{"id":265,"date":"2010-12-13T18:40:58","date_gmt":"2010-12-13T20:40:58","guid":{"rendered":"http:\/\/espacosocialista.org\/?q=node\/265"},"modified":"2013-01-19T18:54:36","modified_gmt":"2013-01-19T20:54:36","slug":"para-acabar-com-o-crime-so-com-o-fim-do-capitalismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/2010\/12\/para-acabar-com-o-crime-so-com-o-fim-do-capitalismo\/","title":{"rendered":"PARA ACABAR COM O CRIME, S\u00d3 COM O FIM DO CAPITALISMO"},"content":{"rendered":"<div class=\"rtecenter\">\n\tNota do Espa&ccedil;o Socialista<\/div>\n<div class=\"rtecenter\">\n\t&nbsp;<\/div>\n<div class=\"rtejustify\">\n\t<strong><font color=\"#ff0000\">PARA ACABAR COM O CRIME, S&Oacute; COM O FIM DO CAPITALISMO<\/font><\/strong><\/p>\n<p>\tA ocupa&ccedil;&atilde;o dos morros<\/p>\n<p>\tNo final de novembro deste ano a cidade do Rio de Janeiro foi assolada por uma guerra entre organiza&ccedil;&otilde;es criminosas e for&ccedil;as da repress&atilde;o. A guerra teve epis&oacute;dios de terrorismo, com carros incendiados e outros incidentes que se multiplicaram pela cidade, com os criminosos tentando amedrontar a popula&ccedil;&atilde;o e intimidar a pol&iacute;cia e o Estado. A ousadia dos traficantes ao afrontar o Estado mostra que o crime cresceu demais e &quot;desceu do morro&quot;. O tr&aacute;fico havia institu&iacute;do um poder paralelo na periferia. Esse poder n&atilde;o p&ocirc;de ser aceito pela burguesia. Os ataques dos traficantes precipitaram a invas&atilde;o das favelas, pois a m&iacute;dia divulgou maci&ccedil;amente as a&ccedil;&otilde;es e exigiu provid&ecirc;ncias.<br \/>\n\tO governo j&aacute; vinha implantando as UPPs (Unidades de Pol&iacute;cia Pacificadora) em favelas menores, j&aacute; vinha fazendo obras nos morros e ocupando parcialmente alguns espa&ccedil;os. Mas diante da sensa&ccedil;&atilde;o de perda de controle, inadmiss&iacute;vel para o Estado burgu&ecirc;s, o governo optou pelo enfrentamento direto e partiu para uma verdadeira ofensiva militar, que mobilizou for&ccedil;as do BOPE, do ex&eacute;rcito e apoio da marinha, e culminou com a ocupa&ccedil;&atilde;o da favela de Vila Cruzeiro, parte do chamado complexo do Alem&atilde;o. Os chefes da fac&ccedil;&atilde;o criminosa que reinava em Vila Cruzeiro n&atilde;o foram presos, mas a ocupa&ccedil;&atilde;o do morro foi comemorada como uma esp&eacute;cie de ponto de virada da &quot;guerra contra o crime&quot;.<br \/>\n\tA grande novidade de mais esse epis&oacute;dio &eacute; o fato de que a popula&ccedil;&atilde;o de modo geral apoiou a a&ccedil;&atilde;o policial. E n&atilde;o s&oacute; a popula&ccedil;&atilde;o dos bairros de classe m&eacute;dia, mas a pr&oacute;pria popula&ccedil;&atilde;o dos morros recebeu a ocupa&ccedil;&atilde;o e a expuls&atilde;o das quadrilhas de traficantes com uma certa sensa&ccedil;&atilde;o de al&iacute;vio. Houve uma mudan&ccedil;a na rela&ccedil;&atilde;o entre os traficantes e a popula&ccedil;&atilde;o. Tradicionalmente, pela aus&ecirc;ncia do Estado, as quadrilhas de traficantes cumpriam um papel de assist&ecirc;ncia social, fazendo pequenos favores &agrave; popula&ccedil;&atilde;o que de certa forma legitimavam sua presen&ccedil;a. No per&iacute;odo recente, o Estado continuou ausente e as mesmas car&ecirc;ncias materiais se mantiveram, mas os programas de bolsa passaram a suprir certas necessidades m&iacute;nimas. Com isso, o tr&aacute;fico se tornou desnecess&aacute;rio e o que passou a prevalecer foi apenas o aspecto opressivo de sua rela&ccedil;&atilde;o com a popula&ccedil;&atilde;o, ou seja, as agress&otilde;es, os abusos, o autoritarismo, a ditadura cotidiana, o cerceamento do direito de ir e vir, os tiroteios, etc. Com isso, a popula&ccedil;&atilde;o passou a sentir a sa&iacute;da dos traficantes como uma esp&eacute;cie de liberta&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n\tEntretanto, a solu&ccedil;&atilde;o representada pela ocupa&ccedil;&atilde;o policial est&aacute; longe de ser definitiva. Depois de perder espa&ccedil;o numa determinada localidade, o tr&aacute;fico vai se reorganizar. Os grandes traficantes escaparam, a pol&iacute;cia matou e prendeu apenas os seus soldados. A ocupa&ccedil;&atilde;o de uma favela apenas desloca os criminosos para as outras, que continuam sob controle das fac&ccedil;&otilde;es do crime. O tr&aacute;fico de drogas continuar&aacute; funcionando, o que por sua vez continuar&aacute; alimentando o tr&aacute;fico de armas, assim como a corrup&ccedil;&atilde;o policial. Enquanto houver mis&eacute;ria e falta de perspectiva nas favelas, haver&aacute; jovens dispostos a se engajar no crime, conforme discutiremos adiante. E enquanto permanecer o sistema capitalista, a mis&eacute;ria vai continuar.<\/p>\n<p>\tO projeto da burguesia<\/p>\n<p>\tA ofensiva policial &eacute; parte de um projeto que visa formatar o Rio de Janeiro para receber os jogos da Copa do Mundo de 2014 e as Olimp&iacute;adas de 2016. A burguesia carioca tem o projeto de reconstruir a imagem do Rio como cart&atilde;o postal do Brasil e de explorar o potencial de beleza natural da cidade por meio do turismo, um ramo de neg&oacute;cio em que o pa&iacute;s ainda est&aacute; engatinhando. Esse projeto exigir&aacute; a desocupa&ccedil;&atilde;o dos morros, ou seja, a remo&ccedil;&atilde;o de comunidades inteiras. O combate ao crime e a ocupa&ccedil;&atilde;o policial das favelas s&atilde;o apenas pretextos para iniciar as opera&ccedil;&otilde;es que culminar&atilde;o na remo&ccedil;&atilde;o da popula&ccedil;&atilde;o dos morros, numa verdadeira opera&ccedil;&atilde;o de &quot;higiene social&quot;. A burguesia brasileira tem um projeto de pa&iacute;s, um projeto materializado na candidatura Dilma, que visa apresentar o Brasil como um pa&iacute;s bem-sucedido, lucrativo e acima de tudo, em ordem, ou seja, livre de dist&uacute;rbios de qualquer esp&eacute;cie, pronto para fornecer lucros abundantes para a burguesia mundial.<br \/>\n\tA curto prazo, a ocupa&ccedil;&atilde;o das favelas pode proporcionar uma sensa&ccedil;&atilde;o moment&acirc;nea de al&iacute;vio, mas em longo prazo os problemas v&atilde;o continuar. N&atilde;o s&oacute; o crime vai continuar existindo e disputando espa&ccedil;o com o Estado, mas essa pr&oacute;pria presen&ccedil;a do Estado assumir&aacute; um aspecto cada vez mais repressivo sobre a popula&ccedil;&atilde;o. A interven&ccedil;&atilde;o policial aponta para a constru&ccedil;&atilde;o de uma forma de controle social que impede a auto-organiza&ccedil;&atilde;o da popula&ccedil;&atilde;o. Evidentemente, a solu&ccedil;&atilde;o n&atilde;o seria a continuidade do crime, mas o enfrentamento da mis&eacute;ria capitalista, a melhoria nas condi&ccedil;&otilde;es de vida da popula&ccedil;&atilde;o pobre, a sua auto-organiza&ccedil;&atilde;o, o fim da corrup&ccedil;&atilde;o policial e de seus m&eacute;todos violentos, entre outras medidas que exigem questionar a fundo a ordem social vigente.<\/p>\n<p>\tOs aspectos ideol&oacute;gicos<\/p>\n<p>\tAs opera&ccedil;&otilde;es de guerra foram amplificadas pela m&iacute;dia de modo a gerar uma verdadeira histeria nacional. A &quot;guerra contra o crime&quot; virou uma esp&eacute;cie de &quot;reality show&quot;. Os programas policiais, com seu discurso fascist&oacute;ide, ocuparam o hor&aacute;rio nobre da TV, ou melhor ocuparam todos os hor&aacute;rios, com &quot;flashes&quot; e opini&otilde;es sendo emitidos em todos os programas pela voz de todo tipo de celebridade. O car&aacute;ter fascista desse discurso est&aacute; na substitui&ccedil;&atilde;o de uma explica&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica real para as causas sociais profundas da viol&ecirc;ncia por uma mitologia simplista, superficial e manique&iacute;sta, que divide a realidade em her&oacute;is e vil&otilde;es. A m&iacute;dia n&atilde;o abre espa&ccedil;o para a reflex&atilde;o, pois seu principal produto &eacute; a a&ccedil;&atilde;o constante. O show deve continuar. Al&eacute;m desse aspecto do espet&aacute;culo e da excita&ccedil;&atilde;o ininterrupta, que bloqueia a reflex&atilde;o, a m&iacute;dia faz tamb&eacute;m uma defesa ideol&oacute;gica pesada da interven&ccedil;&atilde;o armada. A m&iacute;dia burguesa toma partido abertamente em favor de um tipo de Estado mais autorit&aacute;rio e militarizado. Essa defesa &eacute; precedida da constru&ccedil;&atilde;o do mito do policial her&oacute;i e incorrupt&iacute;vel por filmes como os dois &quot;Tropa de Elite&quot;.<br \/>\n\t&Eacute; curioso destacar que a coca&iacute;na n&atilde;o foi apreendida na ocupa&ccedil;&atilde;o de Vila Cruzeiro e sim a maconha. A repress&atilde;o ao consumo da maconha, uma droga muito popular entre a juventude de classe m&eacute;dia e a intelectualidade &quot;de esquerda&quot; tem um conte&uacute;do mais moralista e um objetivo ideol&oacute;gico preciso. Essa repress&atilde;o tem a fun&ccedil;&atilde;o de culpabilizar esse setor da popula&ccedil;&atilde;o, identific&aacute;-lo com o pr&oacute;prio tr&aacute;fico e desmoralizar qualquer tipo de cr&iacute;tica ou obje&ccedil;&atilde;o &agrave; ocupa&ccedil;&atilde;o policial. O usu&aacute;rio de maconha fica identificado com o criminoso e impossibilitado de emitir qualquer opini&atilde;o contr&aacute;ria &agrave; do consenso fabricado e da unanimidade em favor da a&ccedil;&atilde;o armada do Estado. O discurso do &quot;ou est&aacute; conosco ou est&aacute; contra n&oacute;s&quot; bloqueia antecipadamente qualquer cr&iacute;tica &agrave; guerra contra o crime. Quem se coloca contra a a&ccedil;&atilde;o militar acaba sendo acusado de partid&aacute;rio do crime, quando se trata de coisas absolutamente diferentes. N&atilde;o se ignora que o crime seja um problema, mas sim trata-se de dizer que a guerra n&atilde;o &eacute; a solu&ccedil;&atilde;o. Trata-se de olhar al&eacute;m da superf&iacute;cie do espet&aacute;culo.<\/p>\n<p>\tAs institui&ccedil;&otilde;es policiais<\/p>\n<p>\tA histeria criada pela m&iacute;dia em torno da a&ccedil;&atilde;o policial forjou um clima de guerra, de tudo ou nada, de mocinhos X bandidos, que funciona como meio de legitimar a interven&ccedil;&atilde;o policial e o uso da for&ccedil;a. Isso &eacute; parte de um processo de direitiza&ccedil;&atilde;o e fascistiza&ccedil;&atilde;o social que visa bloquear e impedir qualquer tipo de luta, manifesta&ccedil;&atilde;o e cr&iacute;tica contra a ordem social vigente. O crime &eacute; somente um pretexto conveniente para legitimar o autoritarismo. Mesmo porque, o crime vai continuar existindo. Mil&iacute;cias e grupos para-militares continuar&atilde;o explorando neg&oacute;cios criminosos e oprimindo a popula&ccedil;&atilde;o pobre. Em pa&iacute;ses como a Col&ocirc;mbia, as mil&iacute;cias de extrema-direita (AUC) s&atilde;o financiadas por narcotraficantes, atuam com a coniv&ecirc;ncia da pol&iacute;cia e do ex&eacute;rcito e massacram sistematicamente lideran&ccedil;as ind&iacute;genas, camponesas, sindicais e populares.<br \/>\n\tO uso da for&ccedil;a armada pelo Estado &eacute; parte de um contexto global de crise societal, em que a burguesia tende a recorrer a solu&ccedil;&otilde;es cada vez mais duras para administrar as contradi&ccedil;&otilde;es do capitalismo. As guerras de invas&atilde;o imperialistas, golpes de Estado, recrudescimento da repress&atilde;o, criminaliza&ccedil;&atilde;o dos movimentos sociais, persegui&ccedil;&atilde;o aos ativistas e militantes, reorganiza&ccedil;&atilde;o de for&ccedil;as de extrema-direita e neofascistas, racistas, xenof&oacute;bicas, etc.; s&atilde;o medidas cada vez mais comuns no momento hist&oacute;rico atual, diante da necessidade da burguesia de derrotar qualquer forma de resist&ecirc;ncia da classe trabalhadora ou impedir preventivamente as suas lutas. A ocupa&ccedil;&atilde;o do Haiti por tropas brasileiras &eacute; apenas mais um exemplo desse tipo de operativo que se multiplica em v&aacute;rias regi&otilde;es do planeta, e tamb&eacute;m uma esp&eacute;cie de ensaio para a ocupa&ccedil;&atilde;o das pr&oacute;prias favelas brasileiras.<br \/>\n\tA ocupa&ccedil;&atilde;o policial de um morro ou favela &eacute; um paliativo que n&atilde;o vai resolver o problema do crime. O Estado n&atilde;o tem condi&ccedil;&otilde;es financeiras de manter um aparato policial capaz de ocupar todos os morros, favelas e periferias. A ocupa&ccedil;&atilde;o acaba assim abrindo espa&ccedil;o para as mil&iacute;cias. Os agentes do aparato policial acabam &quot;suprindo&quot; a falta de condi&ccedil;&otilde;es do Estado agindo por conta pr&oacute;pria, &quot;privatizando&quot; informalmente a seguran&ccedil;a p&uacute;blica, extrapolando o seu mandato legal e usando o seu acesso a armas de fogo para converter-se, no seu tempo livre, em integrantes de mil&iacute;cias, grupos para-militares, for&ccedil;as de seguran&ccedil;a privadas, etc., que n&atilde;o passam de outro tipo de organiza&ccedil;&otilde;es criminosas, as quais submetem as popula&ccedil;&otilde;es pobres a um reino de terror t&atilde;o opressivo, arbitr&aacute;rio e cruel quanto o que era criado pelos traficantes.<br \/>\n\tA cultura e os m&eacute;todos de a&ccedil;&atilde;o da pol&iacute;cia brasileira s&atilde;o determinados pelo seu formato, &uacute;nico no mundo, de uma pol&iacute;cia de tipo militar, ao lado da pol&iacute;cia civil. A pol&iacute;cia militar, subordinada aos governos estaduais, tem uma estrutura de ex&eacute;rcito, um ex&eacute;rcito que existe para combater um inimigo, um inimigo que, na aus&ecirc;ncia de uma guerra real, s&oacute; pode ser um inimigo interno, ou seja, o pr&oacute;prio povo brasileiro, a classe trabalhadora. A pol&iacute;cia militar brasileira &eacute; treinada e educada para reprimir os trabalhadores, reprimir as greves, as ocupa&ccedil;&otilde;es de terra, as manifesta&ccedil;&otilde;es, como se fossem atos criminosos. A pol&iacute;cia militar funciona como tropa mercen&aacute;ria da classe dominante. Quanto ao crime propriamente dito, boa parte da pol&iacute;cia militar acaba por se associar a ele, vivendo de propinas, subornos e &quot;arregos&quot; dos traficantes e outros criminosos. Evidentemente, esses defeitos n&atilde;o s&atilde;o exclusivos da pol&iacute;cia militar, pois grassam tamb&eacute;m na civil e nas tropas de elite, ao contr&aacute;rio do mito veiculado pelo cinema nacional. Mas &eacute; preciso ressaltar o quanto h&aacute; de aberrante em uma pol&iacute;cia concebida para tratar o pr&oacute;prio povo como inimigo. A guerra contra o crime nas favelas e periferias representa uma forma de continuidade da longa e sistem&aacute;tica guerra de exterm&iacute;nio perpetrada pela classe dominante brasileira contra os negros, os nordestinos, os pobres em geral, marcada por epis&oacute;dios como o de Palmares, Canudos, Contestado, o canga&ccedil;o, as revoltas da chibata e da vacina, Corumbiara, Caraj&aacute;s, etc. Tudo isso acabou convergindo para a heran&ccedil;a de uma pol&iacute;cia que al&eacute;m de corrupta e violenta, incompetente e arbitr&aacute;ria, &eacute; ideologicamente ultra-reacion&aacute;ria, machista, racista e homof&oacute;bica.<\/p>\n<p>\tAs ra&iacute;zes sociais profundas<\/p>\n<p>\tPara fugir dos falsos debates e entender o significado real da &quot;guerra&quot; do Estado contra o crime organizado &eacute; preciso abordar com mais profundidade o significado do crime como fen&ocirc;meno social. Num exame mais aprofundado da quest&atilde;o, o primeiro aspecto a ser destacado &eacute; o fato de que o crime &eacute; produto da mis&eacute;ria produzida pelo capitalismo. &Eacute; a mis&eacute;ria generalizada nas periferias que empurra os jovens para a op&ccedil;&atilde;o de uma &quot;carreira&quot; nas organiza&ccedil;&otilde;es criminosas, fato que por si s&oacute; j&aacute; serve como uma eloq&uuml;ente den&uacute;ncia da inviabilidade do sistema capitalista. Sem emprego, sem condi&ccedil;&otilde;es de trabalho, sem sal&aacute;rios suficientes para as necessidades, sem moradia, saneamento b&aacute;sico, servi&ccedil;os p&uacute;blicos, sa&uacute;de, educa&ccedil;&atilde;o, etc., a realidade na periferia &eacute; t&atilde;o miser&aacute;vel que o crime acaba se tornando uma op&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n\tDiante da perspectiva do desemprego, subemprego, superexplora&ccedil;&atilde;o e car&ecirc;ncias materiais b&aacute;sicas em que vive a popula&ccedil;&atilde;o trabalhadora, h&aacute; um setor da juventude que prefere se engajar no crime, ou seja, viver de armas na m&atilde;o, matar ou morrer, para ter a chance de enriquecer e ter acesso aos bens de consumo. O criminoso n&atilde;o &eacute; um ser &agrave; parte da sociedade, n&atilde;o &eacute; uma sub-ra&ccedil;a, n&atilde;o &eacute; um ser marcado pela maldade de nascen&ccedil;a, mas &eacute; um produto das rela&ccedil;&otilde;es sociais capitalistas. As iniciativas de combate ao crime do tipo repressivo est&atilde;o apenas enxugando gelo, pois para cada soldado do crime abatido ou preso pela pol&iacute;cia h&aacute; dezenas de outros candidatos a tomar o seu lugar. Da mesma forma, a a&ccedil;&atilde;o de ONGs e ag&ecirc;ncias assistenciais do Estado &eacute; incapaz de resolver de fato a mis&eacute;ria da periferia, pois isso exigiria investimentos sociais maci&ccedil;os, que s&atilde;o incompat&iacute;veis com a fun&ccedil;&atilde;o do Estado no capitalismo, que &eacute; o de prover as condi&ccedil;&otilde;es para os neg&oacute;cios da burguesia, &agrave;s expensas do restante da popula&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n\tUm segundo aspecto da quest&atilde;o &eacute; o fato de que o crime organizado como atividade econ&ocirc;mica &eacute; parte integrante do sistema capitalista. O tr&aacute;fico tamb&eacute;m &eacute; uma empresa. Os chefes do tr&aacute;fico se comportam como burgueses, e os seus soldados aspiram ao mesmo tipo de &quot;sucesso&quot; material. Ideologicamente, o criminoso &eacute; t&atilde;o burgu&ecirc;s como qualquer empres&aacute;rio. Concretamente, o criminoso &eacute; apenas um empres&aacute;rio que leva a concorr&ecirc;ncia at&eacute; as &uacute;ltimas conseq&uuml;&ecirc;ncias, ou seja, &agrave; elimina&ccedil;&atilde;o f&iacute;sica dos competidores, coisa que os burgueses tradicionais fazem de forma mais disfar&ccedil;ada. Na sua l&oacute;gica e no seu funcionamento como neg&oacute;cio, o crime e a burguesia compartilham os mesmos mecanismos.<br \/>\n\tO tr&aacute;fico de drogas, tr&aacute;fico de armas, prostitui&ccedil;&atilde;o, contrabando, etc., dependem de mecanismos de lavagem de dinheiro que s&atilde;o os mesmos usados pelos neg&oacute;cios capitalistas &quot;legais&quot;. Os para&iacute;sos fiscais, as contas secretas, os instrumentos que garantem a liberdade de movimenta&ccedil;&atilde;o ao capital, a desregulamenta&ccedil;&atilde;o do mercado financeiro, etc., s&atilde;o instrumentos indispens&aacute;veis ao funcionamento da economia capitalista atual, de modo que a burguesia tamb&eacute;m necessita deles para seus neg&oacute;cios &quot;legais&quot;. Colocamos as aspas porque todo neg&oacute;cio capitalista frauda sistematicamente as legisla&ccedil;&otilde;es cont&aacute;beis, fiscais, previdenci&aacute;rias, ambientais, de sa&uacute;de p&uacute;blica, etc., todo empres&aacute;rio capitalista rouba seus trabalhadores, seus clientes e o Estado, todos em maior ou menor medida desviam dinheiro de suas empresas e do Estado, via sonega&ccedil;&atilde;o fiscal, o que por sua vez n&atilde;o ocorre sem a coniv&ecirc;ncia e a sociedade de banqueiros, ju&iacute;zes, policiais, fiscais das ag&ecirc;ncias estatais, etc. O crime n&atilde;o &eacute; uma aberra&ccedil;&atilde;o marginal, ele &eacute; parte da pr&oacute;pria ess&ecirc;ncia do modo de produ&ccedil;&atilde;o capitalista.<br \/>\n\tO terceiro aspecto &eacute; o fato de que o carro-chefe do crime organizado no Brasil e no mundo, o tr&aacute;fico de drogas, somente se converte numa for&ccedil;a social com o colossal poder de fogo que det&eacute;m hoje pelo fato de que o consumo de certas drogas &eacute; proibido pelo Estado. A proibi&ccedil;&atilde;o obriga o Estado a reprimir traficantes e usu&aacute;rios de drogas, o que obriga os operadores desse mercado a andar armados, criando por sua vez o mercado para o tr&aacute;fico de armas, fomentando a corrup&ccedil;&atilde;o policial, etc. A proibi&ccedil;&atilde;o n&atilde;o se baseia em nenhum crit&eacute;rio de periculosidade das drogas, pois o &aacute;lcool e o cigarro, drogas legalizadas, causam imensos danos e preju&iacute;zos aos seus usu&aacute;rios e ao sistema p&uacute;blico de sa&uacute;de. A legaliza&ccedil;&atilde;o do consumo de drogas provocaria um crescimento do n&uacute;mero de usu&aacute;rios e portanto de dependentes, com impacto sobre as fam&iacute;lias e sobre o sistema de sa&uacute;de p&uacute;blica. Entretanto, a letalidade social da proibi&ccedil;&atilde;o, com todo o corol&aacute;rio de viol&ecirc;ncia, morte, corrup&ccedil;&atilde;o, opress&atilde;o carcer&aacute;ria, etc., &eacute; muito maior do que a legaliza&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n\tAssim como a descriminaliza&ccedil;&atilde;o do aborto &eacute; uma quest&atilde;o de sa&uacute;de p&uacute;blica, pois centenas de milhares de mulheres fazem abortos todos os anos se expondo a mortes e seq&uuml;elas diversas; da mesma forma a descriminaliza&ccedil;&atilde;o do consumo de drogas permitiria que os usu&aacute;rios recebessem tratamento, ao inv&eacute;s de encarceramento. O aborto n&atilde;o &eacute; um m&eacute;todo contraceptivo recomend&aacute;vel, mas independentemente da hipocrisia moralista, a gravidez n&atilde;o planejada continua acontecendo e precisa ser interrompida por mulheres sem condi&ccedil;&otilde;es de serem m&atilde;es. O consumo de drogas tamb&eacute;m n&atilde;o &eacute; uma sa&iacute;da para os dramas e dilemas do indiv&iacute;duo, mas, gostem ou n&atilde;o os moralistas, os usu&aacute;rios de drogas recorrem a elas para escapar de suas dores subjetivas, mesmo porque s&atilde;o estimulados ao escapismo pela publicidade maci&ccedil;a de drogas &quot;legais&quot; e tamb&eacute;m mort&iacute;feras como o &aacute;lcool e o cigarro.<br \/>\n\tA grande quest&atilde;o de fundo &eacute;: por que os indiv&iacute;duos sentem necessidade de fugir da pr&oacute;pria vida, a ponto de recorrer ao consumo de subst&acirc;ncias proibidas e letais? A falta de sentido da vida, o ideal de felicidade que escraviza o indiv&iacute;duo aos objetos de consumo, a insatisfa&ccedil;&atilde;o com o trabalho alienado, que consome as for&ccedil;as do trabalhador sem lhe proporcionar gratifica&ccedil;&atilde;o, o cotidiano de explora&ccedil;&atilde;o e opress&atilde;o, a mis&eacute;ria material e espiritual, a rotina, o t&eacute;dio, o cansa&ccedil;o, os diversos sofrimentos f&iacute;sicos e psicol&oacute;gicos, tudo isso comp&otilde;e o retrato da vida sob o capitalismo, que muitos preferem n&atilde;o encarar, optando pelo uso de drogas.<\/p>\n<p>\tPropostas<\/p>\n<p>\tO problema do crime e da viol&ecirc;ncia &eacute; insepar&aacute;vel dos demais problemas da ordem social que lhe d&aacute; origem e terreno f&eacute;rtil para prosperar. Para acabar com o crime &eacute; preciso acabar com a mis&eacute;ria capitalista. &Eacute; preciso garantir emprego e aumentar o sal&aacute;rio dos trabalhadores, fornecer servi&ccedil;os p&uacute;blicos em quantidade e qualidade, colocar a pol&iacute;cia sob controle das comunidades. Todas essas medidas s&atilde;o incompat&iacute;veis com o controle do Estado pela burguesa, portanto s&atilde;o parte de um conjunto de medidas progressivas que preparam uma transi&ccedil;&atilde;o revolucion&aacute;ria da ordem capitalista em dire&ccedil;&atilde;o ao socialismo.<\/p>\n<p>\t&#8211; Emprego e sal&aacute;rio para todos. Reposi&ccedil;&atilde;o das perdas salariais e defesa dos direitos e condi&ccedil;&otilde;es de trabalho. Carteira assinada e direitos trabalhistas para todos, fim da terceiriza&ccedil;&atilde;o, da informalidade e da precariza&ccedil;&atilde;o do trabalho. Sal&aacute;rio m&iacute;nimo do DIEESE como piso para todas as categorias. Redu&ccedil;&atilde;o da jornada de trabalho para 30 horas semanais sem redu&ccedil;&atilde;o dos sal&aacute;rios.<\/p>\n<p>\t&#8211; N&atilde;o pagamento das d&iacute;vidas p&uacute;blicas, interna e externa, e investimento desse dinheiro num programa de obras e servi&ccedil;os p&uacute;blicos para atender prioritariamente a popula&ccedil;&atilde;o das favelas e periferias, sob controle dos trabalhadores, para gerar empregos e melhorar as condi&ccedil;&otilde;es imediatas de sa&uacute;de, educa&ccedil;&atilde;o, moradia, transporte, cultura e lazer.<\/p>\n<p>\t&#8211; Cotas proporcionais para negros e negras em todos os empregos gerados e em todos os setores da sociedade.<\/p>\n<p>\t&#8211; Descriminaliza&ccedil;&atilde;o do uso de drogas, combinada com campanhas educativas e tratamento para os dependentes.<\/p>\n<p>\t&#8211; Liberdade de mobiliza&ccedil;&atilde;o, organiza&ccedil;&atilde;o e movimenta&ccedil;&atilde;o nas favelas e periferias.<\/p>\n<p>\t&#8211; Contra a criminaliza&ccedil;&atilde;o dos movimentos sociais.<\/p>\n<p>\t&#8211; Desmilitariza&ccedil;&atilde;o e fus&atilde;o entre as pol&iacute;cias militar e civil. Por uma seguran&ccedil;a p&uacute;blica sob controle dos trabalhadores, democr&aacute;tica e transparente. Fim da hierarquia militar e elei&ccedil;&atilde;o dos dirigentes pelos policiais. Publicar o patrim&ocirc;nio e quebrar o sigilo dos ocupantes de fun&ccedil;&otilde;es p&uacute;blicas e &oacute;rg&atilde;os de seguran&ccedil;a. Por uma pol&iacute;cia subordinada &agrave;s comunidades, sob controle de assembl&eacute;ias e &oacute;rg&atilde;os de decis&atilde;o dos bairros.<\/p>\n<p>\tA luta pelo programa que expusemos e a constru&ccedil;&atilde;o dos organismos prolet&aacute;rios adequados a essa tarefa necessariamente se chocam com a estrutura do Estado burgu&ecirc;s e exigem a constru&ccedil;&atilde;o de uma alternativa de poder pol&iacute;tico e social da classe trabalhadora. A classe trabalhadora precisa criar seus pr&oacute;prios organismos de luta, que sejam os embri&otilde;es de novos mecanismos de administra&ccedil;&atilde;o, capazes de reorganizar a produ&ccedil;&atilde;o social em bases racionais, tendo em vista o atendimento das necessidades humanas e a cria&ccedil;&atilde;o de rela&ccedil;&otilde;es sociais emancipadas. Esses organismos devem ter como princ&iacute;pios a independ&ecirc;ncia de classe, a democracia oper&aacute;ria, a participa&ccedil;&atilde;o da base, a luta contra a burocratiza&ccedil;&atilde;o e a disputa ideol&oacute;gica, e ter como tarefa impulsionar um processo de ruptura revolucion&aacute;ria contra a sociedade capitalista, pela constru&ccedil;&atilde;o do socialismo. Por um governo socialista dos trabalhadores baseado em suas organiza&ccedil;&otilde;es de luta. Por uma sociedade socialista.<\/p>\n<p>\tEspa&ccedil;o Socialista<br \/>\n\tDezembro, 2010<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"rtecenter\">\n\tNota do Espa&ccedil;o Socialista<\/div>\n<div class=\"rtecenter\">\n\t&nbsp;<\/div>\n<div class=\"rtejustify\">\n\t<strong><font color=\"#ff0000\">PARA ACABAR COM O CRIME, S&Oacute; COM O FIM DO CAPITALISMO<\/font><\/strong><\/p>\n<p>\tA ocupa&ccedil;&atilde;o dos morros<\/p>\n<p>\tNo final de novembro deste ano a cidade do Rio de Janeiro foi assolada por uma guerra entre organiza&ccedil;&otilde;es criminosas e for&ccedil;as da repress&atilde;o. A guerra teve epis&oacute;dios de terrorismo, com carros incendiados e outros incidentes que se multiplicaram pela cidade, com os criminosos tentando amedrontar a popula&ccedil;&atilde;o e intimidar a pol&iacute;cia e o Estado. A ousadia dos traficantes ao afrontar o Estado mostra que o crime cresceu demais e &quot;desceu do morro&quot;. O tr&aacute;fico havia institu&iacute;do um poder paralelo na periferia. Esse poder n&atilde;o p&ocirc;de ser aceito pela burguesia. Os ataques dos traficantes precipitaram a invas&atilde;o das favelas, pois a m&iacute;dia divulgou maci&ccedil;amente as a&ccedil;&otilde;es e exigiu provid&ecirc;ncias.<br \/>\n\tO governo j&aacute; vinha implantando as UPPs (Unidades de Pol&iacute;cia Pacificadora) em favelas menores, j&aacute; vinha fazendo obras nos morros e ocupando parcialmente alguns espa&ccedil;os. Mas diante da sensa&ccedil;&atilde;o de perda de controle, inadmiss&iacute;vel para o Estado burgu&ecirc;s, o governo optou pelo enfrentamento direto e partiu para uma verdadeira ofensiva militar, que mobilizou for&ccedil;as do BOPE, do ex&eacute;rcito e apoio da marinha, e culminou com a ocupa&ccedil;&atilde;o da favela de Vila Cruzeiro, parte do chamado complexo do Alem&atilde;o. Os chefes da fac&ccedil;&atilde;o criminosa que reinava em Vila Cruzeiro n&atilde;o foram presos, mas a ocupa&ccedil;&atilde;o do morro foi comemorada como uma esp&eacute;cie de ponto de virada da &quot;guerra contra o crime&quot;.<br \/>\n\tA grande novidade de mais esse epis&oacute;dio &eacute; o fato de que a popula&ccedil;&atilde;o de modo geral apoiou a a&ccedil;&atilde;o policial. E n&atilde;o s&oacute; a popula&ccedil;&atilde;o dos bairros de classe m&eacute;dia, mas a pr&oacute;pria popula&ccedil;&atilde;o dos morros recebeu a ocupa&ccedil;&atilde;o e a expuls&atilde;o das quadrilhas de traficantes com uma certa sensa&ccedil;&atilde;o de al&iacute;vio. Houve uma mudan&ccedil;a na rela&ccedil;&atilde;o entre os traficantes e a popula&ccedil;&atilde;o. Tradicionalmente, pela aus&ecirc;ncia do Estado, as quadrilhas de traficantes cumpriam um papel de assist&ecirc;ncia social, fazendo pequenos favores &agrave; popula&ccedil;&atilde;o que de certa forma legitimavam sua presen&ccedil;a. No per&iacute;odo recente, o Estado continuou ausente e as mesmas car&ecirc;ncias materiais se mantiveram, mas os programas de bolsa passaram a suprir certas necessidades m&iacute;nimas. Com isso, o tr&aacute;fico se tornou desnecess&aacute;rio e o que passou a prevalecer foi apenas o aspecto opressivo de sua rela&ccedil;&atilde;o com a popula&ccedil;&atilde;o, ou seja, as agress&otilde;es, os abusos, o autoritarismo, a ditadura cotidiana, o cerceamento do direito de ir e vir, os tiroteios, etc. Com isso, a popula&ccedil;&atilde;o passou a sentir a sa&iacute;da dos traficantes como uma esp&eacute;cie de liberta&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n\tEntretanto, a solu&ccedil;&atilde;o representada pela ocupa&ccedil;&atilde;o policial est&aacute; longe de ser definitiva. Depois de perder espa&ccedil;o numa determinada localidade, o tr&aacute;fico vai se reorganizar. Os grandes traficantes escaparam, a pol&iacute;cia matou e prendeu apenas os seus soldados. A ocupa&ccedil;&atilde;o de uma favela apenas desloca os criminosos para as outras, que continuam sob controle das fac&ccedil;&otilde;es do crime. O tr&aacute;fico de drogas continuar&aacute; funcionando, o que por sua vez continuar&aacute; alimentando o tr&aacute;fico de armas, assim como a corrup&ccedil;&atilde;o policial. Enquanto houver mis&eacute;ria e falta de perspectiva nas favelas, haver&aacute; jovens dispostos a se engajar no crime, conforme discutiremos adiante. E enquanto permanecer o sistema capitalista, a mis&eacute;ria vai continuar.<\/p>\n<p>\tO projeto da burguesia<\/p>\n<p>\tA ofensiva policial &eacute; parte de um projeto que visa formatar o Rio de Janeiro para receber os jogos da Copa do Mundo de 2014 e as Olimp&iacute;adas de 2016. A burguesia carioca tem o projeto de reconstruir a imagem do Rio como cart&atilde;o postal do Brasil e de explorar o potencial de beleza natural da cidade por meio do turismo, um ramo de neg&oacute;cio em que o pa&iacute;s ainda est&aacute; engatinhando. Esse projeto exigir&aacute; a desocupa&ccedil;&atilde;o dos morros, ou seja, a remo&ccedil;&atilde;o de comunidades inteiras. O combate ao crime e a ocupa&ccedil;&atilde;o policial das favelas s&atilde;o apenas pretextos para iniciar as opera&ccedil;&otilde;es que culminar&atilde;o na remo&ccedil;&atilde;o da popula&ccedil;&atilde;o dos morros, numa verdadeira opera&ccedil;&atilde;o de &quot;higiene social&quot;. A burguesia brasileira tem um projeto de pa&iacute;s, um projeto materializado na candidatura Dilma, que visa apresentar o Brasil como um pa&iacute;s bem-sucedido, lucrativo e acima de tudo, em ordem, ou seja, livre de dist&uacute;rbios de qualquer esp&eacute;cie, pronto para fornecer lucros abundantes para a burguesia mundial.<br \/>\n\tA curto prazo, a ocupa&ccedil;&atilde;o das favelas pode proporcionar uma sensa&ccedil;&atilde;o moment&acirc;nea de al&iacute;vio, mas em longo prazo os problemas v&atilde;o continuar. N&atilde;o s&oacute; o crime vai continuar existindo e disputando espa&ccedil;o com o Estado, mas essa pr&oacute;pria presen&ccedil;a do Estado assumir&aacute; um aspecto cada vez mais repressivo sobre a popula&ccedil;&atilde;o. A interven&ccedil;&atilde;o policial aponta para a constru&ccedil;&atilde;o de uma forma de controle social que impede a auto-organiza&ccedil;&atilde;o da popula&ccedil;&atilde;o. Evidentemente, a solu&ccedil;&atilde;o n&atilde;o seria a continuidade do crime, mas o enfrentamento da mis&eacute;ria capitalista, a melhoria nas condi&ccedil;&otilde;es de vida da popula&ccedil;&atilde;o pobre, a sua auto-organiza&ccedil;&atilde;o, o fim da corrup&ccedil;&atilde;o policial e de seus m&eacute;todos violentos, entre outras medidas que exigem questionar a fundo a ordem social vigente.<\/p>\n<p>\tOs aspectos ideol&oacute;gicos<\/p>\n<p>\tAs opera&ccedil;&otilde;es de guerra foram amplificadas pela m&iacute;dia de modo a gerar uma verdadeira histeria nacional. A &quot;guerra contra o crime&quot; virou uma esp&eacute;cie de &quot;reality show&quot;. Os programas policiais, com seu discurso fascist&oacute;ide, ocuparam o hor&aacute;rio nobre da TV, ou melhor ocuparam todos os hor&aacute;rios, com &quot;flashes&quot; e opini&otilde;es sendo emitidos em todos os programas pela voz de todo tipo de celebridade. O car&aacute;ter fascista desse discurso est&aacute; na substitui&ccedil;&atilde;o de uma explica&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica real para as causas sociais profundas da viol&ecirc;ncia por uma mitologia simplista, superficial e manique&iacute;sta, que divide a realidade em her&oacute;is e vil&otilde;es. A m&iacute;dia n&atilde;o abre espa&ccedil;o para a reflex&atilde;o, pois seu principal produto &eacute; a a&ccedil;&atilde;o constante. O show deve continuar. Al&eacute;m desse aspecto do espet&aacute;culo e da excita&ccedil;&atilde;o ininterrupta, que bloqueia a reflex&atilde;o, a m&iacute;dia faz tamb&eacute;m uma defesa ideol&oacute;gica pesada da interven&ccedil;&atilde;o armada. A m&iacute;dia burguesa toma partido abertamente em favor de um tipo de Estado mais autorit&aacute;rio e militarizado. Essa defesa &eacute; precedida da constru&ccedil;&atilde;o do mito do policial her&oacute;i e incorrupt&iacute;vel por filmes como os dois &quot;Tropa de Elite&quot;.<br \/>\n\t&Eacute; curioso destacar que a coca&iacute;na n&atilde;o foi apreendida na ocupa&ccedil;&atilde;o de Vila Cruzeiro e sim a maconha. A repress&atilde;o ao consumo da maconha, uma droga muito popular entre a juventude de classe m&eacute;dia e a intelectualidade &quot;de esquerda&quot; tem um conte&uacute;do mais moralista e um objetivo ideol&oacute;gico preciso. Essa repress&atilde;o tem a fun&ccedil;&atilde;o de culpabilizar esse setor da popula&ccedil;&atilde;o, identific&aacute;-lo com o pr&oacute;prio tr&aacute;fico e desmoralizar qualquer tipo de cr&iacute;tica ou obje&ccedil;&atilde;o &agrave; ocupa&ccedil;&atilde;o policial. O usu&aacute;rio de maconha fica identificado com o criminoso e impossibilitado de emitir qualquer opini&atilde;o contr&aacute;ria &agrave; do consenso fabricado e da unanimidade em favor da a&ccedil;&atilde;o armada do Estado. O discurso do &quot;ou est&aacute; conosco ou est&aacute; contra n&oacute;s&quot; bloqueia antecipadamente qualquer cr&iacute;tica &agrave; guerra contra o crime. Quem se coloca contra a a&ccedil;&atilde;o militar acaba sendo acusado de partid&aacute;rio do crime, quando se trata de coisas absolutamente diferentes. N&atilde;o se ignora que o crime seja um problema, mas sim trata-se de dizer que a guerra n&atilde;o &eacute; a solu&ccedil;&atilde;o. Trata-se de olhar al&eacute;m da superf&iacute;cie do espet&aacute;culo.<\/p>\n<p>\tAs institui&ccedil;&otilde;es policiais<\/p>\n<p>\tA histeria criada pela m&iacute;dia em torno da a&ccedil;&atilde;o policial forjou um clima de guerra, de tudo ou nada, de mocinhos X bandidos, que funciona como meio de legitimar a interven&ccedil;&atilde;o policial e o uso da for&ccedil;a. Isso &eacute; parte de um processo de direitiza&ccedil;&atilde;o e fascistiza&ccedil;&atilde;o social que visa bloquear e impedir qualquer tipo de luta, manifesta&ccedil;&atilde;o e cr&iacute;tica contra a ordem social vigente. O crime &eacute; somente um pretexto conveniente para legitimar o autoritarismo. Mesmo porque, o crime vai continuar existindo. Mil&iacute;cias e grupos para-militares continuar&atilde;o explorando neg&oacute;cios criminosos e oprimindo a popula&ccedil;&atilde;o pobre. Em pa&iacute;ses como a Col&ocirc;mbia, as mil&iacute;cias de extrema-direita (AUC) s&atilde;o financiadas por narcotraficantes, atuam com a coniv&ecirc;ncia da pol&iacute;cia e do ex&eacute;rcito e massacram sistematicamente lideran&ccedil;as ind&iacute;genas, camponesas, sindicais e populares.<br \/>\n\tO uso da for&ccedil;a armada pelo Estado &eacute; parte de um contexto global de crise societal, em que a burguesia tende a recorrer a solu&ccedil;&otilde;es cada vez mais duras para administrar as contradi&ccedil;&otilde;es do capitalismo. As guerras de invas&atilde;o imperialistas, golpes de Estado, recrudescimento da repress&atilde;o, criminaliza&ccedil;&atilde;o dos movimentos sociais, persegui&ccedil;&atilde;o aos ativistas e militantes, reorganiza&ccedil;&atilde;o de for&ccedil;as de extrema-direita e neofascistas, racistas, xenof&oacute;bicas, etc.; s&atilde;o medidas cada vez mais comuns no momento hist&oacute;rico atual, diante da necessidade da burguesia de derrotar qualquer forma de resist&ecirc;ncia da classe trabalhadora ou impedir preventivamente as suas lutas. A ocupa&ccedil;&atilde;o do Haiti por tropas brasileiras &eacute; apenas mais um exemplo desse tipo de operativo que se multiplica em v&aacute;rias regi&otilde;es do planeta, e tamb&eacute;m uma esp&eacute;cie de ensaio para a ocupa&ccedil;&atilde;o das pr&oacute;prias favelas brasileiras.<br \/>\n\tA ocupa&ccedil;&atilde;o policial de um morro ou favela &eacute; um paliativo que n&atilde;o vai resolver o problema do crime. O Estado n&atilde;o tem condi&ccedil;&otilde;es financeiras de manter um aparato policial capaz de ocupar todos os morros, favelas e periferias. A ocupa&ccedil;&atilde;o acaba assim abrindo espa&ccedil;o para as mil&iacute;cias. Os agentes do aparato policial acabam &quot;suprindo&quot; a falta de condi&ccedil;&otilde;es do Estado agindo por conta pr&oacute;pria, &quot;privatizando&quot; informalmente a seguran&ccedil;a p&uacute;blica, extrapolando o seu mandato legal e usando o seu acesso a armas de fogo para converter-se, no seu tempo livre, em integrantes de mil&iacute;cias, grupos para-militares, for&ccedil;as de seguran&ccedil;a privadas, etc., que n&atilde;o passam de outro tipo de organiza&ccedil;&otilde;es criminosas, as quais submetem as popula&ccedil;&otilde;es pobres a um reino de terror t&atilde;o opressivo, arbitr&aacute;rio e cruel quanto o que era criado pelos traficantes.<br \/>\n\tA cultura e os m&eacute;todos de a&ccedil;&atilde;o da pol&iacute;cia brasileira s&atilde;o determinados pelo seu formato, &uacute;nico no mundo, de uma pol&iacute;cia de tipo militar, ao lado da pol&iacute;cia civil. A pol&iacute;cia militar, subordinada aos governos estaduais, tem uma estrutura de ex&eacute;rcito, um ex&eacute;rcito que existe para combater um inimigo, um inimigo que, na aus&ecirc;ncia de uma guerra real, s&oacute; pode ser um inimigo interno, ou seja, o pr&oacute;prio povo brasileiro, a classe trabalhadora. A pol&iacute;cia militar brasileira &eacute; treinada e educada para reprimir os trabalhadores, reprimir as greves, as ocupa&ccedil;&otilde;es de terra, as manifesta&ccedil;&otilde;es, como se fossem atos criminosos. A pol&iacute;cia militar funciona como tropa mercen&aacute;ria da classe dominante. Quanto ao crime propriamente dito, boa parte da pol&iacute;cia militar acaba por se associar a ele, vivendo de propinas, subornos e &quot;arregos&quot; dos traficantes e outros criminosos. Evidentemente, esses defeitos n&atilde;o s&atilde;o exclusivos da pol&iacute;cia militar, pois grassam tamb&eacute;m na civil e nas tropas de elite, ao contr&aacute;rio do mito veiculado pelo cinema nacional. Mas &eacute; preciso ressaltar o quanto h&aacute; de aberrante em uma pol&iacute;cia concebida para tratar o pr&oacute;prio povo como inimigo. A guerra contra o crime nas favelas e periferias representa uma forma de continuidade da longa e sistem&aacute;tica guerra de exterm&iacute;nio perpetrada pela classe dominante brasileira contra os negros, os nordestinos, os pobres em geral, marcada por epis&oacute;dios como o de Palmares, Canudos, Contestado, o canga&ccedil;o, as revoltas da chibata e da vacina, Corumbiara, Caraj&aacute;s, etc. Tudo isso acabou convergindo para a heran&ccedil;a de uma pol&iacute;cia que al&eacute;m de corrupta e violenta, incompetente e arbitr&aacute;ria, &eacute; ideologicamente ultra-reacion&aacute;ria, machista, racista e homof&oacute;bica.<\/p>\n<p>\tAs ra&iacute;zes sociais profundas<\/p>\n<p>\tPara fugir dos falsos debates e entender o significado real da &quot;guerra&quot; do Estado contra o crime organizado &eacute; preciso abordar com mais profundidade o significado do crime como fen&ocirc;meno social. Num exame mais aprofundado da quest&atilde;o, o primeiro aspecto a ser destacado &eacute; o fato de que o crime &eacute; produto da mis&eacute;ria produzida pelo capitalismo. &Eacute; a mis&eacute;ria generalizada nas periferias que empurra os jovens para a op&ccedil;&atilde;o de uma &quot;carreira&quot; nas organiza&ccedil;&otilde;es criminosas, fato que por si s&oacute; j&aacute; serve como uma eloq&uuml;ente den&uacute;ncia da inviabilidade do sistema capitalista. Sem emprego, sem condi&ccedil;&otilde;es de trabalho, sem sal&aacute;rios suficientes para as necessidades, sem moradia, saneamento b&aacute;sico, servi&ccedil;os p&uacute;blicos, sa&uacute;de, educa&ccedil;&atilde;o, etc., a realidade na periferia &eacute; t&atilde;o miser&aacute;vel que o crime acaba se tornando uma op&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n\tDiante da perspectiva do desemprego, subemprego, superexplora&ccedil;&atilde;o e car&ecirc;ncias materiais b&aacute;sicas em que vive a popula&ccedil;&atilde;o trabalhadora, h&aacute; um setor da juventude que prefere se engajar no crime, ou seja, viver de armas na m&atilde;o, matar ou morrer, para ter a chance de enriquecer e ter acesso aos bens de consumo. O criminoso n&atilde;o &eacute; um ser &agrave; parte da sociedade, n&atilde;o &eacute; uma sub-ra&ccedil;a, n&atilde;o &eacute; um ser marcado pela maldade de nascen&ccedil;a, mas &eacute; um produto das rela&ccedil;&otilde;es sociais capitalistas. As iniciativas de combate ao crime do tipo repressivo est&atilde;o apenas enxugando gelo, pois para cada soldado do crime abatido ou preso pela pol&iacute;cia h&aacute; dezenas de outros candidatos a tomar o seu lugar. Da mesma forma, a a&ccedil;&atilde;o de ONGs e ag&ecirc;ncias assistenciais do Estado &eacute; incapaz de resolver de fato a mis&eacute;ria da periferia, pois isso exigiria investimentos sociais maci&ccedil;os, que s&atilde;o incompat&iacute;veis com a fun&ccedil;&atilde;o do Estado no capitalismo, que &eacute; o de prover as condi&ccedil;&otilde;es para os neg&oacute;cios da burguesia, &agrave;s expensas do restante da popula&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n\tUm segundo aspecto da quest&atilde;o &eacute; o fato de que o crime organizado como atividade econ&ocirc;mica &eacute; parte integrante do sistema capitalista. O tr&aacute;fico tamb&eacute;m &eacute; uma empresa. Os chefes do tr&aacute;fico se comportam como burgueses, e os seus soldados aspiram ao mesmo tipo de &quot;sucesso&quot; material. Ideologicamente, o criminoso &eacute; t&atilde;o burgu&ecirc;s como qualquer empres&aacute;rio. Concretamente, o criminoso &eacute; apenas um empres&aacute;rio que leva a concorr&ecirc;ncia at&eacute; as &uacute;ltimas conseq&uuml;&ecirc;ncias, ou seja, &agrave; elimina&ccedil;&atilde;o f&iacute;sica dos competidores, coisa que os burgueses tradicionais fazem de forma mais disfar&ccedil;ada. Na sua l&oacute;gica e no seu funcionamento como neg&oacute;cio, o crime e a burguesia compartilham os mesmos mecanismos.<br \/>\n\tO tr&aacute;fico de drogas, tr&aacute;fico de armas, prostitui&ccedil;&atilde;o, contrabando, etc., dependem de mecanismos de lavagem de dinheiro que s&atilde;o os mesmos usados pelos neg&oacute;cios capitalistas &quot;legais&quot;. Os para&iacute;sos fiscais, as contas secretas, os instrumentos que garantem a liberdade de movimenta&ccedil;&atilde;o ao capital, a desregulamenta&ccedil;&atilde;o do mercado financeiro, etc., s&atilde;o instrumentos indispens&aacute;veis ao funcionamento da economia capitalista atual, de modo que a burguesia tamb&eacute;m necessita deles para seus neg&oacute;cios &quot;legais&quot;. Colocamos as aspas porque todo neg&oacute;cio capitalista frauda sistematicamente as legisla&ccedil;&otilde;es cont&aacute;beis, fiscais, previdenci&aacute;rias, ambientais, de sa&uacute;de p&uacute;blica, etc., todo empres&aacute;rio capitalista rouba seus trabalhadores, seus clientes e o Estado, todos em maior ou menor medida desviam dinheiro de suas empresas e do Estado, via sonega&ccedil;&atilde;o fiscal, o que por sua vez n&atilde;o ocorre sem a coniv&ecirc;ncia e a sociedade de banqueiros, ju&iacute;zes, policiais, fiscais das ag&ecirc;ncias estatais, etc. O crime n&atilde;o &eacute; uma aberra&ccedil;&atilde;o marginal, ele &eacute; parte da pr&oacute;pria ess&ecirc;ncia do modo de produ&ccedil;&atilde;o capitalista.<br \/>\n\tO terceiro aspecto &eacute; o fato de que o carro-chefe do crime organizado no Brasil e no mundo, o tr&aacute;fico de drogas, somente se converte numa for&ccedil;a social com o colossal poder de fogo que det&eacute;m hoje pelo fato de que o consumo de certas drogas &eacute; proibido pelo Estado. A proibi&ccedil;&atilde;o obriga o Estado a reprimir traficantes e usu&aacute;rios de drogas, o que obriga os operadores desse mercado a andar armados, criando por sua vez o mercado para o tr&aacute;fico de armas, fomentando a corrup&ccedil;&atilde;o policial, etc. A proibi&ccedil;&atilde;o n&atilde;o se baseia em nenhum crit&eacute;rio de periculosidade das drogas, pois o &aacute;lcool e o cigarro, drogas legalizadas, causam imensos danos e preju&iacute;zos aos seus usu&aacute;rios e ao sistema p&uacute;blico de sa&uacute;de. A legaliza&ccedil;&atilde;o do consumo de drogas provocaria um crescimento do n&uacute;mero de usu&aacute;rios e portanto de dependentes, com impacto sobre as fam&iacute;lias e sobre o sistema de sa&uacute;de p&uacute;blica. Entretanto, a letalidade social da proibi&ccedil;&atilde;o, com todo o corol&aacute;rio de viol&ecirc;ncia, morte, corrup&ccedil;&atilde;o, opress&atilde;o carcer&aacute;ria, etc., &eacute; muito maior do que a legaliza&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n\tAssim como a descriminaliza&ccedil;&atilde;o do aborto &eacute; uma quest&atilde;o de sa&uacute;de p&uacute;blica, pois centenas de milhares de mulheres fazem abortos todos os anos se expondo a mortes e seq&uuml;elas diversas; da mesma forma a descriminaliza&ccedil;&atilde;o do consumo de drogas permitiria que os usu&aacute;rios recebessem tratamento, ao inv&eacute;s de encarceramento. O aborto n&atilde;o &eacute; um m&eacute;todo contraceptivo recomend&aacute;vel, mas independentemente da hipocrisia moralista, a gravidez n&atilde;o planejada continua acontecendo e precisa ser interrompida por mulheres sem condi&ccedil;&otilde;es de serem m&atilde;es. O consumo de drogas tamb&eacute;m n&atilde;o &eacute; uma sa&iacute;da para os dramas e dilemas do indiv&iacute;duo, mas, gostem ou n&atilde;o os moralistas, os usu&aacute;rios de drogas recorrem a elas para escapar de suas dores subjetivas, mesmo porque s&atilde;o estimulados ao escapismo pela publicidade maci&ccedil;a de drogas &quot;legais&quot; e tamb&eacute;m mort&iacute;feras como o &aacute;lcool e o cigarro.<br \/>\n\tA grande quest&atilde;o de fundo &eacute;: por que os indiv&iacute;duos sentem necessidade de fugir da pr&oacute;pria vida, a ponto de recorrer ao consumo de subst&acirc;ncias proibidas e letais? A falta de sentido da vida, o ideal de felicidade que escraviza o indiv&iacute;duo aos objetos de consumo, a insatisfa&ccedil;&atilde;o com o trabalho alienado, que consome as for&ccedil;as do trabalhador sem lhe proporcionar gratifica&ccedil;&atilde;o, o cotidiano de explora&ccedil;&atilde;o e opress&atilde;o, a mis&eacute;ria material e espiritual, a rotina, o t&eacute;dio, o cansa&ccedil;o, os diversos sofrimentos f&iacute;sicos e psicol&oacute;gicos, tudo isso comp&otilde;e o retrato da vida sob o capitalismo, que muitos preferem n&atilde;o encarar, optando pelo uso de drogas.<\/p>\n<p>\tPropostas<\/p>\n<p>\tO problema do crime e da viol&ecirc;ncia &eacute; insepar&aacute;vel dos demais problemas da ordem social que lhe d&aacute; origem e terreno f&eacute;rtil para prosperar. Para acabar com o crime &eacute; preciso acabar com a mis&eacute;ria capitalista. &Eacute; preciso garantir emprego e aumentar o sal&aacute;rio dos trabalhadores, fornecer servi&ccedil;os p&uacute;blicos em quantidade e qualidade, colocar a pol&iacute;cia sob controle das comunidades. Todas essas medidas s&atilde;o incompat&iacute;veis com o controle do Estado pela burguesa, portanto s&atilde;o parte de um conjunto de medidas progressivas que preparam uma transi&ccedil;&atilde;o revolucion&aacute;ria da ordem capitalista em dire&ccedil;&atilde;o ao socialismo.<\/p>\n<p>\t&#8211; Emprego e sal&aacute;rio para todos. Reposi&ccedil;&atilde;o das perdas salariais e defesa dos direitos e condi&ccedil;&otilde;es de trabalho. Carteira assinada e direitos trabalhistas para todos, fim da terceiriza&ccedil;&atilde;o, da informalidade e da precariza&ccedil;&atilde;o do trabalho. Sal&aacute;rio m&iacute;nimo do DIEESE como piso para todas as categorias. Redu&ccedil;&atilde;o da jornada de trabalho para 30 horas semanais sem redu&ccedil;&atilde;o dos sal&aacute;rios.<\/p>\n<p>\t&#8211; N&atilde;o pagamento das d&iacute;vidas p&uacute;blicas, interna e externa, e investimento desse dinheiro num programa de obras e servi&ccedil;os p&uacute;blicos para atender prioritariamente a popula&ccedil;&atilde;o das favelas e periferias, sob controle dos trabalhadores, para gerar empregos e melhorar as condi&ccedil;&otilde;es imediatas de sa&uacute;de, educa&ccedil;&atilde;o, moradia, transporte, cultura e lazer.<\/p>\n<p>\t&#8211; Cotas proporcionais para negros e negras em todos os empregos gerados e em todos os setores da sociedade.<\/p>\n<p>\t&#8211; Descriminaliza&ccedil;&atilde;o do uso de drogas, combinada com campanhas educativas e tratamento para os dependentes.<\/p>\n<p>\t&#8211; Liberdade de mobiliza&ccedil;&atilde;o, organiza&ccedil;&atilde;o e movimenta&ccedil;&atilde;o nas favelas e periferias.<\/p>\n<p>\t&#8211; Contra a criminaliza&ccedil;&atilde;o dos movimentos sociais.<\/p>\n<p>\t&#8211; Desmilitariza&ccedil;&atilde;o e fus&atilde;o entre as pol&iacute;cias militar e civil. Por uma seguran&ccedil;a p&uacute;blica sob controle dos trabalhadores, democr&aacute;tica e transparente. Fim da hierarquia militar e elei&ccedil;&atilde;o dos dirigentes pelos policiais. Publicar o patrim&ocirc;nio e quebrar o sigilo dos ocupantes de fun&ccedil;&otilde;es p&uacute;blicas e &oacute;rg&atilde;os de seguran&ccedil;a. Por uma pol&iacute;cia subordinada &agrave;s comunidades, sob controle de assembl&eacute;ias e &oacute;rg&atilde;os de decis&atilde;o dos bairros.<\/p>\n<p>\tA luta pelo programa que expusemos e a constru&ccedil;&atilde;o dos organismos prolet&aacute;rios adequados a essa tarefa necessariamente se chocam com a estrutura do Estado burgu&ecirc;s e exigem a constru&ccedil;&atilde;o de uma alternativa de poder pol&iacute;tico e social da classe trabalhadora. A classe trabalhadora precisa criar seus pr&oacute;prios organismos de luta, que sejam os embri&otilde;es de novos mecanismos de administra&ccedil;&atilde;o, capazes de reorganizar a produ&ccedil;&atilde;o social em bases racionais, tendo em vista o atendimento das necessidades humanas e a cria&ccedil;&atilde;o de rela&ccedil;&otilde;es sociais emancipadas. Esses organismos devem ter como princ&iacute;pios a independ&ecirc;ncia de classe, a democracia oper&aacute;ria, a participa&ccedil;&atilde;o da base, a luta contra a burocratiza&ccedil;&atilde;o e a disputa ideol&oacute;gica, e ter como tarefa impulsionar um processo de ruptura revolucion&aacute;ria contra a sociedade capitalista, pela constru&ccedil;&atilde;o do socialismo. Por um governo socialista dos trabalhadores baseado em suas organiza&ccedil;&otilde;es de luta. Por uma sociedade socialista.<\/p>\n<p>\tEspa&ccedil;o Socialista<br \/>\n\tDezembro, 2010<\/div>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/265"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=265"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/265\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":841,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/265\/revisions\/841"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=265"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=265"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=265"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}