{"id":21,"date":"2008-12-13T15:37:35","date_gmt":"2008-12-13T15:37:35","guid":{"rendered":"http:\/\/espacosocialista.org\/?q=node\/21"},"modified":"2018-05-04T21:51:12","modified_gmt":"2018-05-05T00:51:12","slug":"o-priapismo-cerebral-de-a-taca-do-mundo-e-nossa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/2008\/12\/o-priapismo-cerebral-de-a-taca-do-mundo-e-nossa\/","title":{"rendered":"O priapismo cerebral de &#8220;A ta\u00e7a do mundo \u00e9 nossa&#8221;"},"content":{"rendered":"<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: center;\" align=\"center\">\n<h1>O PRIAPISMO CEREBRAL DE \u201cA TA\u00c7A DO MUNDO \u00c9 NOSSA\u201d<\/h1>\n<h1><\/h1>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: center;\" align=\"center\">(Coment\u00e1rio sobre o filme \u201cA ta\u00e7a do mundo \u00e9 nossa\u201d)<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Nome original: Casseta &amp; Planeta: a ta\u00e7a do mundo \u00e9 nossa<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Produ\u00e7\u00e3o: Brasil<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Ano: 2003<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Idiomas: Portugu\u00eas<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Diretor: Lula Buarque de Hollanda<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Roteiro: Bussunda, C\u00e9sar Cardoso<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Elenco: Beto Silva, Bussunda, Cl\u00e1udio Manoel, H\u00e9lio de la Pena, Hubert, Marcelo Madureira, Reinaldo, Maria Paula, Deborah Secco, Tony Tornado, Carlos Alberto Torres, Jair de Oliveira, Raphael Primo<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">G\u00eanero: com\u00e9dia, crime, romance, guerra<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\"><span lang=\"EN-US\">Fonte: \u201cThe Internet Movie Database\u201d \u2013 <\/span><a href=\"http:\/\/www.imdb.com\/\"><span lang=\"EN-US\">http:\/\/www.imdb.com\/<\/span><\/a><span lang=\"EN-US\">\u00a0 <\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O priapismo \u00e9 uma doen\u00e7a que ataca o \u00f3rg\u00e3o sexual masculino. Essa doen\u00e7a provoca um estado de ere\u00e7\u00e3o duradoura do p\u00eanis. A ere\u00e7\u00e3o prolongada do p\u00eanis, numa crise pri\u00e1pica, pode transcorrer durante muitas horas. Uma ere\u00e7\u00e3o que se prolonga por muitas horas a fio pode se tornar extremamente dolorosa. Insuportavelmente dolorosa. Nos casos mais graves, o priapismo pode provocar a queda do \u00f3rg\u00e3o. E o homem pri\u00e1pico fica sem p\u00eanis.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 J\u00e1 o priapismo cerebral \u00e9 uma doen\u00e7a que ataca os seres cuja imagina\u00e7\u00e3o se torna predominantemente f\u00e1lica. O c\u00e9rebro dessa pessoa \u00e9 como um p\u00eanis permanentemente ereto. Ele s\u00f3 pensa naquilo. O priapismo cerebral acaba por inviabilizar o racioc\u00ednio e reduz a v\u00edtima a uma condi\u00e7\u00e3o similar a um sem-c\u00e9rebro. Essa imagina\u00e7\u00e3o doentia enxerga uma met\u00e1fora sexual em qualquer fala, discurso, gesto ou situa\u00e7\u00e3o. A met\u00e1fora sexual pri\u00e1pica \u00e9 uma imagem de domina\u00e7\u00e3o e destrui\u00e7\u00e3o do outro. O sexo n\u00e3o \u00e9, para essa imagina\u00e7\u00e3o, um ato de amor, mas um ato de subjuga\u00e7\u00e3o, domina\u00e7\u00e3o, destrui\u00e7\u00e3o, ridiculariza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">O priapismo cerebral concebe o sexo de maneira pejorativa. O sexo \u00e9 sacanagem, \u00e9 safadeza, \u00e9 pecado. Tanto o beato celibat\u00e1rio como o pri\u00e1pico cerebral concebem o sexo de forma pervertida. E a pervers\u00e3o de um alimenta dialeticamente a do outro. O sexo \u00e9 o mal. Fazer sexo \u00e9 fazer o mal. Como conseq\u00fc\u00eancia, n\u00e3o se pode falar de sexo sem usar palavr\u00f5es. Palavras propositalmente feias, ultrajantes, nojentas, que degradam o objeto e o expulsam do discurso formal. Na linguagem vulgar, fazer sexo \u00e9 foder. Mas foder tamb\u00e9m significa subjugar, dominar, destruir o outro. Fulano est\u00e1 fodido: fulano est\u00e1 destru\u00eddo, subjugado, dominado, ridicularizado, diminu\u00eddo, arrasado, perdido. Quando se tem \u00f3dio de algu\u00e9m, o usual \u00e9 mandar que v\u00e1 tomar no cu, o que tamb\u00e9m \u00e9 uma modalidade de ato sexual.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">O c\u00e9rebro pri\u00e1pico est\u00e1 numa busca insana de situa\u00e7\u00f5es onde possa ver o outro sendo fodido. Ele tem sua maior satisfa\u00e7\u00e3o no ato de ver algu\u00e9m sendo fodido. O priapismo cerebral est\u00e1 sempre \u00e0 procura de atos falhos na linguagem coloquial alheia, por meio dos quais algu\u00e9m revela, inadvertidamente, que est\u00e1 fodido. Quando algu\u00e9m diz qualquer coisa com uma conota\u00e7\u00e3o vagamente sexual, o c\u00e9rebro pri\u00e1pico dispara em gargalhada. Esse algu\u00e9m se fodeu. Sempre h\u00e1 algo oculto, por tr\u00e1s do que se fala (por tr\u00e1s?).<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">O problema do priapismo cerebral n\u00e3o \u00e9 o sexo em si. N\u00e3o se trata de ser contra o sexo, o que n\u00e3o faz o menor sentido, mas contra uma imagina\u00e7\u00e3o sexual pervertida. Como qualquer pessoa, este escriba tamb\u00e9m faz sexo, tamb\u00e9m gosta de sexo e n\u00e3o v\u00ea nada de errado em que as pessoas fa\u00e7am sexo, nem que falem de sexo. Quanto mais sexo melhor. Fa\u00e7a amor, n\u00e3o fa\u00e7a guerra. A liberdade sexual \u00e9 uma conquista humanista important\u00edssima. Uma liberdade revolucion\u00e1ria. Torna as pessoas conscientes de seus corpos, do seu poder de criar o prazer e da satisfa\u00e7\u00e3o de uma rela\u00e7\u00e3o humana plena. A liberdade sexual cria uma \u00e1rea de autonomia para a individualidade num mundo de rela\u00e7\u00f5es fetichizadas.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">O que acontece por\u00e9m, quando o sexo se transforma ele pr\u00f3prio num produto da ind\u00fastria cultural? O que acontece quando a m\u00eddia passa a insinuar met\u00e1foras sexuais em todos os seus conte\u00fados? O que acontece quando o homem passa a fazer sexo para satisfazer as mesmas demandas que satisfaz por meio da compuls\u00e3o consumista?<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">A publicidade n\u00e3o vende mais produtos, vende o apelo sexual vinculado ao produto. O valor das coisas n\u00e3o est\u00e1 no produto em si, que \u00e9 indiferente, mas na faculdade de agregar apelo sexual que a publicidade a ele associa. O subtexto de 99,99% da publicidade diz, \u00e0s vezes impl\u00edcita, \u00e0s vezes explicitamente, algo como: \u201cconsuma tal produto e torne-se assim sexualmente desej\u00e1vel, a ponto desta mulher ou deste homem da propaganda desejarem fazer sexo com voc\u00ea\u201d.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">O sexo assim desnaturado produz uma eterna insatisfa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o basta ao sexo ser apenas satisfat\u00f3rio. Tem que ser espetacular, como s\u00e3o espetaculares as imagens da publicidade. Fazemos sexo com pessoas comuns, mas precisamos imaginar que o fazemos com modelos de propaganda de cerveja. Da dist\u00e2ncia entre as pessoas normais e o objetos sexuais que a publicidade faz desejar, surge a sensa\u00e7\u00e3o de incompletude, que precisa ser saciada por meio do consumo. Consumir \u00e9 sin\u00f4nimo de comer. Que \u00e9 sin\u00f4nimo de foder.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">H\u00e1 que se fazer essa distin\u00e7\u00e3o ao falar de sexo na ind\u00fastria cultural. At\u00e9 que ponto est\u00e1 se falando em liberdade sexual aut\u00eantica e at\u00e9 que ponto est\u00e1 se falando em uma modalidade de sexo fetichizado e desnaturado?<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Essa discuss\u00e3o pr\u00e9via serve de introdu\u00e7\u00e3o para um coment\u00e1rio a respeito do filme \u201cA ta\u00e7a do mundo \u00e9 nossa\u201d, produzido pelo grupo de humoristas do Casseta &amp; Planeta (introdu\u00e7\u00e3o?). O priapismo cerebral \u00e9 a fonte do humor de \u201cA ta\u00e7a o mundo \u00e9 nossa\u201d. O humor que apela para a interpreta\u00e7\u00e3o diretamente sexual do discurso \u00e9 um humor pobre de imagina\u00e7\u00e3o. Assim como \u00e9 pobre o filme de terror que apela para efeitos especiais e monstros horrendos, porque n\u00e3o consegue criar sustos por meio da insinua\u00e7\u00e3o. Assim como a transmiss\u00e3o de futebol que apela para milhares de \u00e2ngulos de c\u00e2mera para mostrar uma mesma jogada, porque n\u00e3o h\u00e1 mais jogadas espetaculares a serem mostradas.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Todos esses sintomas s\u00e3o sinais de uma decad\u00eancia da imagina\u00e7\u00e3o na ind\u00fastria cultural. \u00c9 sob esse aspecto que um filme como \u201cA ta\u00e7a do mundo \u00e9 nossa\u201d pode ser criticado. N\u00e3o se trata pois de ser contra a imagina\u00e7\u00e3o sexual e er\u00f3tica por tr\u00e1s do filme (por tr\u00e1s?). Trata-se de ser contra a banaliza\u00e7\u00e3o, a artificialidade, a imediaticidade, o car\u00e1ter expl\u00edcito do que \u00e9 exibido.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Aparentemente, trata-se de um filme de humor. Mas o \u00fanico humor que o filme consegue expressar \u00e9 o de natureza diretamente sexual. N\u00e3o se trata sequer de piadas de duplo sentido, j\u00e1 que n\u00e3o h\u00e1 sutileza alguma e o sentido que deveria ser oculto est\u00e1 na verdade imediatamente exposto. N\u00e3o h\u00e1 intelig\u00eancia, complexidade, articula\u00e7\u00e3o do pensamento, surpresa, uso h\u00e1bil das palavras, todos os requisitos para um humor de qualidade. H\u00e1 apenas a grosseria escancarada.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Aqui, mais uma vez, \u00e9 preciso dizer que n\u00e3o se trata tamb\u00e9m de ser contra o humor. Pode-se aplicar ao humor o mesmo racioc\u00ednio que se aplicava a respeito do sexo. Pode-se dizer que existe o humor saud\u00e1vel e necess\u00e1rio, assim como o humor degradado. A ironia fina, o sarcasmo demolidor, a dial\u00e9tica precisa das frases de efeito, s\u00e3o componentes important\u00edssimos de um eficiente discurso humor\u00edstico. Mas n\u00e3o \u00e9 o caso de \u201cA ta\u00e7a do mundo \u00e9 nossa.\u201d \u00c9 claro que nem todo humor precisa ser sofisticado ou \u201cintelectualizado\u201d (mas que teria muito mais gra\u00e7a, teria). O caso \u00e9 que o humor n\u00e3o precisava ser t\u00e3o burro.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">N\u00e3o se trata tamb\u00e9m de rejeitar o objeto do humor. Ao humor tudo deve ser permitido. Quando se impuser um tabu sobre o que o humorista pode falar ou n\u00e3o, onde estar\u00e1 a gra\u00e7a? A gra\u00e7a est\u00e1 precisamente em falar do que n\u00e3o se pode falar. O humor quebra o gelo do sagrado. O humor \u00e9 tamb\u00e9m, como o sexo, uma zona de liberdade nas rela\u00e7\u00f5es sociais (zona?). Quanto mais humor no mundo, melhor. \u00c9 o lubrificante das rela\u00e7\u00f5es sociais (lubrificante?).<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">A quest\u00e3o \u00e9: at\u00e9 que ponto faz sentido criticar um filme de humor? Trata-se de uma forma menor de arte. Uma arte rasteira, despretensiosa, para consumo r\u00e1pido. Que significados pode revelar um filme desse tipo?<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">O filme do Casseta &amp; Planeta revela, t\u00e3o somente, o dom\u00ednio end\u00eamico do priapismo cerebral na cultura brasileira. Como de resto o faz o programa semanal da rede Globo de TV. Essa revela\u00e7\u00e3o cont\u00e9m um certo m\u00e9rito, que n\u00e3o se pode deixar de reconhecer. Talvez um m\u00e9rito que n\u00e3o compense seus in\u00fameros defeitos, mas mesmo assim um m\u00e9rito. Afinal, o Tabajara F. C. sempre perde de goleada, mas n\u00e3o deixa de fazer um golzinho de honra de vez em quando.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Antes de falar sobre o m\u00e9rito inserido no conte\u00fado do filme (inserido?), \u00e9 importante tamb\u00e9m reconhecer o m\u00e9rito do grupo pelo objeto de humor que escolheram. \u201cA ta\u00e7a do mundo \u00e9 nossa\u201d \u00e9 um filme de \u00e9poca. Est\u00e1 ambientado no ano de 1970, quando o Brasil da ditadura ganhou o tricampeonato mundial (uma esp\u00e9cie de penta daquela \u00e9poca&#8230;). O filme de \u00e9poca exige uma certa elabora\u00e7\u00e3o dos conte\u00fados, que n\u00e3o pode ser desprezada. N\u00e3o \u00e9 um simples epis\u00f3dio de Casseta &amp; Planeta estendido, como o filme dos Normais \u00e9 apenas um epis\u00f3dio de \u201cOs Normais\u201d estendido. \u201cA ta\u00e7a do mundo \u00e9 nossa\u201d corre at\u00e9 o risco de n\u00e3o ser entendido por uma parte do p\u00fablico habitual do Casseta &amp; Planeta. Aquela parte que n\u00e3o conhece hist\u00f3ria do Brasil.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">A escolha do objeto \u00e9 um ponto positivo, assim como o tratamento dado a ele. O m\u00e9rito que h\u00e1 no conte\u00fado do filme est\u00e1 em expor, por meio do escracho, o qu\u00e3o rid\u00edculo \u00e9 o Brasil. O humor de \u201cA ta\u00e7a do mundo \u00e9 nossa\u201d \u00e9 do tipo auto-depreciativo. O humor que zomba da nacionalidade. Esculhamba com a nacionalidade. N\u00e3o deixa pedra sobre pedra. Dos militares aos comunistas, o escracho \u00e9 total. H\u00e1 uma certa sabedoria no ato de rir das pr\u00f3prias mis\u00e9rias. Quem se ofende com a grosseria (grosseria?) n\u00e3o tem a sabedoria para rir de si mesmo e de suas pr\u00f3prias id\u00e9ias.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Mesmo com toda baixaria e falta de intelig\u00eancia, o filme do Casseta &amp; Planeta ainda traz algumas li\u00e7\u00f5es preciosas. A hist\u00f3ria da ditadura e da luta armada se transforma em com\u00e9dia vulgar. Triste fim para as esperan\u00e7as da revolu\u00e7\u00e3o brasileira. Esse filme todos n\u00f3s j\u00e1 vimos. O Brasil de 1970 se mostra igual ao de 2003. Ou vice-versa. O Brasil do Presidente Sass\u00e1 Mutema se mostra t\u00e3o rid\u00edculo quanto o dos generais de Casseta &amp; Planeta. \u00c0 direita e \u00e0 esquerda, n\u00e3o escapa ningu\u00e9m do esc\u00e1rnio.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">H\u00e1 que se ressaltar que a conquista a ta\u00e7a n\u00e3o resolve nada. Como a do penta n\u00e3o resolveu. O que o Brasil quer mesmo \u00e9 ganhar o Oscar. E isso acaba de fato acontecendo no filme, por for\u00e7a de uma sucess\u00e3o de eventos mirabolantes. Confessa-se, al\u00e9m da auto-imagem distorcida e depreciativa, a submiss\u00e3o \u00e0 necessidade de uma aprova\u00e7\u00e3o vinda de fora, do Oscar. O Oscar \u00e9 uma obsess\u00e3o da cultura nacional. N\u00f3s o amamos e odiamos, at\u00e9 trocamos a ta\u00e7a do mundo por ele. Para o psicologu\u00eas vulgar, trata-se de um sinal de adora\u00e7\u00e3o por \u00edcones f\u00e1licos.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\"><span lang=\"ES-TRAD\">A gente somos in\u00fatil. <\/span>O Brasil \u00e9 um pa\u00eds de fodidos. Somos fodidos e gostamos, diz o humor do grupo. No pa\u00eds onde se busca levar vantagem em tudo, levar vantagem \u00e9 sin\u00f4nimo de foder. Foda os outros antes de ser fodido. J\u00e1 que n\u00e3o se pode ter qualquer liberdade verdadeira neste pa\u00eds fodido, temos pelo menos a liberdade de foder uns com os outros alegremente. Fodamos e sejamos fodidos, esse \u00e9 o jogo.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Se n\u00e3o se pode vencer o sistema, junte-se a ele. Como Che Guevara (que vara?), que finge de morto para viver da venda de camisetas alimentada pelo mito de sua suposta morte. O mundo \u00e9 dos espertos. A revolu\u00e7\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel como realidade, mas \u00e9 atraente como produto. Vendamos a revolu\u00e7\u00e3o! Vendamos a liberdade como fetiche. A caricatura de Che \u00e9 uma ofensa a Che ou uma s\u00e1tira aos seguidores p\u00f3s-modernos de Che? Tanto faz. Uma se d\u00e1 por meio da outra (d\u00e1?). Quem se ofende que se foda. Ali\u00e1s, o que um comunista faria no cinema vendo um filme como este? A turma do Casseta d\u00e1 o recado e explode o cr\u00edtico que se atreve a criticar o filme, no debate ap\u00f3s o filme, dentro do filme. Esse neg\u00f3cio de criticar filme \u00e9 t\u00edpico de gente que leva as coisas por outro lado (por outro lado?).<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Na pseudo-ideologia pri\u00e1pica do grupo, revela-se uma esp\u00e9cie de auto-imagem do pa\u00eds condensada do senso comum brasileiro. O filme se estrutura em cima de uma certa interpreta\u00e7\u00e3o da percep\u00e7\u00e3o que o brasileiro tem de si. Na apologia pri\u00e1pica casseteana, o Brasil \u00e9 o pa\u00eds do sexo, do futebol e do humor, que s\u00e3o manifesta\u00e7\u00f5es de uma at\u00e1vica permissividade malemolente, na qual todo brasileiro se reconhece e se compraz.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">O Brasil \u00e9 o pa\u00eds onde nada \u00e9 s\u00e9rio e se leva tudo no jeitinho. O jeitinho, \u00e9 preciso dizer, possui um sinal hist\u00f3rico ambivalente. H\u00e1 o jeitinho na vers\u00e3o das classes dominantes, que sem cerim\u00f4nia colocam o p\u00fablico a servi\u00e7o do privado, como extens\u00e3o de seu patrim\u00f4nio. H\u00e1 o jeitinho que engendra a corrup\u00e7\u00e3o e o que engendra a resist\u00eancia e a criatividade. H\u00e1 o jeitinho das classes subalternas, que se viram para sobreviver nos meandros da informalidade econ\u00f4mica, social e cultural.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Em resumo, o brasileiro gosta de ser brasileiro, porque ser brasileiro \u00e9 sin\u00f4nimo de ser fracassado. Ser fracassado \u00e9 rid\u00edculo e penoso, mas tamb\u00e9m \u00e9 engra\u00e7ado. Essa condi\u00e7\u00e3o antropol\u00f3gica especial lhe autoriza a zombar de si mesmo. E nessa zombaria, tanto pode encontrar-se a motiva\u00e7\u00e3o para a mudan\u00e7a como o pretexto para se eximir de ter qualquer atitude s\u00e9ria. E sem precisar ser s\u00e9rio, n\u00e3o precisa enfrentar as tarefas da constru\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. O Casseta &amp; Planeta d\u00e1 conta apenas da primeira parte dessa equa\u00e7\u00e3o, a da zombaria.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">O jeitinho n\u00e3o d\u00e1 jeito em nada e continuamos todos na mesma. Para quem acha gra\u00e7a nisso, h\u00e1 muito com que rir em \u201cA ta\u00e7a do mundo \u00e9 nossa\u201d. Este escriba n\u00e3o vai estragar nenhuma piada, porque \u00e9 p\u00e9ssimo para contar piadas, como puderam perceber os leitores ao longo desse texto (longo?). Melhor deixar por conta dos profissionais do Casseta. Fa\u00e7o esse coment\u00e1rio a t\u00edtulo de advert\u00eancia, para que cada um saiba o que fazer e onde esconder o pr\u00f3prio c\u00e9rebro na hora do filme.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Como disse antes, o problema do priapismo cerebral \u00e9 que, assim como acontece no caso do mal peniano, ele pode acarretar a perda do \u00f3rg\u00e3o. O priapismo peniano tem uma origem f\u00edsica, enquanto que o cerebral \u00e9 uma quest\u00e3o de escolha. Mas o que eu tenho a ver com isso? No final das contas, o que eu tenho a ver com o que as pessoas fazem, com o que gostam ou n\u00e3o gostam? Que se fodam!<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">Daniel M. Delfino<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">22\/11\/2003<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p align=\"center\" style=\"text-align: center;\" class=\"MsoNormal\"><o:p>&nbsp;<\/o:p><\/p>\n<h1>O PRIAPISMO CEREBRAL DE &ldquo;A TA&Ccedil;A DO MUNDO &Eacute; NOSSA&rdquo;<\/h1>\n<h1><o:p>&nbsp;<\/o:p><\/h1>\n<p align=\"center\" style=\"text-align: center;\" class=\"MsoNormal\">(Coment&aacute;rio sobre o filme &ldquo;A ta&ccedil;a do mundo &eacute; nossa&rdquo;)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" class=\"MsoNormal\"><o:p>&nbsp;<\/o:p><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" class=\"MsoNormal\"><o:p>&nbsp;<\/o:p><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" class=\"MsoNormal\"><o:p>&nbsp;<\/o:p><\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[9,76],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6161,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21\/revisions\/6161"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}