{"id":18,"date":"2008-12-13T15:18:27","date_gmt":"2008-12-13T15:18:27","guid":{"rendered":"http:\/\/espacosocialista.org\/?q=node\/18"},"modified":"2018-05-04T21:51:26","modified_gmt":"2018-05-05T00:51:26","slug":"os-300-de-esparta-e-as-batalhas-do-presente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/2008\/12\/os-300-de-esparta-e-as-batalhas-do-presente\/","title":{"rendered":"Os 300 de Esparta e as batalhas do presente"},"content":{"rendered":"<h1>OS 300 DE ESPARTA E AS BATALHAS DO PRESENTE<\/h1>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: center;\" align=\"center\">(Coment\u00e1rio sobre o filme \u201c300\u201d)<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Nome original: 300<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Produ\u00e7\u00e3o: Estados Unidos<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Ano: 2006<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Idiomas: Ingl\u00eas<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Diretor: Zach Snyder<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Roteiro: Zach Snyder, Kurt Johnstad<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Elenco: Gerard Butler, Lena Headey, Dominic West, David Wenham, Vincent Regan, Michael Fassbender, Tom Wisdom, Andrew Pleavin, Andrew Tiernan, Rodrigo Santoro, Giovani Cimmino, Stephen McHattie, Greg Kramer, Alex Ivanovici, Kelly Craig<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 G\u00eanero: a\u00e7\u00e3o, drama, guerra<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\"><span lang=\"EN-US\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Fonte: \u201cThe Internet Movie Database\u201d \u2013 <\/span><a href=\"http:\/\/www.imdb.com\/\">http:\/\/www.imdb.com\/<\/a><span lang=\"EN-US\">\u00a0 <\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: right;\" align=\"right\"><span lang=\"EN-US\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: right;\" align=\"right\"><span lang=\"EN-US\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: right;\" align=\"right\"><span lang=\"EN-US\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: right;\" align=\"right\"><span lang=\"EN-US\">\u201c<i>Le\u00f4nidas te pede que se erga. Eu pe\u00e7o apenas que se ajoelhe<\/i>\u201d<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: right;\" align=\"right\"><span lang=\"EN-US\">Xerxes em \u201c300\u201d<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Frank Miller \u00e9 o mais importante autor de hist\u00f3rias em quadrinho nos Estados Unidos, tendo sido respons\u00e1vel pela apari\u00e7\u00e3o de obras-primas como \u201cA queda de Murdoch\u201d (hist\u00f3ria magistral do personagem \u201cDemolidor\u201d, que o projetou para o estrelato instant\u00e2neo), \u201cO homem sem medo\u201d, \u201cElectra Assassina\u201d, \u201cRonin\u201d, \u201cCavaleiro das trevas\u201d, \u201cBatman \u2013 ano 1\u201d e toda a s\u00e9rie \u201cSin City\u201d. Seu talento como roteirista e ilustrador o al\u00e7aram \u00e0 condi\u00e7\u00e3o excepcional de autor independente, que produz \u00e0 margem das grandes editoras Marvel e DC Comics, com total liberdade de cria\u00e7\u00e3o e mercado cativo para qualquer trabalho que sai de sua prancheta.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Destacando-se no deserto de criatividade em que se tornou a ind\u00fastria estadunidense de quadrinhos h\u00e1 v\u00e1rias d\u00e9cadas, Miller j\u00e1 foi cortejado pelo cinema no passado, quando colaborou como roteirista para \u201cRobocop\u201d 2 e 3. O resultado filmado ficou t\u00e3o grotescamente distante de suas id\u00e9ias originais, por conta das interfer\u00eancias absurdas dos executivos, que o autor jurou nunca mais trabalhar para Hollywood. A promessa s\u00f3 foi quebrada em 2005, quando o esperto diretor Robert Rodriguez mostrou que era poss\u00edvel levar uma das hist\u00f3rias de \u201cSin City\u201d para as telas sem descaracteriz\u00e1-la, produzindo por conta pr\u00f3pria um trecho de alguns minutos de filmagem t\u00e3o literalmente fiel ao original que prontamente convenceu Miller a ser seu parceiro na produ\u00e7\u00e3o do filme completo.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O sucesso art\u00edstico de \u201cSin City\u201d fez com que o exigente e ressabiado Miller baixasse a guarda em rela\u00e7\u00e3o a Hollywood. Antenado, o diretor Zach Snyder, respons\u00e1vel pelo pequeno cl\u00e1ssico de terror \u201cMadrugada dos mortos\u201d (2004), usou do mesmo m\u00e9todo de Rodriguez para adaptar para o cinema outra p\u00e9rola de Miller, o \u00e1lbum \u201c300\u201d, que conta a hist\u00f3ria do rei Le\u00f4nidas e dos 300 soldados de Esparta que detiveram a invas\u00e3o persa na Batalha das Term\u00f3pilas, em 480 a. C. O filme de Snyder levou a hist\u00f3ria para as telas de modo quase t\u00e3o literal (veremos que h\u00e1 algumas infidelidades) quanto o que foi feito anteriormente com \u201cSin City\u201d, preservando no geral a vis\u00e3o bastante peculiar do autor sobre esse epis\u00f3dio hist\u00f3rico.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O universo de Frank Miller, seja nos quadrinhos ou no cinema, n\u00e3o \u00e9 dos mais comerciais e palat\u00e1veis para qualquer audi\u00eancia. As hist\u00f3rias s\u00e3o violent\u00edssimas, invariavelmente sanguin\u00e1rias, resvalando no mau gosto; e tamb\u00e9m muito sensuais, provocantes, c\u00ednicas, repletas de humor negro e absurdo, moralmente complexas e povoadas por personagens amb\u00edguos. O imagin\u00e1rio do autor, influenciado pela leitura voraz do monumental mang\u00e1 japon\u00eas \u201cLobo Solit\u00e1rio\u201d e dos gibis estilo \u201cnoir\u201d do seu mestre Will Eisner; \u00e9 acentuadamente masculino (o que n\u00e3o \u00e9 o mesmo que machista), fatalista a ponto de ser cruel e chocante na sua dureza. Miller v\u00ea o mundo habitado por fortes e fracos, sendo os fortes aqueles que perseguem seus desejos sem hesitar e enfrentam a morte com aud\u00e1cia (o que n\u00e3o significa que ele n\u00e3o tenha simpatia e sensibilidade para com os vencidos da sociedade). Seus her\u00f3is tamb\u00e9m transpiram intelig\u00eancia, mal\u00edcia e humor, o que colabora para torn\u00e1-los irresist\u00edveis (o que tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 o mesmo que invenc\u00edveis).<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A sensibilidade bastante peculiar do autor foi preservada na transposi\u00e7\u00e3o de \u201c300\u201d para as telas. O epis\u00f3dio das Term\u00f3pilas foi enriquecido com uma s\u00e9rie de liberdades po\u00e9ticas. Na est\u00e9tica \u201cmilleriana\u201d os 300 espartanos s\u00e3o como samurais prontos para morrer, treinados desde crian\u00e7as na arte da guerra; e Le\u00f4nidas \u00e9 um t\u00edpico her\u00f3i noir, apaixonado e amargurado, que sabe o que o futuro trar\u00e1 e tenta tirar algum prazer dessa sabedoria. O hero\u00edsmo dos gregos \u00e9 artificialmente revestido de um bizarro sabor \u201csamurai-noir\u201d. Os anacronismos n\u00e3o param simplesmente nos aspectos formais, mas v\u00e3o at\u00e9 os fundamentos da argumenta\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Para justificar a necessidade de defender a Gr\u00e9cia da invas\u00e3o persa, o autor usa como argumento a defesa da liberdade, da justi\u00e7a, da democracia e da raz\u00e3o. Ora, nenhum desses conceitos nem sequer existia para os gregos, e muito menos para os espartanos, com o mesmo significado que n\u00f3s lhes damos hoje. Os gregos tinham sim uma no\u00e7\u00e3o de sua dignidade e das caracter\u00edsticas peculiares do seu modo de vida, tanto assim que denominavam \u201cb\u00e1rbaros\u201d \u00e0queles que n\u00e3o falavam a sua l\u00edngua e n\u00e3o partilhavam os mesmos costumes. Consideravam os b\u00e1rbaros inferiores e apropriados somente para a escravid\u00e3o ou a morte. Os gregos eram de fato um povo especial no mundo antigo, e de fato deram origem \u00e0 liberdade, \u00e0 justi\u00e7a, \u00e0 democracia e \u00e0 raz\u00e3o, mas de um modo muito embrion\u00e1rio, que n\u00e3o se pode confundir com as id\u00e9ias modernas que temos desses conceitos.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A democracia era restrita aos cidad\u00e3os livres. Os escravos e as mulheres n\u00e3o participavam das decis\u00f5es. Na urbana e cosmopolita metr\u00f3pole comercial de Atenas, floresceu uma classe de trabalhadores e artes\u00e3os que venceu a antiga aristocracia e instalou a democracia direta das assembl\u00e9ias em pra\u00e7a p\u00fablica, mas ainda excluindo os escravos, estrangeiros e mulheres. Na interiorana e obscurantista Esparta, os aristocratas se transformaram em soldados em tempo integral, para submeterem as constantes revoltas dos escravos e das cidades vassalas da regi\u00e3o da Lac\u00f4nia. Os espartanos eram um caso \u00fanico na Gr\u00e9cia em que os cidad\u00e3os (somente os do sexo masculino) se dedicavam a treinamento militar desde os 7 at\u00e9 os 60 anos de idade.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Quando Le\u00f4nidas encontra o ex\u00e9rcito da cidade aliada da Arc\u00e1dia, ele brinca com o fato de os soldados \u00e1rcades serem todos volunt\u00e1rios, pedreiros, comerciantes, etc., que por ocasi\u00e3o da invas\u00e3o persa pegam em armas para lutar; enquanto que seus espartanos s\u00e3o todos soldados \u201cprofissionais\u201d, guerreiros em tempo integral. Do ponto de vista grego, isso n\u00e3o fazia os espartanos serem vistos como superiores, mas pelo contr\u00e1rio, como semi-b\u00e1rbaros. Os cidad\u00e3os dos outros Estados gregos tinham orgulho de serem trabalhadores livres e de lutar por suas cidades, e por isso tais cidades n\u00e3o precisavam de ex\u00e9rcitos permanentes como Esparta. Podiam contam com volunt\u00e1rios entusiasmados em caso de guerra.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Os gregos (livres) de modo geral se dedicavam \u00e0 arte, \u00e0 cultura e \u00e0s atividades c\u00edvicas, mas tamb\u00e9m sabiam da necessidade de lutar. Buscavam um equil\u00edbrio em que cabiam aspectos do soldado, do orador e do artista para compor o seu ideal de cidad\u00e3o. A exce\u00e7\u00e3o era precisamente Esparta, onde os cidad\u00e3os somente se dedicavam \u00e0 guerra. N\u00e3o \u00e9 por acaso que Esparta n\u00e3o legou \u00e0 humanidade, como fizeram copiosamente seus primos gregos, nenhuma obra de filosofia, direito, teatro, poesia, m\u00fasica, matem\u00e1tica, ci\u00eancia, pintura, escultura, arquitetura, etc., capaz de perpetuar seu legado na Hist\u00f3ria. Talvez tenha deixado a educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica, que tamb\u00e9m \u00e9 muito importante, mas \u00e9 pouco.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 H\u00e1 outros aspectos desse obscurantismo militarista espartano que chocam a sensibilidade contemor\u00e2nea: os rec\u00e9m-nascidos deficientes, fracos e doentes eram jogados de um penhasco. Em Esparta somente poderiam viver aqueles cujos corpos fossem considerados adequados para a guerra, no caso dos homens, ou para gerar soldados, no caso das mulheres. Ou seja, os espartanos praticavam a eugenia mil\u00eanios antes dos nazistas. Mas hoje podem ser considerados her\u00f3is no cinema&#8230; Frank Miller n\u00e3o escondeu esses aspectos mais chocantes do modo de vida espartano. N\u00e3o teve pudores \u201cpoliticamente corretos\u201d ao caracterizar o traidor Ephialtes (personagem hist\u00f3rico real) como um deficiente f\u00edsico que escapou da sina de ser jogado \u00e0 morte no penhasco.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Para contrabalan\u00e7ar a crueza espartana (ou para preencher tempo sobrante de filmagem, uma vez que a hist\u00f3ria em quadrinhos original \u00e9 muito curta), o diretor Snyder inseriu uma subtrama que n\u00e3o constava nos quadrinhos, em que a rainha desmonta um compl\u00f4 de pol\u00edticos traidores vendidos aos persas que havia impedido Le\u00f4nidas de usar todo o ex\u00e9rcito na guerra e obrigou o rei a partir com somente 300. Temos aqui uma cole\u00e7\u00e3o de pequenos absurdos hist\u00f3ricos. Em primeiro lugar, em Esparta n\u00e3o havia uma separa\u00e7\u00e3o entre uma camada de \u201cpol\u00edticos\u201d e a dos nobres militares que decidiam fazer ou n\u00e3o a guerra. Essa separa\u00e7\u00e3o \u00e9 t\u00edpica do imagin\u00e1rio popular estadunidense, onde se pensa que o ex\u00e9rcito do pa\u00eds s\u00f3 n\u00e3o consegue vencer as guerras (como a do Vietn\u00e3) porque os pol\u00edticos traem os soldados. Filmes como os da s\u00e9rie \u201cRambo\u201d se dedicam a explorar comercialmente esse tipo de vontade de satisfa\u00e7\u00e3o de um povo que se sente tra\u00eddo por seus pol\u00edticos e que quer fazer a guerra at\u00e9 o fim. O p\u00fablico estadunidense consegue assim ser mais reacion\u00e1rio do que seus pol\u00edticos. Snyder contrabandeia subterraneamente parte desse discurso para \u201c300\u201d, fazendo justi\u00e7a ao desejo de sangue do p\u00fablico por meio da atitude da rainha.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Aqui temos uma segunda inverdade hist\u00f3rica: ainda que em Esparta houvesse uma assembl\u00e9ia em que os not\u00e1veis pudessem deliberar \u201cdemocraticamente\u201d sobre os rumos da cidade, nessa assembl\u00e9ia jamais uma mulher teria a palavra. Nem mesmo uma rainha. A fun\u00e7\u00e3o das mulheres espartanas, como a pr\u00f3pria rainha exp\u00f4s ao embaixador persa, \u00e9 parir soldados espartanos. E mesmo isso jamais lhes daria a autoridade para estar presente junto ao rei e dirigir-se ao embaixador persa. Se havia um lugar na mis\u00f3gina Gr\u00e9cia em que as mulheres tinham ainda menos valor, esse lugar era Esparta.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Se a caracteriza\u00e7\u00e3o dos gregos tem alguns problemas, a dos persas n\u00e3o fica atr\u00e1s. Na est\u00e9tica de Miller, os persas se parecem mais com africanos do que com asi\u00e1ticos do oriente pr\u00f3ximo. Os Imortais de Xerxes (guarda do Imperador, elite do ex\u00e9rcito, \u00fanico setor \u201cprofissional\u201d das tropas persas, que realmente existiu, e foi derrotado pelos 300) s\u00e3o apresentados como ninjas japoneses. O imperador Xerxes \u00e9 mostrado como um semi-deus andr\u00f3gino. Essa apresenta\u00e7\u00e3o \u00e9 apenas parcialmente verdadeira.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Conv\u00e9m lembrar que os gregos tamb\u00e9m sabiam apreciar as virtudes de seus advers\u00e1rios. Xenofonte, mercen\u00e1rio e suposto disc\u00edpulo de S\u00f3crates como Plat\u00e3o, escreveu uma obra chamada \u201cCiropedia\u201d, ou \u201ceduca\u00e7\u00e3o de Ciro\u201d, descrevendo elogiosamente o pr\u00edncipe persa Ciro, o jovem. Seu hom\u00f4nimo ancestral, fundador do imp\u00e9rio persa, diferentemente do Xerxes de Miller, partilhava dos mesmos infort\u00fanios de qualquer soldado raso, dormindo em tendas e comendo ra\u00e7\u00e3o de campanha. Isso relativiza o tratamento unilateral e manique\u00edsta t\u00edpico do cinema estadunidense, fortemente exacerbados no filme.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Mas n\u00e3o se pode ser muito severo com um trabalho como \u201c300\u201d. De sa\u00edda o exagero visual, o excesso de viol\u00eancia, os personagens caricaturais, o tom estilizado, indicam que se trata de uma brincadeira ligeira, apesar de suntuosa, abordando um determinado tema hist\u00f3rico. Essa ligeireza desautoriza qualquer aprecia\u00e7\u00e3o excessivamente detalhista, convidando \u00e0 indulg\u00eancia cr\u00edtica e ao deleite visual descomprometido. \u201c300\u201d n\u00e3o \u00e9 um filme pretensioso como o \u201cAlexandre\u201d de Oliver Stone, e por isso mesmo \u00e9 menos problem\u00e1tico.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Por falar em deleite visual, o p\u00fablico feminino e homossexual ser\u00e1 instantaneamente magnetizado pela exposi\u00e7\u00e3o massiva dos corpos masculinos seminus dos soldados espartanos, todos em excelente forma. Por falar em homossexualidade, \u00e9 oportuno lembrar tamb\u00e9m que esse conceito n\u00e3o existia na antiguidade, nem entre os gregos nem em nenhum outro povo. Os antigos n\u00e3o dividiam a sexualidade entre \u201ch\u00e9tero\u201d e \u201chomo\u201d, como fez o cristianismo, e permitiam que o desejo flu\u00edsse livremente entre os corpos, sem que isso tivesse implica\u00e7\u00f5es morais. O filme de Snyder n\u00e3o p\u00f4de ser inteiramente fiel nesse ponto, pois teve que cobrir os espartanos de tangas, que inexistiam no gibi.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Para concluir, o que faz com que um filme violento, caricatural, historicamente impreciso, que comete infidelidades em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 obra original e que manifesta rasgos reacion\u00e1rios possa conter alguma li\u00e7\u00e3o valiosa?<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Todo verdadeiro artista, como Miller, \u00e9 capaz de enxergar, apesar dos tra\u00e7os ideol\u00f3gicos pr\u00f3prios da sociedade em que sua obra se enra\u00edza, onde est\u00e1 a quest\u00e3o fundamental a ser apresentada como objeto de reflex\u00e3o \u00e9tica relevante e como tema esteticamente v\u00e1lido, e tamb\u00e9m \u00e9 capaz de dar a resposta correta para essa quest\u00e3o. No caso de \u201c300\u201d, o conflito fundamental est\u00e1 exposto de forma lapidar na frase que escolhemos como ep\u00edgrafe, atribu\u00edda a Xerxes: \u201cLe\u00f4nidas te pede que se erga. Eu pe\u00e7o apenas que se ajoelhe\u201d.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A alternativa contida nessa frase \u00e9 a mesma que atravessa toda a hist\u00f3ria da sociedade de classes: ou nos ajoelhamos perante os poderosos ou lutamos. A frase de Xerxes \u00e9 a de todos os dominadores da Hist\u00f3ria. Eles n\u00e3o nos pedem sen\u00e3o que nos ajoelhemos perante eles. Qu\u00e3o f\u00e1cil \u00e9 se ajoelhar! Qu\u00e3o f\u00e1cil \u00e9 render-se, resignar-se, conformar-se, vender-se, esperar, deixar passar, adiar, ceder, obedecer!<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Fazemos isso todos os dias, na med\u00edocre batalha di\u00e1ria pela abjeta sobreviv\u00eancia no mundo capitalista. O sistema sabe recompensar aqueles que se ajoelham, como Ephialtes. Le\u00f4nidas ironizou de forma precisa e devastadora essa recompensa, quando desejou a\u00a0 Ephialtes \u201cque vivesse para sempre\u201d. \u00c9 essa a vida eterna e a recompensa que os poderosos oferecem: a sobrevida, a submiss\u00e3o e a nega\u00e7\u00e3o da vida aut\u00eantica.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Em contrapartida, qu\u00e3o dif\u00edcil \u00e9 lutar! A postura de Le\u00f4nidas \u00e9 a mesma que nos pedem todos os revolucion\u00e1rios: que nos ergamos! Morrer de p\u00e9 \u00e9 melhor do que viver de joelhos, tanto nas Term\u00f3pilas como hoje.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">Daniel M. Delfino<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">15\/04\/2007<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\" class=\"MsoNormal\"><o:p>&nbsp;<\/o:p><\/p>\n<h1>OS 300 DE ESPARTA E AS BATALHAS DO PRESENTE<\/h1>\n<p align=\"center\" style=\"text-align: center;\" class=\"MsoNormal\"><o:p>&nbsp;<\/o:p><\/p>\n<p align=\"center\" style=\"text-align: center;\" class=\"MsoNormal\">(Coment&aacute;rio sobre o filme &ldquo;<st1:metricconverter w:st=\"on\" productid=\"300&rdquo;\">300&rdquo;<\/st1:metricconverter>)<\/p>\n<p align=\"right\" style=\"text-align: right;\" class=\"MsoNormal\"><o:p>&nbsp;<\/o:p><\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[9,76],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6165,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18\/revisions\/6165"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}