{"id":225,"date":"2010-04-29T17:25:30","date_gmt":"2010-04-29T17:25:30","guid":{"rendered":"http:\/\/espacosocialista.org\/?q=node\/225"},"modified":"2018-05-04T21:42:32","modified_gmt":"2018-05-05T00:42:32","slug":"saia-justa-no-centro-do-espetaculo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/2010\/04\/saia-justa-no-centro-do-espetaculo\/","title":{"rendered":"SAIA JUSTA NO CENTRO DO ESPET\u00c1CULO"},"content":{"rendered":"<p>O espet\u00e1culo e os fatos<\/p>\n<p>No cl\u00e1ssico \u201cSociedade do Espet\u00e1culo\u201d, de 1967, Guy Debord identifica um salto de qualidade nos mecanismos de mistifica\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica, por meio do qual se criou uma esfera que concentra em si toda a representa\u00e7\u00e3o do mundo, substitui a representa\u00e7\u00e3o real, impede a manifesta\u00e7\u00e3o do real e imp\u00f5e o dom\u00ednio da falsifica\u00e7\u00e3o. \u00c9 a essa esfera que Debord denomina espet\u00e1culo. N\u00e3o se trata de uma simples explos\u00e3o quantitativa do volume de produ\u00e7\u00e3o e influ\u00eancia da ind\u00fastria cultural e dos meios de comunica\u00e7\u00e3o, mas da conforma\u00e7\u00e3o de toda uma estrutura que permeia de alto a baixo as rela\u00e7\u00f5es sociais, da cultura at\u00e9 a pol\u00edtica.<br \/>\nA caracter\u00edstica central do mundo do espet\u00e1culo \u00e9 a falsifica\u00e7\u00e3o. O inaut\u00eantico se imp\u00f5e como verdade e bloqueia a apari\u00e7\u00e3o do aut\u00eantico. Todas as rela\u00e7\u00f5es sociais trazem a marca da encena\u00e7\u00e3o, do inaut\u00eantico, do falsificado. O fetichismo da mercadoria se concretiza como imp\u00e9rio da imagem, da narrativa e da encena\u00e7\u00e3o. Tudo \u00e9 performance e nada \u00e9 a\u00e7\u00e3o. De cada um se espera que cumpra o seu papel.<br \/>\nA ruptura com a ordem espetacular exigir\u00e1 a a\u00e7\u00e3o coletiva e a afirma\u00e7\u00e3o de indiv\u00edduos reais capazes de estabelecer rela\u00e7\u00f5es aut\u00eanticas. As rupturas parciais, que n\u00e3o afetam em profundidade a ordem do capital, acabam sendo assimiladas pela l\u00f3gica do espet\u00e1culo. Os fatos s\u00e3o deglutidos pelos fact\u00f3ides. A fun\u00e7\u00e3o do espet\u00e1culo \u00e9 sobrepor-se ao fato e torn\u00e1-lo incompreens\u00edvel, ou pior do que isso, inacess\u00edvel \u00e0 consci\u00eancia.<br \/>\nO recente fato acontecido na faculdade Uniban e sua transforma\u00e7\u00e3o em espet\u00e1culo exp\u00f5e\/oculta v\u00e1rias camadas de falsifica\u00e7\u00e3o nas quais est\u00e3o enredadas as rela\u00e7\u00f5es sociais na atual etapa hist\u00f3rica de capitalismo mundializado e em plena crise estrutural.<br \/>\nNo dia 22 de outubro de 2009 uma estudante do curso de turismo da faculdade Uniban, do campus de S\u00e3o Bernardo, foi v\u00edtima da agress\u00e3o de centenas de colegas por estar usando um vestido curto. Geisy Arruda foi cercada por gritos, xingamentos, amea\u00e7as de estupro, e teve que sair da faculdade escoltada por policiais. As cenas da agress\u00e3o vazaram para a internet e se tornaram dom\u00ednio p\u00fablico. O incidente ganhou as propor\u00e7\u00f5es de um esc\u00e2ndalo e se transformou em assunto nacional.<br \/>\nAs engrenagens da ind\u00fastria cultural digeriram implacavelmente mais esse incidente, encaixando-o por fim no script pr\u00e9-fabricado da mo\u00e7a-pobre-injusti\u00e7ada-que-consegue-15-minutos-de-fama-e-desaparece. Conforme o interesse do p\u00fablico na celebridade-mercadoria do momento arrefece, um novo epis\u00f3dio-esc\u00e2ndalo-entretenimento passa a ser demandado para se tornar o assunto p\u00fablico. Por conta de mecanismos como esse, \u00e9 prov\u00e1vel que o destino de mais essa celebridade instant\u00e2nea seja o mesmo de outros \u201cfamosos descart\u00e1veis\u201d que retornam para o anonimato de onde nunca deveriam ter sa\u00eddo t\u00e3o logo o interesse do p\u00fablico \u00e9 dirigido para outro foco. Por tr\u00e1s do giro intermin\u00e1vel das m\u00e1quinas desse show de horrores e espuma sem conte\u00fado, se desenvolvem tend\u00eancias que revelam muta\u00e7\u00f5es no estado ideol\u00f3gico da sociedade. S\u00e3o essas tend\u00eancias que devemos examinar mais atentamente.<\/p>\n<p>O fato e o contexto<\/p>\n<p>No momento da sua maior audi\u00eancia, as propor\u00e7\u00f5es do esc\u00e2ndalo na Uniban foram amplificadas pela atitude da pr\u00f3pria dire\u00e7\u00e3o da faculdade, que puniu a v\u00edtima com a expuls\u00e3o. A maioria dos alunos apoiou a expuls\u00e3o, mesmo os que n\u00e3o participaram da agress\u00e3o. A repercuss\u00e3o negativa contra a expuls\u00e3o foi geral. A resposta contou com press\u00f5es vindas at\u00e9 do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o, que for\u00e7ou a faculdade a voltar atr\u00e1s e readmitir a estudante. Mas o estrago j\u00e1 estava feito. A Uniban j\u00e1 havia ganho o apelido de \u201cUnitaliban\u201d, por ser intolerante, ou \u201cUnibambi\u201d, por n\u00e3o gostar de mulheres com roupas curtas. Empresas come\u00e7aram a recusar curr\u00edculos de estudantes vindos dessa faculdade (e coloca-se a seguinte interroga\u00e7\u00e3o: os curr\u00edculos provenientes da Uniban est\u00e3o sendo recusados porque o incidente mostrou que os seus estudantes e dirigentes s\u00e3o intolerantes? Ou porque mostrou que seus estudantes se parecem com a v\u00edtima em quest\u00e3o? Ou as duas coisas ao mesmo tempo?).<br \/>\nVejamos mais de perto o que \u00e9 de fato a Uniban. Trata-se de um simulacro de faculdade em que se vende uma mercadoria, um simulacro de educa\u00e7\u00e3o superior, produto certificado por um diploma, cujos compradores acreditam que servir\u00e1 como via de acesso para uma carreira, uma profiss\u00e3o na qual se projetam as esperan\u00e7as ilus\u00f3rias de sucesso material e acumula\u00e7\u00e3o de riqueza (capital em reprodu\u00e7\u00e3o ampliada), processo que \u00e9 apresentado como sendo o \u00e1pice da realiza\u00e7\u00e3o humana, ou seja, o ideal de felicidade em nossa \u00e9poca.<br \/>\nOs clientes da loja de diplomas da Uniban s\u00e3o oriundos da pequena-burguesia e de estratos superiores da classe trabalhadora. Eventualmente, alguns filhos de camadas mais baixas do proletariado conseguem ingressar tamb\u00e9m na faculdade, \u00e0 custa de grande esfor\u00e7o pessoal e familiar. \u00c9 o caso da pr\u00f3pria Geisy, moradora de um bairro perif\u00e9rico de Diadema, filha de pais trabalhadores bra\u00e7ais e ela pr\u00f3pria balconista de uma loja. Quanto \u00e0 burguesia, esta evidentemente tem suas vagas garantidas nas institui\u00e7\u00f5es universit\u00e1rias p\u00fablicas, nas quais ainda se pratica algo semelhante ao ensino superior real, e nas quais um n\u00famero muito menor de integrantes das classes subalternas consegue penetrar.<br \/>\nTodos enxergam a faculdade como uma via para a ascens\u00e3o social, n\u00e3o porque a institui\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria oferece algum conhecimento real sobre o mundo, mas porque fornece um verniz de \u201cforma\u00e7\u00e3o profissional\u201d devidamente certificado pelo diploma, que \u00e9 na realidade o objetivo final. Os professores, as aulas e o conhecimento em si s\u00e3o na verdade obst\u00e1culos que se interp\u00f5em entre os compradores (supostamente estudantes) e o vendedor (supostamente uma faculdade) numa transa\u00e7\u00e3o comercial ordin\u00e1ria. Isso tudo \u00e9 sintetizado por uma piada c\u00e9lebre nas faculdades particulares: \u201cos alunos querem comprar o diploma, a faculdade quer vender, e o professor \u00e9 o obst\u00e1culo no meio do caminho\u201d.<br \/>\nA irrita\u00e7\u00e3o dos estudantes da Uniban com a sua colega se deve ao fato de que a repercuss\u00e3o negativa desvalorizou a mercadoria em que est\u00e3o empenhando seu tempo e dinheiro, o ambicionado diploma, que agora se transformou em uma mancha em seus curr\u00edculos. Por isso houve grande apoio dos estudantes \u00e0 tentativa de expulsar Geisy por parte da reitoria, a qual, por sua vez, estava tamb\u00e9m tentando preservar a atratividade da mercadoria que est\u00e1 vendendo, movimento que acabou saindo pela culatra.<br \/>\nQuanto a Geisy Arruda, o incidente a arremessou no redemoinho da ind\u00fastria de celebridades, o mundo das revistas de fofocas e programas de TV que vivem de expor a intimidade (combinada com o exibicionismo calculado) de modelos, artistas de TV, esportistas, empres\u00e1rios, pol\u00edticos, arrivistas, aventureiros, alpinistas sociais e oportunistas de todos os tipos. A ind\u00fastria do entretenimento \u00e9 sempre bastante \u00e1gil na busca de carne fresca para oferecer ao apetite do p\u00fablico. Geisy foi cotada para revistas masculinas, filmes porn\u00f4 e desfiles de escola de samba.<br \/>\nDo ponto de vista do p\u00fablico espectador do espet\u00e1culo, Geisy deve fazer exatamente o que a ind\u00fastria espera que ela fa\u00e7a, ou seja, aproveitar sua exposi\u00e7\u00e3o na m\u00eddia para faturar. Se algu\u00e9m fica famoso, \u00e9 porque quer ganhar algum dinheiro em cima disso, raciocina o p\u00fablico. A narrativa-padr\u00e3o em que o epis\u00f3dio est\u00e1 sendo encaixado inverte a ordem dos fatos, transformando a v\u00edtima em autora de alguma esp\u00e9cie de golpe. A estudante teria provocado o incidente propositalmente para obter algum tipo de notoriedade, a partir da qual poderia extrair algum lucro. O investimento da mulher em seu corpo-mercadoria (academia, sal\u00e3o de beleza, roupas e acess\u00f3rios) deve obter seu retorno. N\u00e3o h\u00e1 outro comportamento a se esperar da mulher que n\u00e3o o de encontrar alguma forma de vender seu corpo (ver textos do blog ma\u00e7\u00e3s podres de 5, 8 e 15 de novembro de 2009 \u2013 http:\/\/nucleogenerosb.blogspot.com\/).<\/p>\n<p>A l\u00f3gica da mercadoria e a \u00e9tica de Big Brother<\/p>\n<p>O instinto comercial e o pragmatismo explicam as rea\u00e7\u00f5es da comunidade da Uniban a posteriori e tamb\u00e9m a interpreta\u00e7\u00e3o do p\u00fablico sobre o comportamento de Geisy. Mas o que explica o fato em si na sua origem, ou seja, a agress\u00e3o que vazou para a internet e se transformou em esc\u00e2ndalo? Por que Geisy foi hostilizada a ponto de precisar de prote\u00e7\u00e3o policial? O que h\u00e1 de t\u00e3o extraordin\u00e1rio no vestido curto? N\u00e3o se trata do mesmo tipo de traje que todos est\u00e3o acostumados a ver nas ruas? E mais, n\u00e3o est\u00e3o todos acostumados a ver mulheres com muito menos roupa a cada minuto na televis\u00e3o? Os estudantes da Uniban s\u00e3o simplesmente machistas? S\u00e3o talibans ou bambis que n\u00e3o gostam de mulheres com pouca roupa? A juventude retrocedeu para antes dos anos 60, antes da chamada \u201crevolu\u00e7\u00e3o sexual\u201d, e se tornou conservadora?<br \/>\nEssas hip\u00f3teses s\u00e3o parcialmente verdadeiras, mas o conservadorismo puro e simples n\u00e3o explica todo o fen\u00f4meno. H\u00e1 algo mais sinistro do que puro e simples conservadorismo tradicional em cena. Esse exemplo de proto-fascistiza\u00e7\u00e3o da juventude n\u00e3o \u00e9 um fato isolado, e \u00e9 produto de certos aspectos peculiares da situa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica em que vivemos e suas correspondentes narrativas ideol\u00f3gicas.<br \/>\nA forma-mercadoria \u00e9 a c\u00e9lula b\u00e1sica da sociabilidade burguesa e matriz de todas as rela\u00e7\u00f5es sociais. O sexo \u00e9 tamb\u00e9m uma mercadoria, algo que as mulheres devem vender (tornando-se atraentes, ao custo de grande sacrif\u00edcio, e ao mesmo tempo seletivas, repelindo os homens, exigindo provas de compromisso e viabilidade material em troca de oferecer seu corpo aos vencedores) e os homens devem comprar (prometendo casamento, fidelidade e estabilidade material, provando que s\u00e3o economicamente capazes de prover um lar de contos de fadas). Toneladas de moralismo religioso, ideologia rom\u00e2ntica e hipocrisia social costuram essa rela\u00e7\u00e3o entre matrim\u00f4nio e patrim\u00f4nio, colaborando para a imposi\u00e7\u00e3o do consumismo como raz\u00e3o de viver, elemento fundamental do conformismo geral que anestesia os trabalhadores na sociedade capitalista.<br \/>\nNo mundo da vendabilidade universal, as mercadorias devem ser trocadas pelo seu valor equivalente. Essa lei absoluta da esfera da circula\u00e7\u00e3o foi de alguma forma transgredida pela estudante de turismo ao expor seu corpo daquela forma, o que explica a rea\u00e7\u00e3o das demais concorrentes no mercado. Geisy teria supervalorizado seu corpo-mercadoria, buscando se sobressair na competi\u00e7\u00e3o por meios esp\u00farios. Ela \u201capelou\u201d ao usar o traje que foi piv\u00f4 da agress\u00e3o, e foi punida por ter sa\u00eddo do seu \u201cdevido lugar\u201d. A l\u00f3gica social que motivou a agress\u00e3o mistura repress\u00e3o sexual, machismo, discrimina\u00e7\u00e3o (elementos do velho conservadorismo) e uma nova esp\u00e9cie de \u00e9tica mercadol\u00f3gico-comportamental. Esse fascismo de mercado aparece no n\u00edvel das consci\u00eancias por meio de uma \u201c\u00e9tica de Big Brother\u201d, e aqui nos referimos n\u00e3o ao personagem do \u201c1984\u201d de Orwell, mas ao do programa de TV (embora este seja indubitavelmente uma das faces contempor\u00e2neas daquele).<br \/>\nO Big Brother da TV sintetiza a concorr\u00eancia entre os indiv\u00edduos na competi\u00e7\u00e3o por exposi\u00e7\u00e3o no mercado. Os participantes do jogo s\u00e3o julgados pelos espectadores, que aprovam ou rejeitam as estrat\u00e9gias por meio das quais os jogadores tentam se destacar: h\u00e1 os \u201cbad boys\u201d, os \u201csantinhos\u201d, os \u201cmanipuladores\u201d, etc. Os crit\u00e9rios pelos quais os espectadores julgam essas estrat\u00e9gias para escolher os vencedores do show s\u00e3o os mesmos pelos quais esses mesmos espectadores s\u00e3o julgados numa din\u00e2mica de grupo ou numa entrevista para vaga num emprego. \u00c9 preciso ser ao mesmo tempo firme e humilde, ousado e contido, aut\u00eantico e comedido, etc. Uma s\u00e9rie de exig\u00eancias comportamentais contradit\u00f3rias desafiam os participantes, sempre em busca de um equil\u00edbrio imposs\u00edvel entre estrat\u00e9gias de competi\u00e7\u00e3o simult\u00e2neas e mutuamente excludentes. O Big Brother da TV \u00e9 a forma dram\u00e1tica condensada do ambiente das ag\u00eancias de emprego (ver o texto \u201cMy Big Brother\u201d \u2013 http:\/\/politicapqp.blogspot.com\/2007\/05\/my-big-brother-o-crtico-de-cinema-da.html em que se desenvolve essa interpreta\u00e7\u00e3o e se d\u00e1 o devido cr\u00e9dito ao autor).<br \/>\nA gera\u00e7\u00e3o de universit\u00e1rios educados pelo Big Brother vivencia as faculdades particulares como uma ante-sala da empresa, com visual de shopping center e c\u00f3digos morais de ag\u00eancia de emprego. Existem regras por meio das quais os estudantes-clientes devem \u201cvender seu peixe\u201d. Dentro dessa l\u00f3gica, Geisy teria adotado a estrat\u00e9gia de se vender como mulher-que-tem-o-controle-sobre-seu-corpo-e-faz-com-ele-o-que-quiser. Essa estrat\u00e9gia lhe foi negada pelas demais estudantes, que se sentiram lesadas na concorr\u00eancia.<\/p>\n<p>O script do fascismo de mercado<\/p>\n<p>A mulher que usa um traje nos moldes do fat\u00eddico vestido vermelho \u00e9 socialmente interpretada tanto pelos homens como pelas outras mulheres como estando \u201cdispon\u00edvel para o sexo\u201d. E aqui \u00e9 irrelevante determinar se esse estere\u00f3tipo \u00e9 ou n\u00e3o compat\u00edvel com a pessoa em quest\u00e3o. N\u00e3o importa se Geisy tem um comportamento sexual livre (o qual no caso das mulheres \u00e9 socialmente valorado de forma negativa e estigmatizado com ep\u00edtetos como o de \u201cvagabunda\u201d, \u201cvadia\u201d, \u201cgalinha\u201d, \u201cputa\u201d, etc.) aut\u00eantico e saud\u00e1vel ou se apenas deseja aparentar que o tem. N\u00e3o importa se se trata de um comportamento real ou de simples apar\u00eancia, mesmo que a apar\u00eancia signifique a op\u00e7\u00e3o por uma estrat\u00e9gia de exposi\u00e7\u00e3o que \u00e9 tamb\u00e9m uma express\u00e3o de aliena\u00e7\u00e3o e desejo de aparentar algo que n\u00e3o \u00e9 (um padr\u00e3o de beleza e comportamento que por sua vez constitui uma submiss\u00e3o a imperativos sociais de domina\u00e7\u00e3o impostos sobre as mulheres). N\u00e3o importa porque n\u00e3o se pode conceder aos seus agressores o direito de reprimir aquilo cuja apar\u00eancia n\u00e3o lhes apraz.<br \/>\nIsso seria o mesmo que dizer que ela mereceu a agress\u00e3o, porque provocou, assim como as mulheres que s\u00e3o estupradas provocaram os criminosos por despertarem seu desejo; ou os torcedores que s\u00e3o v\u00edtimas dos elementos fascistas nas torcidas organizadas mereceram apanhar porque foram pegos \u201cvacilando\u201d com a camisa de uma agremia\u00e7\u00e3o rival no campo esportivo; ou ainda os jovens \u201cemos\u201d mereceram ser agredidos pelos carecas do ABC porque se atreveram a adotar um determinado visual que n\u00e3o os agrada; e assim por diante. N\u00e3o se pode ser tolerante com a intoler\u00e2ncia e o fascismo, e nesse sentido a rea\u00e7\u00e3o das organiza\u00e7\u00f5es de esquerda e movimentos de defesa das mulheres foi correta ao organizar manifesta\u00e7\u00f5es de rep\u00fadio contra a faculdade Uniban (embora a compreens\u00e3o real das organiza\u00e7\u00f5es de esquerda sobre os elementos psicossociais profundos aqui discutidos seja nula).<br \/>\nVoltando pois ao incidente. As demais estudantes da Uniban negaram a Geisy o direito de se vestir como lhe aprouver. Ela n\u00e3o tem esse direito porque pertence a um estrato mais baixo da classe trabalhadora, porque \u00e9 filha de migrantes nordestinos, porque n\u00e3o se encaixa no padr\u00e3o de beleza ariano-anor\u00e9xico vigente, porque n\u00e3o \u00e9 uma aut\u00eantica patricinha sarada e malhada, mas algu\u00e9m que \u201cindevidamente\u201d ousa aparentar s\u00ea-lo. O fato de que ela queira aparentar s\u00ea-lo \u00e9 sem d\u00favida uma express\u00e3o da mis\u00e9ria cultural da qual ela \u00e9 produto e da falta de alternativas da juventude, mas nem por isso os seus agressores tem o direito de persegu\u00ed-la, pois isso expressa uma degrada\u00e7\u00e3o muito mais perversa. Al\u00e9m de tudo, trata-se tamb\u00e9m de preconceito de classe e racismo. Geisy se atreveu a aparentar distintivos de inser\u00e7\u00e3o social que s\u00e3o vedados a sua classe social. Ao proceder dessa forma, ela supervalorizou sua mercadoria no cen\u00e1rio do Big Brother universit\u00e1rio capitalista.<br \/>\nPara que fique bem claro, repetimos o que viemos dizendo nos par\u00e1grafos anteriores: a agress\u00e3o partiu de colegas do sexo feminino (conforme os relatos mais detalhados que circularam depois do esc\u00e2ndalo \u2013 ver por exemplo http:\/\/www.terra.com.br\/istoe\/edicoes\/2088\/artigo156256-1.htm). Depois que as mulheres perseguiram Geisy, vieram seus namorados e afins, e depois desses toda a massa que apenas gosta de ver o circo pegar fogo e aproveita qualquer ruptura da rotina para expressar desejos reprimidos e vontade de destrui\u00e7\u00e3o (\u201cestupra ela\u201d, \u201cvamos estuprar\u201d, gritavam).<br \/>\nAs mulheres reprimiram em Geisy aquilo que n\u00e3o tem coragem de expressar atrav\u00e9s de si mesmas, ou seja, o comportamento sexual livre insinuado pelo vestido vermelho. A transforma\u00e7\u00e3o do recalcamento psicol\u00f3gico individual em for\u00e7a social repressiva \u00e9 o mecanismo essencial da psicologia de massas do fascismo. Esse mecanismo hoje est\u00e1 a servi\u00e7o de um pragmatismo mercadol\u00f3gico mesquinho que enquadra a juventude (uma for\u00e7a social contestadora d\u00e9cadas atr\u00e1s) no roteiro dramat\u00fargico barato dos reality-shows, livros de auto-ajuda e manuais de administra\u00e7\u00e3o de empresas, entre outras formas abjetas da apolog\u00e9tica vulgar do capital. A seguir, cenas do pr\u00f3ximo cap\u00edtulo.<\/p>\n<p>Daniel M. Delfino<br \/>\n09\/02\/2010<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\tO espet\u00e1culo e os fatos<\/p>\n<p>\tNo cl\u00e1ssico \u201cSociedade do Espet\u00e1culo\u201d, de 1967, Guy Debord identifica um salto de qualidade nos mecanismos de mistifica\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica, por meio do qual se criou uma esfera que concentra em si toda a representa\u00e7\u00e3o do mundo, substitui a representa\u00e7\u00e3o real, impede a manifesta\u00e7\u00e3o do real e imp\u00f5e o dom\u00ednio da falsifica\u00e7\u00e3o. \u00c9 a essa esfera que Debord denomina espet\u00e1culo. N\u00e3o se trata de uma simples explos\u00e3o quantitativa do volume de produ\u00e7\u00e3o e influ\u00eancia da ind\u00fastria cultural e dos meios de comunica\u00e7\u00e3o, mas da conforma\u00e7\u00e3o de toda uma estrutura que permeia de alto a baixo as rela\u00e7\u00f5es sociais, da cultura at\u00e9 a pol\u00edtica.<br \/>\n\tA caracter\u00edstica central do mundo do espet\u00e1culo \u00e9 a falsifica\u00e7\u00e3o. O inaut\u00eantico se imp\u00f5e como verdade e bloqueia a apari\u00e7\u00e3o do aut\u00eantico. Todas as rela\u00e7\u00f5es sociais trazem a marca da encena\u00e7\u00e3o, do inaut\u00eantico, do falsificado. O fetichismo da mercadoria se concretiza como imp\u00e9rio da imagem, da narrativa e da encena\u00e7\u00e3o. Tudo \u00e9 performance e nada \u00e9 a\u00e7\u00e3o. De cada um se espera que cumpra o seu papel.<br \/>\n\tA ruptura com a ordem espetacular exigir\u00e1 a a\u00e7\u00e3o coletiva e a afirma\u00e7\u00e3o de indiv\u00edduos reais capazes de estabelecer rela\u00e7\u00f5es aut\u00eanticas. As rupturas parciais, que n\u00e3o afetam em profundidade a ordem do capital, acabam sendo assimiladas pela l\u00f3gica do espet\u00e1culo. Os fatos s\u00e3o deglutidos pelos fact\u00f3ides. A fun\u00e7\u00e3o do espet\u00e1culo \u00e9 sobrepor-se ao fato e torn\u00e1-lo incompreens\u00edvel, ou pior do que isso, inacess\u00edvel \u00e0 consci\u00eancia.<br \/>\n\tO recente fato acontecido na faculdade Uniban e sua transforma\u00e7\u00e3o em espet\u00e1culo exp\u00f5e\/oculta v\u00e1rias camadas de falsifica\u00e7\u00e3o nas quais est\u00e3o enredadas as rela\u00e7\u00f5es sociais na atual etapa hist\u00f3rica de capitalismo mundializado e em plena crise estrutural.<br \/>\n\tNo dia 22 de outubro de 2009 uma estudante do curso de turismo da faculdade Uniban, do campus de S\u00e3o Bernardo, foi v\u00edtima da agress\u00e3o de centenas de colegas por estar usando um vestido curto. Geisy Arruda foi cercada por gritos, xingamentos, amea\u00e7as de estupro, e teve que sair da faculdade escoltada por policiais. As cenas da agress\u00e3o vazaram para a internet e se tornaram dom\u00ednio p\u00fablico. O incidente ganhou as propor\u00e7\u00f5es de um esc\u00e2ndalo e se transformou em assunto nacional.<br \/>\n\tAs engrenagens da ind\u00fastria cultural digeriram implacavelmente mais esse incidente, encaixando-o por fim no script pr\u00e9-fabricado da mo\u00e7a-pobre-injusti\u00e7ada-que-consegue-15-minutos-de-fama-e-desaparece. Conforme o interesse do p\u00fablico na celebridade-mercadoria do momento arrefece, um novo epis\u00f3dio-esc\u00e2ndalo-entretenimento passa a ser demandado para se tornar o assunto p\u00fablico. Por conta de mecanismos como esse, \u00e9 prov\u00e1vel que o destino de mais essa celebridade instant\u00e2nea seja o mesmo de outros \u201cfamosos descart\u00e1veis\u201d que retornam para o anonimato de onde nunca deveriam ter sa\u00eddo t\u00e3o logo o interesse do p\u00fablico \u00e9 dirigido para outro foco. Por tr\u00e1s do giro intermin\u00e1vel das m\u00e1quinas desse show de horrores e espuma sem conte\u00fado, se desenvolvem tend\u00eancias que revelam muta\u00e7\u00f5es no estado ideol\u00f3gico da sociedade. S\u00e3o essas tend\u00eancias que devemos examinar mais atentamente.<\/p>\n<p>\tO fato e o contexto<\/p>\n<p>\tNo momento da sua maior audi\u00eancia, as propor\u00e7\u00f5es do esc\u00e2ndalo na Uniban foram amplificadas pela atitude da pr\u00f3pria dire\u00e7\u00e3o da faculdade, que puniu a v\u00edtima com a expuls\u00e3o. A maioria dos alunos apoiou a expuls\u00e3o, mesmo os que n\u00e3o participaram da agress\u00e3o. A repercuss\u00e3o negativa contra a expuls\u00e3o foi geral. A resposta contou com press\u00f5es vindas at\u00e9 do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o, que for\u00e7ou a faculdade a voltar atr\u00e1s e readmitir a estudante. Mas o estrago j\u00e1 estava feito. A Uniban j\u00e1 havia ganho o apelido de \u201cUnitaliban\u201d, por ser intolerante, ou \u201cUnibambi\u201d, por n\u00e3o gostar de mulheres com roupas curtas. Empresas come\u00e7aram a recusar curr\u00edculos de estudantes vindos dessa faculdade (e coloca-se a seguinte interroga\u00e7\u00e3o: os curr\u00edculos provenientes da Uniban est\u00e3o sendo recusados porque o incidente mostrou que os seus estudantes e dirigentes s\u00e3o intolerantes? Ou porque mostrou que seus estudantes se parecem com a v\u00edtima em quest\u00e3o? Ou as duas coisas ao mesmo tempo?).<br \/>\n\tVejamos mais de perto o que \u00e9 de fato a Uniban. Trata-se de um simulacro de faculdade em que se vende uma mercadoria, um simulacro de educa\u00e7\u00e3o superior, produto certificado por um diploma, cujos compradores acreditam que servir\u00e1 como via de acesso para uma carreira, uma profiss\u00e3o na qual se projetam as esperan\u00e7as ilus\u00f3rias de sucesso material e acumula\u00e7\u00e3o de riqueza (capital em reprodu\u00e7\u00e3o ampliada), processo que \u00e9 apresentado como sendo o \u00e1pice da realiza\u00e7\u00e3o humana, ou seja, o ideal de felicidade em nossa \u00e9poca.<br \/>\n\tOs clientes da loja de diplomas da Uniban s\u00e3o oriundos da pequena-burguesia e de estratos superiores da classe trabalhadora. Eventualmente, alguns filhos de camadas mais baixas do proletariado conseguem ingressar tamb\u00e9m na faculdade, \u00e0 custa de grande esfor\u00e7o pessoal e familiar. \u00c9 o caso da pr\u00f3pria Geisy, moradora de um bairro perif\u00e9rico de Diadema, filha de pais trabalhadores bra\u00e7ais e ela pr\u00f3pria balconista de uma loja. Quanto \u00e0 burguesia, esta evidentemente tem suas vagas garantidas nas institui\u00e7\u00f5es universit\u00e1rias p\u00fablicas, nas quais ainda se pratica algo semelhante ao ensino superior real, e nas quais um n\u00famero muito menor de integrantes das classes subalternas consegue penetrar.<br \/>\n\tTodos enxergam a faculdade como uma via para a ascens\u00e3o social, n\u00e3o porque a institui\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria oferece algum conhecimento real sobre o mundo, mas porque fornece um verniz de \u201cforma\u00e7\u00e3o profissional\u201d devidamente certificado pelo diploma, que \u00e9 na realidade o objetivo final. Os professores, as aulas e o conhecimento em si s\u00e3o na verdade obst\u00e1culos que se interp\u00f5em entre os compradores (supostamente estudantes) e o vendedor (supostamente uma faculdade) numa transa\u00e7\u00e3o comercial ordin\u00e1ria. Isso tudo \u00e9 sintetizado por uma piada c\u00e9lebre nas faculdades particulares: \u201cos alunos querem comprar o diploma, a faculdade quer vender, e o professor \u00e9 o obst\u00e1culo no meio do caminho\u201d.<br \/>\n\tA irrita\u00e7\u00e3o dos estudantes da Uniban com a sua colega se deve ao fato de que a repercuss\u00e3o negativa desvalorizou a mercadoria em que est\u00e3o empenhando seu tempo e dinheiro, o ambicionado diploma, que agora se transformou em uma mancha em seus curr\u00edculos. Por isso houve grande apoio dos estudantes \u00e0 tentativa de expulsar Geisy por parte da reitoria, a qual, por sua vez, estava tamb\u00e9m tentando preservar a atratividade da mercadoria que est\u00e1 vendendo, movimento que acabou saindo pela culatra.<br \/>\n\tQuanto a Geisy Arruda, o incidente a arremessou no redemoinho da ind\u00fastria de celebridades, o mundo das revistas de fofocas e programas de TV que vivem de expor a intimidade (combinada com o exibicionismo calculado) de modelos, artistas de TV, esportistas, empres\u00e1rios, pol\u00edticos, arrivistas, aventureiros, alpinistas sociais e oportunistas de todos os tipos. A ind\u00fastria do entretenimento \u00e9 sempre bastante \u00e1gil na busca de carne fresca para oferecer ao apetite do p\u00fablico. Geisy foi cotada para revistas masculinas, filmes porn\u00f4 e desfiles de escola de samba.<br \/>\n\tDo ponto de vista do p\u00fablico espectador do espet\u00e1culo, Geisy deve fazer exatamente o que a ind\u00fastria espera que ela fa\u00e7a, ou seja, aproveitar sua exposi\u00e7\u00e3o na m\u00eddia para faturar. Se algu\u00e9m fica famoso, \u00e9 porque quer ganhar algum dinheiro em cima disso, raciocina o p\u00fablico. A narrativa-padr\u00e3o em que o epis\u00f3dio est\u00e1 sendo encaixado inverte a ordem dos fatos, transformando a v\u00edtima em autora de alguma esp\u00e9cie de golpe. A estudante teria provocado o incidente propositalmente para obter algum tipo de notoriedade, a partir da qual poderia extrair algum lucro. O investimento da mulher em seu corpo-mercadoria (academia, sal\u00e3o de beleza, roupas e acess\u00f3rios) deve obter seu retorno. N\u00e3o h\u00e1 outro comportamento a se esperar da mulher que n\u00e3o o de encontrar alguma forma de vender seu corpo (ver textos do blog ma\u00e7\u00e3s podres de 5, 8 e 15 de novembro de 2009 \u2013  http:\/\/nucleogenerosb.blogspot.com\/).<\/p>\n<p>\tA l\u00f3gica da mercadoria e a \u00e9tica de Big Brother<\/p>\n<p>\tO instinto comercial e o pragmatismo explicam as rea\u00e7\u00f5es da comunidade da Uniban a posteriori e tamb\u00e9m a interpreta\u00e7\u00e3o do p\u00fablico sobre o comportamento de Geisy. Mas o que explica o fato em si na sua origem, ou seja, a agress\u00e3o que vazou para a internet e se transformou em esc\u00e2ndalo? Por que Geisy foi hostilizada a ponto de precisar de prote\u00e7\u00e3o policial? O que h\u00e1 de t\u00e3o extraordin\u00e1rio no vestido curto? N\u00e3o se trata do mesmo tipo de traje que todos est\u00e3o acostumados a ver nas ruas? E mais, n\u00e3o est\u00e3o todos acostumados a ver mulheres com muito menos roupa a cada minuto na televis\u00e3o? Os estudantes da Uniban s\u00e3o simplesmente machistas? S\u00e3o talibans ou bambis que n\u00e3o gostam de mulheres com pouca roupa? A juventude retrocedeu para antes dos anos 60, antes da chamada \u201crevolu\u00e7\u00e3o sexual\u201d, e se tornou conservadora?<br \/>\n\tEssas hip\u00f3teses s\u00e3o parcialmente verdadeiras, mas o conservadorismo puro e simples n\u00e3o explica todo o fen\u00f4meno. H\u00e1 algo mais sinistro do que puro e simples conservadorismo tradicional em cena. Esse exemplo de proto-fascistiza\u00e7\u00e3o da juventude n\u00e3o \u00e9 um fato isolado, e \u00e9 produto de certos aspectos peculiares da situa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica em que vivemos e suas correspondentes narrativas ideol\u00f3gicas.<br \/>\n\tA forma-mercadoria \u00e9 a c\u00e9lula b\u00e1sica da sociabilidade burguesa e matriz de todas as rela\u00e7\u00f5es sociais. O sexo \u00e9 tamb\u00e9m uma mercadoria, algo que as mulheres devem vender (tornando-se atraentes, ao custo de grande sacrif\u00edcio, e ao mesmo tempo seletivas, repelindo os homens, exigindo provas de compromisso e viabilidade material em troca de oferecer seu corpo aos vencedores) e os homens devem comprar (prometendo casamento, fidelidade e estabilidade material, provando que s\u00e3o economicamente capazes de prover um lar de contos de fadas). Toneladas de moralismo religioso, ideologia rom\u00e2ntica e hipocrisia social costuram essa rela\u00e7\u00e3o entre matrim\u00f4nio e patrim\u00f4nio, colaborando para a imposi\u00e7\u00e3o do consumismo como raz\u00e3o de viver, elemento fundamental do conformismo geral que anestesia os trabalhadores na sociedade capitalista.<br \/>\n\tNo mundo da vendabilidade universal, as mercadorias devem ser trocadas pelo seu valor equivalente. Essa lei absoluta da esfera da circula\u00e7\u00e3o foi de alguma forma transgredida pela estudante de turismo ao expor seu corpo daquela forma, o que explica a rea\u00e7\u00e3o das demais concorrentes no mercado. Geisy teria supervalorizado seu corpo-mercadoria, buscando se sobressair na competi\u00e7\u00e3o por meios esp\u00farios. Ela \u201capelou\u201d ao usar o traje que foi piv\u00f4 da agress\u00e3o, e foi punida por ter sa\u00eddo do seu \u201cdevido lugar\u201d. A l\u00f3gica social que motivou a agress\u00e3o mistura repress\u00e3o sexual, machismo, discrimina\u00e7\u00e3o (elementos do velho conservadorismo) e uma nova esp\u00e9cie de \u00e9tica mercadol\u00f3gico-comportamental. Esse fascismo de mercado aparece no n\u00edvel das consci\u00eancias por meio de uma \u201c\u00e9tica de Big Brother\u201d, e aqui nos referimos n\u00e3o ao personagem do \u201c1984\u201d de Orwell, mas ao do programa de TV (embora este seja indubitavelmente uma das faces contempor\u00e2neas daquele).<br \/>\n\tO Big Brother da TV sintetiza a concorr\u00eancia entre os indiv\u00edduos na competi\u00e7\u00e3o por exposi\u00e7\u00e3o no mercado. Os participantes do jogo s\u00e3o julgados pelos espectadores, que aprovam ou rejeitam as estrat\u00e9gias por meio das quais os jogadores tentam se destacar: h\u00e1 os \u201cbad boys\u201d, os \u201csantinhos\u201d, os \u201cmanipuladores\u201d, etc. Os crit\u00e9rios pelos quais os espectadores julgam essas estrat\u00e9gias para escolher os vencedores do show s\u00e3o os mesmos pelos quais esses mesmos espectadores s\u00e3o julgados numa din\u00e2mica de grupo ou numa entrevista para vaga num emprego. \u00c9 preciso ser ao mesmo tempo firme e humilde, ousado e contido, aut\u00eantico e comedido, etc. Uma s\u00e9rie de exig\u00eancias comportamentais contradit\u00f3rias desafiam os participantes, sempre em busca de um equil\u00edbrio imposs\u00edvel entre estrat\u00e9gias de competi\u00e7\u00e3o simult\u00e2neas e mutuamente excludentes. O Big Brother da TV \u00e9 a forma dram\u00e1tica condensada do ambiente das ag\u00eancias de emprego (ver o texto \u201cMy Big Brother\u201d \u2013 http:\/\/politicapqp.blogspot.com\/2007\/05\/my-big-brother-o-crtico-de-cinema-da.html em que se desenvolve essa interpreta\u00e7\u00e3o e se d\u00e1 o devido cr\u00e9dito ao autor).<br \/>\n\tA gera\u00e7\u00e3o de universit\u00e1rios educados pelo Big Brother vivencia as faculdades particulares como uma ante-sala da empresa, com visual de shopping center e c\u00f3digos morais de ag\u00eancia de emprego. Existem regras por meio das quais os estudantes-clientes devem \u201cvender seu peixe\u201d. Dentro dessa l\u00f3gica, Geisy teria adotado a estrat\u00e9gia de se vender como mulher-que-tem-o-controle-sobre-seu-corpo-e-faz-com-ele-o-que-quiser. Essa estrat\u00e9gia lhe foi negada pelas demais estudantes, que se sentiram lesadas na concorr\u00eancia.<\/p>\n<p>\tO script do fascismo de mercado<\/p>\n<p>\tA mulher que usa um traje nos moldes do fat\u00eddico vestido vermelho \u00e9 socialmente interpretada tanto pelos homens como pelas outras mulheres como estando \u201cdispon\u00edvel para o sexo\u201d. E aqui \u00e9 irrelevante determinar se esse estere\u00f3tipo \u00e9 ou n\u00e3o compat\u00edvel com a pessoa em quest\u00e3o. N\u00e3o importa se Geisy tem um comportamento sexual livre (o qual no caso das mulheres \u00e9 socialmente valorado de forma negativa e estigmatizado com ep\u00edtetos como o de \u201cvagabunda\u201d, \u201cvadia\u201d, \u201cgalinha\u201d, \u201cputa\u201d, etc.) aut\u00eantico e saud\u00e1vel ou se apenas deseja aparentar que o tem. N\u00e3o importa se se trata de um comportamento real ou de simples apar\u00eancia, mesmo que a apar\u00eancia signifique a op\u00e7\u00e3o por uma estrat\u00e9gia de exposi\u00e7\u00e3o que \u00e9 tamb\u00e9m uma express\u00e3o de aliena\u00e7\u00e3o e desejo de aparentar algo que n\u00e3o \u00e9 (um padr\u00e3o de beleza e comportamento que por sua vez constitui uma submiss\u00e3o a imperativos sociais de domina\u00e7\u00e3o impostos sobre as mulheres). N\u00e3o importa porque n\u00e3o se pode conceder aos seus agressores o direito de reprimir aquilo cuja apar\u00eancia n\u00e3o lhes apraz.<br \/>\n\tIsso seria o mesmo que dizer que ela mereceu a agress\u00e3o, porque provocou, assim como as mulheres que s\u00e3o estupradas provocaram os criminosos por despertarem seu desejo; ou os torcedores que s\u00e3o v\u00edtimas dos elementos fascistas nas torcidas organizadas mereceram apanhar porque foram pegos \u201cvacilando\u201d com a camisa de uma agremia\u00e7\u00e3o rival no campo esportivo; ou ainda os jovens \u201cemos\u201d mereceram ser agredidos pelos carecas do ABC porque se atreveram a adotar um determinado visual que n\u00e3o os agrada; e assim por diante. N\u00e3o se pode ser tolerante com a intoler\u00e2ncia e o fascismo, e nesse sentido a rea\u00e7\u00e3o das organiza\u00e7\u00f5es de esquerda e movimentos de defesa das mulheres foi correta ao organizar manifesta\u00e7\u00f5es de rep\u00fadio contra a faculdade Uniban (embora a compreens\u00e3o real das organiza\u00e7\u00f5es de esquerda sobre os elementos psicossociais profundos aqui discutidos seja nula).<br \/>\n\tVoltando pois ao incidente. As demais estudantes da Uniban negaram a Geisy o direito de se vestir como lhe aprouver. Ela n\u00e3o tem esse direito porque pertence a um estrato mais baixo da classe trabalhadora, porque \u00e9 filha de migrantes nordestinos, porque n\u00e3o se encaixa no padr\u00e3o de beleza ariano-anor\u00e9xico vigente, porque n\u00e3o \u00e9 uma aut\u00eantica patricinha sarada e malhada, mas algu\u00e9m que \u201cindevidamente\u201d ousa aparentar s\u00ea-lo. O fato de que ela queira aparentar s\u00ea-lo \u00e9 sem d\u00favida uma express\u00e3o da mis\u00e9ria cultural da qual ela \u00e9 produto e da falta de alternativas da juventude, mas nem por isso os seus agressores tem o direito de persegu\u00ed-la, pois isso expressa uma degrada\u00e7\u00e3o muito mais perversa. Al\u00e9m de tudo, trata-se tamb\u00e9m de preconceito de classe e racismo. Geisy se atreveu a aparentar distintivos de inser\u00e7\u00e3o social que s\u00e3o vedados a sua classe social. Ao proceder dessa forma, ela supervalorizou sua mercadoria no cen\u00e1rio do Big Brother universit\u00e1rio capitalista.<br \/>\n\tPara que fique bem claro, repetimos o que viemos dizendo nos par\u00e1grafos anteriores: a agress\u00e3o partiu de colegas do sexo feminino (conforme os relatos mais detalhados que circularam depois do esc\u00e2ndalo \u2013 ver por exemplo http:\/\/www.terra.com.br\/istoe\/edicoes\/2088\/artigo156256-1.htm). Depois que as mulheres perseguiram Geisy, vieram seus namorados e afins, e depois desses toda a massa que apenas gosta de ver o circo pegar fogo e aproveita qualquer ruptura da rotina para expressar desejos reprimidos e vontade de destrui\u00e7\u00e3o (\u201cestupra ela\u201d, \u201cvamos estuprar\u201d, gritavam).<br \/>\n\tAs mulheres reprimiram em Geisy aquilo que n\u00e3o tem coragem de expressar atrav\u00e9s de si mesmas, ou seja, o comportamento sexual livre insinuado pelo vestido vermelho. A transforma\u00e7\u00e3o do recalcamento psicol\u00f3gico individual em for\u00e7a social repressiva \u00e9 o mecanismo essencial da psicologia de massas do fascismo. Esse mecanismo hoje est\u00e1 a servi\u00e7o de um pragmatismo mercadol\u00f3gico mesquinho que enquadra a juventude (uma for\u00e7a social contestadora d\u00e9cadas atr\u00e1s) no roteiro dramat\u00fargico barato dos reality-shows, livros de auto-ajuda e manuais de administra\u00e7\u00e3o de empresas, entre outras formas abjetas da apolog\u00e9tica vulgar do capital. A seguir, cenas do pr\u00f3ximo cap\u00edtulo.<\/p>\n<p>Daniel M. Delfino<br \/>\n09\/02\/2010<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[76],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/225"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=225"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/225\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6097,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/225\/revisions\/6097"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=225"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=225"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=225"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}