{"id":273,"date":"2011-04-24T17:01:33","date_gmt":"2011-04-24T20:01:33","guid":{"rendered":"http:\/\/espacosocialista.org\/?q=node\/273"},"modified":"2018-06-01T15:58:31","modified_gmt":"2018-06-01T18:58:31","slug":"jornal-41-fevereiromarco-de-2011","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/2011\/04\/jornal-41-fevereiromarco-de-2011\/","title":{"rendered":"Jornal 41: Fevereiro\/Mar\u00e7o de 2011"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_1516\" aria-describedby=\"caption-attachment-1516\" style=\"width: 210px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/Jornal_ES_41.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-1516\" src=\"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/Jornal_ES_41-210x300.jpg\" alt=\"Baixar em PDF\" width=\"210\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/Jornal_ES_41-210x300.jpg 210w, https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/Jornal_ES_41.jpg 523w\" sizes=\"(max-width: 210px) 100vw, 210px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-1516\" class=\"wp-caption-text\">Baixar em PDF<\/figcaption><\/figure>\n<p><a name=\"indice\"><\/a><\/p>\n<p>Leia as mat\u00e9rias online:<\/p>\n<ul>\n<li><a href=\"#titulo1\">Crise, rebeli\u00e3o social e a necessidade da alternativa socialista<\/a><\/li>\n<li><a href=\"#titulo2\">O Comunismo e a Internet<\/a><\/li>\n<li><a href=\"#titulo3\">Para al\u00e9m das enchentes: a l\u00f3gica capitalista e a degrada\u00e7\u00e3o das cidades<\/a><\/li>\n<\/ul>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a name=\"titulo1\"><\/a><\/p>\n<h2>CRISE, REBELI\u00c3O SOCIAL E A NECESSIDADE DA ALTERNATIVA SOCIALISTA<\/h2>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O mundo vive hoje as conseq\u00fc\u00eancias da grave crise econ\u00f4mica iniciada em 2008. A recupera\u00e7\u00e3o j\u00e1 \u00e9 comemorada pela burguesia desde 2009, por causa da volta dos lucros das empresas. Mas trata-se de uma recupera\u00e7\u00e3o claudicante, incerta, amea\u00e7ada pelo gigantesco endividamento do Estado, pela instabilidade no com\u00e9rcio mundial e pela disputa cambial entre as na\u00e7\u00f5es exportadoras, que precisam rebaixar o valor de suas moedas para torn\u00e1-las competitivas. Al\u00e9m disso, cresce a instabilidade social e o descontentamento popular por conta das medidas lan\u00e7adas pelos governos burgueses para administrar a crise.<\/p>\n<p>A d\u00edvida p\u00fablica dos Estados Unidos chegou a US$ 3,5 trilh\u00f5es, contra cerca de US$ 1,4 trilh\u00f5es do conjunto dos pa\u00edses perif\u00e9ricos. O total da d\u00edvida p\u00fablica e privada da Am\u00e9rica Latina representa 22% do PIB do continente, contra 400% da Inglaterra, 263% de Portugal, 169% da Espanha, 168% da Gr\u00e9cia, 148% da Alemanha, 100% dos Estados Unidos e 979% da recordista Irlanda (ALAI, 31\/01\/2011). Para aplacar esse d\u00e9ficit gigantesco, est\u00e3o sendo feitos cortes or\u00e7ament\u00e1rios nos gastos sociais, tais como aposentadorias, pens\u00f5es, seguro-desemprego, sa\u00fade p\u00fablica, educa\u00e7\u00e3o, sal\u00e1rios dos servidores, direitos trabalhistas, etc.<\/p>\n<p>Essa pol\u00edtica est\u00e1 sendo aplicada tanto pelos pa\u00edses imperialistas como pelos pa\u00edses dominados, mesmo que em menor medida em alguns destes. Os trabalhadores dos pa\u00edses imperialistas, que desfrutavam de condi\u00e7\u00f5es salariais e sociais melhores, est\u00e3o sendo os mais diretamente atacados no momento e tamb\u00e9m t\u00eam se colocado em mobiliza\u00e7\u00e3o para resistir.\u00a0 Estados Unidos, Jap\u00e3o, Europa, enfrentam altos \u00edndices de desemprego, crescimento da pobreza e queda dos indicadores sociais. Como conseq\u00fc\u00eancia, greves gerais e grandes marchas paralisaram pa\u00edses como Gr\u00e9cia e Fran\u00e7a, espalhando focos por todo o continente europeu, e outras manifesta\u00e7\u00f5es de revolta\u00a0 e inquieta\u00e7\u00e3o social se espalham no conjunto do mundo desenvolvido.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A GUERRA CAMBIAL E AS TENS\u00d5ES INTERNACIONAIS<\/h3>\n<p>As sete maiores economias do mundo, com o PIB medido pelo crit\u00e9rio de paridade de poder de compra, s\u00e3o pela ordem Estados Unidos, China, Jap\u00e3o, \u00cdndia, Alemanha, R\u00fassia e Brasil. Isso significa que os chamados BRICs deixaram para tr\u00e1s em termos de peso econ\u00f4mico velhas grandes pot\u00eancias como Inglaterra e Fran\u00e7a. Entretanto, na estrutura de poder geopol\u00edtico, os Estados Unidos e a Europa ainda controlam os principais organismos internacionais, como o Conselho de Seguran\u00e7a da ONU, Banco Mundial, FMI e OMC, mantendo a capacidade de ditar pol\u00edticas que privilegiam os seus interesses. O G20 foi montado como forma de compensar parcialmente os BRICs, aumentando sua participa\u00e7\u00e3o na tomada de decis\u00f5es, mas principalmente sua responsabilidade ao arcar com medidas que ajudem o capitalismo a sair da crise. Entretanto, enquanto pedem sacrif\u00edcios dos trabalhadores e dos povos do mundo inteiro, as burguesias imperialistas tratam de usar o Estado para preservar seus interesses particulares.<\/p>\n<p>A contradi\u00e7\u00e3o entre a exist\u00eancia de um \u00fanico sistema capitalista mundial e diversos Estados capitalistas rivais se manifestou no fen\u00f4meno da chamada \u201cguerra cambial\u201d. O d\u00f3lar caiu 13% em rela\u00e7\u00e3o ao yen em 2010 e 18% em rela\u00e7\u00e3o ao euro entre junho e dezembro. A queda do d\u00f3lar se refletiu na valoriza\u00e7\u00e3o do ouro, que subiu 28% em 2010, indo para US$ 1.420 a on\u00e7a. A desvaloriza\u00e7\u00e3o do d\u00f3lar tamb\u00e9m se manifesta como alta do pre\u00e7o das commodities, como petr\u00f3leo, cobre, milho e outros alimentos. O FED anunciou no final de 2010 a impress\u00e3o de mais US$ 600 bilh\u00f5es, com o objetivo de desvalorizar ainda mais a moeda estadunidense.<\/p>\n<p>A decis\u00e3o dos Estados Unidos foi duramente criticada pela China e Alemanha, os dois maiores exportadores do mundo, os quais, por sua vez, foram acusados por Obama de acumular super\u00e1vits comerciais de maneira \u201cdesleal\u201d, ou seja, mantendo suas moedas artificialmente desvalorizadas em rela\u00e7\u00e3o ao pre\u00e7o de mercado. Os \u00faltimos meses de 2010 presenciaram uma verdadeira guerra de desvaloriza\u00e7\u00f5es cambiais, com diversos pa\u00edses anunciando medidas para diminuir o valor de suas moedas e melhorar as exporta\u00e7\u00f5es, entre os quais v\u00e1rios exportadores importantes, com destaque para o gigante Jap\u00e3o, mas tamb\u00e9m os demais \u201ctigres asi\u00e1ticos\u201d, como Cor\u00e9ia do Sul, Taiwan, Tail\u00e2ndia e Singapura. Outros como o Brasil anunciaram medidas para conter a entrada de d\u00f3lares especulativos, impedir a valoriza\u00e7\u00e3o da moeda local e o perigo de infla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A visita do presidente chin\u00eas Hu Jintao aos Estados Unidos em janeiro de 2011 n\u00e3o serviu para diminuir as tens\u00f5es entre os dois pa\u00edses. Setores da m\u00eddia e do Congresso estadunidenses aproveitaram a visita para criticar a China abertamente por supostamente manipular sua moeda e desrespeitar os direitos humanos (o c\u00famulo da hipocrisia, j\u00e1 que os Estados Unidos fazem exatamente o mesmo em incont\u00e1veis opera\u00e7\u00f5es criminosas e terroristas pelo mundo, como acaba de revelar abundantemente o site Wikileaks). Pol\u00edticos e jornalistas, expressando os interesses da burguesia estadunidense, pressionam a administra\u00e7\u00e3o Obama para que classifique a China como \u201cmanipulador de c\u00e2mbio\u201d, o que autorizaria o governo a impor san\u00e7\u00f5es tribut\u00e1rias aos produtos chineses.<\/p>\n<p>Os Estados Unidos t\u00eam pressionado o restante do imperialismo para conter o crescimento chin\u00eas, por dentro e por fora dos organismos da ONU. Essa press\u00e3o se d\u00e1 sob a forma de san\u00e7\u00f5es e puni\u00e7\u00f5es para pa\u00edses e empresas que se atrevem a negociar com pa\u00edses inimigos dos Estados Unidos, tais como o Ir\u00e3, listados como \u201cpatrocinadores do terrorismo\u201d. O Ir\u00e3 \u00e9 o maior fornecedor de petr\u00f3leo da China, que por sua vez \u00e9 o pa\u00eds cujo consumo de petr\u00f3leo mais cresce no mundo. Os Estados Unidos querem bloquear essa parceria, sob o pretexto de que o Ir\u00e3 busca desenvolver armas nucleares. O Ir\u00e3 possui um programa de uso de ur\u00e2nio para fins medicinais e de usinas nucleares para gera\u00e7\u00e3o de energia. O n\u00edvel de enriquecimento de ur\u00e2nio (processo t\u00e9cnico que permite o aproveitamento da radioatividade para produzir energia) requerido para essas atividades \u00e9 de 3% e 20%, respectivamente, limite atingido at\u00e9 agora pela tecnologia iraniana. O n\u00edvel de enriquecimento requerido para uso militar \u00e9 de 90%. O Ir\u00e3 est\u00e1 longe de atingir a capacidade t\u00e9cnica para tanto e submete suas instala\u00e7\u00f5es \u00e0 inspe\u00e7\u00e3o da Ag\u00eancia Internacional de Energia At\u00f4mica.<\/p>\n<p>Enquanto isso, Israel, protegido dos Estados Unidos, j\u00e1 det\u00e9m a tecnologia para produzir armas at\u00f4micas, recusa-se a assinar o Tratado de N\u00e3o-Prolifera\u00e7\u00e3o Nuclear (portanto, comportando-se como o verdadeiro Estado criminoso) e sabotou o projeto nuclear iraniano, assassinando os cientistas Ali-Mohammadi e Majid Shahriari, chefes do programa, e disparando v\u00edrus de computador contra as usinas daquele pa\u00eds.<\/p>\n<h3><\/h3>\n<h3>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A NOVA ALTA DOS PRE\u00c7OS DOS ALIMENTOS<\/h3>\n<p>Em 2008 o mundo produziu uma safra recorde de 2,23 bilh\u00f5es de toneladas de gr\u00e3os. Mesmo assim, os pre\u00e7os dos alimentos atingiram uma alta tamb\u00e9m recorde, resultando em protestos populares contra a carestia em mais de 30 pa\u00edses. Isso somente se explica pelo uso que os especuladores fizeram das commodities como alimentos, petr\u00f3leo e min\u00e9rios para se recuperar das perdas no mercado de hipotecas estadunidense, que j\u00e1 estava fazendo \u00e1gua desde fins de 2007. Especuladores aproveitam a abund\u00e2ncia de liquidez nos mercados financeiros para comprar grandes quantidades de commodities, chantageando o mercado e lucrando com o aumento dos pre\u00e7os. Al\u00e9m disso, um ter\u00e7o da produ\u00e7\u00e3o de gr\u00e3os se destina a ra\u00e7\u00e3o animal, que se transforma em carne para os pa\u00edses ricos, e um fra\u00e7\u00e3o crescente est\u00e1 sendo transformada em agrocombust\u00edveis.<\/p>\n<p>A maior parte dos pa\u00edses pobres na \u00c1frica, no sudeste asi\u00e1tico e na Am\u00e9rica Latina teve sua agricultura familiar destru\u00edda pelo agroneg\u00f3cio e se tornou importador de gr\u00e3os. Os governos est\u00e3o altamente endividados e n\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es de subsidiar as importa\u00e7\u00f5es, deixando os pre\u00e7os flutuar ao sabor do mercado. Em muitos pa\u00edses pobres o custo dos alimentos chega a comprometer 50% da renda familiar ou mais. Enquanto milh\u00f5es passam fome e s\u00e3o obrigados a lutar nas ruas contra seus governos por comida, outros lucram com a mis\u00e9ria e o sofrimento. A Cargill, uma das maiores transnacionais do agroneg\u00f3cio, viu seu lucro aumentar 300% entre 2009 e 2010, quando passou de US$ 489 milh\u00f5es para 1,49 bilh\u00e3o. O mesmo quadro de especula\u00e7\u00e3o financeira, aumento da produ\u00e7\u00e3o e dos pre\u00e7os se repete agora.<\/p>\n<p>A FAO, ag\u00eancia da ONU para alimenta\u00e7\u00e3o e agricultura, alertou para o pre\u00e7o recorde dos alimentos no in\u00edcio de 2011, o qual superou as marcas de 2008. Naquele ano, os pre\u00e7os subiram a ponto de dobrar num intervalo de 18 meses. Depois da queda dos pre\u00e7os em 2009, os \u00edndices voltaram a subir novamente em 2010. Nos \u00faltimos doze meses, o pre\u00e7o do milho subiu 52%, o trigo subiu 49%, a soja 28%, o caf\u00e9 53% e o algod\u00e3o 119%. Outras commodities tamb\u00e9m est\u00e3o subindo, como o cobre (30%) e o petr\u00f3leo (26,5%). O pre\u00e7o do petr\u00f3leo, por sua vez influencia no pre\u00e7o final dos alimentos, uma vez que aumenta o custo dos transportes, dos fertilizantes e tamb\u00e9m, indiretamente, o dos agrocombust\u00edveis. A FAO tem uma lista de 29 pa\u00edses em situa\u00e7\u00e3o de emerg\u00eancia alimentar, ou seja, fome.<\/p>\n<h3>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A CRISE SE ESPALHA E PROVOCA REBELI\u00d5ES NO NORTE DA \u00c1FRICA<\/h3>\n<p>A recess\u00e3o e o desemprego na Europa fez com que v\u00e1rios pa\u00edses endurecessem as regras contra a imigra\u00e7\u00e3o vinda do norte da \u00c1frica e de outros continentes. Nessas situa\u00e7\u00f5es, os trabalhadores mais prec\u00e1rios, em geral imigrantes, s\u00e3o os primeiros a serem demitidos e tamb\u00e9m enfrentam a hostilidade generalizada, o preconceito e a persegui\u00e7\u00e3o de bandos fascistas e neonazistas. A xenofobia se converte em pol\u00edtica de Estado em pa\u00edses como a Fran\u00e7a e a It\u00e1lia. Milhares de jovens que buscavam empregos permanentes ou tempor\u00e1rios na Europa foram impedidos de entrar ou obrigados a voltar para seus pa\u00edses de origem. Assim como os nordestinos em S\u00e3o Paulo, muitos imigrantes africanos e de outros continentes estabelecidos na Europa mant\u00e9m os la\u00e7os com suas fam\u00edlias nos pa\u00edses de origem, enviam dinheiro regularmente, retornam periodicamente, etc. Quando a porta do \u201csucesso\u201d individual se fecha na Europa, a a\u00e7\u00e3o coletiva nos pa\u00edses natais \u00e9 a \u00fanica escolha que resta aos jovens.<\/p>\n<p>A a\u00e7\u00e3o coletiva se manifestou finalmente como rebeli\u00e3o social na virada do ano. O mundo foi surpreendido no in\u00edcio de 2011 pelo que foi batizado de \u201cRevolu\u00e7\u00e3o de Jasmim\u201d na Tun\u00edsia. Mas as tens\u00f5es j\u00e1 vinham se acumulando no norte da \u00c1frica e Oriente M\u00e9dio h\u00e1 meses. O Egito na verdade precedeu a Tun\u00edsia, pois os protestos ocupam a pra\u00e7a Tahrir, na capital Cairo, desde meados de 2010. A queda do presidente tunisiano deu \u00e2nimo aos povos de toda essa vasta regi\u00e3o, e fez com que se lan\u00e7assem \u00e0s ruas. Protestos semelhantes se espalharam pelo Marrocos, Arg\u00e9lia, Jord\u00e2nia, I\u00eamen e Bahrein. As lutas sociais tamb\u00e9m se reavivaram fortemente em pa\u00edses j\u00e1 tensos da regi\u00e3o, como Ir\u00e3, Iraque e L\u00edbano. A mesma combina\u00e7\u00e3o explosiva de alto desemprego, infla\u00e7\u00e3o galopante, autoritarismo pol\u00edtico, corrup\u00e7\u00e3o, servilismo aos Estados Unidos e popula\u00e7\u00f5es predominantemente jovens se repete em todos esses pa\u00edses para explicar o levantamento popular.<\/p>\n<p>A revolta dos povos \u00e1rabes deixou o imperialismo em estado de alerta, pois a economia capitalista mundial \u00e9 cronicamente dependente do fornecimento de petr\u00f3leo do Oriente M\u00e9dio, o qual \u00e9 garantido por governos pr\u00f3-ocidentais, extremamente corruptos, autorit\u00e1rios e violent\u00edssimos na repress\u00e3o aos seus povos. Muitos desses ditadores governam h\u00e1 d\u00e9cadas e se sustentam no poder gra\u00e7as ao medo que seus aparatos de terror estatal inspiravam na popula\u00e7\u00e3o. Esse cen\u00e1rio agora come\u00e7a a mudar. Muitos desses pa\u00edses passaram por tumultos e greves por ocasi\u00e3o da alta dos pre\u00e7os dos alimentos em 2008, antes da crise mundial. Agora, com uma nova alta dos pre\u00e7os, a continuidade do desemprego e da repress\u00e3o, novos levantamentos come\u00e7am a acontecer. Mas dessa vez, em 2011, os povos \u00e1rabes miram mais alto e exigem a sa\u00edda dos odiados governantes, o que representa um salto em rela\u00e7\u00e3o aos tumultos de 2008.<\/p>\n<p>O primeiro foco de revolta a chamar aten\u00e7\u00e3o foi o Maghreb, regi\u00e3o do norte da \u00c1frica composta por Maurit\u00e2nia, Marrocos, Sahara Ocidental, Tun\u00edsia, Arg\u00e9lia, e L\u00edbia. Esses pa\u00edses s\u00e3o ocupados por povos de variadas composi\u00e7\u00f5es \u00e9tnicas, mas s\u00e3o unificados pela l\u00edngua \u00e1rabe e pela religi\u00e3o mu\u00e7ulmana. Todos partilham tamb\u00e9m um passado de ocupa\u00e7\u00e3o imperialista, especialmente por parte de franceses e ingleses. Desde meados do s\u00e9culo XX, esses pa\u00edses, como o restante do mundo colonial, se tornaram formalmente independentes, mas mantiveram-se submetidos \u00e0 pol\u00edtica imperialista, aos interesses das transnacionais das antigas metr\u00f3poles e ao imperativo de reprimir suas popula\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Em alguns deles, como o Egito, chegou-se a ensaiar um movimento nacionalista, sob a lideran\u00e7a de Gamal Abdel Nasser, militar que nacionalizou o canal de Suez, enfrentando o imperialismo anglo-franc\u00eas, dentro do contexto do movimento dos chamados \u201cpa\u00edses n\u00e3o-alinhados\u201d (supostamente equidistantes em rela\u00e7\u00e3o aos Estados Unidos e URSS). Entretanto, o nacionalismo \u00e1rabe gradualmente se dobrou ao imperialismo. O sucessor de Nasser no Egito, Anwar Sadat, foi o primeiro governante \u00e1rabe a assinar um tratado reconhecendo Israel. Sadat foi assassinado em 1981 e sucedido por Hosni Mubarak, que se manteve no poder at\u00e9 2011. No final das contas, as ditaduras nacionalistas serviram apenas para reprimir a oposi\u00e7\u00e3o de esquerda, virtualmente exterminada, e abrir caminho para os fundamentalistas isl\u00e2micos, a principal forma de oposi\u00e7\u00e3o conhecida no mundo \u00e1rabe. Entretanto, esse cen\u00e1rio est\u00e1 mudando, pois uma nova forma de oposi\u00e7\u00e3o popular, oper\u00e1ria e da juventude, onde a influ\u00eancia do fundamentalismo isl\u00e2mico \u00e9 minorit\u00e1ria, est\u00e1 emergindo das lutas recentes.<\/p>\n<h3><\/h3>\n<h3>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A \u201cREVOLU\u00c7\u00c3O DE JASMIM\u201d NA TUN\u00cdSIA<\/h3>\n<p>No in\u00edcio de janeiro de 2011 uma onda massiva de protestos populares levou \u00e0 queda do presidente tunisiano Ben Ali, que governava o pa\u00eds desde 1987, sucedendo a Habib Bourguiba, que por sua vez governara desde a independ\u00eancia em 1957. O pa\u00eds era governado praticamente como um feudo por Ben Ali, seus parentes e um pequeno grupo de fam\u00edlias, que controlam direta ou indiretamente bancos, emissoras de r\u00e1dio, jornais, o aeroporto, transportadoras, linhas a\u00e9reas, cadeias de hot\u00e9is, im\u00f3veis e propriedades rurais. Associados a transnacionais europ\u00e9ias, em especial francesas, os cl\u00e3s mafiosos que governavam a Tun\u00edsia enviavam para o exterior uma fortuna anual de US$ 18 bilh\u00f5es.<\/p>\n<p>O regime proibia candidatos de oposi\u00e7\u00e3o de fazer campanha e n\u00e3o permitia liberdade de imprensa. O pa\u00eds \u00e9 altamente dependente do turismo, que caiu bruscamente desde que a crise mundial afetou a Europa. Os pre\u00e7os dos alimentos tamb\u00e9m tem subido, numa reedi\u00e7\u00e3o da alta de 2008. Mas dessa vez os protestos tem sido muito maiores, especialmente por parte dos jovens. Metade da popula\u00e7\u00e3o tem menos de 25 anos e as taxas de desemprego nessa faixa et\u00e1ria s\u00e3o muito maiores do que os 14% oficiais.<\/p>\n<p>Muitos jovens tem forma\u00e7\u00e3o superior e continuam desempregados, o que os obriga a sobreviver na economia informal. Quando a pol\u00edcia confiscou as mercadorias de um desses camel\u00f4s, Mohamed Bouazizi, o jovem ateou fogo ao pr\u00f3prio corpo. Outro rapaz se suicidou tocando cabos de alta tens\u00e3o, e o sacrif\u00edcio desses m\u00e1rtires incendiou a ira popular. Num dos vazamentos do Wikileaks, um diplomata estadunidense classificou a Tun\u00edsia como uma cleptocracia e uma ditadura, o que tamb\u00e9m contribuiu para ati\u00e7ar a revolta. Os protestos tem sido divulgados e convocados via redes sociais como Facebook e Twitter, driblando a censura da televis\u00e3o e jornais. O governo tentou culpar extremistas isl\u00e2micos e terroristas pelos protestos, mas sem a menor credibilidade. O levantamento popular foi massivo e espont\u00e2neo, sem qualquer orquestra\u00e7\u00e3o nos bastidores. Os choques com a pol\u00edcia n\u00e3o intimidaram os manifestantes, apesar de centenas de mortos, feridos e presos, e os protestos se espalharam por todas as cidades do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Depois de apoiar Ben Ali por d\u00e9cadas, o imperialismo europeu e estadunidense percebeu a insustentabilidade da situa\u00e7\u00e3o e cinicamente passou a criticar o governo pela viol\u00eancia da repress\u00e3o policial. A intensidade dos protestos foi t\u00e3o grande que o presidente se viu for\u00e7ado a renunciar e deixar o pa\u00eds com sua fam\u00edlia (e suas riquezas) para evitar um confronto mais agudo. Um novo governo foi instalado \u00e0s pressas com remanescentes do grupo de Ben Ali para tentar administrar o descontentamento popular. Foram marcadas elei\u00e7\u00f5es para daqui a seis meses, mas o toque de recolher e as leis de exce\u00e7\u00e3o n\u00e3o foram suspensos, de forma que o governo continuou a perseguir os opositores e tentar impedir sua organiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante a continuidade da repress\u00e3o, formou-se a &#8220;Frente 14 de Janeiro&#8221;, composta de organiza\u00e7\u00f5es de diversas tradi\u00e7\u00f5es, desde nacionalistas-\u00e1rabes, antigos grupos stalinistas e organiza\u00e7\u00f5es oper\u00e1rias, a qual apresentou um programa de reivindica\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas, anti-imperialistas e reformistas, mas ainda sem um claro car\u00e1ter anti-capitalista e socialista. Mesmo sem um programa e organiza\u00e7\u00f5es decididamente socialistas, o povo tunisiano segue mobilizado e depois da queda de \u201cAli Bab\u00e1\u201d, exige a sa\u00edda dos \u201c40 ladr\u00f5es\u201d, ou seja, o restante de sua equipe ainda no poder.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A QUEDA DE MUBARAK NO EGITO<\/h3>\n<p>O Egito \u00e9 um dos pa\u00edses mais importantes da \u00c1frica, pelo seu peso populacional (cerca de 84 milh\u00f5es de habitantes), econ\u00f4mico (crescimento de 5,4% em 2010) e estrat\u00e9gico (controle do canal de Suez, entre \u00c1frica e \u00c1sia, por onde o petr\u00f3leo do Oriente M\u00e9dio adentra a Europa). 44% da popula\u00e7\u00e3o vive abaixo da linha de pobreza de US$ 2 por dia. O sal\u00e1rio m\u00ednimo foi estabelecido em um valor equivalente a cerca de US$ 50 d\u00f3lares em 1984 e desde ent\u00e3o n\u00e3o foi mais aumentado. Esse valor equivale a cerca de 13% da renda m\u00e9dia per capita, uma das propor\u00e7\u00f5es mais baixas do mundo. Al\u00e9m de ganhar pouco, o trabalhador eg\u00edpcio trabalha muito: a m\u00e9dia de horas de trabalho por ano \u00e9 de 2.373 na capital Cairo, contra uma m\u00e9dia de 1.900 em outras 73 cidades pesquisadas pelo banco UBS. Esse cen\u00e1rio torna o pa\u00eds bastante atraente para o investimento estrangeiro. A China investiu US$ 500 milh\u00f5es em 2009 e se tornou o maior parceiro comercial do pa\u00eds em 2010.\u00a0 Dezenas de transnacionais como IBM, General Motors, McDonald&#8217;s, BMW, Vodafone, Shell atuam no pa\u00eds. O Egito era o pa\u00eds africano mais pr\u00f3ximo de se tornar uma plataforma de exporta\u00e7\u00e3o ao estilo dos \u201ctigres asi\u00e1ticos\u201d, gra\u00e7as \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de zonas francas para as \u201cmaquiladoras\u201d, empresas estrangeiras que montam produtos no pa\u00eds explorando a m\u00e3o de obra barata.<\/p>\n<p>O Egito vive sob lei de exce\u00e7\u00e3o desde 1981, quando o presidente Anwar Sadat foi assassinado por grupos radicais por ter fechado um acordo de paz com Israel. Desde ent\u00e3o a ditadura pro\u00edbe organiza\u00e7\u00f5es partid\u00e1rias, sindicais e ONGs de fazer oposi\u00e7\u00e3o ao governo. O estado de s\u00edtio autoriza a pol\u00edcia a deter cidad\u00e3os sem mandado judicial, o que torna as pris\u00f5es arbitr\u00e1rias, desaparecimentos e tortura de opositores fatos corriqueiros. A Irmandade Mu\u00e7ulmana, fonte do fundamentalismo isl\u00e2mico, est\u00e1 sediada no Egito, e o estado de s\u00edtio se mant\u00e9m sob pretexto de reprim\u00ed-la. A viola\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica dos direitos humanos mais elementares foi a condi\u00e7\u00e3o para a perman\u00eancia do atual governo. O ditador Hosni Mubarak, de 82 anos, preparava seu filho Gamal para ser seu sucessor.<\/p>\n<p>A falta de democracia, a pobreza, o desemprego, a alta dos pre\u00e7os dos alimentos j\u00e1 vinham causando um crescimento das lutas desde 2008, quando o pa\u00eds foi um daqueles que protagonizou protestos contra a carestia, no que foi chamado de \u201crevolta do p\u00e3o\u201d. Desde 2004 h\u00e1 um crescimento constante das greves, tanto no setor p\u00fablico quanto no privado, com destaque para as greves dos t\u00eaxteis em 2007 e 2008. Por conta da inexist\u00eancia de um movimento oper\u00e1rio nacionalmente organizado, as greves s\u00e3o isoladas por empresa ou cidade, sem se converter em lutas nacionais. Mesmo assim, as manifesta\u00e7\u00f5es na pra\u00e7a Tahrir, na capital Cairo, s\u00e3o praticamente di\u00e1rias desde meados de 2010.<\/p>\n<p>Em fins de janeiro de 2011, com o exemplo da \u201cRevolu\u00e7\u00e3o de Jasmin\u201d tunisiana, o movimento eg\u00edpcio tomou corpo. O n\u00famero de manifestantes na pra\u00e7a Tahrir passou de alguns milhares a algo em torno de um milh\u00e3o de pessoas e passou a exigir abertamente a sa\u00edda de Mubarak. Chamou muita aten\u00e7\u00e3o o uso das chamadas redes sociais da internet (facebook e twitter) e dos celulares para convocar e coordenar as manifesta\u00e7\u00f5es. 40% da popula\u00e7\u00e3o tem menos de 30 anos. Essa imensa massa de jovens exasperados pela falta de perspectiva lan\u00e7ou-se \u00e0s ruas sem a incita\u00e7\u00e3o de correntes Mu\u00e7ulmanas ou burocratas sindicais e partid\u00e1rios, o que representa uma mudan\u00e7a ideol\u00f3gica importante. Ao contr\u00e1rio do que foi alardeado pela m\u00eddia governista, as mobiliza\u00e7\u00f5es n\u00e3o foram lideradas pela Irmandade Mu\u00e7ulmana. Assim como na Tun\u00edsia, os protestos foram em grande parte espont\u00e2neas e laicos.<\/p>\n<p>A princ\u00edpio, o ditador tentou resistir, decretando toque de recolher e ordenando a pris\u00e3o dos manifestantes. A popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o se intimidou e manteve a ocupa\u00e7\u00e3o da pra\u00e7a Tahrir. Confrontos com as for\u00e7as de repress\u00e3o deixaram dezenas de mortos na capital e nas grandes cidades, como Alexandria, Suez e Port Said. O governo tentou conter a mobiliza\u00e7\u00e3o popular bloqueando o acesso \u00e0 internet e aos celulares, num atentado escancarado \u00e0 liberdade de express\u00e3o, mas sem sucesso, o que prova que n\u00e3o \u00e9 a tecnologia que faz avan\u00e7ar a rebeli\u00e3o e sim a disposi\u00e7\u00e3o de luta.<\/p>\n<p>O movimento n\u00e3o refluiu e Mubarak apelou para o ex\u00e9rcito. Entretanto, uma ampla camada de oficiais m\u00e9dios se recusou a atirar contra o povo e afogar a revolta popular num banho de sangue, \u00fanica forma de conter o movimento. Isso poderia resultar em guerra civil, pois temeu-se que parte das tropas se bandeasse para o lado da oposi\u00e7\u00e3o. A partir desse momento, a sorte do governante estava selada. Mubarak e seus partid\u00e1rios ainda apelaram para bandos fascistas, que atacaram a popula\u00e7\u00e3o concentrada na pra\u00e7a Tahrir, mas foram derrotados em combates de rua, em 2 de fevereiro. O ex\u00e9rcito ent\u00e3o se posicionou em setores estrat\u00e9gicos da capital para impedir novos confrontos. Al\u00e9m da grande mobiliza\u00e7\u00e3o popular, o movimento ganhou for\u00e7a quando entrou em cena a classe oper\u00e1ria. Portu\u00e1rios de Suez, petroleiros, t\u00eaxteis, servidores p\u00fablicos e professores entraram em greve. A economia eg\u00edpcia foi virtualmente paralisada por uma greve geral. Depois de 18 dias de fort\u00edssima mobiliza\u00e7\u00e3o, a queda definitiva de Mubarak aconteceu em 11 de fevereiro.<\/p>\n<p>O ditador foi substitu\u00eddo por uma junta militar. Ao mesmo tempo em que retirou Mubarak do poder (embora lhe permitindo sair tranquilamente do pa\u00eds para usufruir no exterior das d\u00e9cadas de pilhagem), o ex\u00e9rcito cercou o pal\u00e1cio presidencial e a TV estatal, sitiados pelo povo, impedindo a ocupa\u00e7\u00e3o. As for\u00e7as armadas acabam por se provar como pilar fundamental da continuidade do regime. O ex\u00e9rcito eg\u00edpcio recebeu uma m\u00e9dia de mais de US$ 1 bilh\u00e3o por ano dos Estados Unidos no \u00faltimos trinta anos, a segunda maior ajuda militar estadunidense depois da de Israel. Al\u00e9m de garantir o abastecimento de petr\u00f3leo via canal de Suez, o Egito tamb\u00e9m cumpre o papel de dar suporte a Israel no mundo \u00e1rabe, inclusive auxiliando no massacre dos palestinos ao fechar a fronteira da faixa de Gaza.<\/p>\n<p>O imperialismo tenta gestar em seus laborat\u00f3rios um novo governo para o Egito, que seja capaz de impedir que a mobiliza\u00e7\u00e3o popular avance para reivindica\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, como nacionaliza\u00e7\u00f5es, controle dos pre\u00e7os e aumento de sal\u00e1rios, que questionem a continuidade dos neg\u00f3cios da burguesia. O pr\u00eamio Nobel de qu\u00edmica naturalizado estadunidense Ahmed Zewail e o ex-dirigente da Ag\u00eancia Internacional de Energia At\u00f4mica (fachada da CIA para espionar pa\u00edses hostis aos Estados Unidos) Mohamed El Baradei despontam como mais prov\u00e1veis candidatos, ao lado da pr\u00f3pria Irmandade Mu\u00e7ulmana, h\u00e1 tempos \u201cdomesticada\u201d pela ditadura e tornada isenta de radicalismos.<\/p>\n<h3>QUE PASSA NO EGITO?<\/h3>\n<p>O que vimos no Egito foi uma grave crise de domina\u00e7\u00e3o onde o <strong>governo (na pessoa de Mubarak) <\/strong>perdeu toda credibilidade e legitimidade, n\u00e3o tendo mais for\u00e7a para continuar impondo o seu projeto. O \u00f3dio era dirigido ao ditador Mubarak, portanto, contra uma parte do poder. No entanto, um poder burgu\u00eas se ap\u00f3ia em um conjunto de institui\u00e7\u00f5es, como o parlamento, o ex\u00e9rcito, o judici\u00e1rio e uma s\u00e9rie de instrumentos ideol\u00f3gicos que procuram legitimar o regime. O peso de cada institui\u00e7\u00e3o na pol\u00edtica determina o car\u00e1ter do regime. Se \u00e9 uma ditadura, o poder se ap\u00f3ia nas for\u00e7as policiais e militares; s\u00e9 \u00e9 um poder democr\u00e1tico burgu\u00eas, as principais institui\u00e7\u00e3o s\u00e3o o parlamento e o judici\u00e1rio. Atacando todas as institui\u00e7\u00f5es, ataca-se o Estado burgu\u00eas que \u00e9 a trincheira mais importante da burguesia. A destrui\u00e7\u00e3o do Estado burgu\u00eas \u00e9 condi\u00e7\u00e3o para a revolu\u00e7\u00e3o socialista.<\/p>\n<p>No caso da mobiliza\u00e7\u00e3o no Egito, o \u00f3dio dos manifestantes ainda n\u00e3o se estendeu ao conjunto do regime, ou seja, as institui\u00e7\u00f5es que o sustentam (principalmente o ex\u00e9rcito) ainda n\u00e3o est\u00e3o sendo atacadas pelos trabalhadores eg\u00edpcios, at\u00e9 porque, diante da crise, a pr\u00f3pria c\u00fapula das for\u00e7as armadas resolveu n\u00e3o intervir diretamente. O car\u00e1ter de classe da mobiliza\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m est\u00e1 bastante dilu\u00eddo. Um bom exemplo disso \u00e9 o tratamento dispensado pelo povo ao executivo do Google que, por ser oposi\u00e7\u00e3o e ser preso por Mubarak, foi saudado como um \u00eddolo do movimento. N\u00e3o estamos dizendo que o regime est\u00e1 intacto, pois a amea\u00e7a de uma mobiliza\u00e7\u00e3o desse porte balan\u00e7a qualquer regime e cria instabilidades que n\u00e3o podem durar muito tempo. \u00c9 uma contradi\u00e7\u00e3o importante que se colocou na realidade.<\/p>\n<p>\u00c9 importante ter uma defini\u00e7\u00e3o precisa do processo que est\u00e1 em curso e destacar o papel do elemento ideol\u00f3gico nas revolu\u00e7\u00f5es, dando-lhe uma import\u00e2ncia que a maioria da esquerda n\u00e3o leva em conta. Para uma revolu\u00e7\u00e3o socialista, a primeira tarefa \u00e9 derrotar pol\u00edtica, social e ideologicamente a classe \u2013ou bloco\u2013 dominante. Para isso, \u00e9 necess\u00e1ria a forma\u00e7\u00e3o, e principalmente o desenvolvimento de formas de poder paralelo dos trabalhadores, que avancem contra o poder da burguesia em seu conjunto, e n\u00e3o s\u00f3 o governo.<\/p>\n<p>Uma rebeli\u00e3o se transforma em revolu\u00e7\u00e3o somente quando passa a se propor resolver a disputa pol\u00edtica e social em favor dos trabalhadores, procurando derrotar o Estado enquanto um\u00a0 conjunto de institui\u00e7\u00f5es. A presen\u00e7a do elemento subjetivo nas revolu\u00e7\u00f5es abre a possibilidade de que os trabalhadores tomem em suas m\u00e3os o seu destino, diminuindo o peso das dire\u00e7\u00f5es traidoras que come\u00e7am o movimento j\u00e1 pensando em como desvi\u00e1-lo da sua radicalidade.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria do s\u00e9culo XX demonstrou que podem ocorrer revolu\u00e7\u00f5es, como a chinesa ou a cubana, sem que estejam totalmente desenvolvidas as condi\u00e7\u00f5es subjetivas, mas s\u00e3o revolu\u00e7\u00f5es que cumprem algumas tarefas \u2013como a liberta\u00e7\u00e3o nacional \u2013 mas n\u00e3o avan\u00e7am no que \u00e9 essencial, a substitui\u00e7\u00e3o do poder burgu\u00eas pelo poder dos trabalhadores. Ou seja, para que tenhamos uma revolu\u00e7\u00e3o socialista, \u00e9 preciso <strong>que os trabalhadores exer\u00e7am o poder diretamente, <\/strong>e n\u00e3o atrav\u00e9s de formas substituicionistas, como os partidos-ex\u00e9rcito. A aus\u00eancia do elemento consciente da classe oper\u00e1ria tornou os processos chin\u00eas e cubano mais dram\u00e1ticos, porque esses Estados j\u00e1 nasceram completamente desviados das formas de poder democr\u00e1tico do proletariado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3>A SITUA\u00c7\u00c3O AINDA EST\u00c1 INDEFINIDA<\/h3>\n<p>A rebeli\u00e3o eg\u00edpcia \u00e9 sem d\u00favida a mobiliza\u00e7\u00e3o mais massiva e mais importante que a nova gera\u00e7\u00e3o de trabalhadores militantes j\u00e1 presenciaram, colocando-se como uma das principais rebeli\u00f5es do s\u00e9culo XXI. A pr\u00f3pria m\u00eddia burguesa indica que h\u00e1 um importante processo de auto-organiza\u00e7\u00e3o dos manifestantes. O acampamento na pra\u00e7a Tahrir, a resist\u00eancia aos ataques das for\u00e7as fascistas pr\u00f3-Mubarak, as formas de auto-organiza\u00e7\u00e3o para garantir alimenta\u00e7\u00e3o e infra-estrutura necess\u00e1ria para o movimento, s\u00e3o uma demonstra\u00e7\u00e3o da for\u00e7a e decis\u00e3o dos manifestantes. \u00c9 um processo que surpreendentemente segue com uma for\u00e7a cada vez mais crescente. Outro elemento fundamental e que pode decidir os rumos do movimento \u00e9 a entrada em cena do movimento oper\u00e1rio, com as greves se alastrando por diversos ramos da economia eg\u00edpcia, como os trabalhadores petroleiros, t\u00eaxteis, do porto de Suez e grande parte do funcionalismo p\u00fablico.<\/p>\n<p>O fato dos trabalhadores terem entrado no conflito significa que est\u00e1 dada a possibilidade de que haja uma sa\u00edda classista, ou seja, pode ser o pontap\u00e9 para uma organiza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores independente da burguesia. Assim, os pr\u00f3ximos acontecimentos ser\u00e3o decisivos para a sorte da rebeli\u00e3o dos trabalhadores eg\u00edpcios.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A NECESSIDADE DA ALTERNATIVA SOCIALISTA<\/h3>\n<p>O processo eg\u00edpcio permanece em aberto. A luta popular foi suficiente para derrubar o governo, mas n\u00e3o derrubou o regime. Seu pilar fundamental, as for\u00e7as armadas, permanece de p\u00e9. Tamb\u00e9m n\u00e3o se pode dizer que houve mudan\u00e7a no sistema social, pois o capitalismo ainda se mant\u00e9m praticamente inalterado. De qualquer forma, houve uma mudan\u00e7a muito importante na atitude da popula\u00e7\u00e3o e da classe trabalhadora, pois depois de d\u00e9cadas e ao custo de grande enfrentamento (com centenas de mortes), os eg\u00edpcios colocaram-se em luta e obtiveram uma significativa vit\u00f3ria parcial ao derrubar o ditador. N\u00e3o ser\u00e1 simples fazer voltar para casa uma popula\u00e7\u00e3o que adquiriu confian\u00e7a nas pr\u00f3prias for\u00e7as e sentimento de vit\u00f3ria. Nos dias imediatamente seguintes \u00e0 queda de Mubarak, a popula\u00e7\u00e3o permaneceu mobilizada e foram apresentadas exig\u00eancias aos novos dirigentes. Elementos de organiza\u00e7\u00e3o, comit\u00eas e assembl\u00e9ias surgem das mobiliza\u00e7\u00f5es e podem se manter como instrumentos de luta. Esses elementos podem avan\u00e7ar para exigir mudan\u00e7as mais radicais no regime social, as \u00fanicas capazes de melhorar a vida da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c0 medida em que o processo se generaliza para outros pa\u00edses, o imperialismo e a m\u00eddia burguesa tentam control\u00e1-lo e distorcer seu sentido. As rebeli\u00f5es \u00e1rabes s\u00e3o apresentadas como uma nova vers\u00e3o das \u201crevolu\u00e7\u00f5es de veludo\u201d que derrubaram os Estados burocr\u00e1ticos do Leste Europeu entre 1989-91, pelo fato de que os povos \u00e1rabes lutam em nome da democracia. Os acontecimentos de 1989-91 foram apresentados como prova da vit\u00f3ria do capitalismo e do \u201cfim da hist\u00f3ria\u201d. Mas ao contr\u00e1rio disso, as rebeli\u00f5es de 2011 s\u00e3o rebeli\u00f5es contra o fracasso do capitalismo, incapaz de oferecer uma verdadeira democracia e sequer de alimentar as popula\u00e7\u00f5es. A verdadeira contradi\u00e7\u00e3o da realidade mundial n\u00e3o \u00e9 entre \u201cdemocracia\u201d e \u201cditadura\u201d, mas entre trabalho e capital. Tanto as ditaduras \u00e1rabes quanto as democracias burguesas s\u00e3o igualmente ditaduras do capital contra os trabalhadores. S\u00f3 a derrubada do capitalismo e a constru\u00e7\u00e3o do socialismo podem trazer uma verdadeira democracia.<\/p>\n<p>As greves e manifesta\u00e7\u00f5es na Europa em 2010 eram lutas dos trabalhadores para defender suas conquistas hist\u00f3ricas e sua qualidade de vida. As lutas dos povos \u00e1rabes no in\u00edcio de 2011 s\u00e3o lutas contra a mis\u00e9ria e pela aquisi\u00e7\u00e3o de uma melhor qualidade de vida. Duas faces de uma mesma moeda, a crise estrutural e societal do capital. O elo que falta para unir as duas lutas \u00e9 a consci\u00eancia da necessidade de superar o capitalismo, indo al\u00e9m da derrubada de governantes e reformulando todo o metabolismo social, sob controle dos trabalhadores. A aus\u00eancia dessa consci\u00eancia \u00e9 o que chamamos de crise da alternativa socialista, o fator que ter\u00e1 que ser superado para que a rebeli\u00e3o \u00e1rabe avance para uma verdadeira revolu\u00e7\u00e3o socialista. A supera\u00e7\u00e3o dessa crise e o avan\u00e7o em dire\u00e7\u00e3o a uma revolu\u00e7\u00e3o depender\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 da interven\u00e7\u00e3o de organiza\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias, mas fundamentalmente da constru\u00e7\u00e3o de organismos de luta do conjunto da classe, por meio dos quais os trabalhadores sejam respons\u00e1veis pela pr\u00f3pria emancipa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><a href=\"#indice\">\u25b2 voltar ao \u00edndice<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a name=\"titulo2\"><\/a><\/p>\n<h1>O COMUNISMO E A INTERNET<\/h1>\n<h2>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O caso Wikileaks<\/h2>\n<p>Em fins de 2010 o site Wikileaks publicou um lote de 250 mil documentos provenientes de despachos das embaixadas estadunidenses no mundo inteiro. A publica\u00e7\u00e3o desses documentos revelou que a rede de embaixadas \u00e9 na verdade uma vasta rede de espionagem, encarregada de coletar dados estrat\u00e9gicos, militares e de intelig\u00eancia dos pa\u00edses em que est\u00e3o estabelecidas, al\u00e9m de dados pessoais de governantes e ocupantes de cargos de alto escal\u00e3o, incluindo extratos banc\u00e1rios, senhas, amostras de DNA, etc. Al\u00e9m de revelar essa fun\u00e7\u00e3o, os despachos cont\u00e9m an\u00e1lises dos agentes estadunidenses sobre a situa\u00e7\u00e3o de cada pa\u00eds, do ponto de vista dos interesses da super pot\u00eancia. O vazamento dessas an\u00e1lises provocou um verdadeiro terremoto diplom\u00e1tico. Aliados ou advers\u00e1rios, grandes pot\u00eancias ou semi-col\u00f4nias, s\u00e3o tratados nos documentos com brutal desprezo pela sua soberania e dignidade.<\/p>\n<p>Os documentos exp\u00f5em o car\u00e1ter criminoso e desumano do imperialismo estadunidense, a agressividade de seus militares, a voracidade de suas corpora\u00e7\u00f5es, a perf\u00eddia de seus agentes, a total falta de escr\u00fapulos ao atacar, coagir e corromper. Os textos revelam uma prepot\u00eancia verdadeiramente monstruosa ao falar de planos de guerra contra a China e a R\u00fassia, inten\u00e7\u00f5es de bombardear o Ir\u00e3, bombardeio de civis no I\u00eamen, estocagem de armas proibidas na Inglaterra, planos para retirar governantes do poder e instalar outros mais \u201camig\u00e1veis\u201d, coniv\u00eancia com o golpe em Honduras, aprisionamento ilegal de dissidentes e opositores, tortura e desrespeito sistem\u00e1tico aos direitos humanos, viola\u00e7\u00e3o de tratados internacionais, crimes de agentes da CIA, opera\u00e7\u00f5es ocultas de governos aliados mantidas em segredo para suas popula\u00e7\u00f5es, subornos pagos a governantes em troca de acordos favor\u00e1veis \u00e0s corpora\u00e7\u00f5es estadunidenses, obstru\u00e7\u00e3o de investiga\u00e7\u00f5es criminais e judiciais contra todos esses crimes, etc. Os esc\u00e2ndalos se sucedem numa torrente intermin\u00e1vel, expondo a sordidez ilimitada do imperialismo estadunidense em suas pretens\u00f5es de dom\u00ednio mundial.<\/p>\n<p>O volume de vazamentos \u00e9 t\u00e3o grande que o governo estadunidense nem sequer esbo\u00e7a uma tentativa de negar a autenticidade dos documentos. Ao inv\u00e9s de tentar limpar sua imagem, o que se provou de qualquer forma invi\u00e1vel, o governo estadunidense optou por tentar destruir a imagem de Julian Assange, o ativista australiano respons\u00e1vel pelo Wikileaks. Acusa\u00e7\u00f5es de ass\u00e9dio sexual e estupro foram disparadas contra Assange na Su\u00e9cia, o que o levou a ser detido na Inglaterra, onde aguarda julgamento sem poder sair do pa\u00eds. A extradi\u00e7\u00e3o para a Su\u00e9cia poderia fornecer a base para uma extradi\u00e7\u00e3o aos Estados Unidos, onde seria acusado de \u201cterrorismo\u201d, conforme declara\u00e7\u00f5es de autoridades estadunidenses, o que poderia resultar at\u00e9 em pena de morte. As acusa\u00e7\u00f5es n\u00e3o resistem a um escrut\u00ednio minimamente s\u00e9rio (h\u00e1 declara\u00e7\u00f5es anteriores das acusadoras atestando que as rela\u00e7\u00f5es foram consensuais), o que revela que se trata de pura persegui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Os documentos publicados pelo Wikileaks foram obtidos em parte por opera\u00e7\u00f5es de hackers e em parte por vazamentos fornecidos de dentro pelo pessoal do pr\u00f3prio aparato diplom\u00e1tico e de intelig\u00eancia estadunidense e das for\u00e7as armadas. Um dos autores de vazamentos, o soldado Bradley Manning, foi identificado como respons\u00e1vel pelo vazamento de dados chocantes da guerra no Iraque, e est\u00e1 sofrendo persegui\u00e7\u00e3o criminal.<\/p>\n<h2>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O problema da liberdade de express\u00e3o<\/h2>\n<p>O \u00f3dio do governo estadunidense se combina com o \u00f3dio da m\u00eddia burguesa, tornada obsoleta pelo Wikileaks, j\u00e1 que este se provou muito mais capaz de expor sem disfarces a verdadeira face da realidade mundial. O ataque contra o Wikileaks \u00e9 um ataque contra os direitos democr\u00e1ticos mais b\u00e1sicos e contra a liberdade de express\u00e3o. Julian Assange n\u00e3o \u00e9 um militante socialista, \u00e9 apenas um ativista da m\u00eddia com ideais \u201cdemocr\u00e1ticos\u201d. Mesmo assim, a democracia mais elementar se provou incompat\u00edvel com a continuidade do capitalismo, pois esse sistema n\u00e3o pode conviver com a exposi\u00e7\u00e3o da verdade.<\/p>\n<p>Por d\u00e9cadas tem vigorado um acordo t\u00e1cito entre os grandes jornais e redes de TV nos Estados Unidos (que funciona da mesma forma no resto do mundo) pelo qual os segredos estatais mais embara\u00e7osos n\u00e3o podem ser revelados. A auto-censura \u00e9 uma exig\u00eancia dos grandes grupos empresariais aos quais as empresas de m\u00eddia est\u00e3o subordinadas, j\u00e1 que muitos desses grupos dependem de acordos com o governo. Agora, quando o Wikileaks cumpre o papel que caberia \u00e0 m\u00eddia, os meios de comunica\u00e7\u00e3o se unem na campanha maci\u00e7a para apresentar Julian Assange como \u201cterrorista\u201d e estuprador, por mais que as acusa\u00e7\u00f5es contra ele tenham se provado escandalosamente forjadas.<\/p>\n<p>O potencial da internet para a livre comunica\u00e7\u00e3o \u00e9 uma amea\u00e7a para as grandes empresas de m\u00eddia, da\u00ed o seu desespero para derrubar o Wikileaks e criminalizar seu fundador. A campanha contra o Wikileaks foi ao ponto de retirar o site do ar por meio de ataques de nega\u00e7\u00e3o de servi\u00e7o e bloqueio dos servidores pela Amazon. O Wikileaks foi for\u00e7ado a se instalar em um servidor na Su\u00ed\u00e7a. De qualquer forma, o material revelado pelo site j\u00e1 foi copiado e multiplicado pelo mundo.<\/p>\n<h3>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O controle sobre a internet<\/h3>\n<p>O Wikileaks cumpriu o papel que o jornalismo deveria cumprir, ou seja, trazer informa\u00e7\u00e3o. Acontece que o jornalismo feito sob controle das empresas de m\u00eddia, jornais, revistas, r\u00e1dios, televis\u00f5es e portais de internet, obedece aos interesses dos seus donos e patrocinadores, n\u00e3o do p\u00fablico. A informa\u00e7\u00e3o transmitida por esses meios chega ao p\u00fablico truncada, fragmentada, filtrada, censurada em suas partes mais cr\u00edticas, distorcida, reinterpretada para que se conclua dos fatos o contr\u00e1rio do que eles representam, conforme o vi\u00e9s ideol\u00f3gico desejado pelos poderes que controlam a comunica\u00e7\u00e3o (a rebeli\u00e3o no Egito, por exemplo, aparece como uma \u201cfesta da democracia\u201d).<\/p>\n<p>Assim como os demais meios, a internet tamb\u00e9m esta sujeita a este controle. O \u00f3rg\u00e3o que regulamenta a rede World Wide Web, o famoso &#8220;www&#8221; que precede todos os endere\u00e7os de internet,\u00a0 \u00e9 uma entidade p\u00fablica sem fins lucrativos sediada nos Estados Unidos (Internet Corporation for Assigned Names and Numbers, ICANN). Isto significa que o governo imperialista pode eventualmente &#8220;puxar a tomada&#8221; e tirar a internet do ar (na verdade, quase toda a internet, pois existem redes &#8220;subterr\u00e2neas&#8221; por fora do www e do protocolo &#8220;http&#8221;, usadas apenas por usu\u00e1rios altamente preparados).<\/p>\n<p>Mesmo com as limita\u00e7\u00f5es do controle estatal e corporativo, a internet ainda propicia um espa\u00e7o para a busca de formas de comunica\u00e7\u00e3o e compartilhamento de id\u00e9ias. No per\u00edodo recente tem ganhado import\u00e2ncia o fen\u00f4meno das chamadas &#8220;redes sociais&#8221;, tais como os sites de relacionamento orkut (popular\u00edssimo no Brasil), facebook e o twitter. Trata-se de uma forma de comunica\u00e7\u00e3o \u00e1gil e bastante pr\u00e1tica, capaz de ligar os indiv\u00edduos em torno de gostos e prefer\u00eancias comuns.<\/p>\n<p>Extrapolando as possibilidades dadas aos usu\u00e1rios comuns como as redes acima, existe um setor dos usu\u00e1rios da inform\u00e1tica e da internet que n\u00e3o se contenta com os limites impostos pelo controle estatal\/corporativo e desenvolve pr\u00e1ticas que visam burlar esse controle. Trata-se do chamado cyberativismo, que envolve desde a cria\u00e7\u00e3o de ve\u00edculos para a dissemina\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es e id\u00e9ias, a pr\u00e1tica sistem\u00e1tica de distribuir essas informa\u00e7\u00f5es e tamb\u00e9m opini\u00f5es (em canais como o pr\u00f3prio Wikileaks, mas tamb\u00e9m o Youtube, Blogger, Twitter, etc.), at\u00e9 modalidades mais radicais, como a\u00e7\u00f5es diretas de invas\u00e3o de sistemas corporativos e estatais para adquirir informa\u00e7\u00f5es, ou a sabotagem desses sistemas por v\u00edrus e ataques de nega\u00e7\u00e3o de servi\u00e7o (milhares de acessos simult\u00e2neos que sobrecarregam um determinado sistema e o obrigam a se auto-desligar preventivamente).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A propriedade privada como obst\u00e1culo para o desenvolvimento das for\u00e7as produtivas<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 No final do s\u00e9culo XVIII e in\u00edcio do XIX, com a Revolu\u00e7\u00e3o Industrial, o capital promoveu verdadeiros milagres em termos de crescimento das for\u00e7as produtivas, de um modo que, em pouqu\u00edssimo tempo, a humanidade se viu capaz de \u201cdiminuir\u201d o mundo e ampliar magnificamente o conhecimento. N\u00e3o se trata aqui de se fazer apologia ao capital, pelo contr\u00e1rio. Na mesma medida que se desenvolviam as for\u00e7as produtivas, os trabalhadores empobreciam. As descobertas da ci\u00eancia e tecnologia, ao inv\u00e9s de se direcionarem para as necessidades humanas, eram direcionadas para acelerar o ciclo da mercadoria e da concentra\u00e7\u00e3o e centraliza\u00e7\u00e3o de riqueza.<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 N\u00e3o obstante essa contradi\u00e7\u00e3o, as grandes descobertas cient\u00edficas faziam com que os antigos questionamentos passassem a ter resposta racional, derrubando a preval\u00eancia dos velhos dogmas da religi\u00e3o (depois de mil\u00eanios de dom\u00ednio retr\u00f3grado do cristianismo institucionalizado) como forma de explicar o mundo. A impress\u00e3o que se tinha \u00e9 de que a humanidade estava \u00e0s v\u00e9speras de ser ver emancipada gra\u00e7as aos avan\u00e7os cient\u00edficos e tecnol\u00f3gicos. A busca constante pelo aumento da produtividade pelos capitais particulares era o grande motor propulsor que jogava a humanidade para tais descobertas e para o a crescimento das for\u00e7as produtivas.<\/p>\n<p>Ocorre que, depois de passado dois s\u00e9culos e meio, a humanidade v\u00ea-se a retornar ao per\u00edodo medieval, n\u00e3o s\u00f3 no que diz respeito ao conhecimento, mas tamb\u00e9m \u00e0 produtividade. Se\u00a0 antes a propriedade privada foi o combust\u00edvel para as grandes descobertas, agora passa ser o maior empecilho para que as mesmas for\u00e7as produtivas continuem a evoluir. A produtividade \u00e9 t\u00e3o alta que qualquer evolu\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica manda para os ares a propriedade privada. Podemos ver isso claramente no que diz respeito \u00e0 tecnologia da informa\u00e7\u00e3o e no setor audiovisual. Com um m\u00ednimo de conhecimento no manuseio de alguns programas de computador simples, qualquer pessoa pode \u201cbaixar\u201d arquivos digitais da internet e montar uma discografia completa de seu artista preferido; montar uma videoteca com um sem-n\u00famero de filmes dos mais variados g\u00eaneros, bem como uma cole\u00e7\u00e3o de \u201csoftwares\u201d para as mais variadas necessidades.<\/p>\n<p>Caso a pessoa n\u00e3o tenha conhecimentos suficientes do uso de programas para ter tais materiais em casa de forma gratuita, \u00e9 poss\u00edvel encontr\u00e1-los facilmente a pre\u00e7os reduzidos no com\u00e9rcio informal das ruas das grandes cidades. \u00c9 uma verdadeira expropria\u00e7\u00e3o dos grandes capitalistas da inform\u00e1tica e da ind\u00fastria cultural, que fazem de tudo para manter o controle e a propriedade privada sobre os programas, filmes, m\u00fasicas e textos. No desespero, os capitalistas fazem uma verdadeira campanha para que as pessoas adquiram somente \u201cprodutos originais\u201d, por meio de um ataque ideol\u00f3gico \u00e0 produ\u00e7\u00e3o e ao com\u00e9rcio paralelo de tais mercadorias, denominado como \u201cpirataria\u201d. O ataque ideol\u00f3gico se completa com a a\u00e7\u00e3o policial e judicial, enquadrando as pessoas que fazem uso deste ramo como criminosas.<\/p>\n<p>Ocorre que a valoriza\u00e7\u00e3o da \u201coriginalidade\u201d dos produtos de que tanto se faz men\u00e7\u00e3o \u00e9 uma tentativa v\u00e3 das das grandes corpora\u00e7\u00f5es da m\u00eddia e da inform\u00e1tica (detentoras da propriedade privada) de manterem o monop\u00f3lio da produ\u00e7\u00e3o e venda dos produtos. N\u00e3o h\u00e1, do ponto de vista da funcionalidade t\u00e9cnica, qualquer diferen\u00e7a entre um produto \u201coriginal\u2019 e o produto oriundo da pirataria, a n\u00e3o ser o fato de que a mercadoria \u201coriginal\u201d custa muito mais caro. Pateticamente, tenta-se moralizar a quest\u00e3o, como se n\u00e3o se tratasse de uma necessidade do dia a dia. Quem compra o produto original \u00e9 \u201cbom\u201d, quem compra um \u201cpirata\u201d \u00e9 \u201cmau\u201d. No entanto, do ponto de vista pr\u00e1tico, quem adquire um produto por 100 ao inv\u00e9s de pagar 10 faz o mesmo que jogar 90 na lata do lixo.<\/p>\n<p>Os capitalistas tentam desenvolver formas de manter o seu monop\u00f3lio, mas todas elas s\u00e3o insuficientes para impedir a crescente expropria\u00e7\u00e3o da propriedade intelectual resultante da democratiza\u00e7\u00e3o do acesso ao resultado do trabalho humano. A democratiza\u00e7\u00e3o \u00e9 um resultado do desenvolvimento da capacidade de processamento e de armazenamento de dados dos computadores e de seu mais diversos componentes, e tamb\u00e9m do desenvolvimento da capacidade do pessoal especializado em inform\u00e1tica, que rotineiramente derruba as travas colocados pelo capital para impedir o seu livre acesso. Uma prova contundente disso est\u00e1 nos softwares \u201ccraqueados\u201d, em que o usu\u00e1rio consegue instru\u00e7\u00f5es para remover \u201cmanualmente\u201d as travas que os capitalistas colocam para imped\u00ed-los de usar os programas sem pagar. Qualquer pessoa que saiba executar estas instru\u00e7\u00f5es pode ter todos os programas necess\u00e1rios para as suas rotinas di\u00e1rias praticamente de gra\u00e7a. E n\u00e3o adianta a burguesia inovar para manter a sua propriedade privada, pois, em mais tempo ou menos tempo, encontra-se um jeito para derrub\u00e1-las.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Possibilidades da internet<\/h3>\n<h3><\/h3>\n<p>Um dos exemplos de como o capitalismo est\u00e1 mais do que obsoleto como modo de produ\u00e7\u00e3o \u00e9 o chamado &#8220;e-commerce&#8221;, os sites de compras coletivas. O fen\u00f4meno come\u00e7ou nos Estados Unidos com o Grup.on e chegou ao Brasil com o Peixe Urbano e similares. Trata-se de um mecanismo em que um grupo de consumidores interessado em um determinado produto ou servi\u00e7o (desde um eletrodom\u00e9stico a um pacote de viagens ou curso de idiomas) faz um pedido coletivo, adianta o pagamento e recebe diretamente do fornecedor original, a pre\u00e7os muito mais vantajosos, devido \u00e0 escala do pedido. Essa opera\u00e7\u00e3o dispensa a intermedia\u00e7\u00e3o do capital comercial (firmas como Wal-Mart, Carrefour e outras se tornaram tecnicamente dispens\u00e1veis). Numa economia racional, poss\u00edvel apenas numa sociedade socialista, esse mecanismo poderia orientar a produ\u00e7\u00e3o social determinando com enorme praticidade a quantidade dos produtos e servi\u00e7os necess\u00e1rios para determinada popula\u00e7\u00e3o. Sob o capitalismo em que vivemos, trata-se de mais uma artimanha de um setor do capital (o Grup.on e assemelhados s\u00e3o empresas capitalistas como outras quaisquer) na concorr\u00eancia contra outro setor, o com\u00e9rcio varejista tradicional, tornado socialmente in\u00fatil.<\/p>\n<p>Um outro movimento que retrata exemplarmente a luta pelo desenvolvimento das for\u00e7as produtivas contra o limite das rela\u00e7\u00f5es capitalistas de propriedade privada \u00e9 o do &#8220;software livre&#8221;. Os softwares\u00a0 (programas de computador, como o Windows, Internet Explorer, Word, Excel, etc.) de tipo tradicional s\u00e3o desenvolvidos e patenteados por empresas que det\u00e9m a propriedade do seu &#8220;c\u00f3digo-fonte&#8221;, a \u201clinguagem interna\u201d por meio da qual o programa &#8220;conversa&#8221; consigo mesmo para desempenhar suas tarefas. Os softwares livres (o mais famoso dos quais \u00e9 o Linux) s\u00e3o desenvolvidos por programadores que compartilham o c\u00f3digo-fonte de sua autoria com outros programadores, de modo a permitir que os programas sejam aperfei\u00e7oados por um processo coletivo de colabora\u00e7\u00e3o. H\u00e1 empresas que comercializam vers\u00f5es do software livre para o usu\u00e1rio final, que em geral n\u00e3o domina a programa\u00e7\u00e3o. Mesmo assim, o compartilhamento dos c\u00f3digos-fontes contraria a l\u00f3gica da concorr\u00eancia capitalista, j\u00e1 que demonstra que a colabora\u00e7\u00e3o \u00e9 mais produtiva que a concorr\u00eancia.<\/p>\n<h3>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A revolu\u00e7\u00e3o \u00e9 real e n\u00e3o virtual<\/h3>\n<h3><\/h3>\n<p>Apesar de todas as possibilidades contidas na internet enquanto meio de comunica\u00e7\u00e3o, \u00e9 preciso ressaltar que um ve\u00edculo de comunica\u00e7\u00e3o por si mesmo n\u00e3o \u00e9 capaz de substituir a luta de classes ao estilo tradicional, como acaba de demonstrar o Egito. As rebeli\u00f5es populares na Tun\u00edsia e no Egito foram divulgadas, convocadas e at\u00e9 certo ponto coordenadas pelas redes sociais da internet, mas no momento decisivo o ditador eg\u00edpcio &#8220;desligou&#8221; a internet (e tamb\u00e9m os celulares) cortando o acesso de todos os usu\u00e1rios do pais. Assim, a rebeli\u00e3o teve que prosseguir usando o m\u00e9todo tradicional, ou seja, o bom e velho boca a boca, e conseguiu derrubar o ditador. O moral da hist\u00f3ria \u00e9 que os ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o t\u00eam uma certa utilidade na luta revolucion\u00e1ria, mas para realizar uma revolu\u00e7\u00e3o real (e libertar a pr\u00f3pria internet e outros recursos), nada substitui a consci\u00eancia e a organiza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores nas ruas.<\/p>\n<p><a href=\"#indice\">\u25b2 voltar ao \u00edndice<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a name=\"titulo3\"><\/a><\/p>\n<h2>PARA AL\u00c9M DAS ENCHENTES:<\/h2>\n<h2>A L\u00d3GICA CAPITALISTA E A DEGRADA\u00c7\u00c3O DAS CIDADES<\/h2>\n<p>No in\u00edcio de 2011 as fortes chuvas de ver\u00e3o provocaram deslizamentos que deixaram quase 800 mortos na regi\u00e3o serrana do estado do Rio de Janeiro. Trag\u00e9dias desse tipo t\u00eam sido recorrentes: em 2010 as chuvas tamb\u00e9m deixaram mortes e desabrigados em S\u00e3o Lu\u00eds do Paraitinga, interior de S\u00e3o Paulo, e no bairro de Jardim Pantanal, zona leste da capital. Tamb\u00e9m houve enchentes no norte de Alagoas e sul de Pernambuco em meados de 2010, com os mesmos efeitos catastr\u00f3ficos. Os governos e a imprensa burguesa colocam a culpa no excesso de chuvas, fazem acusa\u00e7\u00f5es a algumas autoridades e mobilizam a sensibilidade popular na solidariedade \u00e0s v\u00edtimas. Entretanto, as causas de fundo do problema das enchentes permanecem intocadas. As enchentes e outros problemas das grandes cidades n\u00e3o s\u00e3o produtos de causas puramente naturais, mas sociais. O sistema capitalista imp\u00f5e um determinado tipo de ocupa\u00e7\u00e3o das cidades, que privilegia os interesses da burguesia e joga os trabalhadores para as regi\u00f5es mais pobres e prec\u00e1rias. Para solucionar os problemas urbanos, precisamos questionar o projeto capitalista em implanta\u00e7\u00e3o no pa\u00eds, que est\u00e1 sendo tocado pelos governos Lula e Dilma (e pela oposi\u00e7\u00e3o burguesa do PSDB\/DEM), e lutar por um outro projeto que contemple as necessidades dos trabalhadores.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O PAC, a especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria, e a falsa solu\u00e7\u00e3o para o problema da moradia<\/h3>\n<p>O Brasil tem sido apresentado como um modelo mundial de sucesso no enfrentamento da crise econ\u00f4mica, por ter tido um crescimento de 7,7% em 2010 (ag\u00eancia EFE, 13\/12\/2010). Entretanto, boa parte desse crescimento foi artificial, insustent\u00e1vel, baseado num aumento do endividamento, tanto do governo, que soltou quantias enormes de dinheiro para as grandes empresas, quanto dos consumidores. Entre 1995 e 2009 a d\u00edvida p\u00fablica saltou de R$ 60 bilh\u00f5es para R$ 2 trilh\u00f5es, mesmo que o pa\u00eds tenha pago R$ 1 trilh\u00e3o em juros e amortiza\u00e7\u00e3o. S\u00f3 em 2010 foram doados mais de R$ 350 bilh\u00f5es para as empresas. Em rela\u00e7\u00e3o aos consumidores, boa parte do endividamento tem a ver com a especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria nas grandes cidades.<\/p>\n<p>O cr\u00e9dito f\u00e1cil precipitou uma orgia de constru\u00e7\u00e3o de casas e pr\u00e9dios. Os bairros residenciais est\u00e3o sendo ocupados por edif\u00edcios de apartamentos, que est\u00e3o sendo vendidos por meio de empr\u00e9stimos a perder de vista. S\u00f3 a Caixa Econ\u00f4mica Federal elevou em 53,6% o volume de cr\u00e9dito imobili\u00e1rio em 2010 (Estad\u00e3o, 11\/02\/2011). Ao mesmo tempo, as construtoras se beneficiam de programas de financiamento estatal a juros baix\u00edssimos. Assim, programas como o PAC e o &#8220;minha casa, minha vida&#8221; do governo federal est\u00e3o amarrando os trabalhadores em d\u00edvidas, ao mesmo tempo em que os bancos,\u00a0 construtoras e fornecedores de materiais ganham rios de dinheiro, e a qualidade de vida nas cidades se deteriora. N\u00e3o \u00e9 por acaso que as empreiteiras fizeram doa\u00e7\u00f5es milion\u00e1rias para a campanha de Dilma, a &#8220;m\u00e3e do PAC&#8221;, contando com a continuidade da politica implantada por Lula. As empreiteiras contribu\u00edram com um quarto dos custos da campanha de Dilma, num total de R$ 33,7 milh\u00f5es. Um grupo de 12 empreiteiras, respons\u00e1vel por R$ 28,4 milh\u00f5es, foi agraciado em 2010 com contratos no valor de R$ 1,24 bilh\u00e3o em obras do governo federal (Estad\u00e3o, 31\/12\/2010).<\/p>\n<p>O PAC e o &#8220;minha casa, minha vida&#8221; s\u00e3o apresentados como formas de beneficiar os trabalhadores com o acesso \u00e0 moradia, mas na verdade est\u00e3o cevando os bancos e construtoras. O d\u00e9ficit habitacional no Brasil est\u00e1 em 5,8 milh\u00f5es de moradias, enquanto que o n\u00famero de im\u00f3veis ociosos nas grandes cidades \u00e9 de 6,07 milh\u00f5es, segundo dados do censo do IBGE de 2010 (portal IG \u2013 \u00daltimo Segundo, 11\/12\/2010). Isso significa que o d\u00e9ficit habitacional poderia ser solucionado desapropriando-se os im\u00f3veis ociosos para uso da popula\u00e7\u00e3o sem teto ou que vive em habita\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias nas favelas e ocupa\u00e7\u00f5es. Mas para isso, seria preciso desafiar um dos pilares da sociedade capitalista, a propriedade privada, e enfrentar alguns dos principais suportes pol\u00edticos dos governos Lula\/Dilma, os bancos e empreiteiras. O PT jamais vai romper com a burguesia para quem governa, assim como a oposi\u00e7\u00e3o burguesa PSDB\/DEM, por isso n\u00e3o pode fazer outra coisa al\u00e9m de oferecer falsas solu\u00e7\u00f5es para os problemas dos trabalhadores.<\/p>\n<h3>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A ocupa\u00e7\u00e3o destrutiva do espa\u00e7o urbano<\/h3>\n<p>As constru\u00e7\u00f5es que est\u00e3o surgindo no processo de especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria e dos programas do governo tamb\u00e9m n\u00e3o levam em considera\u00e7\u00e3o quest\u00f5es b\u00e1sicas como a qualidade das constru\u00e7\u00f5es e a l\u00f3gica da ocupa\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o urbano. Not\u00edcias sobre desabamentos em constru\u00e7\u00f5es pelo Brasil afora pipocam diariamente na imprensa: &#8220;(&#8230;) constru\u00e7\u00e3o irregular pode ser uma das causas (&#8230;) desabamento ocorrido na tarde de quarta-feira, 8, na Vila Matilde, Zona Leste&#8221;, Ag\u00eancia Brasil, 09\/12\/2010 &#8211; &#8220;Desabamento em constru\u00e7\u00e3o fere oper\u00e1rio na zona sul de SP&#8221;, Folha.com, 03\/02\/2011 &#8211; &#8220;Pr\u00e9dio em constru\u00e7\u00e3o desaba em Bel\u00e9m&#8221;, Portal G1, 29\/01\/2011 &#8211; &#8220;Amea\u00e7am desabar 600 pr\u00e9dios na regi\u00e3o metropolitana de Recife&#8221;, Jornal da Record, 10\/12\/2009 &#8211; &#8220;Quatro morrem em desabamento de pr\u00e9dio no Rio&#8221;, Veja, 30\/10\/2010; etc.<\/p>\n<p>As novas constru\u00e7\u00f5es est\u00e3o sendo feitas \u00e0s pressas, para aproveitar o momento comercial favor\u00e1vel, mas com material de qualidade inferior e sem seguir os padr\u00f5es de seguran\u00e7a necess\u00e1rios. Al\u00e9m do problema da seguran\u00e7a das constru\u00e7\u00f5es, tamb\u00e9m n\u00e3o est\u00e3o sendo levados em conta uma s\u00e9rie de aspectos da organiza\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o urbano. O fornecimento de \u00e1gua, escoamento de esgoto, coleta de lixo, s\u00e3o projetados em cada bairro e cada cidade para determinado volume, que determina a quantidade de constru\u00e7\u00f5es que a infra-estrutura urbana \u00e9 capaz de suportar, dentro de um plano tecnicamente racional de zoneamento urbano. Essa capacidade da infra-estrutura urbana n\u00e3o est\u00e1 sendo considerada, de modo que em v\u00e1rias cidades as casas e pr\u00e9dios est\u00e3o sendo \u201camontoados\u201d e a sua ocupa\u00e7\u00e3o sobrecarrega a vaz\u00e3o de \u00e1gua, esgoto e coleta de lixo suport\u00e1veis. A aus\u00eancia de investimentos em infra-estrutura e a sanha desenfreada das construtoras (com a coniv\u00eancia dos \u00f3rg\u00e3os de fiscaliza\u00e7\u00e3o municipais corruptos) se combinam para criar cen\u00e1rios de cat\u00e1strofe urbana, como ac\u00famulo de lixo, entupimento de bueiros e galerias, contamina\u00e7\u00e3o dos rios e c\u00f3rregos, etc., que se agravam dramaticamente nas \u00e9pocas de chuvas mais intensas.<\/p>\n<p>A infra-estrutura das cidades tamb\u00e9m n\u00e3o comporta o volume do tr\u00e1fego de autom\u00f3veis. O munic\u00edpio de S\u00e3o Paulo tem 6.093.551 ve\u00edculos em circula\u00e7\u00e3o (carros, \u00f4nibus, micro-\u00f4nibus, caminh\u00f5es e caminhonetes, segundo o site do Detran-SP), para uma popula\u00e7\u00e3o de 11.057.629 habitantes (dados de 2010, site da Prefeitura). Essa quantidade de ve\u00edculos lan\u00e7a 10.562.000\u00a0 toneladas de toneladas de gases de efeito estufa na atmosfera (dados do\u00a0 Invent\u00e1rio de Emiss\u00f5es de Gases de Efeito Estufa, elaborado pela Prefeitura em 2005, o mais recente dispon\u00edvel). O efeito estufa consiste num aumento da temperatura m\u00e9dia global, que resulta em desequil\u00edbrios clim\u00e1ticos e aumento das chuvas, causa imediata das enchentes. Trata-se de um verdadeiro c\u00edrculo vicioso, em que um problema se conecta com o outro. Todos esses fen\u00f4menos est\u00e3o interligados, pois fazem parte da l\u00f3gica do capitalismo. A especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria expulsa os trabalhadores dos bairros centrais, jogando-os para locais mais distantes, a aus\u00eancia de investimento em transporte coletivo faz com que as pessoas tenham que usar autom\u00f3veis, o excesso de autom\u00f3veis em escala planet\u00e1ria influencia no aquecimento global, que faz com que aumentem as chuvas, que tamb\u00e9m afetam os trabalhadores dos bairros mais prec\u00e1rios, e assim sucessivamente, etc.<\/p>\n<h3>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O aquecimento global e as desordens clim\u00e1ticas<\/h3>\n<p>Dados mais recentes da World Meteorological Organization e do site Nature Geoscience mostram uma tend\u00eancia cont\u00ednua de aumento da temperatura m\u00e9dia do planeta. Desde que as medi\u00e7\u00f5es sistem\u00e1ticas come\u00e7aram em meados do s\u00e9culo XIX, os anos mais quentes foram 1998, 2005 e 2010. O derretimento das calotas polares e das geleiras tamb\u00e9m avan\u00e7ou. Eventos clim\u00e1ticos extremos foram registrados em 2010, como a onda de calor na R\u00fassia, que provocou inc\u00eandios e conseq\u00fcente quebra da safra de trigo, e as inunda\u00e7\u00f5es no Paquist\u00e3o, que deixaram 7 milh\u00f5es de desabrigados. No in\u00edcio de 2011 houve aumento acima da m\u00e9dia das chuvas na Austr\u00e1lia e no Brasil.<\/p>\n<p>As \u00faltimas reuni\u00f5es de c\u00fapula internacionais sobre a mudan\u00e7a clim\u00e1tica, em Copenhague e Canc\u00fan, serviram apenas para proteger os interesses imediatos das pot\u00eancias imperialistas e impedir a ado\u00e7\u00e3o de medidas realmente capazes de conter o aquecimento global. Tais medidas prejudicariam as mega-corpora\u00e7\u00f5es da ind\u00fastria automobil\u00edstica, petrol\u00edfera e outras, que controlam a pol\u00edtica dos pa\u00edses imperialistas, que fazem com que as discuss\u00f5es sobre mudan\u00e7a clim\u00e1tica permane\u00e7am no plano das declara\u00e7\u00f5es de inten\u00e7\u00f5es. Ao contr\u00e1rio de reverter os danos ao meio ambiente, os encontros sacramentaram os planos das mega-corpora\u00e7\u00f5es imperialistas de seguir implantando pr\u00e1ticas destrutivas, como os plantios transg\u00eanicos, os agro-combust\u00edveis, o reflorestamento com esp\u00e9cies predat\u00f3rias para abastecer as ind\u00fastrias de papel, os mercados de c\u00e2mbio de carbono, a acultura\u00e7\u00e3o e manipula\u00e7\u00e3o de popula\u00e7\u00f5es abor\u00edgenes por ONGs, a invas\u00e3o do territ\u00f3rio dos pa\u00edses perif\u00e9ricos, etc.<\/p>\n<h3>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A \u201cdesproletariza\u00e7\u00e3o\u201d dos bairros oper\u00e1rios de S\u00e3o Paulo<\/h3>\n<p>Nos \u00faltimos 20 anos, a cidade de S\u00e3o Paulo avan\u00e7ou em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 periferia. Assim, os antigos bairros s\u00e3o tragados pelo centro, que se expande cada vez mais, a ponto de que antigos redutos prolet\u00e1rios, ou at\u00e9 mesmo as favelas, passam a ser objeto de especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria. Favelas como Heli\u00f3polis, Real Parque, Can\u00e3o do Brooklin, Parais\u00f3polis, antes lugares esquecidos pelos governos e imobili\u00e1rias, passaram a se valorizar com a expans\u00e3o da malha urbana. Os terrenos e edifica\u00e7\u00f5es localizados em antigos bairros ocupados historicamente pelos trabalhadores passam a interessar ao capital, ao mesmo tempo em que estes mesmos trabalhadores passam a ser empecilho para a especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria, fazendo com que os pobres e oprimidos sejam \u201cconvidados\u201d a sa\u00edrem de suas casas.<\/p>\n<p>Isso pode ser feito pela via comercial, num sistema em que as incorporadoras compram diversas casas, todas vizinhas, para serem derrubadas e substitu\u00eddas por condom\u00ednios de luxo. Na cidade de S\u00e3o Paulo, bairros como a Vila Leopoldina chamam bastante a aten\u00e7\u00e3o como exemplo desta tend\u00eancia. Nos \u00faltimos 20 anos, um lugar que era vizinho a um lix\u00e3o \u00e0 beira da Marginal Pinheiros, passou a ser, por obra das construtoras e imobili\u00e1rias, a mais \u201cnova Moema\u201d da cidade. O lix\u00e3o se tornou o famoso Parque Villa Lobos e as velhas casas de oper\u00e1rios d\u00e3o lugar aos condom\u00ednios de luxo em que o custo de cada unidade passa de 7 d\u00edgitos. Os antigos propriet\u00e1rios, depois de venderem suas resid\u00eancias para as construtoras, n\u00e3o conseguem se manter no bairro por conta da supervaloriza\u00e7\u00e3o dos terrenos, e da subseq\u00fcente eleva\u00e7\u00e3o geral do cuso de vida. As poucas casas que ficaram de p\u00e9 s\u00e3o destinados ao com\u00e9rcio, que se adapta para atender a nova e \u201cnobre\u201d vizinhan\u00e7a.<\/p>\n<p>Quando a compra n\u00e3o \u00e9 suficiente para desocupar as \u00e1reas valorizadas, o Estado se encarrega de fazer o trabalho sujo para os bar\u00f5es imobili\u00e1rios, simplesmente derrubando os im\u00f3veis, como foi o caso da regi\u00e3o do Real Parque e da Favela do Can\u00e3o, encrustados ao lado da Avenida Luiz Carlos Berrini, conhecida por ser a \u201cnova Avenida Paulista\u201d por causa dos grandes pr\u00e9dios comerciais.<\/p>\n<p>Este novo \u201cboom\u201d imobili\u00e1rio promove a super-ocupa\u00e7\u00e3o do solo. Satura-se o centro e impermeabiliza-se a periferia, de modo que a \u00e1gua da chuva n\u00e3o tem mais para onde correr, sobrecarregando a vaz\u00e3o dos rios e c\u00f3rregos, transbordando para as ruas e para dentro das casas, causando mortes e preju\u00edzos para os trabalhadores. V\u00edtimas da especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria, os trabalhadores s\u00e3o obrigados a ir cada vez mais longe na dire\u00e7\u00e3o da periferia, onde s\u00f3 lhes resta ocupar as \u00e1reas de risco. Os moradores das \u00e1reas de risco sofrem preju\u00edzos patrimoniais e familiares com as enchentes e deslizamentos, como pudemos constatar no interior do Rio em 2011, onde foram ceifadas centenas de vidas, todas de trabalhadores. No ano passado, o Jardim Pantanal, na Zona Leste de S\u00e3o Paulo ficou meses debaixo d\u2019\u00e1gua. A popula\u00e7\u00e3o que se recusou a sair teve suas casas derrubadas pela prefeitura. Em troca de habita\u00e7\u00f5es que custaram uma vida inteira de esfor\u00e7o para adquirir, a prefeitura os \u201cajudou\u201d com um vale-aluguel de 300 reais.<\/p>\n<p>O mais comum nessa situa\u00e7\u00e3o \u00e9 que se coloquem os trabalhadores como criminosos, afinal a \u201cculpa\u201d \u00e9 deles por \u201cinvadirem\u201d \u00e1reas de risco de deslizamentos e enchentes. As v\u00edtimas s\u00e3o apresentadas como culpados pela pr\u00f3pria desgra\u00e7a. A m\u00eddia burguesa faz uma \u201ccriminaliza\u00e7\u00e3o seletiva\u201d da ocupa\u00e7\u00e3o do solo, pois quando se trata de grandes empreendimentos imobili\u00e1rios que ocupam essas mesmas \u00e1reas, o tratamento n\u00e3o \u00e9 o mesmo. Para se ter uma id\u00e9ia disso, as margens dos dois grandes rios que cortam a cidade (Tiet\u00ea e Pinheiros) est\u00e3o todas tomadas por constru\u00e7\u00f5es e empreendimentos \u201cchiques\u201d, como os centros comerciais do Eldorado, Morumbi, Villa Lobos, Center Norte, J\u00f3quei Clube, Daslu, etc, etc, etc. Essas ocupa\u00e7\u00f5es s\u00e3o t\u00e3o ilegais quanto \u00e0s dos pobres, mas nunca foram incomodadas pelo Estado ou for\u00e7adas a se retirarem das margens dos rios. Na verdade, o pr\u00f3prio Estado muitas vezes \u00e9 o meliante, por conta da impermeabiliza\u00e7\u00e3o de todo o solo da cidade com asfalto e cimento, em nome da prioridade para o transporte automobil\u00edstico.<\/p>\n<h3>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O projeto da burguesia para as cidades<\/h3>\n<p>Ao lado do processo &#8220;espont\u00e2neo&#8221; de deteriora\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de vida das cidades, que tem a ver com o pr\u00f3prio desenvolvimento autom\u00e1tico da l\u00f3gica destrutiva do capital, existe \u00a0no\u00a0 Brasil um projeto deliberado e consciente da burguesia, aplicado pelo Estado, que consiste em remodelar as cidades para a Copa do Mundo e as Olimp\u00edadas N\u00e3o se trata apenas de eventos esportivos, mas de um projeto politico para as cidades, que cont\u00e9m uma s\u00e9rie de objetivos embutidos.<\/p>\n<p>Primeiro, apresentar o Brasil perante o mundo como exemplo de sucesso do capitalismo. Segundo, incrementar o mercado de turismo, reservando as belezas naturais do pa\u00eds para usufruto exclusivo dos visitantes endinheirados do mundo inteiro. Terceiro, sob pretexto dos eventos esportivos, realizar uma gigantesca opera\u00e7\u00e3o de remodela\u00e7\u00e3o urbana, removendo popula\u00e7\u00f5es inteiras das favelas e bairros perif\u00e9ricos, bem como os pobres, moradores de rua, com\u00e9rcio ambulante dos centros, etc., &#8220;limpando&#8221; as cidades e transformando-as em locais apraz\u00edveis e &#8220;seguros&#8221; para a burguesia. Quarto, sob pretexto de &#8220;reprimir o crime&#8221;, manter a popula\u00e7\u00e3o dos bairros pobres e perif\u00e9ricos sob a mira permanente do terror de Estado, na forma de ocupa\u00e7\u00f5es militares, ocupa\u00e7\u00f5es policiais, a\u00e7\u00f5es das tropas de elite, etc. Essas a\u00e7\u00f5es causam um efeito espetacular a princ\u00edpio, mas isso \u00e9 ilus\u00f3rio, pois ao final do processo estabelece-se o controle das milicias de policiais corruptos sobre os bairros. As UPPs no Rio j\u00e1 s\u00e3o parte desse projeto mais geral.<\/p>\n<p>Em S\u00e3o Paulo, as enchentes no Jardim Pantanal no in\u00edcio de 2010 foram provocadas pelo fechamento deliberado da barragem da Penha, com o objetivo de proteger as obras da Avenida Marginal do Tiet\u00ea, sacrificando as vidas e os bens dos moradores do bairro (&#8220;Comportas fechadas na barragem da Penha para proteger a marginal ajudaram a alagar a zona leste de SP&#8221;, Portal UOL, 17\/12\/2009). O objetivo de longo prazo \u00e9 remover toda a popula\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o e viabilizar o Parque V\u00e1rzeas do Tiet\u00ea: &#8220;O parque ter\u00e1 75 km de extens\u00e3o e 107 km\u00b2 de \u00e1rea. Ser\u00e1 o maior parque linear do mundo. Nele, ser\u00e3o constru\u00eddos 33 n\u00facleos de equipamentos de esporte e lazer, atendendo a popula\u00e7\u00e3o dos munic\u00edpios da bacia do Alto Tiet\u00ea: S\u00e3o Paulo, Guarulhos, Itaquaquecetuba, Po\u00e1, Suzano, Mogi das Cruzes, Biritiba Mirim e Sales\u00f3polis.&#8221; (&#8220;S\u00e3o Paulo ter\u00e1 maior parque linear do mundo&#8221;, Portal do governo do Estado, 20\/07\/09)<\/p>\n<p>Em beneficio de uma minoria, do conforto da burguesia em seus bairros luxuosos e dos lucros da ind\u00fastria automobil\u00edstica, da constru\u00e7\u00e3o civil, dos bancos e de outros parasitas, constr\u00f3i-se um modelo de cidade que torna a vida infernal para a maior parte dos seus habitantes, a classe trabalhadora, obrigada a conviver com os alugu\u00e9is alt\u00edssimos, a insufici\u00eancia do transporte coletivo, a superlota\u00e7\u00e3o de \u00f4nibus, trens e metr\u00f4s, o tr\u00e2nsito insuport\u00e1vel, a polui\u00e7\u00e3o do ar, sonora e visual, a falta de \u00e1reas verdes, e para completar, as enchentes.<\/p>\n<h3>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Como medidas imediatas para os problemas urbanos, defendemos:<\/h3>\n<p>&#8211; Priorizar realmente o transporte coletivo de qualidade. Investimento em mais trens e \u00f4nibus para diminuir o n\u00famero de autom\u00f3veis nas ruas e aumentar a \u00e1rea verde da cidade. Tarifa social de R$ 1,00 nos trens e \u00f4nibus. Que o empresariado e o estado assumam o restante do custo, com a cria\u00e7\u00e3o de um Fundo de Transporte cortando gastos dos pol\u00edticos, cargos privilegiados, e aumentando os impostos da empresas, que n\u00e3o disponibilizem \u00f4nibus fretados;<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1 milhares de im\u00f3veis vazios nas grandes cidades enquanto trabalhadores vivem em \u00e1reas de risco e distantes do trabalho. Portanto \u00e9 preciso expropriar os im\u00f3veis ociosos nos centros e coloc\u00e1-los \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o dos trabalhadores a pre\u00e7os acess\u00edveis;<\/p>\n<p>&#8211; Por um plano de obras eficaz que viabilize a constru\u00e7\u00e3o de moradias populares a pre\u00e7os compat\u00edveis e n\u00e3o absurdos como hoje;<\/p>\n<p>&#8211; Fim de financiamento p\u00fablico para condom\u00ednios de luxo e a utiliza\u00e7\u00e3o dessa verba para financiamento das moradias populares;<\/p>\n<p>&#8211; Indeniza\u00e7\u00e3o do Estado a todas as v\u00edtimas de enchentes e deslizamentos;<\/p>\n<p>&#8211; Casa para quem perdeu a casa nas enchentes e deslizamentos;<\/p>\n<p>&#8211; Isen\u00e7\u00e3o de todos os tributos para as v\u00edtimas de alagamentos e desmoronamentos por seis meses;<\/p>\n<p>&#8211; Por um plano de obras p\u00fablicas que priorize o saneamento e a despolui\u00e7\u00e3o de rios e lagos; Proibi\u00e7\u00e3o das empresas jogarem seus esgotos nos rios;<\/p>\n<p>&#8211; Contra a repress\u00e3o e a criminaliza\u00e7\u00e3o dos movimentos das v\u00edtimas de enchentes.<\/p>\n<p><a href=\"#indice\">\u25b2 voltar ao \u00edndice<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\n\t&nbsp;<\/p>\n<p>\n\t&nbsp;<\/p>\n<h2>\n\tCRISE, REBELI&Atilde;O SOCIAL E A NECESSIDADE DA ALTERNATIVA SOCIALISTA<\/h2>\n<p>\n\t&nbsp;<\/p>\n<p>\n\t&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O mundo vive hoje as conseq&uuml;&ecirc;ncias da grave crise econ&ocirc;mica iniciada em 2008. A recupera&ccedil;&atilde;o j&aacute; &eacute; comemorada pela burguesia desde 2009, por causa da volta dos lucros das empresas. Mas trata-se de uma recupera&ccedil;&atilde;o claudicante, incerta, amea&ccedil;ada pelo gigantesco endividamento do Estado, pela instabilidade no com&eacute;rcio mundial e pela disputa cambial entre as na&ccedil;&otilde;es exportadoras, que precisam rebaixar o valor de suas moedas para torn&aacute;-las competitivas. Al&eacute;m disso, cresce a instabilidade social e o descontentamento popular por conta das medidas lan&ccedil;adas pelos governos burgueses para administrar a crise.<\/p>\n<p>\n\t&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A d&iacute;vida p&uacute;blica dos Estados Unidos chegou a US$ 3,5 trilh&otilde;es, contra cerca de US$ 1,4 trilh&otilde;es do conjunto dos pa&iacute;ses perif&eacute;ricos. O total da d&iacute;vida p&uacute;blica e privada da Am&eacute;rica Latina representa 22% do PIB do continente, contra 400% da Inglaterra, 263% de Portugal, 169% da Espanha, 168% da Gr&eacute;cia, 148% da Alemanha, 100% dos Estados Unidos e 979% da recordista Irlanda (ALAI, 31\/01\/2011). Para aplacar esse d&eacute;ficit gigantesco, est&atilde;o sendo feitos cortes or&ccedil;ament&aacute;rios nos gastos sociais, tais como aposentadorias, pens&otilde;es, seguro-desemprego, sa&uacute;de p&uacute;blica, educa&ccedil;&atilde;o, sal&aacute;rios dos servidores, direitos trabalhistas, etc.<\/p>\n<p>\n\t&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Essa pol&iacute;tica est&aacute; sendo aplicada tanto pelos pa&iacute;ses imperialistas como pelos pa&iacute;ses dominados, mesmo que em menor medida em alguns destes. Os trabalhadores dos pa&iacute;ses imperialistas, que desfrutavam de condi&ccedil;&otilde;es salariais e sociais melhores, est&atilde;o sendo os mais diretamente atacados no momento e tamb&eacute;m t&ecirc;m se colocado em mobiliza&ccedil;&atilde;o para resistir.&nbsp; Estados Unidos, Jap&atilde;o, Europa, enfrentam altos &iacute;ndices de desemprego, crescimento da pobreza e queda dos indicadores sociais. Como conseq&uuml;&ecirc;ncia, greves gerais e grandes marchas paralisaram pa&iacute;ses como Gr&eacute;cia e Fran&ccedil;a, espalhando focos por todo o continente europeu, e outras manifesta&ccedil;&otilde;es de revolta&nbsp; e inquieta&ccedil;&atilde;o social se espalham no conjunto do mundo desenvolvido.<\/p>\n<p>\n\t&nbsp;<\/p>\n<h3>\n\t&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A GUERRA CAMBIAL E AS TENS&Otilde;ES INTERNACIONAIS<\/h3>\n<p>\n\t&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; As sete maiores economias do mundo, com o PIB medido pelo crit&eacute;rio de paridade de poder de compra, s&atilde;o pela ordem Estados Unidos, China, Jap&atilde;o, &Iacute;ndia, Alemanha, R&uacute;ssia e Brasil. Isso significa que os chamados BRICs deixaram para tr&aacute;s em termos de peso econ&ocirc;mico velhas grandes pot&ecirc;ncias como Inglaterra e Fran&ccedil;a. Entretanto, na estrutura de poder geopol&iacute;tico, os Estados Unidos e a Europa ainda controlam os principais organismos internacionais, como o Conselho de Seguran&ccedil;a da ONU, Banco Mundial, FMI e OMC, mantendo a capacidade de ditar pol&iacute;ticas que privilegiam os seus interesses. O G20 foi montado como forma de compensar parcialmente os BRICs, aumentando sua participa&ccedil;&atilde;o na tomada de decis&otilde;es, mas principalmente sua responsabilidade ao arcar com medidas que ajudem o capitalismo a sair da crise. Entretanto, enquanto pedem sacrif&iacute;cios dos trabalhadores e dos povos do mundo inteiro, as burguesias imperialistas tratam de usar o Estado para preservar seus interesses particulares.<\/p>\n<p>\n\t&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A contradi&ccedil;&atilde;o entre a exist&ecirc;ncia de um &uacute;nico sistema capitalista mundial e diversos Estados capitalistas rivais se manifestou no fen&ocirc;meno da chamada &ldquo;guerra cambial&rdquo;. O d&oacute;lar caiu 13% em rela&ccedil;&atilde;o ao yen em 2010 e 18% em rela&ccedil;&atilde;o ao euro entre junho e dezembro. A queda do d&oacute;lar se refletiu na valoriza&ccedil;&atilde;o do ouro, que subiu 28% em 2010, indo para US$ 1.420 a on&ccedil;a. A desvaloriza&ccedil;&atilde;o do d&oacute;lar tamb&eacute;m se manifesta como alta do pre&ccedil;o das commodities, como petr&oacute;leo, cobre, milho e outros alimentos. O FED anunciou no final de 2010 a impress&atilde;o de mais US$ 600 bilh&otilde;es, com o objetivo de desvalorizar ainda mais a moeda estadunidense.<\/p>\n<p>\n\t&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A decis&atilde;o dos Estados Unidos foi duramente criticada pela China e Alemanha, os dois maiores exportadores do mundo, os quais, por sua vez, foram acusados por Obama de acumular super&aacute;vits comerciais de maneira &ldquo;desleal&rdquo;, ou seja, mantendo suas moedas artificialmente desvalorizadas em rela&ccedil;&atilde;o ao pre&ccedil;o de mercado. Os &uacute;ltimos meses de 2010 presenciaram uma verdadeira guerra de desvaloriza&ccedil;&otilde;es cambiais, com diversos pa&iacute;ses anunciando medidas para diminuir o valor de suas moedas e melhorar as exporta&ccedil;&otilde;es, entre os quais v&aacute;rios exportadores importantes, com destaque para o gigante Jap&atilde;o, mas tamb&eacute;m os demais &ldquo;tigres asi&aacute;ticos&rdquo;, como Cor&eacute;ia do Sul, Taiwan, Tail&acirc;ndia e Singapura. Outros como o Brasil anunciaram medidas para conter a entrada de d&oacute;lares especulativos, impedir a valoriza&ccedil;&atilde;o da moeda local e o perigo de infla&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>\n\t&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A visita do presidente chin&ecirc;s Hu Jintao aos Estados Unidos em janeiro de 2011 n&atilde;o serviu para diminuir as tens&otilde;es entre os dois pa&iacute;ses. Setores da m&iacute;dia e do Congresso estadunidenses aproveitaram a visita para criticar a China abertamente por supostamente manipular sua moeda e desrespeitar os direitos humanos (o c&uacute;mulo da hipocrisia, j&aacute; que os Estados Unidos fazem exatamente o mesmo em incont&aacute;veis opera&ccedil;&otilde;es criminosas e terroristas pelo mundo, como acaba de revelar abundantemente o site Wikileaks). Pol&iacute;ticos e jornalistas, expressando os interesses da burguesia estadunidense, pressionam a administra&ccedil;&atilde;o Obama para que classifique a China como &ldquo;manipulador de c&acirc;mbio&rdquo;, o que autorizaria o governo a impor san&ccedil;&otilde;es tribut&aacute;rias aos produtos chineses.<\/p>\n<p>\n\t&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Os Estados Unidos t&ecirc;m pressionado o restante do imperialismo para conter o crescimento chin&ecirc;s, por dentro e por fora dos organismos da ONU. Essa press&atilde;o se d&aacute; sob a forma de san&ccedil;&otilde;es e puni&ccedil;&otilde;es para pa&iacute;ses e empresas que se atrevem a negociar com pa&iacute;ses inimigos dos Estados Unidos, tais como o Ir&atilde;, listados como &ldquo;patrocinadores do terrorismo&rdquo;. O Ir&atilde; &eacute; o maior fornecedor de petr&oacute;leo da China, que por sua vez &eacute; o pa&iacute;s cujo consumo de petr&oacute;leo mais cresce no mundo. Os Estados Unidos querem bloquear essa parceria, sob o pretexto de que o Ir&atilde; busca desenvolver armas nucleares. O Ir&atilde; possui um programa de uso de ur&acirc;nio para fins medicinais e de usinas nucleares para gera&ccedil;&atilde;o de energia. O n&iacute;vel de enriquecimento de ur&acirc;nio (processo t&eacute;cnico que permite o aproveitamento da radioatividade para produzir energia) requerido para essas atividades &eacute; de 3% e 20%, respectivamente, limite atingido at&eacute; agora pela tecnologia iraniana. O n&iacute;vel de enriquecimento requerido para uso militar &eacute; de 90%. O Ir&atilde; est&aacute; longe de atingir a capacidade t&eacute;cnica para tanto e submete suas instala&ccedil;&otilde;es &agrave; inspe&ccedil;&atilde;o da Ag&ecirc;ncia Internacional de Energia At&ocirc;mica.<\/p>\n<p>\n\t&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Enquanto isso, Israel, protegido dos Estados Unidos, j&aacute; det&eacute;m a tecnologia para produzir armas at&ocirc;micas, recusa-se a assinar o Tratado de N&atilde;o-Prolifera&ccedil;&atilde;o Nuclear (portanto, comportando-se como o verdadeiro Estado criminoso) e sabotou o projeto nuclear iraniano, assassinando os cientistas Ali-Mohammadi e Majid Shahriari, chefes do programa, e disparando v&iacute;rus de computador contra as usinas daquele pa&iacute;s.<\/p>\n<h3>\n\t&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/h3>\n<h3>\n\t&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A NOVA ALTA DOS PRE&Ccedil;OS DOS ALIMENTOS<\/h3>\n<p>\n\t&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Em 2008 o mundo produziu uma safra recorde de 2,23 bilh&otilde;es de toneladas de gr&atilde;os. Mesmo assim, os pre&ccedil;os dos alimentos atingiram uma alta tamb&eacute;m recorde, resultando em protestos populares contra a carestia em mais de 30 pa&iacute;ses. Isso somente se explica pelo uso que os especuladores fizeram das commodities como alimentos, petr&oacute;leo e min&eacute;rios para se recuperar das perdas no mercado de hipotecas estadunidense, que j&aacute; estava fazendo &aacute;gua desde fins de 2007. Especuladores aproveitam a abund&acirc;ncia de liquidez nos mercados financeiros para comprar grandes quantidades de commodities, chantageando o mercado e lucrando com o aumento dos pre&ccedil;os. Al&eacute;m disso, um ter&ccedil;o da produ&ccedil;&atilde;o de gr&atilde;os se destina a ra&ccedil;&atilde;o animal, que se transforma em carne para os pa&iacute;ses ricos, e um fra&ccedil;&atilde;o crescente est&aacute; sendo transformada em agrocombust&iacute;veis.<\/p>\n<p>\n\t&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A maior parte dos pa&iacute;ses pobres na &Aacute;frica, no sudeste asi&aacute;tico e na Am&eacute;rica Latina teve sua agricultura familiar destru&iacute;da pelo agroneg&oacute;cio e se tornou importador de gr&atilde;os. Os governos est&atilde;o altamente endividados e n&atilde;o tem condi&ccedil;&otilde;es de subsidiar as importa&ccedil;&otilde;es, deixando os pre&ccedil;os flutuar ao sabor do mercado. Em muitos pa&iacute;ses pobres o custo dos alimentos chega a comprometer 50% da renda familiar ou mais. Enquanto milh&otilde;es passam fome e s&atilde;o obrigados a lutar nas ruas contra seus governos por comida, outros lucram com a mis&eacute;ria e o sofrimento. A Cargill, uma das maiores transnacionais do agroneg&oacute;cio, viu seu lucro aumentar 300% entre 2009 e 2010, quando passou de US$ 489 milh&otilde;es para 1,49 bilh&atilde;o. O mesmo quadro de especula&ccedil;&atilde;o financeira, aumento da produ&ccedil;&atilde;o e dos pre&ccedil;os se repete agora.<\/p>\n<p>\n\t&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A FAO, ag&ecirc;ncia da ONU para alimenta&ccedil;&atilde;o e agricultura, alertou para o pre&ccedil;o recorde dos alimentos no in&iacute;cio de 2011, o qual superou as marcas de 2008. Naquele ano, os pre&ccedil;os subiram a ponto de dobrar num intervalo de 18 meses. Depois da queda dos pre&ccedil;os em 2009, os &iacute;ndices voltaram a subir novamente em 2010. Nos &uacute;ltimos doze meses, o pre&ccedil;o do milho subiu 52%, o trigo subiu 49%, a soja 28%, o caf&eacute; 53% e o algod&atilde;o 119%. Outras commodities tamb&eacute;m est&atilde;o subindo, como o cobre (30%) e o petr&oacute;leo (26,5%). O pre&ccedil;o do petr&oacute;leo, por sua vez influencia no pre&ccedil;o final dos alimentos, uma vez que aumenta o custo dos transportes, dos fertilizantes e tamb&eacute;m, indiretamente, o dos agrocombust&iacute;veis. A FAO tem uma lista de 29 pa&iacute;ses em situa&ccedil;&atilde;o de emerg&ecirc;ncia alimentar, ou seja, fome.<\/p>\n<p>\n\t&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n<h3>\n\t&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A CRISE SE ESPALHA E PROVOCA REBELI&Otilde;ES NO NORTE DA &Aacute;FRICA<\/h3>\n<p>\n\t&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A recess&atilde;o e o desemprego na Europa fez com que v&aacute;rios pa&iacute;ses endurecessem as regras contra a imigra&ccedil;&atilde;o vinda do norte da &Aacute;frica e de outros continentes. Nessas situa&ccedil;&otilde;es, os trabalhadores mais prec&aacute;rios, em geral imigrantes, s&atilde;o os primeiros a serem demitidos e tamb&eacute;m enfrentam a hostilidade generalizada, o preconceito e a persegui&ccedil;&atilde;o de bandos fascistas e neonazistas. A xenofobia se converte em pol&iacute;tica de Estado em pa&iacute;ses como a Fran&ccedil;a e a It&aacute;lia. Milhares de jovens que buscavam empregos permanentes ou tempor&aacute;rios na Europa foram impedidos de entrar ou obrigados a voltar para seus pa&iacute;ses de origem. Assim como os nordestinos em S&atilde;o Paulo, muitos imigrantes africanos e de outros continentes estabelecidos na Europa mant&eacute;m os la&ccedil;os com suas fam&iacute;lias nos pa&iacute;ses de origem, enviam dinheiro regularmente, retornam periodicamente, etc. Quando a porta do &ldquo;sucesso&rdquo; individual se fecha na Europa, a a&ccedil;&atilde;o coletiva nos pa&iacute;ses natais &eacute; a &uacute;nica escolha que resta aos jovens.<\/p>\n<p>\n\t&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A a&ccedil;&atilde;o coletiva se manifestou finalmente como rebeli&atilde;o social na virada do ano. O mundo foi surpreendido no in&iacute;cio de 2011 pelo que foi batizado de &ldquo;Revolu&ccedil;&atilde;o de Jasmim&rdquo; na Tun&iacute;sia. Mas as tens&otilde;es j&aacute; vinham se acumulando no norte da &Aacute;frica e Oriente M&eacute;dio h&aacute; meses. O Egito na verdade precedeu a Tun&iacute;sia, pois os protestos ocupam a pra&ccedil;a Tahrir, na capital Cairo, desde meados de 2010. A queda do presidente tunisiano deu &acirc;nimo aos povos de toda essa vasta regi&atilde;o, e fez com que se lan&ccedil;assem &agrave;s ruas. Protestos semelhantes se espalharam pelo Marrocos, Arg&eacute;lia, Jord&acirc;nia, I&ecirc;men e Bahrein. As lutas sociais tamb&eacute;m se reavivaram fortemente em pa&iacute;ses j&aacute; tensos da regi&atilde;o, como Ir&atilde;, Iraque e L&iacute;bano. A mesma combina&ccedil;&atilde;o explosiva de alto desemprego, infla&ccedil;&atilde;o galopante, autoritarismo pol&iacute;tico, corrup&ccedil;&atilde;o, servilismo aos Estados Unidos e popula&ccedil;&otilde;es predominantemente jovens se repete em todos esses pa&iacute;ses para explicar o levantamento popular.<\/p>\n<p>\n\t&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A revolta dos povos &aacute;rabes deixou o imperialismo em estado de alerta, pois a economia capitalista mundial &eacute; cronicamente dependente do fornecimento de petr&oacute;leo do Oriente M&eacute;dio, o qual &eacute; garantido por governos pr&oacute;-ocidentais, extremamente corruptos, autorit&aacute;rios e violent&iacute;ssimos na repress&atilde;o aos seus povos. Muitos desses ditadores governam h&aacute; d&eacute;cadas e se sustentam no poder gra&ccedil;as ao medo que seus aparatos de terror estatal inspiravam na popula&ccedil;&atilde;o. Esse cen&aacute;rio agora come&ccedil;a a mudar. Muitos desses pa&iacute;ses passaram por tumultos e greves por ocasi&atilde;o da alta dos pre&ccedil;os dos alimentos em 2008, antes da crise mundial. Agora, com uma nova alta dos pre&ccedil;os, a continuidade do desemprego e da repress&atilde;o, novos levantamentos come&ccedil;am a acontecer. Mas dessa vez, em 2011, os povos &aacute;rabes miram mais alto e exigem a sa&iacute;da dos odiados governantes, o que representa um salto em rela&ccedil;&atilde;o aos tumultos de 2008.<\/p>\n<p>\n\t&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O primeiro foco de revolta a chamar aten&ccedil;&atilde;o foi o Maghreb, regi&atilde;o do norte da &Aacute;frica composta por Maurit&acirc;nia, Marrocos, Sahara Ocidental, Tun&iacute;sia, Arg&eacute;lia, e L&iacute;bia. Esses pa&iacute;ses s&atilde;o ocupados por povos de variadas composi&ccedil;&otilde;es &eacute;tnicas, mas s&atilde;o unificados pela l&iacute;ngua &aacute;rabe e pela religi&atilde;o mu&ccedil;ulmana. Todos partilham tamb&eacute;m um passado de ocupa&ccedil;&atilde;o imperialista, especialmente por parte de franceses e ingleses. Desde meados do s&eacute;culo XX, esses pa&iacute;ses, como o restante do mundo colonial, se tornaram formalmente independentes, mas mantiveram-se submetidos &agrave; pol&iacute;tica imperialista, aos interesses das transnacionais das antigas metr&oacute;poles e ao imperativo de reprimir suas popula&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>\n\t&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Em alguns deles, como o Egito, chegou-se a ensaiar um movimento nacionalista, sob a lideran&ccedil;a de Gamal Abdel Nasser, militar que nacionalizou o canal de Suez, enfrentando o imperialismo anglo-franc&ecirc;s, dentro do contexto do movimento dos chamados &ldquo;pa&iacute;ses n&atilde;o-alinhados&rdquo; (supostamente equidistantes em rela&ccedil;&atilde;o aos Estados Unidos e URSS). Entretanto, o nacionalismo &aacute;rabe gradualmente se dobrou ao imperialismo. O sucessor de Nasser no Egito, Anwar Sadat, foi o primeiro governante &aacute;rabe a assinar um tratado reconhecendo Israel. Sadat foi assassinado em 1981 e sucedido por Hosni Mubarak, que se manteve no poder at&eacute; 2011. No final das contas, as ditaduras nacionalistas serviram apenas para reprimir a oposi&ccedil;&atilde;o de esquerda, virtualmente exterminada, e abrir caminho para os fundamentalistas isl&acirc;micos, a principal forma de oposi&ccedil;&atilde;o conhecida no mundo &aacute;rabe. Entretanto, esse cen&aacute;rio est&aacute; mudando, pois uma nova forma de oposi&ccedil;&atilde;o popular, oper&aacute;ria e da juventude, onde a influ&ecirc;ncia do fundamentalismo isl&acirc;mico &eacute; minorit&aacute;ria, est&aacute; emergindo das lutas recentes.<\/p>\n<h3>\n\t&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/h3>\n<h3>\n\t&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A &ldquo;REVOLU&Ccedil;&Atilde;O DE JASMIM&rdquo; NA TUN&Iacute;SIA<\/h3>\n<p>\n\t&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No in&iacute;cio de janeiro de 2011 uma onda massiva de protestos populares levou &agrave; queda do presidente tunisiano Ben Ali, que governava o pa&iacute;s desde 1987, sucedendo a Habib Bourguiba, que por sua vez governara desde a independ&ecirc;ncia em 1957. O pa&iacute;s era governado praticamente como um feudo por Ben Ali, seus parentes e um pequeno grupo de fam&iacute;lias, que controlam direta ou indiretamente bancos, emissoras de r&aacute;dio, jornais, o aeroporto, transportadoras, linhas a&eacute;reas, cadeias de hot&eacute;is, im&oacute;veis e propriedades rurais. Associados a transnacionais europ&eacute;ias, em especial francesas, os cl&atilde;s mafiosos que governavam a Tun&iacute;sia enviavam para o exterior uma fortuna anual de US$ 18 bilh&otilde;es.<\/p>\n<p>\n\t&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O regime proibia candidatos de oposi&ccedil;&atilde;o de fazer campanha e n&atilde;o permitia liberdade de imprensa. O pa&iacute;s &eacute; altamente dependente do turismo, que caiu bruscamente desde que a crise mundial afetou a Europa. Os pre&ccedil;os dos alimentos tamb&eacute;m tem subido, numa reedi&ccedil;&atilde;o da alta de 2008. Mas dessa vez os protestos tem sido muito maiores, especialmente por parte dos jovens. Metade da popula&ccedil;&atilde;o tem menos de 25 anos e as taxas de desemprego nessa faixa et&aacute;ria s&atilde;o muito maiores do que os 14% oficiais.<\/p>\n<p>\n\t&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Muitos jovens tem forma&ccedil;&atilde;o superior e continuam desempregados, o que os obriga a sobreviver na economia informal. Quando a pol&iacute;cia confiscou as mercadorias de um desses camel&ocirc;s, Mohamed Bouazizi, o jovem ateou fogo ao pr&oacute;prio corpo. Outro rapaz se suicidou tocando cabos de alta tens&atilde;o, e o sacrif&iacute;cio desses m&aacute;rtires incendiou a ira popular. Num dos vazamentos do Wikileaks, um diplomata estadunidense classificou a Tun&iacute;sia como uma cleptocracia e uma ditadura, o que tamb&eacute;m contribuiu para ati&ccedil;ar a revolta. Os protestos tem sido divulgados e convocados via redes sociais como Facebook e Twitter, driblando a censura da televis&atilde;o e jornais. O governo tentou culpar extremistas isl&acirc;micos e terroristas pelos protestos, mas sem a menor credibilidade. O levantamento popular foi massivo e espont&acirc;neo, sem qualquer orquestra&ccedil;&atilde;o nos bastidores. Os choques com a pol&iacute;cia n&atilde;o intimidaram os manifestantes, apesar de centenas de mortos, feridos e presos, e os protestos se espalharam por todas as cidades do pa&iacute;s.<\/p>\n<p>\n\t&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Depois de apoiar Ben Ali por d&eacute;cadas, o imperialismo europeu e estadunidense percebeu a insustentabilidade da situa&ccedil;&atilde;o e cinicamente passou a criticar o governo pela viol&ecirc;ncia da repress&atilde;o policial. A intensidade dos protestos foi t&atilde;o grande que o presidente se viu for&ccedil;ado a renunciar e deixar o pa&iacute;s com sua fam&iacute;lia (e suas riquezas) para evitar um confronto mais agudo. Um novo governo foi instalado &agrave;s pressas com remanescentes do grupo de Ben Ali para tentar administrar o descontentamento popular. Foram marcadas elei&ccedil;&otilde;es para daqui a seis meses, mas o toque de recolher e as leis de exce&ccedil;&atilde;o n&atilde;o foram suspensos, de forma que o governo continuou a perseguir os opositores e tentar impedir sua organiza&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>\n\t&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; N&atilde;o obstante a continuidade da repress&atilde;o, formou-se a &quot;Frente 14 de Janeiro&quot;, composta de organiza&ccedil;&otilde;es de diversas tradi&ccedil;&otilde;es, desde nacionalistas-&aacute;rabes, antigos grupos stalinistas e organiza&ccedil;&otilde;es oper&aacute;rias, a qual apresentou um programa de reivindica&ccedil;&otilde;es democr&aacute;ticas, anti-imperialistas e reformistas, mas ainda sem um claro car&aacute;ter anti-capitalista e socialista. Mesmo sem um programa e organiza&ccedil;&otilde;es decididamente socialistas, o povo tunisiano segue mobilizado e depois da queda de &ldquo;Ali Bab&aacute;&rdquo;, exige a sa&iacute;da dos &ldquo;40 ladr&otilde;es&rdquo;, ou seja, o restante de sua equipe ainda no poder.<\/p>\n<p>\n\t&nbsp;<\/p>\n<h3>\n\t&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A QUEDA DE MUBARAK NO EGITO<\/h3>\n<p>\n\t&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O Egito &eacute; um dos pa&iacute;ses mais importantes da &Aacute;frica, pelo seu peso populacional (cerca de 84 milh&otilde;es de habitantes), econ&ocirc;mico (crescimento de 5,4% em 2010) e estrat&eacute;gico (controle do canal de Suez, entre &Aacute;frica e &Aacute;sia, por onde o petr&oacute;leo do Oriente M&eacute;dio adentra a Europa). 44% da popula&ccedil;&atilde;o vive abaixo da linha de pobreza de US$ 2 por dia. O sal&aacute;rio m&iacute;nimo foi estabelecido em um valor equivalente a cerca de US$ 50 d&oacute;lares em 1984 e desde ent&atilde;o n&atilde;o foi mais aumentado. Esse valor equivale a cerca de 13% da renda m&eacute;dia per capita, uma das propor&ccedil;&otilde;es mais baixas do mundo. Al&eacute;m de ganhar pouco, o trabalhador eg&iacute;pcio trabalha muito: a m&eacute;dia de horas de trabalho por ano &eacute; de 2.373 na capital Cairo, contra uma m&eacute;dia de 1.900 em outras 73 cidades pesquisadas pelo banco UBS. Esse cen&aacute;rio torna o pa&iacute;s bastante atraente para o investimento estrangeiro. A China investiu US$ 500 milh&otilde;es em 2009 e se tornou o maior parceiro comercial do pa&iacute;s em 2010.&nbsp; Dezenas de transnacionais como IBM, General Motors, McDonald&#39;s, BMW, Vodafone, Shell atuam no pa&iacute;s. O Egito era o pa&iacute;s africano mais pr&oacute;ximo de se tornar uma plataforma de exporta&ccedil;&atilde;o ao estilo dos &ldquo;tigres asi&aacute;ticos&rdquo;, gra&ccedil;as &agrave; cria&ccedil;&atilde;o de zonas francas para as &ldquo;maquiladoras&rdquo;, empresas estrangeiras que montam produtos no pa&iacute;s explorando a m&atilde;o de obra barata.<\/p>\n<p>\n\t&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O Egito vive sob lei de exce&ccedil;&atilde;o desde 1981, quando o presidente Anwar Sadat foi assassinado por grupos radicais por ter fechado um acordo de paz com Israel. Desde ent&atilde;o a ditadura pro&iacute;be organiza&ccedil;&otilde;es partid&aacute;rias, sindicais e ONGs de fazer oposi&ccedil;&atilde;o ao governo. O estado de s&iacute;tio autoriza a pol&iacute;cia a deter cidad&atilde;os sem mandado judicial, o que torna as pris&otilde;es arbitr&aacute;rias, desaparecimentos e tortura de opositores fatos corriqueiros. A Irmandade Mu&ccedil;ulmana, fonte do fundamentalismo isl&acirc;mico, est&aacute; sediada no Egito, e o estado de s&iacute;tio se mant&eacute;m sob pretexto de reprim&iacute;-la. A viola&ccedil;&atilde;o sistem&aacute;tica dos direitos humanos mais elementares foi a condi&ccedil;&atilde;o para a perman&ecirc;ncia do atual governo. O ditador Hosni Mubarak, de 82 anos, preparava seu filho Gamal para ser seu sucessor.<\/p>\n<p>\n\t&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A falta de democracia, a pobreza, o desemprego, a alta dos pre&ccedil;os dos alimentos j&aacute; vinham causando um crescimento das lutas desde 2008, quando o pa&iacute;s foi um daqueles que protagonizou protestos contra a carestia, no que foi chamado de &ldquo;revolta do p&atilde;o&rdquo;. Desde 2004 h&aacute; um crescimento constante das greves, tanto no setor p&uacute;blico quanto no privado, com destaque para as greves dos t&ecirc;xteis em 2007 e 2008. Por conta da inexist&ecirc;ncia de um movimento oper&aacute;rio nacionalmente organizado, as greves s&atilde;o isoladas por empresa ou cidade, sem se converter em lutas nacionais. Mesmo assim, as manifesta&ccedil;&otilde;es na pra&ccedil;a Tahrir, na capital Cairo, s&atilde;o praticamente di&aacute;rias desde meados de 2010.<\/p>\n<p>\n\t&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Em fins de janeiro de 2011, com o exemplo da &ldquo;Revolu&ccedil;&atilde;o de Jasmin&rdquo; tunisiana, o movimento eg&iacute;pcio tomou corpo. O n&uacute;mero de manifestantes na pra&ccedil;a Tahrir passou de alguns milhares a algo em torno de um milh&atilde;o de pessoas e passou a exigir abertamente a sa&iacute;da de Mubarak. Chamou muita aten&ccedil;&atilde;o o uso das chamadas redes sociais da internet (facebook e twitter) e dos celulares para convocar e coordenar as manifesta&ccedil;&otilde;es. 40% da popula&ccedil;&atilde;o tem menos de 30 anos. Essa imensa massa de jovens exasperados pela falta de perspectiva lan&ccedil;ou-se &agrave;s ruas sem a incita&ccedil;&atilde;o de correntes Mu&ccedil;ulmanas ou burocratas sindicais e partid&aacute;rios, o que representa uma mudan&ccedil;a ideol&oacute;gica importante. Ao contr&aacute;rio do que foi alardeado pela m&iacute;dia governista, as mobiliza&ccedil;&otilde;es n&atilde;o foram lideradas pela Irmandade Mu&ccedil;ulmana. Assim como na Tun&iacute;sia, os protestos foram em grande parte espont&acirc;neas e laicos.<\/p>\n<p>\n\t&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A princ&iacute;pio, o ditador tentou resistir, decretando toque de recolher e ordenando a pris&atilde;o dos manifestantes. A popula&ccedil;&atilde;o n&atilde;o se intimidou e manteve a ocupa&ccedil;&atilde;o da pra&ccedil;a Tahrir. Confrontos com as for&ccedil;as de repress&atilde;o deixaram dezenas de mortos na capital e nas grandes cidades, como Alexandria, Suez e Port Said. O governo tentou conter a mobiliza&ccedil;&atilde;o popular bloqueando o acesso &agrave; internet e aos celulares, num atentado escancarado &agrave; liberdade de express&atilde;o, mas sem sucesso, o que prova que n&atilde;o &eacute; a tecnologia que faz avan&ccedil;ar a rebeli&atilde;o e sim a disposi&ccedil;&atilde;o de luta.<\/p>\n<p>\n\t&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O movimento n&atilde;o refluiu e Mubarak apelou para o ex&eacute;rcito. Entretanto, uma ampla camada de oficiais m&eacute;dios se recusou a atirar contra o povo e afogar a revolta popular num banho de sangue, &uacute;nica forma de conter o movimento. Isso poderia resultar em guerra civil, pois temeu-se que parte das tropas se bandeasse para o lado da oposi&ccedil;&atilde;o. A partir desse momento, a sorte do governante estava selada. Mubarak e seus partid&aacute;rios ainda apelaram para bandos fascistas, que atacaram a popula&ccedil;&atilde;o concentrada na pra&ccedil;a Tahrir, mas foram derrotados em combates de rua, em 2 de fevereiro. O ex&eacute;rcito ent&atilde;o se posicionou em setores estrat&eacute;gicos da capital para impedir novos confrontos. Al&eacute;m da grande mobiliza&ccedil;&atilde;o popular, o movimento ganhou for&ccedil;a quando entrou em cena a classe oper&aacute;ria. Portu&aacute;rios de Suez, petroleiros, t&ecirc;xteis, servidores p&uacute;blicos e professores entraram em greve. A economia eg&iacute;pcia foi virtualmente paralisada por uma greve geral. Depois de 18 dias de fort&iacute;ssima mobiliza&ccedil;&atilde;o, a queda definitiva de Mubarak aconteceu em 11 de fevereiro.<\/p>\n<p>\n\t&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O ditador foi substitu&iacute;do por uma junta militar. Ao mesmo tempo em que retirou Mubarak do poder (embora lhe permitindo sair tranquilamente do pa&iacute;s para usufruir no exterior das d&eacute;cadas de pilhagem), o ex&eacute;rcito cercou o pal&aacute;cio presidencial e a TV estatal, sitiados pelo povo, impedindo a ocupa&ccedil;&atilde;o. As for&ccedil;as armadas acabam por se provar como pilar fundamental da continuidade do regime. O ex&eacute;rcito eg&iacute;pcio recebeu uma m&eacute;dia de mais de US$ 1 bilh&atilde;o por ano dos Estados Unidos no &uacute;ltimos trinta anos, a segunda maior ajuda militar estadunidense depois da de Israel. Al&eacute;m de garantir o abastecimento de petr&oacute;leo via canal de Suez, o Egito tamb&eacute;m cumpre o papel de dar suporte a Israel no mundo &aacute;rabe, inclusive auxiliando no massacre dos palestinos ao fechar a fronteira da faixa de Gaza.<\/p>\n<p>\n\t&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O imperialismo tenta gestar em seus laborat&oacute;rios um novo governo para o Egito, que seja capaz de impedir que a mobiliza&ccedil;&atilde;o popular avance para reivindica&ccedil;&otilde;es econ&ocirc;micas, como nacionaliza&ccedil;&otilde;es, controle dos pre&ccedil;os e aumento de sal&aacute;rios, que questionem a continuidade dos neg&oacute;cios da burguesia. O pr&ecirc;mio Nobel de qu&iacute;mica naturalizado estadunidense Ahmed Zewail e o ex-dirigente da Ag&ecirc;ncia Internacional de Energia At&ocirc;mica (fachada da CIA para espionar pa&iacute;ses hostis aos Estados Unidos) Mohamed El Baradei despontam como mais prov&aacute;veis candidatos, ao lado da pr&oacute;pria Irmandade Mu&ccedil;ulmana, h&aacute; tempos &ldquo;domesticada&rdquo; pela ditadura e tornada isenta de radicalismos.<\/p>\n<p>\n\t&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n<h3>\n\tQUE PASSA NO EGITO?<\/h3>\n<p>\n\tO que vimos no Egito foi uma grave crise de domina&ccedil;&atilde;o onde o <strong>governo (na pessoa de Mubarak) <\/strong>perdeu toda credibilidade e legitimidade, n&atilde;o tendo mais for&ccedil;a para continuar impondo o seu projeto. O &oacute;dio era dirigido ao ditador Mubarak, portanto, contra uma parte do poder. No entanto, um poder burgu&ecirc;s se ap&oacute;ia em um conjunto de institui&ccedil;&otilde;es, como o parlamento, o ex&eacute;rcito, o judici&aacute;rio e uma s&eacute;rie de instrumentos ideol&oacute;gicos que procuram legitimar o regime. O peso de cada institui&ccedil;&atilde;o na pol&iacute;tica determina o car&aacute;ter do regime. Se &eacute; uma ditadura, o poder se ap&oacute;ia nas for&ccedil;as policiais e militares; s&eacute; &eacute; um poder democr&aacute;tico burgu&ecirc;s, as principais institui&ccedil;&atilde;o s&atilde;o o parlamento e o judici&aacute;rio. Atacando todas as institui&ccedil;&otilde;es, ataca-se o Estado burgu&ecirc;s que &eacute; a trincheira mais importante da burguesia. A destrui&ccedil;&atilde;o do Estado burgu&ecirc;s &eacute; condi&ccedil;&atilde;o para a revolu&ccedil;&atilde;o socialista.<\/p>\n<p>\n\tNo caso da mobiliza&ccedil;&atilde;o no Egito, o &oacute;dio dos manifestantes ainda n&atilde;o se estendeu ao conjunto do regime, ou seja, as institui&ccedil;&otilde;es que o sustentam (principalmente o ex&eacute;rcito) ainda n&atilde;o est&atilde;o sendo atacadas pelos trabalhadores eg&iacute;pcios, at&eacute; porque, diante da crise, a pr&oacute;pria c&uacute;pula das for&ccedil;as armadas resolveu n&atilde;o intervir diretamente. O car&aacute;ter de classe da mobiliza&ccedil;&atilde;o tamb&eacute;m est&aacute; bastante dilu&iacute;do. Um bom exemplo disso &eacute; o tratamento dispensado pelo povo ao executivo do Google que, por ser oposi&ccedil;&atilde;o e ser preso por Mubarak, foi saudado como um &iacute;dolo do movimento. N&atilde;o estamos dizendo que o regime est&aacute; intacto, pois a amea&ccedil;a de uma mobiliza&ccedil;&atilde;o desse porte balan&ccedil;a qualquer regime e cria instabilidades que n&atilde;o podem durar muito tempo. &Eacute; uma contradi&ccedil;&atilde;o importante que se colocou na realidade.<\/p>\n<p>\n\t&Eacute; importante ter uma defini&ccedil;&atilde;o precisa do processo que est&aacute; em curso e destacar o papel do elemento ideol&oacute;gico nas revolu&ccedil;&otilde;es, dando-lhe uma import&acirc;ncia que a maioria da esquerda n&atilde;o leva em conta. Para uma revolu&ccedil;&atilde;o socialista, a primeira tarefa &eacute; derrotar pol&iacute;tica, social e ideologicamente a classe &ndash;ou bloco&ndash; dominante. Para isso, &eacute; necess&aacute;ria a forma&ccedil;&atilde;o, e principalmente o desenvolvimento de formas de poder paralelo dos trabalhadores, que avancem contra o poder da burguesia em seu conjunto, e n&atilde;o s&oacute; o governo.<\/p>\n<p>\n\tUma rebeli&atilde;o se transforma em revolu&ccedil;&atilde;o somente quando passa a se propor resolver a disputa pol&iacute;tica e social em favor dos trabalhadores, procurando derrotar o Estado enquanto um&nbsp; conjunto de institui&ccedil;&otilde;es. A presen&ccedil;a do elemento subjetivo nas revolu&ccedil;&otilde;es abre a possibilidade de que os trabalhadores tomem em suas m&atilde;os o seu destino, diminuindo o peso das dire&ccedil;&otilde;es traidoras que come&ccedil;am o movimento j&aacute; pensando em como desvi&aacute;-lo da sua radicalidade.<\/p>\n<p>\n\tA hist&oacute;ria do s&eacute;culo XX demonstrou que podem ocorrer revolu&ccedil;&otilde;es, como a chinesa ou a cubana, sem que estejam totalmente desenvolvidas as condi&ccedil;&otilde;es subjetivas, mas s&atilde;o revolu&ccedil;&otilde;es que cumprem algumas tarefas &ndash;como a liberta&ccedil;&atilde;o nacional &ndash; mas n&atilde;o avan&ccedil;am no que &eacute; essencial, a substitui&ccedil;&atilde;o do poder burgu&ecirc;s pelo poder dos trabalhadores. Ou seja, para que tenhamos uma revolu&ccedil;&atilde;o socialista, &eacute; preciso <strong>que os trabalhadores exer&ccedil;am o poder diretamente, <\/strong>e n&atilde;o atrav&eacute;s de formas substituicionistas, como os partidos-ex&eacute;rcito. A aus&ecirc;ncia do elemento consciente da classe oper&aacute;ria tornou os processos chin&ecirc;s e cubano mais dram&aacute;ticos, porque esses Estados j&aacute; nasceram completamente desviados das formas de poder democr&aacute;tico do proletariado.<\/p>\n<p>\n\t&nbsp;<\/p>\n<h3>\n\tA SITUA&Ccedil;&Atilde;O AINDA EST&Aacute; INDEFINIDA&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/h3>\n<p>\n\tA rebeli&atilde;o eg&iacute;pcia &eacute; sem d&uacute;vida a mobiliza&ccedil;&atilde;o mais massiva e mais importante que a nova gera&ccedil;&atilde;o de trabalhadores militantes j&aacute; presenciaram, colocando-se como uma das principais rebeli&otilde;es do s&eacute;culo XXI. A pr&oacute;pria m&iacute;dia burguesa indica que h&aacute; um importante processo de auto-organiza&ccedil;&atilde;o dos manifestantes. O acampamento na pra&ccedil;a Tahrir, a resist&ecirc;ncia aos ataques das for&ccedil;as fascistas pr&oacute;-Mubarak, as formas de auto-organiza&ccedil;&atilde;o para garantir alimenta&ccedil;&atilde;o e infra-estrutura necess&aacute;ria para o movimento, s&atilde;o uma demonstra&ccedil;&atilde;o da for&ccedil;a e decis&atilde;o dos manifestantes. &Eacute; um processo que surpreendentemente segue com uma for&ccedil;a cada vez mais crescente. Outro elemento fundamental e que pode decidir os rumos do movimento &eacute; a entrada em cena do movimento oper&aacute;rio, com as greves se alastrando por diversos ramos da economia eg&iacute;pcia, como os trabalhadores petroleiros, t&ecirc;xteis, do porto de Suez e grande parte do funcionalismo p&uacute;blico.<\/p>\n<p>\n\tO fato dos trabalhadores terem entrado no conflito significa que est&aacute; dada a possibilidade de que haja uma sa&iacute;da classista, ou seja, pode ser o pontap&eacute; para uma organiza&ccedil;&atilde;o dos trabalhadores independente da burguesia. Assim, os pr&oacute;ximos acontecimentos ser&atilde;o decisivos para a sorte da rebeli&atilde;o dos trabalhadores eg&iacute;pcios.<\/p>\n<p>\n\t&nbsp;<\/p>\n<h3>\n\t&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A NECESSIDADE DA ALTERNATIVA SOCIALISTA<\/h3>\n<p>\n\t&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O processo eg&iacute;pcio permanece em aberto. A luta popular foi suficiente para derrubar o governo, mas n&atilde;o derrubou o regime. Seu pilar fundamental, as for&ccedil;as armadas, permanece de p&eacute;. Tamb&eacute;m n&atilde;o se pode dizer que houve mudan&ccedil;a no sistema social, pois o capitalismo ainda se mant&eacute;m praticamente inalterado. De qualquer forma, houve uma mudan&ccedil;a muito importante na atitude da popula&ccedil;&atilde;o e da classe trabalhadora, pois depois de d&eacute;cadas e ao custo de grande enfrentamento (com centenas de mortes), os eg&iacute;pcios colocaram-se em luta e obtiveram uma significativa vit&oacute;ria parcial ao derrubar o ditador. N&atilde;o ser&aacute; simples fazer voltar para casa uma popula&ccedil;&atilde;o que adquiriu confian&ccedil;a nas pr&oacute;prias for&ccedil;as e sentimento de vit&oacute;ria. Nos dias imediatamente seguintes &agrave; queda de Mubarak, a popula&ccedil;&atilde;o permaneceu mobilizada e foram apresentadas exig&ecirc;ncias aos novos dirigentes. Elementos de organiza&ccedil;&atilde;o, comit&ecirc;s e assembl&eacute;ias surgem das mobiliza&ccedil;&otilde;es e podem se manter como instrumentos de luta. Esses elementos podem avan&ccedil;ar para exigir mudan&ccedil;as mais radicais no regime social, as &uacute;nicas capazes de melhorar a vida da popula&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>\n\t&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &Agrave; medida em que o processo se generaliza para outros pa&iacute;ses, o imperialismo e a m&iacute;dia burguesa tentam control&aacute;-lo e distorcer seu sentido. As rebeli&otilde;es &aacute;rabes s&atilde;o apresentadas como uma nova vers&atilde;o das &ldquo;revolu&ccedil;&otilde;es de veludo&rdquo; que derrubaram os Estados burocr&aacute;ticos do Leste Europeu entre 1989-91, pelo fato de que os povos &aacute;rabes lutam em nome da democracia. Os acontecimentos de 1989-91 foram apresentados como prova da vit&oacute;ria do capitalismo e do &ldquo;fim da hist&oacute;ria&rdquo;. Mas ao contr&aacute;rio disso, as rebeli&otilde;es de 2011 s&atilde;o rebeli&otilde;es contra o fracasso do capitalismo, incapaz de oferecer uma verdadeira democracia e sequer de alimentar as popula&ccedil;&otilde;es. A verdadeira contradi&ccedil;&atilde;o da realidade mundial n&atilde;o &eacute; entre &ldquo;democracia&rdquo; e &ldquo;ditadura&rdquo;, mas entre trabalho e capital. Tanto as ditaduras &aacute;rabes quanto as democracias burguesas s&atilde;o igualmente ditaduras do capital contra os trabalhadores. S&oacute; a derrubada do capitalismo e a constru&ccedil;&atilde;o do socialismo podem trazer uma verdadeira democracia.<\/p>\n<p>\n\t&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; As greves e manifesta&ccedil;&otilde;es na Europa em 2010 eram lutas dos trabalhadores para defender suas conquistas hist&oacute;ricas e sua qualidade de vida. As lutas dos povos &aacute;rabes no in&iacute;cio de 2011 s&atilde;o lutas contra a mis&eacute;ria e pela aquisi&ccedil;&atilde;o de uma melhor qualidade de vida. Duas faces de uma mesma moeda, a crise estrutural e societal do capital. O elo que falta para unir as duas lutas &eacute; a consci&ecirc;ncia da necessidade de superar o capitalismo, indo al&eacute;m da derrubada de governantes e reformulando todo o metabolismo social, sob controle dos trabalhadores. A aus&ecirc;ncia dessa consci&ecirc;ncia &eacute; o que chamamos de crise da alternativa socialista, o fator que ter&aacute; que ser superado para que a rebeli&atilde;o &aacute;rabe avance para uma verdadeira revolu&ccedil;&atilde;o socialista. A supera&ccedil;&atilde;o dessa crise e o avan&ccedil;o em dire&ccedil;&atilde;o a uma revolu&ccedil;&atilde;o depender&atilde;o n&atilde;o s&oacute; da interven&ccedil;&atilde;o de organiza&ccedil;&otilde;es revolucion&aacute;rias, mas fundamentalmente da constru&ccedil;&atilde;o de organismos de luta do conjunto da classe, por meio dos quais os trabalhadores sejam respons&aacute;veis pela pr&oacute;pria emancipa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>\n\t&nbsp;<\/p>\n<p>\n\t&nbsp;<\/p>\n<h1>\n\t<a name=\"titulo2\"><\/a>O COMUNISMO E A INTERNET<\/h1>\n<h2>\n\t&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O caso Wikileaks<\/h2>\n<p>\n\t&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Em fins de 2010 o site Wikileaks publicou um lote de 250 mil documentos provenientes de despachos das embaixadas estadunidenses no mundo inteiro. A publica&ccedil;&atilde;o desses documentos revelou que a rede de embaixadas &eacute; na verdade uma vasta rede de espionagem, encarregada de coletar dados estrat&eacute;gicos, militares e de intelig&ecirc;ncia dos pa&iacute;ses em que est&atilde;o estabelecidas, al&eacute;m de dados pessoais de governantes e ocupantes de cargos de alto escal&atilde;o, incluindo extratos banc&aacute;rios, senhas, amostras de DNA, etc. Al&eacute;m de revelar essa fun&ccedil;&atilde;o, os despachos cont&eacute;m an&aacute;lises dos agentes estadunidenses sobre a situa&ccedil;&atilde;o de cada pa&iacute;s, do ponto de vista dos interesses da super pot&ecirc;ncia. O vazamento dessas an&aacute;lises provocou um verdadeiro terremoto diplom&aacute;tico. Aliados ou advers&aacute;rios, grandes pot&ecirc;ncias ou semi-col&ocirc;nias, s&atilde;o tratados nos documentos com brutal desprezo pela sua soberania e dignidade.<\/p>\n<p>\n\t&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Os documentos exp&otilde;em o car&aacute;ter criminoso e desumano do imperialismo estadunidense, a agressividade de seus militares, a voracidade de suas corpora&ccedil;&otilde;es, a perf&iacute;dia de seus agentes, a total falta de escr&uacute;pulos ao atacar, coagir e corromper. Os textos revelam uma prepot&ecirc;ncia verdadeiramente monstruosa ao falar de planos de guerra contra a China e a R&uacute;ssia, inten&ccedil;&otilde;es de bombardear o Ir&atilde;, bombardeio de civis no I&ecirc;men, estocagem de armas proibidas na Inglaterra, planos para retirar governantes do poder e instalar outros mais &ldquo;amig&aacute;veis&rdquo;, coniv&ecirc;ncia com o golpe em Honduras, aprisionamento ilegal de dissidentes e opositores, tortura e desrespeito sistem&aacute;tico aos direitos humanos, viola&ccedil;&atilde;o de tratados internacionais, crimes de agentes da CIA, opera&ccedil;&otilde;es ocultas de governos aliados mantidas em segredo para suas popula&ccedil;&otilde;es, subornos pagos a governantes em troca de acordos favor&aacute;veis &agrave;s corpora&ccedil;&otilde;es estadunidenses, obstru&ccedil;&atilde;o de investiga&ccedil;&otilde;es criminais e judiciais contra todos esses crimes, etc. Os esc&acirc;ndalos se sucedem numa torrente intermin&aacute;vel, expondo a sordidez ilimitada do imperialismo estadunidense em suas pretens&otilde;es de dom&iacute;nio mundial.<\/p>\n<p>\n\t&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O volume de vazamentos &eacute; t&atilde;o grande que o governo estadunidense nem sequer esbo&ccedil;a uma tentativa de negar a autenticidade dos documentos. Ao inv&eacute;s de tentar limpar sua imagem, o que se provou de qualquer forma invi&aacute;vel, o governo estadunidense optou por tentar destruir a imagem de Julian Assange, o ativista australiano respons&aacute;vel pelo Wikileaks. Acusa&ccedil;&otilde;es de ass&eacute;dio sexual e estupro foram disparadas contra Assange na Su&eacute;cia, o que o levou a ser detido na Inglaterra, onde aguarda julgamento sem poder sair do pa&iacute;s. A extradi&ccedil;&atilde;o para a Su&eacute;cia poderia fornecer a base para uma extradi&ccedil;&atilde;o aos Estados Unidos, onde seria acusado de &ldquo;terrorismo&rdquo;, conforme declara&ccedil;&otilde;es de autoridades estadunidenses, o que poderia resultar at&eacute; em pena de morte. As acusa&ccedil;&otilde;es n&atilde;o resistem a um escrut&iacute;nio minimamente s&eacute;rio (h&aacute; declara&ccedil;&otilde;es anteriores das acusadoras atestando que as rela&ccedil;&otilde;es foram consensuais), o que revela que se trata de pura persegui&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica.<\/p>\n<p>\n\t&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Os documentos publicados pelo Wikileaks foram obtidos em parte por opera&ccedil;&otilde;es de hackers e em parte por vazamentos fornecidos de dentro pelo pessoal do pr&oacute;prio aparato diplom&aacute;tico e de intelig&ecirc;ncia estadunidense e das for&ccedil;as armadas. Um dos autores de vazamentos, o soldado Bradley Manning, foi identificado como respons&aacute;vel pelo vazamento de dados chocantes da guerra no Iraque, e est&aacute; sofrendo persegui&ccedil;&atilde;o criminal.<\/p>\n<h2>\n\t&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O problema da liberdade de express&atilde;o<\/h2>\n<p>\n\t&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O &oacute;dio do governo estadunidense se combina com o &oacute;dio da m&iacute;dia burguesa, tornada obsoleta pelo Wikileaks, j&aacute; que este se provou muito mais capaz de expor sem disfarces a verdadeira face da realidade mundial. O ataque contra o Wikileaks &eacute; um ataque contra os direitos democr&aacute;ticos mais b&aacute;sicos e contra a liberdade de express&atilde;o. Julian Assange n&atilde;o &eacute; um militante socialista, &eacute; apenas um ativista da m&iacute;dia com ideais &ldquo;democr&aacute;ticos&rdquo;. Mesmo assim, a democracia mais elementar se provou incompat&iacute;vel com a continuidade do capitalismo, pois esse sistema n&atilde;o pode conviver com a exposi&ccedil;&atilde;o da verdade.<\/p>\n<p>\n\t&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Por d&eacute;cadas tem vigorado um acordo t&aacute;cito entre os grandes jornais e redes de TV nos Estados Unidos (que funciona da mesma forma no resto do mundo) pelo qual os segredos estatais mais embara&ccedil;osos n&atilde;o podem ser revelados. A auto-censura &eacute; uma exig&ecirc;ncia dos grandes grupos empresariais aos quais as empresas de m&iacute;dia est&atilde;o subordinadas, j&aacute; que muitos desses grupos dependem de acordos com o governo. Agora, quando o Wikileaks cumpre o papel que caberia &agrave; m&iacute;dia, os meios de comunica&ccedil;&atilde;o se unem na campanha maci&ccedil;a para apresentar Julian Assange como &ldquo;terrorista&rdquo; e estuprador, por mais que as acusa&ccedil;&otilde;es contra ele tenham se provado escandalosamente forjadas.<\/p>\n<p>\n\t&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O potencial da internet para a livre comunica&ccedil;&atilde;o &eacute; uma amea&ccedil;a para as grandes empresas de m&iacute;dia, da&iacute; o seu desespero para derrubar o Wikileaks e criminalizar seu fundador. A campanha contra o Wikileaks foi ao ponto de retirar o site do ar por meio de ataques de nega&ccedil;&atilde;o de servi&ccedil;o e bloqueio dos servidores pela Amazon. O Wikileaks foi for&ccedil;ado a se instalar em um servidor na Su&iacute;&ccedil;a. De qualquer forma, o material revelado pelo site j&aacute; foi copiado e multiplicado pelo mundo.<\/p>\n<h3>\n\t&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O controle sobre a internet<\/h3>\n<p>\n\t&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O Wikileaks cumpriu o papel que o jornalismo deveria cumprir, ou seja, trazer informa&ccedil;&atilde;o. Acontece que o jornalismo feito sob controle das empresas de m&iacute;dia, jornais, revistas, r&aacute;dios, televis&otilde;es e portais de internet, obedece aos interesses dos seus donos e patrocinadores, n&atilde;o do p&uacute;blico. A informa&ccedil;&atilde;o transmitida por esses meios chega ao p&uacute;blico truncada, fragmentada, filtrada, censurada em suas partes mais cr&iacute;ticas, distorcida, reinterpretada para que se conclua dos fatos o contr&aacute;rio do que eles representam, conforme o vi&eacute;s ideol&oacute;gico desejado pelos poderes que controlam a comunica&ccedil;&atilde;o (a rebeli&atilde;o no Egito, por exemplo, aparece como uma &ldquo;festa da democracia&rdquo;).<\/p>\n<p>\n\t&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Assim como os demais meios, a internet tamb&eacute;m esta sujeita a este controle. O &oacute;rg&atilde;o que regulamenta a rede World Wide Web, o famoso &quot;www&quot; que precede todos os endere&ccedil;os de internet,&nbsp; &eacute; uma entidade p&uacute;blica sem fins lucrativos sediada nos Estados Unidos (Internet Corporation for Assigned Names and Numbers, ICANN). Isto significa que o governo imperialista pode eventualmente &quot;puxar a tomada&quot; e tirar a internet do ar (na verdade, quase toda a internet, pois existem redes &quot;subterr&acirc;neas&quot; por fora do www e do protocolo &quot;http&quot;, usadas apenas por usu&aacute;rios altamente preparados).<\/p>\n<p>\n\t&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Mesmo com as limita&ccedil;&otilde;es do controle estatal e corporativo, a internet ainda propicia um espa&ccedil;o para a busca de formas de comunica&ccedil;&atilde;o e compartilhamento de id&eacute;ias. No per&iacute;odo recente tem ganhado import&acirc;ncia o fen&ocirc;meno das chamadas &quot;redes sociais&quot;, tais como os sites de relacionamento orkut (popular&iacute;ssimo no Brasil), facebook e o twitter. Trata-se de uma forma de comunica&ccedil;&atilde;o &aacute;gil e bastante pr&aacute;tica, capaz de ligar os indiv&iacute;duos em torno de gostos e prefer&ecirc;ncias comuns.<\/p>\n<p>\n\t&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Extrapolando as possibilidades dadas aos usu&aacute;rios comuns como as redes acima, existe um setor dos usu&aacute;rios da inform&aacute;tica e da internet que n&atilde;o se contenta com os limites impostos pelo controle estatal\/corporativo e desenvolve pr&aacute;ticas que visam burlar esse controle. Trata-se do chamado cyberativismo, que envolve desde a cria&ccedil;&atilde;o de ve&iacute;culos para a dissemina&ccedil;&atilde;o de informa&ccedil;&otilde;es e id&eacute;ias, a pr&aacute;tica sistem&aacute;tica de distribuir essas informa&ccedil;&otilde;es e tamb&eacute;m opini&otilde;es (em canais como o pr&oacute;prio Wikileaks, mas tamb&eacute;m o Youtube, Blogger, Twitter, etc.), at&eacute; modalidades mais radicais, como a&ccedil;&otilde;es diretas de invas&atilde;o de sistemas corporativos e estatais para adquirir informa&ccedil;&otilde;es, ou a sabotagem desses sistemas por v&iacute;rus e ataques de nega&ccedil;&atilde;o de servi&ccedil;o (milhares de acessos simult&acirc;neos que sobrecarregam um determinado sistema e o obrigam a se auto-desligar preventivamente).<\/p>\n<p>\n\t&nbsp;<\/p>\n<h3>\n\t&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A propriedade privada como obst&aacute;culo para o desenvolvimento das for&ccedil;as produtivas<\/h3>\n<h3>\n\t&nbsp;<\/h3>\n<p>\n\t&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No final do s&eacute;culo XVIII e in&iacute;cio do XIX, com a Revolu&ccedil;&atilde;o Industrial, o capital promoveu verdadeiros milagres em termos de crescimento das for&ccedil;as produtivas, de um modo que, em pouqu&iacute;ssimo tempo, a humanidade se viu capaz de &ldquo;diminuir&rdquo; o mundo e ampliar magnificamente o conhecimento. N&atilde;o se trata aqui de se fazer apologia ao capital, pelo contr&aacute;rio. Na mesma medida que se desenvolviam as for&ccedil;as produtivas, os trabalhadores empobreciam. As descobertas da ci&ecirc;ncia e tecnologia, ao inv&eacute;s de se direcionarem para as necessidades humanas, eram direcionadas para acelerar o ciclo da mercadoria e da concentra&ccedil;&atilde;o e centraliza&ccedil;&atilde;o de riqueza.<\/p>\n<p>\n\t&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; N&atilde;o obstante essa contradi&ccedil;&atilde;o, as grandes descobertas cient&iacute;ficas faziam com que os antigos questionamentos passassem a ter resposta racional, derrubando a preval&ecirc;ncia dos velhos dogmas da religi&atilde;o (depois de mil&ecirc;nios de dom&iacute;nio retr&oacute;grado do cristianismo institucionalizado) como forma de explicar o mundo. A impress&atilde;o que se tinha &eacute; de que a humanidade estava &agrave;s v&eacute;speras de ser ver emancipada gra&ccedil;as aos avan&ccedil;os cient&iacute;ficos e tecnol&oacute;gicos. A busca constante pelo aumento da produtividade pelos capitais particulares era o grande motor propulsor que jogava a humanidade para tais descobertas e para o a crescimento das for&ccedil;as produtivas.<\/p>\n<p>\n\t&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ocorre que, depois de passado dois s&eacute;culos e meio, a humanidade v&ecirc;-se a retornar ao per&iacute;odo medieval, n&atilde;o s&oacute; no que diz respeito ao conhecimento, mas tamb&eacute;m &agrave; produtividade. Se&nbsp; antes a propriedade privada foi o combust&iacute;vel para as grandes descobertas, agora passa ser o maior empecilho para que as mesmas for&ccedil;as produtivas continuem a evoluir. A produtividade &eacute; t&atilde;o alta que qualquer evolu&ccedil;&atilde;o t&eacute;cnica manda para os ares a propriedade privada. Podemos ver isso claramente no que diz respeito &agrave; tecnologia da informa&ccedil;&atilde;o e no setor audiovisual. Com um m&iacute;nimo de conhecimento no manuseio de alguns programas de computador simples, qualquer pessoa pode &ldquo;baixar&rdquo; arquivos digitais da internet e montar uma discografia completa de seu artista preferido; montar uma videoteca com um sem-n&uacute;mero de filmes dos mais variados g&ecirc;neros, bem como uma cole&ccedil;&atilde;o de &ldquo;softwares&rdquo; para as mais variadas necessidades.<\/p>\n<p>\n\t&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Caso a pessoa n&atilde;o tenha conhecimentos suficientes do uso de programas para ter tais materiais em casa de forma gratuita, &eacute; poss&iacute;vel encontr&aacute;-los facilmente a pre&ccedil;os reduzidos no com&eacute;rcio informal das ruas das grandes cidades. &Eacute; uma verdadeira expropria&ccedil;&atilde;o dos grandes capitalistas da inform&aacute;tica e da ind&uacute;stria cultural, que fazem de tudo para manter o controle e a propriedade privada sobre os programas, filmes, m&uacute;sicas e textos. No desespero, os capitalistas fazem uma verdadeira campanha para que as pessoas adquiram somente &ldquo;produtos originais&rdquo;, por meio de um ataque ideol&oacute;gico &agrave; produ&ccedil;&atilde;o e ao com&eacute;rcio paralelo de tais mercadorias, denominado como &ldquo;pirataria&rdquo;. O ataque ideol&oacute;gico se completa com a a&ccedil;&atilde;o policial e judicial, enquadrando as pessoas que fazem uso deste ramo como criminosas.<\/p>\n<p>\n\t&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ocorre que a valoriza&ccedil;&atilde;o da &ldquo;originalidade&rdquo; dos produtos de que tanto se faz men&ccedil;&atilde;o &eacute; uma tentativa v&atilde; das das grandes corpora&ccedil;&otilde;es da m&iacute;dia e da inform&aacute;tica (detentoras da propriedade privada) de manterem o monop&oacute;lio da produ&ccedil;&atilde;o e venda dos produtos. N&atilde;o h&aacute;, do ponto de vista da funcionalidade t&eacute;cnica, qualquer diferen&ccedil;a entre um produto &ldquo;original&rsquo; e o produto oriundo da pirataria, a n&atilde;o ser o fato de que a mercadoria &ldquo;original&rdquo; custa muito mais caro. Pateticamente, tenta-se moralizar a quest&atilde;o, como se n&atilde;o se tratasse de uma necessidade do dia a dia. Quem compra o produto original &eacute; &ldquo;bom&rdquo;, quem compra um &ldquo;pirata&rdquo; &eacute; &ldquo;mau&rdquo;. No entanto, do ponto de vista pr&aacute;tico, quem adquire um produto por 100 ao inv&eacute;s de pagar 10 faz o mesmo que jogar 90 na lata do lixo.<\/p>\n<p>\n\t&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Os capitalistas tentam desenvolver formas de manter o seu monop&oacute;lio, mas todas elas s&atilde;o insuficientes para impedir a crescente expropria&ccedil;&atilde;o da propriedade intelectual resultante da democratiza&ccedil;&atilde;o do acesso ao resultado do trabalho humano. A democratiza&ccedil;&atilde;o &eacute; um resultado do desenvolvimento da capacidade de processamento e de armazenamento de dados dos computadores e de seu mais diversos componentes, e tamb&eacute;m do desenvolvimento da capacidade do pessoal especializado em inform&aacute;tica, que rotineiramente derruba as travas colocados pelo capital para impedir o seu livre acesso. Uma prova contundente disso est&aacute; nos softwares &ldquo;craqueados&rdquo;, em que o usu&aacute;rio consegue instru&ccedil;&otilde;es para remover &ldquo;manualmente&rdquo; as travas que os capitalistas colocam para imped&iacute;-los de usar os programas sem pagar. Qualquer pessoa que saiba executar estas instru&ccedil;&otilde;es pode ter todos os programas necess&aacute;rios para as suas rotinas di&aacute;rias praticamente de gra&ccedil;a. E n&atilde;o adianta a burguesia inovar para manter a sua propriedade privada, pois, em mais tempo ou menos tempo, encontra-se um jeito para derrub&aacute;-las.<\/p>\n<p>\n\t&nbsp;<\/p>\n<h3>\n\t&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Possibilidades da internet<\/h3>\n<h3>\n\t&nbsp;<\/h3>\n<p>\n\t&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Um dos exemplos de como o capitalismo est&aacute; mais do que obsoleto como modo de produ&ccedil;&atilde;o &eacute; o chamado &quot;e-commerce&quot;, os sites de compras coletivas. O fen&ocirc;meno come&ccedil;ou nos Estados Unidos com o Grup.on e chegou ao Brasil com o Peixe Urbano e similares. Trata-se de um mecanismo em que um grupo de consumidores interessado em um determinado produto ou servi&ccedil;o (desde um eletrodom&eacute;stico a um pacote de viagens ou curso de idiomas) faz um pedido coletivo, adianta o pagamento e recebe diretamente do fornecedor original, a pre&ccedil;os muito mais vantajosos, devido &agrave; escala do pedido. Essa opera&ccedil;&atilde;o dispensa a intermedia&ccedil;&atilde;o do capital comercial (firmas como Wal-Mart, Carrefour e outras se tornaram tecnicamente dispens&aacute;veis). Numa economia racional, poss&iacute;vel apenas numa sociedade socialista, esse mecanismo poderia orientar a produ&ccedil;&atilde;o social determinando com enorme praticidade a quantidade dos produtos e servi&ccedil;os necess&aacute;rios para determinada popula&ccedil;&atilde;o. Sob o capitalismo em que vivemos, trata-se de mais uma artimanha de um setor do capital (o Grup.on e assemelhados s&atilde;o empresas capitalistas como outras quaisquer) na concorr&ecirc;ncia contra outro setor, o com&eacute;rcio varejista tradicional, tornado socialmente in&uacute;til.<\/p>\n<p>\n\t&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Um outro movimento que retrata exemplarmente a luta pelo desenvolvimento das for&ccedil;as produtivas contra o limite das rela&ccedil;&otilde;es capitalistas de propriedade privada &eacute; o do &quot;software livre&quot;. Os softwares&nbsp; (programas de computador, como o Windows, Internet Explorer, Word, Excel, etc.) de tipo tradicional s&atilde;o desenvolvidos e patenteados por empresas que det&eacute;m a propriedade do seu &quot;c&oacute;digo-fonte&quot;, a &ldquo;linguagem interna&rdquo; por meio da qual o programa &quot;conversa&quot; consigo mesmo para desempenhar suas tarefas. Os softwares livres (o mais famoso dos quais &eacute; o Linux) s&atilde;o desenvolvidos por programadores que compartilham o c&oacute;digo-fonte de sua autoria com outros programadores, de modo a permitir que os programas sejam aperfei&ccedil;oados por um processo coletivo de colabora&ccedil;&atilde;o. H&aacute; empresas que comercializam vers&otilde;es do software livre para o usu&aacute;rio final, que em geral n&atilde;o domina a programa&ccedil;&atilde;o. Mesmo assim, o compartilhamento dos c&oacute;digos-fontes contraria a l&oacute;gica da concorr&ecirc;ncia capitalista, j&aacute; que demonstra que a colabora&ccedil;&atilde;o &eacute; mais produtiva que a concorr&ecirc;ncia.<\/p>\n<h3>\n\t&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A revolu&ccedil;&atilde;o &eacute; real e n&atilde;o virtual<\/h3>\n<h3>\n\t&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/h3>\n<p>\n\t&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Apesar de todas as possibilidades contidas na internet enquanto meio de comunica&ccedil;&atilde;o, &eacute; preciso ressaltar que um ve&iacute;culo de comunica&ccedil;&atilde;o por si mesmo n&atilde;o &eacute; capaz de substituir a luta de classes ao estilo tradicional, como acaba de demonstrar o Egito. As rebeli&otilde;es populares na Tun&iacute;sia e no Egito foram divulgadas, convocadas e at&eacute; certo ponto coordenadas pelas redes sociais da internet, mas no momento decisivo o ditador eg&iacute;pcio &quot;desligou&quot; a internet (e tamb&eacute;m os celulares) cortando o acesso de todos os usu&aacute;rios do pais. Assim, a rebeli&atilde;o teve que prosseguir usando o m&eacute;todo tradicional, ou seja, o bom e velho boca a boca, e conseguiu derrubar o ditador. O moral da hist&oacute;ria &eacute; que os ve&iacute;culos de comunica&ccedil;&atilde;o t&ecirc;m uma certa utilidade na luta revolucion&aacute;ria, mas para realizar uma revolu&ccedil;&atilde;o real (e libertar a pr&oacute;pria internet e outros recursos), nada substitui a consci&ecirc;ncia e a organiza&ccedil;&atilde;o dos trabalhadores nas ruas.<\/p>\n<p>\n\t&nbsp;<\/p>\n<h2>\n\t<a name=\"titulo3\"><\/a>PARA AL&Eacute;M DAS ENCHENTES:<\/h2>\n<h2>\n\tA L&Oacute;GICA CAPITALISTA E A DEGRADA&Ccedil;&Atilde;O DAS CIDADES<\/h2>\n<p>\n\t&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n<p>\n\t&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No in&iacute;cio de 2011 as fortes chuvas de ver&atilde;o provocaram deslizamentos que deixaram quase 800 mortos na regi&atilde;o serrana do estado do Rio de Janeiro. Trag&eacute;dias desse tipo t&ecirc;m sido recorrentes: em 2010 as chuvas tamb&eacute;m deixaram mortes e desabrigados em S&atilde;o Lu&iacute;s do Paraitinga, interior de S&atilde;o Paulo, e no bairro de Jardim Pantanal, zona leste da capital. Tamb&eacute;m houve enchentes no norte de Alagoas e sul de Pernambuco em meados de 2010, com os mesmos efeitos catastr&oacute;ficos. Os governos e a imprensa burguesa colocam a culpa no excesso de chuvas, fazem acusa&ccedil;&otilde;es a algumas autoridades e mobilizam a sensibilidade popular na solidariedade &agrave;s v&iacute;timas. Entretanto, as causas de fundo do problema das enchentes permanecem intocadas. As enchentes e outros problemas das grandes cidades n&atilde;o s&atilde;o produtos de causas puramente naturais, mas soc<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[99],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/273"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=273"}],"version-history":[{"count":15,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/273\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6467,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/273\/revisions\/6467"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=273"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=273"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=273"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}