{"id":2190,"date":"2013-07-20T23:46:50","date_gmt":"2013-07-21T02:46:50","guid":{"rendered":"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/?p=2190"},"modified":"2018-05-04T21:38:57","modified_gmt":"2018-05-05T00:38:57","slug":"e-hora-de-tomar-partido-e-de-tomar-os-partidos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/2013\/07\/e-hora-de-tomar-partido-e-de-tomar-os-partidos\/","title":{"rendered":"\u00c9 hora de tomar partido! (e de tomar os partidos)"},"content":{"rendered":"<h4><b><b>Este texto \u00e9 uma contribui\u00e7\u00e3o individual,\u00a0n\u00e3o necessariamente expressa a opini\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o e por este motivo se apresenta assinado por seu autor.<\/b><\/b><\/h4>\n<h3 style=\"text-align: right;\"><\/h3>\n<h3 style=\"text-align: right;\">Daniel Delfino<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">A onda de manifesta\u00e7\u00f5es do m\u00eas de junho deixou um saldo contradit\u00f3rio. De um lado, obteve pequenas vit\u00f3rias, como a revoga\u00e7\u00e3o do aumento das passagens, retirada da PEC 37 e da &#8220;cura gay&#8221;, mas acima de tudo, deixou uma conquista important\u00edssima, a li\u00e7\u00e3o de que \u00e9 poss\u00edvel e necess\u00e1rio se manifestar e enfrentar o poder, experi\u00eancia in\u00e9dita para a atual gera\u00e7\u00e3o, e que ter\u00e1 ainda largas consequ\u00eancias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por outro lado, essa onda exp\u00f4s o imenso grau de atraso pol\u00edtico dos diversos setores populares participantes, de um modo tal que a m\u00eddia foi capaz de impor o tema da corrup\u00e7\u00e3o (visando t\u00e3o somente desgastar o governo do PT) e, o que \u00e9 ainda pior, setores de extrema direita conseguiram banir os partidos de esquerda (PSOL, PSTU, PCB, PCO) das manifesta\u00e7\u00f5es mais massivas, contando com a for\u00e7a bruta de bandos neonazistas, e sendo aplaudidos pelo restante dos manifestantes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O antipartidarismo deixou no fundo um gosto amargo que maculou o sabor de vit\u00f3ria que as manifesta\u00e7\u00f5es deveriam ter deixado. A rejei\u00e7\u00e3o aos partidos atingiu indistintamente o PT, partido burgu\u00eas composto de burocratas que administram os interesses do capital no Brasil, e tamb\u00e9m os partidos de esquerda, que se definem como partidos classistas, socialistas e revolucion\u00e1rios. Para todos os que se colocam na perspectiva anticapitalista, esse tema do antipartidarismo se reveste da m\u00e1xima import\u00e2ncia.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">Unidade da esquerda contra o antipartidarismo<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para alcan\u00e7ar as ra\u00edzes desse antipartidarismo, ser\u00e1 preciso ir al\u00e9m de uma posi\u00e7\u00e3o meramente superficial, ainda que correta, de defender os partidos de esquerda, e iremos al\u00e9m nos pontos seguintes. Antes de avan\u00e7ar nesse campo do antipartidarismo, \u00e9 preciso deixar claro que essa defesa dos partidos \u00e9 um pressuposto, um princ\u00edpio incondicional. A constitui\u00e7\u00e3o de uma frente \u00fanica antifascista, unificando os partidos de esquerda, as organiza\u00e7\u00f5es menores, coletivos e militantes independentes, socialistas e anarquistas, deveria ser algo \u00f3bvio, natural e instant\u00e2neo, e n\u00e3o uma excepcionalidade que s\u00f3 come\u00e7a a se cogitar devido \u00e0 amea\u00e7a fascista.<br \/>\nS\u00f3 \u00e9 uma excepcionalidade devido aos v\u00edcios sect\u00e1rios e rivalidades aparatistas que fragilizam a esquerda brasileira h\u00e1 d\u00e9cadas. Com todas as discord\u00e2ncias que se tenha em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s demais organiza\u00e7\u00f5es, por mais duros que sejam os debates e as pol\u00eamicas, por mais radicais que sejam as diferen\u00e7as, \u00e9 preciso que cada militante reconhe\u00e7a as demais organiza\u00e7\u00f5es ou militantes independentes como seus irm\u00e3os de classe, companheiros de luta, que devem ser defendidos de qualquer ataque do estado, da patronal e de seus agentes fascistas. Essa solidariedade de classe era parte integrante da tradi\u00e7\u00e3o do movimento socialista, deveria ser incondicional, uma quest\u00e3o de principio, o b\u00e1sico do b\u00e1sico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Infelizmente, ainda n\u00e3o \u00e9. Essa li\u00e7\u00e3o de casa n\u00e3o est\u00e1 sendo feita e ter\u00e1 que ser retomada. \u00c9 preciso agitar a necessidade de defender as organiza\u00e7\u00f5es de trabalhadores, propagandear a solidariedade de classe, fazer unidade em torno do direito democr\u00e1tico de manifesta\u00e7\u00e3o, tudo isso deve ser feito pelas organiza\u00e7\u00f5es de esquerda, em suas frentes de atua\u00e7\u00e3o junto \u00e0 classe trabalhadora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 preciso retomar o trabalho de agita\u00e7\u00e3o e propaganda em torno dos elementos m\u00ednimos da consci\u00eancia de classe, para que os trabalhadores se reconhe\u00e7am como classe e reconhe\u00e7am as organiza\u00e7\u00f5es de luta, os sindicatos e partidos oper\u00e1rios, e ao mesmo tempo denunciar as institui\u00e7\u00f5es da burguesia e seu Estado, os partidos burgueses e as ONGs, as igrejas e pol\u00edcias, as televis\u00f5es e jornais, os discursos individualistas e p\u00f3s modernos. Mas isso, repetimos, ainda \u00e9 apenas o b\u00e1sico do b\u00e1sico.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">O antipartidarismo n\u00e3o pode ser um tabu<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para combater o antipartidarismo, \u00e9 preciso ir al\u00e9m desse b\u00e1sico e fazer algo mais. \u00c9 preciso n\u00e3o apenas tentar remediar urgentemente o atraso pol\u00edtico dos manifestantes, mas tamb\u00e9m explicar as raz\u00f5es desse atraso e por que levaram ao antipartidarismo. N\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel para os partidos e organiza\u00e7\u00f5es ignorar a necessidade de um balan\u00e7o da sua atua\u00e7\u00e3o nos \u00faltimos anos, que explique por que o discurso socialista revolucion\u00e1rio se encontra de tal maneira minorit\u00e1rio e isolado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como se construiu essa correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as no interior das manifesta\u00e7\u00f5es t\u00e3o desfavor\u00e1vel para o socialismo revolucion\u00e1rio e t\u00e3o favor\u00e1vel para a direita? N\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel atuar como se nada tivesse acontecido e ignorar essa quest\u00e3o crucial. N\u00e3o basta se refugiar nessa posi\u00e7\u00e3o defensiva e auto proclamat\u00f3ria do tipo: &#8220;n\u00f3s somos as organiza\u00e7\u00f5es da classe trabalhadora!&#8221; Pois se os trabalhadores n\u00e3o reconhecem essas organiza\u00e7\u00f5es como suas, de que adianta? Essa posi\u00e7\u00e3o meramente defensiva parece dizer nas entrelinhas o seguinte: &#8220;n\u00f3s somos os revolucion\u00e1rios, mas se voc\u00eas trabalhadores n\u00e3o nos seguem, o azar \u00e9 de voc\u00eas!&#8221; &#8220;N\u00f3s somos o caminho, a verdade e a vida! Ningu\u00e9m chega ao pai sen\u00e3o por meio de n\u00f3s!&#8221; &#8220;Como voc\u00eas trabalhadores se atrevem a n\u00e3o nos reconhecer como os seus partidos e organiza\u00e7\u00f5es? No nosso pr\u00f3ximo congresso vamos votar uma resolu\u00e7\u00e3o contra voc\u00eas!&#8221; Vista em perspectiva, essa postura meramente defensiva dos partidos e organiza\u00e7\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o ao antipartidarismo, esse tom de queixa e essa atitude mendicante, praticamente implorando para ser aceito nas manifesta\u00e7\u00f5es, tem algo de pat\u00e9tico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os partidos e organiza\u00e7\u00f5es evitam falar dessa quest\u00e3o, do seu n\u00e3o reconhecimento pelos trabalhadores, como se isso fosse um tabu. Como se fosse suficiente bater no peito e dizer: &#8220;n\u00f3s somos a esquerda! A hist\u00f3ria nos dar\u00e1 raz\u00e3o&#8221; Essa postura de avestruz, que enfia a cabe\u00e7a no buraco para n\u00e3o lidar com a realidade, \u00e9 o primeiro passo para que os partidos e as organiza\u00e7\u00f5es percam o bonde da hist\u00f3ria, que est\u00e1 passando debaixo dos seus narizes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para responder de fato ao problema colocado pelo antipartidarismo, \u00e9 preciso sair dessa zona de conforto de se auto proclamar \u201cn\u00f3s somos a esquerda!\u201d, e para limpar terreno, come\u00e7ar abandonando algumas falsas respostas.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">A composi\u00e7\u00e3o de classe n\u00e3o explica tudo<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">A primeira falsa resposta seria a que diz que os partidos foram expulsos das manifesta\u00e7\u00f5es na Avenida Paulista, especialmente no dia 20 de junho, porque o p\u00fablico era composto pela classe m\u00e9dia. Por tr\u00e1s dessa resposta est\u00e1 o pressuposto de que a classe m\u00e9dia \u00e9 automaticamente de direita e a classe trabalhadora \u00e9 automaticamente de esquerda. Nada mais falso do que isso! A realidade \u00e9 muito mais complexa e contradit\u00f3ria. N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil encontrar indiv\u00edduos de esquerda no interior da classe m\u00e9dia, e n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o f\u00e1cil achar trabalhadores politizados, com uma consci\u00eancia de esquerda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pr\u00f3pria milit\u00e2ncia dos partidos e organiza\u00e7\u00f5es \u00e9 composta, na sua maior parte, por elementos muito mais pr\u00f3ximos da classe m\u00e9dia! Quem consegue ser militante no Brasil hoje? Funcion\u00e1rios p\u00fablicos ou de empresas estatais, que podem fazer greve sem serem demitidos (pelo menos por enquanto), estudantes de universidades p\u00fablicas, que para passar no vestibular puderam estudar sem ter que trabalhar, porque tem pais que puderam bancar seus estudos. Ou seja, a maior parte das organiza\u00e7\u00f5es que representam a classe trabalhadora \u00e9 composta por um segmento muito reduzido, mais pr\u00f3ximo da classe m\u00e9dia!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E inversamente, os trabalhadores na sua maioria interpretam o mundo com os \u00f3culos da ideologia burguesa. Como advertia Marx, as ideias dominantes numa determinada \u00e9poca s\u00e3o as ideias da classe dominante. Quem est\u00e1 enchendo hoje as igrejas evang\u00e9licas, com suas ideias machistas, racistas e homof\u00f3bicas, s\u00e3o justamente esses trabalhadores que &#8220;deveriam&#8221; estar nos partidos e organiza\u00e7\u00f5es de esquerda!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ou seja, a classe m\u00e9dia n\u00e3o \u00e9 automaticamente de direita, pode ser ganha pela esquerda, como de fato muitas vezes \u00e9, e os trabalhadores n\u00e3o s\u00e3o automaticamente de esquerda, precisam ser ganhos pela esquerda, e muito mais dificilmente s\u00e3o. Entre os que &#8220;podem ser ganhos&#8221; e os que &#8220;precisam ser ganhos&#8221; h\u00e1 uma dist\u00e2ncia abissal. Logicamente, \u00e9 muito mais f\u00e1cil para a esquerda colher militantes entre os que &#8220;podem ser ganhos&#8221; do que entre os que &#8220;precisam ser ganhos&#8221;. \u00c9 mais f\u00e1cil justamente pelo fato de que a classe m\u00e9dia tem acesso n\u00e3o apenas aos bens materiais, mas tamb\u00e9m aos bens espirituais que lhes propiciam os recursos culturais para entender e concordar com o discurso da esquerda, enquanto que os trabalhadores s\u00f3 tem acesso \u00e0s redes de TV aberta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o \u00e9 apenas porque as manifesta\u00e7\u00f5es se comp\u00f5em da classe m\u00e9dia (ou s\u00e3o no m\u00ednimo policlassistas, pois n\u00e3o foi a classe m\u00e9dia que atacou pr\u00e9dios p\u00fablicos, prefeituras, etc., em centenas de cidades) que os partidos foram expulsos, mas porque esses pr\u00f3prios partidos se refugiaram em setores de classe m\u00e9dia e numa elite cultural da classe trabalhadora, sem conseguir conquistar base social suficiente para garantir fisicamente sua presen\u00e7a quando surgiram as manifesta\u00e7\u00f5es de massa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Evidentemente, n\u00e3o se trata aqui de negligenciar o fato de que quem expulsou os partidos da manifesta\u00e7\u00e3o do dia 20 de junho na Paulista n\u00e3o foi a classe m\u00e9dia de esquerda, foi a classe m\u00e9dia j\u00e1 ganha ideologicamente pela direita, e o fez contando com a for\u00e7a bruta de grupos organizados de fascistas. N\u00e3o negligenciamos esse fato, apenas destacamos que a explica\u00e7\u00e3o das a\u00e7\u00f5es das massas pela simples evoca\u00e7\u00e3o da composi\u00e7\u00e3o social de classe e fra\u00e7\u00f5es de classe \u00e9 falsa, porque \u00e9 simplista e mistificadora. Refugiar-se na cren\u00e7a de que, se fossem os trabalhadores na Avenida Paulista eles seriam automaticamente de esquerda e defenderiam os partidos, \u00e9 uma forma de n\u00e3o entender o problema e continuar longe de resolv\u00ea-lo.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">O v\u00edcio do aparelhamento<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">A segunda falsa resposta consiste em negar a exist\u00eancia do v\u00edcio do aparelhamento (ou minimiz\u00e1-lo), que fez com que os partidos de esquerda fossem expulsos das manifesta\u00e7\u00f5es muito antes delas ganharem um car\u00e1ter de massa. O aparelhamento \u00e9 o h\u00e1bito que os partidos e organiza\u00e7\u00f5es t\u00eam de se colocar \u00e0 frente das manifesta\u00e7\u00f5es, com suas faixas e bandeiras, como se fossem os seus dirigentes por &#8220;direito natural&#8221;. Ora, isso n\u00e3o passa do mais grosseiro oportunismo, e qualquer manifestante de primeira viagem percebe a manobra dos partidos e organiza\u00e7\u00f5es que agem dessa forma, e os rejeita! &#8220;Quem s\u00e3o esses caras que n\u00e3o fazem trabalho de base, n\u00e3o disputam diariamente a consci\u00eancia dos trabalhadores, n\u00e3o v\u00e3o nas panfletagens e reuni\u00f5es nos locais de trabalho, nas salas de aula e nos bairros, e agora querem estar na frente das manifesta\u00e7\u00f5es?&#8221; \u00c9 assim que pensa um manifestante minimamente atento, e havia muitos deles.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Claro que nem todos os partidos e organiza\u00e7\u00f5es agem assim com uma metodologia t\u00e3o rebaixada, mas infelizmente \u00e9 essa postura que prevalece, e que acaba prejudicando a reputa\u00e7\u00e3o das organiza\u00e7\u00f5es perante os manifestantes e ativistas independentes. Para eles qualquer partido ou grupo organizado \u00e9 um bando de oportunistas que s\u00f3 pensa em aparelhar e dirigir.<br \/>\nO antipartidarismo baseado na repulsa ao aparelhamento n\u00e3o nasceu nas manifesta\u00e7\u00f5es de junho de 2013, ele j\u00e1 tem uma longa hist\u00f3ria de pelo menos duas d\u00e9cadas. Durante esse per\u00edodo, na falta de movimentos de massa, os partidos e organiza\u00e7\u00f5es lutavam encarni\u00e7adamente para dirigir qualquer m\u00ednima manifesta\u00e7\u00e3o, qualquer reuni\u00e3o de centro acad\u00eamico, alimentando com isso a rejei\u00e7\u00e3o contra a forma partido-organiza\u00e7\u00e3o. Devemos dizer nesse caso, uma justa rejei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sabemos tamb\u00e9m que n\u00e3o foram apenas os manifestantes independentes (corretamente) indignados com o aparelhismo que expulsaram os partidos e organiza\u00e7\u00f5es das primeiras manifesta\u00e7\u00f5es. Eles foram devidamente dirigidos para isso por um outro partido que j\u00e1 estava presente nas manifesta\u00e7\u00f5es, o partido dos antipartido, o partido dos que tem como \u00fanico programa ser contra a presen\u00e7a dos partidos, que finge n\u00e3o ser ele pr\u00f3prio um partido e assim dirige a base das manifesta\u00e7\u00f5es contra os outros partidos. Estamos falando aqui do partido anarquista, que atua de forma t\u00e3o aparelhista e sect\u00e1ria quanto os partidos de esquerda que combate.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Felizmente, esse partido anarquista n\u00e3o organiza todos os anarquistas, pois existem adeptos dessa ideologia que possuem um m\u00ednimo de consci\u00eancia de classe e sabem que o programa de ser antipartido n\u00e3o pode ser a \u00fanica bandeira do seu movimento e que esse programa cont\u00e9m em si uma armadilha, porque abre caminho para a a\u00e7\u00e3o da direita. Infelizmente, o que prevaleceu nas primeiras manifesta\u00e7\u00f5es foi o partido anarquista que expulsou os demais partidos e organiza\u00e7\u00f5es de esquerda, j\u00e1 compactuando assim com o discurso de direita que viria a se manifestar posteriormente de forma concreta na a\u00e7\u00e3o de neonazistas nos dias seguintes. Reconhecer esse erro pol\u00edtico dos anarquistas, por\u00e9m, n\u00e3o pode servir como desculpa para que os partidos e organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o fa\u00e7am a autocr\u00edtica do aparelhismo e combatam esse v\u00edcio que tantos males traz ao movimento.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">A identifica\u00e7\u00e3o com o PT e com o fracasso do reformismo<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma terceira falsa resposta \u00e9 a suposi\u00e7\u00e3o de que o p\u00fablico das manifesta\u00e7\u00f5es conhece os partidos de esquerda e os rejeita por seu conte\u00fado de esquerda. H\u00e1 uma insist\u00eancia em n\u00e3o perceber que os partidos de esquerda foram rejeitados em boa medida porque foram identificados com o PT. Para a imensa maioria dos trabalhadores e da classe m\u00e9dia, os partidos de esquerda legalizados, PSOL, PSTU, PCB e PCO, s\u00e3o apenas uma vers\u00e3o requentada do PT. S\u00e3o apenas mais um grupo de oportunistas e demagogos que usam o nome de &#8220;trabalhadores&#8221;, mas que quando se elegerem, v\u00e3o fazer o mesmo que o PT: roubar. Os partidos e as organiza\u00e7\u00f5es menores (que no campo da disputa eleitoral invariavelmente fazem unidade de a\u00e7\u00e3o ou chamam voto critico nesses partidos) insistem em n\u00e3o fazer uma leitura critica dessa interpreta\u00e7\u00e3o que os trabalhadores fazem da trajet\u00f3ria do PT. Insistem em n\u00e3o reconhecer que os trabalhadores j\u00e1 fizerem o seu balan\u00e7o da experi\u00eancia do PT e n\u00e3o est\u00e3o dispostos a repeti-la!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os trabalhadores sabem que o PT em sua origem era um partido combativo, que organizava greves, lutava pelos trabalhadores, etc., mas que com o tempo, conforme foi se elegendo para cargos mais importantes, foi fazendo acordos com os donos do pa\u00eds, chegando ao ponto de se corromper. N\u00e3o \u00e9 sem algum desgosto que os trabalhadores reconhecem isso, mas o reconhecem. O que eles vivenciam nesse reconhecimento \u00e9 a decep\u00e7\u00e3o subjetiva causada pelo fracasso objetivo da estrat\u00e9gia do PT de mudar o sistema a partir de dentro, ocupando espa\u00e7os no Estado e lutando por reformas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse programa, socialdemocrata na ess\u00eancia, fracassou h\u00e1 100 anos, com a socialdemocracia europeia, mas os trabalhadores brasileiros vivenciaram o seu fracasso agora, atrav\u00e9s da experi\u00eancia do PT. A estrat\u00e9gia eleitoral e reformista j\u00e1 estava errada h\u00e1 100 anos e est\u00e1 ainda mais errada agora, num per\u00edodo de crise estrutural do capital. H\u00e1 100 anos, Rosa Luxemburgo j\u00e1 denunciou o erro da estrat\u00e9gia que se limita ao reformismo e apontou a necessidade de, ao lado das reformas, lutar sempre pela revolu\u00e7\u00e3o. A estrategia revolucion\u00e1ria admite que se ocupem espa\u00e7os no Estado e se lute por reformas, mas desde que seja para fazer a den\u00fancia do pr\u00f3prio Estado e de que n\u00e3o se abandone jamais a organiza\u00e7\u00e3o da luta pela revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os trabalhadores, no entanto, verificaram na pr\u00e1tica que o PT abandonou a organiza\u00e7\u00e3o das lutas e se limitou a ocupar espa\u00e7os no Estado. Os trabalhadores mais avan\u00e7ados podem at\u00e9 reconhecer que os partidos de esquerda est\u00e3o nas lutas, podem at\u00e9 se colocar contra o PT e a CUT, que \u00e9 a correia de transmiss\u00e3o do PT, no \u00e2mbito do movimento sindical, podem at\u00e9 votar contra os dirigentes do PT\/CUT nas assembleias dos sindicatos, etc., mas no que se refere ao debate eleitoral e de projetos para a sociedade, esses mesmos trabalhadores mais avan\u00e7ados votam no PT, em nome do &#8220;voto \u00fatil contra a direita&#8221;, e simplesmente n\u00e3o reconhecem os partidos de esquerda como alternativa politica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para os trabalhadores brasileiros, o fracasso do projeto do PT significa o fracasso de qualquer partido de esquerda. Reconhecem instintivamente que esses partidos n\u00e3o possuem nem de longe o lastro social necess\u00e1rio para bancar o discurso revolucion\u00e1rio que \u00e0s vezes emitem, porque sabem que os processos de luta atuais s\u00e3o infinitamente menores do que aqueles que o PT dirigia. Entre o PT que j\u00e1 conhecem e esses partidos cuja atua\u00e7\u00e3o conhecem e cujo discurso n\u00e3o parece fact\u00edvel, os trabalhadores votam no PT. O resultado dos quatro partidos de esquerda legalizados nas elei\u00e7\u00f5es de 2012, quando n\u00e3o passaram de 1% dos votos, dispensa mais coment\u00e1rios sobre isso. Esses resultados eleitorais p\u00edfios n\u00e3o s\u00e3o explicados pelos partidos e organiza\u00e7\u00f5es nesses termos hist\u00f3ricos estruturais, mas em fun\u00e7\u00e3o de acidentes de percurso, erros t\u00e1ticos das candidaturas, da estrat\u00e9gia das campanhas eleitorais, etc., evitando enfrentar o problema em sua profundidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os partidos de esquerda (e as organiza\u00e7\u00f5es que os acompanham no campo eleitoral) insistem em fechar os olhos para essa realidade, porque isso os obrigaria a reconhecer que n\u00e3o conseguiram construir uma estrat\u00e9gia para a revolu\u00e7\u00e3o que seja diferente daquela do PT: ocupar espa\u00e7o na legalidade burguesa e lutar por reformas. Por mais que a revolu\u00e7\u00e3o seja a sua inten\u00e7\u00e3o declarada e o seu discurso para consumo interno da milit\u00e2ncia, a realidade \u00e9 que os partidos conseguem apenas, quando muito, impulsionar pequenas lutas por reformas. A dist\u00e2ncia entre o que o discurso projeta e o que a pr\u00e1tica realiza cobra seu pre\u00e7o quando esses partidos acabam confundidos com p\u00e1lidas imita\u00e7\u00f5es do PT. Os trabalhadores mais atentos identificam os partidos de esquerda com o PT naquilo que o PT tinha de melhor, o seu passado de participa\u00e7\u00e3o nas lutas, e mesmo assim, n\u00e3o confiam seu voto a esses partidos.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">Nem contra nem a favor, muito pelo contr\u00e1rio<\/h3>\n<p>Os manifestantes em geral, por sua vez, identificam os partidos de esquerda com o PT naquilo que o PT tem de pior, o seu presente de um partido de corruptos. O fato de serem identificados com o PT \u00e9 que levou os partidos e organiza\u00e7\u00f5es de esquerda a serem expulsos. A cor vermelha, que \u00e9 a cor hist\u00f3rica do movimento socialista, no Brasil \u00e9 a cor das bandeiras do PT, a mesma cor que os partidos de esquerda tamb\u00e9m usam. Logo, para a massa de manifestantes, ser vermelho \u00e9 sin\u00f4nimo de ser oportunista e corrupto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Repetimos, havia nas manifesta\u00e7\u00f5es um setor organizado de ultra direita que sabe o que s\u00e3o os partidos de esquerda e se aproveitou do atraso ideol\u00f3gico das massas para expulsar os partidos. Mas a maior parte das massas n\u00e3o estava contra a presen\u00e7a dos partidos porque \u00e9 contra o seu programa, mas porque sequer reconhece esses programas! Os manifestantes n\u00e3o s\u00e3o contra nem a favor do programa dos partidos de esquerda, muito pelo contr\u00e1rio: nem sequer os conhecem! Pode ser que, conhecendo os programas dos partidos, venham a ser contra (a maior parte da sociedade, os trabalhadores inclusive, repetimos, \u00e9 conservadora, \u00e9 contra as cotas, contra o casamento gay, a favor da pena de morte e da redu\u00e7\u00e3o da maioridade penal, etc.), mas no momento preciso atual os partidos de esquerda foram rejeitados por pessoas que sequer sabem o que eles representam!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os partidos de esquerda se recusam a reconhecer esse problema e jogam a responsabilidade nos pr\u00f3prios trabalhadores: o problema \u00e9 o &#8220;atraso politico&#8221;, a &#8220;despolitiza\u00e7\u00e3o&#8221;. Como se ser politizado fosse sin\u00f4nimo de reconhecer os partidos de esquerda, e especificamente, reconhec\u00ea-los como alternativa eleitoral. Com isso, identificam apenas o aspecto negativo da rejei\u00e7\u00e3o aos partidos, e n\u00e3o reconhecem que essa rejei\u00e7\u00e3o pode ter um aspecto positivo.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">Afinal de contas, os trabalhadores<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">est\u00e3o rejeitando n\u00e3o apenas a estrat\u00e9gia reformista (que pelas m\u00e3os do PT resultou em demagogia e corrup\u00e7\u00e3o) e os partidos de esquerda, est\u00e3o rejeitando de certa forma os partidos de direita e o conjunto das institui\u00e7\u00f5es. \u00c9 uma forma confusa de rejei\u00e7\u00e3o, mas \u00e9 massiva e profunda. Se a esquerda n\u00e3o apresenta uma alternativa revolucion\u00e1ria para essa confus\u00e3o, a direita tratar\u00e1 de apresentar a sua. Defensores da ditadura militar j\u00e1 se atrevem a por as asinhas de fora na internet.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao n\u00e3o conseguir apresentar um projeto que consiga distanciar a sua imagem daquela do PT, os partidos de esquerda parecem estar t\u00e3o somente repetindo a mesma estrat\u00e9gia eleitoral-reformista j\u00e1 derrotada. Ao serem vistos de longe, n\u00e3o parecem estar propondo uma ruptura revolucion\u00e1ria, e esse p\u00fablico que os v\u00ea de longe \u00e9 justamente o que est\u00e1 agora nas manifesta\u00e7\u00f5es. Para esse p\u00fablico, o MPL pareceu muito mais revolucion\u00e1rio (e nesse epis\u00f3dio foi), porque apostou no m\u00e9todo da a\u00e7\u00e3o direta (o que n\u00e3o \u00e9 em si uma virtude, mas nesse epis\u00f3dio teve a qualidade de romper com a situa\u00e7\u00e3o de defensiva que a classe estava). H\u00e1 muito tempo os partidos e organiza\u00e7\u00f5es abandonaram as a\u00e7\u00f5es diretas, deixando o \u201cmonop\u00f3lio\u201d desse m\u00e9todo para os anarquistas e para os chamados \u201cmovimentos sociais\u201d, como os de sem terra e sem teto. Quanto aos pr\u00f3prios partidos, est\u00e3o habituados a uma rotina de negocia\u00e7\u00f5es salariais institucionalizadas, em que a radicalidade passou longe.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E para c\u00famulo da incoer\u00eancia, esses partidos ainda se d\u00e3o ao desplante de criticar os movimentos sociais que abandonaram a radicalidade. Por muitos anos os partidos e organiza\u00e7\u00f5es de esquerda criticaram corretamente o MST por ter abandonado a t\u00e1tica das ocupa\u00e7\u00f5es e ter partido para a negocia\u00e7\u00e3o de desapropria\u00e7\u00f5es e assentamentos com o governo. Perfeito. Mas que moral tem esses partidos e organiza\u00e7\u00f5es para cobrar combatividade do MST, se h\u00e1 muitos anos esses mesmos partidos n\u00e3o organizam sequer uma ocupa\u00e7\u00e3o de f\u00e1brica? Os partidos e organiza\u00e7\u00f5es urbanos est\u00e3o t\u00e3o acomodados a uma rotina de negocia\u00e7\u00f5es salariais institucionalizadas que o movimento contra as passagens passou por cima deles. E apesar de todos os erros dos anarquistas que comentamos acima, \u00e9 preciso reconhecer que tiveram a virtude da a\u00e7\u00e3o direta, coisa que os partidos e organiza\u00e7\u00f5es abandonaram.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">Chorando o leite derramado<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando uma imensa massa de trabalhadores e classe m\u00e9dia aderiu ao movimento, os partidos e organiza\u00e7\u00f5es ficaram no seu canto resmungando: &#8220;como essas pessoas se atrevem a abandonar a passividade e tomar iniciativa? Como essas pessoas se atrevem a se colocar em movimento e ir para a a\u00e7\u00e3o direta sem ser dirigidos por n\u00f3s? Como essas pessoas se atrevem a convocar umas as outras por redes sociais, inventar cartazes e palavras de ordem? Como essas pessoas se atrevem a ser corajosas e criativas? Como essas pessoas se atrevem a se colocar como sujeitos, enfrentar o poder constitu\u00eddo e fazer hist\u00f3ria? Como essas pessoas se atrevem a tomar o destino nas pr\u00f3prias m\u00e3os? Essas pessoas n\u00e3o t\u00eam esse direito! Isso n\u00e3o estava previsto nas circulares do comit\u00ea central do partido! N\u00f3s \u00e9 que somos a dire\u00e7\u00e3o revolucionaria!&#8221; Com seu discurso amargo e ressentido, \u00e9 isso que os partidos e organiza\u00e7\u00f5es de esquerda est\u00e3o dizendo quando se limitam a defender seu direito de estar nas manifesta\u00e7\u00f5es e lamentam a \u201cdespolitiza\u00e7\u00e3o\u201d dos trabalhadores. Isso \u00e9 de uma miserabilidade politica e intelectual muito grande para quem se coloca a tarefa de ser dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ser dire\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 dar ordens, \u00e9 se colocar a servi\u00e7o do movimento, integrar-se a ele, entender suas contradi\u00e7\u00f5es e sugerir os rumos, dialogar com a realidade, testar e aprender com os erros e acertos, e acima de tudo ter humildade para come\u00e7ar de novo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O resultado conjugado dessas falsas respostas ao antipartidarismo \u00e9 a recusa em trat\u00e1-lo pelo seu conte\u00fado e a tentativa de resolv\u00ea-lo pela forma, pela reafirma\u00e7\u00e3o principista e abstrata da forma partido, no sentido de que &#8220;n\u00f3s somos partidos sim e quem est\u00e1 contra os partidos est\u00e1 com a direita reacion\u00e1ria!&#8221; Esse tipo de racioc\u00ednio esconde v\u00e1rios problemas, e o primeiro deles \u00e9 o abandono do m\u00e9todo dial\u00e9tico e da an\u00e1lise das contradi\u00e7\u00f5es da realidade. Se analisamos a realidade como um sim sim, n\u00e3o n\u00e3o, como se cada elemento n\u00e3o estivesse impregnado do seu contr\u00e1rio e em constante modifica\u00e7\u00e3o, essa \u00e9 a receita certa para n\u00e3o entender a realidade e ser atropelado por ela. Fazer a critica aos partidos, nesse momento, n\u00e3o \u00e9 fazer unidade com a direita reacion\u00e1ria, \u00e9 lutar a partir de dentro da esquerda para que os partidos e organiza\u00e7\u00f5es fa\u00e7am uma autocritica e superem seus erros!<br \/>\nOs partidos e organiza\u00e7\u00f5es lamentaram durante muitos anos que n\u00e3o havia manifesta\u00e7\u00f5es de massa no Brasil, que est\u00e1vamos num refluxo, que as pessoas estavam passivas e suportavam calados as mis\u00e9rias e insultos do capitalismo, etc. Agora que milh\u00f5es de pessoas se puseram nas ruas, esses mesmos partidos e organiza\u00e7\u00f5es lamentam porque n\u00e3o as est\u00e3o dirigindo. Tenha d\u00f3! O roteiro que haviam previsto para o desenvolvimento da luta de classes n\u00e3o foi cumprido, e agora n\u00e3o conseguem improvisar um outro.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">Levanta, sacode a poeira, d\u00e1 a volta por cima!<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esperamos que essa fase seja logo superada. Esperamos que se aprenda com as li\u00e7\u00f5es desse primeiro round. Esperamos que haja um balan\u00e7o geral das estrat\u00e9gias, dos programas, das pol\u00edticas, das t\u00e1ticas, dos m\u00e9todos. O debate deve ir muito al\u00e9m de portar ou n\u00e3o as bandeiras nas manifesta\u00e7\u00f5es. Para estar legitimamente portando bandeiras numa manifesta\u00e7\u00e3o, os partidos e organiza\u00e7\u00f5es deveriam primeiro ter contribu\u00eddo de maneira decisiva, por meio de um longo e paciente trabalho de convencimento, para a constru\u00e7\u00e3o dessa manifesta\u00e7\u00e3o. Deveriam trabalhar longamente para construir os organismos do movimento, os espa\u00e7os de discuss\u00e3o e delibera\u00e7\u00e3o, os f\u00f3runs, assembleias, redes, comit\u00eas, onde todas as ideias e tend\u00eancias pudessem se manifestar. Deveriam tratar a auto constru\u00e7\u00e3o do partido ou organiza\u00e7\u00e3o como uma consequ\u00eancia da sua atua\u00e7\u00e3o no movimento, e n\u00e3o o contr\u00e1rio, aparelhar o movimento priorizando a visibilidade e a constru\u00e7\u00e3o do partido ou organiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As manifesta\u00e7\u00f5es de 2013 deixaram uma pista que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel ignorar: os novos movimentos n\u00e3o aceitar\u00e3o pseudo dirigentes, pseudo representantes, pseudo porta vozes, pseudo lideran\u00e7as, pseudo ideologias que lhes sejam impostas de fora. Isso \u00e9 altamente positivo, pois os manifestantes se recusam a ser massa de manobra e querem ser agentes conscientes dos processos. Os grupos organizados de direita, que conduziram as manifesta\u00e7\u00f5es numa dire\u00e7\u00e3o antipartido, somente conseguiram faz\u00ea-lo porque n\u00e3o se apresentaram como partido (que s\u00e3o) e usaram uma rejei\u00e7\u00e3o ao PT previamente existente para expulsar os demais partidos (que n\u00e3o souberam se diferenciar do PT). Os anarquistas n\u00e3o foram rejeitados pelos manifestantes, porque ningu\u00e9m desconfia que queiram dirigir nada (embora, como vimos, um certo partido anarquista tenha agido como dire\u00e7\u00e3o aparelhista).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seria mais inteligente da parte dos partidos e organiza\u00e7\u00f5es que batalhassem pelas ideias, n\u00e3o pelas bandeiras, pelo conte\u00fado e n\u00e3o pela forma, at\u00e9 que o movimento adquira experi\u00eancia e consci\u00eancia suficiente para avaliar os programas de esquerda e de direita. Mesmo porque, o programa da direita tem vida curta, ele n\u00e3o conseguir\u00e1 afastar as contradi\u00e7\u00f5es do capitalismo, que continuar\u00e3o levando as pessoas \u00e0s ruas. Somente organiza\u00e7\u00f5es anticapitalistas podem dar um rumo humanista \u00e0s crises do capitalismo, que de outra forma conduzir\u00e3o \u00e0 barb\u00e1rie. Os partidos e organiza\u00e7\u00f5es t\u00eam um papel fundamental a desempenhar.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">Precisa-se de socialistas!<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">O objetivo deste texto n\u00e3o \u00e9 propor que se fa\u00e7a uma campanha de agita\u00e7\u00e3o entre os trabalhadores: \u201cabaixo os partidos de esquerda!\u201d, mas o contr\u00e1rio, dizer aos independentes: &#8220;entrem nos partidos!&#8221; Quando esse texto foi originalmente concebido, a ideia era fazer um apelo aos chamados independentes, para que ingressem nos partidos e organiza\u00e7\u00f5es. O texto foi originalmente pensado em fun\u00e7\u00e3o da percep\u00e7\u00e3o da fragilidade da esquerda organizada nas manifesta\u00e7\u00f5es. Era um ultimato dirigido aos independentes, os simpatizantes, os intelectuais, os acad\u00eamicos, dizendo: &#8220;voc\u00eas v\u00e3o deixar que os fascistas nos expulsem das manifesta\u00e7\u00f5es? Voc\u00eas v\u00e3o ficar a\u00ed de fora e n\u00e3o v\u00e3o fazer nada? N\u00e3o v\u00e3o se juntar a n\u00f3s e atuar de forma organizada? O que mais voc\u00eas est\u00e3o esperando?&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A soma do n\u00famero de indiv\u00edduos que se dizem marxistas, socialistas, revolucion\u00e1rios, esquerdistas, revoltados com as injusti\u00e7as e opress\u00f5es, que querem mudar a realidade, \u00e9 muito maior do que a soma do n\u00famero de militantes que est\u00e3o nos partidos e organiza\u00e7\u00f5es. O objetivo desse texto era fazer um chamado a todos esses indiv\u00edduos para que ingressem nos partidos e organiza\u00e7\u00f5es. Por isso o t\u00edtulo &#8220;\u00c9 hora de tomar partido&#8221; foi mantido, embora ele esteja em aparente contradi\u00e7\u00e3o com a maior parte do conte\u00fado, no seu n\u00edvel imediato. Entre a concep\u00e7\u00e3o do texto e a sua realiza\u00e7\u00e3o, no entanto, novos elementos se acumularam. Um exame cr\u00edtico das raz\u00f5es do antipartidarismo e das responsabilidades da pr\u00f3pria esquerda nesse fen\u00f4meno, levou a que o texto tomasse outro rumo. Por isso, foi preciso acrescentar o subt\u00edtulo que une o t\u00edtulo ao conte\u00fado: &#8220;e de tomar os partidos!&#8221; Diante dos problemas e erros dos partidos e organiza\u00e7\u00f5es, e hora de dar uma sacudida na esquerda!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se os partidos e organiza\u00e7\u00f5es t\u00eam todos os defeitos e cometem todos os erros que comentamos acima, n\u00e3o \u00e9 apenas por culpa daqueles que est\u00e3o dentro, mas tamb\u00e9m dos que est\u00e3o fora. Essa massa desorganizada de indiv\u00edduos que se dizem marxistas, socialistas, revolucion\u00e1rios, esquerdistas, revoltados com as injusti\u00e7as e opress\u00f5es, que querem mudar a realidade, precisa ingressar nos partidos! Precisam sair do discurso para a pr\u00e1tica. N\u00e3o se pode ser socialista como indiv\u00edduo isolado, mas apenas por meio de um coletivo. Ser socialista \u00e9 precisamente isso, acreditar que o indiv\u00edduo se realiza e se desenvolve por meio do coletivo. Atuar coletivamente exige humildade e paci\u00eancia, virtudes que n\u00e3o s\u00e3o compat\u00edveis com o individualismo pequeno burgu\u00eas que vicia a intelectualidade \u201cde esquerda\u201d. Ligar o seu destino pessoal ao destino de um coletivo \u00e9 o passo decisivo que separa o mero discurso socialista da pr\u00e1tica efetivamente socialista. A realidade demonstrou que precisamos urgentemente de mais indiv\u00edduos socialistas!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse era a proposta inicial do texto, mas como ela n\u00e3o p\u00f4de ser realizada tal como tinha sido originalmente concebida, a proposta fica mesmo assim como conclus\u00e3o: \u00c9 hora de entrar em massa nos partidos e organiza\u00e7\u00f5es, ou de criar novos partidos e organiza\u00e7\u00f5es! \u00c9 hora de tomar a esquerda e arejar os ambientes, injetar ar fresco, novas reflex\u00f5es e percep\u00e7\u00f5es, novas sensibilidades e linguagens, novos problemas e quest\u00f5es! \u00c9 hora de revolucionar a revolu\u00e7\u00e3o!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este texto \u00e9 uma contribui\u00e7\u00e3o individual,\u00a0n\u00e3o necessariamente expressa a opini\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o e por este motivo se apresenta assinado por<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":true,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[11,76],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2190"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2190"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2190\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6083,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2190\/revisions\/6083"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2190"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2190"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2190"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}