{"id":1926,"date":"2013-04-23T14:15:22","date_gmt":"2013-04-23T17:15:22","guid":{"rendered":"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/?p=1926"},"modified":"2018-05-01T00:53:50","modified_gmt":"2018-05-01T03:53:50","slug":"a-determinacao-ontologica-das-categorias-emhegel-e-marx-segundo-lukacs","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/2013\/04\/a-determinacao-ontologica-das-categorias-emhegel-e-marx-segundo-lukacs\/","title":{"rendered":"A determina\u00e7\u00e3o ontol\u00f3gica das categorias em Hegel e Marx segundo Luk\u00e1cs"},"content":{"rendered":"<h4><b>Este texto \u00e9 uma contribui\u00e7\u00e3o individual,\u00a0n\u00e3o necessariamente expressa a opini\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o e por este motivo se apresenta assinado por seu autor.<\/b><\/h4>\n<h3 style=\"text-align: right;\"><\/h3>\n<h3 style=\"text-align: right;\">Artur Bispo dos Santos Neto<br \/>\nProfessor da UFAL<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Resumo: O presente texto tem como objetivo esclarecer a natureza ontol\u00f3gica das categorias na teoria marxiana e como esta tem seu ponto de inflex\u00e3o na considera\u00e7\u00e3o hegeliana das categorias, expressa na Ci\u00eancia da l\u00f3gica. Na teoria marxiana, as categorias comparecem como formas moventes e movidas da realidade, contrapondo-se \u00e0s concep\u00e7\u00f5es que tentam erigir os preceitos meramente gnosiol\u00f3gicos como crit\u00e9rios fundamentais de constitui\u00e7\u00e3o das matrizes categoriais. Apesar das insufici\u00eancias do primado hier\u00e1rquico das determina\u00e7\u00f5es l\u00f3gicas sobre as determina\u00e7\u00f5es ontol\u00f3gicas que perpassam a perspectiva hegeliana, \u00e9 relevante destacar como essa perspectiva se apresenta como a primeira tentativa de constitui\u00e7\u00e3o dum tratamento correto das categorias, o que lhe confere o posto de descobridora de territ\u00f3rios ainda n\u00e3o explorados e somente levados a sua pertinente elucida\u00e7\u00e3o pela media\u00e7\u00e3o da dial\u00e9tica materialista. Nesta, \u00e9 pertinente observar a rela\u00e7\u00e3o reflexiva existente entre as categorias simples e as categorias complexas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Palavras-chave: Determina\u00e7\u00f5es reflexivas. Realidade. Trabalho. G. Luk\u00e1cs.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Abstract: The present text has as objective clarify the ontological nature of the categories in the Marx\u2019s theory and how this has its support in Hegel\u2019s considerations in the categories expressed in Science of logic. In Marx\u2019s theory, the categories stand as the moving and moved forms of reality, it opposed to the conceptions that try to raise the merely gnosiologic precepts as fundamental criterions of constitutions of the categorical matrixes. Besides the insufficiencies of the hierarchical primacy of the logical determinations upon the ontological determinations that spervades the Hegelian perspective, it is elementary highlight how this perspective the first attempt to formulate a correct treatment of the categories, what confers it the position of discoverer of territories not yet explored and only pertinently elucidated by the mediation of the materialist dialectical. For this, it is pertinent to observe the reflexive relation existing between the simple categories and the complex categories, and how the class struggle appears as the fundamental category to the explanation of the population\u2019s abstract category.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Keywords: Reflexive determinations. Reality. Labour. G. Luk\u00e1cs.<\/strong><\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">Introdu\u00e7\u00e3o<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">A crise que acomete as diferentes concep\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas produzidas pela burguesia na contemporaneidade resulta expressamente do abandono do interesse na elucida\u00e7\u00e3o das determina\u00e7\u00f5es fundamentais que envolvem a realidade social, enquanto um complexo de complexos; nesse sentido, elas expressam a ideologia de um tempo hist\u00f3rico pautado pelo fim das ilus\u00f5es heroicas da burguesia e de uma declarada contraposi\u00e7\u00e3o \u00e0 possibilidade de revela\u00e7\u00e3o da essencialidade das coisas. Resguardadas as suas devidas diferencia\u00e7\u00f5es e contraposi\u00e7\u00f5es, \u00e9 poss\u00edvel afirmar que a concep\u00e7\u00e3o hegeliana e a concep\u00e7\u00e3o marxiana se constituem como tentativas modais de esclarecimento das contradi\u00e7\u00f5es que perpassam a realidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O idealismo objetivo de Hegel e a teoria marxiana partem do entendimento de que \u00e9 necess\u00e1rio ultrapassar a percep\u00e7\u00e3o imediata da vida cotidiana, que se manifesta de maneira bastante multifacetada e heterog\u00eanea, para se alcan\u00e7ar a essencialidade das coisas; para isso \u00e9 fundamental superar tanto o terreno das idiossincrasias que emanam da percep\u00e7\u00e3o imediata quanto do conhecimento resultante duma representa\u00e7\u00e3o ca\u00f3tica do todo. Isso n\u00e3o implica uma desconsidera\u00e7\u00e3o pela vida cotidiana, porque ela constitui-se como o celeiro de onde emanam as quest\u00f5es decisivas que perpassam a investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e filos\u00f3fica (LUK\u00c1CS, 1966).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nosso prop\u00f3sito nas linhas que seguem \u00e9 denotar o car\u00e1ter objetivo das categorias no idealismo objetivo e na teoria marxiana, deixando de lado a vacuidade das posi\u00e7\u00f5es que concebem as categorias como entidades que subsistem de forma independente \u00e0s determina\u00e7\u00f5es objetivas. Embora a filosofia hegeliana se movimente sobre um terreno bastante movedi\u00e7o, porque n\u00e3o consegue se desprender do processo de mistifica\u00e7\u00e3o da realidade que envolveu as concep\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas precedentes. Observa-se que, pertinentemente, ela considera as categorias como dotadas de determinantes ontol\u00f3gicos , ou seja, elas n\u00e3o se constituem como meras express\u00f5es do sujeito cognoscente, mas brotam do desenvolvimento do ser social. Na perspectiva lukacsiana, a ontologia marxiana est\u00e1 interessada em elucidar a g\u00eanese e o desenvolvimento dial\u00e9tico do ser social, enquanto ser que se constitui historicamente, e n\u00e3o como um ser que brota pronto e acabado. As categorias, como os homens, s\u00e3o produtos das rela\u00e7\u00f5es sociais e do desenvolvimento dos meios fundamentais de produ\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia humana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A teoria marxiana representa um avan\u00e7o na compreens\u00e3o das categorias, quando entende que as categorias se constituem como enunciados diretos de uma forma espec\u00edfica do ser e como \u201cafirma\u00e7\u00f5es ontol\u00f3gicas\u201d (LUK\u00c1CS, 1979b, p. 11). Elas emergem como \u201cformas de ser, determina\u00e7\u00f5es de exist\u00eancia\u201d (MARX, 2011, p. 59). A determina\u00e7\u00e3o (Bestimmung) deve ser compreendida como um tra\u00e7o essencial da realidade . A totalidade social, enquanto um complexo de m\u00faltiplas determina\u00e7\u00f5es, pressup\u00f5e um processo de isolamento ou abstra\u00e7\u00e3o em que a determina\u00e7\u00e3o aparece como elemento essencial no movimento de apreens\u00e3o da natureza constitutiva do ser. E todo processo de determina\u00e7\u00e3o \u00e9 uma nega\u00e7\u00e3o , \u00e0 propor\u00e7\u00e3o que significa um adentrar nas malhas mais profundas do ser para apresentar sua verdadeira constitui\u00e7\u00e3o interior, isso implica operar processos de distin\u00e7\u00e3o, capta\u00e7\u00e3o e caracteriza\u00e7\u00e3o daquilo que subsiste como de mais espec\u00edfico. Por sua vez, \u00e9 preciso estabelecer a conex\u00e3o da parte estudada com o todo, para que este possa emergir como um todo concreto e n\u00e3o como uma coisa ca\u00f3tica. Essa perspectiva tem sua g\u00eanese na filosofia hegeliana, enquanto concep\u00e7\u00e3o que estabelece as bases para uma nova compreens\u00e3o das quest\u00f5es ontol\u00f3gicas, \u00e0 propor\u00e7\u00e3o que afirma as categorias como dotadas de uma realidade essencialmente din\u00e2mica e perpassadas pela rela\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica entre unidade e multiplicidade, conte\u00fado e forma, apar\u00eancia e ess\u00eancia etc.. Nesse sentido, a subst\u00e2ncia n\u00e3o emerge como algo est\u00e1tico, mas como um sujeito essencialmente din\u00e2mico . Vejamos como G. Luk\u00e1cs reconstr\u00f3i essas quest\u00f5es nas obras de G. W. F. Hegel e Karl Marx.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">1 O problema da determina\u00e7\u00e3o hegeliana das categorias<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hegel trata da natureza das categorias no pref\u00e1cio \u00e0 segunda edi\u00e7\u00e3o da Ci\u00eancia da l\u00f3gica, em que afirma que num sistema de l\u00f3gica as categorias devem encontrar seu espa\u00e7o de considera\u00e7\u00e3o e esclarecimento. A elucida\u00e7\u00e3o da natureza das categorias pressup\u00f5e a limpeza de terreno da peculiaridade da ci\u00eancia da l\u00f3gica, que ele considerava como bastante descuidada em sua \u00e9poca; por isso defende a necessidade de sua reelabora\u00e7\u00e3o, haja vista que esta n\u00e3o havia avan\u00e7ado um passo sequer desde a \u00e9poca de Arist\u00f3teles. A aus\u00eancia de modifica\u00e7\u00f5es substanciais e o distanciamento da vida efetiva dos homens conduziram a l\u00f3gica ao estado de desprezo geral. Escreve Hegel:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para vivificar, mediante o esp\u00edrito, este esqueleto morto da l\u00f3gica at\u00e9 dar-lhe subst\u00e2ncia e conte\u00fado, \u00e9 necess\u00e1rio que seu m\u00e9todo seja tal que s\u00f3 por meio dele a l\u00f3gica seja capaz de constituir uma ci\u00eancia pura. No estado em que se encontra a l\u00f3gica, apenas se reconhecem nela ind\u00edcios do m\u00e9todo cient\u00edfico (1982, \u00a7 70).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hegel entende que a l\u00f3gica n\u00e3o \u00e9 uma coisa extempor\u00e2nea ao movimento que perpassa o tempo hist\u00f3rico. Apesar de Arist\u00f3teles compreender a l\u00f3gica como inteiramente independente do preceito pragm\u00e1tico da utilidade, ele considerava que a ci\u00eancia (metaf\u00edsica) somente poderia florescer numa \u00e9poca em que um grupo de homens alcan\u00e7asse \u201cquase todo o necess\u00e1rio\u201d (HEGEL, 1982, \u00a7 44), ou seja, as ci\u00eancias, como a matem\u00e1tica, apenas puderam se desenvolver precocemente no Egito \u201cporque ali a casta dos sacerdotes se encontrou pronta, em condi\u00e7\u00f5es de ter tempo livre\u201d (ARIST\u00d3TELES, apud HEGEL, 1982, \u00a7 44).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A perspectiva hegeliana se contrap\u00f5e \u00e0 desconsidera\u00e7\u00e3o da articula\u00e7\u00e3o existente entre o desenvolvimento das categorias e o desenvolvimento da realidade. Hegel esclarece o car\u00e1ter hist\u00f3rico do afastamento do pensamento em rela\u00e7\u00e3o ao mundo nos seguintes termos: \u201cNas silenciosas regi\u00f5es do pensamento que voltou a si mesmo e s\u00f3 existe em si mesmo, calam-se os interesses que orientam a vida dos povos e dos indiv\u00edduos\u201d (HEGEL, 1982, \u00a7 45). Ele entende que \u00e9 na vida cotidiana que se aplicam as categorias l\u00f3gicas e matem\u00e1ticas e que estas comparecem como abreviaturas da realidade, devido ao seu car\u00e1ter de abrang\u00eancia e universalidade. As categorias tamb\u00e9m servem como determina\u00e7\u00f5es mais precisas de rela\u00e7\u00f5es objetivas, em que o conte\u00fado de verdade do pensamento \u201caparece como inteiramente dependentes do existente mesmo, sem atribuir \u00e0s determina\u00e7\u00f5es do pensamento em-si influ\u00eancia alguma determinante do conte\u00fado\u201d (HEGEL, 1982, \u00a7 46).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A l\u00f3gica n\u00e3o \u00e9 uma coisa distante do mundo \u2013 n\u00e3o \u00e9 algo que paira no c\u00e9u da subjetividade destitu\u00edda de qualquer objetividade \u2013; basta observar o cotidiano para perceber que a linguagem humana presume sua exist\u00eancia. A l\u00f3gica, por exemplo, est\u00e1 presente na maneira como os homens sentem, consideram e desejam as coisas; pode-se dizer que est\u00e1 presente na vida quando tamb\u00e9m proporciona representa\u00e7\u00f5es e finalidades. E como consegue adentrar em todas as rela\u00e7\u00f5es e atividades naturais de maneira abstrata, o l\u00f3gico parece ser uma coisa sobrenatural e distante da realidade, quando na verdade \u00e9 t\u00e3o somente uma abstra\u00e7\u00e3o universal peculiar ao modo de ser da pr\u00f3pria ci\u00eancia (HEGEL, 1982).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A linguagem humana \u00e9 perpassada por uma s\u00e9rie de express\u00f5es l\u00f3gicas que servem para apontar as determina\u00e7\u00f5es do pensamento (HEGEL, 1982). Indubitavelmente, tais express\u00f5es se inscrevem no \u00e2mbito da particularidade e das sensa\u00e7\u00f5es que comp\u00f5em a linguagem cotidiana. E o cotidiano utiliza geralmente as categorias sem ter plena consci\u00eancia de sua natureza. Nesse aspecto se inscreve certa conson\u00e2ncia com a tradi\u00e7\u00e3o marxiana, pois as categorias podem exercer influ\u00eancia sobre o mundo dos homens antes mesmo de serem apropriadas conscientemente pelo ser humano. Segundo Luk\u00e1cs: \u201cIndependentemente de os homens terem ou n\u00e3o consci\u00eancia do fato (na maioria dos casos n\u00e3o t\u00eam), isso significa ao mesmo tempo um efeito das categorias sobre as atividades, tomadas no sentido mais amplo, da vida social dos homens\u201d (2010, p. 271).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para a tradi\u00e7\u00e3o marxiana, a consci\u00eancia das categorias vem sempre post festum, pois os homens fazem ci\u00eancia pela media\u00e7\u00e3o do trabalho, sem saber que est\u00e3o fazendo ci\u00eancia propriamente dita; da mesma forma que se faziam opera\u00e7\u00f5es matem\u00e1ticas antes de se desenvolver uma consci\u00eancia das categorias matem\u00e1ticas \u2212 por exemplo, quando uma comunidade n\u00f4made, formada de pastores, conseguia identificar a quantidade de ovelhas de seu rebanho simplesmente pela especificidade ou qualidade de cada uma delas. No trabalho est\u00e1 contido um p\u00f4r teleol\u00f3gico que presume um apreender corretamente as determina\u00e7\u00f5es da natureza da mesma maneira que a ci\u00eancia, sob pena de sua a\u00e7\u00e3o ser acometida pelo fracasso. Escreve Luk\u00e1cs: \u201cA pr\u00f3pria pr\u00e1xis imp\u00f5e determinadas generaliza\u00e7\u00f5es, ainda que somente dentro de determinados limites\u201d (2010, p. 272). As categorias podem se tornar operantes bem antes de serem reconhecidas na pr\u00e1xis social ou bem antes de serem reconhecidas teoricamente. \u00c9 o caso da personagem de Moli\u00e8re, bourgeois gentilhomme, que falou o tempo todo em prosa sem ter consci\u00eancia disso . O que denota que no \u00e2mbito da hist\u00f3ria geralmente vigora o preceito de que os homens fazem as coisas sem que tenham consci\u00eancia do que fazem, no entanto, eles fazem. Isso significa que o ser enquanto tal n\u00e3o \u00e9 uma produ\u00e7\u00e3o do pensamento como formulam Descartes e a tradi\u00e7\u00e3o idealista. E essa n\u00e3o \u00e9 uma afirma\u00e7\u00e3o de natureza hier\u00e1rquica, que pretenda simplesmente apontar a superioridade do ser sobre a consci\u00eancia, pois n\u00e3o se trata de uma quest\u00e3o l\u00f3gica ou gnosiol\u00f3gica, mas de uma determina\u00e7\u00e3o objetiva. \u00c9 o pr\u00f3prio movimento efetivo da realidade que mostra como a consci\u00eancia vem depois do desenvolvimento do ser social.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na Fenomenologia do esp\u00edrito, Hegel afirma que \u201ctoda novidade apresenta-se inicialmente como abstrato (simplesmente em-si), para depois explicitar-se gradualmente em formas mais concretas\u201d (apud LUK\u00c1CS, 1979a, p. 89). O ser para-si somente \u00e9 poss\u00edvel a partir do ser em-si, ou seja, as formas superiores do ser passam pela media\u00e7\u00e3o das formas mais simples de ser. Na perspectiva hegeliana, a g\u00eanese processual da realidade fornece a chave para a compreens\u00e3o de todo \u201cresultado\u201d; por exemplo, o absoluto \u00e9 um processo de s\u00edntese concreta de movimentos reais, \u00e9 identidade da identidade e n\u00e3o identidade. Ele n\u00e3o repousa numa imobilidade transcendente indiferente ao movimento efetivo da realidade, mas se constitui como quintess\u00eancia das diferencia\u00e7\u00f5es que perpassam o mundo efetivo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O m\u00e9rito da Fenomenologia do esp\u00edrito consiste em apontar que as categorias surgem na consci\u00eancia dos homens enquanto express\u00f5es das determina\u00e7\u00f5es do modo de ser da pr\u00f3pria processualidade das coisas. Por isso que n\u00e3o \u00e9 nada casual que Hegel na sua Ci\u00eancia da l\u00f3gica trate das determina\u00e7\u00f5es reflexivas numa se\u00e7\u00e3o denominada tamb\u00e9m de \u201cfenomenologia\u201d. \u00c0 primeira vista, tudo parece mover-se no terreno da gnosiologia, particularmente porque Hegel tenta mostrar como a raz\u00e3o (Vernuft) supera o entendimento (Verstand); pois enquanto esta se plasma na disjun\u00e7\u00e3o entre universalidade e particularidade, existe uma rela\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica entre as diferentes categorias no \u00e2mbito da raz\u00e3o (Vernuft). Por\u00e9m, em vez de simplesmente contrapor raz\u00e3o e entendimento, Hegel revela como a raz\u00e3o emerge do pr\u00f3prio desenvolvimento do entendimento, constituindo-se como seu lugar de realiza\u00e7\u00e3o. Acontece ent\u00e3o uma vincula\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica entre as referidas categorias, o que n\u00e3o implica uma nega\u00e7\u00e3o da singularidade que perpassa cada uma delas, pois a raz\u00e3o representa uma inexor\u00e1vel capacidade de manifestar outra forma de considera\u00e7\u00e3o da realidade, mas que sem o aux\u00edlio do entendimento jamais teria ganhado exist\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A l\u00f3gica hegeliana supera a l\u00f3gica transcendental kantiana , porque n\u00e3o se move no dualismo entre sujeito e objeto, muito menos padece da simples considera\u00e7\u00e3o finita e limitada do conhecimento das coisas. Nela, o pensamento deve superar as idiossincrasias das determina\u00e7\u00f5es da finitude operadas pelo entendimento para lograr o terreno da infinitude da raz\u00e3o e assim adentrar na esfera do conceito, enquanto articula\u00e7\u00e3o entre finitude e infinitude. A intera\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica entre entendimento e raz\u00e3o serve de prel\u00fadio \u00e0 compreens\u00e3o hegeliana da realidade, enquanto uma totalidade din\u00e2mica e contradit\u00f3ria. Realidade que os preceitos gnosiol\u00f3gicos dos s\u00e9culos anteriores se mostraram incapazes de apreender (LUK\u00c1CS, 1979a). Isso significa que o idealismo hegeliano considera que a ess\u00eancia das coisas emana do pr\u00f3prio desenvolvimento do ser e n\u00e3o simplesmente da cabe\u00e7a do sujeito, como postula Kant.<br \/>\nO tratamento adequado da propriedade essencial das coisas presume o adentrar no reino \u00edntimo das categorias. \u00c9 nesse espa\u00e7o que \u00e9 poss\u00edvel falar da ess\u00eancia das coisas, porque o conceito das coisas somente pode ser logrado na esfera do pensamento. Por sua vez, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel afirmar as categorias como uma propriedade do sujeito, pois este n\u00e3o det\u00e9m a propriedade conceitual das coisas. O que o sujeito realiza, pela media\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia, \u00e9 t\u00e3o somente descobrir a l\u00f3gica imanente das coisas. O conceito das coisas emana da pr\u00f3pria essencialidade, n\u00e3o sendo produto de uma subjetividade transcendental centrada em-si mesma. Hegel destaca que \u201cn\u00e3o podemos sobrepor a ele e tampouco podemos ultrapassar a natureza das coisas\u201d (1982, \u00a7 47). Na perspectiva hegeliana, a atividade do pensamento comparece como for\u00e7a movente que \u201centretece todas as nossas representa\u00e7\u00f5es, nossos fins, interesses e a\u00e7\u00f5es; atua, como se disse, inconscientemente (e a l\u00f3gica natural); o que nossa consci\u00eancia tem diante de si \u00e9 o conte\u00fado, os objetos das representa\u00e7\u00f5es, aquilo que preenche nosso interesse\u201d (1982, \u00a7 48). Ele entende ainda que \u201cas determina\u00e7\u00f5es do pensamento valem como formas, que est\u00e3o no conte\u00fado, ainda que n\u00e3o seja o conte\u00fado mesmo\u201d (HEGEL, 1982, \u00a7 48). A atividade mais elevada da ci\u00eancia da l\u00f3gica \u00e9 libertar as categorias de uma perspectiva meramente instintiva ou fragmentada e ressaltar que o conhecimento em-si constitui-se como determina\u00e7\u00e3o fundamental da realidade do esp\u00edrito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse contexto \u00e9 que se podem compreender as categorias da identidade e da diferen\u00e7a. No entendimento de Luk\u00e1cs (1979a), essas express\u00f5es categoriais n\u00e3o s\u00e3o construtos do sujeito cognoscente, mas pertencem \u00e0 pr\u00f3pria materialidade da realidade, ou seja, o preceito da identidade (Eu=Eu) n\u00e3o pertence simplesmente \u00e0 l\u00f3gica formal, mas \u00e0 objetividade em-si da coisa. A afirma\u00e7\u00e3o e a nega\u00e7\u00e3o da identidade constituem-se como elementos que s\u00e3o imanentes \u00e0 ordem do ser e n\u00e3o procedem da cabe\u00e7a do sujeito do conhecimento. A identidade n\u00e3o emana de fora das coisas, mas da pr\u00f3pria processualidade do mundo. A identidade \u201c\u00e9 uma propriedade objetiva\u201d (LUK\u00c1CS, 1979a, p. 86). Identidade e diferen\u00e7a resultam da processualidade da pr\u00f3pria objetividade, que \u00e9 perpassada pelo jogo de for\u00e7as e pela a\u00e7\u00e3o rec\u00edproca de seus componentes. \u00c9 a pr\u00f3pria din\u00e2mica do ser que aponta para um movimento de intera\u00e7\u00e3o e oposi\u00e7\u00e3o, afirma\u00e7\u00e3o e nega\u00e7\u00e3o dos componentes categoriais. A lei do devir se patenteia em toda a estrutura do objeto, e a tarefa do pensamento \u00e9 apenas se apropriar da raz\u00e3o imanente que perpassa as malhas processuais da realidade. O tornar-se outro \u00e9 express\u00e3o de mudan\u00e7as capilares que acontecem na pr\u00f3pria constitui\u00e7\u00e3o do ser objetivo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hegel recusa ainda qualquer formula\u00e7\u00e3o hipostasiante que compreenda os conceitos como puras formas separadas do conte\u00fado e ergue-se contra \u201ca esterilidade das categorias puramente formais\u201d (HEGEL, 1982, \u00a7 50). O conte\u00fado separado da forma \u00e9 vazio, pois o conte\u00fado n\u00e3o pode existir sem forma e a forma n\u00e3o pode existir sem conte\u00fado, como pretende a l\u00f3gica tradicional. A forma tem a incumb\u00eancia de oferecer uma manifesta\u00e7\u00e3o fenom\u00eanica ao conte\u00fado. Explica assim a implica\u00e7\u00e3o dessa considera\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica: \u201cAo introduzir deste modo o conte\u00fado na investiga\u00e7\u00e3o l\u00f3gica, n\u00e3o s\u00e3o as coisas sen\u00e3o o essencial, o conceito das coisas, o que se converte no objetivo final\u201d (HEGEL, 1982, \u00a7 51). O conceito \u00e9 o pensamento como universal, ele \u00e9 a \u201cincomensur\u00e1vel abrevia\u00e7\u00e3o diante da singularidade dos objetos, tais como se apresentam em grande n\u00famero \u00e0 intui\u00e7\u00e3o e \u00e0 representa\u00e7\u00e3o indeterminadas\u201d (HEGEL, 1982, \u00a7 51). Na Enciclop\u00e9dia das Ci\u00eancias Filos\u00f3ficas (ECF, 1817), Hegel afirma que o conceito tem suprassumido em si \u201ctodas as determina\u00e7\u00f5es anteriores do pensar\u201d (ECF, \u00a7 160, adendo). O conceito \u00e9 determinado na rela\u00e7\u00e3o objetiva de diferencia\u00e7\u00e3o e contraste com outras coisas. A rela\u00e7\u00e3o de determina\u00e7\u00e3o com a negatividade serve de pre\u00e2mbulo para a compreens\u00e3o da distin\u00e7\u00e3o existente entre a natureza ontol\u00f3gica ou intr\u00ednseca de uma coisa e sua qualidade exterior. \u00c9 sua capacidade de articula\u00e7\u00e3o com outras formas do ser que permite a elucida\u00e7\u00e3o das determina\u00e7\u00f5es reflexivas que se constitui como for\u00e7a subjacente do conceito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A rela\u00e7\u00e3o que perpassa as determina\u00e7\u00f5es reflexivas n\u00e3o se circunscreve somente \u00e0 segunda parte da Ci\u00eancia da l\u00f3gica, pois tamb\u00e9m \u00e9 poss\u00edvel observar sua presen\u00e7a na primeira parte desta obra, quando Hegel trata da rela\u00e7\u00e3o entre qualidade e quantidade. Essas s\u00e3o formas do ser que num determinado momento entram numa rela\u00e7\u00e3o de reciprocidade. A determina\u00e7\u00e3o quantitativa de todo objeto est\u00e1 em \u201crela\u00e7\u00e3o de simultaneidade com a natureza qualitativa deste\u201d (LUK\u00c1CS, 1979a, p. 103). \u00c9 apenas pela abstra\u00e7\u00e3o do pensamento que quantidade e qualidade aparecem como cindidas, mas na efetividade elas aparecem sempre articuladas. A separa\u00e7\u00e3o entre qualidade e quantidade \u00e9 produto do pensamento que abstrai a realidade para apreend\u00ea-la, e muitas das vezes essa separa\u00e7\u00e3o acaba se conduzindo \u00e0 mistifica\u00e7\u00e3o da realidade. A sua separa\u00e7\u00e3o n\u00e3o deixa tamb\u00e9m de expressar o lento e progressivo desenvolvimento da humanidade no sentido de elucidar o movimento dos objetos de maneira categorial; n\u00e3o se trata apenas de um est\u00e1gio do entendimento na dire\u00e7\u00e3o da raz\u00e3o, como afirma Hegel (LUK\u00c1CS, 1979a).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda \u00e9 poss\u00edvel observar a presen\u00e7a das determina\u00e7\u00f5es reflexivas na terceira e \u00faltima parte da Ci\u00eancia da l\u00f3gica, especificamente quando aponta o conceito como movimento dial\u00e9tico de singularidade, particularidade e universalidade. Para Luk\u00e1cs, o caminho do conhecimento \u201cvai certamente \u2013 por meio do abstrato \u2013 do ser abstrato \u00e0 ess\u00eancia mais concreta, enquanto na realidade, por\u00e9m, a ess\u00eancia mais concreta e complexa constitui o ponto de partida ontol\u00f3gico, do qual se pode obter atrav\u00e9s da abstra\u00e7\u00e3o o conceito do ser, que \u00e9, tamb\u00e9m ele, primariamente ontol\u00f3gico\u201d (1979a, p. 81-82). No entanto, o conceito acaba padecendo de equ\u00edvocos quando Hegel tenta fazer brotar de sua natureza os momentos precedentes da ess\u00eancia e do ser . Luk\u00e1cs (1979a, p. 101) entende que n\u00e3o d\u00e1 para sustentar a tese hegeliana de que o conceito emana em-si do movimento da ess\u00eancia e do ser, pois os aspectos l\u00f3gicos acabam desconsiderando os aspectos ontol\u00f3gicos, ou seja, contrapondo-se ao movimento das determina\u00e7\u00f5es reflexivas, em que as categorias brotam da pr\u00f3pria processualidade do mundo objetivo. O ser para-outro e o ser para-si n\u00e3o brotam, nesse caso, das determina\u00e7\u00f5es de um mesmo processo. Para Luk\u00e1cs (1979a), o conceito, como o que existe de mais elevado, \u00e9 fruto da tentativa de constitui\u00e7\u00e3o da identidade sujeito-objeto e n\u00e3o do desenvolvimento processual do ser e da ess\u00eancia. Isso resulta do fato de a filosofia hegeliana conceber as determina\u00e7\u00f5es do pensamento como o conte\u00fado da suprema verdade da l\u00f3gica, em que o pensamento \u00e9 o sujeito e o objeto dele mesmo. Escreve Hegel: \u201cas determina\u00e7\u00f5es do pensamento t\u00eam em si mesmo valor e exist\u00eancia objetivas\u201d (HEGEL, 1982, \u00a7 67). Eis o cerne que impede a filosofia hegeliana de avan\u00e7ar no entendimento efetivo da realidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para Marx, \u00e9 imposs\u00edvel alcan\u00e7ar a efetividade do ser mediante a mera revers\u00e3o ideal de um processo de abstra\u00e7\u00e3o que tem o seu ponto de partida num conceito logicamente esvaziado de determina\u00e7\u00e3o ontol\u00f3gica. N\u00e3o \u00e9 pela media\u00e7\u00e3o do movimento do pensar consigo mesmo que se chegar\u00e1 \u00e0 objetividade da l\u00f3gica, pois um ser que tem o seu ponto de partida no reino do abstrato e n\u00e3o no mundo concreto constitui-se como uma abstra\u00e7\u00e3o carente de determina\u00e7\u00e3o (LUK\u00c1CS, 1979a). Um ser privado de determina\u00e7\u00e3o (indeterminado) n\u00e3o passa de uma constru\u00e7\u00e3o do pensamento . Marx destaca que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel alcan\u00e7ar a essencialidade das coisas e dos homens se afastando progressivamente de seu movimento ontol\u00f3gico, abstraindo do movimento processual \u201ctodos os seus pretensos acidentes, animados ou inanimados\u201d (MARX, 1982, p. 103).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O problema da perspectiva logicista \u00e9 que ela se afasta das determina\u00e7\u00f5es efetivas da processualidade do ser social para pairar de maneira absoluta no reino da ideia, em que o pensamento aparece como autodetermina\u00e7\u00e3o de si mesmo. Os preceitos l\u00f3gicos pretendem desenvolver um entendimento de que a verdadeira apreens\u00e3o da essencialidade das coisas passa pelo distanciamento, pois \u00e9 atrav\u00e9s do afastamento que se torna poss\u00edvel penetr\u00e1-las com a consist\u00eancia da ci\u00eancia da l\u00f3gica. Desse modo, \u201cestes metaf\u00edsicos t\u00eam, por sua vez, raz\u00e3o de dizer que as coisas aqui da terra s\u00e3o bordados, cujo pano de fundo \u00e9 constitu\u00eddo pelas categorias l\u00f3gicas\u201d (MARX, 1982, p. 103-104). Os preceitos hegelianos acabam conferindo uma for\u00e7a descomunal ao poder de abstra\u00e7\u00e3o, e assim se acredita poder reduzir todas as coisas que existem sobre a terra \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de categoria l\u00f3gica . Escreve Marx: \u201cdeste modo, todo mundo real passa a submergir no mundo das abstra\u00e7\u00f5es, no mundo das categorias l\u00f3gicas \u2013 quem se espantar\u00e1 com isto\u201d (1982, p. 104). Atrav\u00e9s da regress\u00e3o abstrata torna-se poss\u00edvel subverter todo o reino da realidade objetiva existente \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de categorias l\u00f3gicas e nestas encontrar a substancialidade da totalidade do existente, em que o m\u00e9todo absoluto de Hegel pode \u201ctanto explicar todas as coisas como implicar, ainda, o movimento delas\u201d (MARX, 1982, p. 104). Eis a inusitada tentativa de afirmar na abstra\u00e7\u00e3o da ideia a s\u00edntese da realidade e do conceito, em que a raz\u00e3o reencontra-se em si mesma e reconhece-se em todas as coisas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Reconstituindo o que foi apontado acima, pode-se dizer que apesar das abstra\u00e7\u00f5es \u201cnada razo\u00e1veis\u201d da primeira parte da Ci\u00eancia da l\u00f3gica, o representante do idealismo objetivo parece alcan\u00e7ar o desenvolvimento efetivo do ser na segunda etapa da referida obra, quando trata das determina\u00e7\u00f5es reflexivas no momento da ess\u00eancia, mas retorna \u00e0s posi\u00e7\u00f5es mistificadas na terceira parte, quando pretende fazer da \u201cideia\u201d o que existe de mais elevado, ou seja, s\u00edntese do conceito e da realidade. Este \u00e9 o problema de n\u00e3o levar \u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias as determina\u00e7\u00f5es objetivas das categorias e erigir a \u201cideia\u201d como momento predominante. \u00c9 por isso que Hegel concebe \u201cO que \u00e9 racional \u00e9 real e o que \u00e9 real \u00e9 racional\u201d (HEGEL, 1997, p. 35), ou seja, \u00e9 a consci\u00eancia que, em \u00faltima inst\u00e2ncia, acaba determinando a realidade, e esta se circunscreve \u00e0 miser\u00e1vel condi\u00e7\u00e3o de determina\u00e7\u00e3o do pensamento. A tentativa hegeliana de constitui\u00e7\u00e3o de uma nova fundamenta\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica acaba consistindo apenas numa nova roupagem de reprodu\u00e7\u00e3o da velha perspectiva fundada na predomin\u00e2ncia da consci\u00eancia sobre o ser, \u00e0 propor\u00e7\u00e3o que o absoluto aparece como um processo de s\u00edntese em que todas as diferencia\u00e7\u00f5es s\u00e3o suprassumidas no n\u00edvel especulativo da autoconsci\u00eancia ou do esp\u00edrito certo de si mesmo . Por esse motivo a determina\u00e7\u00e3o ontol\u00f3gica das categorias n\u00e3o pode ser levada \u00e0s suas \u00faltimas consequ\u00eancias, e somente com Marx elas poder\u00e3o comparecer verdadeiramente como determina\u00e7\u00f5es processuais da realidade e n\u00e3o como meras determina\u00e7\u00f5es l\u00f3gicas. \u00c9 t\u00e3o somente a dial\u00e9tica materialista que poder\u00e1 levar \u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias as formula\u00e7\u00f5es de natureza objetiva da anatomia das categorias postuladas por Hegel, porque o ponto de partida da teoria marxiana \u00e9 a realidade material e n\u00e3o os preceitos l\u00f3gicos.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">2 Categorias simples e categorias complexas em Karl Marx<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 fundamental destacar que inexiste em Marx qualquer pretens\u00e3o de encontrar o caminho da unidade l\u00f3gica entre sujeito e objeto ou entre a ordem do ser e a ordem do pensamento, como em Hegel. A constitui\u00e7\u00e3o duma teoria do conhecimento ou de \u201cci\u00eancia da l\u00f3gica\u201d se inscreve como totalmente ant\u00edpoda \u00e0 perspectiva marxiana. A preocupa\u00e7\u00e3o fundamental da teoria marxiana \u00e9 ontol\u00f3gica e n\u00e3o meramente gnosiol\u00f3gica , ou seja, ela n\u00e3o tem como prop\u00f3sito esclarecer o processo de constitui\u00e7\u00e3o do pensamento em si mesmo, mas t\u00e3o somente quando este emana das determina\u00e7\u00f5es objetivas. As categorias de que trata Marx s\u00e3o categorias que brotam das rela\u00e7\u00f5es sociais e n\u00e3o da mera especula\u00e7\u00e3o logicista. Por sua vez, a investiga\u00e7\u00e3o da natureza do ser social n\u00e3o pode ser empreendida com os recursos das ci\u00eancias naturais, que s\u00e3o ontologicamente limitados para esclarecer a anatomia das sociedades de classes e a peculiaridade das rela\u00e7\u00f5es sociais que perpassam a sociedade capitalista, bem como se mostram insuficientes para elucidar a forma trabalho e suas decorrentes categorias. No pref\u00e1cio da primeira edi\u00e7\u00e3o alem\u00e3 de O capital escreve Marx:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">o corpo desenvolvido \u00e9 mais f\u00e1cil de estudar do que a c\u00e9lula do corpo. Al\u00e9m disso, na an\u00e1lise das formas econ\u00f4micas n\u00e3o podem servir nem o microsc\u00f3pio nem reagentes qu\u00edmicos. A faculdade de abstrair deve substituir ambos. Para a sociedade burguesa, a forma celular da economia \u00e9 a forma de mercadoria do produto do trabalho ou a forma do valor da mercadoria. Para o leigo, a an\u00e1lise parece perder-se em pedantismo. Trata-se, efetivamente, de pedantismo, mas daquele de que se ocupa a anatomia microsc\u00f3pica (1985, p. 12).<br \/>\nAs categorias modais que realmente v\u00e3o despertar o interesse do pensamento marxiano s\u00e3o aquelas que brotam do universo econ\u00f4mico. Ele n\u00e3o considera as categorias como uma d\u00e1diva da consci\u00eancia ao ser, mas como um produto do desenvolvimento do ser social. Anota Marx (1982, p. 102-103):<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, a partir do momento em que n\u00e3o se persegue o movimento hist\u00f3rico das rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o, de que as categorias s\u00e3o apenas a express\u00e3o te\u00f3rica, a partir do momento em que se quer ver nestas categorias somente ideias, pensamentos espont\u00e2neos, independentes das rela\u00e7\u00f5es reais, a partir de ent\u00e3o se \u00e9 for\u00e7ado a considerar o movimento da raz\u00e3o pura como a origem desses pensamentos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As categorias n\u00e3o s\u00e3o frutos de uma produ\u00e7\u00e3o a priori, mas produtos de um longo desenvolvimento processual do ser social. As formula\u00e7\u00f5es categoriais s\u00e3o predica\u00e7\u00f5es sociais mediadas pelos sujeitos que fazem parte de uma dada forma de sociabilidade. As categorias s\u00e3o tanto dadas no c\u00e9rebro quanto na realidade. \u00c9 preciso n\u00e3o esquecer que as categorias, como assinala Marx (1983, p. 57), expressam \u201cformas de ser, determina\u00e7\u00f5es de exist\u00eancia\u201d [Kategorien daher Daseinsformen, Existenzbestimmungen]. Diferentemente do que afirmam os preceitos gnosiol\u00f3gicos e logicistas, a consci\u00eancia vai se pondo como uma tarefa importante no curso do desenvolvimento do ser social \u00e0 propor\u00e7\u00e3o que o indiv\u00edduo vai afastando concretamente as barreiras naturais e superando o mutismo que domina a Natureza. A economia pol\u00edtica n\u00e3o conseguiu tratar devidamente das categorias porque acabou se limitando \u00e0 an\u00e1lise das categorias mais abstratas e desconsiderando as pertinentes media\u00e7\u00f5es que existem entre as categorias concretas e as categorias mais simples. Conforme Marx (1982, p. 102): \u201cOs economistas exprimem as rela\u00e7\u00f5es da produ\u00e7\u00e3o burguesa, a divis\u00e3o do trabalho, o cr\u00e9dito, a moeda etc. como categorias fixas, imut\u00e1veis, eternas\u201d. Os economistas n\u00e3o explicam o movimento hist\u00f3rico que engendram as categorias econ\u00f4micas, concebendo-as como isentas de historicidade e contraditoriedade. E Marx consegue operacionalizar essa interpreta\u00e7\u00e3o porque se apropriou corretamente do m\u00e9todo de investiga\u00e7\u00e3o hegeliano, que concebe a realidade como eminentemente contradit\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Marx considera que o m\u00e9todo cientificamente correto das categorias deve considerar a rela\u00e7\u00e3o ontol\u00f3gica existente entre as categorias simples ou abstratas e as categorias mais concretas. O concreto, afirma Marx (2011, p. 54), \u201caparece no pensamento como processo de s\u00edntese, como resultado, n\u00e3o como ponto de partida\u201d. Embora possa estar contido no pr\u00f3prio ponto de partida, ele somente aparece claramente em seu ponto de chegada, mas como algo que est\u00e1 tanto no come\u00e7o quanto no seu final; o problema \u00e9 que a consci\u00eancia somente pode emergir no resultado, pois \u00e9 uma atividade post festum.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A realidade \u00e9 uma totalidade formada de complexos mais simples e complexos mais complexos. N\u00e3o existe paradoxo entre as categorias menos complexas (simples) e as categorias mais complexas (concretas), nem hierarquiza\u00e7\u00e3o na rela\u00e7\u00e3o entre elas; pelo contr\u00e1rio, ocorre um processo de desenvolvimento combinado e desigual. As categorias somente emergem nas sociedades mais complexas, ou seja, nas sociedades mais desenvolvidas, porque pressup\u00f5e um longo desenvolvimento das for\u00e7as produtivas e da subjetividade humana. As categorias mais complexas s\u00e3o aquelas que servem de esteio para a compreens\u00e3o do desenvolvimento da hist\u00f3ria da humanidade, enquanto que as categorias mais simples t\u00eam car\u00e1ter contingente e servem para explicar dado momento da hist\u00f3ria da humanidade. A propriedade, por exemplo, aparece como a rela\u00e7\u00e3o mais simples da organiza\u00e7\u00e3o da sociedade de classes, mas a propriedade n\u00e3o se constitui como fundamento da sociedade primitiva, porque nela as rela\u00e7\u00f5es mais simples s\u00e3o aquelas que aparecem como rela\u00e7\u00e3o de associa\u00e7\u00f5es entre fam\u00edlias, cl\u00e3s e tribos . A propriedade, como categoria simples ou simples rela\u00e7\u00e3o, pressup\u00f5e a exist\u00eancia de uma categoria mais complexa como o trabalho. No entanto, \u201cas categorias simples s\u00e3o express\u00f5es de rela\u00e7\u00f5es nas quais o concreto ainda n\u00e3o desenvolvido pode ter se realizado sem ainda ter posto a conex\u00e3o ou a rela\u00e7\u00e3o mais multilateral que \u00e9 mentalmente expressa nas categorias mais concretas; enquanto o concreto mais desenvolvido conserva essa mesma categoria como uma rela\u00e7\u00e3o subordinada\u201d (MARX, 2011, p. 56). Por outro lado, as categorias mais simples podem expressar \u201crela\u00e7\u00f5es dominantes de um todo ainda n\u00e3o desenvolvido\u201d (MARX, 2011, p. 56). As categorias mais simples tamb\u00e9m t\u00eam a sua complexidade e, por isso, precisam ser esclarecidas. O dinheiro, por exemplo, que precedeu historicamente o capital, os bancos e o trabalho assalariado, parece ser uma categoria que perpassa a exist\u00eancia de todas as sociedades; no entanto, uma an\u00e1lise mais detalhada revela que existiram sociedades bastante desenvolvidas, como as sociedades pr\u00e9-colombianas e as antigas comunidades eslavas, que desconheceram o uso do dinheiro. Na sociedade romana, o dinheiro ficou circunscrito ao ex\u00e9rcito e n\u00e3o desempenhou papel predominante no reino da produ\u00e7\u00e3o da vida material. O dinheiro, na verdade, ocupou papel epis\u00f3dico no interior das sociedades antigas, tendo exist\u00eancia mais significativa entre as na\u00e7\u00f5es comerciantes. Para Marx (2011, p. 56), \u201cessa categoria muito simples aparece historicamente em sua intensidade nas condi\u00e7\u00f5es mais desenvolvidas da sociedade\u201d. A rela\u00e7\u00e3o entre as categorias mais simples e as mais complexas n\u00e3o \u00e9 regida pelo preceito simplesmente cronol\u00f3gico, em que o pensamento abstrato se eleva do mais simples ao mais complexo; sua rela\u00e7\u00e3o \u00e9 bem mais paradoxal. Escreve Marx (2011, p. 57):<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desse modo, muito embora possa ter existido historicamente antes da categoria mais concreta, a categoria mais simples, em seu pleno desenvolvimento intensivo e extensivo, pode pertencer precisamente a uma forma de sociedade combinada, enquanto a categoria mais concreta estava plenamente desenvolvida em uma forma de sociedade menos desenvolvida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A complexidade que envolve a natureza das categorias comparece de maneira expressiva no trabalho. Anota Marx: \u201cO trabalho parece uma categoria muito simples\u201d (2011, p. 57). Por\u00e9m, ele \u00e9 tanto uma categoria \u201cabstrata\u201d quanto uma categoria concreta. Como valor de uso, o trabalho \u00e9 uma categoria concreta, pois est\u00e1 relacionado ao metabolismo da sociedade com a natureza enquanto necessidade eterna dos homens. A possibilidade de entender o trabalho como uma categoria emerge com o desenvolvimento do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista, que revelou a natureza abstrata do trabalho. E Adam Smith realizou um grande progresso quando considerou o trabalho como \u201ca universalidade abstrata da atividade criadora de riqueza\u201d (MARX, 2011, p. 57). Essa descoberta foi poss\u00edvel somente no tempo hist\u00f3rico em que o trabalho singular deixou de comparecer colado ao corpo do trabalhador e o trabalhador p\u00f4de passar de um oficio ao outro, de forma bastante distinta da \u00e9poca hist\u00f3rica das corpora\u00e7\u00f5es medievais. Mas n\u00e3o \u00e9 somente isso, sen\u00e3o sobretudo o fato de que o trabalho surge como categoria determinante do valor de troca no modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista, ou seja, o trabalho aparece como uma coisa abstrata, como \u201ctrabalho em geral\u201d ou como \u201ctrabalho puro e simples\u201d (MARX, 2011, p. 57).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O trabalho, enquanto subst\u00e2ncia do valor, constitui-se como a for\u00e7a de trabalho que age no processo de produ\u00e7\u00e3o de mercadorias como uma coisa \u201csimplesmente\u201d quantitativa. Ele funciona como uma abstra\u00e7\u00e3o universal destitu\u00edda de sua subst\u00e2ncia corp\u00f3rea e singular. A rela\u00e7\u00e3o que o trabalhador estabelece com o capitalista \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o em que o trabalho emerge como \u201ctrabalho simplesmente\u201d ou como \u201ctrabalho abstrato\u201d, em que o valor de uso passa a ser regido pelo valor de troca. Ao vender sua for\u00e7a de trabalho como uma mercadoria se estabelece uma cis\u00e3o monumental entre o trabalhador e o produto de seu trabalho. O trabalho \u00e9 valor de uso para o capitalista e valor de troca para o trabalhador, mas somente \u00e9 valor de uso para o capitalista \u00e0 propor\u00e7\u00e3o em que \u00e9 poss\u00edvel convert\u00ea-lo em valor de troca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A consci\u00eancia de que o trabalho se constitui como a categoria concreta somente p\u00f4de emergir do desenvolvimento do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista em que se superam as idiossincrasias do trabalho em sua \u201cdeterminabilidade criadora de riqueza\u201d (MARX, 2011, p. 55), ou seja, da sua mera express\u00e3o prosaica como trabalho manufatureiro, trabalho agr\u00edcola e tantas outras manifesta\u00e7\u00f5es singulares. Escreve Marx (2011, p. 57):<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A indiferen\u00e7a diante de um determinado tipo de trabalho pressup\u00f5e uma totalidade muito desenvolvida de tipos efetivos de trabalho, nenhum dos quais predomina sobre os demais. Portanto, as abstra\u00e7\u00f5es mais gerais surgem unicamente com o desenvolvimento concreto mais rico, ali onde um aspecto aparece como comum a muitos, comum a todos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E essa forma indiferente aos aspectos contingentes e imediatos do trabalho se configura na forma trabalho abstrato. Isso somente foi poss\u00edvel com o desenvolvimento das rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o capitalista. Este desenvolvimento permitiu compreender tanto o trabalho como valor de uso quanto o trabalho como valor de troca. Embora o trabalho como valor de uso seja uma universalidade concreta que perpassa a hist\u00f3ria de todas as sociedades precedentes, sua elucida\u00e7\u00e3o somente foi poss\u00edvel pela media\u00e7\u00e3o do esclarecimento do trabalho em sua universalidade abstrata, quer dizer, numa sociedade mais desenvolvida. \u00c9 por isso que a sociedade capitalista fornece a chave para elucidar as sociedades precedentes, porque ela guarda em seu interior vest\u00edgios \u2013 como um gr\u00e3o de sal \u2013 das sociedades precedentes. Embora o trabalho concreto como valor de uso estivesse no seu ponto de partida, ele somente pode aparecer claramente em seu ponto de chegada, como algo que est\u00e1 tanto no ponto de partida quanto no ponto de chegada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O trabalho pode ser esclarecido como uma categoria complexa ou abstrata mediante o desenvolvimento da sociedade capitalista, pois essa forma de sociedade permite elucidar a natureza complexa do desenvolvimento do ser social, \u00e0 propor\u00e7\u00e3o que a realidade se constitui visivelmente como express\u00e3o das determina\u00e7\u00f5es sociais. A abstra\u00e7\u00e3o do trabalho em geral \u00e9 produto do desenvolvimento das condi\u00e7\u00f5es objetivas. Afirma Marx: \u201cA abstra\u00e7\u00e3o mais simples, que a Economia moderna coloca no primeiro plano e que exprime uma rela\u00e7\u00e3o muito antiga e v\u00e1lida para todas as formas de sociedade, tal abstra\u00e7\u00e3o s\u00f3 aparece verdadeira na pr\u00e1tica como categoria da sociedade mais moderna\u201d (2011, p. 58). A categoria mais simples pode vir antes de categoria mais concreta no seu processo de apreens\u00e3o pela consci\u00eancia; mas do ponto de vista ontol\u00f3gico o trabalho enquanto categoria concreta vem antes do trabalho abstrato. Escreve Marx (2011, p. 57): \u201c&#8230; a categoria mais concreta estava plenamente desenvolvida em uma forma de sociedade menos desenvolvida\u201d. O movimento de elevar-se do abstrato ao concreto \u00e9 a forma de apropriar-se do concreto pela media\u00e7\u00e3o do pensamento, reproduzindo-o na forma do concreto espiritual. Isso denota que Marx se apropria do modo de investiga\u00e7\u00e3o operacionalizado por Hegel na Ci\u00eancia da l\u00f3gica, resguardadas suas distin\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Marx considera que o trabalho \u00e9 uma forma exemplar para revelar \u201ccomo as categorias mais abstratas, apesar de sua validade para todas as \u00e9pocas \u2013 justamente por causa de sua abstra\u00e7\u00e3o \u2013, na determinabilidade dessa pr\u00f3pria abstra\u00e7\u00e3o, s\u00e3o igualmente produto de rela\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas e t\u00eam sua plena validade s\u00f3 para essas rela\u00e7\u00f5es e no interior delas\u201d (2011, p. 58). Por isso que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel entender as categorias apenas isolando-as umas das outras, como faz a economia pol\u00edtica, mas operando por um processo de abstra\u00e7\u00e3o, em que o processo de isolamento deve ser seguido pelo processo de articula\u00e7\u00e3o das partes isoladas com o todo. Isso implica que o movimento reflexivo de \u201cida\u201d deve ser seguido pelo caminho de volta, em que a universalidade concreta permite iluminar e esclarecer a universalidade abstrata, em que a realidade comparece como uma totalidade concreta e n\u00e3o mais ca\u00f3tica. O \u201ccaminho de ida\u201d, da afirma\u00e7\u00e3o das abstra\u00e7\u00f5es \u201cisoladoras\u201d, ser\u00e1 \u201crazo\u00e1vel\u201d \u00e0 propor\u00e7\u00e3o que for seguido pelo \u201ccaminho de volta\u201d, que indica ao sujeito o verdadeiro como um processo de s\u00edntese das m\u00faltiplas determina\u00e7\u00f5es (MARX, 2011).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para Luk\u00e1cs (1981, 2010), no n\u00edvel mais simples as categorias se manifestam em rela\u00e7\u00e3o rec\u00edproca umas com as outras (mat\u00e9ria\/forma, parte\/todo etc.). Nesse contexto, o trabalho, como valor de uso, surge como a categoria decisiva para compreender as outras categorias, pois presume um processo homog\u00eaneo e espont\u00e2neo no desenvolvimento das categorias modais. No entanto, nas etapas mais avan\u00e7adas do desenvolvimento das rela\u00e7\u00f5es sociais, enquanto um complexo de complexo, cada complexo ganha sua relativa autonomia diante do trabalho. Embora o trabalho, como valor de uso, constitua uma categoria fundante do ser social, isso n\u00e3o impede que nos est\u00e1gios mais avan\u00e7ados e superiores do desenvolvimento da processualidade social as demais categorias possam aparecer como dotadas de autonomia relativa perante o trabalho. Isso pode levar \u00e0 falsa considera\u00e7\u00e3o de que as categorias existam por si mesmas ou que constituam formas a priori. Marx destaca o perigo dessa possibilidade no \u201cpref\u00e1cio \u00e0 segunda edi\u00e7\u00e3o alem\u00e3\u201d de O capital, quando afirma:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pesquisa tem de captar detalhadamente a mat\u00e9ria, analisar as suas v\u00e1rias formas de evolu\u00e7\u00e3o e rastrear sua conex\u00e3o \u00edntima. S\u00f3 depois de conclu\u00eddo esse trabalho \u00e9 que se pode expor adequadamente o movimento real. Caso se consiga isso, e espelhada idealmente agora a vida da mat\u00e9ria, talvez possa parecer que se esteja tratando de uma constru\u00e7\u00e3o a priori (1985, p. 20).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O m\u00e9todo de pesquisa ou investiga\u00e7\u00e3o exige um \u00e1rduo esfor\u00e7o para \u201ccaptar detalhadamente a mat\u00e9ria, analisar as suas v\u00e1rias formas de evolu\u00e7\u00e3o e rastrear sua conex\u00e3o \u00edntima\u201d. Isso implica dizer que a mat\u00e9ria, que \u00e9 a base e o crit\u00e9rio de toda a investiga\u00e7\u00e3o, n\u00e3o pode ser captada facilmente. A determina\u00e7\u00e3o externa \u00e9 perpassada por uma determina\u00e7\u00e3o interna que presume a ci\u00eancia. Marx destaca que se houvesse unidade entre ess\u00eancia e apar\u00eancia n\u00e3o haveria necessidade da ci\u00eancia. A determina\u00e7\u00e3o concreta \u00e9 perpassada pela rela\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica entre interioridade e exterioridade, o que exige presumir um investigador atento para desvelar as malhas de sua substancialidade. \u00c9 preciso \u201canalisar as suas v\u00e1rias formas de evolu\u00e7\u00e3o e rastrear sua conex\u00e3o \u00edntima\u201d na sua totalidade concreta. E analisar \u00e9 um avan\u00e7ar que significa retroceder na perspectiva da elucida\u00e7\u00e3o e do esclarecimento dos seus fundamentos (HEGEL, 1982). No processo de an\u00e1lise, a abstra\u00e7\u00e3o comparece como momento em que \u00e9 poss\u00edvel isolar um determinado aspecto da realidade para compreend\u00ea-la melhor; no entanto, esse isolamento n\u00e3o deve esquecer as articula\u00e7\u00f5es existentes entre as partes da mat\u00e9ria estudada e as ricas manifesta\u00e7\u00f5es heterog\u00eaneas da totalidade da realidade. A realidade \u00e9 uma totalidade concreta que comparece como s\u00edntese das m\u00faltiplas determina\u00e7\u00f5es. \u00c9 atrav\u00e9s da eleva\u00e7\u00e3o do abstrato ao concreto que o pensamento se apropria da realidade, sem que isso implique alguma esp\u00e9cie de identidade absoluta entre o pensamento e o ser.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A exposi\u00e7\u00e3o do ser na forma categorial \u00e9 uma etapa posterior \u00e0 investiga\u00e7\u00e3o da estrutura anat\u00f4mica do objeto e representa a reprodu\u00e7\u00e3o da estrutura da vida material no \u00e2mbito do pensamento. Nesse sentido, significa um adentrar no universo das abstra\u00e7\u00f5es, em que abstrair implica estabelecer a diferencia\u00e7\u00e3o entre o essencial e o inessencial, o fundante e o fundado, o efeito e a causa. Atrav\u00e9s da exposi\u00e7\u00e3o se adentra no universo do espelhamento da realidade; por isso que parece tratar-se de uma constru\u00e7\u00e3o a priori, quando na verdade a atividade da exposi\u00e7\u00e3o do ser pela consci\u00eancia \u00e9 essencialmente post festum. Escreve Marx (1985, p. 73): \u201cA reflex\u00e3o sobre as formas de vida humana, e, portanto, tamb\u00e9m sua an\u00e1lise cient\u00edfica, segue sobretudo um caminho oposto ao desenvolvimento real. Come\u00e7a post festum e, por isso, com os resultados definidos do processo de desenvolvimento\u201d. O reino da l\u00f3gica ou da reprodu\u00e7\u00e3o ideal de uma conex\u00e3o concreta acontece mediante a manifesta\u00e7\u00e3o da coisa e seu desenvolvimento efetivo no mundo material, verificando-se dois complexos: \u201co ser social, que existe independentemente do fato de que seja ou n\u00e3o conhecido corretamente; e o m\u00e9todo para capt\u00e1-lo no pensamento, da maneira mais adequada poss\u00edvel\u201d (LUK\u00c1CS, 1979b, p. 35). O ser tanto pode percorrer sua exist\u00eancia sem ser captado idealmente pela consci\u00eancia, quanto pode ser captado pela consci\u00eancia.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">Conclus\u00e3o<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">O idealismo objetivo e a teoria marxiana se ergueram contra a esterilidade vazia das concep\u00e7\u00f5es que tentaram reduzir as categorias \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de mera vacuidade do sujeito pensante, pois as categorias s\u00e3o determina\u00e7\u00f5es objetivas da exist\u00eancia. Enquanto o pensamento hegeliano enveredou pela elucida\u00e7\u00e3o da anatomia constitutiva das categorias, contrapondo-se \u00e0 l\u00f3gica antiga que simplesmente desconsiderou seus aspectos objetivos e ontol\u00f3gicos; a teoria marxiana buscou uma aplicabilidade pr\u00e1tica \u00e0s categorias, articulando-as ao processo de esclarecimento da anatomia do sistema do capital. No pref\u00e1cio \u00e0 segunda edi\u00e7\u00e3o de O capital, Marx confessa abertamente ter andando \u201cnamorando aqui e acol\u00e1 os seus modos [hegelianos] peculiares de express\u00e3o\u201d (1985, p. 20).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 poss\u00edvel afirmar que a teoria marxiana comparece como a concep\u00e7\u00e3o que mais se apropriou da natureza das categorias contidas na Ci\u00eancia da l\u00f3gica. Evidentemente que essa apropria\u00e7\u00e3o se inscreveu de maneira bastante peculiar, porque o prop\u00f3sito marxiano n\u00e3o era constituir um novo sistema filos\u00f3fico ou resolver o problema das categorias numa perspectiva meramente escol\u00e1stica, mas apropriar-se das categorias hegelianas, subvertendo-as, para elucidar as conex\u00f5es \u00edntimas e as rela\u00e7\u00f5es contradit\u00f3rias que perpassam as diferentes categorias econ\u00f4micas latentes no modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista. O processo de elucida\u00e7\u00e3o da realidade pressup\u00f5e um investigador atento ao movimento reflexivo das categorias e \u00e0 articula\u00e7\u00e3o existente entre as categorias mais simples ou abstratas e as categorias mais complexas ou concretas. Pode-se dizer, sem nenhum exagero, que foi Marx quem realmente conseguiu dar um tratamento correto \u00e0s categorias hegelianas e libert\u00e1-las de seu \u201cinv\u00f3lucro m\u00edstico\u201d.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">ESPINOSA, Benedictus de. Correspond\u00eancia. Tradu\u00e7\u00e3o de Marilena de Souza Chau\u00ed. Os Pensadores. S\u00e3o Paulo: Abril Cultural, 1983.<br \/>\nHEGEL, G. W. F. Ciencia de la l\u00f3gica. Tradu\u00e7\u00e3o Augusta y Rodolfo Mondolfo. Buenos Ayres: Solar\/Librarie Hachette, 1982.<br \/>\n_____________. Fenomenologia do esp\u00edrito. Vol. I. Trad. Paulo Meneses. S\u00e3o Paulo: Vozes, 1992.<br \/>\n______________. Princ\u00edpios da filosofia do direito. Trad. Norberto de Paula Lima. S\u00e3o Paulo: \u00cdcone, 1997.<br \/>\n______________. Enciclop\u00e9dia das ci\u00eancias filos\u00f3ficas em comp\u00eandio (1930). Vol. I. 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