{"id":2510,"date":"2013-10-14T18:14:46","date_gmt":"2013-10-14T21:14:46","guid":{"rendered":"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/?p=2510"},"modified":"2018-04-30T20:48:30","modified_gmt":"2018-04-30T23:48:30","slug":"escola-publica-a-violencia-como-instrumento-de-destruicao-das-potencialidades-humanas-maio-junho-2011","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/2013\/10\/escola-publica-a-violencia-como-instrumento-de-destruicao-das-potencialidades-humanas-maio-junho-2011\/","title":{"rendered":"Escola p\u00fablica: a viol\u00eancia como instrumento de destrui\u00e7\u00e3o das potencialidades humanas\u2013 Maio-Junho\/2011"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Este artigo foi publicado originalmente na edi\u00e7\u00e3o n\u00ba 43 do Jornal do Espa\u00e7o Socialista \u2013 Maio-Junho\/2011<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 style=\"text-align: right;\">Iraci Lacerda e Cl\u00e1udio Santana<\/h3>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>[&#8230;] Enfim, agonia de m\u00faltiplas faces.<br \/>\nMas com uma raiz \u00fanica<br \/>\nfeita de v\u00e1rias partes e entraves\u2026<br \/>\nde v\u00e1rios entraves e diversas partes.<br \/>\nEntraves da acumula\u00e7\u00e3o,<br \/>\nda distribui\u00e7\u00e3o, da divis\u00e3o<br \/>\ne apropria\u00e7\u00e3o privada da vida<br \/>\nmut\u00e1vel do ser social. [&#8230;]<br \/>\nTico P\u00e1dua<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Abordar a quest\u00e3o da viol\u00eancia no cotidiano das escolas \u00e9 ma\u00e7ante, sobretudo, para quem lida e sofre diretamente com o problema. Mas, o fato ocorrido em Realengo, amplamente explorado e difundido pela m\u00eddia, desnuda parte do sistema educacional brasileiro e necessita de uma reflex\u00e3o que extrapole o corporativismo.<br \/>\nRessaltar que a viol\u00eancia \u00e9 inerente ao sistema de explora\u00e7\u00e3o parece redund\u00e2ncia, no entanto, precisamos reafirmar que enquanto uma pequena parcela da humanidade, a burguesia, usufruir das benesses do capitalismo em troca da vida de trabalhadores teremos, sistematicamente, massacres ou chacinas.<br \/>\n\u201cNunca se produziu tanta comida e ao mesmo tempo nunca tantos seres humanos passaram fome como agora; temos as mais altas tecnologias no campo da sa\u00fade, por exemplo, enquanto muitas pessoas continuam morrendo de doen\u00e7as comuns que j\u00e1 deveriam ser erradicadas; fala-se tanto em ecologia, prote\u00e7\u00e3o ao meio ambiente, por\u00e9m os mesmos grupos que propagam tais teorias s\u00e3o os que mais destroem o planeta com suas ind\u00fastrias poluentes, agrot\u00f3xicos, armas nucleares, autom\u00f3veis, entre outros.\u201d (Freitas, Luiz Carlos de. In: Reflex\u00f5es sobre a luta de classes no interior da escola p\u00fablica, p. 100)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa divis\u00e3o social, obviamente, tamb\u00e9m se expressa nas pol\u00edticas educacionais. A escola \u00e9 t\u00e3o bem enquadrada nessa l\u00f3gica que se torna cada vez mais vis\u00edvel a divis\u00e3o entre as que \u201cpodem mais\u201d, \u201cas que podem menos\u201d e \u201cas que nada podem\u201d. E as escolas p\u00fablicas j\u00e1 divididas entre as centrais e as perif\u00e9ricas concorrem diretamente com as particulares na qualidade do ensino e na forma\u00e7\u00e3o humana.<br \/>\nTem sido comum situa\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia nesses v\u00e1rios espa\u00e7os escolares e a Justi\u00e7a tamb\u00e9m responde de acordo com a divis\u00e3o social: Para uns a impunidade \u00e9 parte do processo educativo recebido ao matarem moradores de rua, assassinarem camponeses, discriminarem negros ou homossexuais, etc. Para outros o processo pedag\u00f3gico somente \u00e9 pensado a partir da repress\u00e3o direta e conten\u00e7\u00e3o di\u00e1ria atrav\u00e9s de monitoramento por c\u00e2meras, policiais militares, atua\u00e7\u00e3o constante do Conselho Tutelar e etc. com a finalidade de transformar as escolas perif\u00e9ricas em semifeb\u00e9ns.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diante dessa divis\u00e3o capitalista da sociedade precisamos romper \u2013 professores, estudantes e trabalhadores \u2013 com a l\u00f3gica do isolamento por categorias profissionais e estabelecermos uma unidade de fato, se quisermos reverter a situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">A moral como instrumento da viol\u00eancia<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo Lefebvre (In: Marxismo, p. 53) a moral \u00e9 enganosa, pois codifica e legaliza no indiv\u00edduo \u2013 sob forma de consci\u00eancia moral, e, no exterior, sob a forma de puni\u00e7\u00e3o e de pr\u00e9dica \u2013 a pr\u00e1tica social mediana em um dado momento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dessa forma, a sociedade capitalista, que \u00e9 de consumo, estabelece padr\u00f5es de beleza e \u201cbem-estar\u201d como ideais, transformados em mercadorias, que devem ser alcan\u00e7ados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Junto com isso os costumes e valores para favorecerem cada vez mais essa classe dominante e que s\u00e3o expressos a todo tempo pelos meios midi\u00e1ticos est\u00e3o em contradi\u00e7\u00e3o com a pr\u00f3pria situa\u00e7\u00e3o das escolas p\u00fablicas e de suas comunidades.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quem n\u00e3o consegue seguir esses padr\u00f5es s\u00e3o isolados e inferiorizados. Isso faz com que muitos vivam constantemente as dificuldades do ter ou ser, que tem como mal do s\u00e9culo a depress\u00e3o. Outros buscam sa\u00eddas como o suic\u00eddio, as brigas di\u00e1rias para descarregar ou carregar as raivas, o homic\u00eddio banal, roubos e tudo mais que faz parte do cotidiano dos alunos nas escolas estaduais, certamente como tentativa de se enquadrar nos valores capitalistas.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">A competitividade e o individualismo<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">A competitividade e o individualismo s\u00e3o os valores mais propagados pela ideologia burguesa:\u201cAs pessoas se voltam cada vez mais para si, para seu mundo pessoal. Perde-se, assim, o esp\u00edrito de coletividade, o sentido de solidariedade, de humanidade, a no\u00e7\u00e3o de comunidade, de conjunto\u2026\u201d(Novaes &amp; Vilmar. In: O capitalismo para principiantes, p. 193). Enquanto isso se mant\u00e9m, temos como exemplo, na Proposta Pedag\u00f3gica para as escolas estaduais de S\u00e3o Paulo a obrigatoriedade de se desenvolver uma \u201cinterven\u00e7\u00e3o solid\u00e1ria na realidade, respeitando valores humanos.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dessa forma, mant\u00e9m-se a contradi\u00e7\u00e3o entre a realidade e o discurso oficial, o que torna a valoriza\u00e7\u00e3o da capacidade individual uma das mais poderosas armas do capitalismo para manter a classe trabalhadora competindo entre si e se autodestruindo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O sistema de avalia\u00e7\u00e3o dos estudantes e escolas por \u00f3rg\u00e3os externos, a pol\u00edtica de b\u00f4nus e de m\u00e9rito no estado de S\u00e3o Paulo e que est\u00e3o sendo encaminhadas em todo o pa\u00eds \u2013 como pol\u00edticas educacionais pensadas e desenvolvidas pelos governos do PSDB e PT \u2013 seguem esse caminho da individualidade e da competitividade. Procura-se hierarquizar para responsabilizar cada um pela sua \u201cincapacidade\u201d de competir de acordo com o padr\u00e3o e valores estabelecidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Encobre-se que o capitalismo n\u00e3o suporta a igualdade de oportunidades, que somente tem condi\u00e7\u00e3o de sobreviv\u00eancia com a dura competi\u00e7\u00e3o e que \u00e9 esse tipo de sociedade que gera tantos quantos realengos.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">A viol\u00eancia na hierarquia entre as classes sociais e o papel do Estado<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Estado burgu\u00eas cumpre um papel fundamental no sentido de encobrir essa viol\u00eancia e fingir uma harmonia social.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao n\u00e3o atender com qualidade o interesse da classe que gera a riqueza para representar os interesses de bancos, empresas, empreiteiras, etc., o Estado obriga-se a cortar gastos com servi\u00e7os p\u00fablicos essenciais para os trabalhadores. Somente com o governo Dilma a Educa\u00e7\u00e3o perdeu R$ 3,1 bilh\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa obriga\u00e7\u00e3o \u00e9 tornada p\u00fablica com o objetivo de buscar a compreens\u00e3o e o sacrif\u00edcio do trabalhador ao mesmo tempo em que refor\u00e7a pol\u00edticas como Bolsa-fam\u00edlia aliada \u00e0 frequ\u00eancia escolar e avalia\u00e7\u00e3o do professor. Busca-se afirmar, com todo o apoio da imprensa burguesa, que o problema \u00e9 apenas da qualidade do ensino e da gest\u00e3o n\u00e3o do sistema educacional voltado para atender um tipo de sociedade que separa as pessoas entre aqueles que precisam trabalhar para sobreviver e aqueles que exploram para se manter.<br \/>\nNesse universo desnuda-se um ciclo em que o que menos se considera \u00e9 a qualidade do ensino ligada \u00e0s potencialidades humanas, pois o n\u00edvel de qualidade a ser conquistado precisa, necessariamente, atender a essa hierarquia social.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Poucos poder\u00e3o ocupar postos de destaque no mundo do trabalho. Para a maioria restar\u00e1 o espa\u00e7o p\u00fablico escolar como contentor das consequ\u00eancias diretas deixadas pelas contradi\u00e7\u00f5es da competitividade e individualidade. E nem que seja atrav\u00e9s da repress\u00e3o policial o Estado capitalista e seus governos continuar\u00e3o tentando encobrir a viol\u00eancia existente no sistema educacional brasileiro.<br \/>\nA luta por uma Educa\u00e7\u00e3o com qualidade deve ser de toda a classe trabalhadora!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A viol\u00eancia expressa na Educa\u00e7\u00e3o brasileira faz parte da realidade de crise estrutural do capital e do papel reservado \u00e0 produ\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses \u201cem desenvolvimento\u201d. A escola precisa ensinar a dosagem certa entre competitividade e obedi\u00eancia, individualidade e submiss\u00e3o, aliadas indispens\u00e1veis no meio produtivo capitalista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse sentido, j\u00e1 n\u00e3o se pode manter lutas isoladas em escolas \u2013 a repress\u00e3o sobre estudantes e professoras \u00e9 cada vez maior \u2013 muito menos se pode reduzi-las \u00e0 categoria de professores \u2013 j\u00e1 que se trata da Educa\u00e7\u00e3o para os filhos da classe trabalhadora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma pedagogia de luta contra o conformismo e que busque a forma\u00e7\u00e3o plena do ser humano precisa voltar \u00e0 cena. No entanto, esbarramos tamb\u00e9m nas dire\u00e7\u00f5es dos movimentos sindicais e sociais atreladas diretamente ao governo petista e\/ou aos antigos m\u00e9todos para frearem as lutas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os sindicatos, centrais sindicais (Intersindical, CSP-Conlutas) e movimentos sociais de esquerda tamb\u00e9m n\u00e3o podem compactuar com o fato da Educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica transformar-se em instrumento de destrui\u00e7\u00e3o das potencialidades humanas da classe trabalhadora por omiss\u00e3o, neglig\u00eancia ou at\u00e9 mesmo pela repeti\u00e7\u00e3o de m\u00e9todos alheios a democracia oper\u00e1ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o se muda a realidade apenas com teoria. Mas, a luta tamb\u00e9m n\u00e3o pode estar desprovida da teoria marxista. \u00c9 preciso uma base material para que a pr\u00f3pria teoria se desenvolva. As lutas imediatas na Educa\u00e7\u00e3o precisam estar vinculadas \u00e0 defesa de uma realidade que garanta a apropria\u00e7\u00e3o do conhecimento cient\u00edfico em favor da classe trabalhadora e n\u00e3o contra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Precisamos por fim \u00e0 autodestrui\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora, \u00e0s chacinas e massacres. Precisamos que todos os trabalhadores e trabalhadoras em empresas, com\u00e9rcio, hospitais, bancos, \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos, desempregados, aposentados e os estudantes estejam unidos na luta em favor de uma escola p\u00fablica com qualidade de ensino e aprendizagem que favore\u00e7am as potencialidades humanas de quem trabalha e gera a riqueza do pa\u00eds.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este artigo foi publicado originalmente na edi\u00e7\u00e3o n\u00ba 43 do Jornal do Espa\u00e7o Socialista \u2013 Maio-Junho\/2011 &nbsp; Iraci Lacerda e<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[29,83],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2510"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2510"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2510\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5938,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2510\/revisions\/5938"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2510"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2510"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2510"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}