{"id":263,"date":"2011-06-23T01:20:06","date_gmt":"2011-06-23T01:20:06","guid":{"rendered":"http:\/\/espacosocialista.org\/?q=node\/263"},"modified":"2018-05-04T21:45:53","modified_gmt":"2018-05-05T00:45:53","slug":"tropa-de-elite-2-vitoria-da-violencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/2011\/06\/tropa-de-elite-2-vitoria-da-violencia\/","title":{"rendered":"Tropa de Elite 2: vit\u00f3ria da viol\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p>Tropa de Elite 2: vit\u00f3ria da viol\u00eancia<\/p>\n<p>Daniel M. Delfino<\/p>\n<p>No cinema de Hollywood as continua\u00e7\u00f5es em geral seguem uma f\u00f3rmula t\u00edpica em que tudo aumenta de escala: a ambi\u00e7\u00e3o da trama, os desafios, o drama dos personagens, as reviravoltas no roteiro, os efeitos especiais, as cenas de a\u00e7\u00e3o, etc. O segundo &#8220;Tropa de Elite&#8221; segue esta f\u00f3rmula e tamb\u00e9m amplia suas ambi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O primeiro epis\u00f3dio tinha como alvo ideol\u00f3gico a &#8220;consci\u00eancia social&#8221; da pequena-burguesia universit\u00e1ria, que milita em ONGs, \u00e9 &#8220;amiga dos pobres&#8221; e consome maconha. No discurso do filme, o usu\u00e1rio de drogas \u00e9 o culpado pela viol\u00eancia, pois \u00e9 o seu dinheiro que financia o tr\u00e1fico, e que arma os traficantes, com as mesmas armas com as quais se cometem os demais crimes. Para proteger &#8220;a sociedade&#8221; contra o crime, prossegue o filme, uma pol\u00edcia comum n\u00e3o serve, pois a PM \u00e9 na verdade s\u00f3cia do crime, por meio da corrup\u00e7\u00e3o. A solu\u00e7\u00e3o \u00e9 o BOPE, uma tropa de elite selecionada por meio de m\u00e9todos extremos de treinamento, capaz de desbaratar qualquer quadrilha por meio de t\u00e9cnicas de tortura e de guerra dignas de qualquer filme de Rambo. Para completar, o &#8220;bandido&#8221; \u00e9 apresentado como uma ra\u00e7a \u00e0 parte dos demais seres humanos, os &#8220;cidad\u00e3os de bem&#8221;, n\u00e3o como uma categoria social produzida por rela\u00e7\u00f5es sociais espec\u00edficas, e como tal pode ser torturado e morto pelos &#8220;mocinhos&#8221; da hist\u00f3ria sem qualquer sombra de remorso.<\/p>\n<p>Ainda que tivesse alguma pretens\u00e3o cr\u00edtica por expor as entranhas da corrup\u00e7\u00e3o policial ou mesmo a destrui\u00e7\u00e3o da vida pessoal do capit\u00e3o do BOPE (que se torna ele pr\u00f3prio usu\u00e1rio de drogas &#8211; estas legalizadas &#8211; fornecidas com receita de tratamento psiqui\u00e1trico), o primeiro filme acaba funcionando como uma apologia dos m\u00e9todos extremos da repress\u00e3o. A quest\u00e3o fundamental, que \u00e9 a proibi\u00e7\u00e3o do uso de drogas, nem sequer \u00e9 mencionada. Se o consumo de drogas n\u00e3o fosse ilegal, n\u00e3o haveria a necessidade de reprimir o tr\u00e1fico, e n\u00e3o haveria quadrilhas armadas de traficantes aterrorizando a periferia das grandes cidades, e conseq\u00fcentemente n\u00e3o haveria a guerra entre traficantes, policiais corruptos e o BOPE. Certamente haveria um aumento do n\u00famero de dependentes e de problemas para o sistema p\u00fablico de sa\u00fade, e haveria outros crimes a serem explorados pelo lumpesinato; entretanto, a letalidade social da proibi\u00e7\u00e3o ao uso de drogas, com seu corol\u00e1rio de viol\u00eancia, corrup\u00e7\u00e3o e terror \u00e9 muito maior. A s\u00e9rie &#8220;Tropa de Elite&#8221; n\u00e3o discute essas possibilidades, tratando a proibi\u00e7\u00e3o do uso de drogas como um fato dado e absoluto, um pressuposto imut\u00e1vel, e em cima disso constr\u00f3i sua hierarquia de valores morais, de certo e errado, mocinhos e bandidos.<\/p>\n<p>O resultado \u00e9 uma apologia mais ou menos disfar\u00e7ada da repress\u00e3o, da guerra social, do exterm\u00ednio de favelados, negros, nordestinos, desempregados, pelo crime de serem pobres. O her\u00f3i do cinema brasileiro n\u00e3o \u00e9 mais o bandido, o cangaceiro, express\u00e3o est\u00e9tica de uma &#8220;consci\u00eancia social&#8221; anterior, tamb\u00e9m pequeno-burguesa e limitada, que glamourizava a resist\u00eancia social dos pobres contra a repress\u00e3o do Estado, como forma de aliviar a consci\u00eancia pesada dessa camada social com a mis\u00e9ria brasileira, mas que n\u00e3o avan\u00e7ava para a defesa de mudan\u00e7as profundas no regime social. Essa consci\u00eancia foi tornada antiquada e a pequena-burguesia foi posta contra a parede. O novo her\u00f3i do cinema nacional \u00e9 o policial dur\u00e3o, estilo John Mclaine, da s\u00e9rie &#8220;Duro de Matar&#8221;, em vers\u00e3o brasileira.<\/p>\n<p>O novo epis\u00f3dio tamb\u00e9m n\u00e3o avan\u00e7a para um questionamento mais profundo sobre as causas do problema da viol\u00eancia. Logo no in\u00edcio, quando o BOPE est\u00e1 se preparando para debelar uma rebeli\u00e3o em um pres\u00eddio, o nosso &#8220;her\u00f3i&#8221;, o agora Coronel Nascimento, diz que o que impede a pol\u00edcia de acabar de vez com o crime s\u00e3o os &#8220;intelectuais de esquerda que ganham a vida defendendo vagabundo&#8221;. O uso da express\u00e3o &#8220;vagabundo&#8221; n\u00e3o deixa margem de d\u00favidas quanto \u00e0 ideologia que est\u00e1 sendo destilada. O criminoso \u00e9 chamado de &#8220;vagabundo&#8221;, um adjetivo negativo que tem o significado de pessoa que n\u00e3o quer trabalhar. Logo, o criminoso n\u00e3o se torna criminoso por uma s\u00e9rie de outras raz\u00f5es, mas simplesmente porque n\u00e3o quis trabalhar. Est\u00e1 subentendida nesse discurso a id\u00e9ia de que, se o vagabundo quisesse trabalhar honestamente, ele poderia. Est\u00e1 expresso a\u00ed com todas as cores o brutal cinismo da ideologia burguesa, que explica as desigualdades sociais pelo m\u00e9rito individual, que separa implacavelmente os vencedores dos perdedores.<\/p>\n<p>O desemprego, o subemprego, o trabalho superexplorado, a mis\u00e9ria e a aliena\u00e7\u00e3o em que vivem milh\u00f5es de trabalhadores nas periferias s\u00e3o tomados tamb\u00e9m como pressupostos imut\u00e1veis, e tamb\u00e9m como se n\u00e3o tivessem nenhuma rela\u00e7\u00e3o causal com a facilidade do neg\u00f3cio capitalista do tr\u00e1fico, um mercado como outro qualquer, de recrutar seus avi\u00f5ezinhos, soldados e gerentes de boca, prolet\u00e1rios do neg\u00f3cio do tr\u00e1fico, e seus chefes sanguin\u00e1rios, seus Beiradas, Baianos e Beira-mares, empreendedores capitalistas associados aos banqueiros encarregados da lavagem de dinheiro e aos pol\u00edticos e magistrados encarregados de deix\u00e1-los tocar suas atividades, dentro ou fora da cadeia, em troca de propina. Combater o crime por meio da viol\u00eancia policial, ou por meio de ONGs assistencialistas, sem combater as suas causas, que est\u00e3o na mis\u00e9ria social e no pr\u00f3prio sistema capitalista, \u00e9 como enxugar gelo.<\/p>\n<p>O processo social que alimenta a continuidade dos neg\u00f3cios criminosos e da guerra associada a ele permanece oculto ou intocado no 2\u00ba epis\u00f3dio de &#8220;Tropa de Elite&#8221;, que come\u00e7a com a cena de rebeli\u00e3o no pres\u00eddio, quando o Coronel Nascimento diz que os &#8220;vagabundos&#8221; deveriam ser deixados \u00e0 pr\u00f3pria sorte, para que se matassem todos. A inten\u00e7\u00e3o do Coronel, que expressa o desejo da consci\u00eancia burguesa e pequeno-burguesa em rela\u00e7\u00e3o aos &#8220;perdedores&#8221; da corrida social, era deixar os seus &#8220;caveiras&#8221; entrarem em cena apenas depois que os &#8220;vagabundos&#8221; rebelados tivessem exterminado seus rivais de outras fac\u00e7\u00f5es, para exterminar por sua vez os que tivessem restado. Entretanto, ele foi atrapalhado em suas inten\u00e7\u00f5es pelo &#8220;intelectual de esquerda&#8221;, um professor universit\u00e1rio e ativista dos direitos humanos que se disp\u00f5e a negociar a liberta\u00e7\u00e3o dos ref\u00e9ns e o fim da rebeli\u00e3o.<\/p>\n<p>Temos ent\u00e3o, com a presen\u00e7a do ativista de direitos humanos Diogo Fraga o salto de qualidade deste &#8220;Tropa de Elite&#8221;. Esp\u00e9cie de concess\u00e3o \u00e0 cr\u00edtica, que malhou o primeiro filme por seu conte\u00fado explicitamente de direita, na maior parte das vezes como eco daquela consci\u00eancia pequeno- burguesa habituada \u00e0s f\u00f3rmulas antigas do cinema nacional, e poucas vezes com real conhecimento de causa, a atua\u00e7\u00e3o do personagem de Fraga fornece uma esp\u00e9cie de contraponto ao discurso belicoso de Nascimento. Pela voz do Coronel, o militante \u00e9 ridicularizado desde o in\u00edcio (apelidado de &#8220;Che Guevara&#8221;, esp\u00e9cie de deboche com os militantes de esquerda em geral), ainda mais pelo fato de ter se casado com sua ex-mulher e estar educando seu filho. Al\u00e9m disso, ao passar de professor universit\u00e1rio a deputado estadual e da\u00ed a federal, Fraga \u00e9 tamb\u00e9m apresentado como algu\u00e9m que tem ambi\u00e7\u00f5es meramente eleitoreiras.<\/p>\n<p>Mesmo assim, conforme o Coronel, paradoxalmente promovido para o setor de Intelig\u00eancia da pol\u00edcia depois do incidente no pres\u00eddio, come\u00e7a a tomar conhecimento das ra\u00edzes profundas que unem a corrup\u00e7\u00e3o policial ao cora\u00e7\u00e3o do sistema pol\u00edtico, ele e o deputado Fraga acabam atuando em parceria para desbaratar uma quadrilha, uma das chamadas &#8220;mil\u00edcias&#8221;, na verdade um esquadr\u00e3o da morte de policiais corruptos que como uma m\u00e1fia havia se apossado de um dos bairros da cidade, na qual estavam unidos policiais corruptos, apresentadores de TV e a c\u00fapula da seguran\u00e7a p\u00fablica. Os dois personagens assim &#8220;se redimem&#8221; por meio da coopera\u00e7\u00e3o. O filme al\u00e7a ent\u00e3o uma tentativa de reflex\u00e3o mais ampla, em que o pr\u00f3prio Coronel, do alto da tribuna de uma CPI das mil\u00edcias, se questiona &#8220;por que a sociedade o preparou para matar?&#8221;.<\/p>\n<p>Nesse questionamento feito pelo filme aparecem epis\u00f3dios reais da hist\u00f3ria recente do Rio, como o roubo (farsesco, segundo o filme) das armas do ex\u00e9rcito, a equipe de reportagem torturada por integrantes da mil\u00edcia (mortos no filme), e a CPI das mil\u00edcias. O pr\u00f3prio Fraga \u00e9 constru\u00eddo em cima da hist\u00f3ria do deputado estadual Marcelo Freixo, do PSOL, que impulsionou a CPI na assembl\u00e9ia legislativa. L\u00e1 ele tem como advers\u00e1rio o apresentador de TV Wagner Montes, que como o apresentador do filme, defende a pol\u00edtica de &#8220;toler\u00e2ncia zero&#8221; com &#8220;bandidos&#8221; e &#8220;vagabundos&#8221;. Os dois foram reeleitos em 2010, o primeiro com votos da classe m\u00e9dia da zona sul, o segundo com os votos da popula\u00e7\u00e3o pobre dos morros. Um paradoxo que mereceria uma reflex\u00e3o mais aprofundada, pois constitui a chave para entender as dificuldades para combater a ideologia da viol\u00eancia entre suas pr\u00f3prias v\u00edtimas, ou seja, os trabalhadores mais pobres.<\/p>\n<p>A reflex\u00e3o do her\u00f3i do filme o leva, numa seq\u00fc\u00eancia em que a c\u00e2mera sobrevoa os pr\u00e9dios do Congresso Nacional, a deduzir que o &#8220;sistema&#8221; ao qual combateu durante toda a carreira de policial-her\u00f3i vai al\u00e9m da simples corrup\u00e7\u00e3o policial, e na verdade abrange as mais altas institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, tidas como inteiramente apodrecidas pela corrup\u00e7\u00e3o. As conclus\u00f5es aparentemente s\u00e3o deixadas para o espectador. Ele pode optar pelo m\u00e9todo de Fraga\/Freixo, ou pelo m\u00e9todo de Nascimento. O Coronel n\u00e3o deixa de estar certo ao sugerir que as institui\u00e7\u00f5es est\u00e3o corrompidas. Entretanto, quem o aplaude neste momento, como a burguesia que o aplaudiu no filme depois de ter comandado o massacre no pres\u00eddio, s\u00e3o aqueles que desejariam ver o Congresso Nacional fechado para que o pa\u00eds voltasse a ser comandado por &#8220;her\u00f3is virtuosos&#8221;. N\u00e3o surpreende que a Globo Filmes, bra\u00e7o cinematogr\u00e1fico da Rede Globo, imp\u00e9rio empresarial de m\u00eddia que nasceu e cresceu com a fun\u00e7\u00e3o de fornecer sustenta\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica para a ditadura de 1964, esteja entre os patrocinadores do filme.<\/p>\n<p>As institui\u00e7\u00f5es do Estado burgu\u00eas est\u00e3o mesmo corrompidas, assim como todas as rela\u00e7\u00f5es sociais no sistema capitalista, baseadas na viol\u00eancia, no roubo (de trabalho n\u00e3o-pago, fonte da mais-valia) e na mentira. A solu\u00e7\u00e3o \u00e9 a derrubada dessas institui\u00e7\u00f5es, n\u00e3o apenas por &#8220;Che Guevaras&#8221;, como os que s\u00e3o ironizados pelo Coronel do BOPE, mas pela a\u00e7\u00e3o organizada e consciente da classe trabalhadora.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tropa de Elite 2: vit&oacute;ria da viol&ecirc;ncia<\/p>\n<p>Daniel M. Delfino<\/p>\n<p>No cinema de Hollywood as continua&ccedil;&otilde;es em geral seguem uma f&oacute;rmula t&iacute;pica em que tudo aumenta de escala: a ambi&ccedil;&atilde;o da trama, os desafios, o drama dos personagens, as reviravoltas no roteiro, os efeitos especiais, as cenas de a&ccedil;&atilde;o, etc. O segundo &quot;Tropa de Elite&quot; segue esta f&oacute;rmula e tamb&eacute;m amplia suas ambi&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>O primeiro epis&oacute;dio tinha como alvo ideol&oacute;gico a &quot;consci&ecirc;ncia social&quot; da pequena-burguesia universit&aacute;ria, que milita em ONGs, &eacute; &quot;amiga dos pobres&quot; e consome maconha. No discurso do filme, o usu&aacute;rio de drogas &eacute; o culpado pela viol&ecirc;ncia, pois &eacute; o seu dinheiro que financia o tr&aacute;fico, e que arma os traficantes, com as mesmas armas com as quais se cometem os demais crimes. 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O her&oacute;i do cinema brasileiro n&atilde;o &eacute; mais o bandido, o cangaceiro, express&atilde;o est&eacute;tica de uma &quot;consci&ecirc;ncia social&quot; anterior, tamb&eacute;m pequeno-burguesa e limitada, que glamourizava a resist&ecirc;ncia social dos pobres contra a repress&atilde;o do Estado, como forma de aliviar a consci&ecirc;ncia pesada dessa camada social com a mis&eacute;ria brasileira, mas que n&atilde;o avan&ccedil;ava para a defesa de mudan&ccedil;as profundas no regime social. Essa consci&ecirc;ncia foi tornada antiquada e a pequena-burguesia foi posta contra a parede. O novo her&oacute;i do cinema nacional &eacute; o policial dur&atilde;o, estilo John Mclaine, da s&eacute;rie &quot;Duro de Matar&quot;, em vers&atilde;o brasileira.<\/p>\n<p>O novo epis&oacute;dio tamb&eacute;m n&atilde;o avan&ccedil;a para um questionamento mais profundo sobre as causas do problema da viol&ecirc;ncia. Logo no in&iacute;cio, quando o BOPE est&aacute; se preparando para debelar uma rebeli&atilde;o em um pres&iacute;dio, o nosso &quot;her&oacute;i&quot;, o agora Coronel Nascimento, diz que o que impede a pol&iacute;cia de acabar de vez com o crime s&atilde;o os &quot;intelectuais de esquerda que ganham a vida defendendo vagabundo&quot;. O uso da express&atilde;o &quot;vagabundo&quot; n&atilde;o deixa margem de d&uacute;vidas quanto &agrave; ideologia que est&aacute; sendo destilada. O criminoso &eacute; chamado de &quot;vagabundo&quot;, um adjetivo negativo que tem o significado de pessoa que n&atilde;o quer trabalhar. Logo, o criminoso n&atilde;o se torna criminoso por uma s&eacute;rie de outras raz&otilde;es, mas simplesmente porque n&atilde;o quis trabalhar. Est&aacute; subentendida nesse discurso a id&eacute;ia de que, se o vagabundo quisesse trabalhar honestamente, ele poderia. Est&aacute; expresso a&iacute; com todas as cores o brutal cinismo da ideologia burguesa, que explica as desigualdades sociais pelo m&eacute;rito individual, que separa implacavelmente os vencedores dos perdedores.<\/p>\n<p>O desemprego, o subemprego, o trabalho superexplorado, a mis&eacute;ria e a aliena&ccedil;&atilde;o em que vivem milh&otilde;es de trabalhadores nas periferias s&atilde;o tomados tamb&eacute;m como pressupostos imut&aacute;veis, e tamb&eacute;m como se n&atilde;o tivessem nenhuma rela&ccedil;&atilde;o causal com a facilidade do neg&oacute;cio capitalista do tr&aacute;fico, um mercado como outro qualquer, de recrutar seus avi&otilde;ezinhos, soldados e gerentes de boca, prolet&aacute;rios do neg&oacute;cio do tr&aacute;fico, e seus chefes sanguin&aacute;rios, seus Beiradas, Baianos e Beira-mares, empreendedores capitalistas associados aos banqueiros encarregados da lavagem de dinheiro e aos pol&iacute;ticos e magistrados encarregados de deix&aacute;-los tocar suas atividades, dentro ou fora da cadeia, em troca de propina. Combater o crime por meio da viol&ecirc;ncia policial, ou por meio de ONGs assistencialistas, sem combater as suas causas, que est&atilde;o na mis&eacute;ria social e no pr&oacute;prio sistema capitalista, &eacute; como enxugar gelo.<\/p>\n<p>O processo social que alimenta a continuidade dos neg&oacute;cios criminosos e da guerra associada a ele permanece oculto ou intocado no 2&ordm; epis&oacute;dio de &quot;Tropa de Elite&quot;, que come&ccedil;a com a cena de rebeli&atilde;o no pres&iacute;dio, quando o Coronel Nascimento diz que os &quot;vagabundos&quot; deveriam ser deixados &agrave; pr&oacute;pria sorte, para que se matassem todos. 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Os dois personagens assim &quot;se redimem&quot; por meio da coopera&ccedil;&atilde;o. O filme al&ccedil;a ent&atilde;o uma tentativa de reflex&atilde;o mais ampla, em que o pr&oacute;prio Coronel, do alto da tribuna de uma CPI das mil&iacute;cias, se questiona &quot;por que a sociedade o preparou para matar?&quot;.<\/p>\n<p>Nesse questionamento feito pelo filme aparecem epis&oacute;dios reais da hist&oacute;ria recente do Rio, como o roubo (farsesco, segundo o filme) das armas do ex&eacute;rcito, a equipe de reportagem torturada por integrantes da mil&iacute;cia (mortos no filme), e a CPI das mil&iacute;cias. O pr&oacute;prio Fraga &eacute; constru&iacute;do em cima da hist&oacute;ria do deputado estadual Marcelo Freixo, do PSOL, que impulsionou a CPI na assembl&eacute;ia legislativa. L&aacute; ele tem como advers&aacute;rio o apresentador de TV Wagner Montes, que como o apresentador do filme, defende a pol&iacute;tica de &quot;toler&acirc;ncia zero&quot; com &quot;bandidos&quot; e &quot;vagabundos&quot;. Os dois foram reeleitos em 2010, o primeiro com votos da classe m&eacute;dia da zona sul, o segundo com os votos da popula&ccedil;&atilde;o pobre dos morros. Um paradoxo que mereceria uma reflex&atilde;o mais aprofundada, pois constitui a chave para entender as dificuldades para combater a ideologia da viol&ecirc;ncia entre suas pr&oacute;prias v&iacute;timas, ou seja, os trabalhadores mais pobres.<\/p>\n<p>A reflex&atilde;o do her&oacute;i do filme o leva, numa seq&uuml;&ecirc;ncia em que a c&acirc;mera sobrevoa os pr&eacute;dios do Congresso Nacional, a deduzir que o &quot;sistema&quot; ao qual combateu durante toda a carreira de policial-her&oacute;i vai al&eacute;m da simples corrup&ccedil;&atilde;o policial, e na verdade abrange as mais altas institui&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas, tidas como inteiramente apodrecidas pela corrup&ccedil;&atilde;o. As conclus&otilde;es aparentemente s&atilde;o deixadas para o espectador. Ele pode optar pelo m&eacute;todo de Fraga\/Freixo, ou pelo m&eacute;todo de Nascimento. O Coronel n&atilde;o deixa de estar certo ao sugerir que as institui&ccedil;&otilde;es est&atilde;o corrompidas. Entretanto, quem o aplaude neste momento, como a burguesia que o aplaudiu no filme depois de ter comandado o massacre no pres&iacute;dio, s&atilde;o aqueles que desejariam ver o Congresso Nacional fechado para que o pa&iacute;s voltasse a ser comandado por &quot;her&oacute;is virtuosos&quot;. N&atilde;o surpreende que a Globo Filmes, bra&ccedil;o cinematogr&aacute;fico da Rede Globo, imp&eacute;rio empresarial de m&iacute;dia que nasceu e cresceu com a fun&ccedil;&atilde;o de fornecer sustenta&ccedil;&atilde;o ideol&oacute;gica para a ditadura de 1964, esteja entre os patrocinadores do filme.<\/p>\n<p>As institui&ccedil;&otilde;es do Estado burgu&ecirc;s est&atilde;o mesmo corrompidas, assim como todas as rela&ccedil;&otilde;es sociais no sistema capitalista, baseadas na viol&ecirc;ncia, no roubo (de trabalho n&atilde;o-pago, fonte da mais-valia) e na mentira. A solu&ccedil;&atilde;o &eacute; a derrubada dessas institui&ccedil;&otilde;es, n&atilde;o apenas por &quot;Che Guevaras&quot;, como os que s&atilde;o ironizados pelo Coronel do BOPE, mas pela a&ccedil;&atilde;o organizada e consciente da classe trabalhadora.<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[76],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/263"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=263"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/263\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6104,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/263\/revisions\/6104"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=263"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=263"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=263"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}