{"id":261,"date":"2010-11-17T22:06:09","date_gmt":"2010-11-18T00:06:09","guid":{"rendered":"http:\/\/espacosocialista.org\/?q=node\/261"},"modified":"2013-01-19T18:54:15","modified_gmt":"2013-01-19T20:54:15","slug":"o-trabalho-escravo-no-brasil-a-acumulacao-para-a-metropole-e-a-resistencia-dos-trabalhadores-negros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/2010\/11\/o-trabalho-escravo-no-brasil-a-acumulacao-para-a-metropole-e-a-resistencia-dos-trabalhadores-negros\/","title":{"rendered":"O trabalho escravo no Brasil: a acumula\u00e7\u00e3o para a metr\u00f3pole e a resist\u00eancia dos trabalhadores negros"},"content":{"rendered":"<p>\n\tO objetivo desse texto &eacute; abordar brevemente duas quest&otilde;es relativas ao trabalho escravo empregado no que hoje chamamos de Brasil: a utiliza&ccedil;&atilde;o majorit&aacute;ria da renda auferida com o sistema escravista ( venda de escravos, produ&ccedil;&atilde;o desse trabalho compuls&oacute;rio) para a acumula&ccedil;&atilde;o na Europa &#8211; portanto, n&atilde;o se destinava a forma&ccedil;&atilde;o de uma burguesia interna; e a rela&ccedil;&atilde;o subjetiva do trabalhador escravo negro com a escravid&atilde;o.<\/p>\n<p>\n\tPartimos da compreens&atilde;o de que a escravid&atilde;o por aqui era parte do que o marxismo chama de acumula&ccedil;&atilde;o primitiva do capital, ou seja, a produ&ccedil;&atilde;o derivada do trabalho escravo n&atilde;o era destinada ao mercado interno, mas ao mercado europeu, servia a acumula&ccedil;&atilde;o para a metr&oacute;pole. A combina&ccedil;&atilde;o de venda de escravos, trabalho escravo e produ&ccedil;&atilde;o voltada para a exporta&ccedil;&atilde;o formam os elementos essenciais desse processo de acumula&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>\n\tA acumula&ccedil;&atilde;o com o lucro resultante do com&eacute;rcio de escravos era fabulosa, constituindo-se como uma atividade econ&ocirc;mica das mais lucrativas. Para se ter uma id&eacute;ia o escravo negro era um dos principais produtos de importa&ccedil;&atilde;o do Brasil no final s&eacute;culo XVIII: &quot;O ramo mais importante do com&eacute;rcio de importa&ccedil;&atilde;o &eacute;, contudo, o tr&aacute;fico de escravos que nos vinham da costa de &Aacute;frica: representa ele mais de uma quarta parte do valor total da importa&ccedil;&atilde;o, ou seja, no per&iacute;odo 1796-1804, acima de 10.000.000 de cruzados, quando o resto n&atilde;o alcan&ccedil;ava 30.000.000&quot;. Prado J&uacute;nior (Hist&oacute;ria econ&ocirc;mica do Brasil, p.116). Ainda segundo caio Prado J&uacute;nior, no final do s&eacute;culo XVIII e in&iacute;cio do XIX, o total de escravos que desembarcavam por aqui era cerca de 40.000 por ano. D&aacute; para se ter id&eacute;ia do potencial do aumento do capital de comerciantes que se dedicavam ao tr&aacute;fico negreiro.<\/p>\n<p>\n\tEm rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s taxas de lucro do que se produz com a utiliza&ccedil;&atilde;o do trabalho escravo d&aacute; para supor que eram elevad&iacute;ssimas. O fato de os escravos serem submetidos &agrave;s piores condi&ccedil;&otilde;es de trabalho e de subsist&ecirc;ncia faz com que o tempo do trabalho destinado &agrave; satisfa&ccedil;&atilde;o de suas necessidades (tempo de trabalho necess&aacute;rio) seja reduzido a um curto intervalo de tempo e consequentemente o tempo de trabalho excedente constitui quase a totalidade de sua jornada de trabalho que n&atilde;o raro ultrapassava 15 horas di&aacute;rias, incluindo s&aacute;bados, domingos e feriados.<\/p>\n<p>\n\tAo com&eacute;rcio de homens e mulheres como escravos e a utiliza&ccedil;&atilde;o em larga escala do trabalho escravo agrega o fato de que a produ&ccedil;&atilde;o era de monocultura de mat&eacute;rias primas e que ela estava essencialmente voltada para a metr&oacute;pole onde servia para a forma&ccedil;&atilde;o das fortunas. Ou seja, o que se produzia era voltado quase que exclusivamente para a exporta&ccedil;&atilde;o. Esse era o &quot;sentido da coloniza&ccedil;&atilde;o&quot;: &quot;Se vamos &agrave; ess&ecirc;ncia de nossa forma&ccedil;&atilde;o, veremos que na realidade nos constitu&iacute;mos para fornecer a&ccedil;&uacute;car, tabaco, alguns outros g&ecirc;neros; mais tarde ouro e diamante, depois, algod&atilde;o e em seguida caf&eacute;, para o com&eacute;rcio europeu. Nada mais que isso&quot; (Caio Prado, Forma&ccedil;&atilde;o do Brasil Contempor&acirc;neo: col&ocirc;nia. p. 31-32)<\/p>\n<p>\n\tA expans&atilde;o ultramarina, portanto, n&atilde;o era resultado do desejo da Nobreza, mas uma necessidade hist&oacute;rica que se colocava para responder &agrave;s press&otilde;es econ&ocirc;micas do novo sistema social que surgia das cinzas da sociedade feudal. Assim, essa rela&ccedil;&atilde;o que a metr&oacute;pole estabeleceu com a col&ocirc;nia portuguesa foi fundamental para a consolida&ccedil;&atilde;o da acumula&ccedil;&atilde;o primitiva do capital e foi a que deu bases para o financiamento do capitalismo industrial nos s&eacute;culos seguintes no continente europeu.<\/p>\n<p>\n\tO processo de acumula&ccedil;&atilde;o do capital (assim como em outras de suas fases) ocorre em base a uma super explora&ccedil;&atilde;o do trabalho, mas esse processo n&atilde;o aconteceu sem resist&ecirc;ncia por parte dos trabalhadores negros escravizados. Historiadores apontam v&aacute;rias formas de resist&ecirc;ncia, entre elas a que ficou mais conhecida pela complexidade de sua organiza&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica e social, os quilombos.<\/p>\n<p>\n\tH&aacute;, no entanto, historiadores que minimizam o processo de resist&ecirc;ncia apontando que sequer a rela&ccedil;&atilde;o entre senhores escravocratas e escravos era negociada e, portanto livre de viol&ecirc;ncia. E mesmo quando havia alguma forma de viol&ecirc;ncia essa era considerada como justa pelos pr&oacute;prios escravos, ou seja, os castigos eram como li&ccedil;&otilde;es pedag&oacute;gicas. Uma das conclus&otilde;es que podemos tirar dessas concep&ccedil;&otilde;es historiogr&aacute;ficas (reconhe&ccedil;o que h&aacute; diferen&ccedil;as entre eles) &eacute; que h&aacute; uma acomoda&ccedil;&atilde;o e aceita&ccedil;&atilde;o por parte do escravo de sua condi&ccedil;&atilde;o, ou seja, um escravo d&oacute;cil porque tem um senhor generoso. Prevalece nessa tese a coexist&ecirc;ncia pac&iacute;fica entre ambos.<\/p>\n<p>\n\tDe acordo com essa concep&ccedil;&atilde;o, por parte do escravo havia uma consensualidade na escravid&atilde;o, um acordo entre escravos e escravocratas. Esse consenso fazia com que o escravo pudesse se sentir n&atilde;o como instrumento, como coisa, mas como ser humano que se deixa levar pela passividade e aceita os des&iacute;gnios de ser submetido &agrave; escravid&atilde;o.<\/p>\n<p>\n\tO absurdo da tese consensualista est&aacute; no fato de que entre o homem que escraviza e o escravizado h&aacute; uma rela&ccedil;&atilde;o contratual, com direitos e garantias para as duas partes. E como sabemos uma rela&ccedil;&atilde;o contratual s&oacute; pode ocorrer entre homens livres, o que de fato desmonta a tese do consenso. O uso do chicote para impor a vontade do escravocrata &eacute; outro elemento que desmonta a tese de que havia qualquer forma de consenso entre senhores e escravos.<\/p>\n<p>\n\tPenso ser imposs&iacute;vel, pelas necessidades da acumula&ccedil;&atilde;o primitiva do capital, qualquer rela&ccedil;&atilde;o de consensualidade ou mesmo de &quot;pacto social&quot; entre escravos e escravocratas. A viol&ecirc;ncia (em todas as suas formas) ao extremo &eacute; a explica&ccedil;&atilde;o plaus&iacute;vel para entendermos como um sistema de apropria&ccedil;&atilde;o de trabalho alheio t&atilde;o cruel tenha durado tanto tempo. &quot;Para explicar o car&aacute;ter repressivo e violento das rela&ccedil;&otilde;es escravistas de produ&ccedil;&atilde;o &eacute; necess&aacute;rio compreender que o escravismo &eacute; um sistema de produ&ccedil;&atilde;o de mais-valia absoluta, sistema esse no qual a mercadoria aparece imediata e explicitamente como produto da for&ccedil;a de trabalho alienada. Ali&aacute;s, o escravo &eacute; duplamente alienado, como pessoa, enquanto propriedade do senhor, e em sua for&ccedil;a de trabalho, faculdade sobre a qual n&atilde;o pode ter comando. O escravo &eacute; obrigado a produzir muito al&eacute;m do que recebe para viver e reproduzir-se; e n&atilde;o disp&otilde;e de condi&ccedil;&otilde;es para negociar, nem o uso da sua for&ccedil;a de trabalho, nem a si mesmo. Esse &eacute; o fundamento do car&aacute;ter repressivo e violento do escravismo&quot; Oct&aacute;vio Ianni.<\/p>\n<p>\n\tPara Gorender, o que havia era uma adapta&ccedil;&atilde;o, que n&atilde;o quer dizer passividade. No processo de resist&ecirc;ncia (que se manifestava em diversos aspectos da vida social) a &quot;adapta&ccedil;&atilde;o para seguir sobrevivendo&quot; tornava-se uma forma de resist&ecirc;ncia. Mesmo que tenham nascido e morrido na condi&ccedil;&atilde;o de escravos isso n&atilde;o quer dizer que tenham aceitado tal condi&ccedil;&atilde;o. Essa resist&ecirc;ncia, por exemplo, podia se manifestar no relaxamento no trabalho, trato danoso para com os animais das fazendas, a sabotagem, etc. Para esse autor, a resist&ecirc;ncia era parte ativa do cotidiano dos escravos. Essa forma de resist&ecirc;ncia n&atilde;o se tratava exatamente de uma escolha, mas o que em muitos casos era o poss&iacute;vel diante das condi&ccedil;&otilde;es objetivas impostas, uma vez que a elite colonial brasileira impunha aos escravos uma severa repress&atilde;o a toda forma de rebeli&atilde;o. Assim, a adapta&ccedil;&atilde;o n&atilde;o era uma acomoda&ccedil;&atilde;o, mas uma forma de resist&ecirc;ncia poss&iacute;vel.<\/p>\n<p>\n\tDestaco essa forma de resist&ecirc;ncia para ressaltar que a luta dos escravos contra a sua condi&ccedil;&atilde;o era permanente e cotidiana. Mas tamb&eacute;m merecem destaque todas as formas de resist&ecirc;ncia, em especial a que se organizava nos quilombos e ainda mais especial a dos Palmares, que questionava n&atilde;o s&oacute; a escravid&atilde;o, mas que colocou em xeque todo o modelo econ&ocirc;mico implementado pela Coroa. Por isso o &oacute;dio particular da elite escravocrata brasileira contra esses resistentes quilombolas.<\/p>\n<p>\n\t&Eacute; importante compreender e dar valor a todos esses processos de resist&ecirc;ncia porque significa que entendemos que se o sistema escravocrata, pelas condi&ccedil;&otilde;es objetivas, conseguiu coisificar o seu ser social, gra&ccedil;as a resist&ecirc;ncia que os milh&otilde;es de escravos exerceram durante todos esses anos, os senhores escravocratas n&atilde;o conseguiram coisificar a sua subjetividade.<\/p>\n<p>\n\tGra&ccedil;as a essa subjetividade os escravos conseguiram continuar as suas lutas e essas mesmas lutas que os escravos travaram durante s&eacute;culos conquistaram o fim do trabalho compuls&oacute;rio. Mas sabemos que isso n&atilde;o significou o fim das condi&ccedil;&otilde;es prec&aacute;rias de vida, pelo contr&aacute;rio, v&aacute;rios aspectos de nossa vida denunciam que a verdadeira liberdade do trabalho ainda est&aacute; por vir. E isso s&oacute; vai acontecer quando n&oacute;s trabalhadores conquistarmos o fim da escravid&atilde;o assalariada.<\/p>\n<h2>\n\tAs palavras como reprodu&ccedil;&atilde;o do preconceito<\/h2>\n<p>\n\tOs temas relativos ao racismo e a escravid&atilde;o s&atilde;o muito sens&iacute;veis porque neles, se por um lado significa poder conhecer o papel dos trabalhadores negros e suas lutas pela liberta&ccedil;&atilde;o, por outro lado tamb&eacute;m nos deparamos com pr&aacute;ticas que s&atilde;o preconceituosas e at&eacute; racistas. A hist&oacute;ria brasileira que aparece nos livros, meios de comunica&ccedil;&atilde;o, etc &eacute; aquela forjada pela classe dominante branca, da qual a ideologia dominante imp&otilde;e sobre todos n&oacute;s modos de agir que em muitas ocasi&otilde;es terminamos por utilizar palavras e express&otilde;es que reproduzem a id&eacute;ia de que tudo que &eacute; preto ou negro sempre est&aacute; associado a algo ruim ou negativo.<\/p>\n<p>\n\tAs palavras t&ecirc;m um significado que foi sendo constru&iacute;do historicamente e essa constru&ccedil;&atilde;o, via de regra, obedece a interesses pol&iacute;tico ideol&oacute;gicos da classe dominante, uma vez que as palavras -assim como a linguagem- tamb&eacute;m se constituem como instrumento de domina&ccedil;&atilde;o dos exploradores.<\/p>\n<p>\n\tA express&atilde;o &quot;a coisa t&aacute; preta&quot; &eacute; uma dessas em que logo se assemelha a situa&ccedil;&otilde;es dif&iacute;ceis, ruins, seja na vida ou mesmo na situa&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica do pa&iacute;s. Poder&iacute;amos tamb&eacute;m falar da express&atilde;o consagrada pelo filme Star Wars &quot;o lado negro da for&ccedil;a&quot; utilizada como forma de exprimir que um dos personagens passou para o lado do mau.<\/p>\n<p>\n\tOutra palavra muito utilizada &eacute; o verbo &quot;denegrir&quot;, geralmente utilizado para desqualificar a reputa&ccedil;&atilde;o de algu&eacute;m e como o significado dela nos dicion&aacute;rios &eacute; tornar negro, escuro; enegrecer, escurecer, logo &eacute; feita a associa&ccedil;&atilde;o negro e desqualifica&ccedil;&atilde;o, negatividade se torna seu sin&ocirc;nimo.<\/p>\n<p>\n\t&Agrave;s vezes at&eacute; utilizamos essas palavras sem saber o seu significado e o papel que t&ecirc;m, de reproduzir a linguagem dos dominadores, mas &eacute; preciso que fiquemos cada vez mais atentos para, na nossa pr&aacute;tica militante, n&atilde;o reproduzamos tais preconceitos. Esses s&atilde;o apenas alguns exemplos relativos &agrave; quest&atilde;o racial. H&aacute; outros termos que se referem a mulheres, homossexuais e etnias, express&otilde;es estas que tamb&eacute;m merecem a nossa repulsa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\n\tO objetivo desse texto &eacute; abordar brevemente duas quest&otilde;es relativas ao trabalho escravo empregado no que hoje chamamos de Brasil: a utiliza&ccedil;&atilde;o majorit&aacute;ria da renda auferida com o sistema escravista ( venda de escravos, produ&ccedil;&atilde;o desse trabalho compuls&oacute;rio) para a acumula&ccedil;&atilde;o na Europa &#8211; portanto, n&atilde;o se destinava a forma&ccedil;&atilde;o de uma burguesia interna; e a rela&ccedil;&atilde;o subjetiva do trabalhador escravo negro com a escravid&atilde;o.<\/p>\n<p>\n\tPartimos da compreens&atilde;o de que a escravid&atilde;o por aqui era parte do que o marxismo chama de acumula&ccedil;&atilde;o primitiva do capital, ou seja, a produ&ccedil;&atilde;o derivada do trabalho escravo n&atilde;o era destinada ao mercado interno, mas ao mercado europeu, servia a acumula&ccedil;&atilde;o para a metr&oacute;pole. A combina&ccedil;&atilde;o de venda de escravos, trabalho escravo e produ&ccedil;&atilde;o voltada para a exporta&ccedil;&atilde;o formam os elementos essenciais desse processo de acumula&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>\n\tA acumula&ccedil;&atilde;o com o lucro resultante do com&eacute;rcio de escravos era fabulosa, constituindo-se como uma atividade econ&ocirc;mica das mais lucrativas. Para se ter uma id&eacute;ia o escravo negro era um dos principais produtos de importa&ccedil;&atilde;o do Brasil no final s&eacute;culo XVIII: &quot;O ramo mais importante do com&eacute;rcio de importa&ccedil;&atilde;o &eacute;, contudo, o tr&aacute;fico de escravos que nos vinham da costa de &Aacute;frica: representa ele mais de uma quarta parte do valor total da importa&ccedil;&atilde;o, ou seja, no per&iacute;odo 1796-1804, acima de 10.000.000 de cruzados, quando o resto n&atilde;o alcan&ccedil;ava 30.000.000&quot;. Prado J&uacute;nior (Hist&oacute;ria econ&ocirc;mica do Brasil, p.116). Ainda segundo caio Prado J&uacute;nior, no final do s&eacute;culo XVIII e in&iacute;cio do XIX, o total de escravos que desembarcavam por aqui era cerca de 40.000 por ano. D&aacute; para se ter id&eacute;ia do potencial do aumento do capital de comerciantes que se dedicavam ao tr&aacute;fico negreiro.<\/p>\n<p>\n\tEm rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s taxas de lucro do que se produz com a utiliza&ccedil;&atilde;o do trabalho escravo d&aacute; para supor que eram elevad&iacute;ssimas. O fato de os escravos serem submetidos &agrave;s piores condi&ccedil;&otilde;es de trabalho e de subsist&ecirc;ncia faz com que o tempo do trabalho destinado &agrave; satisfa&ccedil;&atilde;o de suas necessidades (tempo de trabalho necess&aacute;rio) seja reduzido a um curto intervalo de tempo e consequentemente o tempo de trabalho excedente constitui quase a totalidade de sua jornada de trabalho que n&atilde;o raro ultrapassava 15 horas di&aacute;rias, incluindo s&aacute;bados, domingos e feriados.<\/p>\n<p>\n\tAo com&eacute;rcio de homens e mulheres como escravos e a utiliza&ccedil;&atilde;o em larga escala do trabalho escravo agrega o fato de que a produ&ccedil;&atilde;o era de monocultura de mat&eacute;rias primas e que ela estava essencialmente voltada para a metr&oacute;pole onde servia para a forma&ccedil;&atilde;o das fortunas. Ou seja, o que se produzia era voltado quase que exclusivamente para a exporta&ccedil;&atilde;o. Esse era o &quot;sentido da coloniza&ccedil;&atilde;o&quot;: &quot;Se vamos &agrave; ess&ecirc;ncia de nossa forma&ccedil;&atilde;o, veremos que na realidade nos constitu&iacute;mos para fornecer a&ccedil;&uacute;car, tabaco, alguns outros g&ecirc;neros; mais tarde ouro e diamante, depois, algod&atilde;o e em seguida caf&eacute;, para o com&eacute;rcio europeu. Nada mais que isso&quot; (Caio Prado, Forma&ccedil;&atilde;o do Brasil Contempor&acirc;neo: col&ocirc;nia. p. 31-32)<\/p>\n<p>\n\tA expans&atilde;o ultramarina, portanto, n&atilde;o era resultado do desejo da Nobreza, mas uma necessidade hist&oacute;rica que se colocava para responder &agrave;s press&otilde;es econ&ocirc;micas do novo sistema social que surgia das cinzas da sociedade feudal. Assim, essa rela&ccedil;&atilde;o que a metr&oacute;pole estabeleceu com a col&ocirc;nia portuguesa foi fundamental para a consolida&ccedil;&atilde;o da acumula&ccedil;&atilde;o primitiva do capital e foi a que deu bases para o financiamento do capitalismo industrial nos s&eacute;culos seguintes no continente europeu.<\/p>\n<p>\n\tO processo de acumula&ccedil;&atilde;o do capital (assim como em outras de suas fases) ocorre em base a uma super explora&ccedil;&atilde;o do trabalho, mas esse processo n&atilde;o aconteceu sem resist&ecirc;ncia por parte dos trabalhadores negros escravizados. Historiadores apontam v&aacute;rias formas de resist&ecirc;ncia, entre elas a que ficou mais conhecida pela complexidade de sua organiza&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica e social, os quilombos.<\/p>\n<p>\n\tH&aacute;, no entanto, historiadores que minimizam o processo de resist&ecirc;ncia apontando que sequer a rela&ccedil;&atilde;o entre senhores escravocratas e escravos era negociada e, portanto livre de viol&ecirc;ncia. E mesmo quando havia alguma forma de viol&ecirc;ncia essa era considerada como justa pelos pr&oacute;prios escravos, ou seja, os castigos eram como li&ccedil;&otilde;es pedag&oacute;gicas. Uma das conclus&otilde;es que podemos tirar dessas concep&ccedil;&otilde;es historiogr&aacute;ficas (reconhe&ccedil;o que h&aacute; diferen&ccedil;as entre eles) &eacute; que h&aacute; uma acomoda&ccedil;&atilde;o e aceita&ccedil;&atilde;o por parte do escravo de sua condi&ccedil;&atilde;o, ou seja, um escravo d&oacute;cil porque tem um senhor generoso. Prevalece nessa tese a coexist&ecirc;ncia pac&iacute;fica entre ambos.<\/p>\n<p>\n\tDe acordo com essa concep&ccedil;&atilde;o, por parte do escravo havia uma consensualidade na escravid&atilde;o, um acordo entre escravos e escravocratas. Esse consenso fazia com que o escravo pudesse se sentir n&atilde;o como instrumento, como coisa, mas como ser humano que se deixa levar pela passividade e aceita os des&iacute;gnios de ser submetido &agrave; escravid&atilde;o.<\/p>\n<p>\n\tO absurdo da tese consensualista est&aacute; no fato de que entre o homem que escraviza e o escravizado h&aacute; uma rela&ccedil;&atilde;o contratual, com direitos e garantias para as duas partes. E como sabemos uma rela&ccedil;&atilde;o contratual s&oacute; pode ocorrer entre homens livres, o que de fato desmonta a tese do consenso. O uso do chicote para impor a vontade do escravocrata &eacute; outro elemento que desmonta a tese de que havia qualquer forma de consenso entre senhores e escravos.<\/p>\n<p>\n\tPenso ser imposs&iacute;vel, pelas necessidades da acumula&ccedil;&atilde;o primitiva do capital, qualquer rela&ccedil;&atilde;o de consensualidade ou mesmo de &quot;pacto social&quot; entre escravos e escravocratas. A viol&ecirc;ncia (em todas as suas formas) ao extremo &eacute; a explica&ccedil;&atilde;o plaus&iacute;vel para entendermos como um sistema de apropria&ccedil;&atilde;o de trabalho alheio t&atilde;o cruel tenha durado tanto tempo. &quot;Para explicar o car&aacute;ter repressivo e violento das rela&ccedil;&otilde;es escravistas de produ&ccedil;&atilde;o &eacute; necess&aacute;rio compreender que o escravismo &eacute; um sistema de produ&ccedil;&atilde;o de mais-valia absoluta, sistema esse no qual a mercadoria aparece imediata e explicitamente como produto da for&ccedil;a de trabalho alienada. Ali&aacute;s, o escravo &eacute; duplamente alienado, como pessoa, enquanto propriedade do senhor, e em sua for&ccedil;a de trabalho, faculdade sobre a qual n&atilde;o pode ter comando. O escravo &eacute; obrigado a produzir muito al&eacute;m do que recebe para viver e reproduzir-se; e n&atilde;o disp&otilde;e de condi&ccedil;&otilde;es para negociar, nem o uso da sua for&ccedil;a de trabalho, nem a si mesmo. Esse &eacute; o fundamento do car&aacute;ter repressivo e violento do escravismo&quot; Oct&aacute;vio Ianni.<\/p>\n<p>\n\tPara Gorender, o que havia era uma adapta&ccedil;&atilde;o, que n&atilde;o quer dizer passividade. No processo de resist&ecirc;ncia (que se manifestava em diversos aspectos da vida social) a &quot;adapta&ccedil;&atilde;o para seguir sobrevivendo&quot; tornava-se uma forma de resist&ecirc;ncia. Mesmo que tenham nascido e morrido na condi&ccedil;&atilde;o de escravos isso n&atilde;o quer dizer que tenham aceitado tal condi&ccedil;&atilde;o. Essa resist&ecirc;ncia, por exemplo, podia se manifestar no relaxamento no trabalho, trato danoso para com os animais das fazendas, a sabotagem, etc. Para esse autor, a resist&ecirc;ncia era parte ativa do cotidiano dos escravos. Essa forma de resist&ecirc;ncia n&atilde;o se tratava exatamente de uma escolha, mas o que em muitos casos era o poss&iacute;vel diante das condi&ccedil;&otilde;es objetivas impostas, uma vez que a elite colonial brasileira impunha aos escravos uma severa repress&atilde;o a toda forma de rebeli&atilde;o. Assim, a adapta&ccedil;&atilde;o n&atilde;o era uma acomoda&ccedil;&atilde;o, mas uma forma de resist&ecirc;ncia poss&iacute;vel.<\/p>\n<p>\n\tDestaco essa forma de resist&ecirc;ncia para ressaltar que a luta dos escravos contra a sua condi&ccedil;&atilde;o era permanente e cotidiana. Mas tamb&eacute;m merecem destaque todas as formas de resist&ecirc;ncia, em especial a que se organizava nos quilombos e ainda mais especial a dos Palmares, que questionava n&atilde;o s&oacute; a escravid&atilde;o, mas que colocou em xeque todo o modelo econ&ocirc;mico implementado pela Coroa. Por isso o &oacute;dio particular da elite escravocrata brasileira contra esses resistentes quilombolas.<\/p>\n<p>\n\t&Eacute; importante compreender e dar valor a todos esses processos de resist&ecirc;ncia porque significa que entendemos que se o sistema escravocrata, pelas condi&ccedil;&otilde;es objetivas, conseguiu coisificar o seu ser social, gra&ccedil;as a resist&ecirc;ncia que os milh&otilde;es de escravos exerceram durante todos esses anos, os senhores escravocratas n&atilde;o conseguiram coisificar a sua subjetividade.<\/p>\n<p>\n\tGra&ccedil;as a essa subjetividade os escravos conseguiram continuar as suas lutas e essas mesmas lutas que os escravos travaram durante s&eacute;culos conquistaram o fim do trabalho compuls&oacute;rio. Mas sabemos que isso n&atilde;o significou o fim das condi&ccedil;&otilde;es prec&aacute;rias de vida, pelo contr&aacute;rio, v&aacute;rios aspectos de nossa vida denunciam que a verdadeira liberdade do trabalho ainda est&aacute; por vir. E isso s&oacute; vai acontecer quando n&oacute;s trabalhadores conquistarmos o fim da escravid&atilde;o assalariada.<\/p>\n<h2>\n\tAs palavras como reprodu&ccedil;&atilde;o do preconceito<\/h2>\n<p>\n\tOs temas relativos ao racismo e a escravid&atilde;o s&atilde;o muito sens&iacute;veis porque neles, se por um lado significa poder conhecer o papel dos trabalhadores negros e suas lutas pela liberta&ccedil;&atilde;o, por outro lado tamb&eacute;m nos deparamos com pr&aacute;ticas que s&atilde;o preconceituosas e at&eacute; racistas. A hist&oacute;ria brasileira que aparece nos livros, meios de comunica&ccedil;&atilde;o, etc &eacute; aquela forjada pela classe dominante branca, da qual a ideologia dominante imp&otilde;e sobre todos n&oacute;s modos de agir que em muitas ocasi&otilde;es terminamos por utilizar palavras e express&otilde;es que reproduzem a id&eacute;ia de que tudo que &eacute; preto ou negro sempre est&aacute; associado a algo ruim ou negativo.<\/p>\n<p>\n\tAs palavras t&ecirc;m um significado que foi sendo constru&iacute;do historicamente e essa constru&ccedil;&atilde;o, via de regra, obedece a interesses pol&iacute;tico ideol&oacute;gicos da classe dominante, uma vez que as palavras -assim como a linguagem- tamb&eacute;m se constituem como instrumento de domina&ccedil;&atilde;o dos exploradores.<\/p>\n<p>\n\tA express&atilde;o &quot;a coisa t&aacute; preta&quot; &eacute; uma dessas em que logo se assemelha a situa&ccedil;&otilde;es dif&iacute;ceis, ruins, seja na vida ou mesmo na situa&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica do pa&iacute;s. Poder&iacute;amos tamb&eacute;m falar da express&atilde;o consagrada pelo filme Star Wars &quot;o lado negro da for&ccedil;a&quot; utilizada como forma de exprimir que um dos personagens passou para o lado do mau.<\/p>\n<p>\n\tOutra palavra muito utilizada &eacute; o verbo &quot;denegrir&quot;, geralmente utilizado para desqualificar a reputa&ccedil;&atilde;o de algu&eacute;m e como o significado dela nos dicion&aacute;rios &eacute; tornar negro, escuro; enegrecer, escurecer, logo &eacute; feita a associa&ccedil;&atilde;o negro e desqualifica&ccedil;&atilde;o, negatividade se torna seu sin&ocirc;nimo.<\/p>\n<p>\n\t&Agrave;s vezes at&eacute; utilizamos essas palavras sem saber o seu significado e o papel que t&ecirc;m, de reproduzir a linguagem dos dominadores, mas &eacute; preciso que fiquemos cada vez mais atentos para, na nossa pr&aacute;tica militante, n&atilde;o reproduzamos tais preconceitos. Esses s&atilde;o apenas alguns exemplos relativos &agrave; quest&atilde;o racial. H&aacute; outros termos que se referem a mulheres, homossexuais e etnias, express&otilde;es estas que tamb&eacute;m merecem a nossa repulsa.<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[13],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/261"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=261"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/261\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":840,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/261\/revisions\/840"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=261"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=261"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=261"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}