{"id":209,"date":"2010-04-25T21:50:20","date_gmt":"2010-04-25T21:50:20","guid":{"rendered":"http:\/\/espacosocialista.org\/?q=node\/209"},"modified":"2018-04-20T12:08:34","modified_gmt":"2018-04-20T15:08:34","slug":"trabalho-alienado-e-natureza","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/2010\/04\/trabalho-alienado-e-natureza\/","title":{"rendered":"Trabalho alienado e natureza"},"content":{"rendered":"<div>\n<p>Nem mesmo a burguesia consegue ocultar a discuss\u00e3o sobre os problemas ambientais causados pelo capitalismo, pois os efeitos da destrui\u00e7\u00e3o da natureza j\u00e1 se apresentam de maneira dram\u00e1tica. Enchentes, secas, descontrole das temperaturas, degelo (e aumento do n\u00edvel dos oceanos e mares), desertifica\u00e7\u00e3o, perda da diversidade biol\u00f3gica, multiplica\u00e7\u00e3o de v\u00edrus e bact\u00e9rias mortais, polui\u00e7\u00e3o, escassez de \u00e1gua pot\u00e1vel, ac\u00famulo de lixo, destrui\u00e7\u00e3o da camada de oz\u00f4nio, etc.; n\u00e3o s\u00e3o fen\u00f4menos naturais como quer fazer crer a burguesia e seus meios de comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Todos esses fen\u00f4menos t\u00eam rela\u00e7\u00e3o com a explora\u00e7\u00e3o da natureza em fun\u00e7\u00e3o da acumula\u00e7\u00e3o de capital. O trabalho \u00e9 a forma especificamente humana, social e hist\u00f3rica, de metabolismo com a natureza. Cada ser humano est\u00e1 em rela\u00e7\u00e3o com a natureza por meio de seu corpo f\u00edsico, cuja exist\u00eancia precisa ser mantida, mas essa rela\u00e7\u00e3o n\u00e3o se d\u00e1 de forma imediata, pois \u00e9 social e historicamente mediada pelo trabalho. O uso de recursos naturais para produzir alimentos, vestimentas, moradias, utens\u00edlios, etc., n\u00e3o \u00e9 feito separadamente por cada indiv\u00edduo, mas coletivamente por meio da forma\u00e7\u00e3o social da qual este indiv\u00edduo faz parte. Ou seja, o homem somente se relaciona com a natureza indiretamente, por meio de sua rela\u00e7\u00e3o com os outros homens, com o meio social de onde recebe uma cultura e no qual desempenha algum tipo de papel produtivo.<\/p>\n<p>A humanidade do homem n\u00e3o est\u00e1 dada de modo imediato na realidade hist\u00f3rica, ou seja, cada homem n\u00e3o est\u00e1 imediatamente unificado com a sua humanidade, da forma como est\u00e3o os animais. Cada animal \u00e9 imediatamente id\u00eantico a sua esp\u00e9cie e capaz de fazer tudo que a esp\u00e9cie \u00e9 capaz. O homem, ao contr\u00e1rio, se encontra separado de sua esp\u00e9cie, da sua humanidade, seu ser gen\u00e9rico, por conta da condi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica da divis\u00e3o da sociedade em classes e do trabalho alienado.<\/p>\n<p>Assim que o trabalho se torna capaz de produzir um excedente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s necessidades sociais, surge uma classe social que se apropria desse excedente. Ao longo da hist\u00f3ria desenvolve-se uma luta entre as classes propriet\u00e1rias e as classes trabalhadoras pela posse desse excedente do trabalho social. O controle do excedente do trabalho pelas classes propriet\u00e1rias transforma o trabalho numa atividade alienada, ou seja, estranha para a maior parte dos seres humanos. O homem se separa de seu ser gen\u00e9rico, sua humanidade, ao n\u00e3o poder determinar o que fazer com seu tempo de trabalho e ser for\u00e7ado a trabalhar para outro. O homem se aliena da atividade do trabalho, dos produtos do trabalho, da sua rela\u00e7\u00e3o com os outros homens, que aparecem todos como elementos externos e opressivos sobre o indiv\u00edduo; e se aliena tamb\u00e9m da natureza.<\/p>\n<p>Se a rela\u00e7\u00e3o com a natureza se d\u00e1 primordialmente por meio da rela\u00e7\u00e3o social e hist\u00f3rica de trabalho, o trabalho alienado leva a uma rela\u00e7\u00e3o alienada com a natureza. Na sociedade de classes, a natureza se apresenta ao homem como ambiente externo e objeto estranho, a ser controlado, dominado, usufru\u00eddo e descartado, conforme os interesses da classe dominante. A natureza deixa de ser o \u201ccorpo inorg\u00e2nico do homem\u201d, como a definiu Marx, e se torna propriedade privada. Na condi\u00e7\u00e3o de propriedade privada, a natureza pode ser usada e abusada de maneira irrespons\u00e1vel, pois a necessidade coletiva \u00e9 desconsiderada em detrimento dos interesses privados.<\/p>\n<p>Na sociedade capitalista, que \u00e9 a forma mais recente da sociedade de classes, a natureza mais do que nunca aparece como estranha ao homem, como puro objeto de manipula\u00e7\u00e3o, fonte supostamente inesgot\u00e1vel de mat\u00e9ria-prima e reposit\u00f3rio d\u00f3cil para os infinitos subprodutos da a\u00e7\u00e3o humana (lixo e polui\u00e7\u00e3o). O capitalismo simplesmente ignora que a natureza n\u00e3o \u00e9 inesgot\u00e1vel nem pode suportar indefinidamente os dejetos que lhe atiramos. A l\u00f3gica do capital considera apenas o curto prazo, o balan\u00e7o das empresas, a cota\u00e7\u00e3o di\u00e1ria da bolsa de valores, e simplesmente despreza a sobreviv\u00eancia da esp\u00e9cie. Como disse um autorizado representante da burguesia, o economista ingl\u00eas John M. Keynes, \u201ca longo prazo estaremos todos mortos\u201d.<\/p>\n<p>Para restaurar o equil\u00edbrio natural e reverter os graves danos j\u00e1 causados \u00e9 preciso ao mesmo tempo reverter a l\u00f3gica que dirige o emprego das for\u00e7as produtivas sociais, direcionando-as para o atendimento das necessidades humanas. \u00c9 preciso estabelecer racionalmente o que a humanidade precisa produzir e de que forma isso pode ser produzido sem afetar a capacidade do planeta de seguir fornecendo indefinidamente os recursos de que necessitamos. Ao inv\u00e9s de produzir armas nucleares e artigos de luxo (ou seja, coisas in\u00fateis), o trabalho humano passaria a produzir aquilo de que os seres humanos realmente precisam para viver. Isso por si s\u00f3 j\u00e1 teria grande impacto na revers\u00e3o dos danos ambientais.<\/p>\n<p>Mas isso s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel com o fim do trabalho alienado, ou seja, com a conquista do controle dos trabalhadores sobre seu tempo e seus instrumentos de trabalho. Para isso \u00e9 preciso romper com a propriedade privada dos meios de produ\u00e7\u00e3o e com a divis\u00e3o da sociedade em classes. Somente uma humanidade sem classes pode se relacionar de forma racional com seu trabalho, direcionando seu tempo e recursos para produzir aquilo que realmente \u00e9 necess\u00e1rio e considerando o equil\u00edbrio da natureza e a continuidade da vida. Ao mudar a rela\u00e7\u00e3o do homem com o trabalho, muda-se tamb\u00e9m a rela\u00e7\u00e3o com a natureza.<\/p>\n<p>Para a natureza \u00e9 indiferente que o planeta seja habitado por seres inteligentes ou por bact\u00e9rias, pois o planeta seguir\u00e1 seu curso em torno do sol, quer sejam os homens os seus passageiros ou os microorganismos. Para o homem, entretanto, a preserva\u00e7\u00e3o de certas condi\u00e7\u00f5es indispens\u00e1veis para a sua sobreviv\u00eancia, como ar respir\u00e1vel, \u00e1gua pot\u00e1vel, terras f\u00e9rteis, temperaturas suport\u00e1veis, etc., deve ser resultado de sua a\u00e7\u00e3o consciente e coletiva. Essa a\u00e7\u00e3o passa necessariamente pela revolu\u00e7\u00e3o social, pela supera\u00e7\u00e3o da l\u00f3gica do capital e pela constru\u00e7\u00e3o do socialismo, \u00fanico regime capaz de devolver ao homem o controle sobre seu trabalho, sua humanidade e sua rela\u00e7\u00e3o racional e sustent\u00e1vel com a natureza.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div>\n<p>\n\t\tNem mesmo a burguesia consegue ocultar a discuss&atilde;o sobre os problemas ambientais causados pelo capitalismo, pois os efeitos da destrui&ccedil;&atilde;o da natureza j&aacute; se apresentam de maneira dram&aacute;tica. Enchentes, secas, descontrole das temperaturas, degelo (e aumento do n&iacute;vel dos oceanos e mares), desertifica&ccedil;&atilde;o, perda da diversidade biol&oacute;gica, multiplica&ccedil;&atilde;o de v&iacute;rus e bact&eacute;rias mortais, polui&ccedil;&atilde;o, escassez de &aacute;gua pot&aacute;vel, ac&uacute;mulo de lixo, destrui&ccedil;&atilde;o da camada de oz&ocirc;nio, etc.; n&atilde;o s&atilde;o fen&ocirc;menos naturais como quer fazer crer a burguesia e seus meios de comunica&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>\n\t\tTodos esses fen&ocirc;menos t&ecirc;m rela&ccedil;&atilde;o com a explora&ccedil;&atilde;o da natureza em fun&ccedil;&atilde;o da acumula&ccedil;&atilde;o de capital. O trabalho &eacute; a forma especificamente humana, social e hist&oacute;rica, de metabolismo com a natureza. 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Ou seja, o homem somente se relaciona com a natureza indiretamente, por meio de sua rela&ccedil;&atilde;o com os outros homens, com o meio social de onde recebe uma cultura e no qual desempenha algum tipo de papel produtivo.<\/p>\n<p>\n\t\tA humanidade do homem n&atilde;o est&aacute; dada de modo imediato na realidade hist&oacute;rica, ou seja, cada homem n&atilde;o est&aacute; imediatamente unificado com a sua humanidade, da forma como est&atilde;o os animais. Cada animal &eacute; imediatamente id&ecirc;ntico a sua esp&eacute;cie e capaz de fazer tudo que a esp&eacute;cie &eacute; capaz. O homem, ao contr&aacute;rio, se encontra separado de sua esp&eacute;cie, da sua humanidade, seu ser gen&eacute;rico, por conta da condi&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica da divis&atilde;o da sociedade em classes e do trabalho alienado.<\/p>\n<p>\n\t\tAssim que o trabalho se torna capaz de produzir um excedente em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s necessidades sociais, surge uma classe social que se apropria desse excedente. Ao longo da hist&oacute;ria desenvolve-se uma luta entre as classes propriet&aacute;rias e as classes trabalhadoras pela posse desse excedente do trabalho social. O controle do excedente do trabalho pelas classes propriet&aacute;rias transforma o trabalho numa atividade alienada, ou seja, estranha para a maior parte dos seres humanos. O homem se separa de seu ser gen&eacute;rico, sua humanidade, ao n&atilde;o poder determinar o que fazer com seu tempo de trabalho e ser for&ccedil;ado a trabalhar para outro. 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Como disse um autorizado representante da burguesia, o economista ingl&ecirc;s John M. Keynes, &ldquo;a longo prazo estaremos todos mortos&rdquo;.<\/p>\n<p>\n\t\tPara restaurar o equil&iacute;brio natural e reverter os graves danos j&aacute; causados &eacute; preciso ao mesmo tempo reverter a l&oacute;gica que dirige o emprego das for&ccedil;as produtivas sociais, direcionando-as para o atendimento das necessidades humanas. &Eacute; preciso estabelecer racionalmente o que a humanidade precisa produzir e de que forma isso pode ser produzido sem afetar a capacidade do planeta de seguir fornecendo indefinidamente os recursos de que necessitamos. Ao inv&eacute;s de produzir armas nucleares e artigos de luxo (ou seja, coisas in&uacute;teis), o trabalho humano passaria a produzir aquilo de que os seres humanos realmente precisam para viver. Isso por si s&oacute; j&aacute; teria grande impacto na revers&atilde;o dos danos ambientais.<\/p>\n<p>\n\t\tMas isso s&oacute; &eacute; poss&iacute;vel com o fim do trabalho alienado, ou seja, com a conquista do controle dos trabalhadores sobre seu tempo e seus instrumentos de trabalho. Para isso &eacute; preciso romper com a propriedade privada dos meios de produ&ccedil;&atilde;o e com a divis&atilde;o da sociedade em classes. Somente uma humanidade sem classes pode se relacionar de forma racional com seu trabalho, direcionando seu tempo e recursos para produzir aquilo que realmente &eacute; necess&aacute;rio e considerando o equil&iacute;brio da natureza e a continuidade da vida. 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