{"id":2026,"date":"2013-06-20T18:11:24","date_gmt":"2013-06-20T21:11:24","guid":{"rendered":"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/?p=2026"},"modified":"2018-05-01T00:53:37","modified_gmt":"2018-05-01T03:53:37","slug":"rebeliao-popular-na-turquia-reafirma-continuidade-da-nova-situacao-mundial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/2013\/06\/rebeliao-popular-na-turquia-reafirma-continuidade-da-nova-situacao-mundial\/","title":{"rendered":"Rebeli\u00e3o popular na Turquia reafirma continuidade da nova situa\u00e7\u00e3o mundial"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/2013\/06\/rebeliao-popular-na-turquia-reafirma-continuidade-da-nova-situacao-mundial\/turquia\/\" rel=\"attachment wp-att-2027\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\" wp-image-2027 alignleft\" src=\"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/turquia.jpg\" alt=\"turquia\" width=\"378\" height=\"212\" srcset=\"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/turquia.jpg 630w, https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/turquia-300x168.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 378px) 100vw, 378px\" \/><\/a>No dia 31 de maio a pol\u00edcia de Istambul, cidade localizada na parte europ\u00e9ia da Turquia, realizou uma violenta opera\u00e7\u00e3o de desocupa\u00e7\u00e3o no parque Gezi, situado na regi\u00e3o da hist\u00f3rica pra\u00e7a Taksim, no centro da cidade. A pol\u00edcia expulsou manifestantes que protestavam contra a derrubada do parque para constru\u00e7\u00e3o de uma mesquita e de um shopping center. Nos dias seguintes, o parque foi ocupado novamente por uma manifesta\u00e7\u00e3o muito maior e uma onda de protestos se espalhou por toda a Turquia. Dezenas de millhares de pessoas foram \u00e0s ruas nas principais cidades, inclusive a capital Ankara. Os manifestantes avan\u00e7aram de uma simples quest\u00e3o urbanistica, a manuten\u00e7ao do parque, para a reivindica\u00e7\u00e3o da mudan\u00e7a do governo, pedindo a ren\u00fancia do primeiro ministro Recep Tayip Erdogan.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Istambul \u00e9 uma das maiores cidades da Europa, com cerca de 15 milhoes de habitantes, e tamb\u00e9m uma das mais antigas, portadora de cultura e hist\u00f3ria riqu\u00edssima e multimilenar, j\u00e1 tendo sido capital dos Imp\u00e9rios Bizantino e Otomano. A pra\u00e7a Taksim cont\u00e9m monumentos a Mustafa Kemal Ataturk, lider nacionalista que fundou a Turquia moderna ap\u00f3s a queda do Imp\u00e9rio Otomano, numa revolu\u00e7\u00e3o que se concluiu em 1923. O simbolismo dos acontecimentos \u00e9 evidente, pois uma das bandeiras de Ataturk contra o antigo governo Otomano foi justamente o Estado laico, enquanto que uma das principais politicas do atual primeiro ministro Erdogan \u00e9 a islamiza\u00e7\u00e3o. Sem alterar formalmente o car\u00e1ter laico do Estado, Erdogan introduziu elementos da religi\u00e3o isl\u00e2mica na legisla\u00e7\u00e3o, como a restri\u00e7\u00e3o do consumo de bebidas alc\u00f3olicas, a reafirma\u00e7\u00e3o da proibi\u00e7\u00e3o do aborto e do div\u00f3rcio, a multiplica\u00e7\u00e3o de mesquitas em detrimento de escolas laicas, etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os protestos de 2013 repudiam explicitamente a islamiza\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m a pol\u00edtica neoliberal de Erdogan e seu Partido da Justi\u00e7a e Desenvolvimento (AKP na sigla em turco). Juntamente com uma mesquita, estava sendo prevista a constru\u00e7\u00e3o de um shopping center na \u00e1rea hoje ocupada pelo parque Gezi. H\u00e1 d\u00e9cadas os dirigentes buscam integrar o pa\u00eds na Uni\u00e3o Europ\u00e9ia e para isso o governo de Erdogan se aplicava na realiza\u00e7\u00e3o de reformas, ou seja, ataques aos trabalhadores, retirando direitos para atrair ind\u00fastrias ao pa\u00eds e transformar a Turquia numa plataforma de exporta\u00e7\u00f5es. Gra\u00e7as a essa pol\u00edtica, o PIB cresceu aceleradamente desde 2001, chegando a picos de 8% em 2010 e 2011, em plena crise mundial (dados de mat\u00e9ria da AFP, 11\/06\/2013). A Turquia \u00e9 listada entre os grandes pa\u00edses emergentes (como Brasil, China e outros), fazendo parte do G20. A popula\u00e7\u00e3o do pa\u00eds \u00e9 de 75 milh\u00f5es de habitantes, segundo o site do instituto de estat\u00edstica governamental (http:\/\/www.turkstat.gov.tr\/PreTablo.do?alt_id=39). A taxa de desemprego oficial \u00e9 de 10,5% da popula\u00e7\u00e3o economicamente ativa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O \u201csucesso\u201d da economia turca deu ao AKP a for\u00e7a pol\u00edtica para minar o poder do Ex\u00e9rcito, autor de golpes de Estado em 1960, 1971, 1980 e 1997, destinados a preservar a heran\u00e7a do velho nacionalismo turco (kemalismo). Oficiais kemalistas foram afastados, o Ex\u00e9rcito perdeu influ\u00eancia pol\u00edtica e a amea\u00e7a dos golpes foi descartada. O AKP estava agora em busca do atestado de efici\u00eancia econ\u00f4mica (neoliberal) para garantir o ingresso na Uni\u00e3o Europ\u00e9ia. Mas, no meio do caminho havia um parque&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As manifesta\u00e7\u00f5es contra a reforma do parque Gezi persistiram durante semanas, em mais de 70 cidades do pa\u00eds, apesar da violenta repress\u00e3o policial. Bombas de g\u00e1s, canh\u00f5es d&#8217;\u00e1gua e balas de borracha mediram for\u00e7a contra pedras e coquet\u00e9is molotov. Depois de verdadeiras batalhas entre a pol\u00edcia e manifestantes, o parque Gezi acabou desocupado no dia 11 de junho. Registraram-se at\u00e9 o momento 3 mortes, mais de 5000 feridos e 3000 presos, e o centro de Istambul foi transformado em pra\u00e7a de guerra. O primeiro ministro reagiu de maneira extremamente arrogante durante todo o processo, recusando-se a negociar e admitir que seu governo pudesse ser contestado, com o argumento, t\u00edpico da democracia representativa, de que havia vencido as \u00faltimas tr\u00eas elei\u00e7\u00f5es. Mesmo com a repress\u00e3o e as amea\u00e7as, as manifesta\u00e7\u00f5es continuaram, sendo convocadas por uma frente improvisada que reuniu desde partidos da oposi\u00e7\u00e3o burguesa at\u00e9 organiza\u00e7\u00f5es da extrema esquerda, grupos ambientalistas, centrais sindicais, grupos estudantis, entidades culturais, etc., mobilizando amplas camadas da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A repercuss\u00e3o extremamente negativa da repress\u00e3o policial e a continuidade dos protestos levaram o governo a anunciar na quinta-feira dia 13 a possibilidade de realizar um referendo para decidir sobre a reforma do parque Gezi, na esperan\u00e7a de desmobilizar a popula\u00e7\u00e3o. Com isso, o governo estaria entregando os an\u00e9is para n\u00e3o perder os dedos. A defesa do parque contra os projetos da especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria, por mais que seja importante, reduziu-se a uma quest\u00e3o simb\u00f3lica, pois o que estava no fundo das manifesta\u00e7\u00f5es era uma ampla e generalizada insatisfa\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o contra os rumos do pa\u00eds. Era isso que o governo Erdogan n\u00e3o podia admitir. A not\u00edcia do referendo levou a uma desmobiliza\u00e7\u00e3o apenas parcial dos setores que convocavam as manifesta\u00e7\u00f5es. Os protestos continuaram na semana seguinte, e qualquer que seja o desfecho, os movimentos sociais saem desse embate com a confian\u00e7a revigorada e a certeza de que podem enfrentar o governo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse renascimento da for\u00e7a dos movimentos sociais levou imediatamente a uma compara\u00e7\u00e3o com as lutas da Primavera Arabe contra as ditaduras e com as lutas dos pa\u00edses mediterr\u00e2neos como Grecia e Espanha contra as medidas de austeridade da &#8220;Troika&#8221; (Uni\u00e3o Europ\u00e9ia, Banco Central Europeu e FMI). As compara\u00e7\u00f5es s\u00e3o at\u00e9 certo ponto justificadas, pois a Turquia est\u00e1 exatamente a meio caminho entre a Europa e o Oriente M\u00e9dio e compartilha as tens\u00f5es desses dois mundos. Apesar de ser uma estrela entre os ditos emergentes, a Turquia partilha os problemas de todos os pa\u00edses perif\u00e9ricos, em que o pre\u00e7o a ser pago pelo crescimento econ\u00f4mico \u00e9 o aumento do autoritarismo e da repress\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A repress\u00e3o nos locais de trabalho, o autoritarismo das chefias, o ass\u00e9dio moral, a intensifica\u00e7\u00e3o do trabalho e da explora\u00e7\u00e3o, necess\u00e1rios para a sobreviv\u00eancia do capitalismo em momento de crise, s\u00e3o paralelos ao crescimento do conservadorismo e do autoritarismo em geral na sociedade. O crescimento das pol\u00edticas islamizantes na Turquia pode ser comparado com o das seitas evang\u00e9licas no Brasil. Ao mesmo tempo, o partido AKP de Erdogan servia como modelo para os partidos religiosos que herdaram o poder ap\u00f3s a Primavera \u00c1rabe em pa\u00edses como Egito e Tun\u00edsia, com seu conservadorismo discreto, seus ternos de executivo ao inv\u00e9s dos turbantes, diferente da ret\u00f3rica inflamada de fundamentalistas tradicionais, como os aiatol\u00e1s radioativos do Ir\u00e3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com as revoltas populares de 2013, o \u201cmodelo turco\u201d de moderniza\u00e7\u00e3o mostra que tamb\u00e9m tem p\u00e9s de barro. A onda de protestos na Turquia surpreendeu n\u00e3o apenas o arrogante Erdogan, mas o mundo inteiro. Al\u00e9m de candidato a ingressar na Uni\u00e3o Europ\u00e9ia, a Turquia \u00e9 tamb\u00e9m aliado tradicional dos Estados Unidos desde a Guerra Fria. H\u00e1 d\u00e9cadas o governo pratica uma sangrenta repress\u00e3o contra a minoria kurda, que aspira por autodetermina\u00e7\u00e3o (heran\u00e7a do nacionalismo turco, que j\u00e1 produziu o genoc\u00eddio dos arm\u00eanios entre 1915 e 1917). Considerada uma fortaleza de estabilidade, o pa\u00eds seria tamb\u00e9m a base para a interven\u00e7\u00e3o imperialista na vizinha S\u00edria, em situa\u00e7\u00e3o de guerra civil h\u00e1 dois anos. Todas essas pol\u00edticas pr\u00f3-Uni\u00e3o Europ\u00e9ia e Estados Unidos, amplamente impopulares, est\u00e3o sendo tamb\u00e9m desafiadas nas manifesta\u00e7\u00f5es. Ou seja, os maifestantes de 2013 repudiam n\u00e3o apenas a islamiza\u00e7\u00e3o de Erdogan, mas tamb\u00e9m a velha heran\u00e7a nacionalista de seus antigos advers\u00e1rios, os militares kemalistas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse exemplo recente vindo da Turquia mostra uma das caracter\u00edsticas da nova situa\u00e7\u00e3o mundial inaugurada em 2011 justamente pela Primavera \u00c1rabe e os novos movimentos de protesto como Indignados e Ocupar, que \u00e9 a impressionante continuidade dos protestos, a sua persist\u00eancia ano ap\u00f3s ano, pa\u00eds ap\u00f3s pa\u00eds, uma surpresa ap\u00f3s a outra (o que logo mais n\u00e3o ser\u00e1 t\u00e3o surpreendente assim&#8230;), e a retomada do internacionalismo sob uma nova roupagem, com os movimentos de um pa\u00eds influenciando diretamente os outros, sejam vizinhos ou n\u00e3o. A rebeli\u00e3o da juventude \u00e1rabe, europ\u00e9ia e agora turca, que envolveu tamb\u00e9m setores da classe trabalhadora, d\u00e1 sinais de que n\u00e3o vai se esgotar. Ao contr\u00e1rio, se transforma pouco a pouco numa s\u00f3 rebeli\u00e3o mundial. Nos protestos contra o aumento da passagem em S\u00e3o Paulo e outras cidades brasileiras, os manifestantes gritavam: \u201cIsso aqui vai virar uma Turquia!\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto travamos nossas lutas aqui no Brasil, declaramos nossa solidariedade \u00e0 juventude, aos explorados e oprimidos na Turquia. Entendemos que o referendo sobre o parque Gezi n\u00e3o passa de uma manobra do governo para conter as manifesta\u00e7\u00f5es. A luta deve continuar por todas as reivindica\u00e7\u00f5es! Abaixo a repress\u00e3o policial! Pelo direito de luta e de manifesta\u00e7\u00e3o! Defendemos as lutas na Turquia, mas entendemos tamb\u00e9m que as reivindica\u00e7\u00f5es n\u00e3o poder\u00e3o ser atendidas pelo atual Estado, comprometido com os interesses do capital e o projeto da Uni\u00e3o Europ\u00e9ia. Por isso, defendemos a derrubada do governo por uma revolu\u00e7\u00e3o socialista e a forma\u00e7\u00e3o de um novo tipo de poder, constru\u00eddo pelos trabalhadores, pelos jovens e oprimidos, baseado em suas organiza\u00e7\u00f5es de luta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Viva a luta dos trabalhadores de todo o mundo! Viva o socialismo!<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Espa\u00e7o Socialista, Junho de 2013<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No dia 31 de maio a pol\u00edcia de Istambul, cidade localizada na parte europ\u00e9ia da Turquia, realizou uma violenta opera\u00e7\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":2027,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":true,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3,64,57,62],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2026"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2026"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2026\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5543,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2026\/revisions\/5543"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2027"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2026"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2026"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2026"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}