{"id":27,"date":"2008-12-13T15:55:33","date_gmt":"2008-12-13T15:55:33","guid":{"rendered":"http:\/\/espacosocialista.org\/?q=node\/27"},"modified":"2018-05-04T21:50:52","modified_gmt":"2018-05-05T00:50:52","slug":"matrix-reloaded","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/2008\/12\/matrix-reloaded\/","title":{"rendered":"Matrix  Reloaded"},"content":{"rendered":"<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: center;\" align=\"center\">\n<h1>MATRIX RELOADED<\/h1>\n<h1><\/h1>\n<p class=\"MsoNormal\">\n<p class=\"MsoNormal\">\n<p class=\"MsoNormal\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Nome original: The matrix reloaded<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Produ\u00e7\u00e3o: Estados Unidos<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Ano: 2003<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Idiomas: Ingl\u00eas, Franc\u00eas<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Diretor: Andy Wachowski, Larry Wachowski<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Roteiro: Andy Wachowski, Larry Wachowski<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Elenco:\u00a0 Keanu Reeves, Laurence Fishburn, Carrie-Ann Moss, Hugo Weaving, Helmut Bakaitis, Steve Bastoni, Monica Belluci, Daniel Bernhardth<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 G\u00eanero: a\u00e7\u00e3o, thriller, fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <span lang=\"EN-US\">Fonte: \u201cThe Internet Movie Database\u201d \u2013 <\/span><a href=\"http:\/\/www.imdb.com\/\"><span lang=\"EN-US\">http:\/\/www.imdb.com\/<\/span><\/a><span lang=\"EN-US\">\u00a0 <\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Quando os irm\u00e3os Wachowski lan\u00e7aram o primeiro \u201cMatrix\u201d em 1999, muitos compararam o filme a \u201cBlade Runner\u201d. Assim como o cl\u00e1ssico de Ridley Scott, de 1982, \u201cMatrix\u201d estaria destinado a se tornar refer\u00eancia obrigat\u00f3ria na fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e no cinema em geral, por trazer novos conceitos de visual e cenas de a\u00e7\u00e3o, al\u00e9m de uma nova e radical vis\u00e3o da perdi\u00e7\u00e3o da humanidade nas m\u00e3os das m\u00e1quinas do futuro, mote de quase toda fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. Agora, com o lan\u00e7amento de \u201cMatrix Reloaded\u201d em 2003, a compara\u00e7\u00e3o mais pr\u00f3xima que surge no horizonte \u00e9 a trilogia \u201cGuerra nas Estrelas\u201d, de George Lucas.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Assim como o primeiro epis\u00f3dio de \u201cGuerra nas Estrelas\u201d, o primeiro Matrix serviu para introduzir um certo universo fant\u00e1stico e seus personagens. A hist\u00f3ria era fechada em si, com come\u00e7o meio e fim, mas oferecia cen\u00e1rio para poss\u00edveis continua\u00e7\u00f5es, cuja realiza\u00e7\u00e3o seria viabilizada caso o filme fizesse sucesso. No segundo epis\u00f3dio, que corresponderia a \u201cO Imp\u00e9rio Contra Ataca\u201d (que \u00e9 o preferido deste escriba), esses personagens s\u00e3o deixados na pior situa\u00e7\u00e3o poss\u00edvel. E no terceiro epis\u00f3dio, os rebeldes vencem, o Imp\u00e9rio \u00e9 destru\u00eddo e todos se redimem no final. A estrutura \u00e9 pr\u00f3xima \u00e0 das trilogias cl\u00e1ssicas da literatura e da trag\u00e9dia grega.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Algo semelhante parece destinado a acontecer em \u201cReloaded\u201d e \u201cRevolutions\u201d, o segundo e terceiro epis\u00f3dios da \u201ctrilogia\u201d Matrix. A menos que os Wachowski nos surpreendam totalmente na conclus\u00e3o da hist\u00f3ria. Devemos esperar at\u00e9 o lan\u00e7amento de \u201cRevolutions\u201d para saber. Na verdade, tudo o que diremos aqui \u00e9 provis\u00f3rio. Trata-se de impress\u00f5es tiradas dos dois primeiros filmes, que podem ser alteradas ou invertidas completamente pelo terceiro. Essa ressalva \u00e9 especialmente importante quando se trata do universo de Matrix, onde tudo pode ser radicalmente alterado.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Por enquanto, o que se pode dizer \u00e9 que \u201cReloaded\u201d \u00e9 a primeira metade de um filme de quatro horas. Os dois filmes em conjunto contam uma mesma hist\u00f3ria, da qual ainda conhecemos apenas a metade. Propositadamente, algumas pontas s\u00e3o deixadas soltas, para serem amarradas no final. O filme termina com um \u201cto be continued\u201d, como os cl\u00e1ssicos seriados de aventura dos anos 50 que inspiraram George Lucas.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Os Wachowski tiveram a tranq\u00fcilidade para usar esse recurso dram\u00e1tico, porque puderam se beneficiar de um certo tipo de efeito produzido por uma outra mega-trilogia cinematogr\u00e1fica. Gra\u00e7as a \u201cO Senhor dos An\u00e9is\u201d, o p\u00fablico est\u00e1 acostumado a assistir um filme que n\u00e3o cont\u00e9m toda a hist\u00f3ria, que deve ser completada pela continua\u00e7\u00e3o. Isso representa um grande progresso, pois antigamente as continua\u00e7\u00f5es eram \u201cremakes\u201d oportunistas que apenas requentavam id\u00e9ias do original. Agora temos trilogias conceituais que desenvolvem toda uma mitologia ao longo da s\u00e9rie de epis\u00f3dios. O diferencial de qualidade dos filmes destinados a entrar para a hist\u00f3ria.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Mas vamos ficar apenas nas duas trilogias espaciais, para n\u00e3o complicar demais o cen\u00e1rio. Os irm\u00e3os Wachowski lan\u00e7am m\u00e3o do mesmo recurso dram\u00e1tico de George Lucas, de colocar em jogo a vit\u00f3ria ou a derrota final dos her\u00f3is. Ou tudo ou nada. No presente caso, as m\u00e1quinas est\u00e3o prestes a invadir a cidadela humana de Zion, enquanto Neo est\u00e1 prestes a chegar \u00e0 Fonte da Matrix e conquistar a liberdade para a ra\u00e7a humana. O filme termina com os her\u00f3is diante dessa tarefa singular e inescap\u00e1vel: vencer a guerra em vinte e quatro horas ou assistir \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o do que restava de seu mundo. Essas vinte e quatro horas decisivas ser\u00e3o o conte\u00fado de \u201cRevolutions\u201d.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Matrix tamb\u00e9m tem em comum com Guerra nas Estrelas o apelo m\u00edstico. A For\u00e7a, a Profecia, o Or\u00e1culo, os Jedi, os mestres e veteranos, a inicia\u00e7\u00e3o, o destino controlando a vida de todos, s\u00e3o elementos comuns e intercambi\u00e1veis nas duas trilogias. Em Matrix abundam as refer\u00eancias \u00e0 mitologia e \u00e0 hist\u00f3ria, em nomes como Morpheus, Zion, N\u00edobe, Merovingian, Persephone, Nebuchadnezzar, Logos, Gnosis. Os mitos modernos do cinema reciclam as hist\u00f3rias cl\u00e1ssicas de hero\u00edsmo e cavalaria, os mesmos mitos e estruturas dram\u00e1ticas.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Para encerrar o assunto das compara\u00e7\u00f5es, \u00e9 preciso dizer que, se George Lucas quer que sua segunda trilogia tenha qualquer espa\u00e7o na mem\u00f3ria cinematogr\u00e1fica, como tem a primeira, precisar\u00e1 contratar os Wachowski para realizar o terceiro epis\u00f3dio. De outro modo, esta segunda trilogia ficar\u00e1 condenada \u00e0 irrelev\u00e2ncia. George Lucas perdeu completamente a m\u00e3o. A nova gera\u00e7\u00e3o domina. F\u00e3s de mang\u00e1s, de kung fu, de videogame e filosofia, os Wachowski deixaram Lucas para tr\u00e1s com seu infantilismo e seus Jar Jar Binks. Como realiza\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica, \u201cReloaded\u201d \u00e9 uma proeza dif\u00edcil de ser igualada. Os Wachowski levaram a coisa a um outro n\u00edvel.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">\u201cReloaded\u201d \u00e9 Matrix aumentado, multiplicado, enriquecido, ainda mais superproduzido do que o primeiro epis\u00f3dio. Na sala de cinema, o efeito \u00e9 imbat\u00edvel. Todos os adjetivos usados para definir um filme de a\u00e7\u00e3o ficam pequenos para falar deste \u201cReloaded\u201d. As cenas s\u00e3o impressionantes, a a\u00e7\u00e3o \u00e9 vertiginosa, as seq\u00fc\u00eancias s\u00e3o de tirar o f\u00f4lego. Uma overdose de kung fu, de persegui\u00e7\u00f5es de carros, invas\u00f5es em bunkers, escapadas, v\u00f4os, m\u00e1quinas, cen\u00e1rios, efeitos. Enfim, \u201cReloaded\u201d tem tudo o que faz um filme ficar grande, um filme feito para realmente encher uma tela de cinema, para transformar uma sess\u00e3o numa experi\u00eancia avassaladora.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Como dissemos, trata-se da primeira metade de um filme de quatro horas. Os epis\u00f3dios dois e tr\u00eas foram feitos para serem assistidos em seq\u00fc\u00eancia. Por isso, o come\u00e7o deixa uma certa sensa\u00e7\u00e3o de lentid\u00e3o, de cenas soltas, sem prop\u00f3sito, esperando que a coisa esquente. Se \u00e9 que isso pode ser considerado um defeito, n\u00e3o \u00e9 dos mais graves em face de certos outros.\u00a0 Por exemplo, Neo acaba sofrendo de uma esp\u00e9cie de \u201cs\u00edndrome de Harry Potter\u201d. Como o her\u00f3i dos filmes infantis, o Predestinado parece em certos momentos passear pelo filme, envolvendo-se nas situa\u00e7\u00f5es apenas porque \u00e9 o Predestinado. Assim como Harry Potter resolve as coisas simplesmente porque \u00e9 Harry Potter, sem experimentar nenhum conflito interior, sem sofrer nenhum drama real.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Al\u00e9m disso, o ator Keanu Reeves claramente n\u00e3o est\u00e1 \u00e0 altura do papel. Como no primeiro filme, fica claro que Trinity \u00e9 mulher demais para ele. E se Carrie Ann Moss \u00e9 mulher demais para ele, que dizer ent\u00e3o de M\u00f4nica Bellucci? H\u00e1 uma cena para cada uma delas em que o her\u00f3i vacila, mostrando o quanto \u00e9 inapto. Mas \u00e9 claro que Neo, por ser o her\u00f3i da hist\u00f3ria, n\u00e3o pode ser um palerma, portanto ele tem cenas fortes no final que de certo modo o redimem. Especialmente as cenas de v\u00f4o s\u00e3o interessantes.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Diante do encolhimento de Neo, quem cresce \u00e9 Morpheus. Para usar a express\u00e3o consagrada pela g\u00edria, Morpheus \u201c\u00e9 o cara\u201d. O discurso que faz diante do povo de Zion mostra que ele \u00e9 o l\u00edder. Ningu\u00e9m se iguala a Morpheus em carisma, convic\u00e7\u00e3o e capacidade de infundir confian\u00e7a. O tal Comandante Lock \u00e9 apenas um \u201csparing\u201d sem gra\u00e7a usado para que se possa perceber o contraste com a personalidade dominante de Morpheus. As cenas do capit\u00e3o da \u201cNebuchadnezzar\u201d com uma espada samurai j\u00e1 nasceram cl\u00e1ssicas.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">A respeito de Zion salta \u00e0 vista o aspecto importante de que a maioria da popula\u00e7\u00e3o \u00e9 negra ou mesti\u00e7a. O futuro dos Wachowski pertence \u00e0 ra\u00e7a negra. No imagin\u00e1rio estadunidense, os negros parecem ser o estere\u00f3tipo da ra\u00e7a que luta pela liberdade. Ao mesmo tempo, s\u00e3o o estere\u00f3tipo do povo que sabe aproveitar a vida e se divertir. A cena da dan\u00e7a coletiva, uma cena bem envolvente pelo clima que consegue criar, ilustra o quanto os negros correspondem a esse ideal de \u201csex appeal\u201d, for\u00e7a e liberdade. <span lang=\"EN-US\">\u201cBlack is beautifull\u201d.<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Al\u00e9m dos her\u00f3is, h\u00e1 o Merovingian, personagem atrav\u00e9s do qual os Wachowski podem desfilar um pouco mais de sua filosofia. A filosofia parece ser para eles uma esp\u00e9cie de requinte. Algo refinado, mas in\u00fatil, como a l\u00edngua francesa, que Merovingian diz que serve para dar a sensa\u00e7\u00e3o de \u201climpar a bunda com seda\u201d. Um luxo para esnobes. Esnobes entediados com ar de superioridade, rindo dos mortais ignorantes. \u00c9 assim que os irm\u00e3os enxergam os intelectuais, ou provavelmente a si mesmos, de acordo com o preconceito t\u00edpico dos estadunidenses em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 filosofia ou \u00e0 intelectualidade em geral.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Mas os irm\u00e3os s\u00e3o gente boa. Eles conduzem sua hist\u00f3ria corretamente, de acordo com o manual. Neo \u00e9 o prot\u00f3tipo do her\u00f3i ing\u00eanuo estadunidense. Ele deve partir numa viagem para descobrir quem realmente \u00e9 (saindo da Matrix), orientado por um veterano mestre (Morpheus), que o apresentar\u00e1 a seu par rom\u00e2ntico (Trinity), com quem retornar\u00e1 ao inferno (a Matrix) para se por \u00e0 prova e mostrar se realmente \u00e9 o Predestinado. O her\u00f3i estadunidense t\u00edpico nunca perde a \u201cvirgindade\u201d. O mal nunca o afeta totalmente (nem ele nem Trinity podem morrer no final). O mal pode acontecer aos coadjuvantes, aos negros, aos amigos de outras ra\u00e7as, que sofrem perdas e tem que conviver com isso. Mas nunca acontece ao pr\u00f3prio her\u00f3i, desenhado para se identificar com o tipo m\u00e9dio da audi\u00eancia branca e puritana.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Em termos de filosofia, h\u00e1 em Matrix v\u00e1rios momentos que remetem ao empirismo irracionalista de Berkeley, para quem toda a realidade \u00e9 apar\u00eancia. Esse \u00e9 o mote b\u00e1sico da hist\u00f3ria, presente nos tr\u00eas filmes. Mesmo quando estamos diante do mundo real, fora da Matrix, pode-se duvidar de que \u00e9 mesmo real, como veremos logo adiante. H\u00e1 outros em que estamos diante do materialismo grosseiro de Schopenhauer. Causa e efeito brutos a servi\u00e7o da Vontade. Do Prop\u00f3sito. Toda sofistica\u00e7\u00e3o da cultura humana se reduz a expedientes da Vontade para sobreviver. Escrever um poema \u00e9 como escrever um programa que leva uma mulher ao orgasmo.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">H\u00e1 outros ainda em que Leibniz poderia se sentir perfeitamente \u00e0 vontade. De acordo com Leibniz, h\u00e1 respostas l\u00f3gicas e raz\u00f5es suficientes para tudo o que acontece. Como programas previamente escritos. Todos os atos, at\u00e9 mesmo as escolhas humanas, j\u00e1 foram decididos previamente pelo Criador. Tudo o que existe materialmente \u00e9 poss\u00edvel porque em primeiro lugar \u00e9 poss\u00edvel logicamente. A l\u00f3gica precede a realidade. O conceito \u00e9 anterior aos atos. Est\u00e1 no conceito de cada homem agir como age e fazer o que faz. Portanto, suas escolhas j\u00e1 est\u00e3o antecipadamente decididas em seu \u201cprograma\u201d. Entender os porqu\u00eas equivale a pensar o pensamento de Deus, que \u00e9 a Raz\u00e3o suficiente de tudo. A Matrix em que vivemos.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Mas o que interessa mesmo aos irm\u00e3os n\u00e3o \u00e9 desfilar conhecimentos de filosofia. A id\u00e9ia \u00e9 mesmo mostrar Neo salvando o mundo. E nesse particular descobrimos que a Matrix j\u00e1 est\u00e1 ciente de Neo. Ele \u00e9 o resultado de uma anomalia resultante da imprevisibilidade inerente aos seres humanos inseridos na Matrix. Imprevisibilidade que as m\u00e1quinas denominam imperfei\u00e7\u00e3o. O efeito da anomalia j\u00e1 \u00e9 conhecido, por isso as m\u00e1quinas se antecipam a ele. As m\u00e1quinas j\u00e1 lidaram com Predestinados antes, em outras vers\u00f5es da Matrix. Da\u00ed deduzimos que j\u00e1 houve tamb\u00e9m outras vers\u00f5es de Zion e outras guerras de liberta\u00e7\u00e3o. \u00c9 algo que as m\u00e1quinas j\u00e1 est\u00e3o acostumadas a administrar, como agricultores que administram pragas insistentes em sua planta\u00e7\u00e3o. Basta soltar os Agentes, que s\u00e3o o mecanismo de controle das pragas, habitando o mesmo universo em que elas se desenvolvem, a Matrix. Quanto aos agentes, algum destino especial parece estar preparado para Smith, o arquiinimigo de Neo na Matrix (e ao que parece, tamb\u00e9m fora dela&#8230;).<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Esse discurso das m\u00e1quinas de que os seres humanos s\u00e3o imperfeitos, incompletos e inferiores porque se deixam levar por emo\u00e7\u00f5es e pelo amor (Neo opta por salvar Trinity) \u00e9 um discurso tradicional da fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. Sempre que a ra\u00e7a humana \u00e9 confrontada por esp\u00e9cies tecnologicamente superiores, sejam rob\u00f4s ou alien\u00edgenas, a salva\u00e7\u00e3o surge em fun\u00e7\u00e3o desse diferencial que \u00e9 a tal imperfei\u00e7\u00e3o humana. Ressurge aqui a quintess\u00eancia da id\u00e9ia rom\u00e2ntica do hero\u00edsmo e do amor. Id\u00e9ia car\u00edssima especialmente ao imagin\u00e1rio estadunidense, mas tamb\u00e9m universal, do destino especial e glorioso da humanidade, em linguagem do s\u00e9culo XXI. A capacidade para amar desinteressadamente \u00e9 algo que n\u00e3o pode ser deduzido racionalmente e torna o comportamento humano t\u00e3o imprevis\u00edvel e t\u00e3o dif\u00edcil de lidar. Como bem descobriu o Arquiteto encarregado pelas m\u00e1quinas de administrar a Matrix.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Seja como for, n\u00e3o h\u00e1 muita filosofia nem conceitos novos em \u201cReloaded\u201d. O que interessa agora \u00e9 a divers\u00e3o. Psicodelia total. Como na cena com dezenas de agentes Smith. Surge tamb\u00e9m em \u201cReloaded\u201d toda uma nova metaf\u00edsica para explicar o sobrenatural. Vampiros, lobisomens, alien\u00edgenas, s\u00e3o na verdade programas exilados da Matrix. O mundo tem falhas e brechas, denominadas \u201cbackdoors\u201d, por entre as quais podem circular aqueles que tem as chaves apropriadas. A id\u00e9ia \u00e9 bizarra e o efeito \u00e9 bastante curioso. Fica uma sensa\u00e7\u00e3o de frustra\u00e7\u00e3o por essas id\u00e9ias n\u00e3o poderem ser exploradas mais a fundo. Talvez para compensar essa sensa\u00e7\u00e3o de \u201cquero mais\u201d os Wachowski tenham liberado a criatividade de seus colaboradores nos epis\u00f3dios de \u201cAnimatrix\u201d.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Os mais ranzinzas podem at\u00e9 reclamar da qualidade da hist\u00f3ria, n\u00e3o sem uma certa raz\u00e3o. A hist\u00f3ria \u00e9 simples, linear, banal, um simples encadeamento de cenas. Mas \u00e9 preciso repetir que essa \u00e9 a id\u00e9ia. O conceito da Matrix j\u00e1 foi suficientemente apresentado no primeiro filme, portanto, pouco restava a ser acrescentado. A guerra pela liberta\u00e7\u00e3o final da humanidade \u00e9 a oportunidade para realizar a apoteose das cenas de a\u00e7\u00e3o. Tudo que resta mesmo \u00e9 a divers\u00e3o. Os Wachowski realizaram sua vingan\u00e7a de nerds, depois de anos lendo gibis e assistindo obscuros filmes chineses e mang\u00e1s japoneses. Mostraram tudo que sempre quiseram ver num filme, especialmente kung fu, muito kung fu. Mas muito mesmo! Kung fu com som \u201ctechno\u201d de qualidade. Quem pode reclamar?<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Do ponto de vista do roteiro, o objetivo era mesmo deixar d\u00favidas no ar. D\u00favidas quanto \u00e0 natureza de Neo, por exemplo. O Predestinado parece ter poderes tamb\u00e9m no mundo real. Os mais afoitos dir\u00e3o que o chamado mundo real, onde fica Zion, tamb\u00e9m pode n\u00e3o ser real. Pode ser um outro n\u00edvel de uma outra Matrix, na qual todos os que pensam que est\u00e3o livres est\u00e3o ainda imersos (de modo que retornamos a Berkeley). Isso pode at\u00e9 acontecer no terceiro filme, mas seria um truque barato dos Wachowski. \u00c9 mais interessante pensar num outro problema: como exatamente Zion pretende libertar o restante da ra\u00e7a humana?<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Essa quest\u00e3o se desdobra. O que fazer com milh\u00f5es de mentes subitamente desplugadas da Matrix? \u00c9 poss\u00edvel simplesmente apagar toda a realidade \u00e0 qual uma pessoa est\u00e1 ligada ? Basta lembrar os cuidados e prepara\u00e7\u00f5es que foram necess\u00e1rios para desplugar Neo no primeiro filme. Os humanos realmente sobreviveriam a isso? Mesmo que sobrevivessem, Zion estaria logisticamente preparada para receber toda a popula\u00e7\u00e3o da Terra? Se n\u00e3o, como os humanos iriam sobreviver num mundo destru\u00eddo, fora de suas c\u00e1psulas?<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Em face disso, \u00e9 realmente poss\u00edvel simplesmente destruir a Matrix? Em caso contr\u00e1rio, o que os her\u00f3is far\u00e3o com ela? O di\u00e1logo do conselheiro Hamann com Neo pode dar algumas pistas. Ali se insinua que os humanos tamb\u00e9m s\u00e3o dependentes das m\u00e1quinas, assim como elas agora s\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o aos humanos. Talvez o futuro vislumbre alguma esp\u00e9cie simbiose entre m\u00e1quinas e homens. Essa pode ser a proposta dos Wachowski para o terceiro filme. Seja o que for, os her\u00f3is parecem n\u00e3o ter a menor pista em \u201cReloaded\u201d. \u00c9 disso que Merovingian estava falando quando dizia que os her\u00f3is n\u00e3o sabiam porque estavam fazendo o que estavam. N\u00e3o tinham o conhecimento do porqu\u00ea de suas escolhas, portanto n\u00e3o tinham poder. Eles realmente n\u00e3o tinham pistas do que iriam fazer. Querem destruir a Matrix, mas o que isso significa?<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">A profecia dizia que bastava que o Predestinado chegasse \u00e0 Fonte. Mas l\u00e1 encontramos o Arquiteto, que diz que tudo est\u00e1 correndo conforme o planejado. As m\u00e1quinas parecem tamb\u00e9m considerar o efeito que d\u00e1 origem ao Predestinado como mais um defeito indicativo da inferioridade dos seres humanos. Para administrar esse efeito, \u00e9 necess\u00e1rio um expediente mais requintado. A Profecia em nome da qual os humanos lutam \u00e9 uma fraude, pois destina-se t\u00e3o somente a levar o Predestinado de volta \u00e0 Fonte e reiniciar o sistema. A luta pela liberdade \u00e9 uma ilus\u00e3o. Essa \u00e9 a sacada mais inteligente da trama. Um lance completamente orwelliano. Todo o esquema envolvido na conspira\u00e7\u00e3o \u00e9 apenas um meio do sistema localizar a anomalia e contornar a rebeli\u00e3o. O sistema \u00e9 onisciente, onipresente e onipotente. Como o Grande Irm\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">A ar esnobe e o palavreado obscuro do Arquiteto podem ser tamb\u00e9m pura intimida\u00e7\u00e3o. A arrog\u00e2ncia das m\u00e1quinas pode ser resultado tamb\u00e9m de sua cegueira. A falha pode estar bem debaixo de seus p\u00e9s, sem que percebam. Brincar com a imprevisibilidade dos seres humanos pode resultar em cat\u00e1strofe para os construtores de imp\u00e9rios. A capacidade humana de criar respostas novas \u00e9 um risco com o qual as m\u00e1quinas aceitaram lidar, seguindo a sugest\u00e3o do Or\u00e1culo. Era o \u00fanico meio de nos fazer aceitar o sistema. Sobre esse risco se desenha a possibilidade da vit\u00f3ria da Revolu\u00e7\u00e3o. E Revolu\u00e7\u00e3o \u00e9 comigo mesmo. O convite para a terceira parte est\u00e1 feito. <span lang=\"EN-US\">\u201cFree your mind!\u201d<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\"><span lang=\"EN-US\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">Daniel M. Delfino<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\"><span lang=\"EN-US\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\"><span lang=\"EN-US\">12\/06\/2003<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\"><span lang=\"EN-US\">\u00a0<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p align=\"center\" style=\"text-align: center;\" class=\"MsoNormal\"><o:p>&nbsp;<\/o:p><\/p>\n<h1>MATRIX RELOADED<\/h1>\n<h1><o:p>&nbsp;<\/o:p><\/h1>\n<p class=\"MsoNormal\"><o:p>&nbsp;<\/o:p><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><o:p>&nbsp;<\/o:p><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><span style=\"\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <\/span>Nome original: The matrix reloaded<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><span style=\"\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <\/span>Produ&ccedil;&atilde;o: Estados Unidos<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[9,76],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=27"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6156,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27\/revisions\/6156"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=27"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=27"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=27"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}