{"id":260,"date":"2010-11-17T22:02:05","date_gmt":"2010-11-18T00:02:05","guid":{"rendered":"http:\/\/espacosocialista.org\/?q=node\/260"},"modified":"2013-01-19T18:53:56","modified_gmt":"2013-01-19T20:53:56","slug":"a-revolucao-dos-jacobinos-negros-no-haiti","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/2010\/11\/a-revolucao-dos-jacobinos-negros-no-haiti\/","title":{"rendered":"A revolu\u00e7\u00e3o dos &#8220;jacobinos negros&#8221; no Haiti"},"content":{"rendered":"<h2>\n\tA revolu&ccedil;&atilde;o dos &quot;jacobinos negros&quot; no Haiti<\/h2>\n<p>\n\t&Eacute; parte fundamental da luta dos trabalhadores negros a tarefa de reconstituir a hist&oacute;ria de resist&ecirc;ncia contra os s&eacute;culos de escravid&atilde;o, explora&ccedil;&atilde;o e opress&atilde;o. Ao contr&aacute;rio do que &eacute; normalmente veiculado, os negros jamais aceitaram passivamente o processo de serem raptados na &Aacute;frica, vendidos como escravos, tratados como animais e explorados durante s&eacute;culos nas Am&eacute;ricas. In&uacute;meras formas de resist&ecirc;ncia foram praticadas, desde as sa&iacute;das individuais desesperadas, como os suic&iacute;dios, fugas, assassinato de capatazes, senhores e autoridades, sa&iacute;das &quot;por dentro do sistema&quot; como a compra da liberdade atrav&eacute;s de cartas de alforria, at&eacute; as formas coletivas, como as rebeli&otilde;es, fugas em massa, quilombos e a revivesc&ecirc;ncia das religi&otilde;es, dos costumes e da cultura africanas.<\/p>\n<p>\n\tNo Brasil subsistem in&uacute;meras comunidades de remanescentes quilombolas, herdeiros da resist&ecirc;ncia de seus ancestrais contra a escravid&atilde;o. O mais famoso epis&oacute;dio de resist&ecirc;ncia contra a escravid&atilde;o e tamb&eacute;m o mais at&iacute;pico dos quilombos, pelo seu tamanho, longa dura&ccedil;&atilde;o e hero&iacute;smo de sua guerra contra os escravistas, foi o quilombo dos Palmares (1597-1695), cuja mem&oacute;ria do principal l&iacute;der, Zumbi, &eacute; celebrada no dia 20 de Novembro, dia nacional da consci&ecirc;ncia negra.<\/p>\n<p>\n\tFora do Brasil, um dos mais marcantes epis&oacute;dios da luta dos negros foi a revolu&ccedil;&atilde;o haitiana. O jornalista e militante negro Cyril Lionel Robert James (1901-1989), nascido no Caribe e tendo vivido a maior parte na Inglaterra e Estados Unidos, publicou em 1938 um cl&aacute;ssico da historiografia marxista intitulado &quot;Os Jacobinos Negros&quot;, que narra a hist&oacute;ria da luta dos negros haitianos contra a escravid&atilde;o e o dom&iacute;nio colonial e a trajet&oacute;ria de seus principais l&iacute;deres. A obra de C.L.R. James faz uma an&aacute;lise rigorosamente marxista e cient&iacute;fica das classes e fra&ccedil;&otilde;es de classes da sociedade haitiana, suas aspira&ccedil;&otilde;es e ideologias, e suas rela&ccedil;&otilde;es com o mundo colonial, no momento em que o capitalismo experimentava a Revolu&ccedil;&atilde;o Industrial na Inglaterra e a Revolu&ccedil;&atilde;o Francesa.<\/p>\n<h3>\n\tBreve hist&oacute;ria do Haiti<\/h3>\n<p>\n\tO Haiti se localiza na parte ocidental da ilha de S&atilde;o Domingos (inicialmente batizada de Hispaniola por Colombo), com uma &aacute;rea territorial coincidentemente quase id&ecirc;ntica ao do Estado de Alagoas, em que existiu o quilombo de Palmares. A parte oriental forma a Rep&uacute;blica Dominicana. A ilha de S&atilde;o Domingos foi inicialmente uma col&ocirc;nia espanhola, onde j&aacute; em 1560, no primeiro engenho de cana de a&ccedil;&uacute;car, de propriedade do governador Diego Colombo, filho do navegador, aconteceu a primeira revolta de escravos. Depois do massacre dos povos origin&aacute;rios, de etnia arauaque e taino, as mesmas que habitavam o restante das ilhas do mar do Caribe, estabeleceu-se uma pr&oacute;spera col&ocirc;nia de &quot;plantation&quot;, especializada na produ&ccedil;&atilde;o de cana de a&ccedil;&uacute;car, com base no trabalho escravo de negros africanos.<\/p>\n<p>\n\tEm fins do s&eacute;culo XVII, piratas franceses, em sua maioria origin&aacute;rios da regi&atilde;o da Normandia, come&ccedil;am a se estabelecer na parte ocidental de S&atilde;o Domingos, a partir de suas bases na lend&aacute;ria ilha de Tortuga, esp&eacute;cie de capital da pirataria no Atl&acirc;ntico. A l&iacute;ngua hoje falada no Haiti, o &quot;cr&eacute;ole&quot;, tem origem em grande parte no dialeto normando. Em 1697 foi assinado um tratado entre as coroas da Espanha e da Fran&ccedil;a, reconhecendo a soberania dos franceses sobre o territ&oacute;rio que mais tarde constituiria o Haiti.<\/p>\n<p>\n\tAo longo do s&eacute;culo XVIII a riqueza da col&ocirc;nia francesa cresce enormemente, a ponto de se tornar respons&aacute;vel por dois ter&ccedil;os do com&eacute;rcio exterior franc&ecirc;s. Os propriet&aacute;rios de S&atilde;o Domingos acumulam uma riqueza gigantesca, compar&aacute;vel a dos nobres na metr&oacute;pole. Por volta da d&eacute;cada de 1790, a col&ocirc;nia francesa contava com uma popula&ccedil;&atilde;o de cerca de 500 mil escravos negros, contra pouco mais de 30 mil brancos. Havia tamb&eacute;m alguns milhares de negros libertos, mulatos e mesti&ccedil;os, que chegaram a gozar dos direitos de homens livres, e tamb&eacute;m do direito de possuir por sua vez propriedades e escravos. Quando eclode a Revolu&ccedil;&atilde;o em 1789, os propriet&aacute;rios na col&ocirc;nia, brancos e mulatos, v&ecirc;em a oportunidade da independ&ecirc;ncia em rela&ccedil;&atilde;o ao dom&iacute;nio franc&ecirc;s. Entretanto, os escravos tinham outros planos&#8230;<\/p>\n<h3>\n\tA revolta dos escravos e seus l&iacute;deres<\/h3>\n<p>\n\tUm dos tra&ccedil;os caracter&iacute;sticos do regime escravista na S&atilde;o Domingos francesa era a crueldade, tra&ccedil;o bastante ressaltado por James. Os constantes abusos, maus-tratos, castigos, torturas e mortes de escravos criavam um clima de &oacute;dio e revolta explosivos. Quando o governo revolucion&aacute;rio na metr&oacute;pole proclama a liberta&ccedil;&atilde;o dos escravos nas col&ocirc;nias, os propriet&aacute;rios estavam mais preocupados com suas rivalidades internas, pois os mulatos queriam reaver os direitos que lhes haviam sido recentemente cassados, o que os brancos tentavam impedir. Os negros se aproveitaram disso e iniciaram uma rebeli&atilde;o, em 1791. O levante foi coordenado a partir dos rituais de vudu, cujos batuques ecoavam pelas florestas, unindo os negros nas senzalas aos seus irm&atilde;os nos quilombos, percorrendo toda a col&ocirc;nia e preparando o momento do ataque.<\/p>\n<p>\n\tA primeira fase da revolu&ccedil;&atilde;o foi ca&oacute;tica, com os negros atacando repentinamente os brancos, assassinando os senhores e suas fam&iacute;lias, incendiando as propriedades e as cidades. Em meio a esse caos, os ingleses e os espanh&oacute;is se aproveitam para invadir partes da col&ocirc;nia francesa. &Eacute; ent&atilde;o que, em 1794, emerge a figura de Toussaint Breda, que depois adotaria o sobrenome de L&#39;Ouverture, um escravo de mais de 40 anos, que trabalhava como secret&aacute;rio de um propriet&aacute;rio mais esclarecido (o qual inclusive salvou do massacre). Toussaint, homem de intelig&ecirc;ncia extraordin&aacute;ria (James o compara a Napole&atilde;o), foi alfabetizado em franc&ecirc;s erudito e latim, tendo a oportunidade de ler a obra do abade Raynal sobre a escravid&atilde;o no Caribe e os coment&aacute;rios de J&uacute;lio C&eacute;sar sobre a guerra contra os gauleses.<\/p>\n<p>\n\tCom este cabedal, e tamb&eacute;m o conhecimento dos ideais iluministas que guiaram a primeira fase da Revolu&ccedil;&atilde;o Francesa, prop&ocirc;s-se a liderar um ex&eacute;rcito de negros e constituir na col&ocirc;nia um novo estado, irmanado &agrave; Fran&ccedil;a revolucion&aacute;ria. O ideal de Toussaint era um pa&iacute;s unido &agrave; Fran&ccedil;a sob um regime democr&aacute;tico e politicamente igualit&aacute;rio, em que brancos e negros teriam direitos iguais. Com este ideal, ele chegou a ter a alian&ccedil;a de Rigaud, l&iacute;der dos mulatos, com o qual posteriormente rompeu e derrotou em batalha. Al&eacute;m de l&iacute;der militar, Toussaint era tamb&eacute;m pol&iacute;tico e administrador competente, capaz de conter os excessos vingan&ccedil;a contra os brancos, conseguir a coopera&ccedil;&atilde;o dos propriet&aacute;rios, atender as reivindica&ccedil;&otilde;es dos negros, que deixaram de ser escravos, e negociar com outros pa&iacute;ses, como a Inglaterra e os Estados Unidos.<\/p>\n<h3>\n\tDesfecho da revolu&ccedil;&atilde;o<\/h3>\n<p>\n\tA narrativa de James &eacute; uma defesa apaixonada da luta dos explorados e oprimidos, mas n&atilde;o deixa de apontar, de maneira implac&aacute;vel, os erros e limites de seus l&iacute;deres, de forma a servir de li&ccedil;&atilde;o para as lutas dos trabalhadores em v&aacute;rios outros cen&aacute;rios. Toussaint pretendia manter a economia haitiana em funcionamento, e para isso n&atilde;o encontrou outra forma que n&atilde;o for&ccedil;ar os ex-escravos a continuar trabalhando nas fazendas e engenhos, sob dire&ccedil;&atilde;o dos propriet&aacute;rios remanescentes. Ele jamais deixou de acreditar na Fran&ccedil;a e sua revolu&ccedil;&atilde;o, sem perceber que, sob Napole&atilde;o, o regime caminhava para a estabiliza&ccedil;&atilde;o e o estancamento das conquistas revolucion&aacute;rias.<\/p>\n<p>\n\tEm 1801, Napole&atilde;o enviou seu pr&oacute;prio cunhado a S&atilde;o Domingos, o general Leclerc, no comando de um ex&eacute;rcito que chegou a ter 34 mil soldados. Inquieto com a amea&ccedil;a de retorno &agrave; escravid&atilde;o, o sobrinho de Toussaint, chamado Mo&iuml;se, comanda um ataque contra os brancos, pelo qual foi punido pelo tio. A puni&ccedil;&atilde;o de Mo&iuml;se criou um abismo de desconfian&ccedil;a entre Toussaint e os negros, que passaram a achar que seu l&iacute;der trabalhava pela restaura&ccedil;&atilde;o da escravid&atilde;o. Toussaint acabou preso por Leclerc e enviado para a Fran&ccedil;a, morrendo no c&aacute;rcere em 1803, sem jamais ser ouvido por Napole&atilde;o, a quem tentaria convencer da necessidade de manter a liberdade dos negros como condi&ccedil;&atilde;o para manter a fidelidade da col&ocirc;nia &agrave; Fran&ccedil;a.<\/p>\n<p>\n\tEnquanto isso, em S&atilde;o Domingos, os tenentes de Toussaint que permaneceram no comanndo do ex&eacute;rcito por ele formado, Dessalines, Christophe, Clairveaux, Maurepas, P&eacute;tion, conduzem uma guerra implac&aacute;vel contra Leclerc, que acabaria morrendo de febre em 1803, assim como parte de seu ex&eacute;rcito. A vit&oacute;ria final dos negros conduz ao massacre dos brancos e propriet&aacute;rios que restaram. A independ&ecirc;ncia &eacute; proclamada em 1804 por Dessalines e o pa&iacute;s adota o nome de Haiti, que na l&iacute;ngua ind&iacute;gena significa &quot;lugar montanhoso&quot;.<\/p>\n<h3>\n\tA hist&oacute;ria do Haiti at&eacute; os dias de hoje<\/h3>\n<p>\n\tLogo ap&oacute;s a independ&ecirc;ncia, o Haiti se viu cercado por um isolamento internacional compar&aacute;vel somente ao bloqueio que hoje pesa sobre Cuba. O exemplo da revolu&ccedil;&atilde;o dos escravos, terr&iacute;vel para os senhores de todo o continente, precisava ser combatido e cercado a qualquer custo, para garantir a paz dos dominadores. A economia regrediu para uma agricultura de subsist&ecirc;ncia e a d&iacute;vida para com a Fran&ccedil;a sugou as riquezas do pa&iacute;s durante d&eacute;cadas. Em 1913 o pa&iacute;s foi invadido por fuzileiros estadunidenses. Entre 1957 e 1986 viveu sob a ditadura de Fran&ccedil;ois Duvalier, apelidado &quot;Papa Doc&quot;, e seu filho Claude Duvalier, o &quot;Baby Doc&quot;, que governavam por meio dos esquadr&otilde;es da morte chamados &quot;Tonton Macoutes&quot;. Um dos l&iacute;deres da resist&ecirc;ncia &agrave; ditadura, o padre Jean-Bertrand Aristide, foi presidente do pa&iacute;s duas vezes desde ent&atilde;o. Tendo por fim capitulado ao neoliberalismo, acabou mesmo assim removido do poder pelos Estados Unidos, em 2004.<\/p>\n<p>\n\tDesde ent&atilde;o, o pa&iacute;s vive sob ocupa&ccedil;&atilde;o estrangeira, com uma tropa da ONU liderada pelo Brasil, que cumpre assim vergonhosamente o papel de bra&ccedil;o armado do imperialismo para oprimir a popula&ccedil;&atilde;o miser&aacute;vel do Haiti e impedir suas lutas. No in&iacute;cio de 2010 o Haiti foi v&iacute;tima de um fort&iacute;ssimo terremoto, que destruiu a j&aacute; prec&aacute;ria infra-estrutura do pa&iacute;s, e em outubro deste ano alastrou-se uma epidemia de c&oacute;lera. O pa&iacute;s mais pobre do hemisf&eacute;rio, o primeiro em que os trabalhadores protagonizaram uma revolu&ccedil;&atilde;o que levaria &agrave; independ&ecirc;ncia, se ressente da falta de novos jacobinos e revolucion&aacute;rios que liderem seu povo contra a domina&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<h2>\n\tA revolu&ccedil;&atilde;o dos &quot;jacobinos negros&quot; no Haiti<\/h2>\n<p>\n\t&Eacute; parte fundamental da luta dos trabalhadores negros a tarefa de reconstituir a hist&oacute;ria de resist&ecirc;ncia contra os s&eacute;culos de escravid&atilde;o, explora&ccedil;&atilde;o e opress&atilde;o. Ao contr&aacute;rio do que &eacute; normalmente veiculado, os negros jamais aceitaram passivamente o processo de serem raptados na &Aacute;frica, vendidos como escravos, tratados como animais e explorados durante s&eacute;culos nas Am&eacute;ricas. In&uacute;meras formas de resist&ecirc;ncia foram praticadas, desde as sa&iacute;das individuais desesperadas, como os suic&iacute;dios, fugas, assassinato de capatazes, senhores e autoridades, sa&iacute;das &quot;por dentro do sistema&quot; como a compra da liberdade atrav&eacute;s de cartas de alforria, at&eacute; as formas coletivas, como as rebeli&otilde;es, fugas em massa, quilombos e a revivesc&ecirc;ncia das religi&otilde;es, dos costumes e da cultura africanas.<\/p>\n<p>\n\tNo Brasil subsistem in&uacute;meras comunidades de remanescentes quilombolas, herdeiros da resist&ecirc;ncia de seus ancestrais contra a escravid&atilde;o. O mais famoso epis&oacute;dio de resist&ecirc;ncia contra a escravid&atilde;o e tamb&eacute;m o mais at&iacute;pico dos quilombos, pelo seu tamanho, longa dura&ccedil;&atilde;o e hero&iacute;smo de sua guerra contra os escravistas, foi o quilombo dos Palmares (1597-1695), cuja mem&oacute;ria do principal l&iacute;der, Zumbi, &eacute; celebrada no dia 20 de Novembro, dia nacional da consci&ecirc;ncia negra.<\/p>\n<p>\n\tFora do Brasil, um dos mais marcantes epis&oacute;dios da luta dos negros foi a revolu&ccedil;&atilde;o haitiana. O jornalista e militante negro Cyril Lionel Robert James (1901-1989), nascido no Caribe e tendo vivido a maior parte na Inglaterra e Estados Unidos, publicou em 1938 um cl&aacute;ssico da historiografia marxista intitulado &quot;Os Jacobinos Negros&quot;, que narra a hist&oacute;ria da luta dos negros haitianos contra a escravid&atilde;o e o dom&iacute;nio colonial e a trajet&oacute;ria de seus principais l&iacute;deres. A obra de C.L.R. 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Depois do massacre dos povos origin&aacute;rios, de etnia arauaque e taino, as mesmas que habitavam o restante das ilhas do mar do Caribe, estabeleceu-se uma pr&oacute;spera col&ocirc;nia de &quot;plantation&quot;, especializada na produ&ccedil;&atilde;o de cana de a&ccedil;&uacute;car, com base no trabalho escravo de negros africanos.<\/p>\n<p>\n\tEm fins do s&eacute;culo XVII, piratas franceses, em sua maioria origin&aacute;rios da regi&atilde;o da Normandia, come&ccedil;am a se estabelecer na parte ocidental de S&atilde;o Domingos, a partir de suas bases na lend&aacute;ria ilha de Tortuga, esp&eacute;cie de capital da pirataria no Atl&acirc;ntico. A l&iacute;ngua hoje falada no Haiti, o &quot;cr&eacute;ole&quot;, tem origem em grande parte no dialeto normando. Em 1697 foi assinado um tratado entre as coroas da Espanha e da Fran&ccedil;a, reconhecendo a soberania dos franceses sobre o territ&oacute;rio que mais tarde constituiria o Haiti.<\/p>\n<p>\n\tAo longo do s&eacute;culo XVIII a riqueza da col&ocirc;nia francesa cresce enormemente, a ponto de se tornar respons&aacute;vel por dois ter&ccedil;os do com&eacute;rcio exterior franc&ecirc;s. Os propriet&aacute;rios de S&atilde;o Domingos acumulam uma riqueza gigantesca, compar&aacute;vel a dos nobres na metr&oacute;pole. Por volta da d&eacute;cada de 1790, a col&ocirc;nia francesa contava com uma popula&ccedil;&atilde;o de cerca de 500 mil escravos negros, contra pouco mais de 30 mil brancos. Havia tamb&eacute;m alguns milhares de negros libertos, mulatos e mesti&ccedil;os, que chegaram a gozar dos direitos de homens livres, e tamb&eacute;m do direito de possuir por sua vez propriedades e escravos. Quando eclode a Revolu&ccedil;&atilde;o em 1789, os propriet&aacute;rios na col&ocirc;nia, brancos e mulatos, v&ecirc;em a oportunidade da independ&ecirc;ncia em rela&ccedil;&atilde;o ao dom&iacute;nio franc&ecirc;s. Entretanto, os escravos tinham outros planos&#8230;<\/p>\n<h3>\n\tA revolta dos escravos e seus l&iacute;deres<\/h3>\n<p>\n\tUm dos tra&ccedil;os caracter&iacute;sticos do regime escravista na S&atilde;o Domingos francesa era a crueldade, tra&ccedil;o bastante ressaltado por James. Os constantes abusos, maus-tratos, castigos, torturas e mortes de escravos criavam um clima de &oacute;dio e revolta explosivos. Quando o governo revolucion&aacute;rio na metr&oacute;pole proclama a liberta&ccedil;&atilde;o dos escravos nas col&ocirc;nias, os propriet&aacute;rios estavam mais preocupados com suas rivalidades internas, pois os mulatos queriam reaver os direitos que lhes haviam sido recentemente cassados, o que os brancos tentavam impedir. Os negros se aproveitaram disso e iniciaram uma rebeli&atilde;o, em 1791. O levante foi coordenado a partir dos rituais de vudu, cujos batuques ecoavam pelas florestas, unindo os negros nas senzalas aos seus irm&atilde;os nos quilombos, percorrendo toda a col&ocirc;nia e preparando o momento do ataque.<\/p>\n<p>\n\tA primeira fase da revolu&ccedil;&atilde;o foi ca&oacute;tica, com os negros atacando repentinamente os brancos, assassinando os senhores e suas fam&iacute;lias, incendiando as propriedades e as cidades. Em meio a esse caos, os ingleses e os espanh&oacute;is se aproveitam para invadir partes da col&ocirc;nia francesa. &Eacute; ent&atilde;o que, em 1794, emerge a figura de Toussaint Breda, que depois adotaria o sobrenome de L&#39;Ouverture, um escravo de mais de 40 anos, que trabalhava como secret&aacute;rio de um propriet&aacute;rio mais esclarecido (o qual inclusive salvou do massacre). Toussaint, homem de intelig&ecirc;ncia extraordin&aacute;ria (James o compara a Napole&atilde;o), foi alfabetizado em franc&ecirc;s erudito e latim, tendo a oportunidade de ler a obra do abade Raynal sobre a escravid&atilde;o no Caribe e os coment&aacute;rios de J&uacute;lio C&eacute;sar sobre a guerra contra os gauleses.<\/p>\n<p>\n\tCom este cabedal, e tamb&eacute;m o conhecimento dos ideais iluministas que guiaram a primeira fase da Revolu&ccedil;&atilde;o Francesa, prop&ocirc;s-se a liderar um ex&eacute;rcito de negros e constituir na col&ocirc;nia um novo estado, irmanado &agrave; Fran&ccedil;a revolucion&aacute;ria. O ideal de Toussaint era um pa&iacute;s unido &agrave; Fran&ccedil;a sob um regime democr&aacute;tico e politicamente igualit&aacute;rio, em que brancos e negros teriam direitos iguais. Com este ideal, ele chegou a ter a alian&ccedil;a de Rigaud, l&iacute;der dos mulatos, com o qual posteriormente rompeu e derrotou em batalha. Al&eacute;m de l&iacute;der militar, Toussaint era tamb&eacute;m pol&iacute;tico e administrador competente, capaz de conter os excessos vingan&ccedil;a contra os brancos, conseguir a coopera&ccedil;&atilde;o dos propriet&aacute;rios, atender as reivindica&ccedil;&otilde;es dos negros, que deixaram de ser escravos, e negociar com outros pa&iacute;ses, como a Inglaterra e os Estados Unidos.<\/p>\n<h3>\n\tDesfecho da revolu&ccedil;&atilde;o<\/h3>\n<p>\n\tA narrativa de James &eacute; uma defesa apaixonada da luta dos explorados e oprimidos, mas n&atilde;o deixa de apontar, de maneira implac&aacute;vel, os erros e limites de seus l&iacute;deres, de forma a servir de li&ccedil;&atilde;o para as lutas dos trabalhadores em v&aacute;rios outros cen&aacute;rios. Toussaint pretendia manter a economia haitiana em funcionamento, e para isso n&atilde;o encontrou outra forma que n&atilde;o for&ccedil;ar os ex-escravos a continuar trabalhando nas fazendas e engenhos, sob dire&ccedil;&atilde;o dos propriet&aacute;rios remanescentes. Ele jamais deixou de acreditar na Fran&ccedil;a e sua revolu&ccedil;&atilde;o, sem perceber que, sob Napole&atilde;o, o regime caminhava para a estabiliza&ccedil;&atilde;o e o estancamento das conquistas revolucion&aacute;rias.<\/p>\n<p>\n\tEm 1801, Napole&atilde;o enviou seu pr&oacute;prio cunhado a S&atilde;o Domingos, o general Leclerc, no comando de um ex&eacute;rcito que chegou a ter 34 mil soldados. Inquieto com a amea&ccedil;a de retorno &agrave; escravid&atilde;o, o sobrinho de Toussaint, chamado Mo&iuml;se, comanda um ataque contra os brancos, pelo qual foi punido pelo tio. A puni&ccedil;&atilde;o de Mo&iuml;se criou um abismo de desconfian&ccedil;a entre Toussaint e os negros, que passaram a achar que seu l&iacute;der trabalhava pela restaura&ccedil;&atilde;o da escravid&atilde;o. Toussaint acabou preso por Leclerc e enviado para a Fran&ccedil;a, morrendo no c&aacute;rcere em 1803, sem jamais ser ouvido por Napole&atilde;o, a quem tentaria convencer da necessidade de manter a liberdade dos negros como condi&ccedil;&atilde;o para manter a fidelidade da col&ocirc;nia &agrave; Fran&ccedil;a.<\/p>\n<p>\n\tEnquanto isso, em S&atilde;o Domingos, os tenentes de Toussaint que permaneceram no comanndo do ex&eacute;rcito por ele formado, Dessalines, Christophe, Clairveaux, Maurepas, P&eacute;tion, conduzem uma guerra implac&aacute;vel contra Leclerc, que acabaria morrendo de febre em 1803, assim como parte de seu ex&eacute;rcito. A vit&oacute;ria final dos negros conduz ao massacre dos brancos e propriet&aacute;rios que restaram. A independ&ecirc;ncia &eacute; proclamada em 1804 por Dessalines e o pa&iacute;s adota o nome de Haiti, que na l&iacute;ngua ind&iacute;gena significa &quot;lugar montanhoso&quot;.<\/p>\n<h3>\n\tA hist&oacute;ria do Haiti at&eacute; os dias de hoje<\/h3>\n<p>\n\tLogo ap&oacute;s a independ&ecirc;ncia, o Haiti se viu cercado por um isolamento internacional compar&aacute;vel somente ao bloqueio que hoje pesa sobre Cuba. O exemplo da revolu&ccedil;&atilde;o dos escravos, terr&iacute;vel para os senhores de todo o continente, precisava ser combatido e cercado a qualquer custo, para garantir a paz dos dominadores. A economia regrediu para uma agricultura de subsist&ecirc;ncia e a d&iacute;vida para com a Fran&ccedil;a sugou as riquezas do pa&iacute;s durante d&eacute;cadas. Em 1913 o pa&iacute;s foi invadido por fuzileiros estadunidenses. 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No in&iacute;cio de 2010 o Haiti foi v&iacute;tima de um fort&iacute;ssimo terremoto, que destruiu a j&aacute; prec&aacute;ria infra-estrutura do pa&iacute;s, e em outubro deste ano alastrou-se uma epidemia de c&oacute;lera. 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