{"id":243,"date":"2010-06-17T11:28:05","date_gmt":"2010-06-17T11:28:05","guid":{"rendered":"http:\/\/espacosocialista.org\/?q=node\/243"},"modified":"2018-05-05T17:35:07","modified_gmt":"2018-05-05T20:35:07","slug":"futebol-e-mais-valia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/2010\/06\/futebol-e-mais-valia\/","title":{"rendered":"Futebol e mais-valia"},"content":{"rendered":"<h2>O futebol como neg\u00f3cio e ideologia<\/h2>\n<p>Estamos em ano de Copa do Mundo e a m\u00eddia burguesa j\u00e1 retrata o maior acontecimento do futebol como um espa\u00e7o em que n\u00e3o h\u00e1 diferen\u00e7as raciais (em se tratando de \u00c1frica do Sul chega a ser um desrespeito), sociais e de classes. \u00c9 o mesmo discurso de sempre. Mas, uma an\u00e1lise marxista n\u00e3o pode cair nesse discurso porque a Copa o Mundo, longe de ser um evento de esportividade, se insere na l\u00f3gica do capital, ou seja, do lucro. Futebol n\u00e3o \u00e9 mais paix\u00e3o, \u00e9 neg\u00f3cio, o que se expressa na id\u00e9ia de que um clube, para se vitorioso, tem que ser empresa.<\/p>\n<p>Em um evento de tamanha envergadura, o montante de dinheiro em circula\u00e7\u00e3o \u00e9 vultuoso. A FIFA ter\u00e1 um renda de U$$ 3,5 bilh\u00f5es no per\u00edodo de 2011-2014 s\u00f3 com a organiza\u00e7\u00e3o da Copa no Brasil. Para ajudar, a FIFA e a rede de TV que ter\u00e1 os direitos de transmiss\u00e3o ter\u00e3o isen\u00e7\u00e3o fiscal do Governo Federal. Mais dinheiro p\u00fablico.<\/p>\n<p>Se os jogadores sequer se identificam com o pa\u00eds que juram amar, as empresas que &#8220;vivem de futebol&#8221; se identificam financeiramente muito bem com o futebol (e com outros esportes tamb\u00e9m). A regi\u00e3o de Sialkot (fronteira do Paquist\u00e3o com a India) \u00e9 o local onde se produzem 40 milh\u00f5es de bolas (costuradas manualmente) todos os anos (em ano de Copa do Mundo esse n\u00famero sobe 50%) abastecendo parte importante do mercado mundial. Para se ter uma id\u00e9ia do n\u00edvel de extra\u00e7\u00e3o de mais valia, cada trabalhador recebe entre U$$ 0,60 e U$$ 0,75 (Estad\u00e3o de 21\/04\/2010) por bola costurada, e em um dia de 8 horas de jornada de trabalho costura-se no m\u00e1ximo seis bolas, com um sal\u00e1rio mensal de aproximadamente R$ 205,00. Considerando que cada bola \u00e9 vendida no mercado europeu por R$ 260,00 podemos fazer rapidamente as contas do tamanho da explora\u00e7\u00e3o: uma \u00fanica bola vendida paga com sobras o sal\u00e1rio de um m\u00eas de um oper\u00e1rio paquistan\u00eas. Isso que \u00e9 mais valia!<\/p>\n<p>Como se v\u00ea por esse exemplo, tanto dinheiro na FIFA tem origem: a explora\u00e7\u00e3o dos trabalhadores, pois \u00e9 desse lucro exorbitante que empresas como a Adidas (que \u00e9 fabricante oficial de bolas para as Copas desde 1970) tiram dinheiro para o pagamento dos patroc\u00ednios, propaganda, etc. O capital j\u00e1 tomou conta de todos os eventos esportivos, descaracterizando-os completamente. Se as pessoas querem que seu pa\u00eds seja o campe\u00e3o, para o capital o que determina se esse evento teve sucesso ou n\u00e3o \u00e9 o tamanho da lucratividade. O esporte preferido do capital \u00e9 a explora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h2>Copa 2010: torcer ou n\u00e3o torcer, eis a quest\u00e3o&#8230;<\/h2>\n<p><i>&#8220;Enquanto houver burguesia, n\u00e3o vai haver poesia&#8221;<\/i><\/p>\n<p>Cazuza<\/p>\n<p>&#8220;Burguesia&#8221;<\/p>\n<p>O futebol moderno surgiu nas escolas p\u00fablicas brit\u00e2nicas em meados do s\u00e9culo XIX e se popularizou no fim do s\u00e9culo entre os oper\u00e1rios. Enquanto a burguesia cultivava passatempos car\u00edssimos como ca\u00e7a \u00e0 raposa, golfe, iatismo ou alpinismo, o povo jogava e torcia pelo futebol. Marinheiros e oper\u00e1rios brit\u00e2nicos levaram o futebol ao mundo inteiro no in\u00edcio do s\u00e9culo XX e o tornaram o esporte mais popular em quase todo o planeta, com raras exce\u00e7\u00f5es, como os Estados Unidos. O futebol \u00e9 o esporte mais democr\u00e1tico do mundo por ser um jogo simples, din\u00e2mico, pl\u00e1stico, e tamb\u00e9m por n\u00e3o requerer equipamentos nem qualidades f\u00edsicas excepcionais e poder ser praticado em qualquer terreno.<\/p>\n<p>Como toda produ\u00e7\u00e3o humana na \u00e9poca capitalista, o futebol se converteu em mercadoria, quando os clubes se tornaram empresas que vendem o espet\u00e1culo aos seus torcedores nas arquibancadas e nas poltronas diante da TV. Empres\u00e1rios de jogadores, publicit\u00e1rios, emissoras de TV, fabricantes de materiais esportivos, cartolas de todos os calibres faturam uma fortuna que chega a 1% do PIB mundial (Estad\u00e3o, 30\/04\/2010). A FIFA, que administra esse neg\u00f3cio extremamente lucrativo, se gaba de ter mais pa\u00edses filiados do que a ONU (208). O evento m\u00e1ximo do futebol \u00e9 a Copa do Mundo da FIFA, disputada por sele\u00e7\u00f5es nacionais e n\u00e3o por clubes, o que aumenta as implica\u00e7\u00f5es pol\u00edticas da paix\u00e3o pelo jogo.<\/p>\n<p>Os governantes romanos inventaram a t\u00e9cnica de aliciar o povo com p\u00e3o e circo. Dando seq\u00fc\u00eancia a esse m\u00e9todo, os pol\u00edticos burgueses exploram a popularidade do futebol para fazer propaganda dos seus governos. Com a &#8220;squadra azzurra&#8221; bicampe\u00e3 em 1934-38, Mussolini conseguiu o que Hitler tentou com a Olimp\u00edada de Berlim em 1936, ou seja, usar o esporte para demonstrar o triunfo de seu governo. O mesmo fez a ditadura militar brasileira com a excepcional sele\u00e7\u00e3o campe\u00e3 em 1970, provavelmente o melhor time de futebol que j\u00e1 existiu. E tamb\u00e9m a ditadura argentina, que organizou a Copa de 1978 para ser vencida em casa por sua sele\u00e7\u00e3o (o tiro quase saiu pela culatra, pois as M\u00e3es da Pra\u00e7a de Maio se aproveitaram da presen\u00e7a da imprensa internacional no pa\u00eds para denunciar a desapari\u00e7\u00e3o dos seus filhos nas m\u00e3os da repress\u00e3o). Em 1990, a Alemanha reunificada fez da vit\u00f3ria na Copa o &#8220;cart\u00e3o de boas vindas&#8221; do capitalismo para a popula\u00e7\u00e3o da rec\u00e9m-anexada Alemanha Oriental.<\/p>\n<p><i>&#8220;&#8230;e quem, tendo visto a sele\u00e7\u00e3o brasileira em seus dias de gl\u00f3ria, negar\u00e1 sua pretens\u00e3o \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de arte?&#8221;<\/i><\/p>\n<p>Eric Hobsbawm<\/p>\n<p>&#8220;A era dos extremos&#8221;, p.197<\/p>\n<p>Quem tenta remar contra a mar\u00e9 do entusiasmo futebol\u00edstico corre o risco de sair seriamente chamuscado, como o l\u00edder da extrema-direita francesa Jean Marie Le Pen, que repudiou a sele\u00e7\u00e3o tricolor de 1998 porque n\u00e3o era francesa e sim composta por &#8220;estrangeiros&#8221; (como o argelino Zidane), e teve que engolir esse time com toda sua diversidade vencer a Copa. O exemplo de Le Pen n\u00e3o foi o \u00fanico, pois houve setores da esquerda brasileira que torceram contra a sele\u00e7\u00e3o de 1970 porque o time estava identificado com a ditadura, na sua interpreta\u00e7\u00e3o. Esse comportamento se prolonga ainda hoje em setores da esquerda, que consideram que a vit\u00f3ria da sele\u00e7\u00e3o numa Copa favorece o governante de plant\u00e3o, e portanto torcem contra.<\/p>\n<p>O argumento de que a vit\u00f3ria da sele\u00e7\u00e3o na Copa representa um atraso pol\u00edtico n\u00e3o se sustenta, uma vez que as derrotas da sele\u00e7\u00e3o n\u00e3o fazem com que o povo avance em sua consci\u00eancia, seu grau de organiza\u00e7\u00e3o e seu desejo de derrubar o governo. Ganhar uma Copa torna o povo mais feliz, mas perder uma Copa n\u00e3o torna o povo mais revolucion\u00e1rio. Al\u00e9m disso, quando a sele\u00e7\u00e3o brasileira perde, perde para algum pa\u00eds cujo governante burgu\u00eas de plant\u00e3o tamb\u00e9m far\u00e1 propaganda da sua vit\u00f3ria, da mesma forma esp\u00faria e oportunista como qualquer pol\u00edtico brasileiro faz. Ao inv\u00e9s de torcer contra a sele\u00e7\u00e3o brasileira, a esquerda anti-futebol deveria n\u00e3o torcer para ningu\u00e9m e fazer melhor o seu trabalho.<\/p>\n<p>A dificuldade da esquerda para ganhar os trabalhadores para um programa revolucion\u00e1rio deve ser buscada em sua pr\u00f3pria incompet\u00eancia e n\u00e3o nas virtudes dos jogadores verde-amarelos. Neste ano de 2010, com um calend\u00e1rio preenchido por Copa e elei\u00e7\u00f5es, a esquerda revolucion\u00e1ria deixou de dar apoio \u00e0 principal luta da classe, que foi a greve dos professores de S\u00e3o Paulo, passou o 1\u00ba semestre inteiro preocupada com disputas de aparato e se omitiu da tarefa crucial de antecipar as campanhas salariais. Agora, com a proximidade da Copa e das elei\u00e7\u00f5es, cogita-se na possibilidade de torcer contra a sele\u00e7\u00e3o, o que acabaria de colocar a esquerda de vez contra o sentimento geral da classe.<\/p>\n<p>\u00c9 evidente que todo governante burgu\u00eas se aproveita dos triunfos esportivos, assim como se aproveita da descoberta do pr\u00e9-sal, ou dos resultados da economia, ou de qualquer outro acontecimento que na verdade prov\u00e9m da explora\u00e7\u00e3o do trabalho, mas isso n\u00e3o quer dizer que esses feitos lhe perten\u00e7am. Pertencem aos trabalhadores, que s\u00e3o os criadores de toda a riqueza em suas m\u00faltiplas formas. Assim como qualquer realiza\u00e7\u00e3o social, o futebol n\u00e3o pertence \u00e0 burguesia e sim aos trabalhadores que o adotaram e o tornaram um esporte capaz de produzir momentos de verdadeira beleza. O futebol \u00e9 uma aut\u00eantica paix\u00e3o popular, e a esquerda n\u00e3o pode ignorar esse sentimento, ou pior, se colocar contra.<\/p>\n<p><i>&#8220;\u00c9 mais um gol brasileiro, meu povo! Encha o peito, solte o grito na garganta e confira comigo no replay!&#8221;<\/i><\/p>\n<p>S\u00edlvio Lu\u00eds<\/p>\n<p>narra\u00e7\u00e3o dos gols da sele\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>O futebol \u00e9 o \u00f3pio do povo? Sim, mas assim como a religi\u00e3o na c\u00e9lebre frase de Marx, muito citada e tamb\u00e9m muito deslocada do seu contexto, o \u00f3pio n\u00e3o tem apenas um sentido negativo, j\u00e1 que tamb\u00e9m funciona como &#8220;o suspiro da criatura oprimida, o cora\u00e7\u00e3o de um mundo sem cora\u00e7\u00e3o&#8221;. O futebol, assim como a arte ou o sexo, podem ser momentos de ref\u00fagio e prazer num mundo alienado. A ruptura da aliena\u00e7\u00e3o requer uma mudan\u00e7a social global, mas enquanto se luta por essa mudan\u00e7a, a alegria n\u00e3o tem que ser banida do mundo. Lutar por uma sa\u00edda revolucion\u00e1ria n\u00e3o significa cultivar permanentemente o mau humor dos militontos. Militar pela revolu\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m significa militar pelo prazer, o que inclui a arte e tamb\u00e9m o futebol-arte.<\/p>\n<p>Decidir sobre torcer ou n\u00e3o para a sele\u00e7\u00e3o em fun\u00e7\u00e3o do uso que os pol\u00edticos e a burguesia fazem do esporte \u00e9 menos leg\u00edtimo do que discutir se o time do t\u00e9cnico Dunga e da CBF representa ou n\u00e3o o verdadeiro futebol brasileiro. Esse futebol p\u00f4de ser encontrado no jogo Santos X Santo Andr\u00e9 pela final do campeonato paulista (e isso quem diz \u00e9 um corintiano), mas n\u00e3o ser\u00e1 praticado pelo batalh\u00e3o de trogloditas com o qual Dunga congestionou o meio de campo da sele\u00e7\u00e3o. Como todas as riquezas nacionais, o futebol tamb\u00e9m est\u00e1 sendo roubado do Brasil, uma vez que a administra\u00e7\u00e3o corrupta e reacion\u00e1ria dos clubes e da CBF tornam o futebol brasileiro incapaz de manter seus melhores jogadores no pa\u00eds. A conseq\u00fc\u00eancia \u00e9 uma sele\u00e7\u00e3o &#8220;alien\u00edgena&#8221;, sem identidade com o pa\u00eds, sem v\u00ednculo com os torcedores\/trabalhadores, e adaptada a um tipo de jogo que privilegia o resultado em lugar do espet\u00e1culo.<\/p>\n<p>A sele\u00e7\u00e3o convocada para a Copa de 2010 \u00e9 a consagra\u00e7\u00e3o da mediocridade em detrimento do talento, da habilidade, da imagina\u00e7\u00e3o, do improviso e da fantasia que fizeram do estilo brasileiro de jogar futebol uma manifesta\u00e7\u00e3o t\u00e3o genu\u00edna da cultura nacional quanto o samba ou a capoeira. Os negros, mulatos e pobres brasileiros em geral aprenderam a jogar futebol em campos de terra e com bolas improvisadas; essa \u00e9 a origem da t\u00e9cnica e dom\u00ednio de bola. Quando jogavam com os brancos nos clubes de elite, as faltas contra negros, mulatos e pobres n\u00e3o eram marcadas pelos \u00e1rbitros, o que os obrigava a se esquivar para n\u00e3o apanhar; essa \u00e9 a origem do drible.<\/p>\n<p>Foi com um futebol de drible e habilidade que o Brasil encantou o mundo e ganhou mais Copas do que qualquer outro pa\u00eds. E entre as sele\u00e7\u00f5es que apresentaram um futebol brilhante, mas n\u00e3o venceram Copas, como a Hungria de 1954 (os jogadores magiares abandonaram a sele\u00e7\u00e3o e o pa\u00eds depois que o stalinismo reprimiu a revolta popular anti-burocr\u00e1tica de 1956) e a Holanda de 1974 (a lend\u00e1ria &#8220;laranja mec\u00e2nica&#8221;, cujo comportamento libert\u00e1rio atraiu a simpatia mundial, jogando sem guardar posi\u00e7\u00e3o, levando as mulheres para a concentra\u00e7\u00e3o e bebendo cerveja), est\u00e1 o Brasil de 1982. Foi assistindo aquela sele\u00e7\u00e3o, aos 7 anos de idade, que este escriba se apaixonou pelo futebol e se tornou um torcedor canarinho para o resto da vida. Aquele futebol n\u00e3o existe mais, mas a paix\u00e3o permanece. Torcer pela sele\u00e7\u00e3o n\u00e3o significa deixar de ser cr\u00edtico da estrutura do futebol. A esquerda muitas vezes concede apoio cr\u00edtico a determinada pol\u00edtica quando isso favorece o di\u00e1logo com a classe, e aqui declaro a minha torcida cr\u00edtica pela sele\u00e7\u00e3o brasileira. Em 2010, estarei tamb\u00e9m torcendo pela sele\u00e7\u00e3o, contra Dunga, contra a CBF e contra a burguesia, e ao lado dos trabalhadores.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<h2>\n\tO futebol como neg&oacute;cio e ideologia<\/h2>\n<p>\n\tEstamos em ano de Copa do Mundo e a m&iacute;dia burguesa j&aacute; retrata o maior acontecimento do futebol como um espa&ccedil;o em que n&atilde;o h&aacute; diferen&ccedil;as raciais (em se tratando de &Aacute;frica do Sul chega a ser um desrespeito), sociais e de classes. &Eacute; o mesmo discurso de sempre. Mas, uma an&aacute;lise marxista n&atilde;o pode cair nesse discurso porque a Copa o Mundo, longe de ser um evento de esportividade, se insere na l&oacute;gica do capital, ou seja, do lucro. Futebol n&atilde;o &eacute; mais paix&atilde;o, &eacute; neg&oacute;cio, o que se expressa na id&eacute;ia de que um clube, para se vitorioso, tem que ser empresa.<\/p>\n<p>\n\tEm um evento de tamanha envergadura, o montante de dinheiro em circula&ccedil;&atilde;o &eacute; vultuoso. A FIFA ter&aacute; um renda de U$$ 3,5 bilh&otilde;es no per&iacute;odo de 2011-2014 s&oacute; com a organiza&ccedil;&atilde;o da Copa no Brasil. Para ajudar, a FIFA e a rede de TV que ter&aacute; os direitos de transmiss&atilde;o ter&atilde;o isen&ccedil;&atilde;o fiscal do Governo Federal. Mais dinheiro p&uacute;blico.<\/p>\n<p>\n\tSe os jogadores sequer se identificam com o pa&iacute;s que juram amar, as empresas que &quot;vivem de futebol&quot; se identificam financeiramente muito bem com o futebol (e com outros esportes tamb&eacute;m). A regi&atilde;o de Sialkot (fronteira do Paquist&atilde;o com a India) &eacute; o local onde se produzem 40 milh&otilde;es de bolas (costuradas manualmente) todos os anos (em ano de Copa do Mundo esse n&uacute;mero sobe 50%) abastecendo parte importante do mercado mundial. Para se ter uma id&eacute;ia do n&iacute;vel de extra&ccedil;&atilde;o de mais valia, cada trabalhador recebe entre U$$ 0,60 e U$$ 0,75 (Estad&atilde;o de 21\/04\/2010) por bola costurada, e em um dia de 8 horas de jornada de trabalho costura-se no m&aacute;ximo seis bolas, com um sal&aacute;rio mensal de aproximadamente R$ 205,00. Considerando que cada bola &eacute; vendida no mercado europeu por R$ 260,00 podemos fazer rapidamente as contas do tamanho da explora&ccedil;&atilde;o: uma &uacute;nica bola vendida paga com sobras o sal&aacute;rio de um m&ecirc;s de um oper&aacute;rio paquistan&ecirc;s. Isso que &eacute; mais valia!<\/p>\n<p>\n\tComo se v&ecirc; por esse exemplo, tanto dinheiro na FIFA tem origem: a explora&ccedil;&atilde;o dos trabalhadores, pois &eacute; desse lucro exorbitante que empresas como a Adidas (que &eacute; fabricante oficial de bolas para as Copas desde 1970) tiram dinheiro para o pagamento dos patroc&iacute;nios, propaganda, etc. O capital j&aacute; tomou conta de todos os eventos esportivos, descaracterizando-os completamente. Se as pessoas querem que seu pa&iacute;s seja o campe&atilde;o, para o capital o que determina se esse evento teve sucesso ou n&atilde;o &eacute; o tamanho da lucratividade. O esporte preferido do capital &eacute; a explora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<h2>\n\tCopa 2010: torcer ou n&atilde;o torcer, eis a quest&atilde;o&#8230;<\/h2>\n<p>\n\t<i>&quot;Enquanto houver burguesia, n&atilde;o vai haver poesia&quot;<\/i><\/p>\n<p>\n\tCazuza<\/p>\n<p>\n\t&quot;Burguesia&quot;<\/p>\n<p>\n\tO futebol moderno surgiu nas escolas p&uacute;blicas brit&acirc;nicas em meados do s&eacute;culo XIX e se popularizou no fim do s&eacute;culo entre os oper&aacute;rios. Enquanto a burguesia cultivava passatempos car&iacute;ssimos como ca&ccedil;a &agrave; raposa, golfe, iatismo ou alpinismo, o povo jogava e torcia pelo futebol. Marinheiros e oper&aacute;rios brit&acirc;nicos levaram o futebol ao mundo inteiro no in&iacute;cio do s&eacute;culo XX e o tornaram o esporte mais popular em quase todo o planeta, com raras exce&ccedil;&otilde;es, como os Estados Unidos. O futebol &eacute; o esporte mais democr&aacute;tico do mundo por ser um jogo simples, din&acirc;mico, pl&aacute;stico, e tamb&eacute;m por n&atilde;o requerer equipamentos nem qualidades f&iacute;sicas excepcionais e poder ser praticado em qualquer terreno.<\/p>\n<p>\n\tComo toda produ&ccedil;&atilde;o humana na &eacute;poca capitalista, o futebol se converteu em mercadoria, quando os clubes se tornaram empresas que vendem o espet&aacute;culo aos seus torcedores nas arquibancadas e nas poltronas diante da TV. Empres&aacute;rios de jogadores, publicit&aacute;rios, emissoras de TV, fabricantes de materiais esportivos, cartolas de todos os calibres faturam uma fortuna que chega a 1% do PIB mundial (Estad&atilde;o, 30\/04\/2010). A FIFA, que administra esse neg&oacute;cio extremamente lucrativo, se gaba de ter mais pa&iacute;ses filiados do que a ONU (208). O evento m&aacute;ximo do futebol &eacute; a Copa do Mundo da FIFA, disputada por sele&ccedil;&otilde;es nacionais e n&atilde;o por clubes, o que aumenta as implica&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas da paix&atilde;o pelo jogo.<\/p>\n<p>\n\tOs governantes romanos inventaram a t&eacute;cnica de aliciar o povo com p&atilde;o e circo. Dando seq&uuml;&ecirc;ncia a esse m&eacute;todo, os pol&iacute;ticos burgueses exploram a popularidade do futebol para fazer propaganda dos seus governos. Com a &quot;squadra azzurra&quot; bicampe&atilde; em 1934-38, Mussolini conseguiu o que Hitler tentou com a Olimp&iacute;ada de Berlim em 1936, ou seja, usar o esporte para demonstrar o triunfo de seu governo. O mesmo fez a ditadura militar brasileira com a excepcional sele&ccedil;&atilde;o campe&atilde; em 1970, provavelmente o melhor time de futebol que j&aacute; existiu. E tamb&eacute;m a ditadura argentina, que organizou a Copa de 1978 para ser vencida em casa por sua sele&ccedil;&atilde;o (o tiro quase saiu pela culatra, pois as M&atilde;es da Pra&ccedil;a de Maio se aproveitaram da presen&ccedil;a da imprensa internacional no pa&iacute;s para denunciar a desapari&ccedil;&atilde;o dos seus filhos nas m&atilde;os da repress&atilde;o). Em 1990, a Alemanha reunificada fez da vit&oacute;ria na Copa o &quot;cart&atilde;o de boas vindas&quot; do capitalismo para a popula&ccedil;&atilde;o da rec&eacute;m-anexada Alemanha Oriental.<\/p>\n<p>\n\t<i>&quot;&#8230;e quem, tendo visto a sele&ccedil;&atilde;o brasileira em seus dias de gl&oacute;ria, negar&aacute; sua pretens&atilde;o &agrave; condi&ccedil;&atilde;o de arte?&quot;<\/i><\/p>\n<p>\n\tEric Hobsbawm<\/p>\n<p>\n\t&quot;A era dos extremos&quot;, p.197<\/p>\n<p>\n\tQuem tenta remar contra a mar&eacute; do entusiasmo futebol&iacute;stico corre o risco de sair seriamente chamuscado, como o l&iacute;der da extrema-direita francesa Jean Marie Le Pen, que repudiou a sele&ccedil;&atilde;o tricolor de 1998 porque n&atilde;o era francesa e sim composta por &quot;estrangeiros&quot; (como o argelino Zidane), e teve que engolir esse time com toda sua diversidade vencer a Copa. O exemplo de Le Pen n&atilde;o foi o &uacute;nico, pois houve setores da esquerda brasileira que torceram contra a sele&ccedil;&atilde;o de 1970 porque o time estava identificado com a ditadura, na sua interpreta&ccedil;&atilde;o. Esse comportamento se prolonga ainda hoje em setores da esquerda, que consideram que a vit&oacute;ria da sele&ccedil;&atilde;o numa Copa favorece o governante de plant&atilde;o, e portanto torcem contra.<\/p>\n<p>\n\tO argumento de que a vit&oacute;ria da sele&ccedil;&atilde;o na Copa representa um atraso pol&iacute;tico n&atilde;o se sustenta, uma vez que as derrotas da sele&ccedil;&atilde;o n&atilde;o fazem com que o povo avance em sua consci&ecirc;ncia, seu grau de organiza&ccedil;&atilde;o e seu desejo de derrubar o governo. Ganhar uma Copa torna o povo mais feliz, mas perder uma Copa n&atilde;o torna o povo mais revolucion&aacute;rio. Al&eacute;m disso, quando a sele&ccedil;&atilde;o brasileira perde, perde para algum pa&iacute;s cujo governante burgu&ecirc;s de plant&atilde;o tamb&eacute;m far&aacute; propaganda da sua vit&oacute;ria, da mesma forma esp&uacute;ria e oportunista como qualquer pol&iacute;tico brasileiro faz. Ao inv&eacute;s de torcer contra a sele&ccedil;&atilde;o brasileira, a esquerda anti-futebol deveria n&atilde;o torcer para ningu&eacute;m e fazer melhor o seu trabalho.<\/p>\n<p>\n\tA dificuldade da esquerda para ganhar os trabalhadores para um programa revolucion&aacute;rio deve ser buscada em sua pr&oacute;pria incompet&ecirc;ncia e n&atilde;o nas virtudes dos jogadores verde-amarelos. Neste ano de 2010, com um calend&aacute;rio preenchido por Copa e elei&ccedil;&otilde;es, a esquerda revolucion&aacute;ria deixou de dar apoio &agrave; principal luta da classe, que foi a greve dos professores de S&atilde;o Paulo, passou o 1&ordm; semestre inteiro preocupada com disputas de aparato e se omitiu da tarefa crucial de antecipar as campanhas salariais. Agora, com a proximidade da Copa e das elei&ccedil;&otilde;es, cogita-se na possibilidade de torcer contra a sele&ccedil;&atilde;o, o que acabaria de colocar a esquerda de vez contra o sentimento geral da classe.<\/p>\n<p>\n\t&Eacute; evidente que todo governante burgu&ecirc;s se aproveita dos triunfos esportivos, assim como se aproveita da descoberta do pr&eacute;-sal, ou dos resultados da economia, ou de qualquer outro acontecimento que na verdade prov&eacute;m da explora&ccedil;&atilde;o do trabalho, mas isso n&atilde;o quer dizer que esses feitos lhe perten&ccedil;am. Pertencem aos trabalhadores, que s&atilde;o os criadores de toda a riqueza em suas m&uacute;ltiplas formas. Assim como qualquer realiza&ccedil;&atilde;o social, o futebol n&atilde;o pertence &agrave; burguesia e sim aos trabalhadores que o adotaram e o tornaram um esporte capaz de produzir momentos de verdadeira beleza. O futebol &eacute; uma aut&ecirc;ntica paix&atilde;o popular, e a esquerda n&atilde;o pode ignorar esse sentimento, ou pior, se colocar contra.<\/p>\n<p>\n\t<i>&quot;&Eacute; mais um gol brasileiro, meu povo! Encha o peito, solte o grito na garganta e confira comigo no replay!&quot;<\/i><\/p>\n<p>\n\tS&iacute;lvio Lu&iacute;s<\/p>\n<p>\n\tnarra&ccedil;&atilde;o dos gols da sele&ccedil;&atilde;o<\/p>\n<p>\n\tO futebol &eacute; o &oacute;pio do povo? Sim, mas assim como a religi&atilde;o na c&eacute;lebre frase de Marx, muito citada e tamb&eacute;m muito deslocada do seu contexto, o &oacute;pio n&atilde;o tem apenas um sentido negativo, j&aacute; que tamb&eacute;m funciona como &quot;o suspiro da criatura oprimida, o cora&ccedil;&atilde;o de um mundo sem cora&ccedil;&atilde;o&quot;. O futebol, assim como a arte ou o sexo, podem ser momentos de ref&uacute;gio e prazer num mundo alienado. A ruptura da aliena&ccedil;&atilde;o requer uma mudan&ccedil;a social global, mas enquanto se luta por essa mudan&ccedil;a, a alegria n&atilde;o tem que ser banida do mundo. Lutar por uma sa&iacute;da revolucion&aacute;ria n&atilde;o significa cultivar permanentemente o mau humor dos militontos. Militar pela revolu&ccedil;&atilde;o tamb&eacute;m significa militar pelo prazer, o que inclui a arte e tamb&eacute;m o futebol-arte.<\/p>\n<p>\n\tDecidir sobre torcer ou n&atilde;o para a sele&ccedil;&atilde;o em fun&ccedil;&atilde;o do uso que os pol&iacute;ticos e a burguesia fazem do esporte &eacute; menos leg&iacute;timo do que discutir se o time do t&eacute;cnico Dunga e da CBF representa ou n&atilde;o o verdadeiro futebol brasileiro. Esse futebol p&ocirc;de ser encontrado no jogo Santos X Santo Andr&eacute; pela final do campeonato paulista (e isso quem diz &eacute; um corintiano), mas n&atilde;o ser&aacute; praticado pelo batalh&atilde;o de trogloditas com o qual Dunga congestionou o meio de campo da sele&ccedil;&atilde;o. Como todas as riquezas nacionais, o futebol tamb&eacute;m est&aacute; sendo roubado do Brasil, uma vez que a administra&ccedil;&atilde;o corrupta e reacion&aacute;ria dos clubes e da CBF tornam o futebol brasileiro incapaz de manter seus melhores jogadores no pa&iacute;s. A conseq&uuml;&ecirc;ncia &eacute; uma sele&ccedil;&atilde;o &quot;alien&iacute;gena&quot;, sem identidade com o pa&iacute;s, sem v&iacute;nculo com os torcedores\/trabalhadores, e adaptada a um tipo de jogo que privilegia o resultado em lugar do espet&aacute;culo.<\/p>\n<p>\n\tA sele&ccedil;&atilde;o convocada para a Copa de 2010 &eacute; a consagra&ccedil;&atilde;o da mediocridade em detrimento do talento, da habilidade, da imagina&ccedil;&atilde;o, do improviso e da fantasia que fizeram do estilo brasileiro de jogar futebol uma manifesta&ccedil;&atilde;o t&atilde;o genu&iacute;na da cultura nacional quanto o samba ou a capoeira. Os negros, mulatos e pobres brasileiros em geral aprenderam a jogar futebol em campos de terra e com bolas improvisadas; essa &eacute; a origem da t&eacute;cnica e dom&iacute;nio de bola. Quando jogavam com os brancos nos clubes de elite, as faltas contra negros, mulatos e pobres n&atilde;o eram marcadas pelos &aacute;rbitros, o que os obrigava a se esquivar para n&atilde;o apanhar; essa &eacute; a origem do drible.<\/p>\n<p>\n\tFoi com um futebol de drible e habilidade que o Brasil encantou o mundo e ganhou mais Copas do que qualquer outro pa&iacute;s. E entre as sele&ccedil;&otilde;es que apresentaram um futebol brilhante, mas n&atilde;o venceram Copas, como a Hungria de 1954 (os jogadores magiares abandonaram a sele&ccedil;&atilde;o e o pa&iacute;s depois que o stalinismo reprimiu a revolta popular anti-burocr&aacute;tica de 1956) e a Holanda de 1974 (a lend&aacute;ria &quot;laranja mec&acirc;nica&quot;, cujo comportamento libert&aacute;rio atraiu a simpatia mundial, jogando sem guardar posi&ccedil;&atilde;o, levando as mulheres para a concentra&ccedil;&atilde;o e bebendo cerveja), est&aacute; o Brasil de 1982. Foi assistindo aquela sele&ccedil;&atilde;o, aos 7 anos de idade, que este escriba se apaixonou pelo futebol e se tornou um torcedor canarinho para o resto da vida. Aquele futebol n&atilde;o existe mais, mas a paix&atilde;o permanece. Torcer pela sele&ccedil;&atilde;o n&atilde;o significa deixar de ser cr&iacute;tico da estrutura do futebol. A esquerda muitas vezes concede apoio cr&iacute;tico a determinada pol&iacute;tica quando isso favorece o di&aacute;logo com a classe, e aqui declaro a minha torcida cr&iacute;tica pela sele&ccedil;&atilde;o brasileira. Em 2010, estarei tamb&eacute;m torcendo pela sele&ccedil;&atilde;o, contra Dunga, contra a CBF e contra a burguesia, e ao lado dos trabalhadores.<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/243"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=243"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/243\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6203,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/243\/revisions\/6203"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=243"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=243"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=243"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}