute; resultante das mesmas rela&ccedil;&otilde;es sociais que produzem a mis&eacute;ria, o modo de produ&ccedil;&atilde;o capitalista.<\/p>\n<p align=\"justify\" class=\"western\" style=\"margin-bottom: 0cm;\">O quarto problema est&aacute; na idealiza&ccedil;&atilde;o do amor rom&acirc;ntico. Como numa novela da Globo, em que o final feliz &eacute; sempre um casamento (ou pior, v&aacute;rios casamentos), o filme indiano termina numa festa em que o casal de protagonistas fica junto. Ao contr&aacute;rio do que a ind&uacute;stria do romantismo para consumo popular insiste em dizer, o casamento n&atilde;o &eacute; onde os problemas terminam, &eacute; onde eles come&ccedil;am.<\/p>\n<p align=\"justify\" class=\"western\" style=\"margin-bottom: 0cm;\">O quinto problema est&aacute; na frase que encerra o filme, quando aparece a alternativa que responde &agrave; pergunta colocada ao espectador logo no come&ccedil;o: &ldquo;estava escrito&rdquo;. Isso quer dizer que o destino dos personagens j&aacute; estava tra&ccedil;ado. Com isso, refor&ccedil;a-se a id&eacute;ia nefasta de que n&atilde;o &eacute; o homem que faz sua hist&oacute;ria, &eacute; alguma for&ccedil;a sobrenatural que determina o curso dos acontecimentos. Sendo assim, n&atilde;o &eacute; preciso se esfor&ccedil;ar para modificar a vida, basta se deixar levar. Nesse ponto, &ldquo;Quem quer ser um milion&aacute;rio&rdquo; coincide um pouco com outro concorrente do Oscar, &ldquo;O curioso caso de Benjamin Button&rdquo;, em que o destino e o roteiro determinam a vida do personagem, sem que ele tenha muita interfer&ecirc;ncia e aprenda algo significativo atrav&eacute;s da luta.<\/p>\n<p align=\"justify\" class=\"western\" style=\"margin-bottom: 0cm;\">Por &uacute;ltimo, e tamb&eacute;m mais grave, est&aacute; o fato de que a solu&ccedil;&atilde;o para o problema do favelado &eacute; puramente individual. Com toda a ruptura que representa por conta da escolha de seu tema e do retrato humano que faz do personagem, o filme permanece prisioneiro da l&oacute;gica do espet&aacute;culo. As narrativas da ind&uacute;stria cultural refor&ccedil;am a cren&ccedil;a de que &ldquo;qualquer um pode chegar l&aacute;&rdquo; e impedem o indiv&iacute;duo de pensar em sua pr&oacute;pria vida ao contemplar a vida dos &ldquo;vencedores&rdquo; que protagonizam o espet&aacute;culo.<\/p>\n<p align=\"justify\" class=\"western\" style=\"margin-bottom: 0cm;\">Jamal fica milion&aacute;rio, mas a favela continua l&aacute;, com o esgoto a c&eacute;u aberto, lixo, fezes, cad&aacute;veres em decomposi&ccedil;&atilde;o, ratos e moscas. Os favelados assistem pela TV e comemoram em toda &Iacute;ndia a vit&oacute;ria de um dos seus, mas continuam favelados. Aceitam assim a perman&ecirc;ncia de um sistema em que um em 1 bilh&atilde;o pode ficar milion&aacute;rio, mas os restantes permanecem miser&aacute;veis. Um sistema em que um afro-descendente pode chegar a presidente dos Estados Unidos, mas os africanos sucumbem na barb&aacute;rie das guerras tribais legadas pelo saque do continente realizado pelo imperialismo.<\/p>\n<p align=\"justify\" class=\"western\" style=\"margin-bottom: 0cm;\">&Eacute; tudo uma quest&atilde;o de sorte, de destino, de acertar um palpite. Se voc&ecirc; for um pr&eacute;-destinado, parab&eacute;ns, pois se tornar&aacute; um milion&aacute;rio. Quanto a n&oacute;s todos, continuaremos na merda.<\/p>\n<p align=\"justify\" class=\"western\" style=\"margin-bottom: 0cm;\">\n&nbsp;<\/p>\n<p align=\"justify\" class=\"western\" style=\"margin-bottom: 0cm;\">Daniel M. Delfino<\/p>\n<p align=\"justify\" class=\"western\" style=\"margin-bottom: 0cm;\">\n&nbsp;<\/p>\n<p align=\"justify\" class=\"western\" style=\"margin-bottom: 0cm;\">15\/03\/2009<\/p>\n<p align=\"justify\" class=\"western\" style=\"margin-bottom: 0cm;\">\n&nbsp;<\/p>\n<p align=\"justify\" class=\"western\" style=\"margin-bottom: 0cm;\">\n&nbsp;<\/p>\n<p align=\"justify\" class=\"western\" style=\"margin-bottom: 0cm;\">\n&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[9,76],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/159"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=159"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/159\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6106,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/159\/revisions\/6106"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=159"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=159"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=159"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}