{"id":208,"date":"2010-04-25T21:50:20","date_gmt":"2010-04-26T00:50:20","guid":{"rendered":"http:\/\/espacosocialista.org\/?q=node\/208"},"modified":"2013-02-01T19:27:07","modified_gmt":"2013-02-01T21:27:07","slug":"resolucoes-sobre-situacao-internacional-2009","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/2010\/04\/resolucoes-sobre-situacao-internacional-2009\/","title":{"rendered":"Resolu\u00e7\u00f5es sobre situa\u00e7\u00e3o internacional &#8211; 2009"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>APRESENTA\u00c7\u00c3O<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0 \u00a0Este documento foi utilizado como subs\u00eddio para a discuss\u00e3o sobre o ponto de Situa\u00e7\u00e3o Internacional na Confer\u00eancia do Espa\u00e7o Socialista de 2009. Diferentemente das Resolu\u00e7\u00f5es, que s\u00e3o de responsabilidade do conjunto da organiza\u00e7\u00e3o, este documento \u00e9 agora publicado como contribui\u00e7\u00e3o ao debate assinada pelos companheiros encarregados da sua reda\u00e7\u00e3o.<br \/>\nO documento foi escrito entre os meses de fevereiro e abril de 2009. Naquele per\u00edodo os sintomas da crise econ\u00f4mica internacional estavam em plena manifesta\u00e7\u00e3o. Ao concluir a pesquisa e a s\u00edntese dos materiais para a elabora\u00e7\u00e3o do documento, os autores se depararam com a necessidade de desenvolver uma carateriza\u00e7\u00e3o mais aprofundada do fen\u00f4meno da crise. A partir da percep\u00e7\u00e3o de que se tratava de uma crise mais s\u00e9ria do que uma simples crise econ\u00f4mica, tornou-se necess\u00e1rio abordar no documento as demais dimens\u00f5es dessa crise.<br \/>\nMais do que uma simples discuss\u00e3o sobre a conjuntura, o documento ganhou desse modo o aspecto de uma explica\u00e7\u00e3o mais geral sobre a crise, que busca localiz\u00e1-la no contexto da crise estrutural do capital das \u00faltimas d\u00e9cadas e tamb\u00e9m explorar as diversas dimens\u00f5es afetadas pelos seus desdobramentos (ambiental, energ\u00e9tica, alimentar, cultural, etc.). A \u201cvalidade\u201d temporal do documento se estende assim para al\u00e9m do intervalo de tempo normalmente coberto por uma Confer\u00eancia regular. As conclus\u00f5es aqui apresentadas se arriscam a delinear tend\u00eancias (e contratend\u00eancias) que estar\u00e3o em desenvolvimento ainda por v\u00e1rios anos.<br \/>\nO texto que se segue \u00e9 apenas o resumo de uma monumental pesquisa e de um colossal volume de material de leitura. A an\u00e1lise desses materiais na verdade est\u00e1 ainda em andamento, juntamente com os novos dados que viemos acumulando desde ent\u00e3o, pois o pr\u00f3prio processo de discuss\u00f5es na Confer\u00eancia, a vota\u00e7\u00e3o das Resolu\u00e7\u00f5es sobre o ponto em quest\u00e3o e os demais desenvolvimentos da atividade pol\u00edtica da organiza\u00e7\u00e3o sobre as quest\u00f5es internacionais introduziram precis\u00f5es e nuances a respeito de uma s\u00e9rie de aspectos da realidade. Apesar das medidas tomadas pelo Estado e pela burguesia para administrar a crise (j\u00e1 detectadas e referidas no documento) come\u00e7arem a surtir efeito justamente a partir dos meses em que o estudo foi conclu\u00eddo, criando a ilus\u00e3o de que a crise foi resolvida, os autores mant\u00e9m as conclus\u00f5es principais do documento no sentido de que estamos diante de uma verdadeira crise societal.<br \/>\nEstamos no ano 1 da crise. Navegamos em \u00e1guas desconhecidas. Nunca uma crise de tamanhas propor\u00e7\u00f5es afetou simultaneamente tantos pa\u00edses e tantos aspectos da vida social. A aparente calmaria do momento atual, o aparente sucesso da burguesia na sua tentativa de administrar a crise via medidas do Estado nos \u00faltimos meses, n\u00e3o podem nos iludir quanto \u00e0 gravidade do fen\u00f4meno, \u00e0 profundidade dos problemas e \u00e0 seriedade dos desafios que est\u00e3o colocados para a classe trabalhadora. Devemos responder com ousadia a esses desafios e ter a coragem de olhar, para al\u00e9m do plano da apar\u00eancia imediata, o movimento das contradi\u00e7\u00f5es que revelam a ess\u00eancia da nossa \u00e9poca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0\u00a0 \u00a0O CAR\u00c1TER DA CRISE<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nO fato central da realidade mundial atual \u00e9 a vig\u00eancia de uma crise econ\u00f4mica mais grave do que uma simples invers\u00e3o de fase do ciclo econ\u00f4mico peri\u00f3dico ordin\u00e1rio.. Trata-se de uma crise mais s\u00e9ria, que pode inclusive se transformar em uma depress\u00e3o global t\u00e3o catastr\u00f3fica quanto a que se iniciou em 1929.<br \/>\nA crise n\u00e3o se resume \u00e0 sua dimens\u00e3o puramente econ\u00f4mica, pois perpassa v\u00e1rios n\u00edveis da realidade e entrela\u00e7a fen\u00f4menos econ\u00f4micos, sociais, pol\u00edticos e culturais de longa dura\u00e7\u00e3o.. Num mesmo processo est\u00e3o contidos: 1\u00ba) a crise econ\u00f4mica estrutural, 2\u00ba) o esgotamento do padr\u00e3o de acumula\u00e7\u00e3o, 3\u00ba) a crise do modelo neoliberal, 4\u00ba) o esgotamento do \u00faltimo ciclo peri\u00f3dico, 5\u00ba) a crise pol\u00edtico-ideol\u00f3gica da utopia burguesa do \u201cfim da hist\u00f3ria\u201d, 6\u00ba) a crise pol\u00edtico-administrativa da forma Estado enquanto inst\u00e2ncia de controle social, 7\u00ba) a crise ambiental, 8\u00ba) a crise energ\u00e9tica, 9\u00ba) a crise alimentar.<br \/>\nTodos esses aspectos dialeticamente articulados convergem para uma crise civilizacional do capitalismo como alternativa societ\u00e1ria para a humanidade. A crise atual \u00e9 uma crise que afeta a totalidade do modo de vida.<br \/>\nParalelamente \u00e0 crise do capitalismo, vivemos tamb\u00e9m uma crise da alternativa socialista. O projeto socialista est\u00e1 ausente da consci\u00eancia da classe trabalhadora. O proletariado mundial, sujeito social da transforma\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, est\u00e1 desprovido de um projeto societ\u00e1rio alternativo ao capitalismo que possa ser apresentado como alternativa positiva imediata em face do processo em curso de decomposi\u00e7\u00e3o acelerada da ordem estabelecida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0CRISE ESTRUTURAL<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0 \u00a0A crise estrutural do capital corresponde ao esgotamento dos mecanismos de deslocamento das contradi\u00e7\u00f5es do capitalismo a partir da d\u00e9cada de 1970. No per\u00edodo imediatamente precedente, tais contradi\u00e7\u00f5es eram deslocadas por formas de produ\u00e7\u00e3o destrutiva (gastos militares do Estado, consumo de bens de luxo pela burguesia, etc.) e pol\u00edticas de bem-estar social capazes de dar vaz\u00e3o \u00e0 gigantesca acumula\u00e7\u00e3o de capital ocorrida nas d\u00e9cadas de 1940, 50 e 60 com a reconstru\u00e7\u00e3o da Europa e do Jap\u00e3o e a industrializa\u00e7\u00e3o da periferia. Tais pol\u00edticas eram denominadas keynesianismo no centro e nacional-desenvolvimentismo nos pa\u00edses perif\u00e9ricos.<br \/>\nA partir de 1970 a tend\u00eancia \u00e0 queda da taxa de lucro, assim como as crises de superprodu\u00e7\u00e3o voltam a se manifestar com for\u00e7a total. Os mecanismos de deslocamento chegam ao seu limite e come\u00e7am a perder efic\u00e1cia, for\u00e7ando o capitalismo a modificar o padr\u00e3o de acumula\u00e7\u00e3o anteriormente vigente. O novo padr\u00e3o de acumula\u00e7\u00e3o aprofunda tend\u00eancias herdadas do per\u00edodo anterior e desenvolve uma s\u00e9rie de novas caracter\u00edsticas.<br \/>\nOs Estados Unidos, que emergiram no p\u00f3s-II Guerra como principal economia do mundo e a \u00fanica capaz de liderar a reconstitui\u00e7\u00e3o do bloco capitalista, no contexto da disputa geopol\u00edtica contra a alternativa representada pela URSS, desempenharam essa tarefa financiando a reconstru\u00e7\u00e3o da Europa, do Jap\u00e3o e a industrializa\u00e7\u00e3o da periferia (instala\u00e7\u00e3o de plantas industriais controladas pelas transnacionais, processo que se iniciou nas d\u00e9cadas de 1950 a 70 em pa\u00edses como Brasil e Cor\u00e9ia do Sul).<br \/>\nA partir da d\u00e9cada de 1970, esse processo de recupera\u00e7\u00e3o coordenada foi interrompido pelo retorno das crises c\u00edclicas de superprodu\u00e7\u00e3o de car\u00e1ter mais agudo, que se manifestaram por exemplo em fen\u00f4menos como o d\u00e9ficit comercial dos EUA para com a Europa. Os EUA reagiram ao retorno das crises agudas nas \u00faltimas d\u00e9cadas por meio de medidas unilaterais como: quebra do padr\u00e3o d\u00f3lar-ouro, alta dos juros, \u201cconsenso de Washington\u201d, desregulamenta\u00e7\u00e3o financeira, guerra ao terror.<br \/>\nNo contexto dessas pol\u00edticas unilaterais, aprofundam-se fen\u00f4menos como: a globaliza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o, que completa a industrializa\u00e7\u00e3o da periferia mundial com a recente incorpora\u00e7\u00e3o da China e da \u00cdndia; a forma\u00e7\u00e3o de um mercado mundial de for\u00e7a de trabalho e de um ex\u00e9rcito industrial de reserva mundial (processos acompanhados de reestrutura\u00e7\u00f5es produtivas que rebaixam os sal\u00e1rios, precarizam as condi\u00e7\u00f5es de trabalho, dividem a classe trabalhadora, etc.); o crescimento em tamanho e poder das corpora\u00e7\u00f5es transnacionais.<br \/>\nDesenvolve-se tamb\u00e9m uma III Revolu\u00e7\u00e3o Industrial, que se manifesta na incorpora\u00e7\u00e3o maci\u00e7a da tecnologia \u00e0 produ\u00e7\u00e3o, na forma da rob\u00f3tica, microeletr\u00f4nica, inform\u00e1tica, telecomunica\u00e7\u00f5es, internet, biotecnologia, etc. A revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica multiplica a produtividade (ou seja, a taxa de explora\u00e7\u00e3o dos trabalhadores) e produz tamb\u00e9m o desemprego tecnol\u00f3gico estrutural.<br \/>\nPara contornar as dificuldades de realiza\u00e7\u00e3o do capital nas circunst\u00e2ncias restritivas da crise estrutural, a burguesia apela para a cria\u00e7\u00e3o de diversas formas de capital fict\u00edcio, ou seja, desenvolve processos de especula\u00e7\u00e3o nos mercados financeiros que negociam valores nominais v\u00e1rias vezes maiores que o total da produ\u00e7\u00e3o mundial real. Esse processo de crescimento do capital fict\u00edcio vem acompanhado do endividamento do Estado, das empresas e dos consumidores, j\u00e1 que inclusive os t\u00edtulos de d\u00edvida se convertem em \u201cativos\u201d negociados nos mercados financeiros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0<strong> \u00a0HEGEMONIA NEOLIBERAL<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0 \u00a0Esse padr\u00e3o de acumula\u00e7\u00e3o peculiar ao per\u00edodo p\u00f3s-1970 adquire express\u00e3o te\u00f3rica e pol\u00edtica no neoliberalismo. O neoliberalismo interpreta o retorno das crises peri\u00f3dicas agudas nas d\u00e9cadas de 1970 e 80 como demonstra\u00e7\u00e3o do fracasso das pol\u00edticas econ\u00f4micas keynesianas. A alternativa para combater as crises estaria na retirada do Estado da economia e na atua\u00e7\u00e3o plena do livre-mercado em todos os terrenos. Na realidade, por tr\u00e1s desse discurso de \u201cretirada do Estado da economia\u201d, se disfar\u00e7a uma opera\u00e7\u00e3o de seq\u00fcestro do Estado pelos setores mais rentistas e parasit\u00e1rios da burguesia mundial. A burguesia financeira usa o Estado como instrumento para um violento ataque contra a classe trabalhadora com o objetivo de potencializar a extra\u00e7\u00e3o de mais-valia.<br \/>\nDepois de conquistar a hegemonia pol\u00edtica nos pa\u00edses centrais na d\u00e9cada de 1980, esmagando a resist\u00eancia da classe trabalhadora no n\u00facleo do capitalismo, o neoliberalismo se volta para a periferia, atrav\u00e9s do chamado \u201cconsenso de Washington\u201d, que na verdade representa um ditado imperial do capitalismo estadunidense imposto aos pa\u00edses perif\u00e9ricos na d\u00e9cada de 1990. Desse ditado constam medidas como: privatiza\u00e7\u00f5es, retirada das prote\u00e7\u00f5es trabalhistas, sucateamento dos servi\u00e7os p\u00fablicos, saque dos fundos p\u00fablicos, saque dos recursos naturais, desregulamenta\u00e7\u00e3o das finan\u00e7as e liberaliza\u00e7\u00e3o da movimenta\u00e7\u00e3o do capital de modo geral.<br \/>\nO conjunto dessas medidas foi apresentado como a panac\u00e9ia universal para curar todos os males das economias enfraquecidas pelas crises dos anos 1970 e 80. Na realidade, o neoliberalismo somente contribuiu para aprofundar os problemas, agudizando as contradi\u00e7\u00f5es do capitalismo e precipitando crises ainda mais graves nas d\u00e9cadas de 1990 e 2000.<br \/>\nA aparente viabilidade do neoliberalismo n\u00e3o foi demonstrada por seus alegados m\u00e9ritos intr\u00ednsecos, mas pela conveniente desapari\u00e7\u00e3o do modelo que se lhe apresentava ent\u00e3o como alternativa, o da URSS e do leste europeu, que desmoronaram entre 1989-91. O fim do modelo vigente naqueles Estados foi maci\u00e7amente propagandeado como demonstra\u00e7\u00e3o do \u201cfim do socialismo\u201d e do \u201cfim da hist\u00f3ria\u201d, ou seja, vit\u00f3ria definitiva do capitalismo.<br \/>\nEssa propaganda foi usada como arma pol\u00edtica para desarticular a resist\u00eancia dos trabalhadores \u00e0s pol\u00edticas neoliberais. Desprovidos de uma alternativa hist\u00f3rica ao capitalismo, as organiza\u00e7\u00f5es da classe trabalhadora, como partidos e sindicatos, aceitaram o \u201clivre mercado\u201d como horizonte definitivo de organiza\u00e7\u00e3o da vida social, incorporando-se \u00e0 sua administra\u00e7\u00e3o e abrindo caminho para o ataque da burguesia contra as condi\u00e7\u00f5es de vida da classe.<br \/>\nEsse ataque prosseguiu pelas d\u00e9cadas de 1990 e 2000, nas quais a burguesia imp\u00f4s o desemprego estrutural, a retirada de direitos trabalhistas, a precariza\u00e7\u00e3o geral das condi\u00e7\u00f5es de trabalho, as terceiriza\u00e7\u00f5es e subcontrata\u00e7\u00f5es, o trabalho tempor\u00e1rio, informal, etc. Essas transforma\u00e7\u00f5es estruturais criaram dificuldades ainda maiores para a organiza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores enquanto classe, desarticulando os instrumentos de resist\u00eancia coletiva e empurrando os trabalhadores para a busca de solu\u00e7\u00f5es individuais para os seus problemas.<br \/>\nSomou-se a esse ataque diretamente pol\u00edtico a propaganda ideol\u00f3gica em torno do conceito de \u201cglobaliza\u00e7\u00e3o\u201d, vendido como um processo \u201cinevit\u00e1vel\u201d e supostamente ben\u00e9fico de forma\u00e7\u00e3o de uma \u201caldeia global\u201d na qual haveria a \u201clivre circula\u00e7\u00e3o\u201d de mercadorias, pessoas e id\u00e9ias, promovendo uma nova era de prosperidade ilimitada e \u201cao alcance de todos\u201d.<br \/>\nO verniz ideol\u00f3gico da globaliza\u00e7\u00e3o tenta apresentar como natural o processo social de aprofundamento do neoliberalismo, que corresponde a um per\u00edodo particular da hist\u00f3ria do capitalismo em crise estrutural. Os ataques contra a classe trabalhadora s\u00e3o parte da ofensiva geral da burguesa para se libertar de qualquer forma de regulamenta\u00e7\u00e3o estatal da atividade econ\u00f4mica, sejam trabalhistas, cont\u00e1beis, ambientais, de sa\u00fade p\u00fablica, etc., vistas como obst\u00e1culos para o lucro. A desregulamenta\u00e7\u00e3o geral acompanhou a liberaliza\u00e7\u00e3o financeira como uma das caracter\u00edsticas centrais da realidade econ\u00f4mica nas \u00faltimas duas d\u00e9cadas.<br \/>\nA desarticula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e ideol\u00f3gica dos trabalhadores e a aus\u00eancia da devida resist\u00eancia da classe oper\u00e1ria ao neoliberalismo propiciou \u00e0 burguesia a oportunidade de potencializar a extra\u00e7\u00e3o de mais-valia, tanto absoluta (extens\u00e3o da jornada) quanto relativa (aumento da produtividade), no novo cen\u00e1rio de um mercado mundial de for\u00e7a de trabalho em que os custos salarias e tamb\u00e9m indiretos (direitos, benef\u00edcios e prote\u00e7\u00f5es sociais) tendem a ser nivelados por baixo.<br \/>\nAl\u00e9m de servir para derrubar a resist\u00eancia pol\u00edtica dos trabalhadores nos pa\u00edses imperialistas e na periferia capitalista, a queda dos regimes do leste europeu serviu tamb\u00e9m para abrir terreno ao capital para a incorpora\u00e7\u00e3o de um novo e vasto territ\u00f3rio econ\u00f4mico no qual a burguesia havia sido expropriada. A m\u00e3o de obra barata e qualificada, os recursos naturais e as for\u00e7as produtivas da antiga URSS e dos seus sat\u00e9lites ficaram \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o do capital mundial para serem explorados em associa\u00e7\u00e3o com a nova burguesia que se formou nesses pa\u00edses composta pelas m\u00e1fias e pelos restos da antiga burocracia. A reconquista desses territ\u00f3rios foi tamb\u00e9m um fator importante para auxiliar na recupera\u00e7\u00e3o e na expans\u00e3o do capitalismo mundial na d\u00e9cada de 1990.\n<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<strong>A DIVIS\u00c3O INTERNACIONAL DO TRABALHO E OS FUNDAMENTOS DA ATUAL CRISE<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0 \u00a0A atual crise, no seu aspecto puramente econ\u00f4mico, apresenta uma tripla dimens\u00e3o de: 1\u00ba) esgotamento do padr\u00e3o de acumula\u00e7\u00e3o criado nos anos 1970; 2\u00ba) crise do modelo neoliberal iniciado na d\u00e9cada de 1980 no centro do sistema e generalizado para a periferia na d\u00e9cada de 1990; 3\u00ba) fechamento do \u00faltimo ciclo peri\u00f3dico de crescimento iniciado em 2002 e encerrado com a crise de 2008.<br \/>\nO \u00faltimo ciclo peri\u00f3dico carrega em si as contradi\u00e7\u00f5es que vinham se acumulando desde o in\u00edcio dos anos 1970 e que se agudizaram a partir da hegemonia neoliberal. A reconfigura\u00e7\u00e3o do sistema capitalista mundial impulsionada pelos Estados Unidos nas \u00faltimas quatro d\u00e9cadas teve como resultado a forma\u00e7\u00e3o de uma determinada forma de rela\u00e7\u00e3o entre as diversas economias nacionais que constituem o conjunto do sistema, uma forma espec\u00edfica de divis\u00e3o internacional do trabalho entre os pa\u00edses e continentes. \u00c9 essa forma espec\u00edfica que tamb\u00e9m entra em crise com o fechamento do atual ciclo.<br \/>\nO capitalismo est\u00e1 atualmente estruturado em torno da condi\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos de emissor da moeda de reserva mundial e simultaneamente maior mercado consumidor. Os Estados Unidos emitem a moeda com a qual pagam pela importa\u00e7\u00e3o de mercadorias cuja produ\u00e7\u00e3o impulsiona o crescimento do restante da economia mundial. Outros centros do capitalismo como Europa e Jap\u00e3o tamb\u00e9m possuem importantes mercados internos, mas o n\u00facleo din\u00e2mico de seu crescimento est\u00e1 nas exporta\u00e7\u00f5es para o mercado estadunidense. As exporta\u00e7\u00f5es para os Estados Unidos n\u00e3o s\u00e3o realizadas apenas diretamente, mas tamb\u00e9m em boa medida atrav\u00e9s da \u00c1sia, em especial da China, para onde se deslocaram grande parte das corpora\u00e7\u00f5es estadunidenses, europ\u00e9ias e japonesas que fazem a montagem industrial final dos produtos, aproveitando-se da m\u00e3o de obra barata. As mat\u00e9rias-primas que alimentam esse circuito produtivo prov\u00e9m da Am\u00e9rica Latina (min\u00e9rios e alimentos), do Oriente M\u00e9dio (petr\u00f3leo) e em menor medida da \u00c1frica, componentes perif\u00e9ricos do circuito.<br \/>\nA capacidade dos Estados Unidos de absorverem as exporta\u00e7\u00f5es mundiais depende da capacidade dos seus trabalhadores de se endividarem. Esse endividamento tem se aprofundado nas \u00faltimas d\u00e9cadas, com os trabalhadores assumindo d\u00edvidas muito maiores que a sua renda, culminando na atual crise do mercado imobili\u00e1rio. A crise do endividamento dos trabalhadores \u00e9 simultaneamente uma crise do mercado financeiro, cujo crescimento artificial nas \u00faltimas d\u00e9cadas estava baseado precisamente na hip\u00f3tese do crescimento infinito do endividamento dos trabalhadores e das empresas que lhes fornecem bens de consumo (como as montadoras de autom\u00f3veis estadunidenses severamente debilitadas).<br \/>\nO endividamento dos trabalhadores e das empresas, tanto produtivas quanto financeiras, \u00e9 em \u00faltima inst\u00e2ncia garantido pelo endividamento do pr\u00f3prio governo estadunidense. Para salvar os bancos e entidades financeiras atingidos pela atual crise o governo estadunidense teve que desembolsar trilh\u00f5es de d\u00f3lares em pacotes de salvamento. Na falta de uma receita fiscal suficiente para cobrir esses pacotes de salvamento, mesmo porque a pr\u00f3pria retra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica vai reduzir a arrecada\u00e7\u00e3o de impostos, o governo estadunidense ter\u00e1 que apelar para a emiss\u00e3o de t\u00edtulos do tesouro.<br \/>\nOs investidores que adquirem esses t\u00edtulos est\u00e3o na verdade emprestando ao governo estadunidense com base na confian\u00e7a de que o governo ter\u00e1 os d\u00f3lares para resgatar esses t\u00edtulos no seu prazo de vencimento.<br \/>\nDentre os investidores que det\u00e9m a maior parte dos t\u00edtulos do tesouro estadunidense est\u00e3o justamente os bancos centrais dos pa\u00edses que exportam para os Estados Unidos: China, Jap\u00e3o e tigres asi\u00e1ticos. Esses pa\u00edses recebem em d\u00f3lares pelos produtos que vendem aos Estados Unidos, e usam esses d\u00f3lares para comprar t\u00edtulos denominados em d\u00f3lar. Recebem d\u00f3lares no presente que usam para comprar t\u00edtulos que representam o direito sobre d\u00f3lares futuros.<br \/>\nIsso faz com que essas economias exportadoras dependam da continuidade do funcionamento do atual circuito de consumo-endividamento-especula\u00e7\u00e3o centralizado pelo mercado estadunidense. Essa continuidade est\u00e1 amea\u00e7ada pela eclos\u00e3o da atual crise.<\/p>\n<p><strong>ESGOTAMENTO DO CICLO PERI\u00d3DICO<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0 \u00a0O sistema capitalista \u00e9 uma unidade na qual se articulam os processos de produ\u00e7\u00e3o e circula\u00e7\u00e3o de mercadorias. O pr\u00f3prio desenvolvimento da produ\u00e7\u00e3o origina crises de superprodu\u00e7\u00e3o que s\u00e3o express\u00e3o das dificuldades crescentes da realiza\u00e7\u00e3o da mais-valia e do processo de reprodu\u00e7\u00e3o ampliada do capital como um todo. Para contornar estas dificuldades desenvolveram-se mecanismos de cr\u00e9dito e gera\u00e7\u00e3o de capital fict\u00edcio, que resultaram num aumento do endividamento. Esses mecanismos criam uma ilus\u00e3o de autonomia do capital financeiro com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 produ\u00e7\u00e3o (o que seria \u201ceconomia real\u201d) e uma falsa percep\u00e7\u00e3o de que as crises t\u00eam origem no mercado financeiro (\u201ceconomia virtual\u201d); quando na verdade trata-se da express\u00e3o das contradi\u00e7\u00f5es do funcionamento do capitalismo enquanto uma totalidade.<br \/>\nCada crise econ\u00f4mica \u00e9 provocada pelas pr\u00f3prias solu\u00e7\u00f5es que foram encontradas pela burguesia para contornar a crise anterior. A burguesia na realidade \u00e9 incapaz de solucionar as crises do capitalismo, pois isso equivaleria a dissolver o pr\u00f3prio modo de produ\u00e7\u00e3o e dissolver-se enquanto classe dominante.. As solu\u00e7\u00f5es burguesas para administrar as crises s\u00e3o sempre medidas parciais, que deslocam os problemas para frente e preparam a eclos\u00e3o de crises cada vez mais catastr\u00f3ficas no futuro. A atual crise tem origem nas solu\u00e7\u00f5es que foram encontradas pela burguesia estadunidense para administrar a crise precedente em 2000-2001.<br \/>\nEm 2000 aconteceu a quebra da NASDAQ, a bolsa de valores que negociava a\u00e7\u00f5es das empresas de alta tecnologia, quando se percebeu que essas empresas jamais seriam capazes de gerar um lucro capaz de compensar o valor pelo qual suas a\u00e7\u00f5es eram negociadas. Essa incapacidade era mais uma vez determinada pelo fen\u00f4meno cl\u00e1ssico da superprodu\u00e7\u00e3o, na medida em que havia uma superprodu\u00e7\u00e3o de bens de consumo dur\u00e1veis, em especial autom\u00f3veis, computadores e bens de consumo eletroeletr\u00f4nicos, resultado do deslocamento de boa parte da produ\u00e7\u00e3o de tais mercadorias para os pa\u00edses de m\u00e3o de obra barata como a China.<br \/>\nPara tentar recuperar a taxa de lucro, a burguesia estadunidense reagiu em duas frentes: 1\u00ba) lan\u00e7ando a \u201cguerra ao terror\u201d em resposta aos ataques de 11\/09\/2001; 2\u00ba) baixando drasticamente as taxas de juros, de modo a estimular os trabalhadores a continuar se endividando e consumindo.<br \/>\nA \u201cguerra ao terror\u201d serviria como est\u00edmulo para a economia de duas formas: a) garantindo o fornecimento de petr\u00f3leo barato dos pa\u00edses subjugados no Oriente M\u00e9dio; b) estimulando a produ\u00e7\u00e3o nos setores ligados ao complexo industrial-militar. O fato \u00e9 que nem a primeira hip\u00f3tese se verificou, pois a resist\u00eancia no Iraque e Afeganist\u00e3o for\u00e7ou as tropas de ocupa\u00e7\u00e3o a permanecer por muito mais tempo do que o planejado, encarecendo tremendamente o empreendimento, endividando o Estado e provocando o aumento dos pre\u00e7os do petr\u00f3leo; e nem as encomendas do Estado ao complexo industrial-militar foram suficientes para estimular a economia como um todo.<br \/>\nNa outra ponta, a queda da taxa de juros provocou uma explos\u00e3o do endividamento e da especula\u00e7\u00e3o. Os trabalhadores fizeram empr\u00e9stimos hipotecando suas casas como garantia. As empresas do mercado imobili\u00e1rio que fizeram as hipotecas venderam os t\u00edtulos que lhes davam direito ao recebimento desses empr\u00e9stimos como \u201cativos\u201d negoci\u00e1veis nos mercados financeiros. Os bancos de investimento compravam esses t\u00edtulos e os repassavam aos seus investidores, com a garantia das seguradoras contra o risco da inadimpl\u00eancia. Entre esses investidores estavam os mercados financeiros internacionais, os bancos e fundos de pens\u00e3o.<br \/>\nA possibilidade de se auferir altos lucros com empr\u00e9stimos baseados em im\u00f3veis transformava as casas em investimentos. A procura por t\u00edtulos lastreados em empr\u00e9stimos imobili\u00e1rios fez com que se valorizassem artificialmente os pre\u00e7os dos im\u00f3veis. A valoriza\u00e7\u00e3o dos im\u00f3veis gerou um \u201cboom\u201d do mercado imobili\u00e1rio e da constru\u00e7\u00e3o civil, que foi a base do crescimento econ\u00f4mico estadunidense no per\u00edodo de 2002-2007. As fam\u00edlias hipotecavam suas casas pela segunda ou terceira vez. Fam\u00edlias que n\u00e3o tinham condi\u00e7\u00f5es de adquirir im\u00f3veis recebiam empr\u00e9stimos facilitados para compr\u00e1-los.<br \/>\nEsse ciclo de crescimento chegou ao fim quando j\u00e1 n\u00e3o havia pessoas capazes de adquirir casas nem de hipotec\u00e1-las por uma segunda ou terceira vez (hipotecas \u201csubprime\u201d), ou seja, o fen\u00f4meno cl\u00e1ssico da superprodu\u00e7\u00e3o se manifestou na superprodu\u00e7\u00e3o de im\u00f3veis. Os trabalhadores come\u00e7aram a n\u00e3o poder pagar as presta\u00e7\u00f5es das hipotecas. A inadimpl\u00eancia provocou uma rea\u00e7\u00e3o em cadeia que come\u00e7ou com a fal\u00eancia das financeiras que negociavam hipotecas \u201csubprime\u201d (2007), alastrando-se para os bancos de investimento que vendiam t\u00edtulos lastreados nessas hipotecas (ou em d\u00edvidas de cart\u00e3o de cr\u00e9dito, empr\u00e9stimos automobil\u00edsticos, cr\u00e9dito estudantil, etc.), passando para as seguradoras que garantiam esses t\u00edtulos (como a AIG), chegando aos mercados financeiros globais em meados de 2008.<br \/>\nA crise do mercado financeiro tornou imposs\u00edvel para as empresas produtivas rolarem suas d\u00edvidas. Na aus\u00eancia de um mercado consumidor capaz de absorver \u201cnaturalmente\u201d a superprodu\u00e7\u00e3o de mercadorias, as empresas facilitavam o cr\u00e9dito para que os trabalhadores consumissem seus produtos. As montadoras de autom\u00f3veis como a GM faziam empr\u00e9stimos a juros praticamente zero. Com a emerg\u00eancia da crise financeira, \u00e9 precisamente esse cr\u00e9dito que deixa de existir. A aus\u00eancia de cr\u00e9dito obriga as empresas a reduzirem a produ\u00e7\u00e3o, fecharem f\u00e1bricas, demitirem seus empregados, cortarem sal\u00e1rios e benef\u00edcios dos trabalhadores, etc. O desemprego e a redu\u00e7\u00e3o do poder de compra da classe trabalhadora reduzem ainda mais a possibilidade de escoamento da produ\u00e7\u00e3o, porque n\u00e3o h\u00e1 compradores, e assim sucessivamente, num c\u00edrculo vicioso que \u00e9 a pr\u00f3pria materializa\u00e7\u00e3o da crise.<br \/>\nA crise financeira \u00e9 ao mesmo tempo causa e conseq\u00fc\u00eancia da crise econ\u00f4mica geral, devido \u00e0 articula\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica precisa e ao mesmo tempo irracional entre os setores produtivos e financeiros do capital.<\/p>\n<p><strong>ESTADOS UNIDOS<\/strong><\/p>\n<p>Em face da eclos\u00e3o da crise a primeira rea\u00e7\u00e3o da burguesia foi a elei\u00e7\u00e3o de Barack Hussein Obama. Com sua condi\u00e7\u00e3o de primeiro presidente negro e descendente de um mu\u00e7ulmano queniano, Obama serve para desviar o foco de aten\u00e7\u00e3o das quest\u00f5es estruturais da crise que dizem respeito ao pr\u00f3prio funcionamento irracional do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista, e colocar em discuss\u00e3o as \u201cvirtudes\u201d da democracia burguesa e sua vers\u00e3o peculiar do \u201csonho americano\u201d, com sua pretens\u00e3o da \u201cigualdade de oportunidades\u201d. Esta caracter\u00edstica do novo presidente serve para unificar a popula\u00e7\u00e3o estadunidense em torno da ilus\u00e3o da possibilidade de mudan\u00e7as que resgatem o capitalismo, como se somente o governo anterior fosse respons\u00e1vel pela eclos\u00e3o da atual crise.<br \/>\nNo plano externo, a escolha de um presidente com este perfil responde \u00e0 necessidade de mudar a forma de exerc\u00edcio da hegemonia imperialista estadunidense, do unilateralismo de Bush para uma forma de \u201csoft power\u201d, ou gest\u00e3o \u201cnegociada\u201d, baseada no \u201cconvencimento\u201d. Essa mudan\u00e7a visa romper o isolamento pol\u00edtico em que os EUA se colocaram por conta da conduta truculenta do governo Bush perante a comunidade internacional, exemplificada pela invas\u00e3o do Iraque realizada \u00e0 revelia da ONU, a n\u00e3o ades\u00e3o ao Protocolo de Kyoto, o n\u00e3o reconhecimento do Tribunal Internacional, etc.<br \/>\nA despeito das esperan\u00e7as de mudan\u00e7as do eleitorado, o governo Obama desde o seu in\u00edcio tomou todas as medidas para assegurar a continuidade das pol\u00edticas estrat\u00e9gicas para a burguesia estadunidense. Esta continuidade se manifestou em dois setores: 1\u00ba) manuten\u00e7\u00e3o das guerras imperialistas no Oriente M\u00e9dio, das bases militares espalhadas pelo mundo, do aparato de seguran\u00e7a, de espionagem, de repress\u00e3o, tortura, etc; 2\u00ba) opera\u00e7\u00f5es de \u201cajuda\u201d ao mercado financeiro, que a partir de setembro de 2008, gastaram entre 8 e 10 trilh\u00f5es de d\u00f3lares, entre empr\u00e9stimos, desonera\u00e7\u00e3o fiscal, compra de a\u00e7\u00f5es e ativos \u201cpodres\u201d e doa\u00e7\u00e3o pura e simples de dinheiro.<br \/>\nApesar dos pacotes de ajuda, a crise se alastrou para todos os outros setores da economia, atingindo de forma particularmente dura a ind\u00fastria automobil\u00edstica, que vem sendo um do pilares do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista desde o in\u00edcio do s\u00e9culo XX. Foram feitos empr\u00e9stimos \u00e0s grandes montadores GM e Chrysler, com a condi\u00e7\u00e3o de que recuperassem a sua \u201cviabilidade\u201d, o que se traduz por cortes de custos, o que significa fechamento de f\u00e1bricas, demiss\u00e3o de trabalhadores, redu\u00e7\u00e3o de sal\u00e1rios e benef\u00edcios, etc. Os trabalhadores da ind\u00fastria automobil\u00edstica s\u00e3o o setor do proletariado estadunidense que tem mais conquistas sociais acumuladas (apesar das perdas j\u00e1 ocorridas em v\u00e1rias reestrutura\u00e7\u00f5es recentes), de modo que a remo\u00e7\u00e3o das conquistas deste setor em particular prenuncia um retrocesso generalizado nas condi\u00e7\u00f5es de vida da classe trabalhadora como um todo.<br \/>\nA recess\u00e3o est\u00e1 se aprofundando, tendo produzido mais de 600 mil desempregados por m\u00eas desde o final de 2008, num total de 10 milh\u00f5es nos \u00faltimos 12 meses, o que representa uma taxa de 8,5% de desemprego, maior \u00edndice desde 1983 (medido pela metodologia de 1930, d\u00e9cada da Grande Depress\u00e3o, o desemprego atual, na verdade, estaria em 19%, sendo que no auge daquele per\u00edodo o \u00edndice chegou a um pico de 25%). O endividamento dos trabalhadores equivale a 130% de sua renda anual (em 1980 o \u00edndice era de 60%), sendo que a d\u00edvida total das fam\u00edlias chega a 13,9 trilh\u00f5es de d\u00f3lares. Os fundos de aposentadoria tiveram o seu patrim\u00f4nio reduzido de 20, 6 trilh\u00f5es de d\u00f3lares para 12,1 trilh\u00f5es em 2008 por conta das perdas no mercado financeiro. A previs\u00e3o \u00e9 de 3,4 milh\u00f5es de trabalhadores percam as suas casas em 2009 por falta de pagamento das hipotecas. 5,3 milh\u00f5es de trabalhadores dependem do seguro-desemprego para sobreviver. 50 milh\u00f5es de pessoas n\u00e3o t\u00eam cobertura de sa\u00fade.<br \/>\nApesar desta deteriora\u00e7\u00e3o acelerada das suas condi\u00e7\u00f5es de vida, a classe trabalhadora ainda n\u00e3o est\u00e1 reagindo por meio da luta. Os seus principais organismos, como os sindicatos e as demais entidades de negros, mulheres, \u00edndios, imigrantes, direitos civis, etc, est\u00e3o todos atrelados ao partido democrata, tendo apoiado Obama durante a sua campanha eleitoral e tendo se mantido hoje como obst\u00e1culo para impedir que os trabalhadores desenvolvam a consci\u00eancia de que o atual governo continua a servi\u00e7o da burguesia. Um setor particularmente fragilizado \u00e9 o dos imigrantes, que representam uma parcela importante da for\u00e7a de trabalho sem contar com quase nenhuma prote\u00e7\u00e3o social, sendo que muitos inclusive s\u00e3o criminalmente perseguidos.<br \/>\nEm todas as crises precedentes a classe trabalhadora estadunidense foi relativamente poupada das conseq\u00fc\u00eancias mais destrutivas pela capacidade do pa\u00eds de impor os malef\u00edcios de cada crise sobre os outros centros capitalistas e a periferia. Nas atuais circunst\u00e2ncias os EUA n\u00e3o disp\u00f5em de legitimidade moral, ideol\u00f3gica pol\u00edtica e militar para intervir em outros continentes e se impor pela for\u00e7a com a mesma facilidade de antes, por uma s\u00e9rie de raz\u00f5es, como o pr\u00f3prio fracasso da pol\u00edtica de \u201cguerra ao terror\u201d de Bush, a sua condi\u00e7\u00e3o de epicentro difusor da atual crise, a exist\u00eancia de contrapesos geopol\u00edticos mesmo que limitados nas figuras da Europa, R\u00fassia e China, a exist\u00eancia de uma consci\u00eancia anti-estadunidense na Am\u00e9rica Latina, etc.<br \/>\nAo mesmo tempo em que funcionam como contrapeso geopol\u00edtico aos EUA, as outras pot\u00eancias dependem da recupera\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos para a sua pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia. O d\u00f3lar continua sendo a moeda de reserva mundial, mas a sua condi\u00e7\u00e3o est\u00e1 questionada pelo d\u00e9ficit p\u00fablico dos EUA, que experimentou uma violenta acelera\u00e7\u00e3o no \u00faltimo per\u00edodo, com a previs\u00e3o de d\u00e9ficit de 1,75 trilh\u00f5es de d\u00f3lares em 2009. De certa forma o conjunto do sistema capitalista est\u00e1 ref\u00e9m da capacidade dos EUA de preservar o d\u00f3lar por meio das interven\u00e7\u00f5es imperialistas.<br \/>\nO pr\u00f3prio perfil da interven\u00e7\u00e3o no Oriente M\u00e9dio no governo Obama tende a ser determinado por esta necessidade de coopera\u00e7\u00e3o, ou coordena\u00e7\u00e3o com outras pot\u00eancias e com os aliados da regi\u00e3o, sem que isso signifique abrir m\u00e3o dos interesses estrat\u00e9gicos. Da mesma forma, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Am\u00e9rica Latina, a postura do governo Obama tende a ser pautada por uma busca do \u201cdi\u00e1logo\u201d como forma de contornar o sentimento anti-estadunidense vigente no conjunto do continente, sem tamb\u00e9m abrir m\u00e3o de quest\u00f5es chave, como o projeto de mudan\u00e7a de regime em Cuba e a conten\u00e7\u00e3o dos governos ditos \u201cde esquerda\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0 <strong>\u00a0EUROPA<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0 \u00a0A Europa foi atingida pela atual crise sem que tivesse tido condi\u00e7\u00f5es de consolidar a sua unidade pol\u00edtica e econ\u00f4mica. A Uni\u00e3o Europ\u00e9ia n\u00e3o \u00e9 um sujeito pol\u00edtico com vida pr\u00f3pria e independente dos Estados nacionais que a constituem. A utilidade da UE para as burguesias nacionais estaria em criar condi\u00e7\u00f5es para que o continente como um todo pudesse fazer frente ao imperialismo estadunidense. Neste sentido, um determinado grau de unidade \u00e9 desej\u00e1vel, especialmente no que se refere a nivelar por baixo as conquistas da classe trabalhadora europ\u00e9ia, como sal\u00e1rios, rela\u00e7\u00f5es trabalhistas, aumento da jornada de trabalho, etc. Para al\u00e9m do ataque comum \u00e0 classe trabalhadora europ\u00e9ia, as v\u00e1rias burguesias nacionais preservaram um grau significativo de controle sobre os respectivos Estados.<br \/>\nCom a chegada da crise, as burguesias nacionais secundarizam o projeto da uni\u00e3o em fun\u00e7\u00e3o dos seus interesses particulares imediatos, exigindo dos Estados nacionais medidas protecionistas para garantir os seus lucros. Dentre estas medidas est\u00e3o os pacotes de \u201cajuda\u201d aos bancos, \u201cest\u00edmulo\u201d \u00e0 retomada do crescimento, baixa dos juros, etc., adotados por quase todos os pa\u00edses.<br \/>\nNo interior na UE a Alemanha apresentou resist\u00eancia e conseguiu impedir o desembolso de pacotes de ajuda mais vultosos, em nome da necessidade de preservar o equil\u00edbrio or\u00e7ament\u00e1rio dos Estados que fazem parte da Zona do Euro, que \u00e9 o pr\u00f3prio fundamento do euro como moeda comum. A Alemanha conseguiu tamb\u00e9m que a UE se apresentasse unificada nas reuni\u00f5es do G-20 contra os EUA, tanto no que se refere a limitar os pacotes de ajuda, quanto a exigir medidas de regulamenta\u00e7\u00e3o do mercado financeiro. Cabe destacar o papel da Inglaterra como elemento divergente do bloco europeu e alinhado aos EUA nas duas quest\u00f5es.<br \/>\nAl\u00e9m desta diferen\u00e7a pol\u00edtica, existem diferen\u00e7as importantes entre as v\u00e1rias economias do continentes e na forma como cada uma assimila os impactos da crise. No caso da Inglaterra a crise chega quase simultaneamente \u00e0 sua deflagra\u00e7\u00e3o nos EUA por conta do comprometimento do sistema financeiro ingl\u00eas com opera\u00e7\u00f5es especulativas. No caso da Alemanha, a crise se manifesta num momento posterior com a queda das exporta\u00e7\u00f5es, que constituem o centro da atividade econ\u00f4mica do pa\u00eds.<br \/>\nFora da Zona do Euro os pa\u00edses do Leste Europeu acumulam d\u00edvidas que chegam a U$ 1,6 trilh\u00e3o, sendo que US$ 1,5 trilh\u00e3o foram contra\u00eddos junto a bancos da Europa Ocidental. A desvaloriza\u00e7\u00e3o das moedas desses pa\u00edses multiplica as d\u00edvidas na rela\u00e7\u00e3o com o euro e arremessa v\u00e1rios deles numa condi\u00e7\u00e3o de quase fal\u00eancia. O agravamento da situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica provoca uma crescente instabilidade social, que j\u00e1 levou \u00e0 queda de v\u00e1rios governos por for\u00e7a das mobiliza\u00e7\u00f5es populares. Os Estados Unidos, aproveitando-se desta situa\u00e7\u00e3o, fornecem empr\u00e9stimos aos pa\u00edses do leste europeu via FMI, vinculando-os a ades\u00e3o \u00e0 OTAN, buscando por um lado isolar economicamente a Europa e por outro isolar pol\u00edtica e militarmente a R\u00fassia.<br \/>\nNo \u00faltimo per\u00edodo a R\u00fassia, apesar de atingida pela crise pela via da queda do pre\u00e7o do petr\u00f3leo, vem tentando restabelecer o seu controle sobre os pa\u00edses que compunham a ex-Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, fornecendo aux\u00edlio financeiro e reconstruindo alian\u00e7as, entrando em choque com os interesses estadunidenses na \u00c1sia Central.<br \/>\nA Europa \u00e9 o continente onde a classe trabalhadora vem protagonizando as maiores lutas desde o in\u00edcio da crise (greves gerais na Fran\u00e7a, levante da juventude na Gr\u00e9cia, queda de governos em pa\u00edses do leste europeu, etc.). Por outro lado s\u00e3o lutas defensivas, conduzidas por dire\u00e7\u00f5es ligadas a v\u00e1rias vertentes pol\u00edticas, todas desprovidas da perspectiva de supera\u00e7\u00e3o do sistema capitalista.<br \/>\nUm obst\u00e1culo que dificulta o avan\u00e7o da consci\u00eancia da classe trabalhadora em dire\u00e7\u00e3o a essa perspectiva de supera\u00e7\u00e3o do sistema \u00e9 a pol\u00edtica econ\u00f4mica nacionalista impulsionada pelas burguesias, com a colabora\u00e7\u00e3o inclusive de dire\u00e7\u00f5es sindicais, jogando a culpa do desemprego na concorr\u00eancia dos trabalhadores estrangeiros e tamb\u00e9m dos imigrantes em cada pa\u00eds. Isto pode ser a base para o surgimento de movimentos organizados de cunho neofacista, como \u00e9 o caso das \u201crondas cidad\u00e3s\u201d insufladas pelo governo de Berlusconi na It\u00e1lia, que sob o pretexto de refor\u00e7ar a \u201cseguran\u00e7a p\u00fablica\u201d, atacam os imigrantes, moradores de rua, homossexuais, etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0 \u00a0\u00c1SIA<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0 \u00a0O impacto da crise na \u00c1sia foi mediado pelo fato de que sua primeira manifesta\u00e7\u00e3o se deu na esfera financeira, a cujas distor\u00e7\u00f5es especulativas o continente, de modo geral, estava pouco exposto. Tendo sua economia voltada a produzir para o mercado externo, a \u00c1sia s\u00f3 seria afetada num momento seguinte, quando acontece a queda do consumo nos Estados Unidos. A exist\u00eancia de um intervalo de tempo entre o primeiro e o segundo momento da crise deu origem \u00e0 ilus\u00e3o de que seria poss\u00edvel um \u201cdescolamento\u201d das economias da regi\u00e3o com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 economia global (ilus\u00e3o que contaminou inclusive a Am\u00e9rica Latina).<br \/>\nAo contr\u00e1rio do \u201cdescolamento\u201d da crise, o que se verificou foi que, a partir do \u00faltimo trimestre de 2008, as maiores economias da regi\u00e3o (China, Jap\u00e3o, Cor\u00e9ia do Sul, etc.) tiveram uma queda dr\u00e1stica nas suas exporta\u00e7\u00f5es e na sua produ\u00e7\u00e3o industrial, que se manteve nos primeiros meses de 2009, provocando uma onda de demiss\u00f5es em massa, e uma rea\u00e7\u00e3o em cadeia que transmitiu a recess\u00e3o para os pa\u00edses fornecedores de mat\u00e9rias-primas.<br \/>\nPor conta da inexist\u00eancia de uma rede de prote\u00e7\u00e3o social na maior parte dos pa\u00edses do continente, o desemprego (apesar de ser numericamente modesto em rela\u00e7\u00e3o aos Estados Unidos ou Europa) traz conseq\u00fc\u00eancias mais graves, pois deixa os trabalhadores desamparados, sem direitos a cuidados b\u00e1sicos, como assist\u00eancia m\u00e9dica, ou at\u00e9 mesmo sem moradia, como \u00e9 o caso peculiar do Jap\u00e3o.<br \/>\nNa China, o desemprego afeta principalmente os trabalhadores que migraram recentemente para a cidade, atra\u00eddos pelo grande crescimento dos empreendimentos voltados para a exporta\u00e7\u00e3o. Muitos deles s\u00e3o a principal fonte de renda de suas fam\u00edlias que ficaram no campo. Ao perderem seus empregos e serem obrigados a voltar \u00e0s suas regi\u00f5es de origem, os migrantes agravam o problema social na zona rural. Muitas empresas n\u00e3o apenas demitem, mas simplesmente fecham sem sequer pagar sal\u00e1rios e direitos devidos aos trabalhadores, que n\u00e3o t\u00eam a quem recorrer. A ocorr\u00eancia dessa situa\u00e7\u00e3o, ou similares, tem levado a a\u00e7\u00f5es radicalizadas, como manifesta\u00e7\u00f5es, ocupa\u00e7\u00f5es de pr\u00e9dios p\u00fablicos e at\u00e9 enfrentamento com o aparato de repress\u00e3o. O controle da informa\u00e7\u00e3o pela burocracia impede que se tenha uma dimens\u00e3o exata desse fen\u00f4meno e de suas poss\u00edveis conseq\u00fc\u00eancias pol\u00edticas.<br \/>\nO Jap\u00e3o havia acabado de sair de uma recess\u00e3o que havia durado quase toda a d\u00e9cada de 1990, tendo para isso precarizado grande parte de sua for\u00e7a de trabalho, atrav\u00e9s do uso de imigrantes (como os dekasseguis) e da extens\u00e3o dos contratos de trabalho por tempo determinado e com sal\u00e1rios bem menores para uma parcela da pr\u00f3pria classe trabalhadora japonesa. A recupera\u00e7\u00e3o da economia, baseada na exporta\u00e7\u00e3o de bens de consumo para os Estado Unidos e de bens de produ\u00e7\u00e3o para a China, foi paralisada pela atual crise. O movimento oper\u00e1rio japon\u00eas, que havia sido domesticado pela concess\u00e3o de contratos de trabalho em que o emprego \u00e9 praticamente vital\u00edcio, volta surgir em cena em manifesta\u00e7\u00f5es contra o desemprego, tendo inclusive provocado um crescimento significativo do Partido Comunista Japon\u00eas.<br \/>\nA \u00cdndia, outro gigante asi\u00e1tico, \u00e9 um pa\u00eds muito extenso territorialmente, com uma diversidade muito grande de etnias, religi\u00f5es e l\u00ednguas. H\u00e1 uma grande diversidade de condi\u00e7\u00f5es sociais, expressa pela conviv\u00eancia de um sistema de castas com uma democracia representativa nos moldes ocidentais. Somente 5% da popula\u00e7\u00e3o indiana tem um n\u00edvel de vida compar\u00e1vel ao europeu. A grande maioria da popula\u00e7\u00e3o ainda est\u00e1 no campo e tem sido v\u00edtima de uma desorganiza\u00e7\u00e3o da economia camponesa por conta da integra\u00e7\u00e3o ao mercado agr\u00edcola mundial. Nas cidades a grande maioria vive em favelas sem a menor infra-estrutura. Com todas essas desigualdades a \u00cdndia \u00e9 uma pot\u00eancia econ\u00f4mica emergente e possuidora de arsenal nuclear.<br \/>\nEm comum os tr\u00eas maiores pa\u00edses asi\u00e1ticos possuem uma depend\u00eancia com rela\u00e7\u00e3o aos Estados Unidos no que se refere \u00e0s suas exporta\u00e7\u00f5es, ao mesmo tempo em que t\u00eam a pretens\u00e3o de exercer pap\u00e9is de lideran\u00e7a geopol\u00edtica compat\u00edveis com o tamanho de suas economias e seu r\u00e1pido crescimento. Por outro lado, os tr\u00eas tamb\u00e9m convivem com conflitos regionais nos quais os Estados Unidos tamb\u00e9m exercem algum tipo de interfer\u00eancia (Cor\u00e9ia do Norte, Taiwan, Paquist\u00e3o).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0 \u00a0<strong>AM\u00c9RICA LATINA<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0 \u00a0A crise econ\u00f4mica chegou com for\u00e7a no continente a partir do \u00faltimo trimestre de 2008. Pelo fato de se tratar de economias perif\u00e9ricas, que insertas de modo espec\u00edfico na divis\u00e3o social do trabalho mundial, basicamente fornecem mat\u00e9rias primas (algumas ainda mant\u00e9m plantas industriais de empresas dos pa\u00edses imperialistas tanto europeus quanto estadunidenses), passaram a sentir a crise a partir do momento em que os pa\u00edses centrais e a China n\u00e3o podiam mais absorver a produ\u00e7\u00e3o continental.<br \/>\nNo entanto, h\u00e1 tr\u00eas cen\u00e1rios diferentes de comportamento na conjuntura mundial de crise:1-realidade de toda a Am\u00e9rica do Sul e M\u00e9xico; 2-Cuba; 3-Haiti.<br \/>\nNo M\u00e9xico, a classe trabalhadora est\u00e1 entre as mais vulner\u00e1veis em rela\u00e7\u00e3o aos efeitos da crise econ\u00f4mica no continente, pois 84% de sua atividade econ\u00f4mica \u00e9 escoada para os EUA e Canad\u00e1, por conta do Tratado de Livre Com\u00e9rcio da Am\u00e9rica do Norte (NAFTA, na sigla em ingl\u00eas), justamente o epicentro da crise econ\u00f4mica atual. Embora os \u00edndices de desemprego no pa\u00eds estejam entre os mais baixos do continente, isso tem um custo para a classe trabalhadora, que \u00e9 a alta precariza\u00e7\u00e3o do trabalho: 50% dos empregos mexicanos s\u00e3o tempor\u00e1rios, com sal\u00e1rios extremamente baixos (o sal\u00e1rio m\u00ednimo compra apenas a metade da cesta b\u00e1sica); o trabalhador s\u00f3 tem direito a 5 dias de f\u00e9rias por ano completo de contrato de trabalho, n\u00e3o existe a hora-extra. O contrato de trabalho est\u00e1 condicionado \u00e0 apresenta\u00e7\u00e3o de certid\u00e3o de gravidez e de casamento.<br \/>\nNo campo, a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 mais dram\u00e1tica. Somente 15% das terras s\u00e3o cultiv\u00e1veis e mesmo nestas terras a agricultura n\u00e3o t\u00eam como lograr \u00eaxito por conta da invas\u00e3o dos produtos agr\u00edcolas dos EUA a pre\u00e7os muito baixos (em decorr\u00eancia do NAFTA), fazendo com que o M\u00e9xico importe alimentos. Esta \u00e9 a evolu\u00e7\u00e3o da importa\u00e7\u00e3o de g\u00eaneros aliment\u00edcios do pa\u00eds desde a assinatura do tratado de livre com\u00e9rcio em 1994: 440% de carne de boi, 280% de aves, 210% de su\u00ednos e 85% de milho.<br \/>\nTal descalabro social no campo e na cidade provoca rea\u00e7\u00f5es de rep\u00fadio ao NAFTA e \u00e0s demais pol\u00edticas neoliberais do atual governo mexicano. Em Janeiro de 2008 houve uma marcha de 200 mil trabalhadores do campo e da cidade contra o tratado de livre com\u00e9rcio. Em fevereiro de 2009 aconteceu a marcha contra a privatiza\u00e7\u00e3o da estatal do petr\u00f3leo (PEMEX).<br \/>\nApesar de um razo\u00e1vel grau de mobiliza\u00e7\u00e3o, quem lidera as lutas (ou surfa nelas) \u00e9 Andr\u00e9s Manuel Lopez Obrador (AMLO), que perdeu a disputa pela presid\u00eancia em 2006 por meio de fraude e desde ent\u00e3o se apresenta como o leg\u00edtimo presidente do pa\u00eds, polarizando as lutas e fazendo oposi\u00e7\u00e3o ao neoliberalismo e ao presidente Felipe Calder\u00f3n. Diante disso, tudo indica que AMLO esteja cotado para ser uma alternativa de governo (\u201cdentro da lei\u201d como ele pr\u00f3prio salienta).<br \/>\nNa Am\u00e9rica do Sul a rea\u00e7\u00e3o \u00e0 crise econ\u00f4mica foi semelhante em menor ou maior grau. As demiss\u00f5es, renegocia\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es trabalhistas (redu\u00e7\u00e3o da jornada de trabalho com redu\u00e7\u00e3o de sal\u00e1rio, f\u00e9rias coletivas, etc) e outras conseq\u00fc\u00eancias foram sentidas com mais for\u00e7a a partir do \u00faltimo trimestre de 2008. A alta depend\u00eancia econ\u00f4mica da exporta\u00e7\u00e3o de produtos prim\u00e1rios e\/ou manufaturados de pouco valor agregado para os pa\u00edses centrais, no centro da crise, dita o ritmo do desenvolvimento dos seus efeitos. Em todos os pa\u00edses, os pre\u00e7os das mat\u00e9rias-primas sofreram quedas dr\u00e1sticas na cota\u00e7\u00e3o internacional, como o petr\u00f3leo e seus derivados (Venezuela, Equador, Brasil e Bol\u00edvia), cobre (Chile), min\u00e9rios de ferro e a\u00e7o (Brasil), agroneg\u00f3cios (Argentina). Trata-se de um continente tomado pelos governos de \u201cesquerda\u201d, ou de \u201cfrente popular\u201d que contam com a confian\u00e7a dos trabalhadores por conta da origem prolet\u00e1ria de seus governantes (Lula, Evo Morales) e\/ou tamb\u00e9m pelo projeto de nacional-desenvolvimentismo (Hugo Chavez, Fernando Lugo, Rafael Correa). Todos est\u00e3o a servi\u00e7o do capital e funcionam como um obst\u00e1culo \u00e0 evolu\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia de classe do proletariado, pois os trabalhadores realmente acreditam que tais governantes resolver\u00e3o tudo e extirpar\u00e3o o neoliberalismo de seus respectivos pa\u00edses. Para piorar, o movimento sindical e outros movimentos populares ap\u00f3iam ou mesmo fazem parte dos governos \u201cde esquerda\u201d, que se utilizam da coopta\u00e7\u00e3o da dire\u00e7\u00e3o sindical burocr\u00e1tica para atacar a classe trabalhadora e impedir a eclos\u00e3o de lutas.<br \/>\nA Col\u00f4mbia merece destaque pela atua\u00e7\u00e3o de grupos paramilitares na condu\u00e7\u00e3o do Estado. H\u00e1 dois grandes grupos armados em a\u00e7\u00e3o no pa\u00eds: de um lado as For\u00e7as Armadas Revolucion\u00e1rias da Col\u00f4mbia (FARC), de orienta\u00e7\u00e3o \u201csocialista\u201d; e de outro a AUC (Autodefesas Unidas da Col\u00f4mbia), de direita. Ambos os grupos usam o narcotr\u00e1fico como fonte de financiamento e recrutam homens, mulheres e crian\u00e7as dentre a popula\u00e7\u00e3o, nem sempre de forma volunt\u00e1ria. A diferen\u00e7a \u00e9 que a AUC, al\u00e9m de fazer parte do governo de \u00c1lvaro Uribe, recebe dinheiro de multinacionais para reprimir movimentos populares de ocupa\u00e7\u00e3o de terras ou massacrar o movimento sindical. A Col\u00f4mbia foi denunciada diversas vezes na ONU acerca do alto \u00edndice de assassinato de l\u00edderes sindicais e de movimentos sociais. \u00c9 o caso da multinacional da produ\u00e7\u00e3o de bananas Chiquita Brands, dos EUA, que foi condenada pelo Judici\u00e1rio estadunidense por comprar \u201cprote\u00e7\u00e3o\u201d de suas propriedades aos paramilitares, massacrando camponeses que ocupavam suas terras, ou eram obst\u00e1culo para aquisi\u00e7\u00e3o de mais terras. O resultado da atua\u00e7\u00e3o dos paramilitares \u00e9 a popula\u00e7\u00e3o refugiada em fun\u00e7\u00e3o do conflito armado. Oficialmente s\u00e3o 2,5 milh\u00f5es de pessoas vagando pelo territ\u00f3rio colombiano, expulsos de suas casas e de suas terras, mas acredita-se que seja 4 milh\u00f5es de pessoas tendo em vista que nem todos os refugiados est\u00e3o registrados.<br \/>\nCuba e Haiti s\u00e3o casos \u00e0 parte desta realidade apresentada.<br \/>\nO Haiti \u00e9 o pa\u00eds mais pobre das Am\u00e9ricas e o segundo mais pobre do hemisf\u00e9rio ocidental, e sofre uma invas\u00e3o internacional capitaneada e coordenada pelo Brasil (a mando do imperialismo estadunidense, ocupado com a invas\u00e3o do Iraque) denominada de \u201cfor\u00e7a de paz\u201d, desde 2004, quando os EUA deram um golpe no governo de Jean Bertrand Aristide.. A fun\u00e7\u00e3o principal das \u201cfor\u00e7as de paz\u201d \u00e9 controlar a atua\u00e7\u00e3o dos grupos mafiosos e reprimir qualquer tentativa de levante popular. Em abril de 2008, houve diversas manifesta\u00e7\u00f5es de protesto do povo haitiano, por conta da carestia dos alimentos, que derrubaram o primeiro ministro da \u00e9poca Jacques Edouard Alexis.. Nesta ocasi\u00e3o, as \u201cfor\u00e7as de paz\u201d mataram cinco trabalhadores. Se Cuba tivesse uma pol\u00edtica conseq\u00fcente com o internacionalismo, seria ideal algum tipo de interven\u00e7\u00e3o no pa\u00eds, afinal, s\u00e3o apenas 130 quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia pelo mar, mas isso n\u00e3o faz parte do projeto da burocracia cubana.<br \/>\nEm Cuba os efeitos da crise s\u00e3o bem menores em rela\u00e7\u00e3o aos demais pa\u00edses latino-americanos. Mas isso n\u00e3o quer dizer que n\u00e3o sofrem os efeitos do colapso econ\u00f4mico mundial. O pre\u00e7o do n\u00edquel, que \u00e9 o principal \u00edtem de exporta\u00e7\u00e3o da ilha, caiu 41% em 2008, o crescimento econ\u00f4mico foi de 4,3% em 2008 (a estimativa do governo era de 8%, mas falta precisar o impacto dos tr\u00eas furac\u00f5es que passaram pela ilha) e a atividade tur\u00edstica diminuiu. Diante disso, o governo \u201csocialista\u201d decretou que os trabalhadores paguem pela crise que n\u00e3o causaram: n\u00e3o haver\u00e1 aumento de sal\u00e1rios em 2009 e foi aumentado em 5 anos o tempo exigido para o trabalhador se aposentar.<br \/>\nNo que pese tais efeitos da crise global, o principal debate em curso no pa\u00eds \u00e9 sobre as medidas de reforma econ\u00f4mica implantadas pelo governo de Raul Castro, como o restabelecimento da desigualdade entre sal\u00e1rios e o arrendamento das terras estatais para camponeses individuas ou organizados em cooperativas permitindo a participa\u00e7\u00e3o do trabalhador na produ\u00e7\u00e3o. Discute-se se tais medidas indicam ou n\u00e3o a restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo.<br \/>\nSe por um lado tais medidas s\u00e3o elementos de uma economia de mercado, isso n\u00e3o quer dizer, necessariamente, que o capitalismo foi restaurado em Cuba ou est\u00e1 em vias de ser restaurado. \u00c9 necess\u00e1rio interpretar os acontecimentos dentro de uma totalidade considerando as suas contradi\u00e7\u00f5es. A justificativa da burocracia foi de que tais medidas foram tomadas para estimular a produ\u00e7\u00e3o de elementos de primeira necessidade, lembrando em parte o que foi a NEP para a Revolu\u00e7\u00e3o Russa. Mas as reformas combinadas com a depend\u00eancia econ\u00f4mica de Cuba com a Venezuela e o poss\u00edvel fim do embargo econ\u00f4mico n\u00e3o deixam d\u00favidas: a ilha caminha para uma restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo.<br \/>\nA \u00fanica forma de se evitar que isso ocorra seria que a burocracia cubana impulsionasse a \u201cexporta\u00e7\u00e3o\u201d da revolu\u00e7\u00e3o para o resto do continente como elemento crucial para a consolida\u00e7\u00e3o da revolu\u00e7\u00e3o cubana. Est\u00e1 provado historicamente que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel sustentar o socialismo num s\u00f3 pais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0 \u00a0<strong>\u00c1FRICA<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0 \u00a0A economia africana \u00e9 basicamente de agricultura de subsist\u00eancia. A maior parte da popula\u00e7\u00e3o do continente est\u00e1 na zona rural (63%). Em rela\u00e7\u00e3o ao capitalismo, trata-se de uma \u00e1rea pouco desenvolvida neste sentido. Somente \u00c1frica do Sul, Egito, Marrocos e L\u00edbia tem alguma express\u00e3o econ\u00f4mica.<br \/>\nDo ponto de vista geral, a \u00c1frica \u00e9 a periferia do mundo em termos de participa\u00e7\u00e3o no com\u00e9rcio mundial, com peso de apenas 1%. A pouca produ\u00e7\u00e3o industrial que h\u00e1 no continente \u00e9 basicamente extrativista (petr\u00f3leo, ouro e pedras preciosas como o diamante) e ainda assim explorada por multinacionais europ\u00e9ias que mandam toda a riqueza gerada pelo proletariado africano para os pa\u00edses europeus.<br \/>\nO pouco desenvolvimento do capitalismo no continente poderia levar \u00e0 conclus\u00e3o err\u00f4nea de que a crise se daria de forma mais branda no continente. A afirma\u00e7\u00e3o n\u00e3o procede, pois o desemprego tende empurrar o proletariado incipiente para as tr\u00eas alternativas dispon\u00edveis: 1- voltar para o campo, onde as condi\u00e7\u00f5es de sobreviv\u00eancia s\u00e3o nulas pelo prec\u00e1rio modo de produ\u00e7\u00e3o; 2- engrossar os contingentes da guerra civil africana, ou o contr\u00e1rio, 3- engrossar o contingente dos deslocados no continente.<br \/>\nA \u00c1frica, ber\u00e7o da humanidade, \u00e9 de longe o continente em que os camponeses e oper\u00e1riosforam mais oprimidos. Na medida em que se desenvolvia o capitalismo na Europa, aumentava a interven\u00e7\u00e3o branca na \u00c1frica. No come\u00e7o era \u201capenas\u201dcom\u00e9rcio de escravos, para que depois se chegasse \u00e0 explora\u00e7\u00e3o direta no continente, aproveitando os antagonismos entre as na\u00e7\u00f5es africanas.<br \/>\nA Confer\u00eancia de Berlim, em 1884, selou a sorte do povo africano. As pot\u00eancias imperialistas colocaram no mesmo territ\u00f3rio na\u00e7\u00f5es inimigas, e mesmo ap\u00f3s o movimento de independ\u00eancia dos pa\u00edses no s\u00e9culo XX os limites impostos pelas pot\u00eancias europ\u00e9ias n\u00e3o foram desfeitos. E mais, manteve-se a depend\u00eancia econ\u00f4mica, pol\u00edtica e tecnol\u00f3gica da civiliza\u00e7\u00e3o ocidental. Ap\u00f3s a Segunda Guerra mundial, a \u00c1frica foi objeto de disputa entre as superpot\u00eancias, isso, paralelamente ao movimento de independ\u00eancia formal. Entram em cena as guerras civis entre grupos militares apoiados ou pelos EUA ou a URSS.<br \/>\nCom o fim da guerra fria, por meio do desmantelamento do bloco sovi\u00e9tico, o imperialismo estadunidense n\u00e3o via mais motivos para fornecer ajuda aos povos africanos. Apesar das guerras civis serem sangrentas, havia algum controle das superpot\u00eancias evitando-se um agravamento ainda maior. Sem a interfer\u00eancia estrangeira no continente, os camponeses e oper\u00e1rios ficaram no fogo cruzado da disputa fratricida pelo poder por grupos, sem qualquer vi\u00e9s de classe.<br \/>\nA guerra civil no continente africano \u00e9 o maior produtor de flagelados. S\u00e3o praticamente mais de 20 milh\u00f5es de pessoas vagando pelo continente, sem ter para onde ir. S\u00e3o 20 milh\u00f5es de pessoas que n\u00e3o s\u00e3o ideologicamente disputadas pela esquerda mundial.<br \/>\nO fato de n\u00e3o haver um capitalismo desenvolvido no continente n\u00e3o quer dizer que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel um programa de disputa ideol\u00f3gica sobre os camponeses e oper\u00e1rios africanos. A esquerda mundial poderia come\u00e7ar em n\u00e3o marginalizar o estudo sobre a \u00c1frica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<strong>\u00a0 \u00a0CRISE POL\u00cdTICO-IDEOL\u00d3GICA<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0 \u00a0Ao encerrar o \u00faltimo ciclo peri\u00f3dico da economia capitalista (e com ele o padr\u00e3o de acumula\u00e7\u00e3o vigente nas \u00faltimas quatro d\u00e9cadas), a atual crise esgota tamb\u00e9m as alternativas pol\u00edticas que vinham sendo usadas pela burguesia para administrar o sistema. O keynesianismo\/desenvolvimentismo havia sido considerado ultrapassado pela crise que come\u00e7ou na d\u00e9cada de 1970 e vinha sendo substitu\u00eddo pelo neoliberalismo nas d\u00e9cadas de 1980 e 90. Agora, o pr\u00f3prio neoliberalismo est\u00e1 tamb\u00e9m ultrapassado pela crise que ajudou a produzir.<br \/>\nO discurso de \u201cretirada do Estado da economia\u201d usado para retirar a prote\u00e7\u00e3o social aos trabalhadores e para que o capital pudesse se apropriar da mais-valia gerada por setores estrat\u00e9gicos at\u00e9 ent\u00e3o sob controle p\u00fablico, precisa ser esquecido no momento em que se d\u00e1 a a\u00e7\u00e3o de salvamento financeiro da burguesia pelo Estado. O Estado capitalista assume os preju\u00edzos das falcatruas privadas, socializando os custos do fracasso do \u201clivre-mercado\u201d neoliberal. Revela-se assim o car\u00e1ter de classe do Estado burgu\u00eas, a sua fun\u00e7\u00e3o primordial de garantidor da ordem capitalista e dos interesses da classe dominante nesse sistema.<br \/>\nEsse \u201cretorno\u201d do Estado obriga a burguesia a retirar de cena o discurso neoliberal. Entretanto, o eclipse do neoliberalismo n\u00e3o significa necessariamente um retorno autom\u00e1tico ao velho keynesianismo\/desenvolvimentismo, pelo simples fato de que essa alternativa tamb\u00e9m j\u00e1 havia sido esgotada. O keynesianismo\/desenvolvimentismo pressup\u00f5e a capacidade do Estado de se endividar para fornecer o impulso \u00e0 economia, gerando uma demanda capaz de desencadear a retomada da produ\u00e7\u00e3o. O problema \u00e9 que os resultados desse endividamento tendem a ser cada vez mais prec\u00e1rios e provocar contradi\u00e7\u00f5es mais graves no futuro.<br \/>\nA dificuldade de provocar a retomada do crescimento por meio do endividamento nas atuais condi\u00e7\u00f5es de deteriora\u00e7\u00e3o do cr\u00e9dito p\u00fablico da quase totalidade dos Estados capitalistas \u00e9 uma limita\u00e7\u00e3o material, mais do que uma debilidade ideol\u00f3gica. Tanto o d\u00f3lar como o euro, as principais moedas mundiais, est\u00e3o tendo a sua viabilidade questionada, em fun\u00e7\u00e3o do grau de endividamento dos Estados Unidos e da Uni\u00e3o Europ\u00e9ia, processo que se agravou com a atual crise e os pacotes de ajuda dispensados \u00e0 burguesia financeira.<br \/>\nNo contexto de desmoraliza\u00e7\u00e3o do neoliberalismo e na remota possibilidade de uma retomada do keynesianismo\/desenvolvimentismo, a burguesia se encontra num \u201cbeco sem sa\u00edda\u201d pol\u00edtico-ideol\u00f3gico. Sob esse aspecto a crise representa a auto-nega\u00e7\u00e3o do sistema capitalista. A aus\u00eancia de uma sa\u00edda material imediata para as dificuldades econ\u00f4micas e de sua correspondente doutrina te\u00f3rico-pol\u00edtica de legitima\u00e7\u00e3o obriga a burguesia a apelar para a pura ideologia, a f\u00e9 e a psicologia. A fun\u00e7\u00e3o dos pol\u00edticos e ide\u00f3logos capitalistas passa a ser difundir a cren\u00e7a de que \u201cos mercados\u201d podem se recuperar, de modo que a classe trabalhadora aceite dar sua cota de sacrif\u00edcio e suporte passivamente os custos da crise.<br \/>\nO que existe de acordo no \u00e2mbito das for\u00e7as que participam do jogo pol\u00edtico institucional \u00e9 a converg\u00eancia em torno da necessidade de salvar o capitalismo via a\u00e7\u00f5es do Estado e dentro da institucionalidade burguesa, impedindo a todo custo a entrada em cena da classe trabalhadora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0 \u00a0<strong>CRISE DA FORMA ESTADO<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0 \u00a0A fal\u00eancia das alternativas pol\u00edtico-ideol\u00f3gicas burguesas tanto keynesianas\/desenvolvimentistas como neoliberais de administra\u00e7\u00e3o do capitalismo \u00e9 o sintoma de uma crise na pr\u00f3pria forma do Estado burgu\u00eas.<br \/>\nO sistema do capital funciona como uma totalidade hier\u00e1rquico-conflitivamente estruturada, sujeita a contradi\u00e7\u00f5es constantes. O sistema capitalista \u00e9 um s\u00f3 enquanto l\u00f3gica econ\u00f4mica unit\u00e1ria a reger as rela\u00e7\u00f5es internacionais, mas existem v\u00e1rios Estados capitalistas particulares disputando o seu controle pol\u00edtico.<br \/>\nO Estado \u00e9 o \u201ccomit\u00ea gestor dos neg\u00f3cios da burguesia\u201d, na defini\u00e7\u00e3o de Marx. Mas os neg\u00f3cios da burguesia adquiriram uma escala que ultrapassa as fronteiras dos Estados-na\u00e7\u00e3o particulares e se desenrolam hoje num cen\u00e1rio global que nenhum Estado isolado tem poderes para gerir. O capitalismo mundial necessita de um Estado, mas o que ele tem s\u00e3o v\u00e1rios Estados nacionais de porte desigual. Nenhum Estado \u00e9 capaz de funcionar hoje como um \u201cEstado mundial do sistema do capital\u201d. O fundamento do Estado, reconhecido pelos pr\u00f3prios te\u00f3ricos burgueses desde o s\u00e9culo XVII, \u00e9 o monop\u00f3lio do uso da for\u00e7a no interior do seu territ\u00f3rio como garantia da propriedade da classe dominante.<br \/>\nNenhum Estado capitalista hoje det\u00e9m esse monop\u00f3lio. Nem mesmo os Estados Unidos, com uma capacidade militar maior do que a de todos os demais pa\u00edses do planeta juntos (al\u00e9m de ser a maior economia, o maior mercado consumidor, o emissor da moeda de reserva mundial e de deter a hegemonia na cultura mundial), s\u00e3o capazes de desempenhar esse papel, por mais que se esforcem para s\u00ea-lo. A persegui\u00e7\u00e3o dos interesses particulares da sua burguesia o empurram para essa posi\u00e7\u00e3o de \u201cpol\u00edcia global do capital\u201d, que tem sido exercida por meio da \u201cguerra ao terror\u201d, mas cuja legitima\u00e7\u00e3o tem se tornado cada vez mais problem\u00e1tica.<br \/>\nEssa auto-atribu\u00edda condi\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos de poder de pol\u00edcia global n\u00e3o \u00e9 aceita tranq\u00fcilamente pelas demais pot\u00eancias, que reagem a cada um dos seus passos com a amea\u00e7a de uma retomada da corrida armamentista. Uni\u00e3o Europ\u00e9ia, R\u00fassia e China s\u00e3o militarmente inferiores aos Estados Unidos mesmo consideradas em conjunto, mas tem suficiente for\u00e7a dissuas\u00f3ria para impedir agress\u00f5es estadunidenses diretas aos seus interesses estrat\u00e9gicos mais vitais mesmo consideradas individualmente.<br \/>\nDada essa situa\u00e7\u00e3o do equil\u00edbrio de for\u00e7as, um Estado mundial do capital s\u00f3 poderia se impor, no limite, com base na destrui\u00e7\u00e3o f\u00edsica das burguesias rivais e de amplos setores da classe trabalhadora mundial, constituindo-se como uma ditadura militar global sobre os escombros nucleares de um planeta devastado.<br \/>\nAo n\u00e3o desencadear essa solu\u00e7\u00e3o b\u00e1rbara, os diversos Estados nacionais, inclusive os Estados Unidos, permanecem impotentes para controlar atrav\u00e9s dos seus instrumentos pol\u00edticos convencionais as determina\u00e7\u00f5es inerentemente an\u00e1rquicas da realiza\u00e7\u00e3o do capital mundializado. Diversos Estados imperialistas n\u00e3o constituem automaticamente em seu conjunto um \u00fanico \u201cImp\u00e9rio\u201d capitalista global capaz de exercer de forma coordenada a regula\u00e7\u00e3o da reprodu\u00e7\u00e3o mundial do capital. As formas de coordena\u00e7\u00e3o prec\u00e1rias desenvolvidas atrav\u00e9s dos organismos internacionais (ONU, G8, G20, OMC, FMI, etc.) est\u00e3o elas mesmas minadas pelas rivalidades interimperialistas.<br \/>\nO fracasso das reuni\u00f5es de c\u00fapula entre os dirigentes dos Estados capitalistas que tem sido encenadas desde a emerg\u00eancia da atual crise (11\/2008 e 04\/2009) ilustra a impossibilidade dessa coordena\u00e7\u00e3o. Os Estados Unidos exigiam da Europa maiores gastos p\u00fablicos em pacotes de salvamento das finan\u00e7as privadas, enquanto a Europa por sua vez exigia dos Estados Unidos um maior controle sobre as opera\u00e7\u00f5es fraudulentas dessas mesmas finan\u00e7as. Por tr\u00e1s dessa diverg\u00eancia, est\u00e1 a disputa entre as burguesias estadunidense e europ\u00e9ia para descarregar uma sobre a outra uma parte dos custos da crise e tamb\u00e9m para se beneficiar privilegiadamente da recupera\u00e7\u00e3o capitalista que necessariamente s\u00f3 poder\u00e1 se dar transferindo-se a maior parte desses custos para a classe trabalhadora mundial.<br \/>\nOs maiores Estados imperialistas est\u00e3o eles pr\u00f3prios comprometidos com os interesses imediatos e particulares dessas fra\u00e7\u00f5es parasit\u00e1rias e rentistas da burguesia financeira mundial, a ponto de n\u00e3o poderem desenvolver estrat\u00e9gias coordenadas racionais do ponto de vista do capital como um todo no interesse de preservar a longo prazo o funcionamento do sistema.<br \/>\nOs Estados perif\u00e9ricos, por sua vez, perderam qualquer margem de a\u00e7\u00e3o para iniciativas aut\u00f4nomas de regula\u00e7\u00e3o e estrutura\u00e7\u00e3o dos seus espa\u00e7os econ\u00f4micos internos tal como a que vieram a deter em determinados per\u00edodos do s\u00e9culo XX. A pol\u00edtica desses Estados n\u00e3o apresenta nenhuma alternativa real aos seus cidad\u00e3os em termos de formas de gest\u00e3o da riqueza social que possam vir a se opor minimamente aos interesses imediatos do capital global. O capital financeiro internacional diretamente elege ou veta os governantes. Dissolve-se a autonomia relativa do Estado em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 economia. A determina\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica pela economia se transforma em subordina\u00e7\u00e3o direta e quase sem media\u00e7\u00f5es.<br \/>\nNa impossibilidade de dar vaz\u00e3o \u00e0s rivalidades interimperialistas por meio da guerra convencional, o Estado precisa se voltar contra amea\u00e7as difusas, sem localiza\u00e7\u00e3o precisa no espa\u00e7o e no tempo. A utopia tecnocr\u00e1tica burguesa do controle social total se materializa na paran\u00f3ia da \u201cguerra ao terror\u201d, que pode se voltar contra qualquer alvo ao sabor das conting\u00eancias. O Estado se entrega \u00e0 ambi\u00e7\u00e3o irracional de poder perseguir qualquer indiv\u00edduo no planeta como amea\u00e7a potencial. A condi\u00e7\u00e3o de \u201cinimigo p\u00fablico\u201d pode ser atribu\u00edda a qualquer indiv\u00edduo ou setor de classe.<br \/>\nQuanto mais subalterno aos interesses da burguesia, mais o Estado se torna autorit\u00e1rio na rela\u00e7\u00e3o com as demais classes. Os pretextos de \u201cguerra ao terror\u201d, \u201cguerra \u00e0s drogas\u201d, \u201ccombate \u00e0 viol\u00eancia\u201d, se convertem em formas de legitima\u00e7\u00e3o para a constru\u00e7\u00e3o de aparatos de repress\u00e3o cuja fun\u00e7\u00e3o em \u00faltima inst\u00e2ncia \u00e9 conter os movimentos de resposta da classe trabalhadora \u00e0 agudiza\u00e7\u00e3o da crise.<br \/>\nAo mesmo tempo, a pr\u00f3pria decomposi\u00e7\u00e3o social precipitada pelas crises provoca um processo de lumpeniza\u00e7\u00e3o social que arremessa certos setores da popula\u00e7\u00e3o em atividades informais ou abertamente ilegais. Atividades ilegais proliferam nas margens da concorr\u00eancia capitalista formal, empregando setores que pertenciam ao proletariado no contrabando, pirataria, tr\u00e1fico de drogas, de armas, de \u00f3rg\u00e3os, de imigrantes, explora\u00e7\u00e3o da prostitui\u00e7\u00e3o, etc., enquanto a burguesia se encarrega da lavagem de dinheiro e da corrup\u00e7\u00e3o do Estado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0\u00a0 \u00a0CRISE AMBIENTAL<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0 \u00a0Na aus\u00eancia de uma coordena\u00e7\u00e3o racional por parte dos Estados capitalistas, que \u00e9 na realidade imposs\u00edvel, a reprodu\u00e7\u00e3o do capital imp\u00f5e a sua din\u00e2mica an\u00e1rquica e irracional sobre todas as dimens\u00f5es da realidade social.<br \/>\nDo ponto de vista do capital, o fato de que as mercadorias satisfa\u00e7am ou n\u00e3o alguma necessidade humana concreta \u00e9 indiferente. Tanto alimentos quanto bombas at\u00f4micas s\u00e3o igualmente ve\u00edculos para a realiza\u00e7\u00e3o do valor.<br \/>\nPara contornar as crises de superprodu\u00e7\u00e3o, o capitalismo desenvolveu uma s\u00e9rie de formas de consumo, estimulando a sociedade a adquirir uma ampla variedade de mercadorias que n\u00e3o correspondem a nenhuma necessidade real. Dentre essas formas de consumo podemos destacar:<br \/>\n1\u00ba) O consumo de armamentos pelo Estado. Quer sejam de fato utilizados em guerras ou apenas estocados em arsenais apocal\u00edpticos de alt\u00edssimo custo, os armamentos propiciam uma importante fonte de demanda para absorver de modo perdul\u00e1rio e irracional a capacidade produtiva crescente;<br \/>\n2\u00ba) O consumo de artigos de luxo pela burguesia, tais como mans\u00f5es, iates, carros de luxo, j\u00f3ias, alta costura, alta gastronomia, viagens, etc.;<br \/>\n3\u00ba) O consumo individualizado de bens de alto valor pela classe trabalhadora (casas, carros, eletrodom\u00e9sticos, etc.), ao inv\u00e9s do uso racional de servi\u00e7os p\u00fablicos;<br \/>\n4\u00ba) A cria\u00e7\u00e3o de novas necessidades (computadores individuais, telefones celulares com c\u00e2mera fotogr\u00e1fica, TVs de plasma, etc.) em ritmo constante, de modo que haja sempre uma corrida dos consumidores, at\u00e9 mesmo dos trabalhadores mais pobres, para se \u201catualizar\u201d em rela\u00e7\u00e3o aos lan\u00e7amentos e novidades do mercado.<br \/>\nEsse ac\u00famulo escandaloso de objetos sup\u00e9rfluos \u00e9 absurdamente considerado natural mesmo que a grande maioria da humanidade ainda n\u00e3o tenha sequer suas necessidades b\u00e1sicas atendidas e sua sobreviv\u00eancia material assegurada, o que expressa dramaticamente a brutal invers\u00e3o de valores e prioridades vigente nessa sociedade;<br \/>\n5\u00ba) A taxa de utiliza\u00e7\u00e3o decrescente das mercadorias. A cria\u00e7\u00e3o de novas necessidades caminha paralelamente com a subutiliza\u00e7\u00e3o e a desvaloriza\u00e7\u00e3o precoce dos objetos existentes. Antes mesmo de terem sua utilidade concreta esgotada pelo consumo, as mercadorias s\u00e3o substitu\u00eddas por novos artigos. Esses novos artigos, por sua vez, j\u00e1 cont\u00e9m em sua constitui\u00e7\u00e3o a obsolesc\u00eancia programada: s\u00e3o produzidos para durar pouco e serem por sua vez precocemente substitu\u00eddos por objetos ainda mais novos. Isso configura mais um aspecto da forma especificamente capitalista de produ\u00e7\u00e3o destrutiva;<br \/>\nAs conseq\u00fc\u00eancias do funcionamento destrutivo do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista se manifestam numa s\u00e9rie de sintomas delet\u00e9rios:<br \/>\n1\u00ba) Esgotamento dos recursos naturais como min\u00e9rios, mat\u00e9rias-primas em geral, fontes de \u00e1gua doce, terras f\u00e9rteis, etc., por conta da explora\u00e7\u00e3o predat\u00f3ria;<br \/>\n2\u00ba) Esgotamento das fontes de energia, em especial dos combust\u00edveis f\u00f3sseis;<br \/>\n3\u00ba) Deteriora\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de vida nas grandes cidades (faveliza\u00e7\u00e3o, colapso do transporte, barb\u00e1rie social);<br \/>\n4\u00b0) Degrada\u00e7\u00e3o ambiental (ac\u00famulo de lixo, polui\u00e7\u00e3o das \u00e1guas, do ar, aquecimento global, desordens clim\u00e1ticas, ondas de frio e calor, secas e inunda\u00e7\u00f5es, destrui\u00e7\u00e3o de florestas, extin\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies animais, perda de biodiversidade, etc.);<br \/>\nO recente reconhecimento do Painel Intergovernamental sobre Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas (IPCC) da ONU de que a emiss\u00e3o de gases provocada pela queima de combust\u00edveis f\u00f3sseis \u00e9 respons\u00e1vel pela eleva\u00e7\u00e3o da temperatura m\u00e9dia no planeta (efeito estufa) n\u00e3o foi acompanhada de nenhuma medida pr\u00e1tica para mudar a matriz energ\u00e9tica mundial. N\u00e3o existe autoridade pol\u00edtica nacional ou internacional no interior do sistema capitalista capaz de impedir que a burguesia mundial continue explorando essa matriz energ\u00e9tica ou dando curso a diversas outras pr\u00e1ticas de produ\u00e7\u00e3o destrutiva, sacrificando o futuro da humanidade ao seu lucro imediato. Apenas a destrui\u00e7\u00e3o do capitalismo e a constru\u00e7\u00e3o do socialismo pode sustar a atual destrui\u00e7\u00e3o do meio ambiente global, remediar os estragos de dois s\u00e9culos de capitalismo e estabelecer formas racionais de aproveitamento dos recursos naturais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0<strong> \u00a0CRISE ENERG\u00c9TICA<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0 \u00a0Um dos limites estruturais mais importantes dos quais o sistema capitalista se aproxima \u00e9 o da explora\u00e7\u00e3o das fontes de energia. A economia capitalista se estruturou nos \u00faltimos dois s\u00e9culos em torno do aproveitamento de fontes de energia baseadas em combust\u00edveis f\u00f3sseis (carv\u00e3o e petr\u00f3leo) n\u00e3o-renov\u00e1veis. Al\u00e9m dos problemas ambientais que o uso desse tipo de combust\u00edvel acarreta, a sua utiliza\u00e7\u00e3o esbarra na disponibilidade f\u00edsica das reservas naturais economicamente aproveit\u00e1veis.<br \/>\nNo caso espec\u00edfico do petr\u00f3leo, al\u00e9m de fonte de energia, trata-se tamb\u00e9m da mat\u00e9ria-prima b\u00e1sica de uma enorme diversidade de produtos (borracha sint\u00e9tica, materiais de constru\u00e7\u00e3o, tubula\u00e7\u00f5es, pl\u00e1sticos, utens\u00edlios dom\u00e9sticos, embalagens, tecidos, rem\u00e9dios, cosm\u00e9ticos, tintas, etc.) que se tornaram essenciais para a vida cotidiana, com conseq\u00fc\u00eancias ambientais tamb\u00e9m problem\u00e1ticas.<br \/>\nA crise econ\u00f4mica atual foi antecedida pelo 3\u00ba choque dos pre\u00e7os do petr\u00f3leo (tendo os dois primeiros ocorrido em 1973 e 1979), que trouxe novamente \u00e0 discuss\u00e3o a aproxima\u00e7\u00e3o do fim das reservas economicamente aproveit\u00e1veis. Ainda que o choque de 2008 tenha tido componentes especulativos (assim como a alta dos pre\u00e7os dos alimentos no mesmo per\u00edodo) conjunturais, teve tamb\u00e9m um componente estrutural relacionado \u00e0 proximidade do esgotamento das reservas.<br \/>\nTrata-se de uma quest\u00e3o particularmente dram\u00e1tica pelo fato de que as fontes alternativas de energia, sejam renov\u00e1veis (solar, e\u00f3lica, hidrel\u00e9trica, biocombust\u00edveis) ou tamb\u00e9m n\u00e3o-renov\u00e1veis (nuclear), n\u00e3o possuem viabilidade econ\u00f4mica para explora\u00e7\u00e3o em massa nos marcos das rela\u00e7\u00f5es capitalistas de produ\u00e7\u00e3o, mesmo que j\u00e1 possuam viabilidade t\u00e9cnica.<br \/>\nA impossibilidade de substituir a matriz energ\u00e9tica da humanidade por fontes de energia renov\u00e1veis e n\u00e3o poluentes por conta da vig\u00eancia das rela\u00e7\u00f5es capitalistas \u00e9 mais um elemento estrutural poderoso que dep\u00f5e contra a continuidade desse modo de produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0 \u00a0<strong>CRISE ALIMENTAR<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0 \u00a0Em que pese o aumento bruto da produ\u00e7\u00e3o mundial de alimentos, as formas especificamente capitalistas de distribui\u00e7\u00e3o impedem que uma parte significativa da humanidade tenha a condi\u00e7\u00e3o de adquirir os alimentos b\u00e1sicos para sua sobreviv\u00eancia.<br \/>\nSegundo reportagem da ALAI (Ag\u00eancia Latino americana de Informa\u00e7\u00e3o) de 05\/01\/2009, at\u00e9 a d\u00e9cada de 1960 os pa\u00edses da \u00c1sia, \u00c1frica e Am\u00e9rica Latina produziam excedentes agr\u00edcolas export\u00e1veis da ordem de US$ 7 bilh\u00f5es anuais, num sistema em que a maior parte das terras, das sementes e do processo de produ\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o era controlado por pequenos camponeses. No final da d\u00e9cada de 1980 esse excedente j\u00e1 havia desaparecido. A causa dessa invers\u00e3o est\u00e1 no controle das grandes empresas transnacionais sobre a produ\u00e7\u00e3o de alimentos. Atualmente 82% do mercado de sementes est\u00e1 controlado por patentes comerciais, sendo que 67% pertencem a um grupo de apenas 10 empresas. As produtoras de sementes s\u00e3o as mesmas empresas que controlam 89% do mercado de agrot\u00f3xicos. Essas mesmas empresas, por sua vez, controlam tamb\u00e9m 63% do mercado de medicina veterin\u00e1ria.<br \/>\nNo terreno da distribui\u00e7\u00e3o, as 10 maiores processadoras de alimentos controlam 26% do mercado mundial, e 100 cadeias de supermercados controlam 40%. Esses n\u00fameros vem crescendo aceleradamente, passando de US$ 29 bilh\u00f5es (sementes), US$ 259 bilh\u00f5es (processadoras) e US$ 501 bilh\u00f5es (distribuidoras) em 2002 para 49, 339 e 720 bilh\u00f5es em 2007, respectivamente. A rede Wall Mart sozinha \u00e9 a 26\u00aa maior economia do planeta, com um porte maior do que o PIB de pa\u00edses inteiros como Dinamarca, Portugal, Venezuela e Cingapura, receptora de 10% do total das exporta\u00e7\u00f5es da China.<br \/>\nA maior parte dessas corpora\u00e7\u00f5es \u00e9 controlada por fundos especulativos, cujos gerentes individualmente receberam uma m\u00e9dia de US$ 588 milh\u00f5es em 2007, cifra 19 mil vezes maior do que a remunera\u00e7\u00e3o anual de um trabalhador estadunidense m\u00e9dio, e 50 mil vezes a de um latino-americano.<br \/>\nO resultado dessa concentra\u00e7\u00e3o e especula\u00e7\u00e3o foi um aumento de 31% nos pre\u00e7os do milho, 74% do arroz, 87% da soja e 130% do trigo, em 2008. A carestia e a fome provocaram rebeli\u00f5es populares em 30 pa\u00edses. Os pre\u00e7os retrocederam depois desse pico, mas permanecem muito acima dos n\u00edveis de 2007. No in\u00edcio de 2009, um informe da FAO publicado em 30\/03 numa confer\u00eancia da ONU na Tail\u00e2ndia revelou que 32 pa\u00edses enfrentam situa\u00e7\u00f5es de emerg\u00eancia alimentar, amea\u00e7ando um total de 963 milh\u00f5es de pessoas (1\/7 da popula\u00e7\u00e3o mundial) com desnutri\u00e7\u00e3o ou fome.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0\u00a0 \u00a0CRISE CIVILIZACIONAL<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0 \u00a0A crise econ\u00f4mica iniciada em 2007-2008 \u00e9 a primeira crise do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista plenamente mundializado. \u00c9 uma crise da economia-mundo, que se inicia no n\u00facleo do sistema capitalista e cujas ondas conc\u00eantricas se irradiam sobre todos os rinc\u00f5es do planeta, sem exce\u00e7\u00e3o. Todas as sociedades sentem o seu impacto e est\u00e3o confrontadas com os impasses que a crise imp\u00f5e.<br \/>\nAtrav\u00e9s dos vasos comunicantes da economia a crise se espalha mundialmente e se materializa num momento em que uma s\u00e9rie de outras contradi\u00e7\u00f5es v\u00eam \u00e0 tona e colocam em evid\u00eancia a crise do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista tomado como uma totalidade.<br \/>\nO fato de que a crise tenha explodido nos Estados Unidos, o pr\u00f3prio centro do sistema, demonstra que o seu \u201cmodelo\u201d de sociedade n\u00e3o \u00e9 vi\u00e1vel.<br \/>\nO fato de que os economistas tenham se mostrado impotentes para conter a crise demonstra a fal\u00eancia ideol\u00f3gica da teoria e do projeto pol\u00edtico neoliberal.<br \/>\nO fato de que as autoridades pol\u00edticas mundiais n\u00e3o tenham chegado a um acordo sobre formas conjuntas de administrar a crise e se coloquem em aberta rivalidade na defesa dos interesses particulares de cada burguesia nacional demonstra que o Estado burgu\u00eas n\u00e3o pode servir como instrumento eficaz para gerir as quest\u00f5es de interesse da humanidade.<br \/>\nO recente reconhecimento da rela\u00e7\u00e3o entre a queima de combust\u00edveis f\u00f3sseis e o efeito estufa \u00e9 s\u00f3 mais um exemplo dos in\u00fameros e graves danos ambientais que o capitalismo est\u00e1 causando ao planeta e que precisam ser urgentemente revertidos.<br \/>\nA eleva\u00e7\u00e3o dos pre\u00e7os do petr\u00f3leo pouco antes da eclos\u00e3o da crise trouxe o alerta sobre a necessidade de mudar a atual matriz energ\u00e9tica.<br \/>\nA alta dos pre\u00e7os dos alimentos quase no mesmo momento provocou revoltas em 30 pa\u00edses e demonstra a irracionalidade de um sistema econ\u00f4mico capaz de fazer a abund\u00e2ncia produtiva conviver com a amea\u00e7a da fome que paira sobre quase um bilh\u00e3o de pessoas.<br \/>\nN\u00e3o \u00e9 apenas a economia, mas tamb\u00e9m a pol\u00edtica, a ideologia e o meio ambiente que se defrontam com s\u00e9rios problemas. Todos esses fen\u00f4menos quase simult\u00e2neos vieram se somar \u00e0 guerra, \u00e0 mis\u00e9ria, \u00e0 doen\u00e7a, \u00e0 viol\u00eancia, \u00e0 neurose e \u00e0s diversas outras formas de barb\u00e1rie com que convive a maioria da humanidade. Como se j\u00e1 n\u00e3o houvesse provas suficientes do fracasso do capitalismo enquanto forma de organiza\u00e7\u00e3o da vida social, a atual crise veio acrescentar toda uma nova s\u00e9rie.<br \/>\nO pensamento dominante, oriundo da l\u00f3gica social burguesa, sendo incapaz de explicar a realidade e sua crise, precisa refugiar-se na nega\u00e7\u00e3o pura e simples da pr\u00f3pria exist\u00eancia da realidade. A nega\u00e7\u00e3o de qualquer sentido para a a\u00e7\u00e3o humana no mundo, individual e coletiva, \u00e9 o conte\u00fado das filosofias irracionalistas do p\u00f3s-modernismo, em suas diversas variantes. Experimenta-se uma crise da ci\u00eancia, da arte, da literatura, da cultura de modo geral, que com raras exce\u00e7\u00f5es s\u00e3o hoje incapazes de fornecer respostas e comunicar um conte\u00fado em que o humano possa se reconhecer como humano. Isso abre espa\u00e7o para o crescimento dos fundamentalismos religiosos e para diversas formas de pragmatismo, cinismo, ceticismo e niilismo, que inclusive abrem terreno para solu\u00e7\u00f5es pol\u00edticas autorit\u00e1rias de cunho neo-fascista.<br \/>\nO fracasso do capitalismo se projeta tamb\u00e9m no plano das rela\u00e7\u00f5es humanas mais elementares. O estranhamento, a indiferen\u00e7a, a apatia, a insensibilidade, a solid\u00e3o, a depress\u00e3o, a frustra\u00e7\u00e3o, o \u00f3dio indiscriminado s\u00e3o os sentimentos dominantes. Os assassinatos em s\u00e9rie, suic\u00eddios, estupros, pedofilia, crueldade, sadismo, atos de barb\u00e1rie e loucura s\u00e3o sintomas de uma ordem social incapaz de fornecer um sentido para a vida.<br \/>\nA simultaneidade e a articula\u00e7\u00e3o entre os diversos fen\u00f4menos, a profundidade dos problemas e a multiplicidade de n\u00edveis da realidade que est\u00e3o sendo atingidos permitem dizer que n\u00e3o \u00e9 apenas a economia capitalista mundial que est\u00e1 em crise, mas o conjunto da civiliza\u00e7\u00e3o. O capitalismo somente se reproduz por meio da a\u00e7\u00e3o humana, de modo que \u00e9 a pr\u00f3pria humanidade que est\u00e1 em crise.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0\u00a0 \u00a0CRISE DA ALTERNATIVA SOCIALISTA<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0 \u00a0As crises anteriores do sistema capitalista j\u00e1 provocaram cat\u00e1strofes como as duas guerras mundiais, em que se sobressaem pesadelos como o holocausto nuclear e os campos de concentra\u00e7\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 limites para a burguesia em termos de barb\u00e1rie quando se trata de defender seus interesses. Novas ondas de barb\u00e1rie podem estar reservadas para o futuro conforme a crise se aprofunde e haja uma polariza\u00e7\u00e3o da luta de classes.<br \/>\nA contra-revolu\u00e7\u00e3o latente se projeta no presente na forma dos espectros da guerra, da militariza\u00e7\u00e3o dos conflitos, da multiplica\u00e7\u00e3o dos aparatos de repress\u00e3o, espionagem, vigil\u00e2ncia e controle social, das medidas de criminaliza\u00e7\u00e3o do movimento social, da persegui\u00e7\u00e3o aos ativistas e lideran\u00e7as. A contra-revolu\u00e7\u00e3o s\u00f3 pode ser detida por meio do avan\u00e7o da revolu\u00e7\u00e3o.<br \/>\nA revolu\u00e7\u00e3o se apresenta como uma necessidade objetiva. Milh\u00f5es de trabalhadores est\u00e3o perdendo seus empregos, tanto nos pa\u00edses centrais como na periferia, confrontados com a imin\u00eancia da mis\u00e9ria. Ao mesmo tempo, a falsidade e a hipocrisia dos discursos pol\u00edticos, nos quais se pede que os trabalhadores suportem \u201csua cota de sacrif\u00edcio\u201d para que se possa \u201csair da crise\u201d, enquanto os especuladores embolsam impunemente seus milh\u00f5es de d\u00f3lares, tornam cada vez mais transparente o car\u00e1ter de domina\u00e7\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o inerentes ao sistema. A burguesia se demonstra incapaz de gerir a crise, respondendo por meio da mistifica\u00e7\u00e3o e da viol\u00eancia.<br \/>\nO fato de que a decomposi\u00e7\u00e3o do capitalismo tenha se tornado evidente na forma do fen\u00f4meno multifacetado da crise civilizacional n\u00e3o \u00e9 por si s\u00f3 uma garantia autom\u00e1tica de que esse sistema venha de fato a desaparecer. E muito menos assegura que, caso sobrevenha essa desapari\u00e7\u00e3o, quer ela tome a forma de violentas convuls\u00f5es, quer de uma prolongada e calma putrefa\u00e7\u00e3o, isso seja o sin\u00f4nimo da afirma\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica de um sistema societ\u00e1rio alternativo vi\u00e1vel e auto-constituinte. A constru\u00e7\u00e3o de uma alternativa societ\u00e1ria global ao capitalismo s\u00f3 pode se dar por meio da a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica coletiva, consciente e organizada da classe trabalhadora mundial.<br \/>\nO maior problema est\u00e1 em que a crise do capitalismo coincide com a crise da alternativa socialista. O socialismo est\u00e1 ausente da consci\u00eancia das massas como um projeto a ser constru\u00eddo a partir da transforma\u00e7\u00e3o da realidade presente. O descr\u00e9dito do projeto socialista provocado pela queda da URSS e pelo fracasso dos demais regimes burocratizados que lhe seguiram o exemplo se transformou em descren\u00e7a na capacidade da a\u00e7\u00e3o humana de transformar a realidade, refor\u00e7ados pela propaganda maci\u00e7a das solu\u00e7\u00f5es individuais pautadas na l\u00f3gica burguesa da competi\u00e7\u00e3o.<br \/>\nOs organismos de luta da classe trabalhadora, partidos pol\u00edticos, sindicatos e movimentos sociais, est\u00e3o integrados \u00e0 administra\u00e7\u00e3o da ordem estabelecida e canalizam a insatisfa\u00e7\u00e3o dos trabalhadores para o beco sem sa\u00edda da colabora\u00e7\u00e3o de classes com a burguesia.<br \/>\nOs setores que defendem uma sa\u00edda socialista e revolucion\u00e1ria se encontram organizativamente fragmentados, entregues \u00e0 miopia das disputas sect\u00e1rias e o que \u00e9 mais grave, incapazes de se conectar com a realidade do proletariado e se comunicar com os trabalhadores. As li\u00e7\u00f5es da derrota das experi\u00eancias do s\u00e9culo XX ainda n\u00e3o foram tiradas, o que impede as organiza\u00e7\u00f5es de alcan\u00e7ar uma consci\u00eancia adequada da realidade e das tarefas que est\u00e3o colocadas. As organiza\u00e7\u00f5es continuam atuando com m\u00e9todos herdados das experi\u00eancias derrotadas, religiosamente aferradas a palavras de ordem fossilizadas e profundamente avessas ao exame cr\u00edtico e auto-cr\u00edtico.<br \/>\nNos per\u00edodos de crise os enfrentamentos se multiplicam e tamb\u00e9m a possibilidade dos saltos de consci\u00eancia, individuais e coletivos. Aumenta tamb\u00e9m a possibilidade de ganhar os trabalhadores com a propaganda do socialismo. Mas para que isso aconte\u00e7a \u00e9 fundamental que os socialistas demonstrem na pr\u00e1tica o funcionamento de suas id\u00e9ias. Os meios tem que ser compat\u00edveis com os fins. O respeito aos m\u00e9todos da democracia oper\u00e1ria se torna crucial para ganhar a confian\u00e7a dos trabalhadores e resgatar a pr\u00f3pria id\u00e9ia de a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e o projeto do socialismo do descr\u00e9dito em que se encontram.<br \/>\nA reconstru\u00e7\u00e3o do projeto socialista passa pela edifica\u00e7\u00e3o de uma refer\u00eancia organizativa, de car\u00e1ter nacional e tamb\u00e9m no plano internacional, que funcione como uma dire\u00e7\u00e3o em que os trabalhadores possam se sentir representados e por meio da qual possam se tornar os autores da pr\u00f3pria emancipa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0 \u00a0<strong>PROPOSTA DE RESOLU\u00c7\u00c3O POL\u00cdTICA INTERNACIONAL<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0 \u00a01 A crise econ\u00f4mica segue se aprofundando, com uma tend\u00eancia \u00e0 depress\u00e3o se desenhando no horizonte. As tentativas da burguesia de conten\u00e7\u00e3o da crise por meio de medidas econ\u00f4micas, como a inje\u00e7\u00e3o de quantidades massivas de dinheiro no mercado, t\u00eam o efeito de adiar momentaneamente a acelera\u00e7\u00e3o da crise. Entretanto, uma solu\u00e7\u00e3o mais profunda para a crise, do ponto de vista da burguesia, s\u00f3 pode se dar no plano da luta de classes, da disputa pol\u00edtica, de um ataque brutal contra a classe trabalhadora mundial. A burguesia precisa reverter todas as conquistas sociais do proletariado, de modo a extrair quantidades ainda maiores de mais-valia e retomar o processo de valoriza\u00e7\u00e3o do capital deteriorado em seu poder. Est\u00e3o na al\u00e7a de mira da burguesia os empregos, os sal\u00e1rios, as condi\u00e7\u00f5es de trabalho e os direitos conquistados pelos trabalhadores em s\u00e9culos de luta.<br \/>\n2 O imperialismo n\u00e3o disp\u00f5e hoje da capacidade pol\u00edtica para desencadear, no curto prazo, um ataque na escala daquele que seria necess\u00e1rio. A crise irrompe e se irradia justamente a partir da maior pot\u00eancia imperialista, que s\u00e3o os Estados Unidos. Isso fragiliza a capacidade de iniciativa dos Estados Unidos, que j\u00e1 vinha sendo desgastada pelos processos de resist\u00eancia contra as ocupa\u00e7\u00f5es militares no Oriente M\u00e9dio e contra as pol\u00edticas neoliberais na Am\u00e9rica Latina (ainda que distorcidos pelo nacionalismo burocr\u00e1tico). Os Estados Unidos j\u00e1 n\u00e3o podem impor unilateralmente a sua pol\u00edtica e ao mesmo tempo as outras personifica\u00e7\u00f5es do capital, como a burguesia europ\u00e9ia e a burocracia chinesa tamb\u00e9m apresentam resist\u00eancia aos ditames estadunidenses, em nome de seus pr\u00f3prios interesses. A impossibilidade de coordena\u00e7\u00e3o do imperialismo diante da crise, as rivalidades entre as diversas burguesias e a resist\u00eancia dos povos configuram uma situa\u00e7\u00e3o de crise da domina\u00e7\u00e3o imperialista.<br \/>\n3 A crise econ\u00f4mica atual representa a culmina\u00e7\u00e3o de uma s\u00e9rie de processos no decorrer dos quais os diversos modelos capitalistas de administra\u00e7\u00e3o da vida social, do keynesianismo ao neoliberalismo, demonstraram materialmente a sua inviabilidade. O capitalismo aparece nessa crise como um sistema ideologicamente derrotado. A consuma\u00e7\u00e3o da ascend\u00eancia hist\u00f3rica do capital, a sua afirma\u00e7\u00e3o como um sistema mundializado, tem como resultado a sua auto-nega\u00e7\u00e3o. A crise econ\u00f4mica coincide tamb\u00e9m com a crise ambiental, energ\u00e9tica, alimentar, cultural. Todas essas facetas da crise atual se articulam e configuram o esgotamento do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista como uma totalidade, ou seja, uma crise civilizacional, que aponta para a necessidade cada vez mais evidente de superar o capitalismo.<br \/>\n4 A crise da domina\u00e7\u00e3o imperialista, a crise ideol\u00f3gica do capitalismo, a crise civilizacional da humanidade, s\u00e3o fen\u00f4menos de largo alcance hist\u00f3rico que se tornam n\u00edtidos no decurso de uma crise econ\u00f4mica que tende para a depress\u00e3o. O significado desses fen\u00f4menos \u00e9 uma mudan\u00e7a no car\u00e1ter da situa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, a emerg\u00eancia de uma nova situa\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria em n\u00edvel mundial. As personifica\u00e7\u00f5es do capital n\u00e3o disp\u00f5em das ferramentas te\u00f3ricas e pr\u00e1ticas para administrar o sistema em crise. E a crise do sistema colocar\u00e1 para amplos setores do proletariado mundial a necessidade de entrar em luta para defender sua pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia, uma luta que s\u00f3 poder\u00e1 ser bem-sucedida se apontar para a supera\u00e7\u00e3o do capital.<br \/>\n5 O sistema capitalista mundial convive com a exist\u00eancia de uma multiplicidade de Estados nacionais, que respondem aos interesses das fra\u00e7\u00f5es nacionais da burguesia. A crise tende a agravar as rivalidades interimperialistas, em fun\u00e7\u00e3o da disputa pelas fontes de mat\u00e9rias-primas. Tal disputa for\u00e7ar\u00e1 o imperialismo a aprofundar os processos de recoloniza\u00e7\u00e3o direta da periferia. Nesse processo devem se agravar as guerras de ocupa\u00e7\u00e3o imperialistas, as guerras civis fomentadas pelo imperialismo, a escalada dos regimes autorit\u00e1rios, a militariza\u00e7\u00e3o dos conflitos sociais e o fortalecimento dos aparatos repressivos. A escalada de militariza\u00e7\u00e3o e repress\u00e3o coloca no primeiro plano a defesa do direito \u00e0 autodetermina\u00e7\u00e3o dos povos, a luta contra as ocupa\u00e7\u00f5es imperialistas, e no plano interno, a defesa das liberdades democr\u00e1ticas, do direito de greve, do direito de organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, da liberdade de express\u00e3o, e contra a criminaliza\u00e7\u00e3o dos movimentos sociais.<br \/>\n6 Do ponto de vista ideol\u00f3gico, o imperialismo precisa justificar suas interven\u00e7\u00f5es apresentando as oposi\u00e7\u00f5es \u00e0 pol\u00edtica da burguesia como express\u00f5es da barb\u00e1rie e do irracional. O imperialismo precisa criar um falso advers\u00e1rio \u2013 o terrorismo, por exemplo \u2013 para desencadear um ataque real contra a classe trabalhadora. Nesse contexto se enquadra tamb\u00e9m a persegui\u00e7\u00e3o aos imigrantes nos pa\u00edses imperialistas, a divis\u00e3o do proletariado em fun\u00e7\u00e3o de rivalidades \u00e9tnicas, religiosas, ling\u00fc\u00edsticas, culturais. Esse tipo de divis\u00e3o d\u00e1 a oportunidade para o reaparecimento pol\u00edtico da xenofobia, do racismo, do nacionalismo e do fascismo.<br \/>\n7 A mundializa\u00e7\u00e3o do capital dissolve o controle do Estado burgu\u00eas sobre a organiza\u00e7\u00e3o interna dos espa\u00e7os territoriais sob sua jurisdi\u00e7\u00e3o. Esses espa\u00e7os precisam ser formatados para o usufruto do capital no quadro de uma divis\u00e3o internacional do trabalho espec\u00edfica. Tanto os Estados imperialistas quanto os perif\u00e9ricos t\u00eam um papel espec\u00edfico a cumprir nessa tarefa, com um sentido global de for\u00e7ar a classe trabalhadora a aceitar n\u00edveis maiores de explora\u00e7\u00e3o. Esse imperativo tende a esvaziar as alternativas dispon\u00edveis no interior da democracia burguesa, em dire\u00e7\u00e3o a uma uniformidade no perfil pol\u00edtico dos dirigentes do Estado. Todos os partidos convergem nas formas de administra\u00e7\u00e3o dos interesses do capital, reduzindo as elei\u00e7\u00f5es a uma farsa sem conte\u00fado. Os casos de Obama nos Estados Unidos e Lula no Brasil s\u00e3o paradigm\u00e1ticos desse esvaziamento da democracia burguesa, em que os dirigentes implementam pol\u00edticas opostas \u00e0quelas pelas quais seus eleitores os escolheram.. Para al\u00e9m desse esvaziamento, a democracia burguesa experimentar\u00e1 a necessidade de reprimir os conflitos sociais provocados pela agudiza\u00e7\u00e3o da crise, recorrendo a mecanismos cada vez mais autorit\u00e1rios.<br \/>\n8 Al\u00e9m de incorporar os partidos ditos de oposi\u00e7\u00e3o e coopt\u00e1-los para tarefas inclusive de repress\u00e3o, a democracia burguesa coloca em crise tamb\u00e9m as organiza\u00e7\u00f5es tradicionais da classe trabalhadora. A ofensiva pol\u00edtica e ideol\u00f3gica da burguesia se aprofundou at\u00e9 o ponto de transformar os instrumentos de defesa da classe em \u00f3rg\u00e3os auxiliares de ataque sobre a classe. Os sindicatos deixaram de apresentar oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 degrada\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de vida do proletariado e passaram a ser f\u00f3runs de homologa\u00e7\u00e3o e legitima\u00e7\u00e3o das demiss\u00f5es, redu\u00e7\u00f5es salariais e retirada de direitos, tudo isso em nome da necessidade de colaborar para a supera\u00e7\u00e3o da crise. Essa situa\u00e7\u00e3o \u00e9 o resultado de uma pol\u00edtica secular de limita\u00e7\u00e3o do sindicalismo \u00e0 luta economicista, desprovida de uma perspectiva pol\u00edtica de supera\u00e7\u00e3o do capitalismo.<br \/>\nPara al\u00e9m da degenera\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dos sindicatos, a sua atua\u00e7\u00e3o est\u00e1 comprometida tamb\u00e9m por uma corros\u00e3o mais estrutural, que diz respeito ao esvaziamento da sua fun\u00e7\u00e3o essencial de negociar o pre\u00e7o da for\u00e7a de trabalho. A exist\u00eancia de um mercado mundial de for\u00e7a de trabalho permite \u00e0 burguesia comprar essa mercadoria pelo pre\u00e7o que lhe for mais favor\u00e1vel, retirando qualquer poder de negocia\u00e7\u00e3o dos trabalhadores. Isso traz a necessidade de superar o limite da atua\u00e7\u00e3o sindical em dire\u00e7\u00e3o a a\u00e7\u00f5es radicais, que questionem a propriedade dos meios de produ\u00e7\u00e3o, por meio das ocupa\u00e7\u00f5es de f\u00e1brica e exig\u00eancias de encampa\u00e7\u00e3o dos empreendimentos capitalistas que ameacem fechar ou se deslocar para outros pa\u00edses. A crise atual j\u00e1 provocou algumas a\u00e7\u00f5es desse tipo, que no entanto n\u00e3o se generalizaram.<br \/>\n9 No plano da pol\u00edtica mais geral, a oposi\u00e7\u00e3o ao imperialismo vinha sendo monopolizada pelo nacionalismo burocr\u00e1tico, fen\u00f4meno tipicamente latino-americano, do qual o chavismo \u00e9 o prot\u00f3tipo. Essa alternativa n\u00e3o rompe com o capitalismo, mas faz concess\u00f5es \u00e0s massas, garantindo respaldo eleitoral. Em face da crise do capitalismo, a burocracia procurar\u00e1 preservar seu controle sobre o Estado, garantindo sua base de sustenta\u00e7\u00e3o social, recorrendo se preciso a medidas autorit\u00e1rias contra os trabalhadores mais mobilizados, mas mantendo tamb\u00e9m dist\u00e2ncia do imperialismo. Isso significa, de um lado, um avan\u00e7o das nacionaliza\u00e7\u00f5es chavistas, e de outro uma redu\u00e7\u00e3o do ritmo da restaura\u00e7\u00e3o capitalista na China ou em Cuba. Em ambos os casos, as burocracias precisar\u00e3o impedir o desenvolvimento de alternativas pol\u00edticas anti-capitalistas e socialistas entre as massas.<br \/>\n10 A quest\u00e3o mais imediata com a qual est\u00e1 defrontado o proletariado mundial \u00e9 o emprego. A primeira rea\u00e7\u00e3o da burguesia diante da crise \u00e9 a extin\u00e7\u00e3o de empregos. E os surtos de recupera\u00e7\u00e3o do mercado de a\u00e7\u00f5es (tido pela imprensa burguesa como prova da recupera\u00e7\u00e3o da economia) que ocorrem no interior da crise acontecem sem que haja uma retomada do emprego. O capitalismo aprofunda cada vez mais a preval\u00eancia do trabalho morto sobre o trabalho vivo. A defesa do emprego passa pela nega\u00e7\u00e3o da l\u00f3gica do capital, atrav\u00e9s da reivindica\u00e7\u00e3o de redu\u00e7\u00e3o de jornada sem redu\u00e7\u00e3o de sal\u00e1rio, para que haja emprego para todos, e que os trabalhadores se beneficiem dos avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos hoje apropriados pela burguesia.<br \/>\n11 O controle da produ\u00e7\u00e3o de alimentos pelo capital, na figura das mega-corpora\u00e7\u00f5es transnacionais da ind\u00fastria aliment\u00edcia, \u00e9 uma das quest\u00f5es cruciais com as quais estar\u00e1 enfrentado o proletariado no pr\u00f3ximo per\u00edodo. A alta dos pre\u00e7os dos alimentos e as revoltas em dezenas de pa\u00edses, imediatamente antes da crise, foram provocados pelo controle do latif\u00fandio e do agroneg\u00f3cio sobre a produ\u00e7\u00e3o de alimentos, o que demonstra a incapacidade do capitalismo de atender as necessidades humanas. A defesa da vida, da produ\u00e7\u00e3o de alimentos saud\u00e1veis e de forma sustent\u00e1vel, passa pela defesa do controle da terra pelos trabalhadores.<br \/>\n12 A crise tende a colocar as massas em movimento em defesa de suas condi\u00e7\u00f5es de vida. Trabalhadores j\u00e1 se mobilizam em todos os continentes, com ritmos e intensidades diferentes, em defesa do emprego, dos sal\u00e1rios, dos direitos sociais ou at\u00e9 mesmo pelo simples acesso a alimentos. Entretanto, as lutas de resist\u00eancia est\u00e3o atomizadas, limitadas a setores particulares da classe em cada pa\u00eds, sem atingir a massa cr\u00edtica suficiente para mobilizar o conjunto do proletariado e impulsionar uma ruptura da ordem. As lutas s\u00e3o limitadas pela aus\u00eancia de uma perspectiva de supera\u00e7\u00e3o do capitalismo. Faz-se sentir com todo o peso o retrocesso na consci\u00eancia dos trabalhadores das \u00faltimas d\u00e9cadas, a crise da alternativa socialista.<br \/>\n13 A crise do capitalismo \u00e9 uma crise que afeta a totalidade do modo de vida. A resposta da classe trabalhadora precisa tamb\u00e9m, al\u00e9m de defender as condi\u00e7\u00f5es imediatas de vida, repensar a totalidade do processo de reprodu\u00e7\u00e3o social. O atual padr\u00e3o de consumo perdul\u00e1rio e destrutivo precisa ser substitu\u00eddo por uma forma racional de gest\u00e3o dos recursos naturais e tecnol\u00f3gicos, que coloque a produ\u00e7\u00e3o a servi\u00e7o das necessidades humanas, e contemple inclusive a revers\u00e3o dos danos ambientais provocados pelo capitalismo, a busca de fontes de energia renov\u00e1veis em substitui\u00e7\u00e3o aos combust\u00edveis f\u00f3sseis, e a garantia do fornecimento de uma alimenta\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel e produzida de forma sustent\u00e1vel para todos os seres humanos.<br \/>\n14 A crise do capitalismo coincide com a crise da alternativa socialista. As organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas revolucion\u00e1rias a quem caberia a tarefa de desenvolver a consci\u00eancia socialista se encontram numa situa\u00e7\u00e3o de marginalidade social e pol\u00edtica, sem inser\u00e7\u00e3o e influ\u00eancia junto \u00e0 classe. A esquerda em n\u00edvel mundial n\u00e3o se recuperou da derrota pol\u00edtica provocada pela queda da URSS e do seu modelo. Esse estado de prostra\u00e7\u00e3o se deve \u00e0 incapacidade de explicar os motivos da derrota do socialismo na URSS e \u00e0 persist\u00eancia de concep\u00e7\u00f5es fossilizadas e m\u00e9todos auto-proclamat\u00f3rios em substitui\u00e7\u00e3o a uma explica\u00e7\u00e3o real. A reconstru\u00e7\u00e3o do projeto socialista passa pela supera\u00e7\u00e3o do desafio te\u00f3rico de explicar as derrotas do socialismo no s\u00e9culo XX, mas acima de tudo pelo desafio pr\u00e1tico de reconstruir o projeto socialista como alternativa pol\u00edtica, social e civilizat\u00f3ria para a classe trabalhadora.<br \/>\nO movimento oper\u00e1rio carece de uma dire\u00e7\u00e3o conseq\u00fcente. Nos locais em que as lutas est\u00e3o mais avan\u00e7adas, os governos burgueses derrubados pela mobiliza\u00e7\u00e3o popular foram sucedidas por outros governos burgueses. N\u00e3o h\u00e1 avan\u00e7o na consci\u00eancia. Os partidos revolucion\u00e1rios, com o fetiche da constru\u00e7\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o a qualquer custo, transformam o movimento em sua propriedade. O crescimento da organiza\u00e7\u00e3o deve estar servi\u00e7o do crescimento do movimento. Isso n\u00e3o significa que se deve secundarizar o papel e a import\u00e2ncia do partido.<br \/>\n15 As lutas defensivas da classe trabalhadora contra os efeitos da crise precisam superar a aus\u00eancia de uma alternativa organizativa que sirva como refer\u00eancia pol\u00edtica e ideol\u00f3gica do socialismo. A alternativa organizativa n\u00e3o se constitui apenas de um ou v\u00e1rios partidos ou organiza\u00e7\u00f5es que reivindiquem o socialismo, mas para al\u00e9m disso, de uma inst\u00e2ncia capaz de organizar o setor de vanguarda da classe, na forma de uma frente unit\u00e1ria dos trabalhadores em luta. Essa frente precisa ser capaz de aglutinar as organiza\u00e7\u00f5es sindicais, estudantis, camponesas e populares, conforme a realidade de cada pa\u00eds, com um programa classista e anti-capitalista. \u00c9 preciso que a classe desenvolva uma alternativa unit\u00e1ria e aut\u00f4noma em rela\u00e7\u00e3o aos governos de plant\u00e3o e aos \u00f3rg\u00e3os do Estado burgu\u00eas, capaz de desenvolver a disputa pol\u00edtica e ideol\u00f3gica contra a burguesia e em defesa do socialismo.<br \/>\n16 A defesa do socialismo vai al\u00e9m do combate contra a anarquia da produ\u00e7\u00e3o capitalista no plano econ\u00f4mico ou mesmo ambiental. O desenvolvimento de uma alternativa civilizat\u00f3ria precisa dar conta tamb\u00e9m dos aspectos culturais e subjetivos da vida, sem os quais os indiv\u00edduos n\u00e3o encontram motiva\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica e moral para se envolver em qualquer projeto. A despeito de toda a sua irracionalidade, destrutividade e mis\u00e9ria, o capitalismo mant\u00e9m um fasc\u00ednio sobre os indiv\u00edduos, capaz de mant\u00ea-los atados a suas falsas promessas de realiza\u00e7\u00e3o e felicidade. \u00c9 preciso combater esse fasc\u00ednio por meio da constru\u00e7\u00e3o de ambientes e horizontes reais de emancipa\u00e7\u00e3o e supera\u00e7\u00e3o de todas as formas de aliena\u00e7\u00e3o.<br \/>\n17 A abertura de uma nova situa\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria em n\u00edvel mundial pode ser resolvida pela burguesia por meio da contra-revolu\u00e7\u00e3o. Para que a situa\u00e7\u00e3o seja resolvida em favor da classe trabalhadora, \u00e9 preciso que o movimento socialista recoloque em discuss\u00e3o a quest\u00e3o do poder. A supera\u00e7\u00e3o do capitalismo e a constru\u00e7\u00e3o do socialismo precisar\u00e3o passar pela destrui\u00e7\u00e3o do poder pol\u00edtico da burguesia e pela edifica\u00e7\u00e3o de um contra-poder oper\u00e1rio. Essa deve ser a tarefa dos socialistas em cada pa\u00eds, como parte de uma revolu\u00e7\u00e3o socialista mundial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0<strong> \u00a0PALAVRAS DE ORDEM<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0 \u00a0&#8211; Direito \u00e0 auto-determina\u00e7\u00e3o dos povos. Que os povos de cada pa\u00eds sejam livres para decidir seu destino, sem a interfer\u00eancia de outros Estados.<br \/>\n&#8211; Fora todas as tropas de ocupa\u00e7\u00e3o imperialista ou a seu servi\u00e7o em qualquer territ\u00f3rio. Retirada dos Estados Unidos do Iraque e do Afeganist\u00e3o. Fora Israel de Gaza e da Cisjord\u00e2nia. Destrui\u00e7\u00e3o do muro que isola os povos palestinos. Fora tropas de ocupa\u00e7\u00e3o, inclusive do Brasil, do Haiti e do L\u00edbano. Retirada de todas as bases militares estrangeiras. Retirada das bases militares estadunidenses de todos os pa\u00edses. Retirada das bases da OTAN do leste europeu. Expuls\u00e3o dos agentes de espionagem e de contra-informa\u00e7\u00e3o imperialistas e burgueses.<br \/>\n&#8211; Defesa da soberania dos pa\u00edses, considerados pelos EUA como \u201cEixo do Mal\u201d (Ir\u00e3, Cor\u00e9ia do Norte e Cuba) Contra qualquer san\u00e7\u00e3o, retalia\u00e7\u00e3o ou invas\u00e3o a esses pa\u00edses.<br \/>\n&#8211; Todos os povos t\u00eam o direito de defender seu territ\u00f3rio. Nenhum povo pode ser obrigado a se desarmar enquanto as pot\u00eancias imperialistas dispuserem de arsenais nucleares e de destrui\u00e7\u00e3o de massa e de sistemas de espionagem e contra-informa\u00e7\u00e3o imperialistas e burgueses.<br \/>\n&#8211; Desarmamento de todas as pot\u00eancias nucleares. Desmantelamento dos arsenais de armas de destrui\u00e7\u00e3o em massa. Desmantelamento das armas nucleares, das armas qu\u00edmicas e bacteriol\u00f3gicas. Desmantelamento dos sistemas de espionagem e contra-informa\u00e7\u00e3o.<br \/>\n&#8211; Puni\u00e7\u00e3o a todos os criminosos de guerra em tribunais internacionais permanentes dos trabalhadores, independentemente do pa\u00eds de origem. Fim da tortura e puni\u00e7\u00e3o para todos os seus praticantes.<br \/>\n&#8211; Dissolu\u00e7\u00e3o do Estado de Israel. Por um Estado laico, democr\u00e1tico e que congregue o proletariado multi-\u00e9tnico no territ\u00f3rio da Palestina. Por uma confedera\u00e7\u00e3o socialista do Oriente M\u00e9dio.<br \/>\n&#8211; Soberania inviol\u00e1vel de todas as na\u00e7\u00f5es. Cada povo \u00e9 senhor de seu territ\u00f3rio e das riquezas correspondentes e tem o direito de dispor sobre elas como melhor atender suas necessidades. Solidariedade aos povos dos pa\u00edses com recursos escassos.<br \/>\n&#8211; Controle de cada pa\u00eds sobre os empreendimentos estrangeiros em seu territ\u00f3rio. Fim da remessa de lucros. Estatiza\u00e7\u00e3o do capital financeiro, sob controle dos trabalhadores.<br \/>\n&#8211; Solidariedade \u00e0s lutas dos trabalhadores em todos os cen\u00e1rios onde elas s\u00e3o travadas, independentemente de qual seja o pa\u00eds, religi\u00e3o, etnia ou g\u00eanero dos envolvidos.<br \/>\n&#8211; Pelo n\u00e3o pagamento das d\u00edvidas externas e internas, contra a servid\u00e3o dos povos e dos trabalhadores ao capital financeiro. Os pa\u00edses imperialistas devem reparar os pa\u00edses colonizados e oprimidos pelos anos de saque de suas riquezas naturais e explora\u00e7\u00e3o de suas popula\u00e7\u00f5es. Indeniza\u00e7\u00e3o aos pa\u00edses africanos pelos anos de escraviza\u00e7\u00e3o dos negros.<br \/>\n&#8211; Repara\u00e7\u00f5es pelos Estados Unidos e demais pa\u00edses imperialistas aos pa\u00edses v\u00edtimas de crimes de guerra, pr\u00e1tica de tortura, abusos das transnacionais, crimes ambientais, crimes contra a sa\u00fade p\u00fablica, etc.<br \/>\n&#8211; Puni\u00e7\u00f5es, multas e expropria\u00e7\u00e3o das transnacionais de qualquer proced\u00eancia que violarem a legisla\u00e7\u00e3o de cada pa\u00eds, suas normas trabalhistas, ambientais, fiscais, etc.<br \/>\n&#8211; Revoga\u00e7\u00e3o de todos os para\u00edsos fiscais, pois executam a lavagem de dinheiro da m\u00e1fia, da sonega\u00e7\u00e3o fiscal e da corrup\u00e7\u00e3o. Que todo o dinheiro depositado em contas secretas seja revertido para os pa\u00edses de origem sob controle de seus povos.<br \/>\n&#8211; Dissolu\u00e7\u00e3o da ONU. Por uma organiza\u00e7\u00e3o internacional dos trabalhadores.<br \/>\n&#8211; Regulamenta\u00e7\u00e3o dos direitos trabalhistas para todos os trabalhadores do mundo: dura\u00e7\u00e3o da jornada, condi\u00e7\u00f5es de trabalho, sal\u00e1rio m\u00ednimo.<br \/>\n&#8211; Fim de qualquer persegui\u00e7\u00e3o em fun\u00e7\u00e3o de cren\u00e7as religiosas, tra\u00e7os culturais, cor da pele, etc.<br \/>\n&#8211; Igualdade de direitos para homens e mulheres.<br \/>\n&#8211; Livre circula\u00e7\u00e3o dos trabalhadores pelas fronteiras de qualquer pa\u00eds. Fim da persegui\u00e7\u00e3o aos imigrantes, plena integra\u00e7\u00e3o \u00e0s sociedades onde vivem, direito ao trabalho, livre acesso a todos os servi\u00e7os sociais.<br \/>\n&#8211; Fim da xenofobia e da persegui\u00e7\u00e3o dos imigrantes.<br \/>\n&#8211; Destrui\u00e7\u00e3o imediata do muro levantada pelo imperialismo na fronteira dos EUA e M\u00e9xico.<br \/>\n&#8211; Legaliza\u00e7\u00e3o de todos os imigrantes. Direitos e sal\u00e1rios dos negros e imigrantes iguais aos dos demais trabalhadores.<br \/>\n&#8211; Fim do trabalho escravo e do tr\u00e1fico de seres humanos. Fim do trabalho infantil.<br \/>\n&#8211; Fim da explora\u00e7\u00e3o sexual de mulheres e crian\u00e7as. Fim da explora\u00e7\u00e3o sexual de transexuais, homossexuais e travestis.<br \/>\n&#8211; Redu\u00e7\u00e3o da jornada de trabalho sem redu\u00e7\u00e3o de sal\u00e1rio, para garantir o pleno emprego.<br \/>\n&#8211; N\u00e3o ao confisco das propriedades dos trabalhadores e da classe m\u00e9dia. Anula\u00e7\u00e3o das d\u00edvidas dos trabalhadores e da classe m\u00e9dia com os bancos.<br \/>\n&#8211; Estabelecimento de metas de redu\u00e7\u00e3o da polui\u00e7\u00e3o do ar, da \u00e1gua e do solo, de reciclagem do lixo, de produ\u00e7\u00e3o org\u00e2nica e ambientalmente sustent\u00e1vel, com expropria\u00e7\u00f5es a todas as empresas que as descumprirem, com puni\u00e7\u00e3o dos respons\u00e1veis.<br \/>\n-Pelo uso racional dos recursos naturais, isto \u00e9, de acordo com as necessidades humanas, como no caso do petr\u00f3leo e da \u00e1gua<br \/>\n&#8211; Direito de cada na\u00e7\u00e3o de preservar sua cultura por meio da limita\u00e7\u00e3o de entrada, sob controle dos trabalhadores, de produtos culturais estrangeiros. Subs\u00eddios para a cultura local, defesa da l\u00edngua, da literatura e da tradi\u00e7\u00e3o de seu pr\u00f3prio povo.<br \/>\n&#8211; Forma\u00e7\u00e3o de uma Organiza\u00e7\u00e3o Internacional dos Trabalhadores, estruturando-se a partir das lutas concretas do proletariado em cada pa\u00eds.. Que essa Organiza\u00e7\u00e3o Internacional seja armada de um programa de ruptura do capitalismo e de constru\u00e7\u00e3o da revolu\u00e7\u00e3o socialista mundial.<br \/>\n&#8211; Por um poder socialista dos trabalhadores. Por uma Sociedade Socialista Internacional.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>APRESENTA\u00c7\u00c3O \u00a0\u00a0 \u00a0Este documento foi utilizado como subs\u00eddio para a discuss\u00e3o sobre o ponto de Situa\u00e7\u00e3o Internacional na Confer\u00eancia do<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/208"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=208"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/208\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1411,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/208\/revisions\/1411"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=208"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=208"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=208"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}