{"id":227,"date":"2010-04-29T17:28:41","date_gmt":"2010-04-29T17:28:41","guid":{"rendered":"http:\/\/espacosocialista.org\/?q=node\/227"},"modified":"2018-05-05T17:39:52","modified_gmt":"2018-05-05T20:39:52","slug":"avatar-revolucao-e-paradoxo-da-tecnica-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/2010\/04\/avatar-revolucao-e-paradoxo-da-tecnica-2\/","title":{"rendered":"AVATAR: REVOLU\u00c7\u00c3O E PARADOXO DA T\u00c9CNICA"},"content":{"rendered":"<p>As revolu\u00e7\u00f5es da hist\u00f3ria do cinema<\/p>\n<p>Periodicamente, a cada uma ou duas d\u00e9cadas, o cinema passa por revolu\u00e7\u00f5es que atualizam sua capacidade de funcionar como a arte t\u00edpica da sociedade capitalista moderna e expressar seus dilemas e contradi\u00e7\u00f5es. Esbocemos sumariamente algumas dessas revolu\u00e7\u00f5es:<br \/>\n&#8211; A primeira delas foi a pr\u00f3pria inven\u00e7\u00e3o do cinema como ve\u00edculo para contar hist\u00f3rias, saindo do submundo das curiosidades circenses para se tornar um ramo independente da ind\u00fastria cultural com regras, m\u00e9todos e c\u00e2nones pr\u00f3prios. Esse processo de constru\u00e7\u00e3o do cinema como instrumento da arte narrativa passa pelas cria\u00e7\u00f5es de M\u00e9li\u00e8s, Griffith, Chaplin, Eisenstein, o movimento expressionista, at\u00e9 alcan\u00e7ar a maturidade com Orson Welles e seu \u201cCidad\u00e3o Kane\u201d.<br \/>\n&#8211; A inven\u00e7\u00e3o do cinema falado no fim dos anos 1920.<br \/>\n&#8211; A introdu\u00e7\u00e3o das cores no fim dos anos 1930.<br \/>\n&#8211; O aperfei\u00e7oamento nas t\u00e9cnicas de proje\u00e7\u00e3o nos anos 1950 (CinemaScope, Cinerama, 3D), na tentativa de fazer frente \u00e0 concorr\u00eancia da televis\u00e3o.<br \/>\n&#8211; A revolu\u00e7\u00e3o tem\u00e1tica impulsionada pela explos\u00e3o das cinematografias n\u00e3o-hollywoodianas (neo-realismo, nouvelle vague, cinema novo, Fellini, Kurosawa, Bergman, Kubric, etc.) no p\u00f3s-II Guerra e nos anos 1950.<br \/>\n&#8211; A chegada dessa revolu\u00e7\u00e3o tem\u00e1tica a Hollywood pelas m\u00e3os da contra-cultura, na virada entre os anos 1960 e 70, deixando para tr\u00e1s a inoc\u00eancia dos musicais e contos de fadas com final feliz obrigat\u00f3rio. O cinema se tornou capaz de falar da vida de pessoas reais e abordar abertamente certas quest\u00f5es sociais, com marcos como \u201cAdivinhe quem vem para jantar?\u201d, \u201cSem destino\u201d, \u201cUma rajada de balas\u201d, \u201cA primeira noite de um homem\u201d, at\u00e9 chegar ao \u201cPoderoso chef\u00e3o\u201d.<br \/>\n&#8211; A revolu\u00e7\u00e3o dos efeitos especiais entre os anos 1970 e 80, cujos maiores expoentes s\u00e3o as trilogias \u201cGuerra nas Estrelas\u201d e \u201cIndiana Jones\u201d.<br \/>\nConhecedores mais profundos da hist\u00f3ria do cinema poder\u00e3o completar e precisar essa lista e enriquec\u00ea-la com muitos outros exemplos. Mas tal debate alongaria demais esse texto e o desviaria de seu prop\u00f3sito.<br \/>\nVoltemos \u00e0 \u00faltima \u201crevolu\u00e7\u00e3o\u201d indicada. O desenvolvimento dos efeitos especiais foi tido como uma resposta ao surgimento dos videocassetes (assim como nos anos 1950 fora preciso responder \u00e0 massifica\u00e7\u00e3o da televis\u00e3o). Era preciso criar um espet\u00e1culo suficientemente grandioso para concorrer com o conforto do v\u00eddeo dom\u00e9stico e motivar os espectadores a sair de casa para continuar freq\u00fcentando as salas de cinema.<br \/>\nNa \u00e9poca esse fen\u00f4meno foi interpretado por Pauline Kael (reputada como a maior cr\u00edtica de cinema estadunidense) como a verdadeira morte do cinema, pois os filmes passariam a estar cada vez mais baseados nos efeitos visuais do que na hist\u00f3ria.<br \/>\nCoerentemente com essa interpreta\u00e7\u00e3o \u201capocal\u00edptica\u201d, vimos cada vez mais as salas de proje\u00e7\u00e3o serem invadidas por filmes de a\u00e7\u00e3o, aventura, fantasia, fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e hist\u00f3rias em quadrinhos, que se sustentam em efeitos visuais e secundarizam a express\u00e3o da realidade humana. Assim como o cinema deslocou o teatro para uma esp\u00e9cie de gueto habitado por remanescentes cultuadores das antiguidades culturais, o cinema de efeitos especiais transformou os filmes que tratam de pessoas reais num segmento apreciado por uma restrita tribo de cin\u00e9filos, seguidores de produ\u00e7\u00f5es independentes, europ\u00e9ias, asi\u00e1ticas, sulamericanas, etc.<\/p>\n<p>A obra de James Cameron<\/p>\n<p>Toda essa digress\u00e3o sobre a hist\u00f3ria do cinema se prop\u00f5e a preparar o terreno para a tentativa de localizar o significado do filme \u201cAvatar\u201d, de James Cameron. Passemos rapidamente em revista a obra desse diretor. Cameron foi um dos protagonistas da revolu\u00e7\u00e3o dos efeitos especiais com \u201cO Exterminador do Futuro\u201d, de 1984, obra impulsionada por uma hist\u00f3ria original\u00edssima, de profundo impacto e marcante influ\u00eancia no imagin\u00e1rio da \u00e9poca (influ\u00eancia que perdura at\u00e9 hoje), culturalmente representativa do \u00faltimo surto da Guerra Fria e embalada por uma narrativa de suspense bastante eficiente, elementos que o tornam um cl\u00e1ssico. A partir desse sucesso inicial, Cameron desenvolveu uma carreira pouco prol\u00edfica, mas repleta de t\u00edtulos que o tornaram sin\u00f4nimo de ambi\u00e7\u00e3o e inova\u00e7\u00e3o: \u201cAliens, o resgate\u201d, \u201cSegredo do abismo\u201d, \u201cO Exterminador II\u201d, \u201cTrue Lies\u201d, \u201cTitanic\u201d e agora \u201cAvatar\u201d (tornaram-no tamb\u00e9m titular da minha lista pessoal de diretores preferidos, fato que n\u00e3o tem a menor import\u00e2ncia, mas para quem ficou curioso aqui vai: Martin Scorcese, Ridley Scott, Oliver Stone, Tim Burton e David Fincher).<br \/>\nA curta filmografia de Cameron inclui os 2 filmes de maior bilheteria da hist\u00f3ria (o recorde de \u201cTitanic\u201d estava sendo superado por \u201cAvatar\u201d no momento em que este coment\u00e1rio era finalizado), fato este sim da maior relev\u00e2ncia para os executivos de Hollywood e para a vota\u00e7\u00e3o dos pr\u00eamios Oscar. E tal filmografia inclui ainda os marcos de mais duas revolu\u00e7\u00f5es na hist\u00f3ria do cinema, ou pelo menos dentro da atual fase da hist\u00f3ria:<br \/>\n&#8211; \u201cExterminador II\u201d, primeiro exemplar de utiliza\u00e7\u00e3o maci\u00e7a e bem-sucedida de imagens geradas em computador (conhecidas pela sigla em ingl\u00eas \u201cCGI\u201d), que causou esc\u00e2ndalo na \u00e9poca pelo seu elevado custo de produ\u00e7\u00e3o (mais de U$ 100 milh\u00f5es, marca esta tornada rotineira a partir de ent\u00e3o).<br \/>\n&#8211; O pr\u00f3prio \u201cAvatar\u201d, filme quase inteiramente feito em CGI e concebido para ser apreciado em 3D.<\/p>\n<p>O paradoxo da t\u00e9cnica<\/p>\n<p>No que se refere \u00e0 t\u00e9cnica cinematogr\u00e1fica, \u201cAvatar\u201d \u00e9 indubitavelmente um salto adiante. As diversas revolu\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas do cinema citadas acima acrescentaram sucessivos aperfei\u00e7oamentos \u00e0 sua capacidade de funcionar como uma armadilha sensorial que suspende o espectador da sua rela\u00e7\u00e3o com o mundo real e o arremessam no universo da fantasia. A sala escura, a tela gigante, a luz em que brilham os astros e estrelas, o volume ensurdecedor do som, a trilha sonora cuidadosamente arquitetada para conduzir as emo\u00e7\u00f5es, o ritmo da edi\u00e7\u00e3o, a profus\u00e3o dos efeitos especiais, ganharam nas \u00faltimas d\u00e9cadas a companhia das imagens em CGI e no caso em quest\u00e3o, da profundidade em tr\u00eas dimens\u00f5es. Essas sucessivas inova\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas, nas quais ali\u00e1s Cameron tem demonstrado inigual\u00e1vel aptid\u00e3o, dotaram o cinema das ferramentas necess\u00e1rias para reproduzir na tela as fantasias mais delirantes que o c\u00e9rebro for capaz de criar.<br \/>\nOs elementos criativos que povoam a hist\u00f3ria de \u201cAvatar\u201d (coloniza\u00e7\u00e3o interplanet\u00e1ria, engenharia gen\u00e9tica, controle da mente sobre outro corpo, ra\u00e7as de human\u00f3ides descendentes de felinos com 4 metros de altura e ossos de fibra de carbono, que moram numa aldeia-\u00e1rvore e s\u00e3o capazes de se comunicar com animais e vegetais, que cavalgam em drag\u00f5es e voam entre montanhas flutuantes) s\u00e3o lugares-comuns em v\u00e1rios nichos da fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, como os contos da lend\u00e1ria revista de quadrinhos alternativos \u201cHeavy Metal\u201d. Claro que, para tornar o filme palat\u00e1vel para as grandes audi\u00eancias, Cameron teve que retirar quase todo o sexo, viol\u00eancia, provoca\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e amoralidade que caracterizam aquela publica\u00e7\u00e3o, retirando tamb\u00e9m a vulgaridade e futilidade em que os elementos acima costumam vir empacotados na revista. \u201cAvatar\u201d \u00e9 Heavy Metal em embalagem da Disney.<br \/>\nA simplicidade quase banal da hist\u00f3ria e a falta de originalidade tem rendido a Cameron uma s\u00e9rie de processos por pl\u00e1gio. Entretanto, a confian\u00e7a do diretor em sua capacidade t\u00e9cnica o fez desdenhar impavidamente esses contratempos insignificantes e se dar ao luxo de se esbaldar com o brinquedo, dando livre curso a algumas das suas obsess\u00f5es t\u00edpicas j\u00e1 exploradas em filmes anteriores: o ambiente militar, a \u00e9tica dos soldados, a parafern\u00e1lia tecnol\u00f3gica armamentista, os limites da ci\u00eancia (e as criaturas bioluminescentes, como o absurdo \u201cinseto-c\u00f3ptero\u201d que passeia no filme), etc.<br \/>\n\u201cAvatar\u201d representa a chegada ao patamar hist\u00f3rico em que qualquer coisa que pode ser imaginada pode tamb\u00e9m ser filmada de modo tecnicamente convincente, o que coloca em pauta uma outra quest\u00e3o: o hiper-realismo proporcionado pela t\u00e9cnica cinematogr\u00e1fica acrescenta credibilidade \u00e0 fantasia ou destr\u00f3i a sua fecundidade, j\u00e1 que n\u00e3o deixa nada ao espectador para ser livremente imaginado? Ou dito de outra forma, porque o cinema fant\u00e1stico-hiper-realista deve ser considerado um avan\u00e7o em rela\u00e7\u00e3o ao teatro de bonecos, se este pode ser t\u00e3o eficiente quanto aquele na sua tarefa fundamental, que \u00e9 contar uma hist\u00f3ria?<br \/>\nO culto da novidade e da t\u00e9cnica como substitutos da vida \u00e9 mais um sintoma da patologia social contempor\u00e2nea, da qual \u201cAvatar\u201d \u00e9 mais uma confirma\u00e7\u00e3o. Mas \u00e9 uma confirma\u00e7\u00e3o invertida, pois a moral da hist\u00f3ria \u00e9 justamente&#8230; a volta \u00e0 natureza!<br \/>\nEsse paradoxo \u00e9 o grande achado de \u201cAvatar\u201d. O homem adquire a capacidade de viajar pelo espa\u00e7o, conservar-se vivo em sono criog\u00eanico, colonizar outros planetas, construir e reconstruir corpos por engenharia gen\u00e9tica, controlar remotamente um outro corpo, etc., mas o seu objeto de desejo \u00e9 retornar \u00e0 mesma rela\u00e7\u00e3o com a natureza que os \u00edndios praticam: caminhar descal\u00e7o pela floresta, beber \u00e1gua coletada da chuva pelas folhas das \u00e1rvores, dormir em rede, contar hist\u00f3rias em torno da fogueira&#8230;<\/p>\n<p>A hip\u00f3tese apocal\u00edptica<\/p>\n<p>Para explicar esse paradoxo, \u00e9 preciso entrar na discuss\u00e3o sobre a rela\u00e7\u00e3o do cinema com o contexto pol\u00edtico-ideol\u00f3gico. Dentre os filmes de Cameron, \u201cAvatar\u201d \u00e9 uma esp\u00e9cie de ant\u00edpoda do primeiro \u201cExterminador\u201d, pois se aquele contava com uma hist\u00f3ria poderosa e efeitos que hoje podemos considerar prec\u00e1rios, este possui um visual absolutamente deslumbrante e uma hist\u00f3ria sofr\u00edvel. Ponto para Pauline Kael? Depende.<br \/>\nA hip\u00f3tese apocal\u00edptica que explica a decad\u00eancia art\u00edstica do cinema pelo abuso da t\u00e9cnica dos efeitos especiais tem uma contraparte dial\u00e9tica que consiste no fato de que a extrapola\u00e7\u00e3o da corrida tecnol\u00f3gica para o cinema corresponde proporcionalmente \u00e0 vig\u00eancia dessa mesma corrida tecnol\u00f3gica na vida social em geral. N\u00e3o \u00e9 apenas o cinema que se tornou irreal, mas a vida real que se tornou cinematogr\u00e1fica, espetacular, fant\u00e1stica, ilus\u00f3ria e inst\u00e1vel, no contexto hist\u00f3rico do capitalismo plenamente mundializado, o que vale dizer, plenamente atravessado pela acelera\u00e7\u00e3o explosiva das suas contradi\u00e7\u00f5es constituintes. Nesse sentido, o cinema mais espetacular e irreal pode ser tamb\u00e9m o produto ideol\u00f3gico mais t\u00edpico e ilustrativo de determinados fen\u00f4menos sociais muito reais. Isso atualiza o valor cr\u00edtico do cinema e da cr\u00edtica de cinema, ainda que o cinema em quest\u00e3o venha \u00e0 tela completamente despido de inten\u00e7\u00f5es cr\u00edticas; e demonstra tamb\u00e9m a impossibilidade de se fazer cr\u00edtica de cinema e de arte com alguma seriedade e coer\u00eancia sem uma perspectiva cr\u00edtica do conjunto da vida social.<br \/>\nO paradoxo t\u00e9cnica X natureza em \u201cAvatar\u201d o torna culturalmente significativo a ponto de merecer a qualifica\u00e7\u00e3o de obra revolucion\u00e1ria, para al\u00e9m do aspecto cinematogr\u00e1fico e do recorde de bilheteria. Para avaliar esse significado cultural, \u00e9 preciso relacionar sua narrativa aos discursos ideol\u00f3gicos em voga. A hist\u00f3ria do filme, que j\u00e1 foi descrita como \u201cPocahontas no espa\u00e7o\u201d, \u00e9 um completo clich\u00ea: soldado se apaixona por nativa e se volta contra os colonizadores dos quais era parte. Essa mesma hist\u00f3ria j\u00e1 foi contada antes muitas outras vezes, merecendo destaque pela profundidade antropol\u00f3gica e paix\u00e3o humanista um outro cl\u00e1ssico do cinema recente: \u201cDan\u00e7a com lobos\u201d (outro fato sem a menor relev\u00e2ncia: primeiro filme que me fez chorar).<br \/>\nO que torna essa narrativa culturalmente significativa \u00e9 o acr\u00e9scimo da quest\u00e3o ambiental. O ambientalismo \u00e9 o bom-mocismo do s\u00e9culo XXI. \u00c9 a causa que aparentemente unifica a todos, gregos e troianos (veremos que n\u00e3o \u00e9 bem assim nas pr\u00f3ximas se\u00e7\u00f5es deste texto), o que ajuda a explicar o sucesso do filme (e o recorde de bilheteria), para al\u00e9m do refinamento visual. Ao colocar de um lado a defesa da natureza e de outro a sua destrui\u00e7\u00e3o, \u201cAvatar\u201d fornece ao p\u00fablico her\u00f3is para os quais torcer e vil\u00f5es aos quais odiar, e n\u00e3o h\u00e1 nada que o grande p\u00fablico aprecie mais do que her\u00f3is virtuosos derrotando vil\u00f5es odiosos. Sem isso, n\u00e3o h\u00e1 efeitos especiais que bastem para construir um sucesso art\u00edstico e comercial dessa magnitude. Mesmo sendo rasa, banal, repetitiva, pouco criativa, a narrativa central de \u201cAvatar\u201d fornece ao espectador uma experi\u00eancia dram\u00e1tica gratificante, ou seja, boa divers\u00e3o.<\/p>\n<p>Gregos e troianos?<\/p>\n<p>A consagra\u00e7\u00e3o art\u00edstica e comercial do ambientalismo em \u201cAvatar\u201d (atrav\u00e9s de uma overdose de t\u00e9cnica cinematogr\u00e1fica) representa ainda uma esp\u00e9cie de \u201cvingan\u00e7a est\u00e9tica\u201d contra a era Bush. O discurso dos vil\u00f5es do filme \u00e9 literalmente o mesmo dos sinistros personagens que povoaram os notici\u00e1rios na d\u00e9cada de 2000, os proc\u00f4nsules estadunidenses no Oriente M\u00e9dio e os executivos rapaces da Enron, Halliburton, AIG, Lehman Brothers e Cia. O executivo que dirige a explora\u00e7\u00e3o do mundo de Pandora em \u201cAvatar\u201d diz que tudo o que importa para os acionistas \u00e9 o balan\u00e7o trimestral, a mesma obsess\u00e3o dos especuladores trazidos \u00e0 berlinda pela atual crise econ\u00f4mica. O coronel que chefia a mil\u00edcia particular da empresa diz que se deve \u201ccombater o terror com terror\u201d, a mesma coisa que os Estados Unidos fizeram no Iraque e no Afeganist\u00e3o (e em Guant\u00e1namo ou em outras bases secretas nas quais torturaram \u201csuspeitos de terrorismo\u201d) ou que Israel fez contra Gaza.<br \/>\nDando mostras do quanto est\u00e1 sintonizado com o sentimento anti-Bush ainda presente na opini\u00e3o p\u00fablica mundial, \u201cAvatar\u201d d\u00e1 a pista dos pr\u00f3ximos alvos da \u201cguerra ao terror\u201d, quando lembra que o protagonista, antes de ser mandado para o espa\u00e7o, serviu na Venezuela, enquanto o coronel servira na Nig\u00e9ria, ambos \u201ccoincidentemente\u201d produtores de petr\u00f3leo. Ao aterrissar em Pandora, o ex-fuzileiro parapl\u00e9gico ainda acredita que na Terra as for\u00e7as armadas estadunidenses est\u00e3o \u201clutando pela liberdade\u201d, sendo que a corrup\u00e7\u00e3o dos soldados no processo da coloniza\u00e7\u00e3o seria causada apenas pelo fato de estarem servindo como mercen\u00e1rios de uma empresa privada.<br \/>\nAlgumas de suas falas poderiam ter sa\u00eddo da boca de um veterano do Iraque dos nossos dias de crise econ\u00f4mica e desemprego galopante nos Estados Unidos, quando diz que seria poss\u00edvel reparar sua espinha para que pudesse voltar a andar, \u201cmas n\u00e3o nessa economia, n\u00e3o com essa pens\u00e3o\u201d. Gradualmente o protagonista muda seu ponto de vista sobre o mundo de onde veio, pois passa-se para o lado dos nativos. Supera-se tamb\u00e9m aos poucos a hostilidade m\u00fatua entre o soldado e os cientistas. A separa\u00e7\u00e3o entre o homem de pensamento e o homem de a\u00e7\u00e3o, entre trabalho intelectual e trabalho bra\u00e7al, t\u00edpica da cultura estadunidense, tamb\u00e9m \u00e9 vencida no filme, conforme o soldado se torna capaz de refletir (o videolog mostra-se uma ferramenta bastante \u00fatil, mas tamb\u00e9m perigosa) e os cientistas de se engajar numa rebeli\u00e3o contra a corpora\u00e7\u00e3o.<br \/>\nCameron tamb\u00e9m subverte outro padr\u00e3o t\u00edpico da cultura estadunidense, retirando as mulheres do seu papel subalterno tradicional e dando-lhes fun\u00e7\u00f5es decisivas, o que ali\u00e1s \u00e9 um dos tra\u00e7os mais marcantes da sua filmografia. Em todos os seus filmes h\u00e1 personagens femininas fortes, que n\u00e3o ficam atr\u00e1s dos protagonistas masculinos, seja em intelig\u00eancia ou desenvoltura. Em \u201cAvatar\u201d, temos a cientista-chefe e at\u00e9 a piloto de helic\u00f3ptero, mas o destaque fica para a guerreira nativa, capaz de desafiar as tradi\u00e7\u00f5es de seu povo para unir-se ao estrangeiro por quem se apaixonou.<br \/>\nH\u00e1 outros tra\u00e7os \u201cpoliticamente corretos\u201d e p\u00f3s-modernos em \u201cAvatar\u201d, como a concess\u00e3o que se faz \u00e0 religi\u00e3o, quando a \u201cm\u00e3e natureza\u201d se envolve pessoalmente no combate, enviando um ex\u00e9rcito de criaturas para enfrentar os humanos, ainda que se fa\u00e7a um esbo\u00e7o de explica\u00e7\u00e3o cient\u00edfica para a experi\u00eancia m\u00edstica de comunica\u00e7\u00e3o com a divindade-natureza vivenciada pelos Na&#8217;vi. A mesma concess\u00e3o \u00e0 religi\u00e3o, as mesmas boas inten\u00e7\u00f5es e o mesmo paradoxo de t\u00e9cnica X natureza comentado duas se\u00e7\u00f5es acima j\u00e1 foram vistos antes em \u201cFinal Fantasy\u201d, tentativa pioneira e infeliz de substituir atores reais por CGI que fracassou est\u00e9tica e comercialmente. Prova de que \u00e9 preciso algo mais do que boas inten\u00e7\u00f5es e propostas politicamente corretas para que um filme possa funcionar. \u201cAvatar\u201d oferece esse algo mais, expondo uma ilustra\u00e7\u00e3o um pouco mais radical das contradi\u00e7\u00f5es sociais.<br \/>\n\u201cCedo ou tarde, sempre temos que acordar\u201d, aprende o fuzileiro. A opera\u00e7\u00e3o de explora\u00e7\u00e3o mineral em Pandora \u00e9 uma met\u00e1fora de todas as invas\u00f5es imperialistas no planeta Terra. Repete-se ali o mesmo processo que se desencadeou sobre a Am\u00e9rica, a \u00c1frica e a \u00c1sia, onde se destru\u00edram povos, culturas e ecossistemas em busca de riquezas ef\u00eameras, com a diferen\u00e7a de que, na batalha de Pandora, os nativos venceram. E o p\u00fablico que lotou os cinemas do mundo inteiro para dar a \u201cAvatar\u201d o recorde de bilheteria torceu pela vit\u00f3ria dos nativos. Eis uma novidade ideologicamente significativa, que sinaliza a vit\u00f3ria pol\u00edtica do ambientalismo.<br \/>\nEntretanto, qual \u00e9 a conclus\u00e3o a que a vit\u00f3ria dos nativos pode nos levar? Devemos abandonar a tecnologia e voltar a viver como os \u00edndios? Ser\u00e1 que \u201ccaminhar descal\u00e7o pela floresta, beber \u00e1gua coletada da chuva pelas folhas das \u00e1rvores, dormir em rede, contar hist\u00f3rias em torno da fogueira&#8230;\u201d devem ser o nosso ideal de felicidade e realiza\u00e7\u00e3o humana? Todo o progresso t\u00e9cnico realizado at\u00e9 hoje deve ser jogado fora, pois representa um pecado contra a inviolabilidade da m\u00e3e-natureza? Toda a ci\u00eancia, a arte, a cultura, a humaniza\u00e7\u00e3o do mundo, o conforto, s\u00e3o insepar\u00e1veis dos males que o homem provocou?<\/p>\n<p>Trabalho alienado e natureza<\/p>\n<p>Para responder a essas perguntas, \u00e9 preciso recorrer a uma perspectiva hist\u00f3rica concreta. N\u00e3o existe tecnologia (nem arte, nem religi\u00e3o, etc.) que n\u00e3o esteja envolvida no contexto de determinadas rela\u00e7\u00f5es sociais. O problema das agress\u00f5es da nossa tecnologia contra a natureza n\u00e3o est\u00e1 na tecnologia em si, mas no prop\u00f3sito social que dirige a sua utiliza\u00e7\u00e3o. A tecnologia \u00e9 apenas uma ferramenta a servi\u00e7o de uma l\u00f3gica social, que determina o que deve ser produzido e de que forma, e em proveito de quem. A l\u00f3gica que dirige a utiliza\u00e7\u00e3o da tecnologia em nossa sociedade \u00e9 a da acumula\u00e7\u00e3o de capital.<br \/>\nPortanto, n\u00e3o \u00e9 \u201co homem\u201d abstrato que agride a natureza, mas quem o faz \u00e9 o homem hist\u00f3rico e concreto, o homem envolvido em rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o social e historicamente determinadas, o homem envolvido nas rela\u00e7\u00f5es capitalistas (para as quais inconscientemente se dirige a condena\u00e7\u00e3o moral estetizada em filmes como \u201cAvatar\u201d). A rela\u00e7\u00e3o destrutiva com a natureza (e portanto auto-destrutiva) posta em pr\u00e1tica pelo homem \u00e9 uma decorr\u00eancia das rela\u00e7\u00f5es de trabalho alienado. O paradoxo t\u00e9cnica X natureza que viemos debatendo se enra\u00edza em contradi\u00e7\u00f5es muito profundas, que requerem uma adequada contextualiza\u00e7\u00e3o antropol\u00f3gica e filos\u00f3fica do trabalho alienado.<br \/>\nO trabalho \u00e9 a atividade que diferencia o homem dos demais animais. O homem se torna humano por meio do trabalho, que se define como atividade previamente ideada, ou seja, consciente. Ao contr\u00e1rio dos demais animais, cuja atividade \u00e9 inconsciente, instintiva, repetitiva e imut\u00e1vel, o homem altera o mundo com seu trabalho e ao fazer isso altera tamb\u00e9m a si mesmo. Por ser a \u00fanica esp\u00e9cie capaz de alterar o mundo e a si mesmo, s\u00f3 o homem possui uma Hist\u00f3ria propriamente dita, que \u00e9 na verdade um desdobramento da hist\u00f3ria natural. O surgimento da esp\u00e9cie humana, com sua capacidade de trabalho, \u00e9 um desenvolvimento de propriedades inerentes ao mundo natural, mas ao mesmo tempo representa o surgimento de um mundo novo, humano.<br \/>\nO trabalho constr\u00f3i biologicamente o corpo do homo sapiens, com seu caminhar ereto, polegar opositor e c\u00e9rebro superdesenvolvido, e cria o g\u00eanero humano como ser capaz de atribuir uma finalidade aos objetos e um sentido para as pr\u00f3prias a\u00e7\u00f5es. Ao satisfazer suas necessidades naturais (comer, vestir-se, abrigar-se, procriar) por meio do trabalho, o homem cria novas necessidades sociais, pois as satisfaz de modo humano. As caracter\u00edsticas humanas do homem, a socialidade, a historicidade, a liberdade, a universalidade, a consci\u00eancia, a linguagem, s\u00e3o produto do trabalho.<br \/>\nO trabalho \u00e9 a forma especificamente humana, social e hist\u00f3rica, de metabolismo com a natureza. Cada ser humano est\u00e1 em rela\u00e7\u00e3o com a natureza por meio de seu corpo f\u00edsico, cuja exist\u00eancia precisa ser mantida, mas essa rela\u00e7\u00e3o n\u00e3o se d\u00e1 de forma imediata, pois \u00e9 social e historicamente mediada pelo trabalho. O uso de recursos naturais para produzir alimentos, vestimentas, moradias, utens\u00edlios, etc., n\u00e3o \u00e9 feito separadamente por cada indiv\u00edduo, mas coletivamente por meio da forma\u00e7\u00e3o social da qual este indiv\u00edduo faz parte. Ou seja, o homem somente se relaciona com a natureza indiretamente, por meio de sua rela\u00e7\u00e3o com os outros homens, com o meio social no qual desempenha algum tipo de papel produtivo e de onde recebe uma cultura.<br \/>\nA humanidade do homem n\u00e3o est\u00e1 dada de modo imediato na realidade hist\u00f3rica, ou seja, cada homem n\u00e3o est\u00e1 imediatamente unificado com a sua humanidade, da forma como est\u00e3o os animais. Cada animal \u00e9 imediatamente id\u00eantico a sua esp\u00e9cie e capaz de fazer tudo que a esp\u00e9cie \u00e9 capaz. O homem, ao contr\u00e1rio, se encontra separado de sua esp\u00e9cie, da sua humanidade, seu ser gen\u00e9rico, por conta da condi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica da divis\u00e3o da sociedade em classes e do trabalho alienado.<br \/>\nAssim que o trabalho se torna capaz de produzir um excedente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s necessidades sociais, surge uma classe social que se apropria desse excedente. Ao longo da hist\u00f3ria desenvolve-se uma luta entre as classes propriet\u00e1rias e as classes trabalhadoras pela posse desse excedente do trabalho social. O controle do excedente pelas classes propriet\u00e1rias transforma o trabalho numa atividade alienada, ou seja, estranha para a maior parte dos seres humanos. O homem se separa de seu ser gen\u00e9rico, sua humanidade, ao n\u00e3o poder determinar o que fazer com seu tempo de trabalho e ser for\u00e7ado a trabalhar para outro. O homem se aliena da atividade do trabalho, dos produtos do trabalho, da sua rela\u00e7\u00e3o com os outros homens, que aparecem todos como elementos externos e opressivos sobre o indiv\u00edduo; e se aliena tamb\u00e9m da natureza.<\/p>\n<p>Capitalismo e destrui\u00e7\u00e3o da natureza<\/p>\n<p>Se a rela\u00e7\u00e3o com a natureza se d\u00e1 primordialmente por meio da rela\u00e7\u00e3o social e hist\u00f3rica de trabalho, o trabalho alienado leva a uma rela\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m alienada com a natureza. Na sociedade de classes, a natureza se apresenta ao homem como ambiente externo e objeto estranho a ser controlado, dominado, usufru\u00eddo e descartado, conforme os interesses da classe dominante. A natureza deixa de ser o \u201ccorpo inorg\u00e2nico do homem\u201d, como a definiu Marx, e se torna propriedade privada. Na condi\u00e7\u00e3o de propriedade privada, a natureza pode ser usada e abusada de maneira irrespons\u00e1vel, pois a necessidade coletiva \u00e9 desconsiderada em favor dos interesses privados.<br \/>\nNa sociedade capitalista, que \u00e9 a forma mais recente da sociedade de classes, a natureza mais do que nunca aparece como estranha ao homem, como puro objeto de manipula\u00e7\u00e3o, fonte supostamente inesgot\u00e1vel de mat\u00e9ria-prima e reposit\u00f3rio d\u00f3cil para os infinitos subprodutos da a\u00e7\u00e3o humana (lixo e polui\u00e7\u00e3o). O capitalismo simplesmente ignora que a natureza n\u00e3o \u00e9 inesgot\u00e1vel nem pode suportar indefinidamente os dejetos que lhe atiramos. A l\u00f3gica do capital considera apenas o curto prazo, o balan\u00e7o trimestral das empresas, a cota\u00e7\u00e3o di\u00e1ria da bolsa de valores, e simplesmente despreza a sobreviv\u00eancia da esp\u00e9cie. Como disse um autorizado representante da burguesia, o economista ingl\u00eas John M. Keynes, \u201ca longo prazo estaremos todos mortos\u201d.<br \/>\nO trabalho excedente apropriado pela burguesia \u00e9 a fonte da imensa acumula\u00e7\u00e3o de riqueza social que tem se multiplicado desde o in\u00edcio da Revolu\u00e7\u00e3o Industrial, ponto de partida do capitalismo propriamente dito. Parte dessa riqueza social apropriada pela burguesia \u00e9 consumida improdutivamente em luxo e parte tem que ser necessariamente reinvestida na continuidade da produ\u00e7\u00e3o.<br \/>\nAcontece que n\u00e3o basta ao capitalista apenas manter a produ\u00e7\u00e3o nos mesmos patamares do ciclo anterior de realiza\u00e7\u00e3o do capital, pois ele \u00e9 for\u00e7ado a produzir sempre mais mercadorias com o emprego de menos for\u00e7a de trabalho, para reduzir seus custos, aumentar seu lucro e vencer os concorrentes na competi\u00e7\u00e3o por mercado. Essa \u00e9 a \u00fanica forma de realizar mais capital. A reprodu\u00e7\u00e3o ampliada do capital \u00e9 a for\u00e7a motriz que comanda as a\u00e7\u00f5es de burgueses e conseq\u00fcentemente tamb\u00e9m dos prolet\u00e1rios na sociedade capitalista. Essa \u00e9 a fonte material da ideologia do crescimento econ\u00f4mico (que n\u00e3o \u00e9 sin\u00f4nimo de desenvolvimento humano), do culto cego ao progresso e \u00e0 novidade, que impulsiona um modo de vida voltado para o imediato e desprovido de sentido, em que os objetos se tornam sujeitos e os homens objetos.<br \/>\nEssa l\u00f3gica social da reprodu\u00e7\u00e3o ampliada origina uma espiral infinita de aumento da produ\u00e7\u00e3o de mercadorias. Esse aumento da produ\u00e7\u00e3o n\u00e3o leva em considera\u00e7\u00e3o as necessidades humanas e sim a possibilidade de lucro. A sociedade capitalista cria o paradoxo de uma gigantesca capacidade produtiva usada para gerar objetos absolutamente in\u00fateis, como bombas at\u00f4micas e bens de luxo, ao mesmo tempo em que mais de 1 bilh\u00e3o de pessoas passa fome.<br \/>\nComo se n\u00e3o bastasse o absurdo social desse desperd\u00edcio e do desvio de capacidade produtiva, isso ainda \u00e9 feito de uma forma tal que compromete a capacidade da natureza de suportar o impacto das a\u00e7\u00f5es humanas. O consumo de mat\u00e9rias-primas e de fontes de energia, o esgotamento da fertilidade do solo, o ac\u00famulo de lixo, a polui\u00e7\u00e3o da terra, do ar e das \u00e1guas chegaram a um n\u00edvel tal que j\u00e1 amea\u00e7a a continuidade da vida. O efeito estufa, a eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel dos mares, as secas e inunda\u00e7\u00f5es, as tempestades e furac\u00f5es, a escassez de \u00e1gua pot\u00e1vel, as ondas mortais de frio e calor, a desertifica\u00e7\u00e3o, a extin\u00e7\u00e3o em massa de esp\u00e9cies animais e vegetais, a multiplica\u00e7\u00e3o de v\u00edrus e bact\u00e9rias mortais, etc.; tudo isso s\u00e3o conseq\u00fc\u00eancias da a\u00e7\u00e3o irracional do capitalismo sobre a natureza.<\/p>\n<p>Supera\u00e7\u00e3o da aliena\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Na natureza, a cada a\u00e7\u00e3o corresponde uma rea\u00e7\u00e3o igual e contr\u00e1ria. Os desastres naturais n\u00e3o s\u00e3o resultado de castigo divino, mas rea\u00e7\u00f5es naturais aos desequil\u00edbrios provocados pelo capitalismo. Esses desastres atacam justamente as popula\u00e7\u00f5es mais vulner\u00e1veis, os pobres, os pequenos camponeses, os moradores das periferias das metr\u00f3poles, os segmentos mais desprotegidos da classe trabalhadora, que somente acessam uma fra\u00e7\u00e3o insignificante das riquezas geradas pelo trabalho social.<br \/>\nOs desequil\u00edbrios n\u00e3o podem ser corrigidos sem uma ruptura com a l\u00f3gica do capital. O capital \u00e9 uma for\u00e7a social inerentemente incontrol\u00e1vel e submete ao seu controle todas as demais rela\u00e7\u00f5es sociais. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel impor restri\u00e7\u00f5es \u00e0s atividades das grandes corpora\u00e7\u00f5es capitalistas. N\u00e3o existe Estado ou legisla\u00e7\u00e3o capaz de impedir essas corpora\u00e7\u00f5es de seguir explorando a natureza de forma irracional. N\u00e3o existe press\u00e3o dos consumidores capaz de for\u00e7ar as empresas a produzir de forma ambientalmente respons\u00e1vel A competi\u00e7\u00e3o entre as empresas e a corrup\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es que teriam o papel de fiscalizar suas atividades abrem as portas para novas transgress\u00f5es a cada remendo imposto pela press\u00e3o social.<br \/>\nPara restaurar o equil\u00edbrio natural e reverter os graves danos j\u00e1 causados \u00e9 preciso ao mesmo tempo reverter a l\u00f3gica que dirige o emprego das for\u00e7as produtivas sociais, direcionando-as para o atendimento das necessidades humanas. \u00c9 preciso estabelecer racionalmente o que a humanidade precisa produzir e de que forma isso pode ser produzido sem afetar a capacidade do planeta de seguir fornecendo indefinidamente os recursos de que necessitamos. Ao inv\u00e9s de produzir a infinidade de objetos in\u00fateis em que estamos entulhados, o trabalho social passaria a produzir aquilo de que os seres humanos realmente precisam para viver. Isso por si s\u00f3 j\u00e1 teria grande impacto na revers\u00e3o dos danos ambientais.<br \/>\nMas isso s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel com o fim do trabalho alienado, ou seja, com a conquista do controle dos trabalhadores sobre seu tempo e seus instrumentos de trabalho. Para isso \u00e9 preciso romper com a propriedade privada dos meios de produ\u00e7\u00e3o e com a divis\u00e3o da sociedade em classes. Somente uma humanidade sem classes pode se relacionar de forma racional com seu trabalho, direcionando seu tempo e recursos para produzir aquilo que realmente \u00e9 necess\u00e1rio e considerando o equil\u00edbrio da natureza e a continuidade da vida. Ao mudar a rela\u00e7\u00e3o do homem com o trabalho, muda-se tamb\u00e9m a rela\u00e7\u00e3o com a natureza.<br \/>\nPara a natureza \u00e9 indiferente que o planeta seja habitado por seres inteligentes ou por bact\u00e9rias, pois o planeta seguir\u00e1 seu curso em torno do sol, quer sejam os homens os seus passageiros ou sejam os microorganismos. Para o homem, entretanto, a preserva\u00e7\u00e3o de certas condi\u00e7\u00f5es indispens\u00e1veis para a sua sobreviv\u00eancia, como ar respir\u00e1vel, \u00e1gua pot\u00e1vel, terras f\u00e9rteis, temperaturas suport\u00e1veis, etc., deve ser resultado de sua a\u00e7\u00e3o consciente e coletiva. Essa a\u00e7\u00e3o passa necessariamente pela revolu\u00e7\u00e3o social, pela supera\u00e7\u00e3o da l\u00f3gica do capital e pela constru\u00e7\u00e3o do socialismo, \u00fanico regime capaz de devolver ao homem o controle sobre seu trabalho, sua humanidade e sua rela\u00e7\u00e3o racional e sustent\u00e1vel com a natureza.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\tAs revolu\u00e7\u00f5es da hist\u00f3ria do cinema<\/p>\n<p>\tPeriodicamente, a cada uma ou duas d\u00e9cadas, o cinema passa por revolu\u00e7\u00f5es que atualizam sua capacidade de funcionar como a arte t\u00edpica da sociedade capitalista moderna e expressar seus dilemas e contradi\u00e7\u00f5es. Esbocemos sumariamente algumas dessas revolu\u00e7\u00f5es:<br \/>\n\t&#8211; A primeira delas foi a pr\u00f3pria inven\u00e7\u00e3o do cinema como ve\u00edculo para contar hist\u00f3rias, saindo do submundo das curiosidades circenses para se tornar um ramo independente da ind\u00fastria cultural com regras, m\u00e9todos e c\u00e2nones pr\u00f3prios. Esse processo de constru\u00e7\u00e3o do cinema como instrumento da arte narrativa passa pelas cria\u00e7\u00f5es de M\u00e9li\u00e8s, Griffith, Chaplin, Eisenstein, o movimento expressionista, at\u00e9 alcan\u00e7ar a maturidade com Orson Welles e seu \u201cCidad\u00e3o Kane\u201d.<br \/>\n\t&#8211; A inven\u00e7\u00e3o do cinema falado no fim dos anos 1920.<br \/>\n\t&#8211; A introdu\u00e7\u00e3o das cores no fim dos anos 1930.<br \/>\n\t&#8211; O aperfei\u00e7oamento nas t\u00e9cnicas de proje\u00e7\u00e3o nos anos 1950 (CinemaScope, Cinerama, 3D), na tentativa de fazer frente \u00e0 concorr\u00eancia da televis\u00e3o.<br \/>\n\t&#8211; A revolu\u00e7\u00e3o tem\u00e1tica impulsionada pela explos\u00e3o das cinematografias n\u00e3o-hollywoodianas (neo-realismo, nouvelle vague, cinema novo, Fellini, Kurosawa, Bergman, Kubric, etc.) no p\u00f3s-II Guerra e nos anos 1950.<br \/>\n\t&#8211; A chegada dessa revolu\u00e7\u00e3o tem\u00e1tica a Hollywood pelas m\u00e3os da contra-cultura, na virada entre os anos 1960 e 70, deixando para tr\u00e1s a inoc\u00eancia dos musicais e contos de fadas com final feliz obrigat\u00f3rio. O cinema se tornou capaz de falar da vida de pessoas reais e abordar abertamente certas quest\u00f5es sociais, com marcos como \u201cAdivinhe quem vem para jantar?\u201d, \u201cSem destino\u201d, \u201cUma rajada de balas\u201d, \u201cA primeira noite de um homem\u201d, at\u00e9 chegar ao \u201cPoderoso chef\u00e3o\u201d.<br \/>\n\t&#8211; A revolu\u00e7\u00e3o dos efeitos especiais entre os anos 1970 e 80, cujos maiores expoentes s\u00e3o as trilogias \u201cGuerra nas Estrelas\u201d e \u201cIndiana Jones\u201d.<br \/>\n\tConhecedores mais profundos da hist\u00f3ria do cinema poder\u00e3o completar e precisar essa lista e enriquec\u00ea-la com muitos outros exemplos. Mas tal debate alongaria demais esse texto e o desviaria de seu prop\u00f3sito.<br \/>\n\tVoltemos \u00e0 \u00faltima \u201crevolu\u00e7\u00e3o\u201d indicada. O desenvolvimento dos efeitos especiais foi tido como uma resposta ao surgimento dos videocassetes (assim como nos anos 1950 fora preciso responder \u00e0 massifica\u00e7\u00e3o da televis\u00e3o). Era preciso criar um espet\u00e1culo suficientemente grandioso para concorrer com o conforto do v\u00eddeo dom\u00e9stico e motivar os espectadores a sair de casa para continuar freq\u00fcentando as salas de cinema.<br \/>\n\tNa \u00e9poca esse fen\u00f4meno foi interpretado por Pauline Kael (reputada como a maior cr\u00edtica de cinema estadunidense) como a verdadeira morte do cinema, pois os filmes passariam a estar cada vez mais baseados nos efeitos visuais do que na hist\u00f3ria.<br \/>\n\tCoerentemente com essa interpreta\u00e7\u00e3o \u201capocal\u00edptica\u201d, vimos cada vez mais as salas de proje\u00e7\u00e3o serem invadidas por filmes de a\u00e7\u00e3o, aventura, fantasia, fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e hist\u00f3rias em quadrinhos, que se sustentam em efeitos visuais e secundarizam a express\u00e3o da realidade humana. Assim como o cinema deslocou o teatro para uma esp\u00e9cie de gueto habitado por remanescentes cultuadores das antiguidades culturais, o cinema de efeitos especiais transformou os filmes que tratam de pessoas reais num segmento apreciado por uma restrita tribo de cin\u00e9filos, seguidores de produ\u00e7\u00f5es independentes, europ\u00e9ias, asi\u00e1ticas, sulamericanas, etc.<\/p>\n<p>\tA obra de James Cameron<\/p>\n<p>\tToda essa digress\u00e3o sobre a hist\u00f3ria do cinema se prop\u00f5e a preparar o terreno para a tentativa de localizar o significado do filme \u201cAvatar\u201d, de James Cameron. Passemos rapidamente em revista a obra desse diretor. Cameron foi um dos protagonistas da revolu\u00e7\u00e3o dos efeitos especiais com \u201cO Exterminador do Futuro\u201d, de 1984, obra impulsionada por uma hist\u00f3ria original\u00edssima, de profundo impacto e marcante influ\u00eancia no imagin\u00e1rio da \u00e9poca (influ\u00eancia que perdura at\u00e9 hoje), culturalmente representativa do \u00faltimo surto da Guerra Fria e embalada por uma narrativa de suspense bastante eficiente, elementos que o tornam um cl\u00e1ssico. A partir desse sucesso inicial, Cameron desenvolveu uma carreira pouco prol\u00edfica, mas repleta de t\u00edtulos que o tornaram sin\u00f4nimo de ambi\u00e7\u00e3o e inova\u00e7\u00e3o: \u201cAliens, o resgate\u201d, \u201cSegredo do abismo\u201d, \u201cO Exterminador II\u201d, \u201cTrue Lies\u201d, \u201cTitanic\u201d e agora \u201cAvatar\u201d (tornaram-no tamb\u00e9m titular da minha lista pessoal de diretores preferidos, fato que n\u00e3o tem a menor import\u00e2ncia, mas para quem ficou curioso aqui vai: Martin Scorcese, Ridley Scott, Oliver Stone, Tim Burton e David Fincher).<br \/>\n\tA curta filmografia de Cameron inclui os 2 filmes de maior bilheteria da hist\u00f3ria (o recorde de \u201cTitanic\u201d estava sendo superado por \u201cAvatar\u201d no momento em que este coment\u00e1rio era finalizado), fato este sim da maior relev\u00e2ncia para os executivos de Hollywood e para a vota\u00e7\u00e3o dos pr\u00eamios Oscar. E tal filmografia inclui ainda os marcos de mais duas revolu\u00e7\u00f5es na hist\u00f3ria do cinema, ou pelo menos dentro da atual fase da hist\u00f3ria:<br \/>\n\t&#8211; \u201cExterminador II\u201d, primeiro exemplar de utiliza\u00e7\u00e3o maci\u00e7a e bem-sucedida de imagens geradas em computador (conhecidas pela sigla em ingl\u00eas \u201cCGI\u201d), que causou esc\u00e2ndalo na \u00e9poca pelo seu elevado custo de produ\u00e7\u00e3o (mais de U$ 100 milh\u00f5es, marca esta tornada rotineira a partir de ent\u00e3o).<br \/>\n\t&#8211; O pr\u00f3prio \u201cAvatar\u201d, filme quase inteiramente feito em CGI e concebido para ser apreciado em 3D.<\/p>\n<p>\tO paradoxo da t\u00e9cnica<\/p>\n<p>\tNo que se refere \u00e0 t\u00e9cnica cinematogr\u00e1fica, \u201cAvatar\u201d \u00e9 indubitavelmente um salto adiante. As diversas revolu\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas do cinema citadas acima acrescentaram sucessivos aperfei\u00e7oamentos \u00e0 sua capacidade de funcionar como uma armadilha sensorial que suspende o espectador da sua rela\u00e7\u00e3o com o mundo real e o arremessam no universo da fantasia. A sala escura, a tela gigante, a luz em que brilham os astros e estrelas, o volume ensurdecedor do som, a trilha sonora cuidadosamente arquitetada para conduzir as emo\u00e7\u00f5es, o ritmo da edi\u00e7\u00e3o, a profus\u00e3o dos efeitos especiais, ganharam nas \u00faltimas d\u00e9cadas a companhia das imagens em CGI e no caso em quest\u00e3o, da profundidade em tr\u00eas dimens\u00f5es. Essas sucessivas inova\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas, nas quais ali\u00e1s Cameron tem demonstrado inigual\u00e1vel aptid\u00e3o, dotaram o cinema das ferramentas necess\u00e1rias para reproduzir na tela as fantasias mais delirantes que o c\u00e9rebro for capaz de criar.<br \/>\n\tOs elementos criativos que povoam a hist\u00f3ria de \u201cAvatar\u201d (coloniza\u00e7\u00e3o interplanet\u00e1ria, engenharia gen\u00e9tica, controle da mente sobre outro corpo, ra\u00e7as de human\u00f3ides descendentes de felinos com 4 metros de altura e ossos de fibra de carbono, que moram numa aldeia-\u00e1rvore e s\u00e3o capazes de se comunicar com animais e vegetais, que cavalgam em drag\u00f5es e voam entre montanhas flutuantes) s\u00e3o lugares-comuns em v\u00e1rios nichos da fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, como os contos da lend\u00e1ria revista de quadrinhos alternativos \u201cHeavy Metal\u201d. Claro que, para tornar o filme palat\u00e1vel para as grandes audi\u00eancias, Cameron teve que retirar quase todo o sexo, viol\u00eancia, provoca\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e amoralidade que caracterizam aquela publica\u00e7\u00e3o, retirando tamb\u00e9m a vulgaridade e futilidade em que os elementos acima costumam vir empacotados na revista. \u201cAvatar\u201d \u00e9 Heavy Metal em embalagem da Disney.<br \/>\n\tA simplicidade quase banal da hist\u00f3ria e a falta de originalidade tem rendido a Cameron uma s\u00e9rie de processos por pl\u00e1gio. Entretanto, a confian\u00e7a do diretor em sua capacidade t\u00e9cnica o fez desdenhar impavidamente esses contratempos insignificantes e se dar ao luxo de se esbaldar com o brinquedo, dando livre curso a algumas das suas obsess\u00f5es t\u00edpicas j\u00e1 exploradas em filmes anteriores: o ambiente militar, a \u00e9tica dos soldados, a parafern\u00e1lia tecnol\u00f3gica armamentista, os limites da ci\u00eancia (e as criaturas bioluminescentes, como o absurdo \u201cinseto-c\u00f3ptero\u201d que passeia no filme), etc.<br \/>\n\t\u201cAvatar\u201d representa a chegada ao patamar hist\u00f3rico em que qualquer coisa que pode ser imaginada pode tamb\u00e9m ser filmada de modo tecnicamente convincente, o que coloca em pauta uma outra quest\u00e3o: o hiper-realismo proporcionado pela t\u00e9cnica cinematogr\u00e1fica acrescenta credibilidade \u00e0 fantasia ou destr\u00f3i a sua fecundidade, j\u00e1 que n\u00e3o deixa nada ao espectador para ser livremente imaginado? Ou dito de outra forma, porque o cinema fant\u00e1stico-hiper-realista deve ser considerado um avan\u00e7o em rela\u00e7\u00e3o ao teatro de bonecos, se este pode ser t\u00e3o eficiente quanto aquele na sua tarefa fundamental, que \u00e9 contar uma hist\u00f3ria?<br \/>\n\tO culto da novidade e da t\u00e9cnica como substitutos da vida \u00e9 mais um sintoma da patologia social contempor\u00e2nea, da qual \u201cAvatar\u201d \u00e9 mais uma confirma\u00e7\u00e3o. Mas \u00e9 uma confirma\u00e7\u00e3o invertida, pois a moral da hist\u00f3ria \u00e9 justamente&#8230; a volta \u00e0 natureza!<br \/>\n\tEsse paradoxo \u00e9 o grande achado de \u201cAvatar\u201d. O homem adquire a capacidade de viajar pelo espa\u00e7o, conservar-se vivo em sono criog\u00eanico, colonizar outros planetas, construir e reconstruir corpos por engenharia gen\u00e9tica, controlar remotamente um outro corpo, etc., mas o seu objeto de desejo \u00e9 retornar \u00e0 mesma rela\u00e7\u00e3o com a natureza que os \u00edndios praticam: caminhar descal\u00e7o pela floresta, beber \u00e1gua coletada da chuva pelas folhas das \u00e1rvores, dormir em rede, contar hist\u00f3rias em torno da fogueira&#8230;<\/p>\n<p>\tA hip\u00f3tese apocal\u00edptica<\/p>\n<p>\tPara explicar esse paradoxo, \u00e9 preciso entrar na discuss\u00e3o sobre a rela\u00e7\u00e3o do cinema com o contexto pol\u00edtico-ideol\u00f3gico. Dentre os filmes de Cameron, \u201cAvatar\u201d \u00e9 uma esp\u00e9cie de ant\u00edpoda do primeiro \u201cExterminador\u201d, pois se aquele contava com uma hist\u00f3ria poderosa e efeitos que hoje podemos considerar prec\u00e1rios, este possui um visual absolutamente deslumbrante e uma hist\u00f3ria sofr\u00edvel. Ponto para Pauline Kael? Depende.<br \/>\n\tA hip\u00f3tese apocal\u00edptica que explica a decad\u00eancia art\u00edstica do cinema pelo abuso da t\u00e9cnica dos efeitos especiais tem uma contraparte dial\u00e9tica que consiste no fato de que a extrapola\u00e7\u00e3o da corrida tecnol\u00f3gica para o cinema corresponde proporcionalmente \u00e0 vig\u00eancia dessa mesma corrida tecnol\u00f3gica na vida social em geral. N\u00e3o \u00e9 apenas o cinema que se tornou irreal, mas a vida real que se tornou cinematogr\u00e1fica, espetacular, fant\u00e1stica, ilus\u00f3ria e inst\u00e1vel, no contexto hist\u00f3rico do capitalismo plenamente mundializado, o que vale dizer, plenamente atravessado pela acelera\u00e7\u00e3o explosiva das suas contradi\u00e7\u00f5es constituintes. Nesse sentido, o cinema mais espetacular e irreal pode ser tamb\u00e9m o produto ideol\u00f3gico mais t\u00edpico e ilustrativo de determinados fen\u00f4menos sociais muito reais. Isso atualiza o valor cr\u00edtico do cinema e da cr\u00edtica de cinema, ainda que o cinema em quest\u00e3o venha \u00e0 tela completamente despido de inten\u00e7\u00f5es cr\u00edticas; e demonstra tamb\u00e9m a impossibilidade de se fazer cr\u00edtica de cinema e de arte com alguma seriedade e coer\u00eancia sem uma perspectiva cr\u00edtica do conjunto da vida social.<br \/>\n\tO paradoxo t\u00e9cnica X natureza em \u201cAvatar\u201d o torna culturalmente significativo a ponto de merecer a qualifica\u00e7\u00e3o de obra revolucion\u00e1ria, para al\u00e9m do aspecto cinematogr\u00e1fico e do recorde de bilheteria. Para avaliar esse significado cultural, \u00e9 preciso relacionar sua narrativa aos discursos ideol\u00f3gicos em voga. A hist\u00f3ria do filme, que j\u00e1 foi descrita como \u201cPocahontas no espa\u00e7o\u201d, \u00e9 um completo clich\u00ea: soldado se apaixona por nativa e se volta contra os colonizadores dos quais era parte. Essa mesma hist\u00f3ria j\u00e1 foi contada antes muitas outras vezes, merecendo destaque pela profundidade antropol\u00f3gica e paix\u00e3o humanista um outro cl\u00e1ssico do cinema recente: \u201cDan\u00e7a com lobos\u201d (outro fato sem a menor relev\u00e2ncia: primeiro filme que me fez chorar).<br \/>\n\tO que torna essa narrativa culturalmente significativa \u00e9 o acr\u00e9scimo da quest\u00e3o ambiental. O ambientalismo \u00e9 o bom-mocismo do s\u00e9culo XXI. \u00c9 a causa que aparentemente unifica a todos, gregos e troianos (veremos que n\u00e3o \u00e9 bem assim nas pr\u00f3ximas se\u00e7\u00f5es deste texto), o que ajuda a explicar o sucesso do filme (e o recorde de bilheteria), para al\u00e9m do refinamento visual. Ao colocar de um lado a defesa da natureza e de outro a sua destrui\u00e7\u00e3o, \u201cAvatar\u201d fornece ao p\u00fablico her\u00f3is para os quais torcer e vil\u00f5es aos quais odiar, e n\u00e3o h\u00e1 nada que o grande p\u00fablico aprecie mais do que her\u00f3is virtuosos derrotando vil\u00f5es odiosos. Sem isso, n\u00e3o h\u00e1 efeitos especiais que bastem para construir um sucesso art\u00edstico e comercial dessa magnitude. Mesmo sendo rasa, banal, repetitiva, pouco criativa, a narrativa central de \u201cAvatar\u201d fornece ao espectador uma experi\u00eancia dram\u00e1tica gratificante, ou seja, boa divers\u00e3o.<\/p>\n<p>\tGregos e troianos?<\/p>\n<p>\tA consagra\u00e7\u00e3o art\u00edstica e comercial do ambientalismo em \u201cAvatar\u201d (atrav\u00e9s de uma overdose de t\u00e9cnica cinematogr\u00e1fica) representa ainda uma esp\u00e9cie de \u201cvingan\u00e7a est\u00e9tica\u201d contra a era Bush. O discurso dos vil\u00f5es do filme \u00e9 literalmente o mesmo dos sinistros personagens que povoaram os notici\u00e1rios na d\u00e9cada de 2000, os proc\u00f4nsules estadunidenses no Oriente M\u00e9dio e os executivos rapaces da Enron, Halliburton, AIG, Lehman Brothers e Cia. O executivo que dirige a explora\u00e7\u00e3o do mundo de Pandora em \u201cAvatar\u201d diz que tudo o que importa para os acionistas \u00e9 o balan\u00e7o trimestral, a mesma obsess\u00e3o dos especuladores trazidos \u00e0 berlinda pela atual crise econ\u00f4mica. O coronel que chefia a mil\u00edcia particular da empresa diz que se deve \u201ccombater o terror com terror\u201d, a mesma coisa que os Estados Unidos fizeram no Iraque e no Afeganist\u00e3o (e em Guant\u00e1namo ou em outras bases secretas nas quais torturaram \u201csuspeitos de terrorismo\u201d) ou que Israel fez contra Gaza.<br \/>\n\tDando mostras do quanto est\u00e1 sintonizado com o sentimento anti-Bush ainda presente na opini\u00e3o p\u00fablica mundial, \u201cAvatar\u201d d\u00e1 a pista dos pr\u00f3ximos alvos da \u201cguerra ao terror\u201d, quando lembra que o protagonista, antes de ser mandado para o espa\u00e7o, serviu na Venezuela, enquanto o coronel servira na Nig\u00e9ria, ambos \u201ccoincidentemente\u201d produtores de petr\u00f3leo. Ao aterrissar em Pandora, o ex-fuzileiro parapl\u00e9gico ainda acredita que na Terra as for\u00e7as armadas estadunidenses est\u00e3o \u201clutando pela liberdade\u201d, sendo que a corrup\u00e7\u00e3o dos soldados no processo da coloniza\u00e7\u00e3o seria causada apenas pelo fato de estarem servindo como mercen\u00e1rios de uma empresa privada.<br \/>\n\tAlgumas de suas falas poderiam ter sa\u00eddo da boca de um veterano do Iraque dos nossos dias de crise econ\u00f4mica e desemprego galopante nos Estados Unidos, quando diz que seria poss\u00edvel reparar sua espinha para que pudesse voltar a andar, \u201cmas n\u00e3o nessa economia, n\u00e3o com essa pens\u00e3o\u201d. Gradualmente o protagonista muda seu ponto de vista sobre o mundo de onde veio, pois passa-se para o lado dos nativos. Supera-se tamb\u00e9m aos poucos a hostilidade m\u00fatua entre o soldado e os cientistas. A separa\u00e7\u00e3o entre o homem de pensamento e o homem de a\u00e7\u00e3o, entre trabalho intelectual e trabalho bra\u00e7al, t\u00edpica da cultura estadunidense, tamb\u00e9m \u00e9 vencida no filme, conforme o soldado se torna capaz de refletir (o videolog mostra-se uma ferramenta bastante \u00fatil, mas tamb\u00e9m perigosa) e os cientistas de se engajar numa rebeli\u00e3o contra a corpora\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\tCameron tamb\u00e9m subverte outro padr\u00e3o t\u00edpico da cultura estadunidense, retirando as mulheres do seu papel subalterno tradicional e dando-lhes fun\u00e7\u00f5es decisivas, o que ali\u00e1s \u00e9 um dos tra\u00e7os mais marcantes da sua filmografia. Em todos os seus filmes h\u00e1 personagens femininas fortes, que n\u00e3o ficam atr\u00e1s dos protagonistas masculinos, seja em intelig\u00eancia ou desenvoltura. Em \u201cAvatar\u201d, temos a cientista-chefe e at\u00e9 a piloto de helic\u00f3ptero, mas o destaque fica para a guerreira nativa, capaz de desafiar as tradi\u00e7\u00f5es de seu povo para unir-se ao estrangeiro por quem se apaixonou.<br \/>\n\tH\u00e1 outros tra\u00e7os \u201cpoliticamente corretos\u201d e p\u00f3s-modernos em \u201cAvatar\u201d, como a concess\u00e3o que se faz \u00e0 religi\u00e3o, quando a \u201cm\u00e3e natureza\u201d se envolve pessoalmente no combate, enviando um ex\u00e9rcito de criaturas para enfrentar os humanos, ainda que se fa\u00e7a um esbo\u00e7o de explica\u00e7\u00e3o cient\u00edfica para a experi\u00eancia m\u00edstica de comunica\u00e7\u00e3o com a divindade-natureza vivenciada pelos Na&#8217;vi. A mesma concess\u00e3o \u00e0 religi\u00e3o, as mesmas boas inten\u00e7\u00f5es e o mesmo paradoxo de t\u00e9cnica X natureza comentado duas se\u00e7\u00f5es acima j\u00e1 foram vistos antes em \u201cFinal Fantasy\u201d, tentativa pioneira e infeliz de substituir atores reais por CGI que fracassou est\u00e9tica e comercialmente. Prova de que \u00e9 preciso algo mais do que boas inten\u00e7\u00f5es e propostas politicamente corretas para que um filme possa funcionar. \u201cAvatar\u201d oferece esse algo mais, expondo uma ilustra\u00e7\u00e3o um pouco mais radical das contradi\u00e7\u00f5es sociais.<br \/>\n\t\u201cCedo ou tarde, sempre temos que acordar\u201d, aprende o fuzileiro. A opera\u00e7\u00e3o de explora\u00e7\u00e3o mineral em Pandora \u00e9 uma met\u00e1fora de todas as invas\u00f5es imperialistas no planeta Terra. Repete-se ali o mesmo processo que se desencadeou sobre a Am\u00e9rica, a \u00c1frica e a \u00c1sia, onde se destru\u00edram povos, culturas e ecossistemas em busca de riquezas ef\u00eameras, com a diferen\u00e7a de que, na batalha de Pandora, os nativos venceram. E o p\u00fablico que lotou os cinemas do mundo inteiro para dar a \u201cAvatar\u201d o recorde de bilheteria torceu pela vit\u00f3ria dos nativos. Eis uma novidade ideologicamente significativa, que sinaliza a vit\u00f3ria pol\u00edtica do ambientalismo.<br \/>\n\tEntretanto, qual \u00e9 a conclus\u00e3o a que a vit\u00f3ria dos nativos pode nos levar? Devemos abandonar a tecnologia e voltar a viver como os \u00edndios? Ser\u00e1 que \u201ccaminhar descal\u00e7o pela floresta, beber \u00e1gua coletada da chuva pelas folhas das \u00e1rvores, dormir em rede, contar hist\u00f3rias em torno da fogueira&#8230;\u201d devem ser o nosso ideal de felicidade e realiza\u00e7\u00e3o humana? Todo o progresso t\u00e9cnico realizado at\u00e9 hoje deve ser jogado fora, pois representa um pecado contra a inviolabilidade da m\u00e3e-natureza? Toda a ci\u00eancia, a arte, a cultura, a humaniza\u00e7\u00e3o do mundo, o conforto, s\u00e3o insepar\u00e1veis dos males que o homem provocou?<\/p>\n<p>\tTrabalho alienado e natureza<\/p>\n<p>Para responder a essas perguntas, \u00e9 preciso recorrer a uma perspectiva hist\u00f3rica concreta. N\u00e3o existe tecnologia (nem arte, nem religi\u00e3o, etc.) que n\u00e3o esteja envolvida no contexto de determinadas rela\u00e7\u00f5es sociais. O problema das agress\u00f5es da nossa tecnologia contra a natureza n\u00e3o est\u00e1 na tecnologia em si, mas no prop\u00f3sito social que dirige a sua utiliza\u00e7\u00e3o. A tecnologia \u00e9 apenas uma ferramenta a servi\u00e7o de uma l\u00f3gica social, que determina o que deve ser produzido e de que forma, e em proveito de quem. A l\u00f3gica que dirige a utiliza\u00e7\u00e3o da tecnologia em nossa sociedade \u00e9 a da acumula\u00e7\u00e3o de capital.<br \/>\nPortanto, n\u00e3o \u00e9 \u201co homem\u201d abstrato que agride a natureza, mas quem o faz \u00e9 o homem hist\u00f3rico e concreto, o homem envolvido em rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o social e historicamente determinadas, o homem envolvido nas rela\u00e7\u00f5es capitalistas (para as quais inconscientemente se dirige a condena\u00e7\u00e3o moral estetizada em filmes como \u201cAvatar\u201d). A rela\u00e7\u00e3o destrutiva com a natureza (e portanto auto-destrutiva) posta em pr\u00e1tica pelo homem \u00e9 uma decorr\u00eancia das rela\u00e7\u00f5es de trabalho alienado. O paradoxo t\u00e9cnica X natureza que viemos debatendo se enra\u00edza em contradi\u00e7\u00f5es muito profundas, que requerem uma adequada contextualiza\u00e7\u00e3o antropol\u00f3gica e filos\u00f3fica do trabalho alienado.<br \/>\nO trabalho \u00e9 a atividade que diferencia o homem dos demais animais. O homem se torna humano por meio do trabalho, que se define como atividade previamente ideada, ou seja, consciente. Ao contr\u00e1rio dos demais animais, cuja atividade \u00e9 inconsciente, instintiva, repetitiva e imut\u00e1vel, o homem altera o mundo com seu trabalho e ao fazer isso altera tamb\u00e9m a si mesmo. Por ser a \u00fanica esp\u00e9cie capaz de alterar o mundo e a si mesmo, s\u00f3 o homem possui uma Hist\u00f3ria propriamente dita, que \u00e9 na verdade um desdobramento da hist\u00f3ria natural. O surgimento da esp\u00e9cie humana, com sua capacidade de trabalho, \u00e9 um desenvolvimento de propriedades inerentes ao mundo natural, mas ao mesmo tempo representa o surgimento de um mundo novo, humano.<br \/>\nO trabalho constr\u00f3i biologicamente o corpo do homo sapiens, com seu caminhar ereto, polegar opositor e c\u00e9rebro superdesenvolvido, e cria o g\u00eanero humano como ser capaz de atribuir uma finalidade aos objetos e um sentido para as pr\u00f3prias a\u00e7\u00f5es. Ao satisfazer suas necessidades naturais (comer, vestir-se, abrigar-se, procriar) por meio do trabalho, o homem cria novas necessidades sociais, pois as satisfaz de modo humano. As caracter\u00edsticas humanas do homem, a socialidade, a historicidade, a liberdade, a universalidade, a consci\u00eancia, a linguagem, s\u00e3o produto do trabalho.<br \/>\nO trabalho \u00e9 a forma especificamente humana, social e hist\u00f3rica, de metabolismo com a natureza. Cada ser humano est\u00e1 em rela\u00e7\u00e3o com a natureza por meio de seu corpo f\u00edsico, cuja exist\u00eancia precisa ser mantida, mas essa rela\u00e7\u00e3o n\u00e3o se d\u00e1 de forma imediata, pois \u00e9 social e historicamente mediada pelo trabalho. O uso de recursos naturais para produzir alimentos, vestimentas, moradias, utens\u00edlios, etc., n\u00e3o \u00e9 feito separadamente por cada indiv\u00edduo, mas coletivamente por meio da forma\u00e7\u00e3o social da qual este indiv\u00edduo faz parte. Ou seja, o homem somente se relaciona com a natureza indiretamente, por meio de sua rela\u00e7\u00e3o com os outros homens, com o meio social no qual desempenha algum tipo de papel produtivo e de onde recebe uma cultura.<br \/>\nA humanidade do homem n\u00e3o est\u00e1 dada de modo imediato na realidade hist\u00f3rica, ou seja, cada homem n\u00e3o est\u00e1 imediatamente unificado com a sua humanidade, da forma como est\u00e3o os animais. Cada animal \u00e9 imediatamente id\u00eantico a sua esp\u00e9cie e capaz de fazer tudo que a esp\u00e9cie \u00e9 capaz. O homem, ao contr\u00e1rio, se encontra separado de sua esp\u00e9cie, da sua humanidade, seu ser gen\u00e9rico, por conta da condi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica da divis\u00e3o da sociedade em classes e do trabalho alienado.<br \/>\nAssim que o trabalho se torna capaz de produzir um excedente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s necessidades sociais, surge uma classe social que se apropria desse excedente. Ao longo da hist\u00f3ria desenvolve-se uma luta entre as classes propriet\u00e1rias e as classes trabalhadoras pela posse desse excedente do trabalho social. O controle do excedente pelas classes propriet\u00e1rias transforma o trabalho numa atividade alienada, ou seja, estranha para a maior parte dos seres humanos. O homem se separa de seu ser gen\u00e9rico, sua humanidade, ao n\u00e3o poder determinar o que fazer com seu tempo de trabalho e ser for\u00e7ado a trabalhar para outro. O homem se aliena da atividade do trabalho, dos produtos do trabalho, da sua rela\u00e7\u00e3o com os outros homens, que aparecem todos como elementos externos e opressivos sobre o indiv\u00edduo; e se aliena tamb\u00e9m da natureza.<\/p>\n<p>Capitalismo e destrui\u00e7\u00e3o da natureza<\/p>\n<p>Se a rela\u00e7\u00e3o com a natureza se d\u00e1 primordialmente por meio da rela\u00e7\u00e3o social e hist\u00f3rica de trabalho, o trabalho alienado leva a uma rela\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m alienada com a natureza. Na sociedade de classes, a natureza se apresenta ao homem como ambiente externo e objeto estranho a ser controlado, dominado, usufru\u00eddo e descartado, conforme os interesses da classe dominante. A natureza deixa de ser o \u201ccorpo inorg\u00e2nico do homem\u201d, como a definiu Marx, e se torna propriedade privada. Na condi\u00e7\u00e3o de propriedade privada, a natureza pode ser usada e abusada de maneira irrespons\u00e1vel, pois a necessidade coletiva \u00e9 desconsiderada em favor dos interesses privados.<br \/>\n\tNa sociedade capitalista, que \u00e9 a forma mais recente da sociedade de classes, a natureza mais do que nunca aparece como estranha ao homem, como puro objeto de manipula\u00e7\u00e3o, fonte supostamente inesgot\u00e1vel de mat\u00e9ria-prima e reposit\u00f3rio d\u00f3cil para os infinitos subprodutos da a\u00e7\u00e3o humana (lixo e polui\u00e7\u00e3o). O capitalismo simplesmente ignora que a natureza n\u00e3o \u00e9 inesgot\u00e1vel nem pode suportar indefinidamente os dejetos que lhe atiramos. A l\u00f3gica do capital considera apenas o curto prazo, o balan\u00e7o trimestral das empresas, a cota\u00e7\u00e3o di\u00e1ria da bolsa de valores, e simplesmente despreza a sobreviv\u00eancia da esp\u00e9cie. Como disse um autorizado representante da burguesia, o economista ingl\u00eas John M. Keynes, \u201ca longo prazo estaremos todos mortos\u201d.<br \/>\n\tO trabalho excedente apropriado pela burguesia \u00e9 a fonte da imensa acumula\u00e7\u00e3o de riqueza social que tem se multiplicado desde o in\u00edcio da Revolu\u00e7\u00e3o Industrial, ponto de partida do capitalismo propriamente dito. Parte dessa riqueza social apropriada pela burguesia \u00e9 consumida improdutivamente em luxo e parte tem que ser necessariamente reinvestida na continuidade da produ\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\tAcontece que n\u00e3o basta ao capitalista apenas manter a produ\u00e7\u00e3o nos mesmos patamares do ciclo anterior de realiza\u00e7\u00e3o do capital, pois ele \u00e9 for\u00e7ado a produzir sempre mais mercadorias com o emprego de menos for\u00e7a de trabalho, para reduzir seus custos, aumentar seu lucro e vencer os concorrentes na competi\u00e7\u00e3o por mercado. Essa \u00e9 a \u00fanica forma de realizar mais capital. A reprodu\u00e7\u00e3o ampliada do capital \u00e9 a for\u00e7a motriz que comanda as a\u00e7\u00f5es de burgueses e conseq\u00fcentemente tamb\u00e9m dos prolet\u00e1rios na sociedade capitalista. Essa \u00e9 a fonte material da ideologia do crescimento econ\u00f4mico (que n\u00e3o \u00e9 sin\u00f4nimo de desenvolvimento humano), do culto cego ao progresso e \u00e0 novidade, que impulsiona um modo de vida voltado para o imediato e desprovido de sentido, em que os objetos se tornam sujeitos e os homens objetos.<br \/>\n\tEssa l\u00f3gica social da reprodu\u00e7\u00e3o ampliada origina uma espiral infinita de aumento da produ\u00e7\u00e3o de mercadorias. Esse aumento da produ\u00e7\u00e3o n\u00e3o leva em considera\u00e7\u00e3o as necessidades humanas e sim a possibilidade de lucro. A sociedade capitalista cria o paradoxo de uma gigantesca capacidade produtiva usada para gerar objetos absolutamente in\u00fateis, como bombas at\u00f4micas e bens de luxo, ao mesmo tempo em que mais de 1 bilh\u00e3o de pessoas passa fome.<br \/>\n\tComo se n\u00e3o bastasse o absurdo social desse desperd\u00edcio e do desvio de capacidade produtiva, isso ainda \u00e9 feito de uma forma tal que compromete a capacidade da natureza de suportar o impacto das a\u00e7\u00f5es humanas. O consumo de mat\u00e9rias-primas e de fontes de energia, o esgotamento da fertilidade do solo, o ac\u00famulo de lixo, a polui\u00e7\u00e3o da terra, do ar e das \u00e1guas chegaram a um n\u00edvel tal que j\u00e1 amea\u00e7a a continuidade da vida. O efeito estufa, a eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel dos mares, as secas e inunda\u00e7\u00f5es, as tempestades e furac\u00f5es, a escassez de \u00e1gua pot\u00e1vel, as ondas mortais de frio e calor, a desertifica\u00e7\u00e3o, a extin\u00e7\u00e3o em massa de esp\u00e9cies animais e vegetais, a multiplica\u00e7\u00e3o de v\u00edrus e bact\u00e9rias mortais, etc.; tudo isso s\u00e3o conseq\u00fc\u00eancias da a\u00e7\u00e3o irracional do capitalismo sobre a natureza.<\/p>\n<p>\tSupera\u00e7\u00e3o da aliena\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>\tNa natureza, a cada a\u00e7\u00e3o corresponde uma rea\u00e7\u00e3o igual e contr\u00e1ria. Os desastres naturais n\u00e3o s\u00e3o resultado de castigo divino, mas rea\u00e7\u00f5es naturais aos desequil\u00edbrios provocados pelo capitalismo. Esses desastres atacam justamente as popula\u00e7\u00f5es mais vulner\u00e1veis, os pobres, os pequenos camponeses, os moradores das periferias das metr\u00f3poles, os segmentos mais desprotegidos da classe trabalhadora, que somente acessam uma fra\u00e7\u00e3o insignificante das riquezas geradas pelo trabalho social.<br \/>\n\tOs desequil\u00edbrios n\u00e3o podem ser corrigidos sem uma ruptura com a l\u00f3gica do capital. O capital \u00e9 uma for\u00e7a social inerentemente incontrol\u00e1vel e submete ao seu controle todas as demais rela\u00e7\u00f5es sociais. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel impor restri\u00e7\u00f5es \u00e0s atividades das grandes corpora\u00e7\u00f5es capitalistas. N\u00e3o existe Estado ou legisla\u00e7\u00e3o capaz de impedir essas corpora\u00e7\u00f5es de seguir explorando a natureza de forma irracional. N\u00e3o existe press\u00e3o dos consumidores capaz de for\u00e7ar as empresas a produzir de forma ambientalmente respons\u00e1vel A competi\u00e7\u00e3o entre as empresas e a corrup\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es que teriam o papel de fiscalizar suas atividades abrem as portas para novas transgress\u00f5es a cada remendo imposto pela press\u00e3o social.<br \/>\n\tPara restaurar o equil\u00edbrio natural e reverter os graves danos j\u00e1 causados \u00e9 preciso ao mesmo tempo reverter a l\u00f3gica que dirige o emprego das for\u00e7as produtivas sociais, direcionando-as para o atendimento das necessidades humanas. \u00c9 preciso estabelecer racionalmente o que a humanidade precisa produzir e de que forma isso pode ser produzido sem afetar a capacidade do planeta de seguir fornecendo indefinidamente os recursos de que necessitamos. Ao inv\u00e9s de produzir a infinidade de objetos in\u00fateis em que estamos entulhados, o trabalho social passaria a produzir aquilo de que os seres humanos realmente precisam para viver. Isso por si s\u00f3 j\u00e1 teria grande impacto na revers\u00e3o dos danos ambientais.<br \/>\n\tMas isso s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel com o fim do trabalho alienado, ou seja, com a conquista do controle dos trabalhadores sobre seu tempo e seus instrumentos de trabalho. Para isso \u00e9 preciso romper com a propriedade privada dos meios de produ\u00e7\u00e3o e com a divis\u00e3o da sociedade em classes. Somente uma humanidade sem classes pode se relacionar de forma racional com seu trabalho, direcionando seu tempo e recursos para produzir aquilo que realmente \u00e9 necess\u00e1rio e considerando o equil\u00edbrio da natureza e a continuidade da vida. Ao mudar a rela\u00e7\u00e3o do homem com o trabalho, muda-se tamb\u00e9m a rela\u00e7\u00e3o com a natureza.<br \/>\n\tPara a natureza \u00e9 indiferente que o planeta seja habitado por seres inteligentes ou por bact\u00e9rias, pois o planeta seguir\u00e1 seu curso em torno do sol, quer sejam os homens os seus passageiros ou sejam os microorganismos. Para o homem, entretanto, a preserva\u00e7\u00e3o de certas condi\u00e7\u00f5es indispens\u00e1veis para a sua sobreviv\u00eancia, como ar respir\u00e1vel, \u00e1gua pot\u00e1vel, terras f\u00e9rteis, temperaturas suport\u00e1veis, etc., deve ser resultado de sua a\u00e7\u00e3o consciente e coletiva. Essa a\u00e7\u00e3o passa necessariamente pela revolu\u00e7\u00e3o social, pela supera\u00e7\u00e3o da l\u00f3gica do capital e pela constru\u00e7\u00e3o do socialismo, \u00fanico regime capaz de devolver ao homem o controle sobre seu trabalho, sua humanidade e sua rela\u00e7\u00e3o racional e sustent\u00e1vel com a natureza.<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[9,65],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/227"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=227"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/227\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6207,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/227\/revisions\/6207"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=227"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=227"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=227"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}