{"id":24,"date":"2008-12-13T15:50:43","date_gmt":"2008-12-13T15:50:43","guid":{"rendered":"http:\/\/espacosocialista.org\/?q=node\/24"},"modified":"2018-05-04T21:51:00","modified_gmt":"2018-05-05T00:51:00","slug":"lisbela-e-o-cinema-nacional","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/2008\/12\/lisbela-e-o-cinema-nacional\/","title":{"rendered":"Lisbela e o cinema nacional"},"content":{"rendered":"<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: center;\" align=\"center\">\n<h1>LISBELA E O CINEMA NACIONAL<\/h1>\n<h1><\/h1>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: center;\" align=\"center\">(Coment\u00e1rio sobre o filme \u201cLisbela e o prisioneiro\u201d)<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Nome original: Lisbela e o Prisioneiro<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Produ\u00e7\u00e3o: Brasil<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Ano: 2003<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Idiomas: Portugu\u00eas<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Diretor: Guel Arraes<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Roteiro: Guel Arraes, Pedro Cardoso<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Elenco: Selton Mello, D\u00e9bora Falabella, Virginia Cavendish, Bruno Garcia, Tadeu Mello, Andr\u00e9 Mattos, L\u00edvia Falc\u00e3o, Marco Nanini, Luisa Arraes, Paula Lavigne, Helo\u00edse P\u00e9riss\u00e9, Cl\u00e1udio Ren\u00e9e, Zeca Veloso<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">G\u00eanero: com\u00e9dia, romance<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\"><span lang=\"EN-US\">Fonte: \u201cThe Internet Movie Database\u201d \u2013 <\/span><a href=\"http:\/\/www.imdb.com\/\"><span lang=\"EN-US\">http:\/\/www.imdb.com\/<\/span><\/a><span lang=\"EN-US\">\u00a0 <\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 H\u00e1 algo de profundamente errado com o cinema nacional, quando uma megacorpora\u00e7\u00e3o como a rede Globo precisa das leis de incentivo e de ren\u00fancia fiscal para colocar um filme em exibi\u00e7\u00e3o. O primeiro detalhe que chama aten\u00e7\u00e3o em \u201cLisbela e o Prisioneiro\u201d, como de resto na maioria dos filmes nacionais, \u00e9 a quantidade de logotipos de patrocinadores. Um caos, uma babel de logotipos, um carro de f\u00f3rmula 1, desfilam pela tela, antes e depois do filme.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">No meio dos logotipos, despontam os selos do Minist\u00e9rio da Cultura e da Lei do Audiovisual. S\u00edmbolos que representam as iniciativas dos governos recentes de tentar fomentar uma ind\u00fastria de cinema. A pl\u00eaiade de logotipos e marcas ilustra a complexidade de acertos e conchavos necess\u00e1rios para se p\u00f4r um filme nacional nas telas. Como o esfor\u00e7o de uma montanha para parir um rato. Sem desmerecer o rato em quest\u00e3o, ou seja, o filme, o qual ali\u00e1s deve ter seu valor art\u00edstico reconhecido em alguma medida, como ser\u00e1 feito adiante. O problema que se tenta levantar aqui \u00e9 a necessidade de tantos s\u00f3cios para bancar um t\u00e3o modesto empreendimento. Entre esses s\u00f3cios, em diferentes n\u00edveis de associa\u00e7\u00e3o, a Rede Globo e o Governo Federal. Por meio da ren\u00fancia fiscal, o Estado subsidia a Globo com dinheiro p\u00fablico para produzir seus filmes.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Isso \u00e9 t\u00e3o absurdo quanto imaginar, hipoteticamente, a CBF recebendo dinheiro do Minist\u00e9rio dos Esportes para mandar uma Sele\u00e7\u00e3o Brasileira para a Copa do Mundo. A CBF, que administra o \u00fanico esporte profissional do pa\u00eds, tem a obriga\u00e7\u00e3o de conseguir rentabilidade e auto-sufici\u00eancia financeira. N\u00e3o poderia jamais precisar de dinheiro p\u00fablico para montar suas delega\u00e7\u00f5es. Como de fato jamais precisou. Pelo menos esse n\u00edvel de dignidade os dirigentes da CBF tiveram. Ou, ao contr\u00e1rio, sua consumada desfa\u00e7atez n\u00e3o foi suficiente para chegar a tanto. Mas no caso da Globo foi. O mesmo racioc\u00ednio que interdita uma tal iniciativa deveria se aplicar \u00e0 rede Globo. Uma megacorpora\u00e7\u00e3o de m\u00eddia que concentra emissoras de TV e r\u00e1dio, jornais, revistas e editora n\u00e3o deveria jamais precisar de incentivos fiscais para p\u00f4r um filme nacional nas telas. Deveria e poderia arcar com o custo e o dever de bancar o cinema nacional inteiro.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">O processo que produziu o filme \u201cLisbela e o Prisioneiro\u201d deveria ser considerado uma aberra\u00e7\u00e3o. Talvez n\u00e3o seja, porque o filme \u00e9 simp\u00e1tico e se sustenta por seus pr\u00f3prios m\u00e9ritos art\u00edsticos, sobre os quais falaremos adiante. Esses m\u00e9ritos acabam se sobrepondo na avalia\u00e7\u00e3o. M\u00e9ritos do diretor e do elenco, que n\u00e3o podem esconder, a meu ver, o car\u00e1ter viciado da produ\u00e7\u00e3o. Para insistir na compara\u00e7\u00e3o entre cinema e futebol, n\u00e3o se pode esconder que h\u00e1 algo errado com o futebol brasileiro, mesmo sendo cinco vezes campe\u00e3o do mundo. Porque seus melhores jogadores n\u00e3o jogam no Brasil e sim na Europa!<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Os artistas talentosos que produziram \u201cLisbela e o Prisioneiro\u201d n\u00e3o encontram outro meio para colocar sua arte em cena que n\u00e3o a condi\u00e7\u00e3o de empregados da rede Globo. Como os jogadores brasileiros s\u00e3o empregados dos Euricos Mirandas e Ricardos Teixeiras da vida. O dem\u00e9rito n\u00e3o \u00e9 deles, \u00e9 do sistema viciado em que trabalham. Isso encerra a compara\u00e7\u00e3o. O foco do problema n\u00e3o est\u00e1 no filme, mas na defici\u00eancia do cinema nacional. Por que o cinema nacional n\u00e3o consegue se firmar como ind\u00fastria?<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O objetivo prec\u00edpuo das leis de incentivo via ren\u00fancia fiscal era de que se criasse uma ind\u00fastria nacional de cinema. Nesse aspecto os resultados foram p\u00edfios. Os filmes vem saindo, mas apenas esporadicamente. Saem como resultado da obstina\u00e7\u00e3o de artistas que se tornam pedintes ambulantes, mendigando verbas nos escrit\u00f3rios de marketing de empresas. As etapas de pr\u00e9-produ\u00e7\u00e3o, filmagem, montagem, exibi\u00e7\u00e3o, transcorrem penosamente, consumindo esfor\u00e7os herc\u00faleos em processos intrincados de capta\u00e7\u00e3o. Filmes feitos com esse tipo de processo de financiamento acabam n\u00e3o tendo a obriga\u00e7\u00e3o de dar lucro. O filme j\u00e1 est\u00e1 pago ao chegar na sala de exibi\u00e7\u00e3o. A empresa que o patrocinou j\u00e1 conseguiu o que queria, a dedu\u00e7\u00e3o de impostos. O filme n\u00e3o precisa sequer ser assistido. N\u00e3o h\u00e1 o menor compromisso com a carreira comercial do filme.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Se os filmes n\u00e3o concorrem no mercado, n\u00e3o conquistam fatias de mercado. N\u00e3o formam p\u00fablico acostumado a ver o cinema nacional. Nem estrutura t\u00e9cnica, profissionais especializados, canais pr\u00f3prios para veicula\u00e7\u00e3o. O cinema \u00e9 uma atividade altamente especializada. Mas os profissionais que a ele se dedicam dependem da continuidade para optar pelo cinema como profiss\u00e3o. E continuidade \u00e9 o que menos se pode encontrar nesse regime de trabalho. N\u00e3o h\u00e1 est\u00fadios, n\u00e3o h\u00e1 cadeias de produ\u00e7\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 canais de escoamento. Se cada projeto \u00e9 fechado em si e n\u00e3o cria um ciclo, um movimento, uma continuidade, n\u00e3o se forma uma ind\u00fastria. Quando acaba a vig\u00eancia das leis de incentivo, volta-se \u00e0 estaca zero. Devo esta an\u00e1lise do funcionamento do atual cinema brasileiro \u00e0 revista \u201cReportagem\u201d, ed. 47.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 N\u00e3o estamos dizendo com isso que os filmes brasileiros tem que se utilizar das mesmas f\u00f3rmulas do cinema comercial estadunidense. Do ponto de vista art\u00edstico, \u00e9 \u00f3timo que um filme possa ser feito sem a preocupa\u00e7\u00e3o de for\u00e7osamente atrair uma certa cota de p\u00fablico. Mas \u00e9 p\u00e9ssimo que ele n\u00e3o atinja p\u00fablico nenhum. O cinema nacional n\u00e3o dialoga com o p\u00fablico, apenas com a pr\u00f3pria comunidade de cinema.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Isso tamb\u00e9m n\u00e3o significa que seria melhor se n\u00e3o houvesse lei de incentivo nenhuma. O problema \u00e9 que a lei \u00e9 um paliativo, que n\u00e3o ataca o problema de frente. O problema \u00e9 a ind\u00fastria cultural dedicada ao ramo do cinema. As cadeias de exibidores e as distribuidoras de fitas dos grandes est\u00fadios estadunidense n\u00e3o s\u00e3o for\u00e7adas a nenhum compromisso com o filme nacional. O problema fundamental \u00e9 que o capitalista nacional, por sua vez, como em qualquer outro ramo da economia, tamb\u00e9m n\u00e3o quer correr riscos no cinema. Como se diz no futebol, a burguesia nacional \u201cjoga na retranca e s\u00f3 vai na boa\u201d.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">A pol\u00edtica cultural \u00e9 t\u00edmida demais para for\u00e7ar, por exemplo, a cria\u00e7\u00e3o de cotas de filme nacionais nos cinemas ou na TV. Ou para taxar o filme estrangeiro e financiar o cinema nacional com o produto da taxa\u00e7\u00e3o. Muitas f\u00f3rmulas podem ser discutidas. V\u00e1rios pa\u00edses, como a Fran\u00e7a e at\u00e9 a falida Argentina encontraram meios de manter o vigor criativo de sua cinematografia e simultaneamente arrebatar fatias de mercado dos filmes de Hollywood. O que n\u00e3o se pode \u00e9 admitir que a rede Globo se aproveite da \u201cboquinha\u201d das leis de incentivo para estender sua domina\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m sobre o cinema. A Globo, que j\u00e1 domina TVs, r\u00e1dios, jornais, revistas, etc., ao inv\u00e9s de exibir filmes nacionais de qualidade em sua programa\u00e7\u00e3o, lan\u00e7a anualmente seus ca\u00e7a-n\u00edqueis estrelados por Didi, Xuxa e seus duendes. Imbeciliza\u00e7\u00e3o na tela grande acompanhando o descalabro que reina na pequena.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Mais est\u00e1 por vir. Anunciam-se os filmes de \u201cCasseta &amp; Planeta\u201d e os \u201cNormais\u201d. N\u00e3o est\u00e1 em quest\u00e3o o fato de que podem ser filmes eventualmente interessantes. Mas s\u00e3o sup\u00e9rfluos enquanto filmes. \u00c9 admiss\u00edvel ver na televis\u00e3o filmes que j\u00e1 se viu no cinema. Mas o contr\u00e1rio \u00e9 absurdo. Qual a necessidade de se ver no cinema algo que j\u00e1 se viu na televis\u00e3o? A necessidade, explica-se, \u00e9 a necessidade da Globo de estender seus tent\u00e1culos monopolistas sobre todo e qualquer segmento da ind\u00fastria cultural. A necessidade \u00e9 estarmos cercados de Globo por todos os lados. Mesmo que, repito, os filmes a serem lan\u00e7ados eventualmente sejam bons, o fen\u00f4meno n\u00e3o deixa de ser grave.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Em v\u00e1rios pa\u00edses do mundo desenvolvido, especialmente na Europa, h\u00e1 leis que protegem a sociedade da concentra\u00e7\u00e3o da m\u00eddia. Leis que tiranetes-de-\u00f3pera-bufa-com-pretens\u00f5es-totali\u00e1rias, como Berlusconi na It\u00e1lia e Bush nos E.U.A. se esfor\u00e7am para burlar e revogar. H\u00e1 proibi\u00e7\u00f5es que impedem que uma mesma empresa possua empresas de TV e jornais na mesma cidade, por exemplo. Isso previne a sociedade da possibilidade de uma mesma empresa, por meio do monop\u00f3lio da informa\u00e7\u00e3o, influenciar a opini\u00e3o p\u00fablica. Esse filme a Globo protagoniza \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o no Brasil. Bush e Berlusconi nos invejam. Na Europa e nos E.U.A. h\u00e1 uma m\u00eddia mais independente. Algo que os dois gostariam de suprimir.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">H\u00e1 tamb\u00e9m naqueles pa\u00edses o fen\u00f4meno de que nem todas as emissoras de TV produzem sua pr\u00f3pria programa\u00e7\u00e3o. H\u00e1 uma ind\u00fastria de produtoras de programas jornal\u00edsticos e document\u00e1rios, cujos trabalhos s\u00e3o oferecidos \u00e0s emissoras. No Brasil, ao contr\u00e1rio, \u00e9 considerada uma virtude da Globo sua capacidade de produzir e at\u00e9 exportar sua programa\u00e7\u00e3o. Em certo sentido isso \u00e9 verdade, pois a estrutura da Globo foi o que permitiu a muitos artistas desenvolverem trabalhos de valor, ao longo de d\u00e9cadas do antigo padr\u00e3o Globo de qualidade. Mas num outro pa\u00eds, uma empresa como a Globo seria uma estatal. Uma B.B.C. nacional. E esse \u00e9 na verdade o segredo da Globo. A empresa de Roberto Marinho foi a emissora oficial do regime militar e o bra\u00e7o televisivo da oligarquia neo-coronelista. A Globo foi a B.B.C. do regime militar. Na \u201cdemocracia\u201d, a Globo n\u00e3o veio a ter um m\u00ednimo sequer de controle social como o que existia sobre\u00a0 aB.B.C. na Inglaterra.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Agora, nos tempos bicudos do neoliberalismo, a emissora do Jardim Bot\u00e2nico paga os pecados da m\u00e1 gest\u00e3o. Tal como as estatais propositadamente sucateadas que o neoliberalismo saqueou, com o benepl\u00e1cito da pr\u00f3pria Globo. Ironia da hist\u00f3ria. Com s\u00e9rios problemas de caixa, o conglomerado torna-se d\u00f3cil \u00e0 campanha de Lula, na esperan\u00e7a de continuar desfrutando do poder que acumulou. Toma l\u00e1 d\u00e1 c\u00e1. A Globo ap\u00f3ia Lula para conseguir salvar seu monop\u00f3lio. Lula faria melhor para ambas as partes se estatizasse a Globo em definitivo, consumando a aspira\u00e7\u00e3o latente da emissora.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Utopias \u00e0 parte, a V\u00eanus platinada se vira como pode. Lan\u00e7ando-se no mercado de filmes, por exemplo. Gerando o processo aberrante contra o qual este escriba se insurgiu.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 De resto, como antecipamos, o filme \u00e9 simp\u00e1tico. O impag\u00e1vel humor nordestino est\u00e1 mais uma vez em cena. Mas j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 o mesmo humor saboreado por exemplo em \u201cO Auto da Compadecida\u201d. O filme anterior do mesmo Guel Arraes baseia-se na obra de Ariano Suassuna, paladino do nacionalismo cultural. \u201cLisbela e Prisioneiro\u201d, por sua vez mistura cultura nordestina e linguagem pop. Z\u00e9 Ramalho com guitarras pesadas. Breguice e modernidade-fake. Jagun\u00e7os-Heavy Metal.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O Nordeste de Ariano Suassuna \u00e9 mais verdadeiro. O Nordeste de \u201cLisbela e o Prisioneiro\u201d \u00e9 mais real. O real deixou de ser verdadeiro. O Nordeste real tornou-se hoje irreal. Surreal. Em reportagem para Carta Capital, ed.260, Xico S\u00e1 descreve o Nordeste surreal. Um sert\u00e3o onde antenas parab\u00f3licas enfeitam casas de taipa. Sertanejos trocam o jumento pela motocicleta. Bodegas servem o sandu\u00edche de \u201cmacbode\u201d. A classe m\u00e9dia rural compra no \u201cRiver Shopping\u201d, \u00e0 beira do S\u00e3o Francisco, entre Juazeiro-BA e Petrolina-PE. No Pol\u00edgono da Maconha, a pol\u00edcia \u00e9 mantida \u00e0 dist\u00e2ncia pelos traficantes tal e qual nos morros do Rio. Meninas se prostituem nos postos de gasolina de beira de estrada. Um verdadeiro samba do crioulo doido. Ou forr\u00f3 do cabra abilolado.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Este pernambucano-paulistano que vos escreve, que deixou h\u00e1 doze anos a cidade de Araripina-PE e tem seus pais no vilarejo de Lagoa do Barro, assina em baixo. O Nordeste est\u00e1 se aculturando. O sertanejo assiste \u201cCidade Alerta\u201d e Ratinho. A antena parab\u00f3lica leva-o a um mundo que n\u00e3o \u00e9 o seu. Lado a lado com a mis\u00e9ria, o sonho da modernidade. E o seu pesadelo. Mis\u00e9ria, viol\u00eancia e consumismo, homogeneizando o Nordeste ao Brasil. E o Brasil \u00e9 um pa\u00eds globalizado, estadunidizado e tamb\u00e9m africanizado. Quem afirma \u00e9 um pernambucano. E macho!<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Um ind\u00edcio certo desta modernidade surreal no filme \u00e9 o uso do pr\u00f3prio cinema como eixo da narrativa. Metaling\u00fcisticamente, \u201cLisbela e o Prisioneiro\u201d pode ser visto como um filme sobre o cinema. Lisbela \u00e9 a mo\u00e7a ing\u00eanua que v\u00ea a vida atrav\u00e9s dos seriados exibidos no cinema da cidade. As conven\u00e7\u00f5es narrativas do filme de aventura e da com\u00e9dia rom\u00e2ntica s\u00e3o seu instrumento para interpretar o mundo. O mocinho, a mocinha, o vil\u00e3o, tem pap\u00e9is definidos, na vida como na tela. O final feliz est\u00e1 assegurado, mas somente depois de muito drama, dramalh\u00e3o, com\u00e9dia e sofrimento.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Por falar em dramalh\u00e3o, o filme pode ser visto tamb\u00e9m como uma explora\u00e7\u00e3o do repert\u00f3rio do cancioneiro brega. De Elza Soares pra frente. Brega rasgado, amor desesperado, loucura incontrol\u00e1vel. Perda de qualquer medida, perda de si em busca do outro. Entrega total. Quem est\u00e1 dentro do furac\u00e3o da paix\u00e3o n\u00e3o percebe o quanto se torna rid\u00edculo. Para quem est\u00e1 de fora, s\u00f3 resta rir. Rir da breguice dos apaixonados. O amor \u00e9 brega, essa \u00e9 a conclus\u00e3o. O cinema tamb\u00e9m \u00e9 brega, quando usa e abusa da f\u00f3rmula do dramalh\u00e3o e do final feliz.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Lisbela espera pelo mocinho do filme de sua vida. A sua condi\u00e7\u00e3o de espectadora \u00e0 espera do final feliz reflete a condi\u00e7\u00e3o da subjetividade presa \u00e0s armadilhas da sociabilidade capitalista. O espectador vive uma vida que n\u00e3o \u00e9 sua, assim como o indiv\u00edduo sob o capitalismo n\u00e3o vive sua pr\u00f3pria vida, porque esta n\u00e3o lhe pertence.\u00a0 Pertence ao empregador que compra o uso de sua for\u00e7a de trabalho. O indiv\u00edduo n\u00e3o interv\u00e9m na sua pr\u00f3pria vida. Ele vive a vida dos outros, das celebridades, dos artistas de cinema. Tudo acaba do mesmo jeito e toda a vida continua sempre como est\u00e1. A gra\u00e7a \u00e9 descobrir como se chega no final, explica Lisbela. Devo este enfoque interpretativo ao companheiro S\u00e9rgio Domingues, do sinsprev e do site M\u00eddia Vigiada.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O choque acontece quando Lisbela encontra Lel\u00e9u. O t\u00edpico malandro, o conquistador, o galinha, o artista mambembe, o cigano sem ra\u00edzes nem escr\u00fapulos. A possibilidade de viver na realidade um romance como os do cinema \u00e9 atordoante para a mocinha. \u00c9 atordoante, mas ela n\u00e3o lhe resiste. O amor \u00e9 cego e tamb\u00e9m \u00e9 fatal. Lisbela se entrega a esse romance com uma determina\u00e7\u00e3o fatalista de quem j\u00e1 sabe o que vai acontecer, porque j\u00e1 viu antes no cinema. O romance com Lel\u00e9u \u00e9 a sa\u00edda para escapar de uma vida de mesmice e acomoda\u00e7\u00e3o com seu noivo carioca de araque. Mas Lisbela resiste. Ela diz que n\u00e3o pode viver um filme porque n\u00e3o \u00e9 estadunidense. Lel\u00e9u responde na lata: \u201cest\u00e1 na hora de conhecer o artista nacional\u201d. Malandramente, com \u00f3culos escuros, \u00e0 la Raul Seixas. Mutatis mutandis, est\u00e1 na hora do espectador conhecer o cinema nacional. O artista nacional que n\u00e3o estava no script adiciona o tempero de realidade \u00e0 vida da mocinha.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Ficamos conhecendo ent\u00e3o o artista nacional. Yes, n\u00f3s temos cinema. O filme nacional invade o cen\u00e1rio dos multiplex estadunidizados. N\u00f3s temos her\u00f3is e vil\u00f5es, e p\u00edcaros, e patifes, e mocinhas e mulheres fatais. N\u00f3s podemos rir de n\u00f3s mesmos e ver nossa vida na tela. N\u00e3o a vida dos outros. N\u00e3o a vida dos estadunidenses. O cinema como plataforma de desaliena\u00e7\u00e3o e exalta\u00e7\u00e3o da nacionalidade. Nosso cinema encontrou o cen\u00e1rio m\u00edtico da afirma\u00e7\u00e3o da brasilidade. Os E.U.A. tem o faroeste. N\u00f3s temos o nordeste. Nordeste dos malandros, das mocinhas, dos delegados, dos matadores de aluguel, dos maridos corneados, dos \u201cpara\u00edbas\u201d que querem ser cariocas. E de um certo rock farofa.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O Nordeste como s\u00edmbolo do passado brasileiro mitificado fornece o manancial inesgot\u00e1vel de uma nova dramaturgia cinematogr\u00e1fica. Como tamb\u00e9m podem faz\u00ea-lo as outras regi\u00f5es do pa\u00eds. O Brasil poderia conhecer suas m\u00faltiplas culturas, subculturas e tradi\u00e7\u00f5es atrav\u00e9s de um cinema renovado. Assim como na m\u00fasica o pop nacional leva vantagem na disputa de mercado com a m\u00fasica trazida pelas gravadoras estrangeiras; o cinema nacional poderia tamb\u00e9m exercer o mesmo papel e disputar espa\u00e7o com os filmes estrangeiros que monopolizam nossos cinemas.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O risco \u00e9 que tenhamos um cinema t\u00e3o descaracterizado como est\u00e1 descaracterizada a m\u00fasica brasileira pelo lan\u00e7amento de sertanejos, ax\u00e9s, pagodes, forr\u00f3s industrializados. Talvez valesse a pena, se tiv\u00e9ssemos mais algumas pequenas p\u00e9rolas como \u201cLisbela e o Prisioneiro\u201d. Quem fala \u00e9 um pernambucano. E macho!!<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">Daniel M. Delfino<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">04\/09\/2003<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p align=\"center\" style=\"text-align: center;\" class=\"MsoNormal\"><o:p>&nbsp;<\/o:p><\/p>\n<h1>LISBELA E O CINEMA NACIONAL<\/h1>\n<h1><o:p>&nbsp;<\/o:p><\/h1>\n<p align=\"center\" style=\"text-align: center;\" class=\"MsoNormal\">(Coment&aacute;rio sobre o filme &ldquo;Lisbela e o prisioneiro&rdquo;)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" class=\"MsoNormal\"><o:p>&nbsp;<\/o:p><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" class=\"MsoNormal\"><o:p>&nbsp;<\/o:p><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" class=\"MsoNormal\"><o:p>&nbsp;<\/o:p><\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[9,76],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=24"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6158,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24\/revisions\/6158"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=24"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=24"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=24"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}