{"id":224,"date":"2010-04-29T17:24:17","date_gmt":"2010-04-29T20:24:17","guid":{"rendered":"http:\/\/espacosocialista.org\/?q=node\/224"},"modified":"2018-05-04T21:37:32","modified_gmt":"2018-05-05T00:37:32","slug":"o-culto-ao-nazismo-nas-bancas-de-jornal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/2010\/04\/o-culto-ao-nazismo-nas-bancas-de-jornal\/","title":{"rendered":"O culto ao nazismo nas bancas de jornais &#8211; Daniel Delfino"},"content":{"rendered":"<p>Uma r\u00e1pida olhada nas bancas de jornal no m\u00eas de julho de 2009 revelou a ocorr\u00eancia de um fen\u00f4meno editorial bastante significativo. H\u00e1 um \u201cboom\u201d de publica\u00e7\u00f5es voltadas para a II Guerra Mundial, para o nazismo em especial, e para a figura de Hitler em particular.<br \/>\nVejam-se os seguintes t\u00edtulos:<br \/>\n&#8211; II Guerra Mundial \u2013 Edi\u00e7\u00e3o Ilustrada \u2013 Campos de Concentra\u00e7\u00e3o \u2013 A estrat\u00e9gia de exterm\u00ednio de Hitler \u2013 Holocausto \u2013 Organiza\u00e7\u00e3o do Partido \u2013 Campos de concentra\u00e7\u00e3o \u2013 Ed. Escala.<br \/>\n&#8211; Especial 70 anos da II Guerra \u2013 Grandes guerras \u2013 Tudo de novo no front \u2013 Dia D minuto a minuto \u2013 Ed. Abril.<br \/>\n&#8211; Cole\u00e7\u00e3o Battlefield \u2013 Aventuras na hist\u00f3ria \u2013 DVD \u2013 As maiores batalhas da II Guerra numa s\u00f3 cole\u00e7\u00e3o \u2013 A batalha da Gr\u00e3-Bretanha &#8211; Ed. Abril.<br \/>\n&#8211; Stalingrado, um duelo mortal entre Hitler e Stalin \u2013 Aventuras na hist\u00f3ria \u2013 DVD \u2013 A batalha mais dram\u00e1tica da II Guerra Mundial \u2013 Ed. Abril.<br \/>\n&#8211; Hitler, simbologia e ocultismo \u2013 A hist\u00f3ria secreta do ditador \u2013 Anticristo, Lan\u00e7a de Longinus, Su\u00e1stica, Nazismo, For\u00e7as Ocultas \u2013 Ed. Escala.<br \/>\n&#8211; Segunda Guerra \u2013 A hist\u00f3ria oficial e seus her\u00f3is an\u00f4nimos \u2013 Ed. Universo dos livros.<br \/>\n&#8211; Hist\u00f3ria revelada \u2013 A lan\u00e7a sagrada de Hitler \u2013 Os segredos do nazismo \u2013 Origem, filosofia, hist\u00f3ria, influ\u00eancia, simbologia \u2013 Ed. Universo dos livros.<br \/>\n&#8211; Hist\u00f3ria ilustrada do nazismo \u2013 O poder e as conseq\u00fc\u00eancias \u2013 1933 \u2013 45 \u2013 Vol. 2 \u2013 Ed. Larousse.<br \/>\n&#8211; Atlas II Guerra Mundial \u2013 Alemanha vs. Inglaterra \u2013 Livros Escala.<br \/>\n&#8211; Hist\u00f3ria viva \u2013 70 anos da Guerra Civil Espanhola \u2013 Ed. Duetto.<br \/>\n&#8211; Edi\u00e7\u00e3o totalmente ilustrada \u2013 HOLOCAUSTO &#8211; A estrat\u00e9gia de purifica\u00e7\u00e3o racial de Hitler \u2013 Ed. Escala.<br \/>\n&#8211; Hitler e os segredos do nazismo \u2013 Vol. 1 \u2013 Ed. Universo dos livros.<br \/>\nAparentemente, isso pode significar uma simples curiosidade \u201cinocente\u201d, um interesse neutro pelo conhecimento hist\u00f3rico. Pode haver uma flutua\u00e7\u00e3o c\u00edclica do interesse do p\u00fablico leitor, que vai de temas como o nazismo a outros fen\u00f4menos hist\u00f3ricos, como as cruzadas ou o imp\u00e9rio romano. Entretanto, a continuidade dessa observa\u00e7\u00e3o nos meses seguintes demonstrou a consist\u00eancia do fen\u00f4meno. As publica\u00e7\u00f5es sobre o nazismo e Hitler continuaram \u201cem cartaz\u201d, e novas publica\u00e7\u00f5es apareceram.<br \/>\nAl\u00e9m disso, um exame mais cuidadoso dos t\u00edtulos revela tamb\u00e9m que n\u00e3o se trata de simples curiosidade hist\u00f3rica ou interesse neutro. T\u00edtulos como \u201cos segredos do nazismo\u201d, \u201ca mitologia\u201d, \u201ca simbologia\u201d, \u201ca filosofia\u201d, \u201cas sociedades secretas e o nazismo\u201d; n\u00e3o t\u00eam nada de inocente ou neutro. S\u00e3o t\u00edtulos pensados para tornar o objeto mais atraente. Disfar\u00e7adamente, o sensacionalismo esconde uma apologia do objeto, ajudando a alimentar o fasc\u00ednio e o mist\u00e9rio.<br \/>\nPara completar, deparamo-nos com a quase total aus\u00eancia de um contraponto ideol\u00f3gico a essa avalanche de lan\u00e7amentos sobre o nazismo. H\u00e1 um ou outro lan\u00e7amento sobre Ernesto Che Guevara (ver por exemplo: Superinteressante \u2013 Aventuras na hist\u00f3ria \u2013 50 anos da Revolu\u00e7\u00e3o comunista \u2013 Cuba e Che \u2013 revista e DVD \u2013 Ed. Abril), e se bem que o Che sempre tenha sido um \u201cfen\u00f4meno de vendas\u201d, fato cujo significado ideol\u00f3gico tamb\u00e9m merece uma boa discuss\u00e3o, h\u00e1 uma esmagadora preval\u00eancia da direita sobre a esquerda nas bancas de jornal.<br \/>\nEstamos diante de um verdadeiro culto ao nazismo. \u00c9 certo que n\u00e3o se pode julgar o livro pela capa. Seria preciso fazer o exame detalhado de cada uma dessas publica\u00e7\u00f5es para verificar a linha pol\u00edtica que defendem. Certamente, nenhum autor ou editora cometer\u00e1 a sandice de fazer uma apologia aberta do nazismo. Entretanto, independentemente do conte\u00fado, a simples apari\u00e7\u00e3o desse fen\u00f4meno editorial \u00e9 ideologicamente significativo. As publica\u00e7\u00f5es podem at\u00e9 mesmo ser academicamente corretas ao mostrar as atrocidades que o nazismo cometeu, os campos de concentra\u00e7\u00e3o, etc., mas isso funciona apenas como cobertura para uma apologia indireta do fen\u00f4meno. H\u00e1 um gosto s\u00e1dico no inconsciente coletivo sendo alimentado por esse tipo de mercadoria \u201cinocente\u201d irresponsavelmente cultivado pela ind\u00fastria editorial. Para bom entendedor, meia palavra basta. \u00c9 preciso saber tirar as conclus\u00f5es pol\u00edticas desse sinistro fen\u00f4meno ideol\u00f3gico em processamento nas profundezas da consci\u00eancia social.<br \/>\nO aparecimento desse \u201cboom\u201d editorial, se n\u00e3o configura uma apologia expl\u00edcita do nazismo, pode bem significar uma esp\u00e9cie de culto disfar\u00e7ado. Se n\u00e3o h\u00e1 uma cr\u00edtica e uma den\u00fancia do nazismo, uma explica\u00e7\u00e3o do seu papel hist\u00f3rico de alternativa extrema da burguesia alem\u00e3 em face da Grande Depress\u00e3o, etc., a compreens\u00e3o fica prejudicada. O leitor desavisado pode ser seduzido pelo apelo do visual, da simbologia, da sofisticada hierarquia do partido nazista, da disciplina, da ordem, da determina\u00e7\u00e3o \u201cher\u00f3ica\u201d, do romantismo, etc.<br \/>\nN\u00e3o basta a den\u00fancia de que o nazismo exterminou milh\u00f5es de judeus. \u00c9 preciso explicar porque a burguesia alem\u00e3 precisou do nazismo. Na d\u00e9cada de 1930, o capitalismo desmoronava a olhos vistos e o desemprego atingia milh\u00f5es de pessoas em todos os pa\u00edses ligados ao mercado mundial, desde os grandes imp\u00e9rios at\u00e9 as semi-col\u00f4nias. Do outro lado havia o exemplo da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica (mesmo sob o terror stalinista), com pleno emprego, industrializa\u00e7\u00e3o e melhoria nas condi\u00e7\u00f5es de vida. O movimento comunista internacional era uma amea\u00e7a concreta para a burguesia, pois mostrava uma alternativa palp\u00e1vel ao capitalismo em plena crise.<br \/>\nO nazismo cresceu explorando exatamente a divis\u00e3o entre o stalinismo e a social-democracia. As duas principais for\u00e7as da esquerda n\u00e3o se unificaram para combater a ascens\u00e3o do nazismo e foram derrotadas nas disputas de rua no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1930. Hitler construiu um ex\u00e9rcito com bandos de l\u00fampens para espancar militantes de esquerda e aplastar sindicatos. Com isso o nazismo tornou-se alternativa para a burguesia alem\u00e3. A burguesia francesa e inglesa considerava a revolu\u00e7\u00e3o socialista uma amea\u00e7a maior do que o pr\u00f3prio nazismo. Isso permitiu o rearmamento do imperialismo alem\u00e3o, que precipitou a guerra.<br \/>\nO nazismo matou milh\u00f5es de judeus, mas n\u00e3o apenas isso. A II Guerra provocou a morte de dezenas de milh\u00f5es de trabalhadores de v\u00e1rias nacionalidades, al\u00e9m de outros tantos milh\u00f5es de feridos e desabrigados, da destrui\u00e7\u00e3o de recursos e for\u00e7as produtivas, f\u00e1bricas, infra-estrutura e cidades inteiras. Foi somente sobre a base dessa destrui\u00e7\u00e3o que o capitalismo p\u00f4de se reerguer da crise mundial iniciada em 1929.<br \/>\nResgatar essa hist\u00f3ria (h\u00e1 muitos outros detalhes a serem esclarecidos) \u00e9 importante no cen\u00e1rio marcado por uma crise econ\u00f4mica que \u00e9 a mais s\u00e9ria desde a Grande Depress\u00e3o. Se a Depress\u00e3o provocou uma destrui\u00e7\u00e3o do tamanho daquela da II Guerra, algo semelhante pode estar se preparando no nosso presente. Por mais que os ide\u00f3logos do sistema digam que a atual crise \u201cest\u00e1 superada\u201d, nenhum dos problemas estruturais do capitalismo foram resolvidos (e nem podem s\u00ea-lo dentro dos marcos desse modo de produ\u00e7\u00e3o). O capital fict\u00edcio transbordando no mercado financeiro, o endividamento dos Estados, a emiss\u00e3o descontrolada de moeda, o desemprego, etc., s\u00e3o legados dessa crise que continuar\u00e3o durante v\u00e1rios anos. A burguesia pode responder \u00e0 insatisfa\u00e7\u00e3o social por meio da guerra. Basta escolher o advers\u00e1rio: o Ir\u00e3, a Cor\u00e9ia do Norte, a Venezuela, etc., ou ainda o terrorismo, as drogas, a viol\u00eancia, o crime, etc.<br \/>\nPor isso, n\u00e3o \u00e9 coincid\u00eancia o reaparecimento de golpes de Estado, como em Honduras. Assim como n\u00e3o \u00e9 coincid\u00eancia o fen\u00f4meno editorial do culto ao nazismo. Diante do recrudescimento das a\u00e7\u00f5es da direita, nenhuma concess\u00e3o pode ser feita, sob qualquer forma em que apare\u00e7a, mesmo as mais aparentemente \u201cinocentes\u201d como publica\u00e7\u00f5es sobre o nazismo, ou as amea\u00e7as contra uma estudante na Uniban. A disputa ideol\u00f3gica contra a decad\u00eancia capitalista e suas doentias manifesta\u00e7\u00f5es proto-fascistas precisa ser feita em todas as dimens\u00f5es, apontando as alternativas contra as crises, as guerras, a mis\u00e9ria e a barb\u00e1rie em todas as suas formas, uma alternativa que s\u00f3 pode ser o socialismo.<\/p>\n<p>Daniel M. Delfino<br \/>\n15\/11\/2009<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\tUma r\u00e1pida olhada nas bancas de jornal no m\u00eas de julho de 2009 revelou a ocorr\u00eancia de um fen\u00f4meno editorial bastante significativo. 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Abril.<br \/>\n\t&#8211; Stalingrado, um duelo mortal entre Hitler e Stalin \u2013 Aventuras na hist\u00f3ria \u2013 DVD \u2013 A batalha mais dram\u00e1tica da II Guerra Mundial \u2013 Ed. Abril.<br \/>\n\t&#8211; Hitler, simbologia e ocultismo \u2013 A hist\u00f3ria secreta do ditador \u2013 Anticristo, Lan\u00e7a de Longinus, Su\u00e1stica, Nazismo, For\u00e7as Ocultas \u2013 Ed. Escala.<br \/>\n\t&#8211; Segunda Guerra \u2013 A hist\u00f3ria oficial e seus her\u00f3is an\u00f4nimos \u2013 Ed. Universo dos livros.<br \/>\n\t&#8211; Hist\u00f3ria revelada \u2013 A lan\u00e7a sagrada de Hitler \u2013 Os segredos do nazismo \u2013 Origem, filosofia, hist\u00f3ria, influ\u00eancia, simbologia \u2013 Ed. Universo dos livros.<br \/>\n\t&#8211; Hist\u00f3ria ilustrada do nazismo \u2013 O poder e as conseq\u00fc\u00eancias \u2013 1933 \u2013 45 \u2013 Vol. 2 \u2013 Ed. Larousse.<br \/>\n\t&#8211; Atlas II Guerra Mundial \u2013 Alemanha vs. Inglaterra \u2013 Livros Escala.<br \/>\n\t&#8211; Hist\u00f3ria viva \u2013 70 anos da Guerra Civil Espanhola \u2013 Ed. Duetto.<br \/>\n\t&#8211; Edi\u00e7\u00e3o totalmente ilustrada \u2013 HOLOCAUSTO &#8211;  A estrat\u00e9gia de purifica\u00e7\u00e3o racial de Hitler \u2013 Ed. Escala.<br \/>\n\t&#8211; Hitler e os segredos do nazismo \u2013 Vol. 1 \u2013 Ed. Universo dos livros.<br \/>\n\tAparentemente, isso pode significar uma simples curiosidade \u201cinocente\u201d, um interesse neutro pelo conhecimento hist\u00f3rico. Pode haver uma flutua\u00e7\u00e3o c\u00edclica do interesse do p\u00fablico leitor, que vai de temas como o nazismo a outros fen\u00f4menos hist\u00f3ricos, como as cruzadas ou o imp\u00e9rio romano. Entretanto, a continuidade dessa observa\u00e7\u00e3o nos meses seguintes demonstrou a consist\u00eancia do fen\u00f4meno. As publica\u00e7\u00f5es sobre o nazismo e Hitler continuaram \u201cem cartaz\u201d, e novas publica\u00e7\u00f5es apareceram.<br \/>\n\tAl\u00e9m disso, um exame mais cuidadoso dos t\u00edtulos revela tamb\u00e9m que n\u00e3o se trata de simples curiosidade hist\u00f3rica ou interesse neutro. T\u00edtulos como \u201cos segredos do nazismo\u201d, \u201ca mitologia\u201d, \u201ca simbologia\u201d, \u201ca filosofia\u201d, \u201cas sociedades secretas e o nazismo\u201d; n\u00e3o t\u00eam nada de inocente ou neutro. S\u00e3o t\u00edtulos pensados para tornar o objeto mais atraente. Disfar\u00e7adamente, o sensacionalismo esconde uma apologia do objeto, ajudando a alimentar o fasc\u00ednio e o mist\u00e9rio.<br \/>\n\tPara completar, deparamo-nos com a quase total aus\u00eancia de um contraponto ideol\u00f3gico a essa avalanche de lan\u00e7amentos sobre o nazismo. H\u00e1 um ou outro lan\u00e7amento sobre Ernesto Che Guevara (ver por exemplo: Superinteressante \u2013 Aventuras na hist\u00f3ria \u2013 50 anos da Revolu\u00e7\u00e3o comunista \u2013 Cuba e Che \u2013 revista e DVD \u2013 Ed. Abril), e se bem que o Che sempre tenha sido um \u201cfen\u00f4meno de vendas\u201d, fato cujo significado ideol\u00f3gico tamb\u00e9m merece uma boa discuss\u00e3o, h\u00e1 uma esmagadora preval\u00eancia da direita sobre a esquerda nas bancas de jornal.<br \/>\n\tEstamos diante de um verdadeiro culto ao nazismo. \u00c9 certo que n\u00e3o se pode julgar o livro pela capa. Seria preciso fazer o exame detalhado de cada uma dessas publica\u00e7\u00f5es para verificar a linha pol\u00edtica que defendem. Certamente, nenhum autor ou editora cometer\u00e1 a sandice de fazer uma apologia aberta do nazismo. Entretanto, independentemente do conte\u00fado, a simples apari\u00e7\u00e3o desse fen\u00f4meno editorial \u00e9 ideologicamente significativo. As publica\u00e7\u00f5es podem at\u00e9 mesmo ser academicamente corretas ao mostrar as atrocidades que o nazismo cometeu, os campos de concentra\u00e7\u00e3o, etc., mas isso funciona apenas como cobertura para uma apologia indireta do fen\u00f4meno. H\u00e1 um gosto s\u00e1dico no inconsciente coletivo sendo alimentado por esse tipo de mercadoria \u201cinocente\u201d irresponsavelmente cultivado pela ind\u00fastria editorial. Para bom entendedor, meia palavra basta. \u00c9 preciso saber tirar as conclus\u00f5es pol\u00edticas desse sinistro fen\u00f4meno ideol\u00f3gico em processamento nas profundezas da consci\u00eancia social.<br \/>\n\tO aparecimento desse \u201cboom\u201d editorial, se n\u00e3o configura uma apologia expl\u00edcita do nazismo, pode bem significar uma esp\u00e9cie de culto disfar\u00e7ado. Se n\u00e3o h\u00e1 uma cr\u00edtica e uma den\u00fancia do nazismo, uma explica\u00e7\u00e3o do seu papel hist\u00f3rico de alternativa extrema da burguesia alem\u00e3 em face da Grande Depress\u00e3o, etc., a compreens\u00e3o fica prejudicada. O leitor desavisado pode ser seduzido pelo apelo do visual, da simbologia, da sofisticada hierarquia do partido nazista, da disciplina, da ordem, da determina\u00e7\u00e3o \u201cher\u00f3ica\u201d, do romantismo, etc.<br \/>\n\tN\u00e3o basta a den\u00fancia de que o nazismo exterminou milh\u00f5es de judeus. \u00c9 preciso explicar porque a burguesia alem\u00e3 precisou do nazismo. Na d\u00e9cada de 1930, o capitalismo desmoronava a olhos vistos e o desemprego atingia milh\u00f5es de pessoas em todos os pa\u00edses ligados ao mercado mundial, desde os grandes imp\u00e9rios at\u00e9 as semi-col\u00f4nias. Do outro lado havia o exemplo da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica (mesmo sob o terror stalinista), com pleno emprego, industrializa\u00e7\u00e3o e melhoria nas condi\u00e7\u00f5es de vida. O movimento comunista internacional era uma amea\u00e7a concreta para a burguesia, pois mostrava uma alternativa palp\u00e1vel ao capitalismo em plena crise.<br \/>\n\tO nazismo cresceu explorando exatamente a divis\u00e3o entre o stalinismo e a social-democracia. As duas principais for\u00e7as da esquerda n\u00e3o se unificaram para combater a ascens\u00e3o do nazismo e foram derrotadas nas disputas de rua no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1930. Hitler construiu um ex\u00e9rcito com bandos de l\u00fampens para espancar militantes de esquerda e aplastar sindicatos. Com isso o nazismo tornou-se alternativa para a burguesia alem\u00e3. A burguesia francesa e inglesa considerava a revolu\u00e7\u00e3o socialista uma amea\u00e7a maior do que o pr\u00f3prio nazismo. Isso permitiu o rearmamento do imperialismo alem\u00e3o, que precipitou a guerra.<br \/>\n\tO nazismo matou milh\u00f5es de judeus, mas n\u00e3o apenas isso. A II Guerra provocou a morte de dezenas de milh\u00f5es de trabalhadores de v\u00e1rias nacionalidades, al\u00e9m de outros tantos milh\u00f5es de feridos e desabrigados, da destrui\u00e7\u00e3o de recursos e for\u00e7as produtivas, f\u00e1bricas, infra-estrutura e cidades inteiras. Foi somente sobre a base dessa destrui\u00e7\u00e3o que o capitalismo p\u00f4de se reerguer da crise mundial iniciada em 1929.<br \/>\n\tResgatar essa hist\u00f3ria (h\u00e1 muitos outros detalhes a serem esclarecidos) \u00e9 importante no cen\u00e1rio marcado por uma crise econ\u00f4mica que \u00e9 a mais s\u00e9ria desde a Grande Depress\u00e3o. Se a Depress\u00e3o provocou uma destrui\u00e7\u00e3o do tamanho daquela da II Guerra, algo semelhante pode estar se preparando no nosso presente. Por mais que os ide\u00f3logos do sistema digam que a atual crise \u201cest\u00e1 superada\u201d, nenhum dos problemas estruturais do capitalismo foram resolvidos (e nem podem s\u00ea-lo dentro dos marcos desse modo de produ\u00e7\u00e3o). O capital fict\u00edcio transbordando no mercado financeiro, o endividamento dos Estados, a emiss\u00e3o descontrolada de moeda, o desemprego, etc., s\u00e3o legados dessa crise que continuar\u00e3o durante v\u00e1rios anos. A burguesia pode responder \u00e0 insatisfa\u00e7\u00e3o social por meio da guerra. Basta escolher o advers\u00e1rio: o Ir\u00e3, a Cor\u00e9ia do Norte, a Venezuela, etc., ou ainda o terrorismo, as drogas, a viol\u00eancia, o crime, etc.<br \/>\n\tPor isso, n\u00e3o \u00e9 coincid\u00eancia o reaparecimento de golpes de Estado, como em Honduras. Assim como n\u00e3o \u00e9 coincid\u00eancia o fen\u00f4meno editorial do culto ao nazismo. Diante do recrudescimento das a\u00e7\u00f5es da direita, nenhuma concess\u00e3o pode ser feita, sob qualquer forma em que apare\u00e7a, mesmo as mais aparentemente \u201cinocentes\u201d como publica\u00e7\u00f5es sobre o nazismo, ou as amea\u00e7as contra uma estudante na Uniban. A disputa ideol\u00f3gica contra a decad\u00eancia capitalista e suas doentias manifesta\u00e7\u00f5es proto-fascistas precisa ser feita em todas as dimens\u00f5es, apontando as alternativas contra as crises, as guerras, a mis\u00e9ria e a barb\u00e1rie em todas as suas formas, uma alternativa que s\u00f3 pode ser o socialismo.<\/p>\n<p>Daniel M. Delfino<br \/>\n15\/11\/2009<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[11,76],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/224"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=224"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/224\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6075,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/224\/revisions\/6075"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=224"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=224"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=224"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}