{"id":22,"date":"2008-12-13T15:47:09","date_gmt":"2008-12-13T15:47:09","guid":{"rendered":"http:\/\/espacosocialista.org\/?q=node\/22"},"modified":"2018-05-04T21:51:08","modified_gmt":"2018-05-05T00:51:08","slug":"irreversivel-a-perda-de-sentido-da-sexualidade-burguesa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/2008\/12\/irreversivel-a-perda-de-sentido-da-sexualidade-burguesa\/","title":{"rendered":"&#8220;Irrevers\u00edvel&#8221;: a perda de sentido da sexualidade burguesa"},"content":{"rendered":"<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: center;\" align=\"center\">\n<h1>\u201cIRREVERS\u00cdVEL\u201d: A PERDA DE SENTIDO DA SEXUALIDADE BURGUESA<\/h1>\n<h1><\/h1>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: center;\" align=\"center\">(Coment\u00e1rio sobre o filme \u201cIrrevers\u00edvel\u201d)<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Nome original: Irr\u00e9versible<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Produ\u00e7\u00e3o: Fran\u00e7a<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Ano: 2002<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Idiomas: Franc\u00eas, Espanhol, Italiano, Ingl\u00eas<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Diretor: Gaspar No\u00e9<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Roteiro: Gaspar No\u00e9<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Elenco: Monica Belluci, Vincent Cassel<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">G\u00eanero: crime, drama, thriller<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\"><span lang=\"EN-US\">Fonte: \u201cThe Internet Movie Database\u201d \u2013 <\/span><a href=\"http:\/\/www.imdb.com\/\"><span lang=\"EN-US\">http:\/\/www.imdb.com\/<\/span><\/a><span lang=\"EN-US\">\u00a0 <\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O filme franc\u00eas \u201cIrrevers\u00edvel\u201d tem como grande atra\u00e7\u00e3o a cena de estupro protagonizada pela atriz M\u00f4nica Bellucci. Esse \u00e9 o seu grande chamariz de p\u00fablico e a causa da grande pol\u00eamica que o cerca. O que s\u00f3 vim a saber depois de t\u00ea-lo assistido. O escriba que aqui se vos dirige, ao assistir a este filme, quebrou pela primeira vez sua regra de ouro, ou seja, o mandamento de somente assistir filmes sobre cujo conte\u00fado e realizadores j\u00e1 tem alguma informa\u00e7\u00e3o pr\u00e9via. Ao assistir \u201cIrrevers\u00edvel\u201d, n\u00e3o tinha no\u00e7\u00e3o do tipo de filme que me esperava. Por isso, minha primeira rea\u00e7\u00e3o foi de extremo desagrado.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Provavelmente, era essa a rea\u00e7\u00e3o que os realizadores esperavam. \u201cIrrevers\u00edvel\u201d \u00e9 um filme de agress\u00e3o. Antes de chegar \u00e0 famosa cena de estupro, o espectador \u00e9 bombardeado por imagens e sons propositadamente perturbadores. A hist\u00f3ria \u00e9 narrada de tr\u00e1s para frente, no estilo de \u201cAmn\u00e9sia\u201d. O filme come\u00e7a no seu cl\u00edmax de agress\u00e3o e mal estar, que \u00e9 o final da hist\u00f3ria. Aos poucos, a narra\u00e7\u00e3o vai regredindo para o princ\u00edpio da hist\u00f3ria, explicando quem s\u00e3o aqueles personagens e como foram parar naquela situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Ao contr\u00e1rio de \u201cAmn\u00e9sia\u201d, n\u00e3o se trata de um \u201cthriller\u201d de investiga\u00e7\u00e3o, cujo objetivo seja tentar adivinhar o final (ou seja, o come\u00e7o). O recurso da narra\u00e7\u00e3o em retrocesso temporal serve como uma esp\u00e9cie de arremate ir\u00f4nico para a crueldade do conte\u00fado, como veremos. Como se trata de um filme cujo foco n\u00e3o \u00e9 a trama, n\u00e3o h\u00e1 problema em contar o final (o come\u00e7o). A hist\u00f3ria termina (e o filme come\u00e7a) com a pris\u00e3o de dois amigos, Marcus e Pierre, pela morte de um homem a quem mataram em busca de vingan\u00e7a contra o cafet\u00e3o que perpetrou o estupro de Alex (M\u00f4nica Bellucci), atual namorada de Marcus e ex- de Pierre.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A vingan\u00e7a tem lugar numa boate gay que leva o sugestivo nome de \u201cRectum\u201d. O lugar \u00e9 um labirinto escuro intermin\u00e1vel, tetricamente iluminado por luzes vermelhas, povoado por gemidos agonizantes. Nesse lugar, o namorado ultrajado Marcus empreende uma descida ao inferno para perpetrar sua vingan\u00e7a, enquanto um desesperado Pierre tenta demov\u00ea-lo dessa id\u00e9ia. No final, ambos n\u00e3o conseguem completa a vingan\u00e7a, mas acabam matando a golpes de extintor de inc\u00eandio um dos freq\u00fcentadores do antro gay-sado-mas\u00f4-hardcore. Nas cenas em que esses eventos s\u00e3o mostrados o diretor abusa de recursos como a c\u00e2mera tremida e rodopiante, um som agonizante ao fundo, cortes bruscos, linguagem pesada. O m\u00e1ximo de ultraje e inc\u00f4modo.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Tais cenas se desenvolvem num grau realismo, viol\u00eancia sensorial e atmosfera carregada inimagin\u00e1veis no cinema comercial estadunidense. Filmes estadunidenses s\u00e3o prisioneiros da armadilha do seu sistema industrial de produ\u00e7\u00e3o. Precisam ser assistidos por multid\u00f5es mundo afora para cobrir custos de produ\u00e7\u00e3o. Precisam portanto ser palat\u00e1veis para audi\u00eancias massificadas, dos 8 aos 80 anos. Nessas condi\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 como conseguir o n\u00edvel de realismo como o deste \u201cIrrevers\u00edvel\u201d. At\u00e9 aqui, dissemos o \u00f3bvio. O cinema estadunidense \u00e9 sin\u00f4nimo de artificialidade, fantasia, ilus\u00e3o, escapismo, fuga da realidade.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00c9 sin\u00f4nimo tamb\u00e9m de monop\u00f3lio do imagin\u00e1rio. Para quebrar esse monop\u00f3lio, as cinematografias alternativas, como a francesa, acabam tendo que investir no extremo oposto, o mergulho na realidade. E a realidade \u00e9 aqui sin\u00f4nimo de barb\u00e1rie, viol\u00eancia, falta de sentido, horror. Ao contr\u00e1rio do mecanismo industrial estadunidense, aqui v\u00e1rias interpreta\u00e7\u00f5es s\u00e3o poss\u00edveis. O apelo para a viol\u00eancia do estupro e da vingan\u00e7a pode ser somente um expediente for\u00e7ado. Um truque sujo para provocar pol\u00eamica e atrair aten\u00e7\u00e3o. Mas pode servir tamb\u00e9m como demonstra\u00e7\u00e3o de tend\u00eancias hist\u00f3rico-sociais, e nisso estaria o valor e a import\u00e2ncia do filme.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Independentemente do fato de seus realizadores terem sido ou n\u00e3o oportunistas aventureiros interessados em causar pol\u00eamica, o conte\u00fado do filme \u00e9 sintom\u00e1tico. Antes por\u00e9m de discutir os nexos s\u00f3cio-culturais ali desvendados, \u00e9 preciso ressaltar o impacto da sua novidade nos aspectos formais e est\u00e9ticos da arte cinematogr\u00e1fica. O que ganha e o que perde o cinema com um filme como \u201cIrrevers\u00edvel\u201d? Provavelmente, ganha em realismo, pois mostra a barb\u00e1rie do submundo da prostitui\u00e7\u00e3o, do homossexualismo sado-masoquista hardcore e do crime sexual de forma nua e crua. Exp\u00f5e a doen\u00e7a da sociedade burguesa p\u00f3s-moderna, tornada incapaz de conceber o sexo como fonte de prazer e fundamento de uma sociabilidade humanizada.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Mas esse ganho de realismo se d\u00e1 com a perda da pr\u00f3pria ess\u00eancia do cinema, que \u00e9 a sua capacidade de criar fantasias. O cinema cl\u00e1ssico estadunidense, dos anos 30, 40, e 50, estruturado em torno do \u201cstar sistem\u201d, criou a figura da mulher fatal e moldou o imagin\u00e1rio sexual da era de prosperidade capitalista do s\u00e9culo XX. A cena de \u201cstrip-tease\u201d de Rita Hayworth em \u201cGilda\u201d representa o ponto alto dessa constru\u00e7\u00e3o. Precisamente porque a cena n\u00e3o se completa. Pelo menos n\u00e3o na tela. Gilda tira apenas as luvas. E deixa a todos os homens a tarefa de imaginar o restante da cena. O cinema se fixava assim como fonte da fantasia, pela via do mist\u00e9rio. O territ\u00f3rio fant\u00e1stico em que transcorria o restante da cena de \u201cstrip-tease\u201d deveria ser deixado, pelo bem do pr\u00f3prio cinema, reservado \u00e0 imagina\u00e7\u00e3o criadora do espectador.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">O sucesso e a m\u00edstica de Rita Hayworth adv\u00e9m dessa s\u00e1bia concess\u00e3o \u00e0 fantasia, enquanto que a pol\u00eamica e o mal estar em \u201cIrrevers\u00edvel\u201d adv\u00e9m precisamente da destrui\u00e7\u00e3o da fantasia. A mulher com quem qualquer espectador poderia sonhar \u00e9 desfrutada violentamente como um mero peda\u00e7o de carne. Em \u201cIrrevers\u00edvel\u201d, o cinema se torna o t\u00famulo da fantasia pela exposi\u00e7\u00e3o documental da cena de estupro. Uma atriz ascendente, M\u00f4nica Bellucci, uma mulher bel\u00edssima, sensual, carism\u00e1tica, que em outros tempos seria candidata \u00f3bvia ao posto de super-estrela, exp\u00f5e-se a uma cena que destr\u00f3i qualquer possibilidade de mitifica\u00e7\u00e3o de sua figura. Que gra\u00e7a ter\u00e1 em qualquer filme a presen\u00e7a de M\u00f4nica Bellucci se todos j\u00e1 puderam v\u00ea-la numa cena de sexo anal?<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">O mesmo vale tamb\u00e9m para o p\u00fablico feminino. Sem ser um filme essencialmente pornogr\u00e1fico, \u201cIrrevers\u00edvel\u201d exp\u00f5e tamb\u00e9m, abundantemente, a genit\u00e1lia masculina. Um desfile de p\u00eanis e mais p\u00eanis balan\u00e7ando pela tela. E mais do que a exposi\u00e7\u00e3o visual, o filme escancara para o p\u00fablico feminino a baixeza e a viol\u00eancia do imagin\u00e1rio sexual masculino. Porque o que tanto o estuprador quanto o namorado de Alex querem \u00e9 fazer sexo anal com ela. Ele pede isso, quando ela esperava dele palavras rom\u00e2nticas. Simples assim. Essa frieza faz parte da ir\u00f4nica crueldade do filme \u00e0 qual aludimos e sobre a qual ainda falaremos. O mist\u00e9rio do macho fica assim tamb\u00e9m destru\u00eddo, para desconforto destes e tamb\u00e9m das f\u00eameas.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Em qualquer fantasia sexual o ineditismo \u00e9 um dos componentes principais. Ningu\u00e9m \u00e9 capaz de excitar-se com uma imagem que j\u00e1 foi vista pela en\u00e9sima vez. Nem com uma mulher que j\u00e1 foi desfrutada no limite. Estamos aqui trabalhando com o racioc\u00ednio de que o fasc\u00ednio do cinema se devia em grande parte ao seu componente embutido de fantasia sexual, o qual depende de certas condi\u00e7\u00f5es precisas e de certas regras de exposi\u00e7\u00e3o para funcionar. Mostrar sem mostrar, essa \u00e9 a ess\u00eancia do jogo. Agora, na \u00e2nsia pelo impacto, pela novidade, pela radicalidade, pelo extremo, as regras do jogo s\u00e3o subvertidas. O encanto foi quebrado, a m\u00e1gica deixou de funcionar, o exagero passou do ponto. O cinema morre mais um pouco em \u201cIrrevers\u00edvel\u201d.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">J\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel sonhar com outra realidade criada pela fantasia e j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel conhecer a realidade sen\u00e3o aquela transformada em fantasia. \u201cIrrevers\u00edvel\u201d vai fundo nas fantasias inconfess\u00e1veis da audi\u00eancia e oferece o espet\u00e1culo da barb\u00e1rie da viol\u00eancia sexual. As fronteiras entre o real e o imagin\u00e1rio se desvanecem perigosamente. Depois de cenas desse tipo, onde mais o cinema pode ir? Onde mais cavar a fim de obter sensa\u00e7\u00e3o? Aproxima-se a confus\u00e3o entre o cinema de impacto de pretens\u00f5es realistas e documentais e o submundo criminoso dos filmes \u201csnuff\u201d. Filmes que mostram cenas reais de pessoas sendo mortas, violentadas, agredidas, etc., filmes que circulam no submundo criminoso da internet.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Onde tanta discuss\u00e3o se origina, o entretenimento est\u00e1 morto. Os realizadores de \u201cIrrevers\u00edvel\u201d est\u00e3o jogando sujo. Trapaceando no jogo. No campeonato do baixo n\u00edvel e viol\u00eancia como concebem o cinema, alcan\u00e7aram a pontua\u00e7\u00e3o mais alta at\u00e9 agora. A rea\u00e7\u00e3o, por outro lado, tamb\u00e9m tem sido amb\u00edgua. H\u00e1 um ineg\u00e1vel efeito pornogr\u00e1fico excitante na cena de estupro, que provoca certa atra\u00e7\u00e3o. Mas n\u00e3o se pode admitir um estupro como atra\u00e7\u00e3o est\u00e9tica. Embora qualquer um que veja a cena fique excitado. \u00c9 isso na verdade que nenhum cr\u00edtico pode admitir, porque admitiria com isso a pr\u00f3pria sexualidade doente. Em nome da moral e os bons costumes, o filme tem que ser condenado pela cr\u00edtica.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Mas a condena\u00e7\u00e3o, a meu ver, n\u00e3o pode parar apenas no filme. Tem que alcan\u00e7ar a realidade que ele decanta e mostrar porque a sexualidade se tornou t\u00e3o doente e inc\u00f4moda. Independentemente de o filme ser ou n\u00e3o um golpe baixo de publicidade apelativa, ele \u00e9 um sintoma de uma doen\u00e7a grave.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Antes por\u00e9m de discutir o significado do estupro, \u00e9 preciso investigar, em primeiro lugar, porque essa \u00e9 a cena que chama mais aten\u00e7\u00e3o. \u00c9 interessante, antes de mais nada, que a cena de estupro cause mais inc\u00f4modo que o assassinato. Porque discutir a cena de estupro e n\u00e3o a cena inicial, um assassinato brutal a golpes de extintor de inc\u00eandio? A resposta \u00e9 que o morto era um simples gay sado-mas\u00f4 degenerado.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">\u00c9 quase admiss\u00edvel que um burgu\u00eas des\u00e7a ao submundo para assassinar um homossexual, mas n\u00e3o \u00e9 aceit\u00e1vel que um criminoso suba para estuprar uma mulher burguesa. Os dois crimes s\u00e3o julgados com medidas diferentes. Porque discutir somente o estupro e n\u00e3o tamb\u00e9m o assassinato? As duas cenas s\u00e3o igualmente horr\u00edveis. Mas a consci\u00eancia burguesa diz para si mesma, implicitamente, que algu\u00e9m merecia morrer por desagravo ao estupro. No turbilh\u00e3o de sensa\u00e7\u00f5es perturbadoras despertadas pelo filme, a barb\u00e1rie da nossa condi\u00e7\u00e3o social fica exposta e a id\u00e9ia de justi\u00e7a naufraga miseravelmente.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Para que fique claro, n\u00e3o se trata de defender o estuprador ou minimizar o grau de agress\u00e3o configurado no estupro. Mas de colocar no devido lugar tamb\u00e9m o assassinato.\u00a0 Matar pode, mas estuprar n\u00e3o. O cinema admite cenas de morte, mas n\u00e3o de estupro. A morte j\u00e1 foi banalizada pelo cinema estadunidense. Especialmente a morte de criminosos, quase sempre negros, latinos, \u00e1rabes, vietnamitas, etc., membros de minorias exclu\u00eddas ou representantes de ideologias subversivas, tratados sumariamente como terroristas. O defensor da ideologia estadunidense est\u00e1 autorizado a matar, mas n\u00e3o est\u00e1 autorizado a demonstrar desejo sexual. O soldado mandado ao Vietn\u00e3 pode matar uns amarelos, mas n\u00e3o pode falar palavr\u00f5es.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">A destrui\u00e7\u00e3o de vidas indesej\u00e1veis \u00e9 admiss\u00edvel, mas expor abertamente a sexualidade n\u00e3o \u00e9. Porque, como veremos a seguir, a sexualidade burguesa carrega uma doen\u00e7a cong\u00eanita que precisa a todo custo esconder. A veem\u00eancia da condena\u00e7\u00e3o ao estupro esconde a atra\u00e7\u00e3o que a cena provoca e que n\u00e3o pode ser confessada.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Para explicar \u201cIrrevers\u00edvel\u201d, \u00e9 preciso recorrer ao Marques de Sade, o fil\u00f3sofo do sexo anal, autor de \u201c180 dias de Sodomia\u201d, assunto que conhecia na teoria e na pr\u00e1tica, ativa e passiva. Sade reconheceu o car\u00e1ter destruidor e anti-social do sexo anal e por isso mesmo o defendia. O seu insulto ia al\u00e9m daquele perpetrado pelos demais \u201cphilosophes\u201d do Iluminismo e por isso mesmo ele foi perseguido e encarcerado at\u00e9 a morte. O philosophe iluminista defendia, contra a aristocracia e o clero, a pr\u00e1tica do sexo como parte do envolvimento amoroso. Ou seja, desvinculado da sua faculdade reprodutiva. E o sexo, para o clero e a nobreza, representantes da ordem social patriarcal, s\u00f3 pode ter como finalidade a reprodu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">A proposta dos philosophes era libert\u00e1ria e revolucion\u00e1ria. Porque contemplava no seu bojo, entre outras coisas, a futura emancipa\u00e7\u00e3o sexual das mulheres na sociedade burguesa. O sexo pode e deve ser praticado com vistas ao prazer, o que envolve necessariamente as duas partes do casal. Esse tipo de proposta \u00e9 universalista, democr\u00e1tica e humanista. O sexo anal, defendido por Sade, por outro lado, n\u00e3o tem a fun\u00e7\u00e3o reprodutiva e nem mesmo de proporcionar prazer a ambas as partes. \u00c9 um gesto de \u00f3dio e n\u00e3o de amor, dizia o pr\u00f3prio Sade. Sua fun\u00e7\u00e3o \u00e9 meramente de agredir e destruir. Tanto assim que em \u201cIrrevers\u00edvel\u201d o estuprador, depois de consumado o ato, n\u00e3o satisfeito, espanca sua v\u00edtima a ponto de desfigur\u00e1-la. Ele n\u00e3o deseja a mulher burguesa, mas a odeia.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Por pressentir isso, os iluministas n\u00e3o defendiam Sade. As pr\u00e1ticas do Marqu\u00eas eram inadmiss\u00edveis mesmo para os libertinos iluministas. O tipo de agress\u00e3o que ele representava destru\u00eda a pr\u00f3pria ess\u00eancia universalista do ideal iluminista. O sexo anal pode dar prazer para uma das partes somente. \u00c9 uma modalidade radicalmente individualista e exclusivista. E o individualismo \u00e9 o pecado de origem da pr\u00f3pria ideologia burguesa, cuja oculta\u00e7\u00e3o \u00e9 essencial para o sucesso hist\u00f3rico da mistifica\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">O sexo tem que ser o princ\u00edpio e o fim do envolvimento amoroso e tem que ser uma fonte de prazer para ambas as partes. Essa \u00e9 a promessa dos libertinos. A burguesia ascendente precisa falar a todas as camadas sociais e sexuais, por isso sua mensagem tem que ser universalista e democr\u00e1tica. E tem que banir as pr\u00e1ticas individualistas e anti-sociais do sadismo. O que Sade revela e o que os philosophes n\u00e3o podem conceber \u00e9 que a ideologia burguesa \u00e9 na verdade individualista e a promessa de associar prazer e amor \u00e9 um mito inalcan\u00e7\u00e1vel na sociedade burguesa. Ele leva ao paroxismo a perda de sentido da sexualidade na sociedade burguesa e se coloca no extremo oposto do romantismo, ideologia sentimental da burguesia ascendente.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">A verdade dessa inc\u00f4moda descoberta de Sade somente seria demonstrada no s\u00e9culo seguinte, quando a burguesia deixava de lado suas ilus\u00f5es progressistas. J\u00e1 na fase decadente a burguesia concebe o masoquismo, ou seja a obten\u00e7\u00e3o do prazer pela submiss\u00e3o \u00e0 dor infringida pelo outro. O individualismo destrutivo de Sade encontra seu complemento necess\u00e1rio na obra de Sacher Masoch, culminando no sado-masoquismo. Nessa modalidade de pr\u00e1tica sexual o prazer individualista e a submiss\u00e3o auto-destrutiva se alimentam mutuamente e unificam os termos l\u00f3gicos da destrui\u00e7\u00e3o da sexualidade como fundamento de uma sociabilidade universalista. Dor e prazer, submiss\u00e3o e domina\u00e7\u00e3o, explora\u00e7\u00e3o e usufruto, uso e abuso, pares dial\u00e9ticos cuja oposi\u00e7\u00e3o e complementaridade determinam os la\u00e7os sociais no regime capitalista.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">O corpo humano \u00e9 concebido como objeto e como mercadoria, cabendo-lhe como tal passar pelo processo de produ\u00e7\u00e3o e consumo. Cabe-lhe receber a formata\u00e7\u00e3o adequada em linhas de montagem, como as academias de gin\u00e1stica, a embalagem adequada das roupas de grife e oferecer-se como mercadoria na ca\u00e7a pelo sexo. Nessa linha de montagem do prazer dessignificado, as identidades sexuais tradicionais legadas pelo patriarcado deixam de fazer sentido. Macho e f\u00eamea, ativo e passivo, frontal e anal, reprodutivo ou recreativo, as modalidades de usufruto do corpo s\u00f3 fazem sentido quando levadas ao extremo. O sado-masoquismo exp\u00f5e o lado obscuro da sexualidade burguesa, assim como a rela\u00e7\u00e3o mercadol\u00f3gica inverte o valor de uso em valor de troca.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">\u201cIrrevers\u00edvel\u201d exp\u00f5e os extremos a que se vai em busca do prazer. O Everest est\u00e1 ao alcance de quem puder pagar. Burgueses endinheirados pagam fortunas e armam expedi\u00e7\u00f5es onde a morte \u00e9 uma companhia constante na tentativa de chegar ao topo da montanha mais alta do mundo. N\u00e3o basta mais uma satisfa\u00e7\u00e3o \u201cnormal\u201d. \u00c9 preciso ir al\u00e9m, virar o corpo do avesso, ser radical. Esporte radical, sexo radical. Radical como o \u201cfist fucking\u201d que algu\u00e9m pede insistentemente a Marcus na sua descida ao Rectum.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">A sociedade capitalista oferece ainda a promessa do prazer para todos, mas apenas alguns o conseguem por meio de rela\u00e7\u00f5es consensuais e normais. Rela\u00e7\u00f5es que d\u00eaem sentido ao ato, como Alex via sentido na possibilidade da maternidade. Os que n\u00e3o conseguem tentam alcan\u00e7\u00e1-lo por outra via. Marcus precisa de drogas para sentir prazer. Ao v\u00ea-lo drogado numa festa, Alex se sente insultada e resolve ir embora sozinha, decis\u00e3o que se mostraria fatal. No caminho, ela encontrar\u00e1 uma prostituta sendo agredida pelo cafet\u00e3o, tornando-se tamb\u00e9m sua v\u00edtima.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">A clivagem social \u00e9 expl\u00edcita. O abismo entre os burgueses e os marginais \u00e9 n\u00edtido. O filme oferece assim o confronto entre os inclu\u00eddos e os sexualmente exclu\u00eddos. A tens\u00e3o entre a promessa universalista e democr\u00e1tica e a verdade individualista e anti-social da ideologia burguesa explode sob a forma de viol\u00eancia e \u00f3dio. De forma irrespons\u00e1vel, conscientemente ou n\u00e3o, os realizadores do filme retratam os exclu\u00eddos como essencialmente criminosos e violentos. De um lado, temos os burgueses, belos e saud\u00e1veis, e do outro, os marginais. O estupro como vingan\u00e7a de classe? Eis mais uma transgress\u00e3o de extremo mau gosto dos autores do filme. Em lugar da sexualidade rom\u00e2ntica, niilismo sexual.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">De qualquer maneira, n\u00e3o h\u00e1 em \u201cIrrevers\u00edvel\u201d um meio termo poss\u00edvel entre a burguesia e as classes abaixo dela, transformadas em l\u00fampem. Os marginais, exclu\u00eddos da festa, tornam-se criminosos. Optam pelo estupro, pelo homossexualismo prom\u00edscuo, pelo transexualismo, como Concha, a prostituta sujeita ao mesmo cafet\u00e3o que estuprou Alex.\u00a0 Optam por modalidades radicais como o \u201cfist fucking\u201d (enfiar o bra\u00e7o no \u00e2nus do parceiro).<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">A viol\u00eancia intr\u00ednseca ao processo social capitalista exige produtividade tamb\u00e9m no ato sexual. Pierre se aflige por n\u00e3o entender porque n\u00e3o conseguia dar prazer a Alex. A rela\u00e7\u00e3o entre eles havia se tornado anti-natural por conta da sua \u00e2nsia produtivista em alcan\u00e7ar a todo custo o orgasmo de sua parceira. Quando o segredo do orgasmo est\u00e1 na simplicidade de n\u00e3o se preocupar com ele, explica Alex. O segredo est\u00e1 na simplicidade do carinho. Em n\u00e3o pensar e deixar o corpo se expressar.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">De forma aberta, os tr\u00eas burgueses liberais franceses discutem esse tipo de assunto num vag\u00e3o de trem, para que todos os demais passageiros possam ouvir. Como antes, pela manh\u00e3, Alex e Marcus falavam de sexo como uma rela\u00e7\u00e3o em que a mulher tem o poder de escolher. A mensagem do filme pode ser lida como uma advert\u00eancia c\u00ednica. De tanto pensar em sexo, sonhar com sexo, falar em sexo, a mulher recebeu o sexo que procurava. Uma mensagem ultrajante, uma ironia de extremo mau gosto.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Essa \u00e9 a maior crueldade do filme, a ironia \u00e0 qual tenho aludido, o maior motivo de inc\u00f4modo. Ele trata de maneira extremamente ir\u00f4nica e violenta o sonho de uma sexualidade burguesa ainda rom\u00e2ntica. Esse \u00e9 o insulto que a cr\u00edtica burguesa n\u00e3o pode suportar. Como ofensa final a esta cr\u00edtica-avestruz de quem n\u00e3o quer enxergar o problema e enfia a cabe\u00e7a num buraco, para n\u00e3o ver a barb\u00e1rie burguesa; h\u00e1 uma testemunha do estupro, que aparece na boca do t\u00fanel, v\u00ea a cena, mas n\u00e3o faz nada, d\u00e1 meia volta e desaparece.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">A cada um cabe escolher se ir\u00e1 se esconder, simplesmente dizer que o filme \u00e9 imoral, ou se ir\u00e1 tentar entend\u00ea-lo, denunciar o que viu. Como rom\u00e2ntico que sou, prefiro a den\u00fancia.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">A ironia se completa no final, com Alex lendo um livro, deitada placidamente no gramado de um parque, sonhadora. E n\u00f3s somos convidados a esquecer tudo que vimos antes, porque o filme voltou ao come\u00e7o, quando a trag\u00e9dia ainda n\u00e3o tinha acontecido. Somos convidados a fingir que nada aconteceu. E a voltar para nossas vidas e nosso sexo, como se ainda se pudesse faz\u00ea-lo de forma natural. Como se os danos causados n\u00e3o fossem irrevers\u00edveis.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">Daniel M. Delfino<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">01\/05\/2004<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p align=\"center\" style=\"text-align: center;\" class=\"MsoNormal\"><o:p>&nbsp;<\/o:p><\/p>\n<h1>&ldquo;IRREVERS&Iacute;VEL&rdquo;: A PERDA DE SENTIDO DA SEXUALIDADE BURGUESA<\/h1>\n<h1><o:p>&nbsp;<\/o:p><\/h1>\n<p align=\"center\" style=\"text-align: center;\" class=\"MsoNormal\">(Coment&aacute;rio sobre o filme &ldquo;Irrevers&iacute;vel&rdquo;)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" class=\"MsoNormal\"><o:p>&nbsp;<\/o:p><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" class=\"MsoNormal\"><o:p>&nbsp;<\/o:p><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" class=\"MsoNormal\"><o:p>&nbsp;<\/o:p><\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[9,76],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=22"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6160,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22\/revisions\/6160"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=22"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=22"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=22"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}