{"id":1983,"date":"2013-05-20T10:22:37","date_gmt":"2013-05-20T13:22:37","guid":{"rendered":"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/?p=1983"},"modified":"2018-06-01T16:05:12","modified_gmt":"2018-06-01T19:05:12","slug":"jornal-58-encarte-alagoas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/2013\/05\/jornal-58-encarte-alagoas\/","title":{"rendered":"Jornal 58 &#8211; Encarte Alagoas"},"content":{"rendered":"<p>Vers\u00e3o em PDF do Encarte Alagoas:<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/?attachment_id=1977\" rel=\"attachment wp-att-1976\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/encarte-alagoas-miniatura.jpg\" alt=\"encarte alagoas miniatura\" width=\"205\" height=\"295\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Ou leia as mat\u00e9rias online:<\/strong><\/p>\n<ul>\n<li><a href=\"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/?p=1983#titulo1\">Capitalismo e viol\u00eancia<\/a><\/li>\n<li><a href=\"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/?p=1983#titulo2\">A crise ambiental \u00e9, na verdade, uma crise do capital<\/a><\/li>\n<li><a href=\"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/?p=1983#titulo3\">Para qu\u00ea serve o discurso do envelhecimento da popula\u00e7\u00e3o?<\/a><\/li>\n<\/ul>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h1>Encarte Alagoas<\/h1>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>Capitalismo e Viol\u00eancia<a name=\"titulo1\"><\/a><\/h2>\n<h2><\/h2>\n<h3 style=\"text-align: right;\"><span style=\"font-size: 1.17em; text-align: right;\">Marcus Vinicius<\/span><\/h3>\n<p>Assim como ocorre com demais assuntos que dizem respeito \u00e0 sociedade, o problema da viol\u00eancia \u00e9 percebido e explicado de formas diferentes, a depender das ideias de quem o aborda. Os tr\u00eas caminhos mais comuns s\u00e3o: 1) a viol\u00eancia humana como algo natural, 2) os atos violentos como frutos de escolhas de indiv\u00edduos e 3) a viol\u00eancia que atualmente \u00e9 praticada por e contra os seres humanos como produto de nossa sociedade como um todo.<br \/>\nO primeiro v\u00ea a quest\u00e3o da viol\u00eancia como algo insepar\u00e1vel do ser humano: \u201csomos naturalmente violentos e isso n\u00e3o pode ser superado\u201d. Desse modo, as pr\u00e1ticas violentas mais disseminadas e postas em discuss\u00e3o, como homic\u00eddios, viol\u00eancia sexual, roubos, assaltos, linchamentos, etc. s\u00e3o explicadas a partir da forma\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica de homens e mulheres. As pessoas furtam, brigam e se matam porque isso \u201cest\u00e1 no sangue\u201d de nossa esp\u00e9cie.<br \/>\nJ\u00e1 o segundo dos caminhos, que tende a ser o mais trilhado na atualidade, leva \u00e0 compreens\u00e3o de que n\u00e3o s\u00e3o os seres humanos de forma geral que s\u00e3o violentos, mas aqueles que desejam ser. Ent\u00e3o, as agress\u00f5es \u00e0 integridade f\u00edsica de outros indiv\u00edduos e o ataque \u00e0 propriedade privada s\u00e3o vistas como resultados de decis\u00f5es individuais isoladas \u2013 em que os indiv\u00edduos com \u201cbom senso\u201d respeitam os outros seres humanos em suas posses, g\u00eaneros, etnias, sexualidades, nacionalidades e demais condi\u00e7\u00f5es; enquanto, aqueles que n\u00e3o o fazem, decidem atropelar as individualidades dos que os rodeiam \u2013 estejamos tratando do desrespeito aos bens materiais alheios ou de outras dimens\u00f5es da vida humana, como da orienta\u00e7\u00e3o sexual ou da cor da pele, para mencionar dois curtos exemplos.<br \/>\nA terceira ideologia enxerga a viol\u00eancia como uma consequ\u00eancia das pr\u00f3prias rela\u00e7\u00f5es sociais estabelecidas, o que nos traz o entendimento de que os variados gestos bruscos e, muitas vezes, sangrentos realizados por mulheres e homens n\u00e3o podem ser explicados por fatores gen\u00e9ticos \u2013 que naturalizam a vida social \u2013 nem individualizantes \u2013 que mascaram os la\u00e7os sociais que unem cada indiv\u00edduo \u00e0 sociedade de qual \u00e9 parte \u2013 mas sociais. Dessa maneira, as pr\u00e1ticas violentas dos seres humanos n\u00e3o s\u00e3o tidas como simples resultados da ess\u00eancia humana, nem de suas escolhas, por\u00e9m de como est\u00e3o inseridos no meio social e como este os influencia no cotidiano.<br \/>\nA perspectiva socialista faz parte desse terceiro grupo. De acordo com a nossa vis\u00e3o de mundo, qualquer sociedade que re\u00fana indiv\u00edduos em rela\u00e7\u00f5es sociais contradit\u00f3rias est\u00e3o sujeitas ao problema da viol\u00eancia.<br \/>\nPor se tratar de um modelo de organiza\u00e7\u00e3o socioecon\u00f4mica que funciona sob a divis\u00e3o de classes, a sociedade capitalista cria condi\u00e7\u00f5es de vida que, diariamente, contrap\u00f5em os indiv\u00edduos que dela participam. Essa oposi\u00e7\u00e3o repousa na exist\u00eancia de duas classes: a capitalista e a trabalhadora \u2013 que possuem uma conex\u00e3o necessariamente antag\u00f4nica \u2013 a primeira \u00e9 propriet\u00e1ria dos meios de produ\u00e7\u00e3o, enquanto a segunda possui apenas a for\u00e7a de trabalho, tendo que vend\u00ea-la para assegurar sua sobreviv\u00eancia. Uma vez que \u00e9 a partir desta rela\u00e7\u00e3o que se produz todas as mercadorias que s\u00e3o consumidas no ambiente social, \u00e9 ela quem fundamenta e permite a manuten\u00e7\u00e3o e desenvolvimento de toda a sociedade.<br \/>\nEmbora pare\u00e7a uma afirma\u00e7\u00e3o extremamente simples, n\u00e3o se encerra em si mesma. Quando \u00e9 apontado como um modo de produ\u00e7\u00e3o que se baseia na contradi\u00e7\u00e3o entre duas classe, diz-se que o capitalismo ocasiona uma s\u00e9rie de consequ\u00eancias: as rela\u00e7\u00f5es de explora\u00e7\u00e3o do trabalho caminham de m\u00e3os dadas com as desigualdades sociais, que se manifestam atrav\u00e9s da pobreza, fome, analfabetismo, mis\u00e9ria, etc., em outros termos: \u00e9 um tipo de economia que proporciona condi\u00e7\u00f5es de vida profundamente distintas a seus indiv\u00edduos, a depender do lugar ocupado na pir\u00e2mide social das rela\u00e7\u00f5es de trabalho.<br \/>\nNo livro chamado A situa\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora na Inglaterra (1844), Friedrich Engels acompanhou as circunst\u00e2ncias que os trabalhadores ingleses tiveram que enfrentar no per\u00edodo de grandes saltos produtivos dados pelo capitalismo durante a Revolu\u00e7\u00e3o Industrial. Observou que, desde o seu \u201cfabuloso\u201d momento de desenvolvimento vertiginoso, a sociedade capitalista apresentava viv\u00eancias d\u00edspares \u2013 onde a classe capitalista, vivendo em arejados bairros, sob tetos luxuosos, estava bastante afastada dos bairros da classe oper\u00e1ria, que n\u00e3o possu\u00eda saneamento e ventila\u00e7\u00e3o, onde casebres eram amontoados, e, dentro deles, as fam\u00edlias dos trabalhadores tinham que se apertar para poder garantir suas necessidades prim\u00e1rias&#8230; Isso quando tinham a sorte de ter cama e comida para descansar e sobreviver, a cada dia.<br \/>\nE porque sublinhar tudo isso, se estamos tratando do tema da viol\u00eancia? Engels constata que, ao lado desse degradante quadro em que se encontravam milhares de trabalhadores, na medida em que mis\u00e9ria avan\u00e7ava sob a forma do desemprego e do emprego-faminto, tamb\u00e9m aumentava o n\u00famero de crimes registrados no pa\u00eds \u2013 esclarecia o v\u00ednculo encoberto pelo discurso da ideologia da classe dominante, que parece sentir um misto de autoperd\u00e3o e prazer ao abandonar, em nome da liberdade individual e dos milagres materiais assegurados pela ordem do capital, seres humanos no sofrimento.<br \/>\n\u00c9 muito comum encontrarmos no discurso capitalista, no Brasil ou mundo afora, o sentimento de que os duros e mal\u00e9ficos tempos da Revolu\u00e7\u00e3o Industrial ficaram para tr\u00e1s e que vivenciamos um per\u00edodo em que uma maior distribui\u00e7\u00e3o de bens nos trouxe uma situa\u00e7\u00e3o de conforto geral; de que o modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista \u00e9 o cume dos modelos de sociedade que melhor satisfaz a humanidade.<br \/>\nPor\u00e9m, se atentarmos a \u00edndices sociais, veremos que correspondem muito pouco \u00e0 realidade. Dando enfoque a um caso de nosso pa\u00eds, podemos clarear melhor a quest\u00e3o: de acordo com o Mapa da Viol\u00eancia, em 2010, Alagoas ganhou o \u201ctrof\u00e9u\u201d de estado brasileiro com a maior taxa de homic\u00eddios \u2013 para cada 100 mil habitantes, 109,9 s\u00e3o assassinados. Macei\u00f3, sua capital, foi eleita como a terceira cidade mais violenta do mundo, baseada em dados colhidos por uma ONG mexicana.<\/p>\n<p>De encontro com esses n\u00fameros, temos as seguintes informa\u00e7\u00f5es, de 2009, do IBGE e IPEA, sobre a popula\u00e7\u00e3o alagoana: 12,1% encontram-se desempregada; 62,9% corre risco de morte por conta da fome; 47,70% vivem em condi\u00e7\u00f5es de pobreza; 21,30% em condi\u00e7\u00f5es de extrema pobreza; a cada 2 alagoanos, 1 vive de esmola ou Bolsa Fam\u00edlia \u2013 todas essas estat\u00edsticas s\u00e3o consideradas elevadas at\u00e9 quando comparadas com outros estados do pa\u00eds.<br \/>\nEmbora n\u00e3o possamos afirmar que uma condi\u00e7\u00e3o indigente obrigue o ser humano a tomar os trilhos do crime e fa\u00e7a com que n\u00e3o tenha outra sa\u00edda que n\u00e3o a marginalidade, n\u00e3o vemos qualquer sentido em dizer que a sociedade capitalista forne\u00e7a oportunidades para que todas as mulheres e homens possam viver dignamente \u2013 j\u00e1 que o que a guia n\u00e3o \u00e9 o bem comum da popula\u00e7\u00e3o, mas o lucro e a riqueza de uma parcela reduzida.<br \/>\nAcreditamos que o problema da viol\u00eancia n\u00e3o pode ser enfrentado como algo desconectado do capitalismo. Os atos de viol\u00eancia n\u00e3o surgem de uma mera decis\u00e3o de indiv\u00edduos que optam por agredir outros \u2013 suas causas devem ser procuradas no meio social. Para que a viol\u00eancia seja combatida \u00e9 essencial que os indiv\u00edduos n\u00e3o sejam violados rotineiramente. Mas, como no capitalismo n\u00e3o temos isso sendo garantido nas rela\u00e7\u00f5es de emprego e de vida, n\u00e3o vemos outro rem\u00e9dio que possa curar os enfermos corpos dos trabalhadores, dos negros, das mulheres e de outras minorias oprimidas que n\u00e3o o socialismo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>A crise ambiental \u00e9, na verdade, uma crise do capital<a name=\"titulo2\"><\/a><\/h2>\n<h3 style=\"text-align: right;\">Zilas Nogueira &#8211; Alagoas<\/h3>\n<p>Estudos cient\u00edficos e os meios de comunica\u00e7\u00e3o t\u00eam noticiado, constantemente, s\u00e9rios ind\u00edcios de que passamos, hoje, por uma grave crise ambiental. Cat\u00e1strofes naturais, polui\u00e7\u00e3o, desmatamento, desertifica\u00e7\u00e3o, escassez de recursos naturais, fome, desigualdade social e viol\u00eancia, s\u00e3o apenas alguns deles.<br \/>\nDesastres ambientais, como a explos\u00e3o e afundamento de uma plataforma da companhia British Petroleum (BP) ocorrido em 2010 no Golfo do M\u00e9xico despejando, durante mais de um m\u00eas 2 a 3 milh\u00f5es de litros de petr\u00f3leo por dia no mar. N\u00fameros como os apresentados pelo PNUD revelando que 968 milh\u00f5es de pessoas n\u00e3o t\u00eam acesso a fontes de \u00e1gua tratada, 2,4 bilh\u00f5es ao saneamento b\u00e1sico e que 2,2 milh\u00f5es morrem anualmente por contamina\u00e7\u00e3o do ar, refor\u00e7am a ideia de crise do meio ambiente.<\/p>\n<p>Cientistas, ecologistas, religiosos das mais variadas orienta\u00e7\u00f5es, a juventude de classe m\u00e9dia que, com um discurso pequeno burgu\u00eas, se engaja em ONGs na luta em defesa da natureza e at\u00e9 pol\u00edticos oportunistas, todos, sem exce\u00e7\u00e3o, afirmam que tal situa\u00e7\u00e3o tem como causa central o modelo de desenvolvimento vigente, baseado no consumo exagerado. Assim, para reverter o processo de degrada\u00e7\u00e3o ambiental existente hoje e salvaguardar os recursos naturais de forma que possam continuar sendo utilizados pelas gera\u00e7\u00f5es futuras seria imperativo modificar tal padr\u00e3o econ\u00f4mico. Mas, \u00e9 precisamente aqui que as coisas se complicam.<\/p>\n<p>Os ecologistas e jovens de classe m\u00e9dia, os acad\u00eamicos e religiosos em geral, por causa de sua posi\u00e7\u00e3o de classe, nunca poder\u00e3o dar sequ\u00eancia \u00e0s suas reflex\u00f5es de maneira cr\u00edtica e radical, no sentido de ir \u00e0 raiz do problema. Por isso, patinam entre solu\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas mirabolantes e propostas de melhorar o funcionamento do mercado para que venha incorporar as preocupa\u00e7\u00f5es ambientais em suas transa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Mas, quem quer pensar as quest\u00f5es ambientais atuais e ser minimamente consequente tem que saber que o problema encontra-se, sim, no modelo de desenvolvimento e consumo vigentes. Deve ir al\u00e9m e se perguntar: qual \u00e9 mesmo o fundamento deste modelo? Quem fizer esta pergunta s\u00f3 encontrar\u00e1 uma resposta: as rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o capitalistas. \u00c9 enfadonho ouvir representantes de organiza\u00e7\u00f5es que acham que est\u00e3o lutando na defesa do meio ambiente afirmarem a todo tempo que o mal est\u00e1 no consumismo, ou nos pol\u00edticos corruptos, ou na incompet\u00eancia dos gestores p\u00fablicos, etc. Mas, nunca se ouve destas pessoas uma \u00fanica refer\u00eancia ao capitalismo.<\/p>\n<p>Assim, as causas do uso predat\u00f3rio dos recursos naturais, bem como as solu\u00e7\u00f5es para tal problema v\u00eam sendo apontadas como uma quest\u00e3o que depende exclusivamente de um melhor gerenciamento em rela\u00e7\u00e3o ao uso de tais recursos, de uma postura mais respons\u00e1vel e \u00e9tica face ao meio ambiente, de uma busca pela conscientiza\u00e7\u00e3o dos cidad\u00e3os, de uma classe pol\u00edtica que esteja preocupada na preserva\u00e7\u00e3o ambiental, de mais educa\u00e7\u00e3o, etc.<\/p>\n<p>No entanto, verificamos que desde os \u00faltimos trinta anos do s\u00e9culo passado at\u00e9 a primeira d\u00e9cada do atual, as tentativas de explicar e propor solu\u00e7\u00f5es com base subjetivista t\u00eam se mostrado ineficazes no sentido de estabelecer um consumo mais racional dos recursos naturais, sobretudo os n\u00e3o renov\u00e1veis.<\/p>\n<p>O que est\u00e1 equivocado e que nem os doutores das universidades nem os jovens de classe m\u00e9dia conseguem enxergar \u00e9 que o pressuposto sobre o qual formulam suas cantilenas \u00e9 falso. Ao examinar os problemas ecol\u00f3gicos, as quest\u00f5es \u00e9ticas e pol\u00edticas n\u00e3o devem ser colocadas como eixos centrais da an\u00e1lise. A preocupa\u00e7\u00e3o fundamental deve ser, de outro lado, apreender a l\u00f3gica imanente de funcionamento da forma\u00e7\u00e3o social em que se passam as quest\u00f5es ambientais em exame. E depois relacion\u00e1-la com os problemas ecol\u00f3gicos que estamos investigando para, s\u00f3 ent\u00e3o, verificar os poss\u00edveis condicionantes \u00e9ticos e pol\u00edticos.<\/p>\n<p>Acreditamos, portanto, que um melhor entendimento da problem\u00e1tica ambiental apenas pode aflorar se compreendermos da maneira mais profunda poss\u00edvel as leis e determina\u00e7\u00f5es objetivas que regem a din\u00e2mica socioecon\u00f4mica capitalista.<\/p>\n<p>Se assim procedermos, perceberemos que \u00e9 a l\u00f3gica pr\u00f3pria do mercado capitalista que determina, em \u00faltima inst\u00e2ncia, o volume e a velocidade da produ\u00e7\u00e3o industrial e agr\u00e1ria, a admiss\u00e3o ou demiss\u00e3o de milhares de trabalhadores, a apropria\u00e7\u00e3o de terras por latifundi\u00e1rios e consequentemente o \u00eaxodo de camponeses para as cidades, o uso predat\u00f3rio ou n\u00e3o de determinados recursos naturais, etc. Esta l\u00f3gica \u00e9 incontrol\u00e1vel e se estrutura em uma s\u00e9rie de leis pr\u00f3prias ao funcionamento da ordem social regida pelo capital. Dentre estas, uma das mais relevantes para o debate ambiental \u00e9 a lei das crises c\u00edclicas.<\/p>\n<p>Sabemos que movimento da economia capitalista se desenvolve em ciclos: expans\u00e3o, estagna\u00e7\u00e3o, recess\u00e3o e crise. Em per\u00edodos de expans\u00e3o econ\u00f4mica as empresas e a sociedade em geral podem adotar medidas de prote\u00e7\u00e3o ao meio ambiente sem preju\u00edzos \u00e0s taxas de lucro. Mas, em momentos de retra\u00e7\u00e3o e crise essa preocupa\u00e7\u00e3o tende a desaparecer na mesma medida em que surgirem choques entre os interesses do capital e a preserva\u00e7\u00e3o do meio ambiente. H\u00e1, portanto, uma necessidade intr\u00ednseca ao capital de manter ou elevar a taxa de lucro em per\u00edodos de crise econ\u00f4mica que conduz necessariamente a intensifica\u00e7\u00e3o do consumo predat\u00f3rio dos recursos naturais.<\/p>\n<p>E isso se agrava se pensarmos, junto com M\u00e9sz\u00e1ros, que desde os anos 1970 o capital passa por uma crise estrutural. Isso implica que expans\u00f5es e crises peri\u00f3dicas representam, agora, movimentos internos de um fen\u00f4meno de maior alcance, cuja trajet\u00f3ria \u00e9 sempre declinante.<\/p>\n<p>Esta crise estrutural caracteriza-se, ent\u00e3o, pelo seu car\u00e1ter universal, seu \u00e2mbito global e sua forma permanente. Assim, todas as esferas da exist\u00eancia humana s\u00e3o afetadas. A vida cotidiana torna-se a cada ano mais inst\u00e1vel, insegura e estranhada. Nesse contexto, \u00e9 mais dif\u00edcil que o capital se empenhe em a\u00e7\u00f5es de preserva\u00e7\u00e3o ambiental, tendo em vista que sua pr\u00f3pria exist\u00eancia est\u00e1 em risco.<\/p>\n<p>A realidade nos mostra, ainda, que as tentativas (em per\u00edodos de crise) de elevar ou manter os lucros, mesmo tendo que pagar o pre\u00e7o da degrada\u00e7\u00e3o ambiental, n\u00e3o \u00e9 resultado apenas de escolhas subjetivas, de vontades individuais. N\u00e3o \u00e9 simplesmente por causa da gan\u00e2ncia de alguns empres\u00e1rios ou da incapacidade de gest\u00e3o de certos indiv\u00edduos que o meio ambiente vem sendo devastado de forma assustadora nos \u00faltimos trinta anos. Em outras palavras, o problema fundamental n\u00e3o est\u00e1 meramente no campo dos valores morais, pol\u00edticos ou de gerenciamento.<\/p>\n<p>J\u00e1 os meios de comunica\u00e7\u00e3o e a academia colocam a quest\u00e3o, na maioria das vezes, como uma falha na administra\u00e7\u00e3o da economia. E, desta maneira, bastaria que fossem corrigidas tais falhas para que os problemas ambientais fossem igualmente resolvidos. Mas, em nenhum momento a pr\u00f3pria possibilidade de concilia\u00e7\u00e3o entre a l\u00f3gica imanente do sistema capitalista e o desenvolvimento econ\u00f4mico ecologicamente sustent\u00e1vel \u00e9 questionada.<\/p>\n<p>Quando se entende os problemas ambientais em termos subjetivistas \u00e9 poss\u00edvel buscar sa\u00eddas e propostas para ameniz\u00e1-los no interior da pr\u00f3pria sociedade capitalista.<\/p>\n<p>Acreditamos, por outro lado, que as respostas aos desafios socioambientais n\u00e3o devem ser buscadas somente no \u00e2mbito da subjetividade (ou seja, da vontade). Pensamos que as an\u00e1lises e reflex\u00f5es a respeito da crise ambiental devem ser deslocadas da centralidade da subjetividade para a centralidade dial\u00e9tica da objetividade. Assim, o ponto de partida para a an\u00e1lise dessas quest\u00f5es deve ser a objetividade social, que tem em sua base as rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e n\u00e3o a subjetividade plasmada em quest\u00f5es \u00e9ticas e\/ou pol\u00edticas.<\/p>\n<p>Por isso, \u00e9 importante apontar que a crise n\u00e3o \u00e9 ambiental. A crise \u00e9 da sociedade estruturada em rela\u00e7\u00f5es sociais capitalistas que, por sua vez, repercute na esfera do mundo natural. O problema est\u00e1 em uma determinada forma de regular o metabolismo entre homem e natureza. N\u00e3o \u00e9, repetimos, um problema moral, pol\u00edtico, ou de consci\u00eancia.<br \/>\nDisso tudo, inferimos que n\u00e3o h\u00e1 luta pela defesa do meio ambiente que n\u00e3o seja, ao mesmo tempo, uma luta pela supera\u00e7\u00e3o do capitalismo e uma luta pelo socialismo.<\/p>\n<h2>Para que serve o discurso do envelhecimento da popula\u00e7\u00e3o?<a name=\"titulo3\"><\/a><\/h2>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 style=\"text-align: right;\">Artur Bispo dos Santos Neto<\/h3>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ap\u00f3s uma d\u00e9cada pautada pela privatiza\u00e7\u00e3o das estatais brasileiras, adentra-se no novo s\u00e9culo sob o auspicio da hegem\u00f4nica afirma\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica da necessidade de contrarreformas substanciais no sistema previdenci\u00e1rio. A pilhagem das estatais brasileiras permitiu, de um lado, a ascens\u00e3o mete\u00f3rica de figuras ap\u00e1ticas da economia nacional nos mais elevados estratos dos homens mais ricos do mundo, e, do outro, tornou ainda mais dram\u00e1tica a exist\u00eancia da classe trabalhadora, \u00e0 medida que se passou a negociar a necessidade de preserva\u00e7\u00e3o dos empregos e a abdicar das conquistas alcan\u00e7adas nas d\u00e9cadas passadas.<\/p>\n<p>Entre as ideologias apresentadas, nenhuma ganhou mais notoriedade e car\u00e1ter de naturaliza\u00e7\u00e3o que a ideologia do envelhecimento precoce da popula\u00e7\u00e3o brasileira como condi\u00e7\u00e3o fundamental de justifica\u00e7\u00e3o da contrarreforma da previd\u00eancia social. A manifesta\u00e7\u00e3o de dados emp\u00edricos comprovando o crescimento da popula\u00e7\u00e3o idosa (acima dos 60 anos) transformou-se numa arma fundamental para dobrar os movimentos sociais resistentes \u00e0s contrarreformas indispens\u00e1veis ao novo padr\u00e3o da acumula\u00e7\u00e3o flex\u00edvel.<\/p>\n<p>A proje\u00e7\u00e3o conjectural de crescimento das taxas de envelhecimento da popula\u00e7\u00e3o nas pr\u00f3ximas quatro d\u00e9cadas, passando da proje\u00e7\u00e3o de 20 milh\u00f5es (2010) para 50 milh\u00f5es (2050), consiste numa uma afirma\u00e7\u00e3o neomalthusiana com o prop\u00f3sito espec\u00edfico de mudar as regras da previd\u00eancia social. O problema \u00e9 que o reconhecimento das proje\u00e7\u00f5es equivocadas, pelos ide\u00f3logos do sistema do capital, n\u00e3o ser\u00e1 seguido de medidas reparadoras, pelo contr\u00e1rio, ele ser\u00e1 reiterado por novas abordagens apressadas da conting\u00eancia hist\u00f3rica para se apropriar ainda mais da mais-valia oper\u00e1ria. A argumenta\u00e7\u00e3o do crescimento da popula\u00e7\u00e3o idosa tem semelhan\u00e7a com a est\u00fapida discuss\u00e3o em torno da quadratura do c\u00edrculo, em que o c\u00edrculo n\u00e3o pode sair dos limites estabelecidos.<\/p>\n<p>Parece claro que medidas corretivas s\u00e3o incapazes de alterar substancialmente o edif\u00edcio estrutural do sistema do capital, j\u00e1 que somente num contexto de mudan\u00e7as estruturais \u00e9 poss\u00edvel garantir o prolongamento do tempo de vida da popula\u00e7\u00e3o. As tonalidades cinzentas dos discursos catacl\u00edsmicos dos ide\u00f3logos do capital acerca do crescimento da popula\u00e7\u00e3o, nas variantes antigas e modernas, apresentam-se como urgentes e inadi\u00e1veis exatamente porque n\u00e3o passam de afirma\u00e7\u00f5es dogm\u00e1ticas carentes de substancialidade e articula\u00e7\u00e3o efetiva com o desenvolvimento din\u00e2mico da totalidade social. No caso brasileiro, o que realmente importa \u00e9 que o discurso pseudocient\u00edfico do crescimento demogr\u00e1fico exer\u00e7a imprescind\u00edvel papel no processo de efetiva\u00e7\u00e3o das contrarreformas no sistema da previd\u00eancia social e neutralize consistentemente o potencial de resist\u00eancia da classe trabalhadora.<\/p>\n<p>\u00c9 mister considerar que o discurso do envelhecimento populacional cumpriu papel nodal para a efetiva\u00e7\u00e3o tanto da contrarreforma encetada pelo Governo FHC (1998) quanto da contrarreforma promovida pelo Governo Lula (2003). Essas contrarreformas encontraram seu coroamento na aprova\u00e7\u00e3o da Funpresp (Funda\u00e7\u00e3o de Previd\u00eancia Complementar do Servidor P\u00fablico Federal), que acabou com a aposentadoria integral dos servidores p\u00fablicos e estabeleceu o teto do INSS para os referidos trabalhadores. Com isso se repassa para o setor privado o direito de controle duma parte substancial da riqueza produzida pelos trabalhadores, de forma que a seguridade social deixa de constituir-se como direito para assumir declarado car\u00e1ter de investimento financeiro e mercadol\u00f3gico.<\/p>\n<p>No prazo de oito meses (agosto de 2003), o governo Lula conseguiu aprovar a segunda reforma da previd\u00eancia, com a qual se extinguiu o direito dos servidores p\u00fablicos \u00e0 aposentadoria integral, a paridade entre os reajustes dos servidores ativos e inativos, estabelecendo-se o teto para o valor dos benef\u00edcios aos servidores (novos ingressantes) equivalente ao do RGPS (Regime Geral da Previd\u00eancia Social), a taxa\u00e7\u00e3o dos servidores inativos e dos pensionistas etc. Assim, os aposentados passaram a ter seus sal\u00e1rios reduzidos numa etapa da vida em que mais careciam de recursos financeiros para cuidar de sua sa\u00fade.<\/p>\n<p>\u00c9 importante destacar que qualquer perspectiva de crescimento da popula\u00e7\u00e3o idosa n\u00e3o pode desconsiderar o crescimento substancial da mis\u00e9ria e da pobreza, que ultrapassam os \u00edndices de 2,4 bilh\u00f5es de pessoas no mundo, ou seja, assolam um ter\u00e7o da humanidade. Os c\u00ednicos ide\u00f3logos do capital precisam esclarecer a paradoxal combina\u00e7\u00e3o de longevidade da vida com desemprego e baixos sal\u00e1rios, pois o desenvolvimento da sociedade capitalista revela exatamente o contr\u00e1rio, isto \u00e9, que existe uma rela\u00e7\u00e3o intr\u00ednseca entre acumula\u00e7\u00e3o de riqueza e acumula\u00e7\u00e3o de pobreza, acumula\u00e7\u00e3o de capital e expropria\u00e7\u00e3o do tempo de trabalho dos trabalhadores, pobreza e encurtamento da vida. Torna-se dif\u00edcil acreditar nas perspectivas otimistas de longevidade das pessoas, quando se aprofundam os problemas estruturais e s\u00e3o alteradas as regras da aposentadoria, para que assim os trabalhadores se vejam condenados a morrer trabalhando e os capitalistas transformem o sistema previdenci\u00e1rio numa fonte inesgot\u00e1vel de lucro.<\/p>\n<p>Os dados apresentados servem para apontar o desafio que \u00e9 posto \u00e0 classe trabalhadora no campo do crescimento demogr\u00e1fico. Essa luta deve ser operada em duas frentes. A primeira, contra a ideologia da manipula\u00e7\u00e3o dos dados acerca do crescimento da popula\u00e7\u00e3o idosa, em que as contrarreformas na previd\u00eancia social s\u00e3o seguidas de interpreta\u00e7\u00f5es subliminares que concebem os velhos como amea\u00e7a permanente ao sistema produtivo e n\u00e3o como seres humanos que precisam de cuidados ap\u00f3s dedica\u00e7\u00e3o exclusiva ao trabalho assalariado. Segundo, que al\u00e9m de querer prolongar o tempo da aposentadoria e penalizar os idosos, o sistema retira dos jovens a possibilidade de trabalho e vida decente, abreviando seu tempo de exist\u00eancia mediante pr\u00e1ticas coercitivas e violentas.<\/p>\n<p>Parece evidente que uma an\u00e1lise s\u00e9ria sobre as taxas de crescimento da popula\u00e7\u00e3o idosa deve ressaltar o genoc\u00eddio de jovens que acontece no pa\u00eds, bem como que as absurdas perspectivas de crescimento populacional h\u00e3o de ser seguidas tamb\u00e9m de absurdas taxas de crescimento nas taxas sociais de homic\u00eddios na popula\u00e7\u00e3o jovem (al\u00e9m do aumento da popula\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria), certamente bem acima das taxas de crescimento populacional. No presente momento, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel separar o crescimento das taxas de uma gera\u00e7\u00e3o sem considerar as causas da queda de crescimento da outra gera\u00e7\u00e3o, uma vez que elas est\u00e3o conectadas. O crescimento da taxa da popula\u00e7\u00e3o idosa deve considerar, de um lado, o genoc\u00eddio dos jovens, e do outro, a crise social que acomete a popula\u00e7\u00e3o idosa e que certamente ir\u00e1 se aprofundar com as contrarreformas da previd\u00eancia social, j\u00e1 que elas tornam mais dif\u00edcil a vida dos trabalhadores acima dos 60 anos. Finalmente, \u00e9 preciso esclarecer os subterf\u00fagios das classes dominantes e apresentar respostas que superem as idiossincrasias ideol\u00f3gicas que exprimem a necessidade de contrarreformas, de um lado, e a necessidade de mais investimento na seguran\u00e7a p\u00fablica, do outro. Faz-se necess\u00e1rio reconhecer que todas as mudan\u00e7as apresentadas pela burguesia e pelo Estado burgu\u00eas n\u00e3o passam de manobras para perpetuar t\u00e3o somente o tempo de exist\u00eancia do capital em contraposi\u00e7\u00e3o \u00e0 exist\u00eancia efetiva dos seres humanos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vers\u00e3o em PDF do Encarte Alagoas: &nbsp; Ou leia as mat\u00e9rias online: Capitalismo e viol\u00eancia A crise ambiental \u00e9, na<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":1976,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[25,6],"tags":[99],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1983"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1983"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1983\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6499,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1983\/revisions\/6499"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1976"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1983"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1983"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1983"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}