{"id":257,"date":"2010-11-17T22:09:19","date_gmt":"2010-11-18T00:09:19","guid":{"rendered":"http:\/\/espacosocialista.org\/?q=node\/257"},"modified":"2018-06-01T15:34:47","modified_gmt":"2018-06-01T18:34:47","slug":"jornal-40-novembro-de-2010","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/2010\/11\/jornal-40-novembro-de-2010\/","title":{"rendered":"Jornal 40: Novembro de 2010"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_1269\" aria-describedby=\"caption-attachment-1269\" style=\"width: 212px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/Jornal_ES_40_novembro_2010.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-1269 \" src=\"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/Jornal_ES_40_novembro_2010-212x300.jpg\" alt=\"Baixar edi\u00e7\u00e3o 40 (PDF)\" width=\"212\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/Jornal_ES_40_novembro_2010-212x300.jpg 212w, https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/Jornal_ES_40_novembro_2010.jpg 525w\" sizes=\"(max-width: 212px) 100vw, 212px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-1269\" class=\"wp-caption-text\">Baixar edi\u00e7\u00e3o 40 (PDF)<\/figcaption><\/figure>\n<p><a name=\"indice\"><\/a>Leia as mat\u00e9rias online:<\/p>\n<ul>\n<li><a href=\"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/?p=257#titulo1\">Dilma governar\u00e1 para quem?<\/a><\/li>\n<li><a href=\"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/?p=257#titulo2\">Para acabar com o racismo \u00e9 preciso superar o capitalismo<\/a><\/li>\n<li><a href=\"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/?p=257#titulo3\">A revolu\u00e7\u00e3o dos &#8220;jacobinos negros&#8221; no Haiti<\/a><\/li>\n<li><a href=\"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/?p=257#titulo4\">O trabalho escravo no Brasil: a acumula\u00e7\u00e3o para a metr\u00f3pole e a resist\u00eancia dos trabalhadores negros<\/a><\/li>\n<li><a href=\"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/?p=257#titulo5\">O que produz e reproduz a escola?<\/a><\/li>\n<li><a href=\"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/?p=257#titulo6\">Tropa de Elite 2: vit\u00f3ria da viol\u00eancia<\/a><\/li>\n<li><a href=\"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/?p=257#titulo7\">A luta de classes na Fran\u00e7a e as tarefas colocadas para a classe trabalhadora<\/a><\/li>\n<\/ul>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a name=\"titulo1\"><\/a><\/p>\n<h1>Dilma Governar\u00e1 Para Quem?<\/h1>\n<p>O crescimento econ\u00f4mico da ordem de 7% em pleno ano de elei\u00e7\u00f5es, os programas sociais principalmente no Norte e Nordeste, as descobertas do Pr\u00e9- Sal e a promessa de desenvolvimento do pa\u00eds foram, sem d\u00favida, os fatores estruturais mais importantes para a vit\u00f3ria petista.<\/p>\n<p>A combina\u00e7\u00e3o desses fatores com uma imensa propaganda ideol\u00f3gica transmitiram a id\u00e9ia de um pa\u00eds que estaria no caminho certo para se tornar uma pot\u00eancia mundial e reduzir os grav\u00edssimos problemas sociais.<\/p>\n<p>Por outro lado, Serra e o PSDB\/DEM, desde o in\u00edcio tiveram dificuldade em emplacar um projeto pr\u00f3prio, alternativo ao do PT. Isso porque em seus oito anos de governo, o PT na verdade assumiu o programa do PSDB e, nos aspectos essenciais, deu continuidade ao governo FHC. As diferen\u00e7as foram na forma, nos ritmos e no peso um pouco maior ou menor do estado na economia.<\/p>\n<p>Por isso, tamb\u00e9m na campanha havia muito mais semelhan\u00e7as do que diferen\u00e7as entre os dois candidatos. Claro que essa identidade maior entre os dois blocos em disputa ajudava muito mais o PT\/PMDB, que j\u00e1 estava no governo, e ent\u00e3o o PSDB teve que buscar a diferencia\u00e7\u00e3o de alguma forma. Ao n\u00e3o poder se inclinar para a esquerda, sua sa\u00edda foi buscar apoio mais \u00e0 direita.<\/p>\n<p>Campanhas difamat\u00f3rias em torno da manuten\u00e7\u00e3o da criminaliza\u00e7\u00e3o do aborto, de menosprezo pela popula\u00e7\u00e3o pobre, de liga\u00e7\u00e3o de Dilma com a luta armada, etc, feitas pela Internet ou por panfletos, e a farsa montada no epis\u00f3dio da bolinha de papel tiveram o efeito de acirrar uma polariza\u00e7\u00e3o. Os trabalhadores, que j\u00e1 viam Serra com enorme desconfian\u00e7a, reagiram inclinando-se definitivamente por Dilma. Sem um projeto alternativo, identificado com as privatiza\u00e7\u00f5es diretas, com os cortes sociais, com a trucul\u00eancia junto aos movimentos sociais e por \u00faltimo com os setores mais de direita, o PSDB foi derrotado.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m \u00e9 verdade que a press\u00e3o sobre o PT j\u00e1 a partir do final do 1\u00ba turno fez com que esse partido se comprometesse ainda mais com o programa da direita. Dilma n\u00e3o hesitou em dizer que manter\u00e1 a legisla\u00e7\u00e3o que criminaliza o aborto, ao inv\u00e9s de trat\u00e1-lo como um problema social e quest\u00e3o de sa\u00fade p\u00fablica.<\/p>\n<p>Mais do que manter a pol\u00edtica econ\u00f4mica geral herdada, Dilma tamb\u00e9m prometeu ir al\u00e9m realizando as Reformas e ajustes que o capital necessita para seguir operando no Brasil a taxas altas de lucro.<\/p>\n<p>Desde o in\u00edcio da campanha, um setor importante da burguesia j\u00e1 mostrava sua prefer\u00eancia por Dilma. Segundo os dados mais recentes de declara\u00e7\u00e3o das campanhas (06\/09\/2010), a campanha de Dilma havia arrecadado R$ 39,5 milh\u00f5es enquanto a de Serra, R$ 26 milh\u00f5es (<a title=\"http:\/\/eleicoes.uol.com.br\" href=\"http:\/\/eleicoes.uol.com.br\/\">http:\/\/eleicoes.uol.com.br<\/a>).<\/p>\n<p>Ao obter mais compromissos do PT, a maior parte da burguesia amenizou o tom nos \u00faltimos dias, entendendo que a forma de governo do PT ainda \u00e9 muito proveitosa para o capital, apesar das cr\u00edticas aos gastos de estado e com a burocracia. O fato de o PT representar uma burocracia sindical e pol\u00edtica que gerencia fundos de pens\u00f5es e estatais d\u00e1 a esse partido a condi\u00e7\u00e3o de atuar como administrador dos interesses do capital de conjunto no Brasil, arbitrando entre as v\u00e1rias fra\u00e7\u00f5es da burguesia e entre a burguesia e a classe trabalhadora. Essa caracter\u00edstica pr\u00f3pria das burocracias \u00e9 fundamental, principalmente quando se trata de gerenciar crises e retiradas de direitos dos trabalhadores.<\/p>\n<p>Por isso, a burguesia ainda n\u00e3o teve a necessidade de descartar o PT como gestor do estado, mas deixou claro quem s\u00e3o os donos do capital e para quem o PT deve prestar contas. Como parte do Bloco PT\/PMDB, a elei\u00e7\u00e3o pelo PSB de 6 governadores, 35 deputados federais e 4 senadores demonstra que a burguesia trabalha outras possibilidades futuras para o caso de o governo Dilma n\u00e3o der conta de segurar o movimento social.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>Contradi\u00e7\u00f5es na economia se acumulam&#8230;<\/h2>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o de crescimento econ\u00f4mico no Brasil, em contraste com a manuten\u00e7\u00e3o da recess\u00e3o ou lento crescimento nos pa\u00edses centrais, passou a (falsa) id\u00e9ia de que o PT e Lula possuem caracter\u00edsticas quase m\u00e1gicas para administrar e combater a crise. Mas isso n\u00e3o \u00e9 verdade. Na base desse crescimento atual combinam-se fatores problem\u00e1ticos como a precariza\u00e7\u00e3o e informaliza\u00e7\u00e3o do trabalho, a desonera\u00e7\u00e3o de impostos dos empres\u00e1rios, o aumento espantoso do endividamento das fam\u00edlias e do estado.<\/p>\n<p>Como express\u00e3o disso, o volume total de cr\u00e9dito deve atingir 48,5% do PIB ao final do ano &#8211; um crescimento de 20% em compara\u00e7\u00e3o a 2009. O volume total de cr\u00e9dito ultrapassou R$ 1,5 trilh\u00e3o no primeiro semestre.<\/p>\n<p>Dados da Abecip (Associa\u00e7\u00e3o Brasileira das Entidades de Cr\u00e9dito Imobili\u00e1rio e Poupan\u00e7a) apontam que o montante das opera\u00e7\u00f5es de cr\u00e9dito imobili\u00e1rio contratado no primeiro quadrimestre de 2010 foi 74% superior em rela\u00e7\u00e3o ao do mesmo per\u00edodo de 2009, e 90% maior comparado ao de 2008. (<a title=\"www.folha.com.br\" href=\"http:\/\/www.folha.com.br\/\">www.folha.com.br<\/a>) No entanto, essa contradi\u00e7\u00e3o entre o consumo baseado no cr\u00e9dito, combinado com as taxas de juros mais altas do mundo, t\u00eam levado ao aumento da D\u00edvida P\u00fablica. A D\u00edvida P\u00fablica reconhecida oficialmente chegar\u00e1 a R$ 1,73 trilh\u00e3o em 2010. Por\u00e9m, alguns economistas afirmam que, se somarmos a parte da D\u00edvida encoberta por manobras cont\u00e1beis, o endividamento bruto do governo chega a R$ 2,05 trilh\u00f5es! Apenas em 2010, foram pagos R$ 160 bilh\u00f5es de juros dessa D\u00edvida: quase 14 vezes mais do que o consumido pelo Bolsa Fam\u00edlia, que atende a mais de 11 milh\u00f5es de fam\u00edlias. (<a title=\"www.correiobraziliense.com.br\" href=\"http:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/\">www.correiobraziliense.com.br<\/a>).<\/p>\n<p>Outro elemento a ser levado em considera\u00e7\u00e3o s\u00e3o os resultados cada vez piores da balan\u00e7a comercial &#8211; saldo entre exporta\u00e7\u00f5es e importa\u00e7\u00f5es. Com a desvaloriza\u00e7\u00e3o do d\u00f3lar frente \u00e0s v\u00e1rias moedas, inclusive ao real, devido \u00e0 gigantesca emiss\u00e3o de d\u00f3lares pelos EUA, desde que a crise se manifestou, os resultados das exporta\u00e7\u00f5es brasileiras t\u00eam seguido uma curva descendente, ao contr\u00e1rio das importa\u00e7\u00f5es. A patronal cobra medidas protecionistas de curto prazo e ao mesmo tempo o corte dos direitos trabalhistas, de modo que as empresas se tornem mais competitivas no mercado mundial.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>O Estado a Servi\u00e7o do Capital<\/h2>\n<p>A burguesia e o Agroneg\u00f3cio agora cobram seu quinh\u00e3o, atrav\u00e9s da isen\u00e7\u00e3o de impostos sobre insumos e mercadorias, assim como empr\u00e9stimos a juros baixos e prazos indefinidos. Al\u00e9m disso, exigem que o estado banque as chamadas obras de infraestrutura como rodovias, ferrovias e moderniza\u00e7\u00e3o dos portos, que t\u00eam como objetivo baratear a produ\u00e7\u00e3o e o movimento das mercadorias.<\/p>\n<p>Resumindo, o capital de conjunto quer que o estado assuma diretamente parte de seus custos de produ\u00e7\u00e3o, de modo a maximizar seus lucros.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, o capital exige a libera\u00e7\u00e3o para a explora\u00e7\u00e3o das grandes \u00e1reas florestais antes preservadas. Ao serem alvos da explora\u00e7\u00e3o pelas monoculturas, essas \u00e1reas ir\u00e3o simplesmente desaparecer ao som das motosserras, sem que haja qualquer compromisso de reflorestamento.<\/p>\n<p>A declara\u00e7\u00e3o de Dilma em seu discurso de que vai manter todos os contratos n\u00e3o tem outro sentido sen\u00e3o o respeito total ao pagamento dos Juros da D\u00edvida P\u00fablica aos agiotas internacionais.<\/p>\n<p>Ao defender acima de tudo os interesses do capital, que atravessa uma crise em n\u00edvel mundial e precisa da interven\u00e7\u00e3o direta do estado para sua sobreviv\u00eancia, o governo Dilma ser\u00e1 j\u00e1 em seu in\u00edcio um governo de ataques aos trabalhadores, um governo certamente mais duro do que o governo Lula em seus dois \u00faltimos anos.<\/p>\n<p>Por outro lado, por mais que o PSDB tenha sa\u00eddo derrotado da disputa nacional, ter\u00e1 o governo dos estados mais importantes do pa\u00eds, que produzem 53% do PIB. Assim, teremos provavelmente uma divis\u00e3o de tarefas entre esses dois blocos pol\u00edticos. Por mais que se acusem, estados e Uni\u00e3o aplicar\u00e3o em sintonia a mesma pol\u00edtica de uso da m\u00e1quina p\u00fablica em prol dos interesses do capital e contra os trabalhadores. A ordem geral ser\u00e1 cortar gastos dos servi\u00e7os p\u00fablicos e, em particular, aumentar a press\u00e3o e os ataques sobre os servidores p\u00fablicos. Ao mesmo tempo, haver\u00e1 a cobran\u00e7a de que os servi\u00e7os p\u00fablicos atendam mais e melhor devido \u00e0 necessidade de que essa esfera assuma responsabilidades e atribui\u00e7\u00f5es que as fam\u00edlias e outras institui\u00e7\u00f5es n\u00e3o est\u00e3o mais tendo condi\u00e7\u00f5es de assumir. Aumentar\u00e1 o ritmo de trabalho, bem como as cobran\u00e7as de resultados &#8211; batizadas pelo nome de meritocracia &#8211; no servi\u00e7o p\u00fablico, que foram compromissos firmados pela presidenta em seu discurso logo ap\u00f3s se saber eleita.<\/p>\n<p>Assim, por mais que os trabalhadores nesse momento sintam um certo al\u00edvio pela derrota de Serra e do PSDB, chamamos a aten\u00e7\u00e3o para o fato de que o governo de Dilma ser\u00e1 um governo burgu\u00eas cl\u00e1ssico, nem sequer um governo de frente popular do qual se possa esperar qualquer concess\u00e3o importante para os trabalhadores.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>A Agenda das Contra-Reformas no Horizonte<\/h2>\n<p>Dentro desse quadro, os trabalhadores devem se preparar para enfrentar ao longo do mandato de Dilma um conjunto de reformas que n\u00e3o foram apresentadas nem discutidas durante a campanha presidencial &#8211; pois s\u00e3o extremamente antipopulares -, mas que fazem parte do projeto de ambas as candidaturas.<\/p>\n<p>A primeira medida do governo ainda neste ano deve ser aprovar o modelo de partilha da explora\u00e7\u00e3o do Pr\u00e9-Sal, em que a Uni\u00e3o ficar\u00e1 com 30% das receitas e as empresas privadas com 70%. Ou seja, por mais que durante a campanha Dilma tenha falado em manter o controle sobre as reservas, na pr\u00e1tica o modelo de partilha do PT pretende entregar a riqueza do pa\u00eds \u00e0s transnacionais, que ir\u00e3o remeter os lucros para suas matrizes nos pa\u00edses imperialistas.<\/p>\n<p>Ao longo de seu mandato, o novo governo deve encaminhar as Reformas da Previd\u00eancia, Tribut\u00e1ria, Trabalhista e Pol\u00edtica. O mais prov\u00e1vel \u00e9 que busque implement\u00e1-las aos poucos e de forma disfar\u00e7ada &#8211; na inten\u00e7\u00e3o de evitar confrontos com os movimentos. Assim a luta contras Reformas, seus disfarces e suas justificativas ideol\u00f3gicas ser\u00e1 uma tarefa fundamental para os trabalhadores e a vanguarda dos movimentos.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 Reforma da Previd\u00eancia, a Secretaria de Pol\u00edtica Econ\u00f4mica do Minist\u00e9rio da Fazenda, comandada por Nelson Barbosa, j\u00e1 trabalha uma proposta a ser apresentada ao Congresso por Dilma Rousseff. (<a title=\"http:\/\/www.fenafisco.org.br\" href=\"http:\/\/www.fenafisco.org.br\/\">http:\/\/www.fenafisco.org.br<\/a>). N\u00e3o precisamos dizer que seu objetivo \u00e9 dificultar a aposentadoria dos trabalhadores e diminuir os gastos do estado.<\/p>\n<p>Quando Dilma fala tamb\u00e9m em desonerar um conjunto de atividades do capital, e em particular o investimento e a folha de pagamento, trata-se da Reforma Tribut\u00e1ria j\u00e1 em curso. Qual o objetivo disso? Obviamente \u00e9 aumentar a lucratividade das empresas, ao mesmo tempo em que o estado abre m\u00e3o de arrecadar das empresas e portanto tem que aumentar a arrecada\u00e7\u00e3o dos trabalhadores e da classe m\u00e9dia.<\/p>\n<p>A flexibiliza\u00e7\u00e3o da legisla\u00e7\u00e3o trabalhista pretende instaurar a &#8220;livre negocia\u00e7\u00e3o&#8221; entre empresas e trabalhadores. Na pr\u00e1tica, isto levar\u00e1 \u00e0 perda de direitos na maioria dos ramos, pois com a amea\u00e7a do desemprego e a colabora\u00e7\u00e3o das dire\u00e7\u00f5es sindicais pelegas, os patr\u00f5es poder\u00e3o impor a perda dos direitos aos trabalhadores a seu bel-prazer.<\/p>\n<p>J\u00e1 a Reforma Pol\u00edtica visa acabar com o espa\u00e7o j\u00e1 bastante minguado dos pequenos partidos de esquerda, pois pretende criar crit\u00e9rios imposs\u00edveis de serem cumpridos para o reconhecimento desses partidos.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo em que se faz a apologia das elei\u00e7\u00f5es burguesas como sendo &#8220;a festa da democracia&#8221;, tamb\u00e9m se pretende reduzir cada vez mais o horizonte de op\u00e7\u00f5es pol\u00edticas de questionamento e organiza\u00e7\u00e3o por parte dos trabalhadores. Por tr\u00e1s do clima econ\u00f4mico imediato de festividade, prepararam-se o agravamento das condi\u00e7\u00f5es reais de vida dos trabalhadores e o conseq\u00fcente aumento da insatisfa\u00e7\u00e3o social \u00e0 qual o sistema pretende tratar cada vez mais com armas ideol\u00f3gicas e de conten\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m de repress\u00e3o, atrav\u00e9s das escolas de tempo integral que muitas vezes viram semi-pres\u00eddios dos jovens, das ocupa\u00e7\u00f5es militares nas favelas, ou da pris\u00e3o de l\u00edderes e ativistas.<\/p>\n<p>Assim, aos trabalhadores cabe a prepara\u00e7\u00e3o para enfrentarmos e resistirmos a um processo de ataque \u00e0s nossas condi\u00e7\u00f5es de vida e maior instabilidade. Mesmo que ainda demore algum tempo, os mecanismos que hoje d\u00e3o sustenta\u00e7\u00e3o \u00e0 economia brasileira e ao seu crescimento &#8211; hoje festejado pelo governo, pelo empresariado e meios de comunica\u00e7\u00e3o &#8211; fundam-se em grande medida sobre alicerces complicados e em \u00faltima inst\u00e2ncia explosivos como o endividamento desenfreado das fam\u00edlias e empresas, o aumento da D\u00edvida P\u00fablica e tamb\u00e9m a perda do m\u00ednimo de garantias do trabalhador, que passa a estar totalmente dependente das flutua\u00e7\u00f5es de mercado. Uma vez por\u00e9m que se esgote esse f\u00f4lego, os efeitos da crise se far\u00e3o novamente sentir, e com maior intensidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>A crise de alternativas socialistas e a esquerda<\/h2>\n<p>O problema estrutural que os trabalhadores enfrentam \u00e9 a aus\u00eancia de uma alternativa socialista real que possa disputar a consci\u00eancia das massas no sentido de um outro projeto de sociedade, em ruptura com a l\u00f3gica do lucro. Essa \u00e9 tamb\u00e9m a maior defasagem da esquerda.<\/p>\n<p>As principais correntes &#8211; PSTU e PSOL &#8211; seguem presas a uma l\u00f3gica imediatista de atua\u00e7\u00e3o, sem realizar de fato um trabalho pol\u00edtico junto \u00e0s estruturas de base, e sem fazer uma cr\u00edtica profunda dos fundamentos que est\u00e3o por tr\u00e1s das pol\u00edticas do capital que agora s\u00e3o abertamente assumidas e implementadas pelo PT e pelas dire\u00e7\u00f5es das centrais como a CUT e For\u00e7a Sindical.<\/p>\n<p>N\u00e3o se faz um trabalho sistem\u00e1tico junto aos p\u00f3los fundamentais da classe trabalhadora que, dessa forma, fica ainda mais \u00e0 merc\u00ea da propaganda e dos meios de comunica\u00e7\u00e3o burgueses.<\/p>\n<p>Os principais partidos e organiza\u00e7\u00f5es de esquerda sequer utilizam sua influ\u00eancia nos sindicatos para realizar esse trabalho de disputa pol\u00edtica e ideol\u00f3gica. O sindicalismo praticado pela esquerda \u00e9 marcado pelo imediatismo e pela falta de discuss\u00f5es mais profundas com os trabalhadores. N\u00e3o se faz um trabalho de ligar os aspectos imediatos aos estruturais e de demonstrar para os trabalhadores que o problema maior \u00e9 a l\u00f3gica capitalista como um todo, e n\u00e3o apenas alguns de seus aspectos, que \u00e9 essa l\u00f3gica que deve ser quebrada, se quisermos realmente encontrar uma sa\u00edda real e equilibrada para a situa\u00e7\u00e3o dos trabalhadores.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>Por um Movimento Pol\u00edtico dos Trabalhadores<\/h2>\n<p>Outro fator de dificuldade na esquerda \u00e9 a sua divis\u00e3o, o fato de que as principais correntes &#8211; tanto o PSTU quanto o PSOL &#8211; colocam a disputa pela hegemonia no movimento acima das necessidades do pr\u00f3prio movimento. As pr\u00f3prias correntes acabam impedindo que se d\u00eaem os passos mais b\u00e1sicos no sentido da unidade, uma condi\u00e7\u00e3o m\u00ednima, mas muito necess\u00e1ria para o desenvolvimento dessa consci\u00eancia socialista entre as massas citadas acima.<\/p>\n<p>Imposs\u00edvel n\u00e3o citar o fato de cada um dos principais partidos &#8211; PCB, PSOL e PSTU &#8211; ter deixado ruir a possibilidade de uma Frente de Esquerda dos Trabalhadores nas elei\u00e7\u00f5es. O mesmo se deu no CONCLAT, com a ruptura do dif\u00edcil e tortuoso processo de unifica\u00e7\u00e3o sindical que vinha se formando para a constru\u00e7\u00e3o de uma \u00fanica central de luta que reuniria a CONLUTAS e a INTERSINDICAL.<\/p>\n<p>Ambos os processos foram interrompidos e inviabilizados, pois as dire\u00e7\u00f5es de cada corrente impuseram cada qual suas condi\u00e7\u00f5es, por fora da realidade e da vontade das bases e dos movimentos dos trabalhadores que queriam e precisavam mais do que tudo da unidade na luta para fazer frente \u00e0 ofensiva do capitalismo.<\/p>\n<p>Assim, mant\u00e9m-se mais atual do que nunca a necessidade defendida continuamente pelo Espa\u00e7o Socialista da constru\u00e7\u00e3o de um Movimento Pol\u00edtico dos Trabalhadores, a partir das discuss\u00f5es e organiza\u00e7\u00e3o na base dos movimentos, que seja uma forma de juntar os trabalhadores, organiza\u00e7\u00f5es e ativistas, com f\u00f3runs democr\u00e1ticos de discuss\u00e3o e delibera\u00e7\u00e3o, no sentido de come\u00e7ar a corrigir a grave defasagem da alternativa socialista entre os trabalhadores e os demais explorados e oprimidos.<\/p>\n<p>O governo de Dilma, no marco da crise mundial do capitalismo, ir\u00e1 colocar novos desafios para os trabalhadores, que s\u00f3 conseguir\u00e3o responder \u00e0 altura se desenvolverem uma alternativa pr\u00e1tica e ideol\u00f3gica ao capitalismo. Para isso, ser\u00e1 preciso n\u00e3o apenas novas lutas, mas tamb\u00e9m uma renova\u00e7\u00e3o no campo da esquerda.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/?p=257#indice\">\u25b2 voltar ao \u00edndice<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a name=\"titulo2\"><\/a><\/p>\n<h1>Para acabar com o racismo \u00e9 preciso superar o capitalismo<\/h1>\n<p>O racismo \u00e9 um problema social e hist\u00f3rico. Ele n\u00e3o existe porque os negros possuam qualquer &#8220;caracter\u00edstica de inferioridade&#8221; ou os brancos sejam &#8220;naturalmente&#8221; opressores.<\/p>\n<p>O racismo est\u00e1 ligado \u00e0 explora\u00e7\u00e3o. As classes dominantes sempre buscaram aproveitar-se das diferen\u00e7as de cor, g\u00eanero, nacionalidade, regi\u00e3o, etc, para construir assim uma hierarquia na explora\u00e7\u00e3o. Essa hierarquia ao mesmo tempo divide os explorados em n\u00edveis diferentes de explora\u00e7\u00e3o (mais e menos explorados) e tamb\u00e9m justifica que uns sejam mais explorados por&#8230; serem negros.<\/p>\n<p>No Brasil, conforme o capitalismo se estabelecia como sistema econ\u00f4mico, o racismo do per\u00edodo escravista foi assimilado, pois isso permitia aos empres\u00e1rios aplicar n\u00edveis mais intensos de explora\u00e7\u00e3o sobre os negros e as mulheres negras em particular, embora desde o inicio tivesse havido in\u00fameras formas de resist\u00eancia. No topo dessa hierarquia de explora\u00e7\u00e3o encontram-se a burguesia e seus agentes: o Estado, a m\u00eddia, a Igreja, setores da classe mais alta que incorporam os interesses da burguesia.<\/p>\n<p>Assim, a conclus\u00e3o mais importante que tiramos, mas que n\u00e3o \u00e9 de forma alguma un\u00e2nime, \u00e9 que para acabar de vez com o racismo \u00e9 preciso acabar tamb\u00e9m com o capitalismo e com toda forma de explora\u00e7\u00e3o do homem pelo homem.<\/p>\n<p>As lutas por mudan\u00e7as m\u00ednimas, mesmo dentro do capitalismo, no sentido de questionar e enfrentar o racismo e incorporar a popula\u00e7\u00e3o negra s\u00e3o fundamentais, mas devem ser sempre consideradas como paliativos, que ainda n\u00e3o s\u00e3o a sa\u00edda para o problema do racismo. A luta pela liberta\u00e7\u00e3o real do povo negro \u00e9 parte fundamental da luta da classe trabalhadora contra a explora\u00e7\u00e3o capitalista, e portanto o racismo deve ser considerado um problema a ser discutido e enfrentado por todos os trabalhadores, no sentido de unificar a nossa classe, com as suas caracter\u00edsticas e diversidades, contra a burguesia que, por sua vez, tamb\u00e9m tem negros em seu meio.<\/p>\n<p>Muitas correntes pol\u00edticas ou acad\u00eamicas, ao terem um enfoque apenas limitado \u00e0 quest\u00e3o racial, sem um conte\u00fado de classe, sem abord\u00e1-la como parte da luta geral dos trabalhadores, acabam caindo no jogo da burguesia, que muitas vezes real\u00e7a a opress\u00e3o de ra\u00e7a apenas para silenciar sobre a domina\u00e7\u00e3o de classe, deixando a estrutura social capitalista livre do combate pr\u00e1tico-cr\u00edtico e livre para aprofundar a desigualdade e a explora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>De fato, nos dias atuais \u00e9 ainda mais dif\u00edcil concebermos um movimento de liberta\u00e7\u00e3o real do povo negro do racismo, sem que se enfrentem os limites do sistema capitalista &#8211; a l\u00f3gica do lucro.<\/p>\n<p>O sistema capitalista, que sobrevive cada vez mais da ajuda externa do estado, n\u00e3o reserva possibilidades de melhorias efetivas e sustent\u00e1veis para a maioria da popula\u00e7\u00e3o negra. O m\u00e1ximo poss\u00edvel dentro dos limites da lucratividade do capital \u00e9 a ascens\u00e3o de uma pequena elite negra, ao mesmo tempo em que a grande maioria permanece exatamente como estava antes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>Unir trabalhadores negros e brancos pela emancipa\u00e7\u00e3o geral<\/h2>\n<p>Impor um conjunto de pol\u00edticas efetivas de repara\u00e7\u00e3o para os negros requer, portanto, esfor\u00e7os para ligar a luta hist\u00f3rica dos negros no Brasil como parte da luta do proletariado por sua emancipa\u00e7\u00e3o, pois o negro de hoje est\u00e1 tamb\u00e9m inserido no mercado de trabalho, e justamente em posi\u00e7\u00f5es mais exploradas. Assim, a luta racial deve assumir tamb\u00e9m um car\u00e1ter de classe e ter como preocupa\u00e7\u00e3o a identifica\u00e7\u00e3o dos verdadeiros aliados e inimigos.<\/p>\n<p>N\u00e3o partir do referencial de luta anticapitalista \u00e9 o principal limite ao qual est\u00e3o presos aqueles setores que hoje se acomodam e aplaudem as pol\u00edticas governamentais, ao mesmo tempo se calando para o fato de que, este mesmo governo que pede paci\u00eancia aos negros \u00e9 tamb\u00e9m o que cede bilh\u00f5es aos banqueiros e empres\u00e1rios todos os anos, mantendo justamente a exclus\u00e3o da maioria.<\/p>\n<p>Pol\u00edticas eficazes de repara\u00e7\u00e3o do racismo s\u00f3 poder\u00e3o ser conquistadas enfrentando-se os patr\u00f5es e seus agentes: os governos de plant\u00e3o.<\/p>\n<p>A bandeira das cotas proporcionais deve ser levantada, juntamente com outras pol\u00edticas de repara\u00e7\u00e3o, e com a luta dos demais trabalhadores por um programa geral que responda n\u00e3o apenas \u00e0 quest\u00e3o de ra\u00e7a, mas tamb\u00e9m \u00e0 quest\u00e3o de classe. Esse programa unit\u00e1rio de trabalhadores negros e brancos deve apontar para a ruptura com a l\u00f3gica do capital e para que os explorados &#8211; brancos e negros &#8211; se unam para estabelecer uma forma de poder da classe trabalhadora, voltada para enfrentar os grandes problemas sociais.<\/p>\n<p>Essa unidade t\u00e3o necess\u00e1ria entre trabalhadores negros e brancos em sua diversidade &#8211; e que n\u00e3o ser\u00e1 facilmente alcan\u00e7ada, por todos os preconceitos e modelos que nos foram impostos no decorrer de s\u00e9culos &#8211; \u00e9 um desafio que temos que ser capazes de realizar na pr\u00e1tica das lutas e de um programa global.<\/p>\n<p>Nesse sentido, a proposta de cotas deve estar inserida numa proposta mais geral de lutas do conjunto da classe trabalhadora por emprego, moradia, sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o digna e de qualidade. Que essas quest\u00f5es imediatas sejam impostas mediante a luta direta da classe como um todo. Que os resultados obtidos possam ser estabelecidos a partir de cotas que reconhe\u00e7am as desigualdades hoje existentes e, ao mesmo tempo, lutem para super\u00e1-las. \u00c9 preciso que a alian\u00e7a entre os trabalhadores negros e brancos preserve os direitos espec\u00edficos de cada setor, para que possamos enfrentar e vencer o capital e todas as formas de explora\u00e7\u00e3o e opress\u00e3o da humanidade.<\/p>\n<p>Assim, por exemplo, a reivindica\u00e7\u00e3o de que os empregos gerados pela luta sejam divididos em cotas proporcionais, deve vir combinada com a luta pela redu\u00e7\u00e3o da jornada de trabalho sem redu\u00e7\u00e3o salarial, de modo que todos os trabalhadores se beneficiem desta mudan\u00e7a, atrav\u00e9s da gera\u00e7\u00e3o dos milh\u00f5es de empregos necess\u00e1rios. Nas universidades p\u00fablicas, do mesmo modo, a luta pelas cotas deve se juntar \u00e0 luta por mais vagas para que todos possam estudar.<\/p>\n<p>\u00c9 evidente que tudo isso s\u00f3 poder\u00e1 ser imposto mediante a luta contra os interesses capitalistas e, em \u00faltima inst\u00e2ncia, levar\u00e1 a uma ruptura do pr\u00f3prio sistema, ao questionar qual classe deve ter o poder na sociedade, se os trabalhadores (negros e brancos) ou a burguesia.<\/p>\n<p>Somente uma sociedade socialista no profundo sentido da palavra &#8211; de socializar os meios de produ\u00e7\u00e3o sob o controle e a servi\u00e7o dos trabalhadores e da humanidade &#8211; \u00e9 que pode colocar um fim \u00e0 explora\u00e7\u00e3o e \u00e0 desigualdade social entre os seres humanos, inaugurando um novo per\u00edodo na hist\u00f3ria humana onde tudo seja decidido democraticamente, respeitando-se as diferen\u00e7as de g\u00eanero e ra\u00e7a, como diferen\u00e7as f\u00edsicas e n\u00e3o sociais.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/?p=257#indice\">\u25b2 voltar ao \u00edndice<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a name=\"titulo3\"><\/a><\/p>\n<h1>A revolu\u00e7\u00e3o dos &#8220;jacobinos negros&#8221; no Haiti<\/h1>\n<p>\u00c9 parte fundamental da luta dos trabalhadores negros a tarefa de reconstituir a hist\u00f3ria de resist\u00eancia contra os s\u00e9culos de escravid\u00e3o, explora\u00e7\u00e3o e opress\u00e3o. Ao contr\u00e1rio do que \u00e9 normalmente veiculado, os negros jamais aceitaram passivamente o processo de serem raptados na \u00c1frica, vendidos como escravos, tratados como animais e explorados durante s\u00e9culos nas Am\u00e9ricas. In\u00fameras formas de resist\u00eancia foram praticadas, desde as sa\u00eddas individuais desesperadas, como os suic\u00eddios, fugas, assassinato de capatazes, senhores e autoridades, sa\u00eddas &#8220;por dentro do sistema&#8221; como a compra da liberdade atrav\u00e9s de cartas de alforria, at\u00e9 as formas coletivas, como as rebeli\u00f5es, fugas em massa, quilombos e a revivesc\u00eancia das religi\u00f5es, dos costumes e da cultura africanas.<\/p>\n<p>No Brasil subsistem in\u00fameras comunidades de remanescentes quilombolas, herdeiros da resist\u00eancia de seus ancestrais contra a escravid\u00e3o. O mais famoso epis\u00f3dio de resist\u00eancia contra a escravid\u00e3o e tamb\u00e9m o mais at\u00edpico dos quilombos, pelo seu tamanho, longa dura\u00e7\u00e3o e hero\u00edsmo de sua guerra contra os escravistas, foi o quilombo dos Palmares (1597-1695), cuja mem\u00f3ria do principal l\u00edder, Zumbi, \u00e9 celebrada no dia 20 de Novembro, dia nacional da consci\u00eancia negra.<\/p>\n<p>Fora do Brasil, um dos mais marcantes epis\u00f3dios da luta dos negros foi a revolu\u00e7\u00e3o haitiana. O jornalista e militante negro Cyril Lionel Robert James (1901-1989), nascido no Caribe e tendo vivido a maior parte na Inglaterra e Estados Unidos, publicou em 1938 um cl\u00e1ssico da historiografia marxista intitulado &#8220;Os Jacobinos Negros&#8221;, que narra a hist\u00f3ria da luta dos negros haitianos contra a escravid\u00e3o e o dom\u00ednio colonial e a trajet\u00f3ria de seus principais l\u00edderes. A obra de C.L.R. James faz uma an\u00e1lise rigorosamente marxista e cient\u00edfica das classes e fra\u00e7\u00f5es de classes da sociedade haitiana, suas aspira\u00e7\u00f5es e ideologias, e suas rela\u00e7\u00f5es com o mundo colonial, no momento em que o capitalismo experimentava a Revolu\u00e7\u00e3o Industrial na Inglaterra e a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>Breve hist\u00f3ria do Haiti<\/h2>\n<p>O Haiti se localiza na parte ocidental da ilha de S\u00e3o Domingos (inicialmente batizada de Hispaniola por Colombo), com uma \u00e1rea territorial coincidentemente quase id\u00eantica ao do Estado de Alagoas, em que existiu o quilombo de Palmares. A parte oriental forma a Rep\u00fablica Dominicana. A ilha de S\u00e3o Domingos foi inicialmente uma col\u00f4nia espanhola, onde j\u00e1 em 1560, no primeiro engenho de cana de a\u00e7\u00facar, de propriedade do governador Diego Colombo, filho do navegador, aconteceu a primeira revolta de escravos. Depois do massacre dos povos origin\u00e1rios, de etnia arauaque e taino, as mesmas que habitavam o restante das ilhas do mar do Caribe, estabeleceu-se uma pr\u00f3spera col\u00f4nia de &#8220;plantation&#8221;, especializada na produ\u00e7\u00e3o de cana de a\u00e7\u00facar, com base no trabalho escravo de negros africanos.<\/p>\n<p>Em fins do s\u00e9culo XVII, piratas franceses, em sua maioria origin\u00e1rios da regi\u00e3o da Normandia, come\u00e7am a se estabelecer na parte ocidental de S\u00e3o Domingos, a partir de suas bases na lend\u00e1ria ilha de Tortuga, esp\u00e9cie de capital da pirataria no Atl\u00e2ntico. A l\u00edngua hoje falada no Haiti, o &#8220;cr\u00e9ole&#8221;, tem origem em grande parte no dialeto normando. Em 1697 foi assinado um tratado entre as coroas da Espanha e da Fran\u00e7a, reconhecendo a soberania dos franceses sobre o territ\u00f3rio que mais tarde constituiria o Haiti.<\/p>\n<p>Ao longo do s\u00e9culo XVIII a riqueza da col\u00f4nia francesa cresce enormemente, a ponto de se tornar respons\u00e1vel por dois ter\u00e7os do com\u00e9rcio exterior franc\u00eas. Os propriet\u00e1rios de S\u00e3o Domingos acumulam uma riqueza gigantesca, compar\u00e1vel a dos nobres na metr\u00f3pole. Por volta da d\u00e9cada de 1790, a col\u00f4nia francesa contava com uma popula\u00e7\u00e3o de cerca de 500 mil escravos negros, contra pouco mais de 30 mil brancos. Havia tamb\u00e9m alguns milhares de negros libertos, mulatos e mesti\u00e7os, que chegaram a gozar dos direitos de homens livres, e tamb\u00e9m do direito de possuir por sua vez propriedades e escravos. Quando eclode a Revolu\u00e7\u00e3o em 1789, os propriet\u00e1rios na col\u00f4nia, brancos e mulatos, v\u00eaem a oportunidade da independ\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o ao dom\u00ednio franc\u00eas. Entretanto, os escravos tinham outros planos&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>A revolta dos escravos e seus l\u00edderes<\/h2>\n<p>Um dos tra\u00e7os caracter\u00edsticos do regime escravista na S\u00e3o Domingos francesa era a crueldade, tra\u00e7o bastante ressaltado por James. Os constantes abusos, maus-tratos, castigos, torturas e mortes de escravos criavam um clima de \u00f3dio e revolta explosivos. Quando o governo revolucion\u00e1rio na metr\u00f3pole proclama a liberta\u00e7\u00e3o dos escravos nas col\u00f4nias, os propriet\u00e1rios estavam mais preocupados com suas rivalidades internas, pois os mulatos queriam reaver os direitos que lhes haviam sido recentemente cassados, o que os brancos tentavam impedir. Os negros se aproveitaram disso e iniciaram uma rebeli\u00e3o, em 1791. O levante foi coordenado a partir dos rituais de vudu, cujos batuques ecoavam pelas florestas, unindo os negros nas senzalas aos seus irm\u00e3os nos quilombos, percorrendo toda a col\u00f4nia e preparando o momento do ataque.<\/p>\n<p>A primeira fase da revolu\u00e7\u00e3o foi ca\u00f3tica, com os negros atacando repentinamente os brancos, assassinando os senhores e suas fam\u00edlias, incendiando as propriedades e as cidades. Em meio a esse caos, os ingleses e os espanh\u00f3is se aproveitam para invadir partes da col\u00f4nia francesa. \u00c9 ent\u00e3o que, em 1794, emerge a figura de Toussaint Breda, que depois adotaria o sobrenome de L&#8217;Ouverture, um escravo de mais de 40 anos, que trabalhava como secret\u00e1rio de um propriet\u00e1rio mais esclarecido (o qual inclusive salvou do massacre). Toussaint, homem de intelig\u00eancia extraordin\u00e1ria (James o compara a Napole\u00e3o), foi alfabetizado em franc\u00eas erudito e latim, tendo a oportunidade de ler a obra do abade Raynal sobre a escravid\u00e3o no Caribe e os coment\u00e1rios de J\u00falio C\u00e9sar sobre a guerra contra os gauleses.<\/p>\n<p>Com este cabedal, e tamb\u00e9m o conhecimento dos ideais iluministas que guiaram a primeira fase da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, prop\u00f4s-se a liderar um ex\u00e9rcito de negros e constituir na col\u00f4nia um novo estado, irmanado \u00e0 Fran\u00e7a revolucion\u00e1ria. O ideal de Toussaint era um pa\u00eds unido \u00e0 Fran\u00e7a sob um regime democr\u00e1tico e politicamente igualit\u00e1rio, em que brancos e negros teriam direitos iguais. Com este ideal, ele chegou a ter a alian\u00e7a de Rigaud, l\u00edder dos mulatos, com o qual posteriormente rompeu e derrotou em batalha. Al\u00e9m de l\u00edder militar, Toussaint era tamb\u00e9m pol\u00edtico e administrador competente, capaz de conter os excessos vingan\u00e7a contra os brancos, conseguir a coopera\u00e7\u00e3o dos propriet\u00e1rios, atender as reivindica\u00e7\u00f5es dos negros, que deixaram de ser escravos, e negociar com outros pa\u00edses, como a Inglaterra e os Estados Unidos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>Desfecho da revolu\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p>A narrativa de James \u00e9 uma defesa apaixonada da luta dos explorados e oprimidos, mas n\u00e3o deixa de apontar, de maneira implac\u00e1vel, os erros e limites de seus l\u00edderes, de forma a servir de li\u00e7\u00e3o para as lutas dos trabalhadores em v\u00e1rios outros cen\u00e1rios. Toussaint pretendia manter a economia haitiana em funcionamento, e para isso n\u00e3o encontrou outra forma que n\u00e3o for\u00e7ar os ex-escravos a continuar trabalhando nas fazendas e engenhos, sob dire\u00e7\u00e3o dos propriet\u00e1rios remanescentes. Ele jamais deixou de acreditar na Fran\u00e7a e sua revolu\u00e7\u00e3o, sem perceber que, sob Napole\u00e3o, o regime caminhava para a estabiliza\u00e7\u00e3o e o estancamento das conquistas revolucion\u00e1rias.<\/p>\n<p>Em 1801, Napole\u00e3o enviou seu pr\u00f3prio cunhado a S\u00e3o Domingos, o general Leclerc, no comando de um ex\u00e9rcito que chegou a ter 34 mil soldados. Inquieto com a amea\u00e7a de retorno \u00e0 escravid\u00e3o, o sobrinho de Toussaint, chamado Mo\u00efse, comanda um ataque contra os brancos, pelo qual foi punido pelo tio. A puni\u00e7\u00e3o de Mo\u00efse criou um abismo de desconfian\u00e7a entre Toussaint e os negros, que passaram a achar que seu l\u00edder trabalhava pela restaura\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o. Toussaint acabou preso por Leclerc e enviado para a Fran\u00e7a, morrendo no c\u00e1rcere em 1803, sem jamais ser ouvido por Napole\u00e3o, a quem tentaria convencer da necessidade de manter a liberdade dos negros como condi\u00e7\u00e3o para manter a fidelidade da col\u00f4nia \u00e0 Fran\u00e7a.<\/p>\n<p>Enquanto isso, em S\u00e3o Domingos, os tenentes de Toussaint que permaneceram no comanndo do ex\u00e9rcito por ele formado, Dessalines, Christophe, Clairveaux, Maurepas, P\u00e9tion, conduzem uma guerra implac\u00e1vel contra Leclerc, que acabaria morrendo de febre em 1803, assim como parte de seu ex\u00e9rcito. A vit\u00f3ria final dos negros conduz ao massacre dos brancos e propriet\u00e1rios que restaram. A independ\u00eancia \u00e9 proclamada em 1804 por Dessalines e o pa\u00eds adota o nome de Haiti, que na l\u00edngua ind\u00edgena significa &#8220;lugar montanhoso&#8221;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>A hist\u00f3ria do Haiti at\u00e9 os dias de hoje<\/h2>\n<p>Logo ap\u00f3s a independ\u00eancia, o Haiti se viu cercado por um isolamento internacional compar\u00e1vel somente ao bloqueio que hoje pesa sobre Cuba. O exemplo da revolu\u00e7\u00e3o dos escravos, terr\u00edvel para os senhores de todo o continente, precisava ser combatido e cercado a qualquer custo, para garantir a paz dos dominadores. A economia regrediu para uma agricultura de subsist\u00eancia e a d\u00edvida para com a Fran\u00e7a sugou as riquezas do pa\u00eds durante d\u00e9cadas. Em 1913 o pa\u00eds foi invadido por fuzileiros estadunidenses. Entre 1957 e 1986 viveu sob a ditadura de Fran\u00e7ois Duvalier, apelidado &#8220;Papa Doc&#8221;, e seu filho Claude Duvalier, o &#8220;Baby Doc&#8221;, que governavam por meio dos esquadr\u00f5es da morte chamados &#8220;Tonton Macoutes&#8221;. Um dos l\u00edderes da resist\u00eancia \u00e0 ditadura, o padre Jean-Bertrand Aristide, foi presidente do pa\u00eds duas vezes desde ent\u00e3o. Tendo por fim capitulado ao neoliberalismo, acabou mesmo assim removido do poder pelos Estados Unidos, em 2004.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o, o pa\u00eds vive sob ocupa\u00e7\u00e3o estrangeira, com uma tropa da ONU liderada pelo Brasil, que cumpre assim vergonhosamente o papel de bra\u00e7o armado do imperialismo para oprimir a popula\u00e7\u00e3o miser\u00e1vel do Haiti e impedir suas lutas. No in\u00edcio de 2010 o Haiti foi v\u00edtima de um fort\u00edssimo terremoto, que destruiu a j\u00e1 prec\u00e1ria infra-estrutura do pa\u00eds, e em outubro deste ano alastrou-se uma epidemia de c\u00f3lera. O pa\u00eds mais pobre do hemisf\u00e9rio, o primeiro em que os trabalhadores protagonizaram uma revolu\u00e7\u00e3o que levaria \u00e0 independ\u00eancia, se ressente da falta de novos jacobinos e revolucion\u00e1rios que liderem seu povo contra a domina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/?p=257#indice\">\u25b2 voltar ao \u00edndice<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a name=\"titulo4\"><\/a><\/p>\n<h1>O trabalho escravo no brasil: a acumula\u00e7\u00e3o para a metr\u00f3pole e a resist\u00eancia dos trabalhadores negros<\/h1>\n<div id=\"node-261\">\n<div>\n<p>O objetivo desse texto \u00e9 abordar brevemente duas quest\u00f5es relativas ao trabalho escravo empregado no que hoje chamamos de Brasil: a utiliza\u00e7\u00e3o majorit\u00e1ria da renda auferida com o sistema escravista ( venda de escravos, produ\u00e7\u00e3o desse trabalho compuls\u00f3rio) para a acumula\u00e7\u00e3o na Europa &#8211; portanto, n\u00e3o se destinava a forma\u00e7\u00e3o de uma burguesia interna; e a rela\u00e7\u00e3o subjetiva do trabalhador escravo negro com a escravid\u00e3o.<\/p>\n<p>Partimos da compreens\u00e3o de que a escravid\u00e3o por aqui era parte do que o marxismo chama de acumula\u00e7\u00e3o primitiva do capital, ou seja, a produ\u00e7\u00e3o derivada do trabalho escravo n\u00e3o era destinada ao mercado interno, mas ao mercado europeu, servia a acumula\u00e7\u00e3o para a metr\u00f3pole. A combina\u00e7\u00e3o de venda de escravos, trabalho escravo e produ\u00e7\u00e3o voltada para a exporta\u00e7\u00e3o formam os elementos essenciais desse processo de acumula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A acumula\u00e7\u00e3o com o lucro resultante do com\u00e9rcio de escravos era fabulosa, constituindo-se como uma atividade econ\u00f4mica das mais lucrativas. Para se ter uma id\u00e9ia o escravo negro era um dos principais produtos de importa\u00e7\u00e3o do Brasil no final s\u00e9culo XVIII: &#8220;O ramo mais importante do com\u00e9rcio de importa\u00e7\u00e3o \u00e9, contudo, o tr\u00e1fico de escravos que nos vinham da costa de \u00c1frica: representa ele mais de uma quarta parte do valor total da importa\u00e7\u00e3o, ou seja, no per\u00edodo 1796-1804, acima de 10.000.000 de cruzados, quando o resto n\u00e3o alcan\u00e7ava 30.000.000&#8221;. Prado J\u00fanior (Hist\u00f3ria econ\u00f4mica do Brasil, p.116). Ainda segundo caio Prado J\u00fanior, no final do s\u00e9culo XVIII e in\u00edcio do XIX, o total de escravos que desembarcavam por aqui era cerca de 40.000 por ano. D\u00e1 para se ter id\u00e9ia do potencial do aumento do capital de comerciantes que se dedicavam ao tr\u00e1fico negreiro.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s taxas de lucro do que se produz com a utiliza\u00e7\u00e3o do trabalho escravo d\u00e1 para supor que eram elevad\u00edssimas. O fato de os escravos serem submetidos \u00e0s piores condi\u00e7\u00f5es de trabalho e de subsist\u00eancia faz com que o tempo do trabalho destinado \u00e0 satisfa\u00e7\u00e3o de suas necessidades (tempo de trabalho necess\u00e1rio) seja reduzido a um curto intervalo de tempo e consequentemente o tempo de trabalho excedente constitui quase a totalidade de sua jornada de trabalho que n\u00e3o raro ultrapassava 15 horas di\u00e1rias, incluindo s\u00e1bados, domingos e feriados.<\/p>\n<p>Ao com\u00e9rcio de homens e mulheres como escravos e a utiliza\u00e7\u00e3o em larga escala do trabalho escravo agrega o fato de que a produ\u00e7\u00e3o era de monocultura de mat\u00e9rias primas e que ela estava essencialmente voltada para a metr\u00f3pole onde servia para a forma\u00e7\u00e3o das fortunas. Ou seja, o que se produzia era voltado quase que exclusivamente para a exporta\u00e7\u00e3o. Esse era o &#8220;sentido da coloniza\u00e7\u00e3o&#8221;: &#8220;Se vamos \u00e0 ess\u00eancia de nossa forma\u00e7\u00e3o, veremos que na realidade nos constitu\u00edmos para fornecer a\u00e7\u00facar, tabaco, alguns outros g\u00eaneros; mais tarde ouro e diamante, depois, algod\u00e3o e em seguida caf\u00e9, para o com\u00e9rcio europeu. Nada mais que isso&#8221; (Caio Prado, Forma\u00e7\u00e3o do Brasil Contempor\u00e2neo: col\u00f4nia. p. 31-32)<\/p>\n<p>A expans\u00e3o ultramarina, portanto, n\u00e3o era resultado do desejo da Nobreza, mas uma necessidade hist\u00f3rica que se colocava para responder \u00e0s press\u00f5es econ\u00f4micas do novo sistema social que surgia das cinzas da sociedade feudal. Assim, essa rela\u00e7\u00e3o que a metr\u00f3pole estabeleceu com a col\u00f4nia portuguesa foi fundamental para a consolida\u00e7\u00e3o da acumula\u00e7\u00e3o primitiva do capital e foi a que deu bases para o financiamento do capitalismo industrial nos s\u00e9culos seguintes no continente europeu.<\/p>\n<p>O processo de acumula\u00e7\u00e3o do capital (assim como em outras de suas fases) ocorre em base a uma super explora\u00e7\u00e3o do trabalho, mas esse processo n\u00e3o aconteceu sem resist\u00eancia por parte dos trabalhadores negros escravizados. Historiadores apontam v\u00e1rias formas de resist\u00eancia, entre elas a que ficou mais conhecida pela complexidade de sua organiza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e social, os quilombos.<\/p>\n<p>H\u00e1, no entanto, historiadores que minimizam o processo de resist\u00eancia apontando que sequer a rela\u00e7\u00e3o entre senhores escravocratas e escravos era negociada e, portanto livre de viol\u00eancia. E mesmo quando havia alguma forma de viol\u00eancia essa era considerada como justa pelos pr\u00f3prios escravos, ou seja, os castigos eram como li\u00e7\u00f5es pedag\u00f3gicas. Uma das conclus\u00f5es que podemos tirar dessas concep\u00e7\u00f5es historiogr\u00e1ficas (reconhe\u00e7o que h\u00e1 diferen\u00e7as entre eles) \u00e9 que h\u00e1 uma acomoda\u00e7\u00e3o e aceita\u00e7\u00e3o por parte do escravo de sua condi\u00e7\u00e3o, ou seja, um escravo d\u00f3cil porque tem um senhor generoso. Prevalece nessa tese a coexist\u00eancia pac\u00edfica entre ambos.<\/p>\n<p>De acordo com essa concep\u00e7\u00e3o, por parte do escravo havia uma consensualidade na escravid\u00e3o, um acordo entre escravos e escravocratas. Esse consenso fazia com que o escravo pudesse se sentir n\u00e3o como instrumento, como coisa, mas como ser humano que se deixa levar pela passividade e aceita os des\u00edgnios de ser submetido \u00e0 escravid\u00e3o.<\/p>\n<p>O absurdo da tese consensualista est\u00e1 no fato de que entre o homem que escraviza e o escravizado h\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o contratual, com direitos e garantias para as duas partes. E como sabemos uma rela\u00e7\u00e3o contratual s\u00f3 pode ocorrer entre homens livres, o que de fato desmonta a tese do consenso. O uso do chicote para impor a vontade do escravocrata \u00e9 outro elemento que desmonta a tese de que havia qualquer forma de consenso entre senhores e escravos.<\/p>\n<p>Penso ser imposs\u00edvel, pelas necessidades da acumula\u00e7\u00e3o primitiva do capital, qualquer rela\u00e7\u00e3o de consensualidade ou mesmo de &#8220;pacto social&#8221; entre escravos e escravocratas. A viol\u00eancia (em todas as suas formas) ao extremo \u00e9 a explica\u00e7\u00e3o plaus\u00edvel para entendermos como um sistema de apropria\u00e7\u00e3o de trabalho alheio t\u00e3o cruel tenha durado tanto tempo. &#8220;Para explicar o car\u00e1ter repressivo e violento das rela\u00e7\u00f5es escravistas de produ\u00e7\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio compreender que o escravismo \u00e9 um sistema de produ\u00e7\u00e3o de mais-valia absoluta, sistema esse no qual a mercadoria aparece imediata e explicitamente como produto da for\u00e7a de trabalho alienada. Ali\u00e1s, o escravo \u00e9 duplamente alienado, como pessoa, enquanto propriedade do senhor, e em sua for\u00e7a de trabalho, faculdade sobre a qual n\u00e3o pode ter comando. O escravo \u00e9 obrigado a produzir muito al\u00e9m do que recebe para viver e reproduzir-se; e n\u00e3o disp\u00f5e de condi\u00e7\u00f5es para negociar, nem o uso da sua for\u00e7a de trabalho, nem a si mesmo. Esse \u00e9 o fundamento do car\u00e1ter repressivo e violento do escravismo&#8221; Oct\u00e1vio Ianni.<\/p>\n<p>Para Gorender, o que havia era uma adapta\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o quer dizer passividade. No processo de resist\u00eancia (que se manifestava em diversos aspectos da vida social) a &#8220;adapta\u00e7\u00e3o para seguir sobrevivendo&#8221; tornava-se uma forma de resist\u00eancia. Mesmo que tenham nascido e morrido na condi\u00e7\u00e3o de escravos isso n\u00e3o quer dizer que tenham aceitado tal condi\u00e7\u00e3o. Essa resist\u00eancia, por exemplo, podia se manifestar no relaxamento no trabalho, trato danoso para com os animais das fazendas, a sabotagem, etc. Para esse autor, a resist\u00eancia era parte ativa do cotidiano dos escravos. Essa forma de resist\u00eancia n\u00e3o se tratava exatamente de uma escolha, mas o que em muitos casos era o poss\u00edvel diante das condi\u00e7\u00f5es objetivas impostas, uma vez que a elite colonial brasileira impunha aos escravos uma severa repress\u00e3o a toda forma de rebeli\u00e3o. Assim, a adapta\u00e7\u00e3o n\u00e3o era uma acomoda\u00e7\u00e3o, mas uma forma de resist\u00eancia poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Destaco essa forma de resist\u00eancia para ressaltar que a luta dos escravos contra a sua condi\u00e7\u00e3o era permanente e cotidiana. Mas tamb\u00e9m merecem destaque todas as formas de resist\u00eancia, em especial a que se organizava nos quilombos e ainda mais especial a dos Palmares, que questionava n\u00e3o s\u00f3 a escravid\u00e3o, mas que colocou em xeque todo o modelo econ\u00f4mico implementado pela Coroa. Por isso o \u00f3dio particular da elite escravocrata brasileira contra esses resistentes quilombolas.<\/p>\n<p>\u00c9 importante compreender e dar valor a todos esses processos de resist\u00eancia porque significa que entendemos que se o sistema escravocrata, pelas condi\u00e7\u00f5es objetivas, conseguiu coisificar o seu ser social, gra\u00e7as a resist\u00eancia que os milh\u00f5es de escravos exerceram durante todos esses anos, os senhores escravocratas n\u00e3o conseguiram coisificar a sua subjetividade.<\/p>\n<p>Gra\u00e7as a essa subjetividade os escravos conseguiram continuar as suas lutas e essas mesmas lutas que os escravos travaram durante s\u00e9culos conquistaram o fim do trabalho compuls\u00f3rio. Mas sabemos que isso n\u00e3o significou o fim das condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias de vida, pelo contr\u00e1rio, v\u00e1rios aspectos de nossa vida denunciam que a verdadeira liberdade do trabalho ainda est\u00e1 por vir. E isso s\u00f3 vai acontecer quando n\u00f3s trabalhadores conquistarmos o fim da escravid\u00e3o assalariada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>As palavras como reprodu\u00e7\u00e3o do preconceito<\/h2>\n<p>Os temas relativos ao racismo e a escravid\u00e3o s\u00e3o muito sens\u00edveis porque neles, se por um lado significa poder conhecer o papel dos trabalhadores negros e suas lutas pela liberta\u00e7\u00e3o, por outro lado tamb\u00e9m nos deparamos com pr\u00e1ticas que s\u00e3o preconceituosas e at\u00e9 racistas. A hist\u00f3ria brasileira que aparece nos livros, meios de comunica\u00e7\u00e3o, etc \u00e9 aquela forjada pela classe dominante branca, da qual a ideologia dominante imp\u00f5e sobre todos n\u00f3s modos de agir que em muitas ocasi\u00f5es terminamos por utilizar palavras e express\u00f5es que reproduzem a id\u00e9ia de que tudo que \u00e9 preto ou negro sempre est\u00e1 associado a algo ruim ou negativo.<\/p>\n<p>As palavras t\u00eam um significado que foi sendo constru\u00eddo historicamente e essa constru\u00e7\u00e3o, via de regra, obedece a interesses pol\u00edtico ideol\u00f3gicos da classe dominante, uma vez que as palavras -assim como a linguagem- tamb\u00e9m se constituem como instrumento de domina\u00e7\u00e3o dos exploradores.<\/p>\n<p>A express\u00e3o &#8220;a coisa t\u00e1 preta&#8221; \u00e9 uma dessas em que logo se assemelha a situa\u00e7\u00f5es dif\u00edceis, ruins, seja na vida ou mesmo na situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do pa\u00eds. Poder\u00edamos tamb\u00e9m falar da express\u00e3o consagrada pelo filme Star Wars &#8220;o lado negro da for\u00e7a&#8221; utilizada como forma de exprimir que um dos personagens passou para o lado do mau.<\/p>\n<p>Outra palavra muito utilizada \u00e9 o verbo &#8220;denegrir&#8221;, geralmente utilizado para desqualificar a reputa\u00e7\u00e3o de algu\u00e9m e como o significado dela nos dicion\u00e1rios \u00e9 tornar negro, escuro; enegrecer, escurecer, logo \u00e9 feita a associa\u00e7\u00e3o negro e desqualifica\u00e7\u00e3o, negatividade se torna seu sin\u00f4nimo.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes at\u00e9 utilizamos essas palavras sem saber o seu significado e o papel que t\u00eam, de reproduzir a linguagem dos dominadores, mas \u00e9 preciso que fiquemos cada vez mais atentos para, na nossa pr\u00e1tica militante, n\u00e3o reproduzamos tais preconceitos. Esses s\u00e3o apenas alguns exemplos relativos \u00e0 quest\u00e3o racial. H\u00e1 outros termos que se referem a mulheres, homossexuais e etnias, express\u00f5es estas que tamb\u00e9m merecem a nossa repulsa.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p><a href=\"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/?p=257#indice\">\u25b2 voltar ao \u00edndice<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a name=\"titulo5\"><\/a><\/p>\n<h1 id=\"page-title\">O que produz e reproduz a escola?<\/h1>\n<div id=\"node-262\">\n<div>\n<p>Desde o momento em que nos propusemos a falar\/escrever sobre a Educa\u00e7\u00e3o e seus problemas, procuramos levar em considera\u00e7\u00e3o o contexto no qual estamos inseridos, sobretudo, a partir das \u00faltimas tr\u00eas d\u00e9cadas, per\u00edodo que nos evidencia a crise estrutural do capital, seus desdobramentos e a nacionaliza\u00e7\u00e3o dos preju\u00edzos das empresas, bancos e seus agentes, bem como o &#8220;custo&#8221; para retomar o crescimento e &#8220;sair da crise&#8221;.<\/p>\n<p>\u00c9 diante desse cen\u00e1rio que devemos pensar a Educa\u00e7\u00e3o P\u00fablica, pois a a\u00e7\u00e3o dos governos para atender aos interesses do capital se d\u00e1 tanto no sentido da obten\u00e7\u00e3o de incentivos fiscais e financeiros como no papel que a Educa\u00e7\u00e3o deve cumprir enquanto institui\u00e7\u00e3o na forma\u00e7\u00e3o de m\u00e3o-de-obra, na atenua\u00e7\u00e3o dos reflexos da crise, na conten\u00e7\u00e3o social e na elimina\u00e7\u00e3o de qualquer ideologia que questione o sistema e proponha um outro tipo de sociedade.<\/p>\n<p>As interven\u00e7\u00f5es de agentes econ\u00f4micos &#8211; Banco Mundial, FMI &#8211; na Educa\u00e7\u00e3o P\u00fablica brasileira come\u00e7aram a ocorrer nos anos 70\/80 atrav\u00e9s da implanta\u00e7\u00e3o de planos de ajustes econ\u00f4micos, de modo que se garantisse o pagamento dos empr\u00e9stimos tomados aos credores externos. N\u00e3o obstante, \u00e9 quando o mundo passa a ser atingido pela crise estrutural do capitalismo.<\/p>\n<p>As metas implementadas a partir da\u00ed e nas d\u00e9cadas seguintes sob alega\u00e7\u00e3o de se buscar efici\u00eancia na educa\u00e7\u00e3o, visava esconder o direcionamento em grande quantidade do dinheiro p\u00fablico para o pagamento da d\u00edvida aos organismos financeiros internacionais.<\/p>\n<p>Nos dias atuais, al\u00e9m do pagamento da d\u00edvida, os governos concedem incentivos fiscais e financeiros aos banqueiros e empres\u00e1rios, reduzindo drasticamente os investimentos nos servi\u00e7os sociais como sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, moradia, etc. Ao mesmo tempo, procuram esconder o n\u00e3o investimento nesses servi\u00e7os responsabilizando os funcion\u00e1rios p\u00fablicos pela falta de qualidade, sobretudo, na educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade.<\/p>\n<p>Dessa forma, os problemas da educa\u00e7\u00e3o e o papel cumprido por ela s\u00f3 podem ser entendidos a partir de uma an\u00e1lise s\u00f3cio-econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>Portanto, partimos do princ\u00edpio de que &#8220;(&#8230;) a escola, em cada momento hist\u00f3rico, constitui uma express\u00e3o e uma resposta \u00e0 sociedade na qual est\u00e1 inserida. Neste sentido, ela nunca \u00e9 neutra, mas sempre ideol\u00f3gica e politicamente comprometida&#8221;. (Gasparin. In Uma Did\u00e1tica para a Pedagogia Hist\u00f3rico-Cr\u00edtica, p. 1 e 2).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>Por que os empres\u00e1rios e banqueiros se interessam tanto pela educa\u00e7\u00e3o atualmente?<\/h2>\n<p>O Movimento &#8220;Todos Pela Educa\u00e7\u00e3o&#8221; expressa bem o interesse atual da burguesia em participar ativamente das discuss\u00f5es e implementa\u00e7\u00e3o de medidas na Educa\u00e7\u00e3o P\u00fablica brasileira. Esse movimento conta com a participa\u00e7\u00e3o de governos de diversas legendas partid\u00e1rias, ONG&#8217;S e grupos empresariais &#8211; Funda\u00e7\u00e3o Roberto Marinho, Funda\u00e7\u00e3o Ita\u00fa Social, Instituto Airton Sena, Funda\u00e7\u00e3o Bradesco, Grupo Gerdal, dentre outros.<\/p>\n<p>Essa preocupa\u00e7\u00e3o se d\u00e1 pelo fato de a classe dominante: primeiro, querer se consolidar e ampliar a sua pr\u00f3pria situa\u00e7\u00e3o de classe dominante; segundo, prevenir-se de uma poss\u00edvel rebeli\u00e3o das classes dominadas, ou seja, fazer com que os trabalhadores aceitem a desigualdade como algo natural e, portanto, a rebeli\u00e3o como uma loucura; terceiro, para que a escola forme uma m\u00e3o-de-obra que atenda suas necessidades enquanto detentora dos meios de produ\u00e7\u00e3o e; por \u00faltimo, assegurar seus incentivos fiscais e financeiros com o sucateamento dos servi\u00e7os p\u00fablicos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>Que tipo de m\u00e3o-de-obra o sistema quer?<\/h2>\n<p>Diante da crise estrutural na qual se encontra o sistema, marcada pela tend\u00eancia decrescente (queda) da taxa de lucro, dificultando a realiza\u00e7\u00e3o do ciclo reprodutivo do capital e produzindo momentos de crescimento, estagna\u00e7\u00e3o ou at\u00e9 mesmo de recess\u00e3o da economia, as empresas travam uma intensa competi\u00e7\u00e3o que visa reduzir o tempo entre produ\u00e7\u00e3o e consumo, o que culmina na gera\u00e7\u00e3o do descart\u00e1vel e do sup\u00e9rfluo. O capital necessita cada vez menos do trabalho est\u00e1vel e cada vez mais de formas diversificadas de trabalho tais como o trabalho parcial, terceirizado, que configurem uma m\u00e3o- de-obra barata, de reposi\u00e7\u00e3o \u00e1gil e flex\u00edvel que passa a ser explorada em determinados momentos de interesse e de acordo com as determina\u00e7\u00f5es do mercado. Dessa forma, a competitividade entre as empresas se d\u00e1 com a ado\u00e7\u00e3o do trabalho precarizado.<\/p>\n<p>Procura-se tamb\u00e9m com isso &#8220;(&#8230;) aumentar a produtividade de modo a intensificar as formas de extra\u00e7\u00e3o do sobre-trabalho em tempo cada vez mais reduzido&#8221;. (Antunes. In: Capitalismo, Trabalho e Educa\u00e7\u00e3o, p.40). Essa l\u00f3gica que \u00e9 aplicada na produ\u00e7\u00e3o de bens e servi\u00e7os, tamb\u00e9m se aplica aos servi\u00e7os p\u00fablicos e, no caso da educa\u00e7\u00e3o do Estado de S\u00e3o Paulo, se expressa nos professores contratados que se encontram na categoria &#8220;O&#8221;. Estes ser\u00e3o contratados por um ano e ficar\u00e3o obrigatoriamente fora da rede de ensino por 200 dias, depois dos quais podem voltar \u00e0 atividade e recome\u00e7ar este mesmo esquema.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>1. A escola diante desse contexto<\/h2>\n<p>Dentro dos ditames mercadol\u00f3gicos, a educa\u00e7\u00e3o deve se comprometer com uma incorpora\u00e7\u00e3o de t\u00e9cnicas e procedimentos normatizados de aprendizagem r\u00e1pida e f\u00e1cil. A reestrutura\u00e7\u00e3o curricular que ora assistimos visa atender a reestrutura\u00e7\u00e3o da economia mundial em crise.<\/p>\n<p>Dessa forma, procura-se ajustar a educa\u00e7\u00e3o a l\u00f3gica de mercado e ao mesmo tempo impor uma forma\u00e7\u00e3o sem cr\u00edtica e reflex\u00e3o, pois \u00e9 voltada para a adapta\u00e7\u00e3o, para a aliena\u00e7\u00e3o e para o conformismo, procurando dificultar &#8220;(&#8230;) a compreens\u00e3o da profundidade e perversidade da crise econ\u00f4mica- social, ideol\u00f3gica, \u00e9tico-pol\u00edtica do capitalismo real nesse fim de s\u00e9culo&#8221;. (Frigotto. In Pedagogia da Exclus\u00e3o: cr\u00edtica ao neoliberalismo em educa\u00e7\u00e3o, p.77) A imposi\u00e7\u00e3o e a centraliza\u00e7\u00e3o do curr\u00edculo produzem um t\u00e9dio constante, pois n\u00e3o abrem espa\u00e7o para a criatividade e inten\u00e7\u00f5es progressistas. Al\u00e9m disso, fazem aumentar os problemas disciplinares por n\u00e3o levarem em considera\u00e7\u00e3o a realidade das escolas e, &#8220;(&#8230;) a partir do momento em que elas se fazem cumprir, dividem os alunos entre uma minoria academicamente bem sucedida e uma maioria desacreditada&#8221;. (Connell. In: In Pedagogia da Exclus\u00e3o: cr\u00edtica ao neoliberalismo em educa\u00e7\u00e3o, p.27)<\/p>\n<p>A indisciplina tamb\u00e9m resulta do fato de a educa\u00e7\u00e3o cada vez mais ser utilizada como mecanismo de controle social, na medida em que os alunos s\u00e3o colocados dentro das escolas com a inten\u00e7\u00e3o de n\u00e3o exp\u00f4-los a criminalidade, para que n\u00e3o pratiquem atos criminosos e permitam a liberdade consumo. Esse papel cumprido pela educa\u00e7\u00e3o fica claro na medida em que os alunos s\u00e3o jogados nas escolas, sem nenhum atrativo, e cercados por grades que d\u00e3o um aspecto e um car\u00e1ter de pres\u00eddio ao lugar.<\/p>\n<p>\u00c9 o que assistimos na rede estadual de ensino do Estado de S\u00e3o Paulo, onde o professor n\u00e3o tem autonomia e \u00e9 pressionado a trabalhar o curr\u00edculo oficial desencadeando em muitas situa\u00e7\u00f5es de &#8220;Ass\u00e9dio Moral&#8221;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>2. E os professores?<\/h2>\n<p>Os professores, al\u00e9m de serem o tempo todo responsabilizados e culpados pelo fracasso escolar do aluno, sofrem com a intensifica\u00e7\u00e3o do trabalho provocada pela reestrutura\u00e7\u00e3o curricular, sendo expostos a situa\u00e7\u00f5es vexat\u00f3rias na medida em que s\u00e3o obrigados a colocar em pr\u00e1tica um curr\u00edculo, um programa que em nada tem a ver com a realidade de seu trabalho di\u00e1rio.<\/p>\n<p>S\u00e3o cobrados o tempo todo para se aperfei\u00e7oarem. &#8220;O mercado e seus porta- vozes governamentais querem um professor \u00e1gil, leve, flex\u00edvel, que a partir de uma forma\u00e7\u00e3o inicial ligeira e com baixo custo, aprimore sua qualifica\u00e7\u00e3o no exerc\u00edcio docente refletindo sobre sua pr\u00e1tica, apoiado eventualmente, por cursos r\u00e1pidos&#8221;. As novas pedagogias apresentam &#8220;(&#8230;) solu\u00e7\u00f5es m\u00e1gicas do tipo reflex\u00e3o sobre a pr\u00e1tica, rela\u00e7\u00f5es prazerosas, pedagogia do afeto, transversalidade dos conhecimentos e f\u00f3rmulas semelhantes que v\u00eam ganhando a cabe\u00e7a do professor&#8221;. (Saviani. In: Carta na Escola, p.66, maio\/2010)<\/p>\n<p>O professor, com isso, acha que o problema est\u00e1 em sua forma\u00e7\u00e3o, em sua pr\u00e1tica e se submete a essa pedagogia mercantil, se matando de estudar aos finais de semana, se auto-intensificando na medida em que \u00e9 cobrado a exercer suas fun\u00e7\u00f5es com o m\u00e1ximo de produtividade.<\/p>\n<p>No entanto, quando entram na sala de aula, essa forma\u00e7\u00e3o n\u00e3o ir\u00e1 surtir efeito algum, pois o problema n\u00e3o est\u00e1 na forma\u00e7\u00e3o do professor, e sim situa\u00e7\u00e3o das escolas e no papel que a Educa\u00e7\u00e3o P\u00fablica cumpre atualmente.<\/p>\n<p>Essa situa\u00e7\u00e3o est\u00e1 levando muitos professores a ficarem doentes, j\u00e1 que estes n\u00e3o se sentem (&#8230;) bem, mas infelizes, n\u00e3o desenvolvem livremente as energias f\u00edsicas e mentais, mas esgotam-se fisicamente e arru\u00ednam o esp\u00edrito&#8221;. (Marx. In: Manuscritos Econ\u00f4mico-Filos\u00f3ficos, p. 114)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>O que devemos fazer?<\/h2>\n<p>As sa\u00eddas para os nossos problemas devem ser tratadas de modo coletivo, pois n\u00e3o envolvem um ou outro professor, e sim o conjunto dos professores.<\/p>\n<p>A discuss\u00e3o sobre a qualidade do Ensino P\u00fablico deve ir al\u00e9m da esfera de atua\u00e7\u00e3o dos professores. Os trabalhadores de um modo geral devem participar ativamente nessa luta.<\/p>\n<p>\u00c9 necess\u00e1rio um processo educativo em sua plenitude, que tenha como um de seus princ\u00edpios uma nova forma de sociabilidade, que transcenda a sociedade de classes, possibilitando que os trabalhadores e seus filhos usufruam da riqueza espiritual e material produzido pelo processo civilizat\u00f3rio. Uma Educa\u00e7\u00e3o que vislumbre uma sociedade sem classes, fraternal, onde a escola em todos os n\u00edveis n\u00e3o pode ser prec\u00e1ria, uma sociedade Socialista, em que o nosso ensino defender\u00e1 exclusivamente os interesses dos trabalhadores!<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p><a href=\"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/?p=257#indice\">\u25b2 voltar ao \u00edndice<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a name=\"titulo6\"><\/a><\/p>\n<h1 id=\"page-title\">Tropa de Elite 2: vit\u00f3ria da viol\u00eancia<\/h1>\n<div id=\"node-263\">\n<p style=\"text-align: right;\">Daniel M. Delfino<\/p>\n<p>No cinema de Hollywood as continua\u00e7\u00f5es em geral seguem uma f\u00f3rmula t\u00edpica em que tudo aumenta de escala: a ambi\u00e7\u00e3o da trama, os desafios, o drama dos personagens, as reviravoltas no roteiro, os efeitos especiais, as cenas de a\u00e7\u00e3o, etc. O segundo &#8220;Tropa de Elite&#8221; segue esta f\u00f3rmula e tamb\u00e9m amplia suas ambi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O primeiro epis\u00f3dio tinha como alvo ideol\u00f3gico a &#8220;consci\u00eancia social&#8221; da pequena-burguesia universit\u00e1ria, que milita em ONGs, \u00e9 &#8220;amiga dos pobres&#8221; e consome maconha. No discurso do filme, o usu\u00e1rio de drogas \u00e9 o culpado pela viol\u00eancia, pois \u00e9 o seu dinheiro que financia o tr\u00e1fico, e que arma os traficantes, com as mesmas armas com as quais se cometem os demais crimes. Para proteger &#8220;a sociedade&#8221; contra o crime, prossegue o filme, uma pol\u00edcia comum n\u00e3o serve, pois a PM \u00e9 na verdade s\u00f3cia do crime, por meio da corrup\u00e7\u00e3o. A solu\u00e7\u00e3o \u00e9 o BOPE, uma tropa de elite selecionada por meio de m\u00e9todos extremos de treinamento, capaz de desbaratar qualquer quadrilha por meio de t\u00e9cnicas de tortura e de guerra dignas de qualquer filme de Rambo. Para completar, o &#8220;bandido&#8221; \u00e9 apresentado como uma ra\u00e7a \u00e0 parte dos demais seres humanos, os &#8220;cidad\u00e3os de bem&#8221;, n\u00e3o como uma categoria social produzida por rela\u00e7\u00f5es sociais espec\u00edficas, e como tal pode ser torturado e morto pelos &#8220;mocinhos&#8221; da hist\u00f3ria sem qualquer sombra de remorso.<\/p>\n<p>Ainda que tivesse alguma pretens\u00e3o cr\u00edtica por expor as entranhas da corrup\u00e7\u00e3o policial ou mesmo a destrui\u00e7\u00e3o da vida pessoal do capit\u00e3o do BOPE (que se torna ele pr\u00f3prio usu\u00e1rio de drogas &#8211; estas legalizadas &#8211; fornecidas com receita de tratamento psiqui\u00e1trico), o primeiro filme acaba funcionando como uma apologia dos m\u00e9todos extremos da repress\u00e3o. A quest\u00e3o fundamental, que \u00e9 a proibi\u00e7\u00e3o do uso de drogas, nem sequer \u00e9 mencionada. Se o consumo de drogas n\u00e3o fosse ilegal, n\u00e3o haveria a necessidade de reprimir o tr\u00e1fico, e n\u00e3o haveria quadrilhas armadas de traficantes aterrorizando a periferia das grandes cidades, e conseq\u00fcentemente n\u00e3o haveria a guerra entre traficantes, policiais corruptos e o BOPE. Certamente haveria um aumento do n\u00famero de dependentes e de problemas para o sistema p\u00fablico de sa\u00fade, e haveria outros crimes a serem explorados pelo lumpesinato; entretanto, a letalidade social da proibi\u00e7\u00e3o ao uso de drogas, com seu corol\u00e1rio de viol\u00eancia, corrup\u00e7\u00e3o e terror \u00e9 muito maior. A s\u00e9rie &#8220;Tropa de Elite&#8221; n\u00e3o discute essas possibilidades, tratando a proibi\u00e7\u00e3o do uso de drogas como um fato dado e absoluto, um pressuposto imut\u00e1vel, e em cima disso constr\u00f3i sua hierarquia de valores morais, de certo e errado, mocinhos e bandidos.<\/p>\n<p>O resultado \u00e9 uma apologia mais ou menos disfar\u00e7ada da repress\u00e3o, da guerra social, do exterm\u00ednio de favelados, negros, nordestinos, desempregados, pelo crime de serem pobres. O her\u00f3i do cinema brasileiro n\u00e3o \u00e9 mais o bandido, o cangaceiro, express\u00e3o est\u00e9tica de uma &#8220;consci\u00eancia social&#8221; anterior, tamb\u00e9m pequeno-burguesa e limitada, que glamourizava a resist\u00eancia social dos pobres contra a repress\u00e3o do Estado, como forma de aliviar a consci\u00eancia pesada dessa camada social com a mis\u00e9ria brasileira, mas que n\u00e3o avan\u00e7ava para a defesa de mudan\u00e7as profundas no regime social. Essa consci\u00eancia foi tornada antiquada e a pequena-burguesia foi posta contra a parede. O novo her\u00f3i do cinema nacional \u00e9 o policial dur\u00e3o, estilo John Mclaine, da s\u00e9rie &#8220;Duro de Matar&#8221;, em vers\u00e3o brasileira.<\/p>\n<p>O novo epis\u00f3dio tamb\u00e9m n\u00e3o avan\u00e7a para um questionamento mais profundo sobre as causas do problema da viol\u00eancia. Logo no in\u00edcio, quando o BOPE est\u00e1 se preparando para debelar uma rebeli\u00e3o em um pres\u00eddio, o nosso &#8220;her\u00f3i&#8221;, o agora Coronel Nascimento, diz que o que impede a pol\u00edcia de acabar de vez com o crime s\u00e3o os &#8220;intelectuais de esquerda que ganham a vida defendendo vagabundo&#8221;. O uso da express\u00e3o &#8220;vagabundo&#8221; n\u00e3o deixa margem de d\u00favidas quanto \u00e0 ideologia que est\u00e1 sendo destilada. O criminoso \u00e9 chamado de &#8220;vagabundo&#8221;, um adjetivo negativo que tem o significado de pessoa que n\u00e3o quer trabalhar. Logo, o criminoso n\u00e3o se torna criminoso por uma s\u00e9rie de outras raz\u00f5es, mas simplesmente porque n\u00e3o quis trabalhar. Est\u00e1 subentendida nesse discurso a id\u00e9ia de que, se o vagabundo quisesse trabalhar honestamente, ele poderia. Est\u00e1 expresso a\u00ed com todas as cores o brutal cinismo da ideologia burguesa, que explica as desigualdades sociais pelo m\u00e9rito individual, que separa implacavelmente os vencedores dos perdedores.<\/p>\n<p>O desemprego, o subemprego, o trabalho superexplorado, a mis\u00e9ria e a aliena\u00e7\u00e3o em que vivem milh\u00f5es de trabalhadores nas periferias s\u00e3o tomados tamb\u00e9m como pressupostos imut\u00e1veis, e tamb\u00e9m como se n\u00e3o tivessem nenhuma rela\u00e7\u00e3o causal com a facilidade do neg\u00f3cio capitalista do tr\u00e1fico, um mercado como outro qualquer, de recrutar seus avi\u00f5ezinhos, soldados e gerentes de boca, prolet\u00e1rios do neg\u00f3cio do tr\u00e1fico, e seus chefes sanguin\u00e1rios, seus Beiradas, Baianos e Beira-mares, empreendedores capitalistas associados aos banqueiros encarregados da lavagem de dinheiro e aos pol\u00edticos e magistrados encarregados de deix\u00e1-los tocar suas atividades, dentro ou fora da cadeia, em troca de propina. Combater o crime por meio da viol\u00eancia policial, ou por meio de ONGs assistencialistas, sem combater as suas causas, que est\u00e3o na mis\u00e9ria social e no pr\u00f3prio sistema capitalista, \u00e9 como enxugar gelo.<\/p>\n<p>O processo social que alimenta a continuidade dos neg\u00f3cios criminosos e da guerra associada a ele permanece oculto ou intocado no 2\u00ba epis\u00f3dio de &#8220;Tropa de Elite&#8221;, que come\u00e7a com a cena de rebeli\u00e3o no pres\u00eddio, quando o Coronel Nascimento diz que os &#8220;vagabundos&#8221; deveriam ser deixados \u00e0 pr\u00f3pria sorte, para que se matassem todos. A inten\u00e7\u00e3o do Coronel, que expressa o desejo da consci\u00eancia burguesa e pequeno-burguesa em rela\u00e7\u00e3o aos &#8220;perdedores&#8221; da corrida social, era deixar os seus &#8220;caveiras&#8221; entrarem em cena apenas depois que os &#8220;vagabundos&#8221; rebelados tivessem exterminado seus rivais de outras fac\u00e7\u00f5es, para exterminar por sua vez os que tivessem restado. Entretanto, ele foi atrapalhado em suas inten\u00e7\u00f5es pelo &#8220;intelectual de esquerda&#8221;, um professor universit\u00e1rio e ativista dos direitos humanos que se disp\u00f5e a negociar a liberta\u00e7\u00e3o dos ref\u00e9ns e o fim da rebeli\u00e3o.<\/p>\n<p>Temos ent\u00e3o, com a presen\u00e7a do ativista de direitos humanos Diogo Fraga o salto de qualidade deste &#8220;Tropa de Elite&#8221;. Esp\u00e9cie de concess\u00e3o \u00e0 cr\u00edtica, que malhou o primeiro filme por seu conte\u00fado explicitamente de direita, na maior parte das vezes como eco daquela consci\u00eancia pequeno- burguesa habituada \u00e0s f\u00f3rmulas antigas do cinema nacional, e poucas vezes com real conhecimento de causa, a atua\u00e7\u00e3o do personagem de Fraga fornece uma esp\u00e9cie de contraponto ao discurso belicoso de Nascimento. Pela voz do Coronel, o militante \u00e9 ridicularizado desde o in\u00edcio (apelidado de &#8220;Che Guevara&#8221;, esp\u00e9cie de deboche com os militantes de esquerda em geral), ainda mais pelo fato de ter se casado com sua ex-mulher e estar educando seu filho. Al\u00e9m disso, ao passar de professor universit\u00e1rio a deputado estadual e da\u00ed a federal, Fraga \u00e9 tamb\u00e9m apresentado como algu\u00e9m que tem ambi\u00e7\u00f5es meramente eleitoreiras.<\/p>\n<p>Mesmo assim, conforme o Coronel, paradoxalmente promovido para o setor de Intelig\u00eancia da pol\u00edcia depois do incidente no pres\u00eddio, come\u00e7a a tomar conhecimento das ra\u00edzes profundas que unem a corrup\u00e7\u00e3o policial ao cora\u00e7\u00e3o do sistema pol\u00edtico, ele e o deputado Fraga acabam atuando em parceria para desbaratar uma quadrilha, uma das chamadas &#8220;mil\u00edcias&#8221;, na verdade um esquadr\u00e3o da morte de policiais corruptos que como uma m\u00e1fia havia se apossado de um dos bairros da cidade, na qual estavam unidos policiais corruptos, apresentadores de TV e a c\u00fapula da seguran\u00e7a p\u00fablica. Os dois personagens assim &#8220;se redimem&#8221; por meio da coopera\u00e7\u00e3o. O filme al\u00e7a ent\u00e3o uma tentativa de reflex\u00e3o mais ampla, em que o pr\u00f3prio Coronel, do alto da tribuna de uma CPI das mil\u00edcias, se questiona &#8220;por que a sociedade o preparou para matar?&#8221;.<\/p>\n<p>Nesse questionamento feito pelo filme aparecem epis\u00f3dios reais da hist\u00f3ria recente do Rio, como o roubo (farsesco, segundo o filme) das armas do ex\u00e9rcito, a equipe de reportagem torturada por integrantes da mil\u00edcia (mortos no filme), e a CPI das mil\u00edcias. O pr\u00f3prio Fraga \u00e9 constru\u00eddo em cima da hist\u00f3ria do deputado estadual Marcelo Freixo, do PSOL, que impulsionou a CPI na assembl\u00e9ia legislativa. L\u00e1 ele tem como advers\u00e1rio o apresentador de TV Wagner Montes, que como o apresentador do filme, defende a pol\u00edtica de &#8220;toler\u00e2ncia zero&#8221; com &#8220;bandidos&#8221; e &#8220;vagabundos&#8221;. Os dois foram reeleitos em 2010, o primeiro com votos da classe m\u00e9dia da zona sul, o segundo com os votos da popula\u00e7\u00e3o pobre dos morros. Um paradoxo que mereceria uma reflex\u00e3o mais aprofundada, pois constitui a chave para entender as dificuldades para combater a ideologia da viol\u00eancia entre suas pr\u00f3prias v\u00edtimas, ou seja, os trabalhadores mais pobres.<\/p>\n<p>A reflex\u00e3o do her\u00f3i do filme o leva, numa seq\u00fc\u00eancia em que a c\u00e2mera sobrevoa os pr\u00e9dios do Congresso Nacional, a deduzir que o &#8220;sistema&#8221; ao qual combateu durante toda a carreira de policial-her\u00f3i vai al\u00e9m da simples corrup\u00e7\u00e3o policial, e na verdade abrange as mais altas institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, tidas como inteiramente apodrecidas pela corrup\u00e7\u00e3o. As conclus\u00f5es aparentemente s\u00e3o deixadas para o espectador. Ele pode optar pelo m\u00e9todo de Fraga\/Freixo, ou pelo m\u00e9todo de Nascimento. O Coronel n\u00e3o deixa de estar certo ao sugerir que as institui\u00e7\u00f5es est\u00e3o corrompidas. Entretanto, quem o aplaude neste momento, como a burguesia que o aplaudiu no filme depois de ter comandado o massacre no pres\u00eddio, s\u00e3o aqueles que desejariam ver o Congresso Nacional fechado para que o pa\u00eds voltasse a ser comandado por &#8220;her\u00f3is virtuosos&#8221;. N\u00e3o surpreende que a Globo Filmes, bra\u00e7o cinematogr\u00e1fico da Rede Globo, imp\u00e9rio empresarial de m\u00eddia que nasceu e cresceu com a fun\u00e7\u00e3o de fornecer sustenta\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica para a ditadura de 1964, esteja entre os patrocinadores do filme.<\/p>\n<p>As institui\u00e7\u00f5es do Estado burgu\u00eas est\u00e3o mesmo corrompidas, assim como todas as rela\u00e7\u00f5es sociais no sistema capitalista, baseadas na viol\u00eancia, no roubo (de trabalho n\u00e3o-pago, fonte da mais-valia) e na mentira. A solu\u00e7\u00e3o \u00e9 a derrubada dessas institui\u00e7\u00f5es, n\u00e3o apenas por &#8220;Che Guevaras&#8221;, como os que s\u00e3o ironizados pelo Coronel do BOPE, mas pela a\u00e7\u00e3o organizada e consciente da classe trabalhadora.<\/p>\n<\/div>\n<p><a href=\"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/?p=257#indice\">\u25b2 voltar ao \u00edndice<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a name=\"titulo7\"><\/a><\/p>\n<h1 id=\"page-title\">A luta de classes na Fran\u00e7a e as tarefas colocadas para a classe trabalhadora<\/h1>\n<div id=\"node-264\">\n<div>\n<p>Atualmente a Fran\u00e7a assume novo protagonismo no cen\u00e1rio mundial, como pa\u00eds onde novamente a classe oper\u00e1ria ressurge e luta contra os ataques capitalistas, dando exemplo de luta e das dimens\u00f5es das tarefas que os lutadores e lutadoras do mundo ter\u00e3o que cumprir.<\/p>\n<p>Desde o an\u00fancio de Sarkozy acerca do plano de austeridade &#8211; plano este que aumenta a idade m\u00ednima para a aposentadoria de 60 para 62 anos; os anos de contribui\u00e7\u00e3o para receber a aposentadoria integral sobem de 40,5 para 41 em 2012, e para 41,3 em 2013; e ainda a idade para receber aposentadoria integral passa de 65 para 67 anos -, trabalhadores e estudantes sa\u00edram \u00e0s ruas para barrar este ataque aos direitos dos trabalhadores e trabalhadoras da Fran\u00e7a.<\/p>\n<p>Escolas, universidades, refinarias foram ocupadas por trabalhadores e estudantes nas \u00faltimas semanas. Carros e \u00f4nibus foram queimados e as ruas de Paris, por vezes, apareceram para o mundo como verdadeiros campos de batalha &#8211; o que deixou estarrecida uma parte da burguesia que ainda n\u00e3o esqueceu os idos de 2005 e 2006, quando a juventude francesa lutou contra a repress\u00e3o racista e xenof\u00f3bica da pol\u00edcia francesa e no ano seguinte contra o Contrato do Primeiro Emprego (Contrat Premi\u00e8re Embauche &#8211; CPE).<\/p>\n<p>O plano de austeridade &#8211; plano de conten\u00e7\u00e3o de gastos dos Estados &#8211; anunciado e aprovado pelo senado franc\u00eas no dia 22\/10, n\u00e3o aparece no cen\u00e1rio europeu como especificidade francesa, mas antes como parte do processo de recupera\u00e7\u00e3o de danos e reposi\u00e7\u00e3o de recursos dos Estados europeus, recursos que no auge da crise econ\u00f4mica iniciada em 2008 foram despendidos aos bilh\u00f5es para salvar bancos e empresas da fal\u00eancia.<\/p>\n<p>Agora os capitalistas, por meio dos Estados nacionais, mandam a conta da farra para os trabalhadores pagarem. A conten\u00e7\u00e3o de gastos p\u00fablicos por meio de reformas na previd\u00eancia, redu\u00e7\u00e3o de investimentos sociais, aumentos na carga tribut\u00e1ria, redu\u00e7\u00e3o de postos de trabalho e sal\u00e1rio, entre outras, tem sido fato comum \u00e0 maior parte dos Estados, que comp\u00f5em ou n\u00e3o a zona do euro, com impacto redobrado sobre os elos mais fr\u00e1geis da Europa Ocidental.<\/p>\n<p>No in\u00edcio de junho, a Alemanha anunciou o seu plano de austeridade, com cortes de investimentos sociais, direitos trabalhistas e aumento de impostos. Desde o an\u00fancio de Angela Merkel, v\u00e1rios pa\u00edses europeus tamb\u00e9m come\u00e7aram a apresentar seus planos de austeridade para &#8220;equilibrar&#8221; as contas p\u00fablicas. Depois da Alemanha, a Gr\u00e9cia anunciou seu pacote de maldades, que tamb\u00e9m teve uma enorme demonstra\u00e7\u00e3o de for\u00e7a por parte dos trabalhadores gregos, e a seguir, Portugal, Espanha, Gr\u00e3-Bretanha, entre outros, somam-se \u00e0 lista de pa\u00edses que lan\u00e7am o saldo da crise sobre os trabalhadores.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>As grandes revoltas na Europa e a necessidade da reconstru\u00e7\u00e3o da alternativa socialista<\/h2>\n<p>Calcula-se que na Fran\u00e7a, a cada protesto participavam cerca de 3,5 milh\u00f5es de trabalhadores e estudantes; 70% da popula\u00e7\u00e3o estava contra o plano de austeridade e a favor dos protestos; e tudo isso intensificado pelo processo crescente de radicaliza\u00e7\u00e3o dos m\u00e9todos de luta de trabalhadores e estudantes, que paralisaram escolas, aeroportos, rodovias, refinarias, etc, deixando o pa\u00eds quase sem gasolina, e enfrentaram com bravura nas ruas a repress\u00e3o de Sarkozy.<\/p>\n<p>Apesar de o plano ter sido aprovado pelo senado Franc\u00eas, trabalhadores e estudantes deram o exemplo de como lutar contra os ataques que t\u00eam se espalhado pela Europa e que provavelmente atingir\u00e3o outros pa\u00edses como o Brasil &#8211; com a reforma da previd\u00eancia anunciada na campanha de Dilma &#8211; e a maioria dos Estados que gastaram seus recursos no resgate de bancos e empresas durante a crise.<\/p>\n<p>Fica claro que hoje emerge novamente a necessidade da reconstru\u00e7\u00e3o da alternativa socialista em todo o mundo, pois mesmo com intensas lutas como as da Gr\u00e9cia e Fran\u00e7a, n\u00e3o poderemos sair plenamente vitoriosos enquanto persistir a falta de uma resposta ofensiva e n\u00e3o apenas defensiva da classe trabalhadora, que recoloque no panorama atual o socialismo como \u00fanico projeto de supera\u00e7\u00e3o n\u00e3o apenas da crise econ\u00f4mica, mas da crise societal contempor\u00e2nea. E para que isso ocorra, faz-se necess\u00e1rio a reconstru\u00e7\u00e3o e o esfor\u00e7o de unidade da esquerda revolucion\u00e1ria, e o rompimento com pol\u00edticas reformistas &#8211; como as da CGT na Fran\u00e7a -, para dar novos rumos \u00e0s revoltas trabalhistas e fazer ressurgir como alternativa real e \u00fanica vi\u00e1vel o socialismo.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p><a href=\"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/?p=257#indice\">\u25b2 voltar ao \u00edndice<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Leia as mat\u00e9rias online: Dilma governar\u00e1 para quem? 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