{"id":276,"date":"2012-10-22T22:32:18","date_gmt":"2012-10-22T22:32:18","guid":{"rendered":"http:\/\/espacosocialista.org\/?q=node\/276"},"modified":"2013-02-01T19:03:15","modified_gmt":"2013-02-01T21:03:15","slug":"resolucoes-sobre-situacao-politica-internacional-2011","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/2012\/10\/resolucoes-sobre-situacao-politica-internacional-2011\/","title":{"rendered":"Resolu\u00e7\u00f5es sobre situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica internacional &#8211; 2011"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0Veja tamb\u00e9m o caderno em<a href=\"http:\/\/www.espacosocialista.org\/sites\/default\/files\/Resolues sobre situao poltica internacional 2011.pdf\"> vers\u00e3o PDF (190.73 KB)<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"center\"><strong>\u00a0\u201cO D\u00d3LAR EST\u00c1 NU\u201d<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"center\">\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"center\"><b>1) Pre\u00e2mbulo \u2013 O debate te\u00f3rico e pol\u00edtico sobre a crise<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"center\">\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"center\"><b>1.1) A crise e a ideologia burguesa<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O debate sobre a crise econ\u00f4mica \u00e9 uma das mais importantes quest\u00f5es te\u00f3ricas e pol\u00edticas a opor os representantes ideol\u00f3gicos da burguesia aos dos trabalhadores e tamb\u00e9m as diversas correntes pol\u00edticas no interior do movimento oper\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os ide\u00f3logos da burguesia, naturalmente, tendem a subestimar ou mesmo negar a ocorr\u00eancia da crise econ\u00f4mica, e at\u00e9 a sua pr\u00f3pria possibilidade, justamente porque que precisam evitar que a classe trabalhadora se defenda contra ela. Entrou para o folclore da hist\u00f3ria do pensamento econ\u00f4mico a teoria da chamada \u201cnova economia\u201d da d\u00e9cada de 1990 nos Estados Unidos, quando a especula\u00e7\u00e3o com a\u00e7\u00f5es de empresas de internet (empresas \u201cponto.com\u201d), que nem sequer geravam lucro, mas eram artificialmente cotadas em valores estratosf\u00e9ricos que inflavam os \u00edndices das bolsas, alimentou a propaganda de uma suposta \u201cnova fase do capitalismo\u201d. Na \u201cnova economia\u201d dos ide\u00f3logos burgueses, \u201cn\u00e3o haveria mais crises\u201d e o crescimento seria permanente. A \u201cnova economia\u201d desmoronou em 2000 com a quebra da bolsa virtual Nasdaq, quando se revelou\u00a0 que se tratava de nada mais do que mais uma face da boa e velha especula\u00e7\u00e3o capitalista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De qualquer forma, \u00e9 parte do trabalho pol\u00edtico permanente da burguesia para gerir o capitalismo e se equilibrar entre as suas contradi\u00e7\u00f5es o esfor\u00e7o ideol\u00f3gico de negar a exist\u00eancia das crises, ou negar a sua gravidade, ou diminuir a sua import\u00e2ncia, ou ainda, dizer que \u201cforam superadas\u201d antes que de fato tenham sido. Esse esfor\u00e7o \u00e9 fundamental para impedir que se levantem questionamentos \u00e0 continuidade do capitalismo e se postulem alternativas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos momentos de crise aberta, por outro lado, os ide\u00f3logos burgueses tratam de mistific\u00e1-la como uma esp\u00e9cie de \u201cfen\u00f4meno da natureza\u201d, imprevis\u00edvel e incontrol\u00e1vel, que afeta a todos indistintamente e que exige a \u201ccolabora\u00e7\u00e3o de todos\u201d para que possa ser superada. Esse apelo hip\u00f3crita \u00e0 solidariedade coletiva, que jamais \u00e9 invocado quando se trata de dividir os ganhos da fase de crescimento, na verdade expressa a necessidade da burguesia de impor sobre os trabalhadores as conseq\u00fc\u00eancias da crise e evitar que se revoltem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ou seja, depois de negar enquanto pode a ocorr\u00eancia, gravidade ou a persist\u00eancia das crises, a burguesia precisa, quando a crise \u00e9 evidente, criar p\u00e2nico e confus\u00e3o para for\u00e7ar os trabalhadores a aceitar as medidas que permitir\u00e3o a ela, como classe dominante, sair da crise, jogando o preju\u00edzo sobre os trabalhadores. A ideologia burguesa circula assim de uma teoria a outra alternadamente, negando-se reiteradamente a si mesma, por conta de sua impossibilidade de admitir as contradi\u00e7\u00f5es do capitalismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"center\"><b>1.2) A teoria marxista da crise<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No interior do movimento oper\u00e1rio, por sua vez, as crises econ\u00f4micas s\u00e3o acompanhadas com especial aten\u00e7\u00e3o, pois a teoria da transi\u00e7\u00e3o ao socialismo pressup\u00f5e a crise como um dos passos necess\u00e1rios de tal transi\u00e7\u00e3o. Desde o estabelecimento de uma economia pol\u00edtica dos trabalhadores por Marx e Engels no s\u00e9culo XIX, o estudo cient\u00edfico das contradi\u00e7\u00f5es do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista aponta para a ocorr\u00eancia das crises como uma decorr\u00eancia l\u00f3gica do agravamento de tais contradi\u00e7\u00f5es. As crises n\u00e3o s\u00e3o um evento extraordin\u00e1rio e anormal do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista, mas a pr\u00f3pria express\u00e3o da sua disfuncionalidade constitutiva. Marx distingue duas dimens\u00f5es da crise do capital, a estrutural e a c\u00edclica. A crise estrutural do capital, correspondente ao seu esgotamento hist\u00f3rico como modo de produ\u00e7\u00e3o, tem como fundamento a lei tendencial da queda da taxa de lucro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A lei mais importante da economia pol\u00edtica, segundo Marx, \u00e9 a da queda tendencial da taxa de lucro. A taxa m\u00e9dia de lucro tende historicamente a cair na medida em que aumenta a participa\u00e7\u00e3o do capital constante (m\u00e1quinas e meios de produ\u00e7\u00e3o) em rela\u00e7\u00e3o ao capital vari\u00e1vel (for\u00e7a de trabalho humano assalariada, fonte de mais-valia) na composi\u00e7\u00e3o do valor de cada produto. Esse aumento da propor\u00e7\u00e3o do capital constante em rela\u00e7\u00e3o ao vari\u00e1vel acontece inevitavelmente na medida em que cada capitalista individualmente, for\u00e7ado pela concorr\u00eancia, investe em mais tecnologia (meios de produ\u00e7\u00e3o) para produzir mais mercadorias com o emprego de menos for\u00e7a de trabalho humano, de modo que possa vender essas mercadorias abaixo do pre\u00e7o m\u00e9dio do mercado e realizar um lucro maior do que os seus concorrentes. A difus\u00e3o gradual das novas tecnologias e t\u00e9cnicas produtivas num determinado ramo de atividade e posteriormente no conjunto da economia, por for\u00e7a da concorr\u00eancia, e o conseq\u00fcente aumento gradual da capacidade produtiva social geral, fazem com que eventualmente aumente a massa de lucro, mas diminua a taxa de lucro no conjunto da economia capitalista, j\u00e1 que, gradualmente, o emprego da for\u00e7a de trabalho humana diminui proporcionalmente em rela\u00e7\u00e3o ao emprego de tecnologia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A taxa de lucro, no limite, tende a cair a zero, situa\u00e7\u00e3o em que o capital teria negado a si mesmo, o que historicamente ser\u00e1 levado a fazer, por for\u00e7a de suas pr\u00f3prias determina\u00e7\u00f5es. A concorr\u00eancia entre os diversos capitalistas individuais por fatias maiores de lucro individual reduz a taxa geral de lucro, trabalhando contra o capital tomado como um conjunto. Essa lei tendencial da queda da taxa de lucro opera historicamente mediada por uma s\u00e9rie de contra-tend\u00eancias, tais como: o aumento da explora\u00e7\u00e3o do trabalho, a diminui\u00e7\u00e3o dos sal\u00e1rios abaixo do seu valor (custo de subsist\u00eancia do trabalhador), o barateamento dos componentes do capital constante, a superpopula\u00e7\u00e3o relativa (incorpora\u00e7\u00e3o de novas fontes de for\u00e7a de trabalho humano \u00e0 economia capitalista) e a expans\u00e3o do com\u00e9rcio mundial, fatores estes j\u00e1 descritos por Marx, e que se complexificaram nos s\u00e9culos XX e XXI.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 As crises peri\u00f3dicas correspondem aos momentos em que os capitais menos produtivos, que n\u00e3o conseguem realizar a mais-valia dentro da taxa m\u00e9dia de lucro, estando portando batidos na concorr\u00eancia, precisam ser destru\u00eddos enquanto capital. Por destrui\u00e7\u00e3o de capital entende-se a sua desativa\u00e7\u00e3o e desvaloriza\u00e7\u00e3o, a desintegra\u00e7\u00e3o de massas de valor adicionadas a mercadorias tornadas invend\u00e1veis, condenadas a permanecer paralisadas nos estoques, bem como o fechamento de f\u00e1bricas, instala\u00e7\u00f5es, etc. Dentro da l\u00f3gica do capital, essas for\u00e7as produtivas s\u00f3 podem ser postas em movimento enquanto capital, ou seja, enquanto valor que se auto-valoriza, que se auto-adiciona um mais-valor no processo de realiza\u00e7\u00e3o e acumula\u00e7\u00e3o. Caso contr\u00e1rio, caso n\u00e3o se realizem enquanto capital e produzam lucro, devem ser destru\u00eddas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As empresas capitalistas, fra\u00e7\u00f5es individuais do capital total, s\u00f3 podem continuar existindo nessa l\u00f3gica se puderem realizar com lucro o investimento nelas contido, caso contr\u00e1rio devem falir, fechar, sendo compradas por empresas maiores, de modo que fatias do capital que as compunha devem tornar-se inativas, sendo descartadas, entregues \u00e0 decomposi\u00e7\u00e3o f\u00edsica. F\u00e1bricas, instala\u00e7\u00f5es, mat\u00e9rias-primas, estoques de mercadoria, devem ficar paralisados, deixados \u00e0 corros\u00e3o, ferrugem, putrefa\u00e7\u00e3o, a despeito das necessidades humanas que poderiam ser atendidas pelo seu emprego. Tal \u00e9 a lei f\u00e9rrea e irracional da propriedade privada capitalista dos meios de produ\u00e7\u00e3o. Em casos extremos, a destrui\u00e7\u00e3o de capital tamb\u00e9m pode tomar a forma de destrui\u00e7\u00e3o f\u00edsica, como acontece nas guerras mundiais, que \u201climpam\u201d o caminho para uma retomada da acumula\u00e7\u00e3o capitalista. Realizada a destrui\u00e7\u00e3o, o capital pode retomar o processo de acumula\u00e7\u00e3o devidamente \u201csaneado\u201d, mantendo apenas as fra\u00e7\u00f5es do capital capazes de operar nas novas condi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para que se tenha uma id\u00e9ia do que significam essas novas condi\u00e7\u00f5es de competi\u00e7\u00e3o, a taxa de lucro das 500 maiores corpora\u00e7\u00f5es do mundo listadas pela revista Fortune caiu de 7,15% entre 1960 e 1969 para 5,3% entre 1980 e 1990, para 2,29% entre 1990 e 1999 e para apenas 1,32% entre 2000 e 2002, na pen\u00faltima crise peri\u00f3dica. Essa queda da taxa de lucro poupa apenas as maiores empresas, que t\u00eam condi\u00e7\u00f5es de investir devido ao volume do capital que controlam. Com isso aumenta a concentra\u00e7\u00e3o de capital, com a forma\u00e7\u00e3o de grandes conglomerados, grandes monop\u00f3lios, com poderes e interesses globais. Essas mega-empresas, cada vez menores em n\u00famero e maiores em poder, exercem um controle cada vez maior sobre os Estados nacionais, precipitando as guerras imperialistas como ve\u00edculo para destruir concorrentes, ocupar territ\u00f3rios perif\u00e9ricos e manter sua expans\u00e3o. Tal \u00e9 a l\u00f3gica do capitalismo em sua \u00e9poca imperialista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A mundializa\u00e7\u00e3o do capital adicionou ainda mais complexidade a esse cen\u00e1rio, pois a interliga\u00e7\u00e3o dos interesses capitalistas ao mesmo tempo exige e impede a solu\u00e7\u00e3o das suas rivalidades por meio da guerra aberta entre as pot\u00eancias, que hoje est\u00e3o armadas de arsenais nucleares, com capacidade de destrui\u00e7\u00e3o m\u00fatua assegurada. N\u00e3o se trata de que a guerra entre grandes Estados e pot\u00eancias imperialistas esteja totalmente descartada, mas a sua possibilidade se torna mais remota. Em lugar disso, tornam-se mais freq\u00fcentes as guerras imperialistas contra pa\u00edses dominados e perif\u00e9ricos, guerras civis, etc. A \u201csolu\u00e7\u00e3o\u201d mais comum aplicada pela burguesia tem sido a guerra de classes, a guerra contra a classe trabalhadora, disfar\u00e7ada de guerras contra o \u201ceixo do mal\u201d, \u201cguerra ao terror\u201d, \u201cguerra \u00e0s drogas\u201d, interven\u00e7\u00f5es \u201chumanit\u00e1rias\u201d, miss\u00f5es \u201cde paz\u201d, golpes de Estado, bem como, no interior de cada pa\u00eds, rico ou pobre, a xenofobia e persegui\u00e7\u00e3o aos imigrantes, o racismo, o anti-islamismo, a criminaliza\u00e7\u00e3o da pobreza, a criminaliza\u00e7\u00e3o dos movimentos sociais, o recrudescimento da repress\u00e3o, o neofascismo, etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"center\"><b>1.3) Crises peri\u00f3dicas e crise estrutural do capital<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na superf\u00edcie dos fen\u00f4menos, as crises peri\u00f3dicas aparecem para os capitalistas como um excesso de mercadorias que n\u00e3o encontram comprador. Surge por parte dos ide\u00f3logos burgueses e do senso comum a suposi\u00e7\u00e3o de que a crise teria solu\u00e7\u00e3o por meio de incentivos ao consumo, como o cr\u00e9dito, o consumo de Estado (desde os gastos sociais, obras de infra-estrutura, at\u00e9 gastos improdutivos, como armamento, guerras, etc.) ou mesmo o aumento de sal\u00e1rios. Sobre essa ilus\u00e3o se edificou toda uma escola de teoria econ\u00f4mica vulgar, que vai desde Sismondi no in\u00edcio do XIX at\u00e9 Keynes no s\u00e9culo XX (e seus ep\u00edgonos no XXI), apregoando a possibilidade da regula\u00e7\u00e3o da economia capitalista como panac\u00e9ia capaz de deter as crises (at\u00e9 mesmo alguns \u201cmarxistas\u201d adotaram essa teoria). As tentativas de administra\u00e7\u00e3o das crises peri\u00f3dicas por meio da regula\u00e7\u00e3o estatal n\u00e3o fazem mais do que retardar o seu impacto, cuja manifesta\u00e7\u00e3o aberta seria a destrui\u00e7\u00e3o pura e simples de capital, a qual, em determinadas circunst\u00e2ncias hist\u00f3ricas e pol\u00edticas, pode mostrar-se impratic\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A sucess\u00e3o das crises peri\u00f3dicas e de suas tentativas de regula\u00e7\u00e3o\/administra\u00e7\u00e3o n\u00e3o se op\u00f5e ao processo hist\u00f3rico de aprofundamento da crise estrutural do capital. S\u00e3o antes a sua configura\u00e7\u00e3o e manifesta\u00e7\u00e3o concreta. A queda da taxa de lucro, como determina\u00e7\u00e3o abstrata geral da l\u00f3gica inerentemente defeituosa do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista e de sua crise estrutural, se materializa concretamente sob a forma de crises peri\u00f3dicas cada vez mais agudas. Em outras palavras, cada crise peri\u00f3dica revela de forma mais n\u00edtida a manifesta\u00e7\u00e3o da crise estrutural.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A crise estrutural como determina\u00e7\u00e3o geral de uma dada situa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica se concretiza no fato de que as contra-tend\u00eancias capazes de impedir a queda da taxa de lucro deixam de funcionar adequadamente, de modo que o capital passa a requerer suportes cada vez mais artificiais e prec\u00e1rios para sustentar o processo de acumula\u00e7\u00e3o. Essa mudan\u00e7a de qualidade se localiza em um momento hist\u00f3rico preciso, o in\u00edcio da d\u00e9cada de 1970, quando uma s\u00e9rie de eventos assinalaram a passagem para um novo padr\u00e3o de acumula\u00e7\u00e3o capitalista, mais inst\u00e1vel e conflitivo do que o das tr\u00eas d\u00e9cadas precedentes, as \u00faltimas em que o capitalismo p\u00f4de apresentar um crescimento significativo da economia mundial como um todo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre os eventos que assinalaram a passagem para o per\u00edodo hist\u00f3rico de crise estrutural do capital e determinaram as fei\u00e7\u00f5es do novo padr\u00e3o de acumula\u00e7\u00e3o est\u00e3o a quebra do padr\u00e3o ouro, a crise do petr\u00f3leo, a revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, o desemprego estrutural, a degrada\u00e7\u00e3o ambiental, a desregulamenta\u00e7\u00e3o financeira, a explos\u00e3o da especula\u00e7\u00e3o e do endividamento em n\u00edveis sem precedentes, a desagrega\u00e7\u00e3o da ordem geopol\u00edtica dos p\u00f3s-guerra, a queda dos Estados burocr\u00e1ticos (URSS e leste europeu), a mundializa\u00e7\u00e3o do capital, a instabilidade pol\u00edtica e a guerra, o neoliberalismo e a ofensiva pol\u00edtica e ideol\u00f3gica contra as conquistas dos trabalhadores e a alternativa socialista. A cada crise peri\u00f3dica desde o in\u00edcio dos anos 1970 (crise do petr\u00f3leo e da \u201cestagfla\u00e7\u00e3o\u201d de 1973 a 1975, alta dos juros e crise da d\u00edvida em 1980-82, quebra da bolsa de NY em 1987, crise imobili\u00e1ria no Jap\u00e3o em 1990 e das poupan\u00e7as nos Estados Unidos em 1991, crise asi\u00e1tica de 1997-98, quebra da Nasdaq e atentados de 11\/09\/01), todos esses fen\u00f4menos se tornam mais transparentes e mais incontrol\u00e1veis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"center\"><b>1.4) As controv\u00e9rsias no movimento oper\u00e1rio<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A interpreta\u00e7\u00e3o do significado da crise estrutural e de suas manifesta\u00e7\u00f5es peri\u00f3dicas, como dissemos, \u00e9 objeto de um debate tamb\u00e9m no interior do movimento oper\u00e1rio. Uma das interpreta\u00e7\u00f5es equivocadas, que na verdade \u00e9 a mais comum, marcada pelo objetivismo, raciocina como se a simples explos\u00e3o da crise fosse por si s\u00f3 suficiente para colocar a classe trabalhadora no limiar da derrubada revolucion\u00e1ria do capitalismo. Essa interpreta\u00e7\u00e3o ignora grosseiramente a aus\u00eancia e a debilidade do fator subjetivo, ou seja, de uma inten\u00e7\u00e3o consciente e organizada de derrubar o capitalismo por parte dos trabalhadores, previamente \u00e0 crise, que pudesse se materializar sob a forma de uma ofensiva pela tomada do poder no momento da crise.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na aus\u00eancia desse sujeito coletivo revolucion\u00e1rio, que s\u00f3 pode ser a classe trabalhadora organizada, muitas organiza\u00e7\u00f5es que reproduzem tal interpreta\u00e7\u00e3o objetivista antep\u00f5em o seu pr\u00f3prio discurso \u201crevolucion\u00e1rio\u201d como substituto fict\u00edcio da for\u00e7a social inexistente, imaginando que esse discurso lan\u00e7ado ao vento ser\u00e1 por si s\u00f3 capaz de fazer despertar no interior da classe, da noite para o dia, a consci\u00eancia da situa\u00e7\u00e3o objetiva de crise e da necessidade e possibilidade de derrubar o capitalismo. Substitui-se o trabalho de base, de organiza\u00e7\u00e3o e de prepara\u00e7\u00e3o para a disputa do poder e para a constru\u00e7\u00e3o de uma alternativa socialista por uma ret\u00f3rica \u201crevolucion\u00e1ria\u201d completamente descolada da experi\u00eancia real da classe. Mascara-se ainda a pr\u00f3pria impot\u00eancia em realizar esse trabalho preparat\u00f3rio com acusa\u00e7\u00f5es de \u201ccentrismo\u201d e \u201ccapitula\u00e7\u00e3o\u201d \u00e0s outras correntes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outra interpreta\u00e7\u00e3o consiste em negar a pr\u00f3pria realidade da crise, afirmando que, com crise ou sem crise o capitalismo sempre se reconstitui e reconfigura sua domina\u00e7\u00e3o. A expectativa da crise por parte de setores do movimento revolucion\u00e1rio n\u00e3o passaria de \u201cmilenarismo\u201d ou \u201cmessianismo\u201d, ocultando a incapacidade dos \u201carautos do apocalipse\u201d de lan\u00e7ar um chamado \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o com a esperan\u00e7a de que a revolu\u00e7\u00e3o \u201ccaia do c\u00e9u\u201d na forma de uma crise. As afirma\u00e7\u00f5es de que \u201ch\u00e1 uma grave crise econ\u00f4mica em andamento\u201d, de que a crise \u00e9 estrutural e de que \u201c a burguesia n\u00e3o pode resolver a crise, apenas jog\u00e1-la para frente\u201d, s\u00e3o tomadas como simples misticismo, como \u201cdesculpa esfarrapada\u201d para a incapacidade de dizer concretamente quando a crise se tornar\u00e1 insuportavelmente destrutiva e colocar\u00e1 na ordem do dia a derrubada do sistema. Assim, o movimento revolucion\u00e1rio n\u00e3o deveria se preocupar com as crises, ou nem sequer falar nelas ou se dar ao trabalho de estud\u00e1-las, pois bastaria chamar o trabalhadores para tomar o poder, em qualquer momento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ambas as interpreta\u00e7\u00f5es s\u00e3o evidentemente unilaterais. A recorr\u00eancia das crises n\u00e3o oferece por si s\u00f3 a garantia de que o capitalismo vai ser derrubado. A burguesia sempre pode encontrar formas de administrar a crise, mesmo que isso signifique aprofundar caracter\u00edsticas destrutivas do sistema, como as guerras, a degrada\u00e7\u00e3o ambiental, o desemprego, a mis\u00e9ria, a viol\u00eancia, o fascismo, etc. A rigor, n\u00e3o h\u00e1 um limite al\u00e9m do qual \u201ca crise se tornar\u00e1 insuportavelmente destrutiva\u201d, pois a burguesia pode sempre bancar a imposi\u00e7\u00e3o de uma barb\u00e1rie cada vez mais violenta sobre os trabalhadores, e o far\u00e1, desde que n\u00e3o seja desafiada por um projeto social alternativo, a ser constru\u00eddo pela a\u00e7\u00e3o organizada e consciente da classe trabalhadora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aos marxistas revolucion\u00e1rios, por outro lado, empenhados em construir esse projeto junto \u00e0 classe, cabe a tarefa de entender cientificamente os processos de crise, as idas e vindas dos ciclos peri\u00f3dicos, o momento espec\u00edfico da crise estrutural em que nos encontramos, os recursos pol\u00edticos de que a burguesia se utiliza para administrar a crise em cada momento, e as correspondentes respostas pol\u00edticas que a classe precisa desenvolver para enfrentar a ofensiva do capital. Faz muita diferen\u00e7a portanto identificar se estamos na fase de crise aguda, ou de ataques aos trabalhadores para iniciar a recupera\u00e7\u00e3o, ou de crescimento da economia rumo ao auge de um novo ciclo, pois disso depende o tipo de pol\u00edtica que se deve levar ao movimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"center\"><b>1.5) Sobre crise estrutural e crise c\u00edclica<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um \u00faltimo aspecto que \u00e9 importante ressaltar \u00e9 a diferen\u00e7a entre crise estrutural e crise final do capitalismo. A crise estrutural, na defini\u00e7\u00e3o de M\u00e9szar\u00f3s, corresponde a todo um per\u00edodo hist\u00f3rico, dentro do qual se sucedem oscila\u00e7\u00f5es de crescimento e queda, mas no qual prevalece a tend\u00eancia geral de queda. A import\u00e2ncia do conceito est\u00e1 em sinalizar a mudan\u00e7a de qualidade que ocorre nesse per\u00edodo hist\u00f3rico, quando o capitalismo precisa recorrer a mecanismos cada vez mais artificiais para superar suas crises c\u00edclicas, tais como a financeiriza\u00e7\u00e3o e o endividamento. Al\u00e9m disso, no per\u00edodo hist\u00f3rico de crise estrutural, as crises c\u00edclicas s\u00e3o cada vez mais violentas, mais profundas e mais globais, e a recupera\u00e7\u00e3o \u00e9 cada vez mais lenta e de menor alcance.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A vig\u00eancia da crise estrutural n\u00e3o elimina portanto a periodicidade das crises, mas apenas as situa num contexto em que a tend\u00eancia geral de queda prevalece sobre a tend\u00eancia de crescimento. Dentro dessa tend\u00eancia geral de queda, continuam acontecendo momentos de crescimento limitados no tempo e no espa\u00e7o, ou seja, por per\u00edodos curtos e circunscritos a alguns pa\u00edses, que destoam significativamente da m\u00e9dia mundial. Al\u00e9m disso, os mecanismos aos quais se recorre para disparar num novo momento de crescimento s\u00e3o cada vez mais artificiais (como os j\u00e1 citados da financeiriza\u00e7\u00e3o e o endividamento) e prec\u00e1rios (como a guerra), e\u00a0 provocam efeitos cumulativos que ser\u00e3o as causas das crises futuras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A crise estrutural, portanto, n\u00e3o anula a vig\u00eancia dos ciclos peri\u00f3dicos, mas assinala a tend\u00eancia geral dentro da qual os ciclos se localizam. Tamb\u00e9m \u00e9 um processo que n\u00e3o se confunde com a crise final do capitalismo, pois se trata de um fen\u00f4meno de longo alcance, que se estende por todo um longo per\u00edodo hist\u00f3rico, que pode at\u00e9 ser atravessado por convuls\u00f5es muito violentas, mas que se caracteriza por uma lenta marcha em dire\u00e7\u00e3o ao decl\u00ednio. Quanto mais se acentua esse decl\u00ednio, maior \u00e9 o acirramento da luta de classes, com a burguesia lan\u00e7ando m\u00e3o de m\u00e9todos cada vez mais agressivos para administrar o sistema, o que por sua vez for\u00e7a a classe trabalhadora a se colocar em luta. Essa luta ter\u00e1 que ser cada vez mais radical, ou seja, apontar para uma alternativa social global, pois do contr\u00e1rio, a burguesia seguir\u00e1 afundando o mundo em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 barb\u00e1rie.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"center\"><b>2) Conseq\u00fc\u00eancias da crise de 2008<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"center\"><b>2.1) A amplitude da crise societal<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A crise na esfera da economia detonada a partir de 2008 foi uma das mais violentas j\u00e1 experimentadas pelo capitalismo, pelo seu car\u00e1ter mais plenamente mundializado, pelo tamanho do seu impacto, pelas dificuldades em administr\u00e1-la e pela forma como a sua explos\u00e3o demonstrou o grau de artificialidade e fraudul\u00eancia embutido nos procedimentos especulativos que vinham sendo o motor do crescimento capitalista das \u00faltimas d\u00e9cadas. E essa crise na esfera da economia foi tamb\u00e9m uma esp\u00e9cie de epicentro para uma s\u00e9rie de outros fen\u00f4menos cuja converg\u00eancia assinalou a vig\u00eancia de uma verdadeira crise societal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Essa crise econ\u00f4mica exp\u00f4s a fal\u00eancia de um sistema que acabava de demonstrar a sua inviabilidade numa s\u00e9rie de outras esferas. Um painel da ONU reconheceu a rela\u00e7\u00e3o entre a a\u00e7\u00e3o destrutiva das atuais formas de produ\u00e7\u00e3o e a degrada\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es ambientais do planeta; os pre\u00e7os do petr\u00f3leo atingiram picos hist\u00f3ricos, anunciando a aproxima\u00e7\u00e3o dos limites temporais da matriz energ\u00e9tica baseada em combust\u00edveis f\u00f3sseis; os pre\u00e7os dos alimentos subiram a ponto de provocar uma \u201cepidemia\u201d de fome nos pa\u00edses mais pobres, num tal grau que explodiram revoltas populares em cerca de 30 pa\u00edses; processos esses que se somaram ao impasse das invas\u00f5es imperialistas no Oriente M\u00e9dio, incapazes de impor o projeto de domina\u00e7\u00e3o nos moldes do que havia sido originalmente planejado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0A converg\u00eancia de todos esses fen\u00f4menos no intervalo de alguns meses nos autoriza a caracterizar o processo como uma crise societal, com o significado de uma crise que nos obriga a repensar uma alternativa social n\u00e3o apenas no plano da economia, mas que ter\u00e1 de levar em conta a necessidade da reconstitui\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es ambientais, da mudan\u00e7a da matriz energ\u00e9tica, da reformula\u00e7\u00e3o dos padr\u00f5es de consumo, al\u00e9m de v\u00e1rias outras quest\u00f5es sociais, ideol\u00f3gicas, humanas. O c\u00e2ncer capitalista em fase de met\u00e1stase contamina todos os organismos da vida planet\u00e1ria, e requer um tratamento muito mais completo e abrangente para ser extirpado. As alternativas a serem apresentadas precisam conter uma dimens\u00e3o mais totalizante, que coordene e d\u00ea sentido para a reconstru\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es sociais de alto a baixo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto a classe trabalhadora n\u00e3o apresenta sua alternativa, a burguesia segue administrando a crise ao seu modo. Nenhum dos sintomas da crise societal foi resolvido. Nenhuma medida pr\u00e1tica com qualquer efeito palp\u00e1vel foi tomada para lidar com a cole\u00e7\u00e3o de problemas dos quais a humanidade se tornou mundialmente mais consciente nestes \u00faltimos anos. Mesmo porque, nenhum desses problemas pode ser enfrentado sem contestar a l\u00f3gica do lucro capitalista. E foram justamente a tentativa de recuperar os lucros da burguesia e preservar a sua domina\u00e7\u00e3o de classe as\u00a0 \u00fanicas medidas de peso adotadas em face da crise.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"center\"><b>2.2) O processo de sa\u00edda das crises<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As crises econ\u00f4micas s\u00e3o uma realidade constante, ou, como disse Marx, \u201cn\u00e3o existe crise permanente, existem crises peri\u00f3dicas em perman\u00eancia\u201d. Mas isso n\u00e3o significa que todas as crises sejam iguais. Cada crise peri\u00f3dica espec\u00edfica tem como causa precisamente os instrumentos que foram usados pela burguesia para contornar a crise anterior. A administra\u00e7\u00e3o das crises n\u00e3o \u00e9 um processo que se desenrola na esfera da economia pura, mesmo porque n\u00e3o existe economia pura e sim economia pol\u00edtica, que ali\u00e1s era o nome dessa disciplina no s\u00e9culo XIX, antes que ela deixasse de ser cient\u00edfica e se tornasse puramente apolog\u00e9tica como \u00e9 hoje. Esse processo de administra\u00e7\u00e3o das crises depende da correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as da luta de classes, ou seja, da capacidade da burguesia de impor sobre os trabalhadores os custos da crise, da destrui\u00e7\u00e3o de capital, necess\u00e1ria para que se reinicie a acumula\u00e7\u00e3o. Toda crise deixa para tr\u00e1s um rastro de desemprego, aumento da explora\u00e7\u00e3o, queda dos sal\u00e1rios, benef\u00edcios e direitos, degrada\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de vida, aumento da mis\u00e9ria em todas as suas manifesta\u00e7\u00f5es, convuls\u00f5es sociais e pol\u00edticas, guerras, etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 sempre preciso esmagar a resist\u00eancia dos trabalhadores em determinado pa\u00eds ou conjunto de pa\u00edses, por meio de algum instrumento pol\u00edtico-estatal, que no limite podem ser guerras, guerras civis, contra-revolu\u00e7\u00f5es, golpes de Estado, (contra)reformas anti-trabalhistas, anti-sindicais, anti-populares, fascistiza\u00e7\u00e3o social, etc. Exemplos da crescente belicosidade do capital se multiplicam no per\u00edodo recente: massacre das FARC na Col\u00f4mbia, massacre dos Tigres do Tamil no Sri Lanka, massacre dos manifestantes da oposi\u00e7\u00e3o na Tail\u00e2ndia, golpe em Honduras, tentativa de golpe no Equador, brutal repress\u00e3o aos protestos anti-G20 no Canad\u00e1, etc. Outros sintomas da crescente agressividade da burguesia s\u00e3o a reorganiza\u00e7\u00e3o da ultra-direita (o movimento do \u201cTea Party\u201d nos Estados Unidos), a aplica\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas abertamente xen\u00f3fobas (expuls\u00e3o de ciganos romenos pelo governo franc\u00eas por ordem direta de Sarkozy) e o surgimento de express\u00f5es ideol\u00f3gicas de car\u00e1ter fascista em altos c\u00edrculos do Estados (o livro de Thilo Sarrazin, alto funcion\u00e1rio do Banco Central alem\u00e3o e membro do SPD, que pregou abertamente a expuls\u00e3o de imigrantes).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 nesses momentos de agudiza\u00e7\u00e3o da luta de classes, quando a burguesia realiza uma ofensiva pol\u00edtica contra os trabalhadores, que se mostra com maior urg\u00eancia a necessidade de uma alternativa pol\u00edtica prolet\u00e1ria socialista revolucion\u00e1ria capaz de passar da resist\u00eancia aos ataques para uma ofensiva pela tomada do poder e pela constru\u00e7\u00e3o do socialismo. O caso da Argentina, maior v\u00edtima da crise de 2001, quando o povo mobilizado foi capaz de derrubar os dirigentes do Estado burgu\u00eas, mas n\u00e3o construiu uma alternativa de poder que rumasse para a transi\u00e7\u00e3o ao socialismo, ilustra dramaticamente a necessidade premente da constru\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e ideol\u00f3gica dessa alternativa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sem um projeto socialista a ser impulsionado pela classe trabalhadora, a ordem capitalista se reconstitui, por mais dram\u00e1tica que seja a crise. A Argentina voltou \u00e0 \u201cnormalidade\u201d, com sua economia voltando a crescer, mas com grandes parcelas da sua popula\u00e7\u00e3o vivendo na mis\u00e9ria absoluta, na pobreza, no desemprego e na superexplora\u00e7\u00e3o. Quanto maior e mais intensa uma crise, maior a possibilidade de que novas \u201cArgentinas\u201d se multipliquem pelo mundo. A crise de 2008-2009 est\u00e1 passando da fase \u201cecon\u00f4mica\u201d para a \u201cpol\u00edtica\u201d, o momento em que os preju\u00edzos est\u00e3o sendo socializados. A burguesia realiza neste momento a complicada opera\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de fazer os trabalhadores aceitarem a \u201cinevitabilidade\u201d das conseq\u00fc\u00eancias da crise.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"center\"><b>2.3) As respostas do Estado<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde os primeiros solu\u00e7os da crise, em meados de 2008, a dimens\u00e3o dos pacotes de ajuda do Estado para salvar os neg\u00f3cios da burguesia s\u00f3 fez crescer. 100, 200, 500, 700 bilh\u00f5es de d\u00f3lares, as quantias foram se tornando cada vez mais astron\u00f4micas. Um dinheiro que ningu\u00e9m desconfiava que existia, de repente se materializou para salvar o capital da fal\u00eancia. Bancos, seguradoras, financeiras foram semi-estatizados, mantidos vivos como \u201czumbis\u201d, com montanhas de t\u00edtulos podres nos seus cofres. O resultado dessa opera\u00e7\u00f5es \u00e9 que v\u00e1rios Estados capitalistas se tornaram eles pr\u00f3prios \u201czumbis\u201d, prisioneiros de or\u00e7amentos explosivamente deficit\u00e1rios. O total do rombo que isso deixou no or\u00e7amento dos principais Estados capitalistas foi calculado pelo FMI em US$ 9,2 trilh\u00f5es, mais US$ 1,6 trilh\u00e3o dos pa\u00edses perif\u00e9ricos. Entretanto, esses mais de US$ 10 trilh\u00f5es est\u00e3o longe de ser suficientes. Os pacotes de ajuda atuaram na superf\u00edcie do problema, no \u00e2mbito da chamada \u201cliquidez\u201d, ou seja, disponibilidade de dinheiro para o cr\u00e9dito e a continuidade dos neg\u00f3cios. Na verdade, o verdadeiro problema est\u00e1 na insolv\u00eancia, ou seja, na impossibilidade de pagamento dos cr\u00e9ditos em circula\u00e7\u00e3o, uma vez que correspondem a expectativas virtuais de uma riqueza que jamais ser\u00e1 gerada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os cr\u00e9ditos impag\u00e1veis conhecidos como \u201cativos t\u00f3xicos\u201d continuam t\u00e3o corrosivos como antes, com a diferen\u00e7a de que foram transferidos para a conta do Estado. E nem sequer o problema de liquidez foi resolvido, pois os bancos e institui\u00e7\u00f5es financeiras n\u00e3o usaram o dinheiro do governo para voltar a emprestar, mas para pagar suas pr\u00f3prias d\u00edvidas e distribuir b\u00f4nus milion\u00e1rios para seus executivos. O cr\u00e9dito n\u00e3o voltou a circular como antes e a economia mundial continuou em marcha lenta. O Estado capitalista despejou trilh\u00f5es de d\u00f3lares nas corpora\u00e7\u00f5es financeiras, evitando assim a destrui\u00e7\u00e3o total e desorganizada do capital fict\u00edcio em seu poder. Foi esse socorro providencial do Estado que impediu a implos\u00e3o do sistema no primeiro momento. Entretanto, repetimos, isto est\u00e1 longe de ser suficiente, pois a quantidade de capital fict\u00edcio a ser \u201cdigerido\u201d excede qualquer par\u00e2metro racional de c\u00e1lculo. As pr\u00f3prias institui\u00e7\u00f5es da burguesia, como o BIS (Bank of International Settlements, ou \u201cBanco Central dos Bancos Centrais\u201d) e o FMI divergem sobre a medida do volume de t\u00edtulos em negocia\u00e7\u00e3o nos mercados financeiros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As \u00faltimas d\u00e9cadas assistiram a uma multiplica\u00e7\u00e3o explosiva da quantidade e variedade de instrumentos financeiros \u201csofisticados\u201d, por meio dos quais um papel que equivale a uma promessa de pagamento (hipoteca, direitos sobre cr\u00e9ditos ao consumidor, empr\u00e9stimos automobil\u00edsticos, cr\u00e9dito estudantil, cart\u00f5es de cr\u00e9dito, etc.) passa a ser vendido por valores muito maiores do que o cr\u00e9dito que lhes deu origem. Tudo o que os compradores de tais pap\u00e9is precisam fazer \u00e9 encontrar outros compradores que repassem esses pap\u00e9is para frente. Ningu\u00e9m questiona a confiabilidade dos cr\u00e9ditos na origem dos t\u00edtulos, pois para isso existem as ag\u00eancias de classifica\u00e7\u00e3o de risco, como Moody&#8217;s, Fitch, Standard &amp; Poor&#8217;s, que atribuem a esses pap\u00e9is o certificado de AAA, equivalente ao dos t\u00edtulos do tesouro estadunindense; ou ainda, as seguradoras, como a AIG, que vendem prote\u00e7\u00e3o contra o risco de inadimpl\u00eancia. Os pap\u00e9is s\u00e3o vendidos e revendidos, e a pr\u00f3pria continuidade indefinida desse movimento alimenta a certeza da continuidade dos lucros dos seus operadores, o que por sua vez aumenta o valor nominal dos pap\u00e9is, e assim sucessivamente. At\u00e9 que, em algum rinc\u00e3o do interior dos Estados Unidos, alguns trabalhadores n\u00e3o consigam mais pagar suas hipotecas&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Revela-se ent\u00e3o toda a fragilidade do castelo de cartas especulativo. Os t\u00edtulos e pap\u00e9is especulativos em circula\u00e7\u00e3o no mercado financeiro globalizado t\u00eam um valor nominal estimado em algo por volta de US$ 600 trilh\u00f5es, o equivalente a 10 vezes o PIB mundial. A economia capitalista est\u00e1 funcionando com base em um cheque sem fundo 10 vezes maior do que o saldo da conta, o que significa que esse cheque n\u00e3o pode ser descontado, tem que ser trocado por um outro papel, e assim sucessivamente, pois a sua liquida\u00e7\u00e3o teria o poder de destruir a economia capitalista tanto quanto os arsenais nucleares s\u00e3o suficientes destruir a vida no planeta v\u00e1rias vezes. O valor do socorro estatal ao mercado financeiro, estimado em cerca de US$ 10 trilh\u00f5es, corresponde a uma fra\u00e7\u00e3o \u00ednfima desse capital fict\u00edcio em circula\u00e7\u00e3o, de modo que deu apenas um f\u00f4lego para que os pap\u00e9is fossem rolados no curto e m\u00e9dio prazo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com um grau de desfa\u00e7atez que beira o deboche, os especuladores do mercado financeiro voltaram a inflar os \u00edndices das bolsas de valores com opera\u00e7\u00f5es fraudulentas lastreadas em pap\u00e9is de valor ainda mais duvidoso do que aqueles que provocaram a crise. Esse fen\u00f4meno, a alta dos \u00edndices das bolsas, a partir de meados de 2009 e ao longo de 2010, foi trombeteado aos quatro ventos como a \u201crecupera\u00e7\u00e3o da economia\u201d. E para adicionar um toque de ultraje ao deboche, os dirigentes das institui\u00e7\u00f5es financeiras que capitanearam a criminalidade generalizada na gesta\u00e7\u00e3o da crise foram recompensados com b\u00f4nus milion\u00e1rios. Os lucros auferidos pela burguesia j\u00e1 voltaram aos n\u00edveis pr\u00e9-crise, conforme atestam as estat\u00edsticas em v\u00e1rios pa\u00edses. Ao mesmo tempo, milh\u00f5es de trabalhadores do mundo inteiro foram arremessados no desemprego e na mis\u00e9ria na esteira da crise, que agora se diz que foi \u201csuperada\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre 2008 e 2009 a taxa de desemprego m\u00e9dia nos pa\u00edses da OCDE saltou de 5,6% para 8,3%. Estat\u00edsticas da ONU calculam em 250 milh\u00f5es o n\u00famero de desempregados, 1 bilh\u00e3o de pessoas enfrentando a fome aberta, e mais 2 bilh\u00f5es de subnutridos e mal-nutridos, ou seja, extremamente pobres. O fato de que a implos\u00e3o do sistema tenha sido evitada num primeiro momento e as bolsas tenham voltado a subir permitiu que a burguesia pudesse comemorar a suposta \u201csupera\u00e7\u00e3o da crise\u201d e anunciar a \u201crecupera\u00e7\u00e3o da economia\u201d, discurso adotado unanimemente pela imprensa burguesa mundial, desconsiderando completamente a deteriora\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de vida da maioria da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entretanto, restou ao Estado, comit\u00ea gestor dos neg\u00f3cios conjuntos da burguesia, a tarefa de gerir o rombo deixado por mais esse cheque sem fundo emitido para reativar a economia mundial. Para que os neg\u00f3cios conjuntos da burguesia continuem funcionando, o Estado n\u00e3o pode ser t\u00e3o irrespons\u00e1vel quanto seus patr\u00f5es, pois precisa se preocupar com quest\u00f5es concretas, como a preserva\u00e7\u00e3o do valor da moeda em que tais neg\u00f3cios s\u00e3o feitos, e como manter o controle sobre a classe trabalhadora, cujo sangue tais neg\u00f3cios extraem diariamente. Assim, depois que o inc\u00eandio financeiro foi controlado com uma enxurrada de d\u00f3lares, o Estado precisar\u00e1 arrecadar esses d\u00f3lares para reencher o tanque, mas sem precipitar a revolta popular.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Governos do mundo inteiro lan\u00e7am as chamadas medidas de \u201causteridade\u201d, ou seja, cortes de gastos e aumento de impostos para recuperar o or\u00e7amento p\u00fablico amea\u00e7ado por d\u00edvidas crescentes (a n\u00e3o ser em pa\u00edses que passam por elei\u00e7\u00f5es, como o Brasil, pois tais medidas em nada ajudam o candidato da situa\u00e7\u00e3o). Numa das maiores opera\u00e7\u00f5es de mistifica\u00e7\u00e3o j\u00e1 vistas na hist\u00f3ria, subitamente \u201cdescobre-se\u201d que o or\u00e7amento p\u00fablico apresenta rombos gigantescos (a d\u00edvida p\u00fablica dos Estados Unidos passou de 40% para 100% do PIB; a da Espanha de 30% para 80%; a do Jap\u00e3o est\u00e1 em 250%, e a da Inglaterra em 420%), como se isso n\u00e3o tivesse nenhuma rela\u00e7\u00e3o com os trilh\u00f5es gastos para salvar os bancos. O vil\u00e3o da d\u00edvida p\u00fablica, dizem os pol\u00edticos, ministros da fazenda, presidentes de bancos centrais e demais autoridades, devidamente respaldados na m\u00eddia por \u201crespeit\u00e1veis\u201d acad\u00eamicos e analistas, s\u00e3o os trabalhadores. Os gastos com as aposentadorias, os benef\u00edcios sociais, o seguro-desemprego, a sa\u00fade p\u00fablica, a educa\u00e7\u00e3o, etc., e em especial os sal\u00e1rios dos servidores, s\u00e3o declarados culpados pela d\u00edvida p\u00fablica. Legitima-se assim a ofensiva mundial dos Estados capitalistas para aumentar impostos, aumentar o tempo para as aposentadorias, cortar benef\u00edcios, retirar direitos e rebaixar sal\u00e1rios dos servidores, sucatear a sa\u00fade e a educa\u00e7\u00e3o p\u00fablicas, etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"center\"><b>2.4) A gesta\u00e7\u00e3o de uma ofensiva mundial contra os trabalhadores<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto os paliativos do Estado surtem efeito no curto e m\u00e9dio prazo no sentido de reativar a economia, a burguesia desencadeia um processo de reestrutura\u00e7\u00e3o de longo alcance visando recuperar a taxa de lucro, por meio da diminui\u00e7\u00e3o dos gastos com a for\u00e7a de trabalho, ou seja, sal\u00e1rios e benef\u00edcios. Esse processo de equaliza\u00e7\u00e3o das taxas diferenciais de explora\u00e7\u00e3o tem como limite o nivelamento das condi\u00e7\u00f5es de vida da classe trabalhadora mundial pelo patamar mais baixo. Os trabalhadores da China, que est\u00e3o entre os mais mal pagos do mundo, recebem em m\u00e9dia por hora de trabalho um valor quatro vezes menor que os do Brasil, e trinta vezes menor que os dos Estados Unidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso significa que, no limite, os trabalhadores dos Estados Unidos, e tamb\u00e9m os da Europa e Jap\u00e3o, ser\u00e3o for\u00e7ados a aceitar sal\u00e1rios e condi\u00e7\u00f5es de vida cada vez mais pr\u00f3ximas \u00e0quelas hoje vigentes nos pa\u00edses dominados. At\u00e9 que se chegue ao \u201cn\u00edvel chin\u00eas de explora\u00e7\u00e3o\u201d, ainda h\u00e1 muita \u201cgordura para queimar\u201d em termos de conquistas sociais dos trabalhadores a serem destru\u00eddas pela burguesia. Dada essa situa\u00e7\u00e3o, a equa\u00e7\u00e3o decisiva da situa\u00e7\u00e3o mundial consiste em determinar se a burguesia conseguir\u00e1 realizar essa gigantesca opera\u00e7\u00e3o de nivelamento, e mais precisamente, em qual velocidade. O ritmo dos ataques \u00e9 importante, pois o Estado precisa lidar com as conseq\u00fc\u00eancias objetivas do endividamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m da montanha da d\u00edvida p\u00fablica, composta de t\u00edtulos que se acumulam \u201cad infinitum\u201d, existe o d\u00e9ficit p\u00fablico, medido pela (in)capacidade de determinado Estado de saldar suas d\u00edvidas com vencimento dentro de determinado exerc\u00edcio fiscal, ou seja, dentro do per\u00edodo de um ano e de uma previs\u00e3o de or\u00e7amento a ser aprovada no parlamento. Se um determinado Estado n\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es de pagar seus compromissos que est\u00e3o vencendo num momento imediato, precisa tomar mais empr\u00e9stimos, cujos juros s\u00e3o t\u00e3o mais elevados quanto mais o mercado desconfia da possibilidade da insolv\u00eancia. Para pagar a d\u00edvida de hoje, faz-se empr\u00e9stimos com juros mais altos que criam uma d\u00edvida ainda maior para amanh\u00e3. \u00c9 assim que determinados pa\u00edses \u201cse enforcam\u201d em d\u00edvidas cada vez maiores e d\u00e9ficits or\u00e7ament\u00e1rios cada vez mais apertados. Quanto maior o d\u00e9ficit, maior a escala dos ataques a serem feitos aos trabalhadores, o que traz \u00e0 cena o outro lado da equa\u00e7\u00e3o, ou seja, a rea\u00e7\u00e3o do proletariado em defesa de suas condi\u00e7\u00f5es de vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em cada Estado nacional essas medidas de ataque aos trabalhadores ter\u00e3o velocidades diferentes, conforme a capacidade de resposta do proletariado e tamb\u00e9m a capacidade de iniciativa pol\u00edtica da burguesia de cada pa\u00eds. O alcance dessa iniciativa pol\u00edtica se determina tamb\u00e9m pela margem de manobra derivada da posi\u00e7\u00e3o relativa do pa\u00eds em quest\u00e3o na divis\u00e3o mundial do trabalho, pela qual se pode ser ou uma v\u00edtima ou um algoz, capaz de impor tamb\u00e9m aos demais pa\u00edses uma parte do custo do ajuste, fazendo-se valer das engrenagens da domina\u00e7\u00e3o imperialista mundial, como FMI, OMC, ONU, etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A primeira onda de lutas da classe trabalhadora contra a crise foi desencadeada no momento em que a recess\u00e3o estava em seu auge, na virada de 2008 para 2009, com a atividade econ\u00f4mica diminuindo rapidamente, o com\u00e9rcio mundial em retra\u00e7\u00e3o, a produ\u00e7\u00e3o em queda, as empresas fechando e os mercados financeiros em p\u00e2nico. Os pa\u00edses exportadores, como os da Am\u00e9rica Latina, experimentaram quedas enormes de suas vendas ao exterior. No \u00faltimo trimestre de 2008, M\u00e9xico, Brasil, Argentina e Chile apresentaram quedas de \u201010,3%, \u201013,6%, \u20108.3%, e \u20101,2% do PIB anualizado, respectivamente. A queda do com\u00e9rcio mundial atingiu 10% em 2009. O PIB da Europa teve queda de 4,1%. Naquele momento, v\u00e1rios setores do proletariado reagiram \u201cno susto\u201d, com algumas greves e inclusive a\u00e7\u00f5es radicais, como ocupa\u00e7\u00f5es de f\u00e1brica (Republic, em Chicago, nos Estados Unidos), greves prolongadas (portu\u00e1rios de Dublin, Irlanda), os seq\u00fcestros de patr\u00f5es (New Fabris, Michelin e Alpharretta, na Fran\u00e7a) ou mesmo defenestra\u00e7\u00f5es (China). Essa primeira rea\u00e7\u00e3o foi estancada pela conten\u00e7\u00e3o da crise, pelos pacotes dos governos, pelo isolamento das lutas e pela relativa estabiliza\u00e7\u00e3o geral.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conforme os lucros das empresas voltavam, o discurso de que a crise foi superada se tornou dominante. Uma lenta recupera\u00e7\u00e3o est\u00e1 em marcha desde meados de 2009, mas as conseq\u00fc\u00eancias da crise seguem se desenrolando. O custo exorbitante dos pacotes de ajuda dos governos, em termos de endividamento, est\u00e1 for\u00e7ando o Estado a lan\u00e7ar as chamadas medidas de austeridade, as quais, por sua vez, est\u00e3o detonando a segunda onda de resposta da classe trabalhadora contra a crise. Desta vez, a resposta \u00e9 muito mais massiva e organizada. As seis greves gerais que ocorreram em maio na Gr\u00e9cia, algumas com contornos semi-insurrecionais, foram o pren\u00fancio de lutas semelhantes em v\u00e1rios outros pa\u00edses.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"center\"><b>2.5) O prec\u00e1rio equil\u00edbrio das rela\u00e7\u00f5es internacionais<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A l\u00f3gica do capital \u00e9 a l\u00f3gica da sobreviv\u00eancia do mais forte. As fra\u00e7\u00f5es mais concentradas do capital precisam ser preservadas nos momentos de crise aguda, de modo que o sistema como um todo possa sobreviver, mesmo que isso signifique sacrificar as fra\u00e7\u00f5es menos poderosas. Essa l\u00f3gica \u00e9 v\u00e1lida tanto para a concorr\u00eancia entre as empresas como para as institui\u00e7\u00f5es que as representam e sustentam no plano pol\u00edtico, ou seja, os Estados nacionais. Isso significa que no plano das rela\u00e7\u00f5es internacionais a crise provoca novas disputas entre os Estados, reacende aquelas existentes e reabre rivalidades que pareciam ter sido enterradas pela hist\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse terreno nos deparamos com uma das contradi\u00e7\u00f5es inelimin\u00e1veis do sistema do capital, ou seja, a exist\u00eancia de in\u00fameros Estados nacionais e n\u00e3o apenas uma entidade pol\u00edtica totalizadora a coordenar as atividades do sistema, um \u201cEstado mundial\u201d do sistema do capital. Esses in\u00fameros Estados entram inevitavelmente em choque conforme precisam defender os interesses das suas respectivas burguesias nacionais. No curso da atual crise, os Estados nacionais ensaiaram para a plat\u00e9ia mundial um simulacro de coordena\u00e7\u00e3o conjunta para a conten\u00e7\u00e3o da crise econ\u00f4mica. As reuni\u00f5es do G20, essa esp\u00e9cie de \u201cInternacional capitalista\u201d, produziram declara\u00e7\u00f5es tranquilizadoras e fotos sorridentes dos chefes de Estado para acalmar os espectadores de telejornal do mundo inteiro, mas nos bastidores, para o p\u00fablico mais atento, desenrolaram-se por debaixo da mesa as caneladas e cotoveladas entre as maiores pot\u00eancias econ\u00f4micas e seus principais parceiros subdesenvolvidos. 17 pa\u00edses do G20 lan\u00e7aram medidas protecionistas uns contra os outros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O foco das disputas atuais est\u00e1 na guerra pela desvaloriza\u00e7\u00e3o das moedas nacionais. Cada Estado precisa baixar o c\u00e2mbio da sua moeda para favorecer os seus exportadores no mercado mundial, mas recebe a press\u00e3o dos pa\u00edses concorrentes para fazer exatamente o contr\u00e1rio, pois todos precisam exportar. A mais importante dessas disputas \u00e9 a que envolve Estados Unidos e China, cujo relacionamento constitui o eixo din\u00e2mico da economia mundial atual. Os Estados Unidos, mas tamb\u00e9m a Europa e o Jap\u00e3o, querem for\u00e7ar a China a elevar a cota\u00e7\u00e3o de sua moeda, mas a burocracia dirigente naquele pa\u00eds n\u00e3o est\u00e1 disposta a fazer essa concess\u00e3o, pelo menos n\u00e3o num ritmo nem de longe capaz de agradar \u00e0s burguesias imperialistas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As exporta\u00e7\u00f5es e importa\u00e7\u00f5es equivalem a 67% do PIB chin\u00eas, o que a coloca como uma das economias mais internacionalizadas do mundo (Brasil e Estados Unidos t\u00eam um \u00edndice de internacionaliza\u00e7\u00e3o de 26% e 25%, respectivamente). Ao mesmo tempo, a China precisa fazer com que sua economia continue crescendo anualmente a taxas pr\u00f3ximas dos 10%, pois do contr\u00e1rio n\u00e3o conseguir\u00e1 gerar emprego para dezenas de milh\u00f5es de jovens e imigrantes que ingressam na popula\u00e7\u00e3o economicamente ativa todos os anos. Por isso, \u00e9 absolutamente crucial para a China continuar exportando para os Estados Unidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os Estados Unidos, por sua vez, tem tentado reativar sua capacidade de concorrer com os maiores exportadores do mercado mundial, que s\u00e3o a China e a Alemanha, respondendo a press\u00f5es protecionistas internas de setores da sua burguesia. Entretanto, as exporta\u00e7\u00f5es estadunidenses n\u00e3o conseguem trazer para o pa\u00eds no volume necess\u00e1rio os d\u00f3lares necess\u00e1rios para fechar o d\u00e9ficit comercial e o d\u00e9ficit p\u00fablico (d\u00e9ficits g\u00eameos). Por isso, o pa\u00eds precisa dos d\u00f3lares acumulados por grandes exportadores, como China, Jap\u00e3o, R\u00fassia e Brasil, que compram os t\u00edtulos da d\u00edvida p\u00fablica estadunidense. \u00c9 a procura pelos t\u00edtulos do tesouro estadunidense (treasuries), considerados o investimento mais seguro do mundo, que sustenta o valor do d\u00f3lar. O tesouro estadunidense est\u00e1 acostumado a emitir t\u00edtulos com prazo de resgate de at\u00e9 30 anos, mas no curso da atual crise, foi for\u00e7ado a reduzir o prazo para meros 6 meses, dado o desespero pela obten\u00e7\u00e3o de recursos para fechar as contas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste momento, esses grandes exportadores est\u00e3o justamente buscando formas de reduzir a sua depend\u00eancia de tais t\u00edtulos como forma preferencial de constituir reservas, pois cresce a preocupa\u00e7\u00e3o com os d\u00e9ficits g\u00eameos dos Estados Unidos, e j\u00e1 se fala na possibilidade de inadimpl\u00eancia. Por outro lado, os temores de que os Estados Unidos n\u00e3o possam honrar suas d\u00edvidas n\u00e3o podem ser alardeados, e os movimentos de diversifica\u00e7\u00e3o das reservas n\u00e3o podem ser acelerados, pois justamente isso poderia desencadear a \u201cprofecia que se auto-realiza\u201d, ou seja, a corrida dos detentores de treasuries (grupo que inclui outras plataformas de exporta\u00e7\u00e3o de peso m\u00e9dio na economia mundial, como Cor\u00e9ia do Sul, Taiwan, Singapura, etc.) para vend\u00ea-los desordenadamente. Isso faria desabar o valor dos treasuries, e conseq\u00fcentemente, o valor do d\u00f3lar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em outras palavras, os Estados Unidos precisam continuar comprando exporta\u00e7\u00f5es chinesas, para que os chineses possam continuar acumulando d\u00f3lares, para que possam comprar t\u00edtulos do tesouro estadunidense, para que os Estados Unidos possam manter o valor do d\u00f3lar, para que seu governo, suas empresas e consumidores possam continuar se endividando, para que possam continuar comprando exporta\u00e7\u00f5es chinesas, e assim sucessivamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"center\"><b>2.6) Perspectivas da economia e papel dos BRICs<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A crise n\u00e3o foi resolvida, mas segue sendo administrada a partir do conjunto de pol\u00edticas adotadas pela burguesia, por seus Estados Nacionais e pelos organismos como o G-20, o FMI, etc., no sentido de garantir socorro, cr\u00e9dito barato, emiss\u00e3o de moeda dos EUA, renegocia\u00e7\u00e3o de d\u00edvidas, fus\u00f5es e aquisi\u00e7\u00f5es de empresas, etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar de alguns sinais de recupera\u00e7\u00e3o, n\u00e3o se pode ainda falar que a crise c\u00edclica aberta em 2008 j\u00e1 tenha sido resolvida, com a consolida\u00e7\u00e3o de um novo per\u00edodo de crescimento econ\u00f4mico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que \u00e9 certo \u00e9 que devem prosseguir e se aprofundar os ataques aos trabalhadores, particularmente os dos pa\u00edses centrais do capitalismo e no sentido de aumentar brutalmente os n\u00edveis de extra\u00e7\u00e3o de mais-valia sobre os trabalhadores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 a possibilidade tanto de uma reca\u00edda na crise, como tamb\u00e9m de um processo de lento crescimento nos pr\u00f3ximos dois anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O World Economic Outlook (doravante WEO), publica\u00e7\u00e3o quadrimestral do FMI que re\u00fane os dados da economia mundial e apresenta as previs\u00f5es em cima das quais a burguesia\u00a0 trabalha, aponta para um cen\u00e1rio de supera\u00e7\u00e3o muito lenta da crise, amea\u00e7ada por incertezas. Na sua edi\u00e7\u00e3o mais recente (novembro de 2010, de onde foram retirados os dados a seguir), o WEO aponta para alguns problemas que a economia capitalista ter\u00e1 que superar, e adianta assim, de certa forma, os ataques que a burguesia ter\u00e1 que fazer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O estudo indica que a economia mundial vem se recuperando gradualmente desde 2009 e assim deve continuar ao longo de 2011. Entretanto, a recupera\u00e7\u00e3o perdeu f\u00f4lego no final de 2010 e deve continuar em marcha lenta em 2011, devido ao fim do efeito dos pacotes extraordin\u00e1rios de est\u00edmulo lan\u00e7ados no auge da crise. Uma retomada do crescimento sustent\u00e1vel ainda depender\u00e1 do retorno \u00e0 \u201cnormalidade\u201d dos mercados financeiros (que est\u00e1 longe de acontecer devido \u00e0 montanha de ativos t\u00f3xicos de capital fict\u00edcio ainda a serem digeridos). Os estudos reunidos pela OCDE, pelo escrit\u00f3rio do or\u00e7amento do congresso estadunidense e\u00a0 pela comiss\u00e3o europ\u00e9ia indicam tamb\u00e9m uma queda na produ\u00e7\u00e3o e excesso de capacidade instalada. A previs\u00e3o do WEO \u00e9 de que o crescimento mundial seja de 4,2% em 2011, contra 4,8% em 2010, sendo 2,5% nos pa\u00edses avan\u00e7ados (nome que se d\u00e1 no WEO para os pa\u00edses imperialistas) e 6,25% nos pa\u00edses emergentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dos problemas apontados pelo WEO \u00e9 a queda do consumo, de longe o principal componente do PIB dos Estados Unidos. Os pre\u00e7os das resid\u00eancias ca\u00edram entre 25% e 30% nos \u00faltimos tr\u00eas anos. Se considerarmos que boa parte do \u00faltimo ciclo de crescimento esteve escorado em empr\u00e9stimos pessoais baseados no valor dos im\u00f3veis que eram dados como garantia, isso mostra o tamanho da queda que foi experimentada num dos fatores centrais para a retomada do ciclo econ\u00f4mico. Al\u00e9m disso, o desemprego se mant\u00e9m alt\u00edssimo para os padr\u00f5es dos Estados Unidos, com algo entre 9% e 10%, e o tempo m\u00e9dio de dura\u00e7\u00e3o do desemprego (cinco meses) \u00e9 o dobro da m\u00e9dia dos \u00faltimos 40 anos. Mundialmente, o desemprego afeta 210 milh\u00f5es de pessoas, um aumento de 30 milh\u00f5es desde 2007, sendo \u00be desse aumento nos pa\u00edses avan\u00e7ados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo o pr\u00f3prio FMI, os pa\u00edses emergentes (liderados pelos BRICs) t\u00eam poucas condi\u00e7\u00f5es de compensar a economia mundial pela queda do consumo nos pa\u00edses avan\u00e7ados, devido ao seu ainda muito baixo consumo interno (mesmo com o forte crescimento do mercado interno \u2013 que alcan\u00e7ou 13% somente na China em 2009). As taxas de poupan\u00e7a devem subir de 44% para 45% de 2010 a 2015 na \u00c1sia, sendo 2\/3 provenientes da China. Apesar do crescimento acima da m\u00e9dia das importa\u00e7\u00f5es nos \u00faltimos 15 anos, a China ainda responde por apenas 3% das importa\u00e7\u00f5es no mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A queda do PIB entre 2008 e 2009 foi estimada em 6%, mas a queda no com\u00e9rcio mundial foi de 30%. A diferen\u00e7a se explica pelo fato de que os bens de capital e bens de consumo dur\u00e1veis representam uma propor\u00e7\u00e3o maior do com\u00e9rcio mundial do que do PIB. Desde os n\u00edveis abissais de 2009 a 2010, o com\u00e9rcio mundial subiu 20%, o que ainda n\u00e3o significa o retorno ao volume pr\u00e9-crise. Mesmo considerando as economias que n\u00e3o atravessaram uma crise financeira aguda, o com\u00e9rcio exterior permanece 15% abaixo da tend\u00eancia do per\u00edodo 2001-2007.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre 2007 e 2009, o d\u00e9ficit or\u00e7ament\u00e1rio, d\u00edvida de curto prazo a ser rolada no interior de um determinado ano fiscal, aumentou de 1% para 9% nas economias avan\u00e7adas. No final de 2010, o total de d\u00edvida p\u00fablica (d\u00edvidas de curto e longo prazo) chegou a 100% do PIB, n\u00edvel mais alto em 50 anos. O documento ainda lembra que o envelhecimento da popula\u00e7\u00e3o pode criar problemas ainda maiores para as finan\u00e7as p\u00fablicas. Para bom entendedor, isso significa que a burguesia tentar\u00e1 reduzir as aposentadorias dos trabalhadores para \u201creequilibrar o or\u00e7amento\u201d, o que nos d\u00e1 uma id\u00e9ia do que ainda pode vir pela frente. Para 2011, a previs\u00e3o \u00e9 de que o d\u00e9ficit diminua 1,25% devido aos cortes de gastos e fim do desembolso de pacotes de est\u00edmulo. Para cada 1% de corte no or\u00e7amento, \u00e9 esperado 1% de queda na demanda dom\u00e9stica e 0,3% de aumento no desemprego, acrescentam os t\u00e9cnicos do FMI.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Embora tenham sofrido o impacto da crise em um primeiro momento, o conjunto de pa\u00edses conhecidos como BRICs, que inclui Brasil, R\u00fassia, \u00cdndia e China, bem como os demais pa\u00edses localizados na periferia logo em volta dos pa\u00edses centrais, conseguiram se sustentar e at\u00e9 mesmo crescer no interior da crise e ao mesmo tempo como um contraponto e atenuador da mesma em um curto prazo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso porque j\u00e1 representam n\u00edveis de extra\u00e7\u00e3o de mais-valia e de lucratividade muito superior aos pa\u00edses centrais. Representam por isso mesmo referenciais a serem atingidos pelos capitais em opera\u00e7\u00e3o nesses pa\u00edses.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os mercados gerados no interior desses pa\u00edses (BRICs) s\u00e3o subordinados ao fato de que se trata sobretudo de exportadores. Ao mesmo tempo, os mercados gerados no interior desses pa\u00edses n\u00e3o compensam os mercados destru\u00eddos no interior dos pa\u00edses centrais. Por isso, ao longo do tempo, \u00e0 medida em que a burguesia dos pa\u00edses centrais forem impondo n\u00edveis muito mais profundos de explora\u00e7\u00e3o dos trabalhadores nesses pa\u00edses, os mercados dos pa\u00edses centrais tendem a ser comprimidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Portanto, se num momento imediato, e ainda por algum tempo, o crescimento dos pa\u00edses ditos emergentes pode significar um contraponto aos pa\u00edses centrais no sentido de mediar e contrabalancear a crise nesses pa\u00edses, a longo prazo, tende n\u00e3o apenas a minar as bases de seu pr\u00f3prio crescimento (os mercados dos pa\u00edses centrais) como tamb\u00e9m a provocar e fazer se impor a queda da taxa de lucro e o contra\u00e7\u00e3o dos mercados em n\u00edvel mundial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"center\"><b>2.7) A administra\u00e7\u00e3o da crise e as disputas interburguesas<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As sete maiores economias do mundo, com o PIB medido pelo crit\u00e9rio de paridade de poder de compra, s\u00e3o pela ordem Estados Unidos, China, Jap\u00e3o, \u00cdndia, Alemanha, R\u00fassia e Brasil. Isso significa que os chamados BRICs deixaram para tr\u00e1s em termos de peso econ\u00f4mico velhas grandes pot\u00eancias como Inglaterra e Fran\u00e7a. Entretanto, na estrutura de poder geopol\u00edtico, os Estados Unidos e a Europa ainda controlam os principais organismos internacionais, como o Conselho de Seguran\u00e7a da ONU, Banco Mundial, FMI e OMC, mantendo a capacidade de ditar pol\u00edticas que privilegiam os seus interesses. O G20 foi montado como forma de compensar parcialmente os BRICs, aumentando sua participa\u00e7\u00e3o na tomada de decis\u00f5es, mas principalmente sua responsabilidade ao arcar com medidas que ajudem o capitalismo a sair da crise. Entretanto, enquanto pedem sacrif\u00edcios dos trabalhadores e dos povos do mundo inteiro, as burguesias imperialistas tratam de usar o Estado para preservar seus interesses particulares.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A contradi\u00e7\u00e3o entre a exist\u00eancia de um \u00fanico sistema capitalista mundial e diversos Estados capitalistas rivais se manifestou no fen\u00f4meno da chamada \u201cguerra cambial\u201d. O d\u00f3lar caiu 13% em rela\u00e7\u00e3o ao yen em 2010 e 18% em rela\u00e7\u00e3o ao euro entre junho e dezembro. A queda do d\u00f3lar se refletiu na valoriza\u00e7\u00e3o do ouro, que subiu 28% em 2010, indo para US$ 1.420 a on\u00e7a. A desvaloriza\u00e7\u00e3o do d\u00f3lar tamb\u00e9m se manifesta como alta do pre\u00e7o das commodities, como petr\u00f3leo, cobre, milho e outros alimentos. O FED anunciou no final de 2010 a impress\u00e3o de mais US$ 600 bilh\u00f5es, com o objetivo de desvalorizar ainda mais a moeda estadunidense.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A decis\u00e3o dos Estados Unidos foi duramente criticada pela China e Alemanha, os dois maiores exportadores do mundo, os quais, por sua vez, foram acusados por Obama de acumular super\u00e1vits comerciais de maneira \u201cdesleal\u201d, ou seja, mantendo suas moedas artificialmente desvalorizadas em rela\u00e7\u00e3o ao pre\u00e7o de mercado. Os \u00faltimos meses de 2010 presenciaram uma verdadeira guerra de desvaloriza\u00e7\u00f5es cambiais, com diversos pa\u00edses anunciando medidas para diminuir o valor de suas moedas e melhorar as exporta\u00e7\u00f5es, entre os quais v\u00e1rios exportadores importantes, com destaque para o gigante Jap\u00e3o, mas tamb\u00e9m os demais \u201ctigres asi\u00e1ticos\u201d, como Cor\u00e9ia do Sul, Taiwan, Tail\u00e2ndia e Singapura. Outros como o Brasil anunciaram medidas para conter a entrada de d\u00f3lares, impedir a valoriza\u00e7\u00e3o da moeda local e o perigo de infla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O efeito maior dessa \u201cguerra cambial\u201d \u00e9 a imposi\u00e7\u00e3o dos efeitos da crise pelos pa\u00edses mais fortes sobre os mais fracos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A visita do presidente chin\u00eas Hu Jintao aos Estados Unidos em janeiro de 2011 n\u00e3o serviu para diminuir as tens\u00f5es entre os dois pa\u00edses. Setores da m\u00eddia e do Congresso estadunidenses aproveitaram a visita para criticar a China abertamente por supostamente manipular sua moeda e desrespeitar os direitos humanos (o c\u00famulo da hipocrisia, j\u00e1 que os Estados Unidos fazem exatamente o mesmo em incont\u00e1veis opera\u00e7\u00f5es criminosas e terroristas pelo mundo, como acaba de revelar abundantemente o site Wikileaks). Pol\u00edticos e jornalistas, expressando os interesses da burguesia estadunidense, pressionam a administra\u00e7\u00e3o Obama para que classifique a China como \u201cmanipulador de c\u00e2mbio\u201d, o que autorizaria o governo a impor san\u00e7\u00f5es tribut\u00e1rias aos produtos chineses.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A China est\u00e1 se infiltrando no continente africano mediante acordos que visam garantir fornecimento de recursos estrat\u00e9gicos como petr\u00f3leo, min\u00e9rios e at\u00e9 mesmo alimentos. O com\u00e9rcio da China com a \u00c1frica subiu de US$ 10 bilh\u00f5es em 2001 para US$ 107 bilh\u00f5es em 2008. A penetra\u00e7\u00e3o chinesa na \u00c1frica n\u00e3o difere do padr\u00e3o estabelecido pelo imperialismo europeu no in\u00edcio do s\u00e9culo XX. Em Z\u00e2mbia, pa\u00eds em que 70% das exporta\u00e7\u00f5es prov\u00e9m da minera\u00e7\u00e3o, empresas chinesas tem sido envolvidas em esc\u00e2ndalos desde 2005, envolvendo mortes em desabamentos, p\u00e9ssimas condi\u00e7\u00f5es de trabalho, falta de \u00e1gua, jornadas abusivas e at\u00e9 tiros contra grevistas, em outubro de 2010.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os Estados Unidos t\u00eam pressionado o restante do imperialismo para conter o crescimento chin\u00eas, por dentro e por fora dos organismos da ONU. Essa press\u00e3o se d\u00e1 sob a forma de san\u00e7\u00f5es e puni\u00e7\u00f5es para pa\u00edses e empresas que se atrevem a negociar com pa\u00edses inimigos dos Estados Unidos, tais como o Ir\u00e3, listados como \u201cpatrocinadores do terrorismo\u201d. O Ir\u00e3 \u00e9 o maior fornecedor de petr\u00f3leo da China, que por sua vez \u00e9 o pa\u00eds cujo consumo de petr\u00f3leo mais cresce no mundo. A China consome 8,2 milh\u00f5es de barris por dia, quantidade que tem aumentado a uma m\u00e9dia de mais 500 mil barris por dia a cada ano, 50% do crescimento mundial do consumo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para estrangular o crescimento chin\u00eas e manter o pa\u00eds a r\u00e9deas curtas, os Estados Unidos querem bloquear parceria sino-iraniana, sob o pretexto de que o Ir\u00e3 busca desenvolver armas nucleares. O Ir\u00e3 possui um programa de uso de ur\u00e2nio para fins medicinais e de usinas nucleares para gera\u00e7\u00e3o de energia. O n\u00edvel de enriquecimento de ur\u00e2nio (processo t\u00e9cnico que permite o aproveitamento da radioatividade para produzir energia) requerido para essas atividades \u00e9 de 3% e 20%, respectivamente, limite atingido at\u00e9 agora pela tecnologia iraniana. O n\u00edvel de enriquecimento requerido para uso militar \u00e9 de 90%. O Ir\u00e3 est\u00e1 longe de atingir a capacidade t\u00e9cnica para tanto e submete suas instala\u00e7\u00f5es \u00e0 inspe\u00e7\u00e3o da Ag\u00eancia Internacional de Energia At\u00f4mica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto isso, Israel, protegido dos Estados Unidos, j\u00e1 det\u00e9m a tecnologia para produzir armas at\u00f4micas, recusa-se a assinar o Tratado de N\u00e3o-Prolifera\u00e7\u00e3o Nuclear (portanto, comportando-se como o verdadeiro Estado criminoso) e sabotou o projeto nuclear iraniano, assassinando os cientistas Ali-Mohammadi e Majid Shahriari, chefes do programa, e disparando v\u00edrus de computador contra as usinas daquele pa\u00eds.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"center\"><b>3) O centro da crise mundial: os Estados Unidos<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"center\"><b>3.1) A continuidade da crise e sua gest\u00e3o sob Obama<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na condi\u00e7\u00e3o de centro do sistema capitalista mundial, pa\u00eds em que o capital se encontra mais concentrado e desenvolvido, que possui a moeda de reserva mundial, as maiores corpora\u00e7\u00f5es do mundo, o maior poder econ\u00f4mico, pol\u00edtico, militar e cultural, os Estados Unidos est\u00e3o tamb\u00e9m no centro da crise e tamb\u00e9m na vanguarda das tend\u00eancias que v\u00e3o dominar o cen\u00e1rio mundial no pr\u00f3ximo per\u00edodo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A elei\u00e7\u00e3o de Obama, em fins de 2008, per\u00edodo de auge da crise, sinaliza o recurso da burguesia estadunidense ao \u00fanico instrumento capaz de aplicar as medidas necess\u00e1rias para administrar a crise, em face do desgaste interno e externo do grupo dirigente anterior liderado por Bush. Medidas como o resgate dos bancos e a reforma do sistema de sa\u00fade p\u00fablica s\u00f3 poderiam ser aplicadas por um dirigente que tivesse completo respaldo dos trabalhadores. Esse respaldo foi ideologicamente constru\u00eddo em torno do discurso da \u201cmudan\u00e7a\u201d, precisamente o \u00fanico em nome do qual poderia se desenvolver a continuidade do projeto da burguesia estadunidense.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A id\u00e9ia de mudan\u00e7a adv\u00e9m da condi\u00e7\u00e3o de Obama como negro, fato que tem um peso significativo num pa\u00eds extremamente racista como os Estados Unidos. Em nome da liberdade de express\u00e3o, a legisla\u00e7\u00e3o estadunidense tolera a veicula\u00e7\u00e3o de id\u00e9ias abertamente racistas, fascistas, neonazistas, e ultra-direitistas de toda esp\u00e9cie. Setores de ultra-direita podem pregar abertamente (em v\u00e1rios casos, mais do que pregar, esses grupos partem para as vias de fato, praticando assassinatos, torturas, agress\u00f5es, difama\u00e7\u00e3o, ass\u00e9dio) o \u00f3dio aos negros, latinos, imigrantes, \u00edndios, minorias, judeus, mu\u00e7ulmanos, homossexuais, militantes, etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O fen\u00f4meno de um pastor que amea\u00e7ou publicamente queimar um exemplar do Alcor\u00e3o no dia 11 de setembro n\u00e3o \u00e9 um caso isolado de dem\u00eancia, pois representa o pensamento de amplos estratos da popula\u00e7\u00e3o. N\u00e3o muitas semanas antes, um movimento intitulado \u201cTea Party\u201d (\u201cpartido do ch\u00e1\u201d, em portugu\u00eas \u2013 alus\u00e3o \u00e0 chamada \u201crevolta do ch\u00e1\u201d, em que colonos jogaram ch\u00e1 ao mar no porto de Boston para protestar contra os impostos ingleses, precipitando a luta pela independ\u00eancia dos Estados Unidos, em 1785) havia liderado uma marcha \u00e0 Washington (nos mesmos moldes da marcha liderada por Martin Luther King em 1968, no auge da luta pelos direitos civis dos negros), com mais de 100 mil pessoas, para defender a agenda t\u00edpica da ultra-direita (redu\u00e7\u00e3o dos impostos da burguesia e corte dos gastos sociais com os trabalhadores).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A organiza\u00e7\u00e3o da ultra-direita \u00e9 um sintoma evidente da agudiza\u00e7\u00e3o das contradi\u00e7\u00f5es de classe. Conforme avan\u00e7a a degrada\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de vida dos trabalhadores, na esteira da crise, a insatisfa\u00e7\u00e3o social latente ganha express\u00f5es irracionais no \u00f3dio e no fanatismo religioso, que germinam prolificamente em tais per\u00edodos, como germes num corpo em putrefa\u00e7\u00e3o. Oportunistas de todos os tipos, pol\u00edticos, religiosos, \u00e2ncoras de TV, radialistas, etc., exploram a revolta popular com as condi\u00e7\u00f5es sociais geradas pela crise e a ignor\u00e2ncia das suas verdadeiras causas para oferecer falsas solu\u00e7\u00f5es e falsos culpados, bodes expiat\u00f3rios nos quais se descarregam sob a forma de viol\u00eancia pol\u00edtica (e f\u00edsica) as frustra\u00e7\u00f5es e preconceitos longamente acumulados e ideologicamente cultivados. A classe trabalhadora se fragmenta e se dilacera em falsos conflitos, deixando de dirigir suas for\u00e7as contra a classe dominante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Precisamente essa \u00e9 a fun\u00e7\u00e3o de Obama como presidente. Na medida em que os trabalhadores dos setores mais explorados, os negros e os mais oprimidos em geral identificam Obama como \u201cum dos seus\u201d em fun\u00e7\u00e3o da identidade \u00e9tnica de negro, deixam de identific\u00e1-lo como o inimigo de classe que \u00e9 em fun\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica que aplica. O movimento oper\u00e1rio estadunidense se encontra paralisado, de um lado, pela \u201cpol\u00edtica da identidade\u201d, que desloca a quest\u00e3o de classe e coloca as reivindica\u00e7\u00f5es de reconhecimento e participa\u00e7\u00e3o enquanto \u201cminorias oprimidas\u201d no centro de seu programa. Essa \u00e9 a pol\u00edtica das entidades que (des)organizam o setor mais explorado do proletariado, os negros, latinos, imigrantes ilegais, etc., as quais ainda emprestam apoio incondicional ao Partido Democrata e a Obama. De outro lado, o movimento se paralisa pela criminosa capitula\u00e7\u00e3o das ultra-burocratizadas entidades sindicais que representam as principais categorias do proletariado industrial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um s\u00f3 exemplo ilustra o grau da trai\u00e7\u00e3o de classe a que chegaram os sindicalistas estadunidenses. Quando a GM, \u00edcone do capitalismo industrial, foi \u00e0 fal\u00eancia no in\u00edcio de 2009, o governo exigiu um \u201cplano de viabilidade\u201d que demonstrasse a capacidade da empresa de voltar a ser lucrativa, como condi\u00e7\u00e3o para liberar dinheiro p\u00fablico para recuperar a companhia. O principal \u00edtem desse plano era a redu\u00e7\u00e3o dos sal\u00e1rios e benef\u00edcios dos trabalhadores. Ao inv\u00e9s de defender seus associados, o UAW (United Auto Workers, sindicato dos trabalhadores das montadoras) pressionou nas assembl\u00e9ias pela aceita\u00e7\u00e3o da proposta da patronal, com tal afinco que foi premiado com a\u00e7\u00f5es da nova empresa assim \u201cviabilizada\u201d&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"center\"><b>3.2) Os trabalhadores estadunidenses e o custo da crise<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A derrota dos trabalhadores da GM abre as portas para ataques semelhantes em todas as demais categorias do proletariado. Sem organismos e dire\u00e7\u00f5es capazes de apresentar uma alternativa classista e socialista diante da crise e suas conseq\u00fc\u00eancias, os trabalhadores estadunidenses experimentaram uma forte queda nas suas condi\u00e7\u00f5es de vida. S\u00f3 em 2008 foram leiloadas 1 milh\u00e3o de resid\u00eancias nos Estados Unidos. A queda do valor dos im\u00f3veis e das a\u00e7\u00f5es em que investiam sua poupan\u00e7a provocou uma baixa de 20% nos rendimentos da classe trabalhadora estadunidense.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma reportagem especial do Wall Street Journal no in\u00edcio de outubro mostrou que os lucros das empresas estadunidenses no segundo trimestre de 2010 aumentaram 3,9% em rela\u00e7\u00e3o ao primeiro, e 26,5% em rela\u00e7\u00e3o ao mesmo per\u00edodo de 2009. Entretanto, o aumento dos lucros n\u00e3o decorreu de uma aumento da produ\u00e7\u00e3o e do consumo, mas do corte de custos. A recupera\u00e7\u00e3o em curso apresenta o cl\u00e1ssico saldo de todas as crises capitalistas, ou seja, o desemprego em massa e a queda nos sal\u00e1rios e condi\u00e7\u00f5es de vida dos trabalhadores. Isso fica ainda mais evidente quando se observam os n\u00fameros das 500 maiores empresas, agrupadas no \u00edndice Standard &amp; Poor\u2019s. O lucro das 500 maiores empresas foi de US$ 189 bilh\u00f5es, um aumento de 38% em compara\u00e7\u00e3o a 2009, um valor 10% maior do que o segundo trimestre de 2008, antes da crise, mesmo que a arrecada\u00e7\u00e3o bruta das empresas tenha ca\u00eddo 6%. O aumento dos lucros com queda na renda das vendas s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel por meio de um violento e maci\u00e7o corte de custos. Esse colossal ajuste de custos elevou a taxa de desemprego aberto para 9,7% nos Estados Unidos, desconsiderando o desemprego oculto (desalento, trabalho parcial, informal, etc.).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa porcentagem representa um n\u00famero de 14,8 milh\u00f5es de desempregados. A m\u00e9dia de dura\u00e7\u00e3o do desemprego \u00e9 de 33 semanas. Essas estat\u00edsticas, que n\u00e3o incluem o desalento (trabalhadores que deixaram de procurar emprego) e o trabalho parcial, s\u00e3o as maiores desde a Grande Depress\u00e3o. As estat\u00edsticas n\u00e3o conseguem esconder um aumento explosivo da mis\u00e9ria. A previs\u00e3o do Supplemental Nutrition Assistance Program, que fornece \u201cfood stamps\u201d, uma esp\u00e9cie de \u201cvale-refei\u00e7\u00e3o\u201d ou \u201cbolsa-aux\u00edlio\u201d para os extremamente pobres, \u00e9 de que 43 milh\u00f5es de estadunidenses recorram ao programa em 2011. O n\u00famero de fam\u00edlias recebendo \u201cfood stamps\u201d (ajuda alimentar do governo) aumentou em 2 milh\u00f5es em 2009, para um total de 11,7 milh\u00f5es. Ou seja, o pa\u00eds mais rico do mundo, exemplo do \u201csucesso\u201d do capitalismo, n\u00e3o consegue alimentar 1\/7 da sua popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De acordo com os dados do censo oficial do governo estadunidense publicados em setembro de 2010, a renda m\u00e9dia anual das fam\u00edlias caiu quase 3%, de US$ 51,726 para US$50,221 entre 2008 e 2009. O volume das d\u00edvidas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 renda anual das fam\u00edlias estadunidenses passou de uma m\u00e9dia de 60% em 1975 para 130% em 2007, ou seja, mais do que dobrou. O n\u00famero de resid\u00eancias desocupadas subiu para 12,6%. A popula\u00e7\u00e3o com renda abaixo da linha de pobreza, estabelecida como sendo US$ 10.977 ao ano, aumentou de 5,7% para 6,3%. O n\u00famero de crian\u00e7as vivendo na pobreza aumentou de 16% para 21% entre 2000 e 2010.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na regi\u00e3o do meio-oeste, outrora o mais importante centro industrial dos Estados Unidos (ou do mundo) a queda da renda familiar m\u00e9dia foi ainda maior: de US$ 54,600 em 1999 para US$ 48,400 in 2009. Nesta regi\u00e3o, o n\u00famero de pobres aumentou 45% em Ohio em rela\u00e7\u00e3o a 1999, e 60% em Indiana no mesmo per\u00edodo. A taxa de pobreza em Detroit (antiga capital da ind\u00fastria automobil\u00edstica) \u00e9 de 37% da popula\u00e7\u00e3o, e de 51% para os menores de 18. 34 estados tiveram queda na renda familiar e 31 estados tiveram aumento na porcentagem de pobres na popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3,69 milh\u00f5es de pessoas foram listadas no programa Medicaid, a assist\u00eancia m\u00e9dica para os pobres em 2009, elevando o total para 48 milh\u00f5es. Esse expressivo aumento \u00e9 resultado do desemprego, j\u00e1 que nos Estados Unidos a assist\u00eancia m\u00e9dica \u00e9 parte dos benef\u00edcios pagos aos trabalhadores pelo empregador. Com a crise econ\u00f4mica, n\u00e3o s\u00f3 aumentou o desemprego, como muitas empresas cortaram benef\u00edcios dos seus trabalhadores. O reembolso pago aos m\u00e9dicos pelo Medicaid \u00e9 t\u00e3o baixo que muitos m\u00e9dicos est\u00e3o se recusando a atender pacientes do programa. O financiamento federal ser\u00e1 cortado em US$ 100 bilh\u00f5es at\u00e9 junho de 2011, e 48 dos 50 estados anunciaram cortes de gastos, ao passo que o n\u00famero de pessoas atendidas deve aumentar em 6% at\u00e9 o pr\u00f3ximo ano. A previs\u00e3o de aumento dos gastos \u00e9 de 25%. V\u00e1rios estados anunciaram cortes em servi\u00e7os dependentes do programa tais como tratamentos odontol\u00f3gicos, exames b\u00e1sicos, terapias, atendimento pessoal e tratamentos de longo prazo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As conseq\u00fc\u00eancias destrutivas da crise econ\u00f4mica rapidamente se fazem sentir em outros setores da sociedade. Os Estados Unidos possuem 100,000 institui\u00e7\u00f5es voltadas para atividades culturais com fins n\u00e3o-lucrativos, desde orquestras sinf\u00f4nicas, museus, teatros, at\u00e9 os pequenos grupos locais. O financiamento federal para essas institui\u00e7\u00f5es caiu de US$ 416 milh\u00f5es em 1978 para US$ 155 milh\u00f5es em 2009, de acordo com o National Endowment for the Arts. Diminu\u00edram tanto o financiamento p\u00fablico quanto as doa\u00e7\u00f5es privadas. O resultado \u00e9 uma queda geral na qualidade das produ\u00e7\u00f5es art\u00edsticas, dominadas pelo \u201cmainstream\u201d da ind\u00fastria cultural, e a queda no n\u00edvel cultural geral. E \u00e9 claro, uma queda no padr\u00e3o de vida dos artistas, que se juntam ao restante da classe trabalhadora sob um denominador comum de ataques e de empobrecimento, mas tamb\u00e9m de lutas. A Orquestra Sinf\u00f4nica de Detroit entrou em greve em outubro de 2010 contra os cortes de 33% nos seus sal\u00e1rios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto o grosso da popula\u00e7\u00e3o empobrece, os super-ricos ficam ainda mais ricos. Os 20% mais ricos (renda de mais de US$ 100 mil ao ano) absorveram 50% da renda gerada no pa\u00eds em 2009, enquanto que 44 milh\u00f5es de pessoas vivendo abaixo da linha de pobreza recebem apenas 3,4%. Trata-se da maior desigualdade social entre os pa\u00edses desenvolvidos.\u00a0 A fortuna total dos 400 cidad\u00e3os estadunidenses mais ricos listados anualmente pela revista Forbes chega US$ 1,37 trilh\u00e3o, o que equivale ao PIB da \u00cdndia (popula\u00e7\u00e3o de 1,2 bilh\u00e3o de habitantes), ou ainda, a mais de dez vezes do d\u00e9ficit or\u00e7ament\u00e1rio dos 50 Estados (US$ 121 bilh\u00f5es) projetado para 2011. O \u00fanico a estar presente na lista desde a primeira edi\u00e7\u00e3o, em 1982, o especulador Warren Buffett, viu sua fortuna se multiplicar em 180 vezes nesse per\u00edodo. Esse salto demonstra o car\u00e1ter que tem tomado as atividades da burguesia estadunidense, cada vez mais rentista e predat\u00f3ria. O \u00fanico representante do setor industrial \u201ccl\u00e1ssico\u201d na lista, William Ford, teve seu lugar assegurado por conta do sucesso da Ford em cortar sal\u00e1rios e benef\u00edcios dos seus trabalhadores. A taxa de lucro das institui\u00e7\u00f5es financeiras subiu de 15% em 1981 para 35% em 2006, o que explica o enriquecimento explosivo dos especuladores. A taxa de lucro das corpora\u00e7\u00f5es n\u00e3o-financeiras dos Estados Unidos caiu de 19% em 1947 para 10% em 2007. Acompanhando o decl\u00ednio da locomotiva estadunidense, a taxa de crescimento do PIB mundial baixou de 5% ano ano em 1970 para 2,5 em 1998.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A d\u00edvida dos Estados Unidos \u00e9 a maior do mundo em volume e agudez. Para n\u00e3o entrar em morat\u00f3ria o governo estadunidense precisa cortar US$ 1,3 trilh\u00e3o em gastos sociais, detonando uma verdadeira hecatombe social. A crise atual j\u00e1 custou 25 vezes mais do que a Grande Depress\u00e3o, ou US$ 23.108 por pessoa contra US$ 821.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"center\"><b>3.3) Avan\u00e7o da desigualdade social nos Estados Unidos<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No discurso presidencial de abertura dos trabalhos do Congresso, conhecido como \u201cestado da Uni\u00e3o\u201d, em fins de janeiro de 2011, Obama comemorou o fim da recess\u00e3o, apontando como prova os lucros das corpora\u00e7\u00f5es e a alta das a\u00e7\u00f5es desde 2009. Ao mesmo tempo, anunciou um plano para tornar a economia estadunidense mais \u201ccompetitiva\u201d, e nomeou como assessores de alto escal\u00e3o ex-executivos do banco JPMorgan e da General Eletric. Para bom entendedor, esse discurso significa que a classe trabalhadora estadunidense ser\u00e1 for\u00e7ada a arcar com uma queda ainda maior nas suas condi\u00e7\u00f5es de vida para que a economia do pa\u00eds se torne mais \u201ccompetitiva\u201d em rela\u00e7\u00e3o a plataformas de exporta\u00e7\u00e3o como a China. Obama tamb\u00e9m anunciou cortes de US$ 200 bilh\u00f5es em impostos para as grandes corpora\u00e7\u00f5es em 2011.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As grandes empresas lucraram U$ 1,7 trilh\u00e3o em 2010, quantia maior do que no auge do ciclo de crescimento anterior \u00e0 crise, em 2006. Com uma taxa de desemprego que se mant\u00e9m em em 9,8%, elevad\u00edssima para os padr\u00f5es estadunidenses, a alta dos lucros se explica majoritariamente por meio do aumento da explora\u00e7\u00e3o dos que n\u00e3o foram demitidos. A produtividade dos trabalhadores tem aumentado 4,2% a mais por ano desde 2008. Ou seja, os Estados Unidos cresceram quase o mesmo que h\u00e1 tr\u00eas anos, mas com 7,5 milh\u00f5es de trabalhadores empregados a menos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As 500 maiores empresas listadas pela Standard &amp; Poor\u2019s anunciaram crescimento m\u00e9dio de 36% nos lucros no final de 2010 em rela\u00e7\u00e3o a 2009. Esses lucros resultam em sua maioria de uma maior explora\u00e7\u00e3o dos trabalhadores, pois o faturamento cresceu apenas 6%.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apenas 10% da popula\u00e7\u00e3o estadunidense possui 90% das a\u00e7\u00f5es em negocia\u00e7\u00e3o nas bolsas, sendo metade concentrada nas m\u00e3os do 1% mais rico. \u00c9 para essa classe social que Obama governa. Os 5.300 indiv\u00edduos mais ricos receberam uma renda de US$ 57,6 bilh\u00f5es em 2009, US$ 8 bilh\u00f5es a mais do que a renda dos 24 milh\u00f5es mais pobres, ou 10% da renda nacional, segundo dados da SSA (Social Security Administration). O 1% mais rico da popula\u00e7\u00e3o amealhou 2\/3 do crescimento da renda pessoal no pa\u00eds. O relat\u00f3rio tamb\u00e9m sugere que o desemprego est\u00e1 subestimado, pois a SSA calculou em 4,5 milh\u00f5es o n\u00famero de pessoas que perderam emprego em 2008 e 2009, contra 2,6 do Labor Department.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A taxa de desemprego nos Estados Unidos se mant\u00e9m acima de 9% pelo terceiro ano seguido, o per\u00edodo mais longo desde o in\u00edcio das estat\u00edsticas em 1948. A quantidade de despejos (por hipotecas n\u00e3o pagas) cresceu em 2010 em rela\u00e7\u00e3o ao ano anterior em mais de 100 grandes cidades, a uma taxa v\u00e1rias vezes maior do que a m\u00e9dia do mercado. O longo per\u00edodo de desocupa\u00e7\u00e3o faz com que os trabalhadores percam direito ao seguro-desemprego, entrando em situa\u00e7\u00e3o de pen\u00faria total. Cerca de 45 milh\u00f5es de estadunidenses dependem de ajuda do governo para adquirir alimentos, atrav\u00e9s do programa de \u201cfood stamps\u201d (uma esp\u00e9cie de \u201cvale-refei\u00e7\u00e3o\u201d distribu\u00eddo pelo Estado). Os cortes de emprego prosseguem tanto no setor p\u00fablico quanto no privado. 35 dos 50 estados reduziram a folha de pagamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A quantidade de pessoas pobres nos Estados Unidos passou de 39,8 milh\u00f5es em 2008 para 43,6 milh\u00f5es em 2009, segundo dados divulgados pelo \u00f3rg\u00e3o respons\u00e1vel pelo censo do pa\u00eds. \u00c9 considerada pobre uma pessoa sozinha que ganhe at\u00e9 US$ 11,2 mil por ano. No caso de fam\u00edlias com dois adultos e duas crian\u00e7as, s\u00e3o consideradas pobres as que t\u00eam renda anual de at\u00e9 US$ 21,8 mil. Esse n\u00famero \u00e9 equivalente a cerca de 14% da popula\u00e7\u00e3o, o maior nos 51 anos em que a pesquisa \u00e9 feita. O n\u00famero de pessoas sem plano de sa\u00fade aumentou de 46,3 milh\u00f5es em 2008 para 50,7 milh\u00f5es em 2009, por causa da perda de planos de sa\u00fade pagos pelos empregadores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"center\"><b>3.4) In\u00edcio das mobiliza\u00e7\u00f5es da classe trabalhadora estadunidense<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O governador republicano do estado de Wisconsin (extremo norte dos Estados Unidos) lan\u00e7ou um pacote de leis abolindo o processo de negocia\u00e7\u00e3o salarial coletiva dos servidores do estado por meio de seus sindicatos. Isso significa que professores, policiais, bombeiros, m\u00e9dicos e enfermeiros, etc., n\u00e3o poder\u00e3o lutar para defender seus sal\u00e1rios. Ao mesmo tempo, o governo anunciou cortes nos sal\u00e1rios, benef\u00edcios e pens\u00f5es desses trabalhadores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em resposta, desde 15 de fevereiro esses setores iniciaram um processo de mobiliza\u00e7\u00f5es, que contou com a ades\u00e3o de amplas camadas da popula\u00e7\u00e3o, e j\u00e1 chegou a reunir 100 mil pessoas em frente \u00e0 assembl\u00e9ia estadual na capital, Madison. A oposi\u00e7\u00e3o democrata no senado estadual saiu do estado para tentar obstruir a vota\u00e7\u00e3o. Os manifestantes comparam-se abertamente com os eg\u00edpcios na pra\u00e7a Tahrir, no Cairo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esses primeiros sinais de mobiliza\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora estadunidense devem se ampliar, na medida em que, assim como o governo federal de Obama, a quase totalidade dos estados e munic\u00edpios est\u00e1 altamente endividada, e tem tido como pol\u00edtica cortar gastos com servidores, demitindo, reduzindo sal\u00e1rios e benef\u00edcios. Professores e funcion\u00e1rios p\u00fablicos de sa\u00fade s\u00e3o os profissionais mais afetados. Ao mesmo tempo, as empresas est\u00e3o sendo beneficiadas com cortes de impostos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Medidas semelhantes \u00e0s que est\u00e3o em disputa em Wisconsin foram anunciadas em outros estados como Michigan e Carolina do Norte. Em contrapartida, processos de mobiliza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores est\u00e3o emergindo em outros estados como Minnesota, Ohio, Indiana e Pensilvania.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"center\"><b>3.5) A pol\u00edtica externa do imperialismo estadunidense<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No plano externo, Obama tamb\u00e9m deu continuidade \u00e0 pol\u00edtica de seu antecessor, apenas deslocando o eixo das ocupa\u00e7\u00f5es imperialistas do Iraque para o Afeganist\u00e3o. Essa mudan\u00e7a de eixo foi apresentada como sendo o cumprimento da promessa de campanha de se retirar do Iraque. Entretanto, n\u00e3o houve uma retirada completa, pois um significativo contingente remanescente de 50.000 soldados permaneceu no pa\u00eds, tendo sido reclassificado de \u201ctropas de combate\u201d para tropas de apoio, assist\u00eancia \u00e0s for\u00e7as armadas iraquianas, treinamento e conselheiros militares. Esse expediente de mudar o nome de uma determinada realidade pol\u00edtica como se isso tivesse mudado a pr\u00f3pria realidade era o que Orwell chamava de \u201cduplipensar\u201d. A duplipensada desocupa\u00e7\u00e3o do Iraque conta ainda com o fato adicional de que o assim chamado \u201cgoverno iraquiano\u201d n\u00e3o passa de uma colcha de retalhos de for\u00e7as tribais mercen\u00e1rias em constante rivalidade, altamente corruptas e rapaces, as quais s\u00e3o empregadas para reprimir o povo iraquiano e permitir a continuidade da explora\u00e7\u00e3o do petr\u00f3leo do pa\u00eds pelas transnacionais estadunidenses.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A composi\u00e7\u00e3o altamente inst\u00e1vel e problem\u00e1tica do governo t\u00edtere iraquiano n\u00e3o deixa de expressar o fracasso do projeto inicial do imperialismo de contar com um poder pol\u00edtico est\u00e1vel. Esse poder deveria legitimar a pilhagem do petr\u00f3leo iraquiano pelas transnacionais estadunidenses sem precisar contar com um custoso aparato de seguran\u00e7a e enfrentar maci\u00e7a oposi\u00e7\u00e3o popular e a permanente amea\u00e7a terrorista ou mesmo o risco de dilacerar-se em lutas entre os senhores da guerra. Esse dilaceramento \u00e9 o mesmo em que permanece o Afeganist\u00e3o, cujo governo t\u00edtere \u00e9 ainda mais fict\u00edcio do que o do Iraque.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m do interesse vital no controle do petr\u00f3leo e do g\u00e1s natural do Oriente M\u00e9dio e da \u00c1sia Central, em rivalidade aberta com outras pot\u00eancias imperialistas europ\u00e9ias, com a R\u00fassia e a China, a presen\u00e7a de tropas dos Estados Unidos tem como objetivo tamb\u00e9m alimentar o complexo industrial-militar e o aparato de seguran\u00e7a. Os Estados Unidos respondem por metade dos gastos militares do planeta, com um or\u00e7amento anual em torno de meio trilh\u00e3o de d\u00f3lares (equivalente ao PIB do Brasil). O gasto di\u00e1rio com a ocupa\u00e7\u00e3o do Afeganist\u00e3o se situa na casa de US$ 130 milh\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa gigantesca m\u00e1quina de destrui\u00e7\u00e3o precisa inventar constantemente novos inimigos reais e fict\u00edcios capazes de justificar as despesas da sua manuten\u00e7\u00e3o. Por isso o foco das aten\u00e7\u00f5es se desloca do Iraque para o Afeganist\u00e3o, e deste para o Paquist\u00e3o, ou futuramente o Ir\u00e3, e assim por diante. Em lugar da Guerra Fria como princ\u00edpio totalizador\/conflitivo estruturador da din\u00e2mica geopol\u00edtica internacional, erige-se o mito de uma \u201cguerra contra o terror\u201d. Em lugar da URSS como advers\u00e1rio sist\u00eamico, temos a \u201cAl Qaeda\u201d. Convenientemente, temos um advers\u00e1rio que n\u00e3o pode ser delimitado sob qualquer crit\u00e9rio racional. O terror \u00e9 ub\u00edquo e onipresente. Est\u00e1 simultaneamente em toda parte e ao mesmo tempo em lugar nenhum. O terrorista \u00e9 um inimigo sem rosto, sem nome e sem p\u00e1tria, movendo-se num cen\u00e1rio sem fronteiras e sem restri\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Qualquer indiv\u00edduo subitamente tornado inconveniente para a l\u00f3gica do sistema pode ser plausivelmente acusado de terrorista e transformado em inimigo, por meio de campanhas de difama\u00e7\u00e3o midi\u00e1tica que se tornaram um poderoso instrumento de guerra psicol\u00f3gica e de propaganda. O \u201cterrorista\u201d pode subseq\u00fcentemente ser ca\u00e7ado e morto pelas for\u00e7as da \u201cordem\u201d, com pleno aval das institui\u00e7\u00f5es \u201cdemocr\u00e1ticas\u201d e da opini\u00e3o p\u00fablica previamente anestesiada pelo medo e pela mentira. Essa indetermina\u00e7\u00e3o em torno do alvo a ser combatido pode se prolongar interminavelmente, visto que a \u201cguerra contra o terror\u201d, uma vez iniciada, por for\u00e7a das caracter\u00edsticas do objeto contra o qual se define, pode muito bem nunca ter fim, e ser periodicamente relan\u00e7ada e renovada ao sabor das conveni\u00eancias da conjuntura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A conflitividade estrutural do sistema do capital encontra assim o pretexto complementar e necess\u00e1rio em fun\u00e7\u00e3o do qual sua destrutividade sist\u00eamica pode se deslocar indefinidamente para fora de qualquer espacialidade e temporalidade concretas. A irracionalidade, sob a forma de duplipensar, alcan\u00e7a uma elasticidade virtualmente infinita. O terrorismo fornece o pretexto providencial para medidas repressivas que podem se abater sobre qualquer forma de oposi\u00e7\u00e3o. O alvo real dessa guerra surreal \u00e9 a classe trabalhadora e sua necessidade de lutar contra o capitalismo. As medidas repressivas erigidas sob o pretexto de combater o terrorismo tecem uma teia de obst\u00e1culos policiais e judiciais contra as lutas dos trabalhadores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os Estados Unidos j\u00e1 possuem a maior popula\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria do mundo, composta majoritariamente de negros e latinos. A criminaliza\u00e7\u00e3o da pobreza, as pris\u00f5es arbitr\u00e1rias, pris\u00f5es secretas ilegais e sem mandado judicial, o uso sistem\u00e1tico da tortura como forma de investiga\u00e7\u00e3o, os processos judiciais fraudulentos, o cerco policial pesado contra atos de luta e protestos, a espionagem telef\u00f4nica e eletr\u00f4nica, a monitora\u00e7\u00e3o dos espa\u00e7os p\u00fablicos por circuitos de TV, monitora\u00e7\u00e3o via sat\u00e9lite, campanhas de difama\u00e7\u00e3o e desinforma\u00e7\u00e3o na m\u00eddia burguesa, etc.; s\u00e3o todos componentes de um mesmo operativo de repress\u00e3o sistem\u00e1tico contra os trabalhadores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0Os Estados Unidos receberam 228 acusa\u00e7\u00f5es de viola\u00e7\u00e3o dos direitos humanos no novo Conselho de\u00a0 Direitos Humanos da ONU, em sess\u00e3o realizada em fins de 2010. N\u00e3o se espera que um \u00f3rg\u00e3o dessa natureza tenha qualquer poder efetivo para confrontar as arbitrariedades da maior pot\u00eancia imperialista. Entretanto, o relat\u00f3rio tem um importante significado simb\u00f3lico. As viola\u00e7\u00f5es dizem respeito \u00e0s deten\u00e7\u00f5es ilegais em Guantanamo e outros centros secretos, pr\u00e1tica de tortura, pris\u00e3o pol\u00edtica (casos do negro Mumia Abu Jamal e do \u00edndio Leonard Peltier), asilo a terroristas (como o cubano Posada Carriles), recusa em reconhecer o Tribunal Internacional e outros conv\u00eanios, bloqueio a Cuba, discrimina\u00e7\u00e3o contra imigrantes e minorias, pris\u00e3o de menores, viola\u00e7\u00f5es ambientais, etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"center\"><b>4) A China, o projeto de superpot\u00eancia e a restaura\u00e7\u00e3o capitalista<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"center\"><b>4.1) O projeto da burocracia<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A rela\u00e7\u00e3o entre China e Estados Unidos \u00e9 ao mesmo tempo de simbiose no plano da economia e de constante conflito pol\u00edtico. Ambos t\u00eam interesse na preserva\u00e7\u00e3o do d\u00f3lar, mas enquanto que para os Estados Unidos isso \u00e9 uma quest\u00e3o absolutamente vital e permanente, para a China trata-se de um recurso conjuntural, pois a burocracia do Partido Comunista Chin\u00eas (PCC) persegue sua pr\u00f3pria agenda, que visa transformar o pa\u00eds em uma superpot\u00eancia mundial, agindo com um pouco mais de intelig\u00eancia e paci\u00eancia do que os seus cong\u00eaneres no ocidente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os dirigentes burgueses ocidentais reagem a cada crise com pseudo-solu\u00e7\u00f5es que na verdade criam os problemas que causar\u00e3o a pr\u00f3xima crise. Alan Greenspan, que durante os mandatos de Clinton e Bush foi presidente do FED, o banco central estadunidense, reagiu \u00e0 crise provocada pela quebra da bolha da Nasdaq em 2000 criando facilidades para o cr\u00e9dito imobili\u00e1rio, que por sua vez geraram a bolha do sub-prime de 2007. Os burocratas chineses, menos irrespons\u00e1veis, reagiram \u00e0 crise asi\u00e1tica de 1997-98 com medidas que fortaleceram a capacidade do Estado de lidar com flutua\u00e7\u00f5es extremas da economia. Desde a crise de 1998, a arrecada\u00e7\u00e3o do governo dobrou e chegou a 21% do PNB, os benef\u00edcios pagos pelo Estado quadruplicaram e alcan\u00e7aram 23% do PNB, os cr\u00e9ditos podres foram reduzidos a um quarto, as reservas em dinheiro se multiplicaram por 13. Dois ter\u00e7os dos bancos s\u00e3o controlados pelo Estado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em termos hist\u00f3ricos de longo prazo, a reafirma\u00e7\u00e3o da China como superpot\u00eancia mundial significaria apenas a sua volta ao lugar que sempre foi seu, pois foi apenas nos \u00faltimos duzentos anos, por causa da revolu\u00e7\u00e3o industrial, que a Europa e os Estados Unidos ultrapassaram o Imp\u00e9rio do Meio na condi\u00e7\u00e3o de sociedades mais desenvolvidas. Nos cinco mil\u00eanios precedentes a China sempre esteve \u00e0 frente ou no m\u00ednimo em p\u00e9 de igualdade em termos de desenvolvimento t\u00e9cnico, poderio militar, organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, centraliza\u00e7\u00e3o administrativa, coes\u00e3o social, cultura, literatura, etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na corrida para voltar a se tornar uma superpot\u00eancia global, em 2010 a China ultrapassou a Alemanha como maior exportador do mundo e o Jap\u00e3o como segundo maior PIB (que atingiu um valor anualizado de US$ 5.34 trilh\u00e3o, contra US$ 5.136 do Jap\u00e3o) . O crescimento chin\u00eas, que antes se dizia meramente conjuntural, mostra-se agora como resultado de uma estrat\u00e9gia consciente da burocracia para consolidar o pa\u00eds como pot\u00eancia. Esse projeto tem algumas s\u00e9rias fragilidades, como a depend\u00eancia do mercado externo, a depend\u00eancia tecnol\u00f3gica e a aus\u00eancia de grandes empresas chinesas capazes de concorrer no mercado global com as gigantes europ\u00e9ias, japonesas e estadunidenses.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O total de investimentos da China no mundo \u00e9 de apenas US$ 17,5 bilh\u00f5es, vinte vezes menos do que o mundo investe na China. Entretanto, esse investimento vem crescendo, buscando \u00e1reas estrat\u00e9gicas, pouco exploradas ou abandonadas pelo imperialismo. \u00c9 o caso das parcerias firmadas com v\u00e1rios pa\u00edses africanos para a explora\u00e7\u00e3o de min\u00e9rios, e a compra de terras agricult\u00e1veis para fornecer alimentos para a imensa popula\u00e7\u00e3o chinesa. Recentemente chamou aten\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m o acordo trienal com a Venezuela, que troca o fornecimento de 750.000 barris di\u00e1rios de petr\u00f3leo por US$ 20 bilh\u00f5es em projetos de desenvolvimento. A maior parte dos projetos se concentra em setores da pr\u00f3pria explora\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo, g\u00e1s, e min\u00e9rios. Ao final do acordo, a China receber\u00e1 os mesmos 1 milh\u00e3o de barris di\u00e1rios hoje fornecidos aos Estados Unidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para recolocar a China no centro do mundo, a burocracia estabeleceu um plano para reduzir sua depend\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o ao d\u00f3lar, que na verdade j\u00e1 est\u00e1 sendo colocado em andamento da forma mais discreta (tipicamente chinesa) poss\u00edvel. O governo chin\u00eas tem tentado diversificar suas reservas de ativos, adquirindo t\u00edtulos de outros pa\u00edses, ouro, investimentos produtivos, etc. Esse processo j\u00e1 tem feito os Estados Unidos buscar formas de manter constantemente a China sob press\u00e3o, por meio de quest\u00f5es como o suporte chin\u00eas ao regime da Cor\u00e9ia do Norte, o incidente de conflito territorial com o Jap\u00e3o, a inten\u00e7\u00e3o permanente da burocracia chinesa de reintegrar Taiwan, a ocupa\u00e7\u00e3o do Tibete, etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A rivalidade China-Estados Unidos se desenrola tamb\u00e9m num outro terreno, o das fontes de energia. A presen\u00e7a militar estadunidense no Oriente M\u00e9dio e \u00c1sia Central \u00e9 uma amea\u00e7a ao futuro econ\u00f4mico n\u00e3o apenas da China, mas tamb\u00e9m da Europa e do Jap\u00e3o. Neste terreno, a R\u00fassia pode vir a desempenhar um importante papel, pois o pa\u00eds \u00e9 tamb\u00e9m um importante produtor e exportador de petr\u00f3leo e g\u00e1s natural, j\u00e1 sendo respons\u00e1vel pelo abastecimento da Europa e com crescente presen\u00e7a no mercado chin\u00eas. Um eventual bloco euro-russo-chin\u00eas seria o maior pesadelo dos estrategistas estadunidenses (que por enquanto ainda n\u00e3o precisam entrar em desespero, pois a forma\u00e7\u00e3o desse bloco ainda n\u00e3o passa de uma hip\u00f3tese distante, devido a s\u00e9rias rivalidades e desacordos entre os seus componentes).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"center\"><b>4.2) A situa\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A China ainda \u00e9 um pa\u00eds de maioria rural. Essa imensa popula\u00e7\u00e3o ainda se organiza em aldeias e comunidades cuja estrutura remete a formas milenares de organiza\u00e7\u00e3o social, pr\u00e9-capitalistas, que foram incorporadas pelo regime do PCC como forma de manter a popula\u00e7\u00e3o sob controle. A propriedade da terra \u00e9 estatal, gerida pelos burocratas do governo, de uma forma tal que os trabalhadores precisam apresentar atestado de resid\u00eancia para ter direito a assist\u00eancia a sa\u00fade ou qualquer direito social m\u00ednimo (na China os direitos s\u00e3o mesmo m\u00ednimos, n\u00e3o h\u00e1 nada que se compare nem de longe a um well-fare state, mas esses direitos limitad\u00edssimos podem ser a diferen\u00e7a decisiva entre morrer de fome e doen\u00e7as ou continuar vivo).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As cidades j\u00e1 enfrentam problemas para manter os trabalhadores migrantes que para l\u00e1 se deslocaram nas \u00faltimas d\u00e9cadas, atra\u00eddos pelo chamariz de empregos que pagam sal\u00e1rios miser\u00e1veis, mas mesmo assim maiores do que os rendimentos de suas fam\u00edlias no campo, e que lhes permitem o acesso a alguns itens m\u00ednimos de consumo. O acr\u00e9scimo repentino de centenas de milh\u00f5es de camponeses subitamente deslocados do campo seria uma cat\u00e1strofe social incontrol\u00e1vel, e por ter certa consci\u00eancia disso a burocracia tem retardado o processo enquanto pode.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os trabalhadores migrantes que de qualquer forma chegam \u00e0s cidades s\u00e3o explorados num regime que remete \u00e0s primeiras d\u00e9cadas da Revolu\u00e7\u00e3o Industrial do s\u00e9culo XVIII, com jornadas de 12 a 14 horas, regime de \u201ccamas quentes\u201d (revezamento dos trabalhadores nos dormit\u00f3rios, de modo que as m\u00e1quinas nunca parem de funcionar), aus\u00eancia quase total de direitos trabalhistas e sociais (sem a caderneta de resid\u00eancia, os trabalhadores migrantes n\u00e3o t\u00eam direito a qualquer forma de assist\u00eancia social do Estado, e dependem dos pr\u00f3prios sal\u00e1rios ou das empresas), autoritarismo extremo nos locais de trabalho, golpes dos patr\u00f5es (f\u00e1bricas que fecham e cujos donos desaparecem sem pagar os sal\u00e1rios ou qualquer direito), proibi\u00e7\u00e3o de organiza\u00e7\u00e3o sindical e pol\u00edtica, etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nessas condi\u00e7\u00f5es, a resist\u00eancia dos trabalhadores tem se manifestado em formas que v\u00e3o desde as sa\u00eddas individuais desesperadas (suic\u00eddio) at\u00e9 as formas de protesto \u201cselvagens\u201d (um diretor de empresa foi jogado pela janela do pr\u00e9dio por trabalhadores enfurecidos, provavelmente por n\u00e3o ter tido tempo de fugir com o dinheiro dos sal\u00e1rios como seus colegas de classe), com greves espont\u00e2neas, motins, ocupa\u00e7\u00e3o de empresas e pr\u00e9dios p\u00fablicos, todos duramente reprimidos. Essas lutas incipientes da classe trabalhadora chinesa s\u00e3o o \u201cefeito colateral\u201d inesperado da restaura\u00e7\u00e3o capitalista, com o qual a burocracia chinesa est\u00e1 tendo que lidar, um efeito que se intensificou brutalmente no auge da crise econ\u00f4mica e da queda das exporta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A taxa de crescimento do PIB da China deu um salto de 7% para 12% entre 2000 e 2008, caindo para 9% em 2009. A capacidade utilizada caiu de 83% para 74%. A taxa de crescimento n\u00e3o pode descer abaixo de 9 a 10% ao ano, pois do contr\u00e1rio n\u00e3o se consegue gerar emprego para os 24 milh\u00f5es de jovens e os 13 milh\u00f5es de migrantes da zona rural que ingressam anualmente na popula\u00e7\u00e3o economicamente ativa. Os meses de maio e junho de 2010 foram marcados pela ocorr\u00eancia de greves nas f\u00e1bricas terceirizadas que montam produtos para as transnacionais estrangeiras (a mais famosa das quais \u00e9 a Foxconn, que monta produtos eletr\u00f4nicos para Dell, Apple, HP, etc.). O governo chin\u00eas n\u00e3o permite a exist\u00eancia de sindicatos, mas os trabalhadores se organizaram em comit\u00eas de base independentes, o que demonstra o surgimento de embri\u00f5es de consci\u00eancia de classe. Para se antecipar a uma explos\u00e3o oper\u00e1ria e pressionado pelo esc\u00e2ndalo nacional provocado pelos 11 suic\u00eddios na Foxconn, o governo chin\u00eas foi for\u00e7ado a fazer algumas concess\u00f5es em termos de aumentos salariais. Os sal\u00e1rios dos trabalhadores chineses j\u00e1 alcan\u00e7aram US$ 400 mensais em v\u00e1rias cidades e ramos produtivos (contra m\u00e9dias de US$ 250 da Tail\u00e2ndia, US$ 200 da Indon\u00e9sia, e US$ 100 das Filipinas e Vietn\u00e3).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um relat\u00f3rio do Minist\u00e9rio de Recursos Humanos da China lan\u00e7ado em setembro de 2010 informou uma taxa de desemprego da popula\u00e7\u00e3o urbana de 4,3%, ou 9,2 milh\u00f5es de trabalhadores. Esse n\u00famero, que provavelmente est\u00e1 bastante for\u00e7ado para baixo, inclui um total de 1,5 milh\u00e3o de rec\u00e9m graduados nas universidades. O n\u00famero de graduados aumentou de 1 milh\u00e3o em 1998 para 6 milh\u00f5es em 2010. Um total de 24 milh\u00f5es de jovens ingressa na popula\u00e7\u00e3o economicamente ativa todos os anos. Destes, metade tem n\u00edvel m\u00e9dio e um quarto tem n\u00edvel superior. Um total de 114 milh\u00f5es de trabalhadores t\u00eam n\u00edvel m\u00e9dio ou superior na China, gra\u00e7as \u00e0 urbaniza\u00e7\u00e3o dos \u00faltimos 20 anos. Essa popula\u00e7\u00e3o com conhecimentos t\u00e9cnicos recebe a baix\u00edssima renda m\u00e9dia de US$ 224 por m\u00eas, pouco mais elevada que a de um trabalhador rural. Nas greves de maio a junho na ind\u00fastria automobil\u00edstica e eletroeletr\u00f4nica, os jovens jogaram um papel de peso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A classe oper\u00e1ria chinesa, como \u00e9 tradicional nos pa\u00edses asi\u00e1ticos, tinha contratos de trabalho vital\u00edcios, aposentadorias, moradia e assist\u00eancia m\u00e9dica garantida pelas empresas estatais, as \u00fanicas que existiam. Nos \u00faltimos trinta anos, 720 milh\u00f5es de chineses emigraram para as cidade e se incorporaram \u00e0 economia capitalista moderna. Esses milh\u00f5es de novos trabalhadores n\u00e3o desfrutam de nenhum desses direitos: vivem em alojamentos prec\u00e1rios e n\u00e3o recebem qualquer prote\u00e7\u00e3o social, assist\u00eancia m\u00e9dica ou pens\u00f5es, al\u00e9m daquela que eles mesmos puderem pagar ou pactuar com seus relutantes empregadores privados. A combina\u00e7\u00e3o de superexplora\u00e7\u00e3o, trabalho extenuante, baixos sal\u00e1rios e condi\u00e7\u00f5es de vida prec\u00e1rias resulta em alta explosividade social.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao contr\u00e1rio da imagem tradicional, o povo chin\u00eas n\u00e3o \u00e9 de forma alguma passivo. A combatividade \u00e9 contida por uma feroz legisla\u00e7\u00e3o repressiva e um monumental aparato policial. Em 2008 registraram-se 127 mil tumultos e protestos (contra 87 mil em 2005). Houve 467 invas\u00f5es de pr\u00e9dios p\u00fablicos, como prefeituras e \u00f3rg\u00e3os ministeriais locais, 615 enfrentamentos com a pol\u00edcia e 110 inc\u00eandios de barricadas e ve\u00edculos. A sindicaliza\u00e7\u00e3o ou qualquer tipo de organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica independente \u00e9 proibida e qualquer iniciativa nessa dire\u00e7\u00e3o \u00e9 duramente reprimida. As lutas oper\u00e1rias acontecem em grande quantidade, mas s\u00e3o atomizadas por f\u00e1brica, empresa ou bairro, n\u00e3o tendo condi\u00e7\u00f5es de convergir para greves de toda uma categoria laboral ou setor produtivo, e muito menos para uma greve nacional ou greve geral. Mesmo assim, o governo \u00e9 for\u00e7ado a fazer concess\u00f5es, lan\u00e7ando algumas regulamenta\u00e7\u00f5es trabalhistas e salariais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"center\"><b>4.3) Limites do crescimento chin\u00eas<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A restaura\u00e7\u00e3o capitalista na China n\u00e3o adv\u00e9m de um processo end\u00f3geno de acumula\u00e7\u00e3o, mas do investimento do capital imperialista no pa\u00eds, em busca desesperada pelos altos \u00edndices de mais-valia absoluta (fruto da extens\u00e3o da jornada) que o farto e barato proletariado chin\u00eas pode fornecer. A abertura do mercado de trabalho chin\u00eas foi pactuada entre a burocracia e o imperialismo, mas ficou de fora do pacote a concess\u00e3o de direitos pol\u00edticos para a nascente burguesia chinesa (como o imperialismo faz quest\u00e3o de lembrar constantemente, por meio de expedientes como a concess\u00e3o do Pr\u00eamio Nobel da Paz a Liu Xiaobo, um intelectual dissidente atualmente preso, hist\u00f3rico ativista dos direitos humanos e veterano dos processos de Tianamen). A burocracia chinesa n\u00e3o se converteu em burguesia como na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, quando o aparato de seguran\u00e7a em decomposi\u00e7\u00e3o (KGB) deu origem a m\u00e1fias que operavam no mercado negro, o qual acabou se tornando oficial. Nesse mercado negro germinou uma l\u00fampen-burguesia que se apropriou criminosamente do patrim\u00f4nio do antigo Estado burocr\u00e1tico sovi\u00e9tico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A burocracia chinesa procura a todo custo evitar um cen\u00e1rio de decomposi\u00e7\u00e3o ca\u00f3tica como o do leste europeu. \u00c9 evidente que, assim como na URSS em decomposi\u00e7\u00e3o, a corrup\u00e7\u00e3o \u00e9 end\u00eamica em todos os setores do aparato do Estado, com destaque para o Ex\u00e9rcito, o qual \u00e9 tamb\u00e9m propriet\u00e1rio de empresas. Mas a insatisfa\u00e7\u00e3o social tem sido controlada por meio das promessas de prosperidade que a \u201ceconomia de mercado\u201d tem trazido para algumas parcelas da popula\u00e7\u00e3o. Essa nascente burguesia e pequena-burguesia n\u00e3o se queixa da ditadura do PCC e n\u00e3o exige elei\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas ao estilo do ocidente, desde que possa enriquecer em paz. Essa paz est\u00e1 amea\u00e7ada por alguns limites estruturais, que s\u00e3o os pr\u00f3prios limites do capitalismo chin\u00eas:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; A China n\u00e3o det\u00e9m o dom\u00ednio da tecnologia do setor de produ\u00e7\u00e3o de bens de produ\u00e7\u00e3o, o chamado departamento I da economia capitalista (elemento chave para que qualquer pa\u00eds capitalista possa passar de dominado a dominante), que inclui a pesquisa cient\u00edfica, a tecnologia de ponta, projeto e design de produtos, automa\u00e7\u00e3o industrial, desenvolvimento de softwares, etc., embora esteja dando passos na dire\u00e7\u00e3o de constru\u00ed-lo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; A China \u00e9 cronicamente dependente de fontes de energia externas, em especial o petr\u00f3leo, do qual j\u00e1 \u00e9 um dos maiores consumidores mundiais e cujas importa\u00e7\u00f5es seguem crescendo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; A acelerada industrializa\u00e7\u00e3o chinesa est\u00e1 produzindo um gigantesca bomba-rel\u00f3gio ambiental, na medida em que a polui\u00e7\u00e3o se acumula no ar, no solo e nas \u00e1guas, sem qualquer controle, em nome do crescimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; A expans\u00e3o do capitalismo na China resulta de um movimento do capitalismo global em busca de altas taxas de mais-valia absoluta, as quais s\u00e3o de certa forma uma esp\u00e9cie de \u201c\u00faltima fronteira\u201d para o capital global. A forma\u00e7\u00e3o da massa de mais-valia na China atualmente depende mais da mais-valia absoluta (extens\u00e3o da jornada) do que da mais-valia relativa (aumento da produtividade), mas essa rela\u00e7\u00e3o tende a se inverter, como acontece dentro de determinado prazo com toda economia capitalista, na medida em que aumenta a composi\u00e7\u00e3o org\u00e2nica do capital (incorpora\u00e7\u00e3o de novas tecnologias e meios de produ\u00e7\u00e3o). Com isso, esses mesmos milh\u00f5es de trabalhadores atra\u00eddos do campo para a cidade pelo \u201cmilagre chin\u00eas\u201d v\u00e3o ser jogados ao desemprego, com conseq\u00fc\u00eancias sociais e pol\u00edticas imprevis\u00edveis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Os baixos sal\u00e1rios dos trabalhadores chineses s\u00e3o o principal fator que atraiu as f\u00e1bricas das transnacionais imperialistas para a China, lan\u00e7ando as bases para o seu crescimento, mas s\u00e3o ao mesmo tempo um limite para o crescimento do seu mercado interno. O consumo chin\u00eas \u00e9 de US% 1,5 trilh\u00e3o ao ano, comparado com US$ 22 trilh\u00f5es da Europa e Estados Unidos, e se concentra em 10% da popula\u00e7\u00e3o das cidades litor\u00e2neas. A popula\u00e7\u00e3o da China excede em 300 milh\u00f5es a dos pa\u00edses imperialistas somados, mas seu PIB \u00e9 de apenas um quinto da soma deles. 535 milh\u00f5es de chineses vivem com menos de dois d\u00f3lares por dia, e destes, 135 milh\u00f5es vivem com menos de um d\u00f3lar. O desenvolvimento do mercado interno chin\u00eas, que poderia representar uma sa\u00edda para a depend\u00eancia das exporta\u00e7\u00f5es, tem como limite os baixos sal\u00e1rios dos trabalhadores, que n\u00e3o podem ser aumentados a ponto de lhes permitir consumir os bens que fabricam. Afinal, caso os sal\u00e1rios aumentem mais do que seria toler\u00e1vel para o capital imperialista, as f\u00e1bricas podem ser montados em outros para\u00edsos da superexplora\u00e7\u00e3o onde os sal\u00e1rios s\u00e3o ainda mais brutalmente baixos do que os da China, como o Vietn\u00e3, a \u00cdndia, etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As mais recentes plataformas de exporta\u00e7\u00e3o, que emergiram disputando fatias do mercado mundial com base na superexplora\u00e7\u00e3o de m\u00e3o de obra barata, submetem essa m\u00e3o de obra a condi\u00e7\u00f5es de trabalho fisicamente insalubres e degradantes, o que resulta em alto n\u00famero de acidentes e doen\u00e7as relacionadas ao trabalho. O Vietn\u00e3 \u00e9 um dos pa\u00edses em que as condi\u00e7\u00f5es de trabalho experimentam uma crescente deteriora\u00e7\u00e3o, gra\u00e7as \u00e0 ado\u00e7\u00e3o do \u201cmodelo chin\u00eas\u201d pelo Partido Comunista do Vietn\u00e3. Apenas 2% dos 400.000 empreendimentos produtivos do pa\u00eds s\u00e3o de propriedade estatal, ficando o restante em m\u00e3os privadas, nacionais ou estrangeiras. Al\u00e9m de plataforma de exporta\u00e7\u00e3o para grandes transnacionais, o pa\u00eds \u00e9 um dos maiores exportadores mundiais de carv\u00e3o e arroz. 80% da popula\u00e7\u00e3o trabalha no campo, onde o uso de agrot\u00f3xicos e o contato com dejetos industriais jogados na \u00e1gua os exp\u00f5e a doen\u00e7as cut\u00e2neas e respirat\u00f3rias. Nas cidades, s\u00e3o comuns os acidentes na constru\u00e7\u00e3o civil. Com o objetivo de baratear os custos, empreiteiras e terceirizadas empregam trabalhadores sem a prote\u00e7\u00e3o adequada. Apenas 3% das empresas notificam acidentes de trabalho ao \u00f3rg\u00e3o oficial de prote\u00e7\u00e3o, reportando uma m\u00e9dia de 2,5 mil mortes por ano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"center\"><b>5) A burguesia europ\u00e9ia ataca os trabalhadores e enfrenta resist\u00eancia<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"center\"><b>5.1) O endividamento, o euro e as \u201cmedidas de austeridade\u201d<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Embora os Estados Unidos sejam o centro irradiador da crise, as suas reverbera\u00e7\u00f5es mais agudas se concentram nesse momento sobre o continente europeu. A diferen\u00e7a entre os dois maiores centros do capitalismo est\u00e1 em que, entre outros aspectos, os Estados Unidos det\u00e9m o monop\u00f3lio da emiss\u00e3o do d\u00f3lar, moeda de reserva mundial, privil\u00e9gio que os pa\u00edses europeus n\u00e3o possuem. O car\u00e1ter incompleto da unifica\u00e7\u00e3o europ\u00e9ia impede que a burguesia do continente possa tomar medidas com abrang\u00eancia e impacto suficientes para administrar a crise. O fato de que os Estados nacionais detenham a autonomia sobre os seus or\u00e7amentos na pr\u00e1tica impede que o banco central europeu imponha sua autoridade sobre a moeda comum, o euro, que por isso carece da estabilidade para concorrer com o d\u00f3lar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os Estados europeus membros da eurozona desobedecem sistematicamente os limites de endividamento e d\u00e9ficit p\u00fablico estabelecidos como crit\u00e9rio para participa\u00e7\u00e3o na moeda comum, na medida em que cada governo nacional precisa preservar os interesses da sua respectiva burguesia nacional, ou seja, entregar dinheiro para salvar os neg\u00f3cios da sua fra\u00e7\u00e3o da burguesia. Um conflito cada vez mais aberto se estabelece entre os Estados mais poderosos, em especial a Alemanha, e os mais fragilizados, como Portugal, Irlanda, Gr\u00e9cia e Espanha (\u201cPIGS\u201d, ou seja, porcos, na sigla em ingl\u00eas), ou mesmo a It\u00e1lia, em torno da necessidade de controlar o endividamento p\u00fablico. A Alemanha, que representa a fra\u00e7\u00e3o mais concentrada do capital europeu, e j\u00e1 realizou \u201creformas\u201d no seu mercado de trabalho (ou seja, retirou direitos dos seus trabalhadores) num grau ainda n\u00e3o efetuado por outros pa\u00edses europeus, est\u00e1 na lideran\u00e7a dos \u00edndices de crescimento do per\u00edodo p\u00f3s-crise econ\u00f4mica (2,2% no primeiro semestre de 2010).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entretanto, para consolidar a recupera\u00e7\u00e3o, o imperialismo alem\u00e3o precisa for\u00e7ar as fra\u00e7\u00f5es menores do capital europeu a aceitar as perdas com a crise. Dentro da l\u00f3gica do capital, os mais fracos devem sempre ser sacrificados em fun\u00e7\u00e3o dos mais fortes. Essa regra b\u00e1sica da concorr\u00eancia vale tanto para empresas quanto para Estados. A press\u00e3o da tecnocracia da Uni\u00e3o Europ\u00e9ia para que os governos do continente adotem medidas de austeridade na verdade emana do capital financeiro alem\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O interesse em for\u00e7ar os pa\u00edses menores da Eurozona e tamb\u00e9m os membros da Uni\u00e3o Europ\u00e9ia no leste europeu (que n\u00e3o participam do euro) a honrar suas d\u00edvidas decorre do fato de que\u00a0 essas d\u00edvidas, na sua maioria, foram contra\u00eddas junto aos bancos dos pa\u00edses centrais, ou seja, da pr\u00f3pria Alemanha e tamb\u00e9m da Fran\u00e7a e Inglaterra. Isso significa que os governos dos pa\u00edses mais fracos precisam atacar as condi\u00e7\u00f5es de vida de suas popula\u00e7\u00f5es para arrecadar o dinheiro necess\u00e1rio para salvar os bancos dos pa\u00edses mais ricos. Na pr\u00e1tica, isso significaria uma anexa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica completa da periferia europ\u00e9ia pela Alemanha. Tratar-se-ia de completar, em regime de urg\u00eancia, a unifica\u00e7\u00e3o europ\u00e9ia ainda n\u00e3o obtida totalmente por meio do lento processo pol\u00edtico dos tratados diplom\u00e1ticos e acordos de c\u00fapula.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A artificialidade da constru\u00e7\u00e3o europ\u00e9ia se revela no momento em que os gestores do capitalismo europeu s\u00e3o for\u00e7ados a agir com unidade para administrar a crise, sendo que tal unidade pol\u00edtica ainda n\u00e3o foi obtida em grau suficiente para dar conta da tarefa. A rivalidade interimperialista e as rivalidades nacionais subsistem e voltam \u00e0 tona, pois mesmo nos pa\u00edses menores as burguesias nacionais n\u00e3o aceitar\u00e3o tal processo de anexa\u00e7\u00e3o sem serem politicamente derrotadas, ou mesmo militarmente. No momento decisivo, ao inv\u00e9s de completar a unifica\u00e7\u00e3o, a Uni\u00e3o Europ\u00e9ia pode se fragmentar de vez.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No in\u00edcio de 2010, a crise do endividamento explodiu na Gr\u00e9cia, quando se tornou patente que o governo do pa\u00eds n\u00e3o seria capaz de pagar suas d\u00edvidas. A d\u00edvida da Gr\u00e9cia, de US$ 400 bilh\u00f5es de d\u00f3lares, equivale a quase metade da d\u00edvida do Brasil, com uma popula\u00e7\u00e3o 20 vezes menor. Imediatamente, foi armado um pacote de \u20ac$ 100 bilh\u00f5es de euros para o governo grego, em maio. Entretanto, o tiro saiu pela culatra, pois o mercado identificou claramente que a fonte da crise estava nos bancos europeus, \u201ccontaminados\u201d com t\u00edtulos \u201ct\u00f3xicos\u201d de pa\u00edses extremamente endividados. As autoridades cont\u00e1beis da Uni\u00e3o Europ\u00e9ia realizaram uma rodada de teste com 91 bancos europeus para certificar o mercado de que o sistema financeiro do continente continua seguro, divulgando que apenas 7 bancos foram reprovados. Pol\u00edticos festejaram o resultado, mas o pr\u00f3prio mercado se mostrou c\u00e9tico, custando a crer que somente 7 bancos estejam com problemas e que as quantias propostas para salv\u00e1-los (\u20ac$ 3,5 bilh\u00f5es) sejam suficientes (a estimativa do mercado era de que seriam necess\u00e1rios de \u20ac$ 50 a \u20ac$ 100 bilh\u00f5es). Al\u00e9m disso, aqueles que observaram os testes puderam perceber que os crit\u00e9rios foram extremamente rebaixados, os pr\u00f3prios bancos forneciam os n\u00fameros, v\u00e1rias \u00e1reas de neg\u00f3cios n\u00e3o foram cobertas, permitindo que recursos fossem transferidos de um fundo a outro, etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para conter uma crise banc\u00e1ria e financeira ainda maior que a de 2008, a Uni\u00e3o Europ\u00e9ia e o FMI acabaram tendo que desembolsar um pacote ainda maior, de \u20ac$ 750 bilh\u00f5es em garantias para pa\u00edses ultra-endividados, em junho, o qual acalmou o mercado. Com ou sem a press\u00e3o da Alemanha, os demais pa\u00edses europeus, inclusive as demais pot\u00eancias imperialistas do continente, como Inglaterra (que n\u00e3o faz parte do euro) e Fran\u00e7a, tamb\u00e9m precisam lidar com seu pr\u00f3prio endividamento. A receita comum dos pa\u00edses europeus para administrar a crise mistura \u201ckeynesianismo para os ricos\u201d (entrega de dinheiro do Estado para os bancos e grandes empresas) e \u201cliberalismo para os pobres\u201d (cortes nos gastos sociais, nos sal\u00e1rios dos servidores, nas aposentadorias, retirada de direitos trabalhistas, etc.).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">T\u00e3o logo sa\u00edram os pacotes de ajuda aos bancos, no intervalo de semanas, ou meses, a conta foi repassada aos trabalhadores. A partir de junho de 2010, os governos europeus anunciaram pacotes de redu\u00e7\u00e3o de gastos, as chamadas \u201cmedidas de austeridade\u201d, para recuperar o dinheiro gasto salvando os bancos: 100 bilh\u00f5es de libras na Inglaterra, 42 bilh\u00f5es de libras na Esc\u00f3cia, \u20ac$ 80 bilh\u00f5es na Alemanha, \u20ac$ 75 bilh\u00f5es na R\u00fassia \u20ac$ 70 bilh\u00f5es na Fran\u00e7a, \u20ac$ 25 bilh\u00f5es na It\u00e1lia, \u20ac$ 15 bilh\u00f5es na Espanha, e assim por diante. Os pacotes incluem aumento de impostos sobre consumo (que agravam principalmente os mais pobres), aumento do tempo para aposentadoria, redu\u00e7\u00e3o e congelamento dos sal\u00e1rios dos servidores, cortes nos gastos p\u00fablicos (sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, transportes, etc.), facilidades para demiss\u00f5es e redu\u00e7\u00e3o das indeniza\u00e7\u00f5es aos trabalhadores do setor privado, etc. Eslov\u00e1quia, Bulg\u00e1ria, Dinamarca, Finl\u00e2ndia, Hungria, Irlanda, Rom\u00eania, Pol\u00f4nia, Rep. Tcheca; governados por partidos da direita cl\u00e1ssica ou da velha \u201cesquerda\u201d social-democrata, todos anunciaram pacotes de bilh\u00f5es de euros em cortes de gastos sociais e aumentos de impostos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os pacotes de salvamento da Uni\u00e3o Europ\u00e9ia e do FMI para que a Gr\u00e9cia e a Irlanda rolassem suas d\u00edvidas em 2010 n\u00e3o foram suficientes para contentar os especuladores, que apontaram suas baterias para os pr\u00f3ximos alvos, Portugal, Espanha e It\u00e1lia. Esses pa\u00edses altamente endividados foram for\u00e7ados a oferecer juros mais altos para rolar suas d\u00edvidas. Ao mesmo tempo, as grandes pot\u00eancias da zona do euro, Alemanha e Fran\u00e7a, voltaram a falar sobre um \u201cMecanismo Europeu de Estabilidade\u201d, capaz de fazer empr\u00e9stimos a pa\u00edses \u00e0 beira da fal\u00eancia e exigir \u201cajustes estruturais\u201d ao estilo dos que o FMI imp\u00f5e aos pa\u00edses perif\u00e9ricos. A Gr\u00e9cia e a pr\u00f3pria Fran\u00e7a j\u00e1 enfrentaram massiva resist\u00eancia popular a esses ajustes em 2010.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fran\u00e7a e Alemanha prepararam um plano chamado \u201cPacto de competitividade\u201d a ser imposto aos 27 pa\u00edses da Uni\u00e3o Europ\u00e9ia em mar\u00e7o de 2011. O plano cont\u00e9m tr\u00eas eixos principais: aumentar a idade de aposentadoria para 67 anos, impor limites constitucionais aos gastos estatais (for\u00e7ando governos a cortar gastos sociais) e derrubar a legisla\u00e7\u00e3o que garante aumentos salariais autom\u00e1ticos de acordo com o \u00edndice de infla\u00e7\u00e3o, vigente em v\u00e1rios pa\u00edses. Essas medidas t\u00eam sido exigidas pelos bancos e foram apresentadas pelas duas grandes pot\u00eancias como condi\u00e7\u00e3o para ampliar o fundo de apoio para governos altamente endividados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No in\u00edcio de fevereiro o governo espanhol lan\u00e7ou um pacote de medidas aumentando a idade m\u00e9dia para aposentadoria, diminuindo o valor das pens\u00f5es e favorecendo a patronal nas negocia\u00e7\u00f5es salariais coletivas. O acordo foi pactuado com a confedera\u00e7\u00e3o patronal e as centrais sindicais burocr\u00e1ticas e deve passar no parlamento sem dificuldade, apesar da enorme insatisfa\u00e7\u00e3o popular. A Espanha tem um \u00edndice de desemprego alarmante, sendo de 20% no geral e 40% entre a popula\u00e7\u00e3o com menos de 25 anos. O PIB do pa\u00eds caiu 3,7% em 2009 e 0,1% em 2010. O pa\u00eds tamb\u00e9m est\u00e1 altamente endividado e est\u00e1 sendo cotado como a \u201cbola da vez\u201d depois que os especuladores for\u00e7aram os governos da Gr\u00e9cia e da Irlanda a pedir socorro internacional para rolar suas d\u00edvidas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"center\"><b>5.2) Trabalhadores europeus reagem contra a crise<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Evidentemente, nada disso foi combinado com o advers\u00e1rio, ou seja, a classe trabalhadora. Na medida em que os governos anunciam suas medidas, os trabalhadores se mobilizam. Na Ucrania, a \u201crevolu\u00e7\u00e3o laranja\u201d, um golpe eleitoral que empossou um setor pr\u00f3-estadunidense da burguesia (parte de uma s\u00e9rie de manobras semelhantes em outros pa\u00edses da antiga URSS, como Georgia e Bielor\u00fassia), foi revertido com a volta ao poder do setor pr\u00f3-russo nas elei\u00e7\u00f5es deste ano. A queda do PIB do pa\u00eds foi de 15% em 2009. Em junho, na Espanha, o governo do Partido Socialista Espanhol (PSOE) decretou um pacote de redu\u00e7\u00e3o de gastos de \u20ac$ 15 bilh\u00f5es, com redu\u00e7\u00e3o de 5% nos sal\u00e1rios do funcionalismo e congelamento em 2011, al\u00e9m de reduzir indeniza\u00e7\u00f5es e facilitar demiss\u00f5es no setor privado. Imediatamente, foi decretada greve do servi\u00e7o p\u00fablico, com grande ades\u00e3o e massivas manifesta\u00e7\u00f5es, seguida de uma forte greve dos ferrovi\u00e1rios. Em julho, ocorreu a greve dos trabalhadores dos correios e motoristas de \u00f4nibus, na Inglaterra; e a greve dos eletricistas na Irlanda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Greves gerais, greves de servidores p\u00fablicos, manifesta\u00e7\u00f5es de massa, a\u00e7\u00e3o direta, bloqueios de estradas, etc., se generalizam no continente. Conforme avan\u00e7a a conjuntura, o foco das aten\u00e7\u00f5es passa de um pa\u00eds para o outro. Depois da Gr\u00e9cia, que enfrentou seis greves gerais nos primeiros meses de 2010, foi a vez da Espanha, que convive com um \u00edndice de desemprego de 22%, o maior \u00edndice do bloco europeu, chegando a 40% para trabalhadores entre 18 e 24 anos, enfrentar uma forte greve geral em outubro. Tamb\u00e9m na Fran\u00e7a, em que o governo lan\u00e7ou um pacote que cont\u00e9m o aumento do tempo das aposentadorias, houve grandes manifesta\u00e7\u00f5es em fins de setembro, quando a proposta foi \u00e0 vota\u00e7\u00e3o no parlamento, e greve dos trabalhadores das ind\u00fastrias petrol\u00edferas em meados de outubro, levando o pa\u00eds \u00e0 beira de um colapso de abastecimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A magnitude das mobiliza\u00e7\u00f5es fez com que a Europa, neste momento, se colocasse no centro da conjuntura da luta de classes mundial. O proletariado europeu \u00e9 o deposit\u00e1rio de s\u00e9culos de lutas contra o capital, herdeiro de guerras, revolu\u00e7\u00f5es, revoltas, protestos, greves, piquetes que se levantaram por s\u00e9culos em nome da emancipa\u00e7\u00e3o da classe. Essas lutas se materializaram em conquistas sociais importantes, como os altos sal\u00e1rios, o n\u00edvel de emprego, a estabilidade, a dura\u00e7\u00e3o da jornada, as f\u00e9rias, descansos e licen\u00e7as, o seguro-desemprego, a assist\u00eancia social, as aposentadorias, a sa\u00fade e a educa\u00e7\u00e3o p\u00fablicas, etc. Agora, com o agravamento da crise estrutural do capital, a burguesia tenta reverter essas conquistas hist\u00f3ricas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A resist\u00eancia dos trabalhadores em face desses ataques torna-se cada vez mais massiva. Mas a retomada da tradi\u00e7\u00e3o de luta do proletariado europeu enfrenta um s\u00e9rio obst\u00e1culo, a crise da alternativa socialista. Desde a queda da URSS e dos Estados do leste europeu, o socialismo foi alvo de uma violenta campanha pol\u00edtica e ideol\u00f3gica de desmoraliza\u00e7\u00e3o, de tal sorte que a id\u00e9ia de uma alternativa socialista ao capitalismo est\u00e1 ausente ou desacreditada na consci\u00eancia da maioria dos trabalhadores. Sem um projeto alternativo de sociedade a ser apresentado em substitui\u00e7\u00e3o ao capitalismo, a luta acaba se limitando a medidas defensivas que n\u00e3o rompem com a ordem estabelecida. O discurso dos trabalhadores em mobiliza\u00e7\u00e3o \u00e9 t\u00e3o somente contra a \u201cinjusti\u00e7a\u201d das medidas de austeridade, por meio das quais os governantes querem obrig\u00e1-los a pagar pelos \u201cerros\u201d dos especuladores. Esse discurso n\u00e3o se eleva ao n\u00edvel da consci\u00eancia de que n\u00e3o se trata de erros \u201cacidentais\u201d de gestores mal-intencionados e de injusti\u00e7as eventuais, mas de uma l\u00f3gica social capitalista que inevitavelmente produz crises. Essa l\u00f3gica social n\u00e3o pode ser atenuada ou controlada por medidas parciais, nem muito menos \u201chumanizada\u201d, pois a aliena\u00e7\u00e3o est\u00e1 na sua pr\u00f3pria ess\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o existe sa\u00edda vitoriosa e definitiva para a luta dos trabalhadores europeus que n\u00e3o a ofensiva pela destrui\u00e7\u00e3o do capitalismo. Portanto, \u00e9 positivo que o proletariado europeu tenha se colocado em movimento, mas \u00e9 preciso que no movimento e na luta em defesa das condi\u00e7\u00f5es de vida seja forjada uma consci\u00eancia socialista renovada. Um obst\u00e1culo pol\u00edtico a ser superado para a reconstru\u00e7\u00e3o de uma consci\u00eancia socialista de massa, al\u00e9m da pr\u00f3pria ideologia burguesa que predomina no senso comum dos trabalhadores, \u00e9 composto pelos partidos pol\u00edticos e dire\u00e7\u00f5es sindicais da antiga esquerda, de diversas tradi\u00e7\u00f5es reformistas, social-democratas, stalinistas e ex-revolucion\u00e1rias, todas hoje convertidas em instrumentos auxiliares da administra\u00e7\u00e3o do capitalismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As\u00a0 burocracias sindicais e partid\u00e1rias tem se colocado \u00e0 frente das greves e mobiliza\u00e7\u00f5es, muitas vezes convocando greves gerais e manifesta\u00e7\u00f5es, mas apenas com o intuito de fre\u00e1-las, enquanto buscam costurar sa\u00eddas por dentro das institui\u00e7\u00f5es do regime. Entretanto, tais sa\u00eddas s\u00e3o na verdade imposs\u00edveis, pois a press\u00e3o dos mercados financeiros sobre os Estados endividados \u00e9 implac\u00e1vel. A pol\u00edtica conciliadora das burocracias somente ajuda a burguesia a ganhar tempo para legitimar seus planos nos parlamentos apodrecidos. A sa\u00edda passa portanto pela constru\u00e7\u00e3o de organismos que rompam com as burocracias, organizem a\u00e7\u00f5es diretas e radicais, com bloqueios de estradas, piquetes e ocupa\u00e7\u00f5es que ataquem a continuidade dos neg\u00f3cios da burguesia. Somente atrav\u00e9s da luta radicalizada, da independ\u00eancia de classe e da coes\u00e3o ideol\u00f3gica em torno de uma alternativa socialista os trabalhadores podem adquirir consci\u00eancia e confian\u00e7a nas pr\u00f3prias for\u00e7as e colocar em cheque o poder do capital.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"center\"><b>6) Origens e desdobramentos da revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica no norte da \u00c1frica e Oriente M\u00e9dio<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"center\"><b>6.1) Rela\u00e7\u00e3o entre o d\u00f3lar e o petr\u00f3leo e a necessidade do imperialismo controlar os pa\u00edses exportadores<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O consumo mundial de petr\u00f3leo est\u00e1 atualmente em 86,6 milh\u00f5es de barris di\u00e1rios, sendo que cerca de 10% dessa quantidade prov\u00e9m da Ar\u00e1bia Saudita. 60% dessa produ\u00e7\u00e3o acontece em campos com mais de 25 anos de explora\u00e7\u00e3o. A propor\u00e7\u00e3o entre o crescimento do consumo (cerca de 1 milh\u00e3o de barris por dia a cada ano) e o descobrimento de novos campos \u00e9 de 4 para 1, sendo que em m\u00e9dia um campo demora 6 anos para entrar em produ\u00e7\u00e3o plena. Para que a explora\u00e7\u00e3o dos novos campos compense os custos do investimento em prospec\u00e7\u00e3o, extra\u00e7\u00e3o e transportes, o pre\u00e7o de venda n\u00e3o pode ficar abaixo de US$ 90 o barril. Para que se tenha uma id\u00e9ia, antes da 1\u00ba guerra do golfo (1991), o pre\u00e7o do barril tinha baixado a US$ 10. (ALAI, 21-02-2011)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma das caracter\u00edsticas do per\u00edodo de crise estrutural \u00e9 a crescente financeiriza\u00e7\u00e3o da riqueza, que se manifesta tamb\u00e9m como perda de lastro da moeda. Em 1971 os Estados Unidos romperam a paridade d\u00f3lar-ouro, o que significa que romperam com a obriga\u00e7\u00e3o de manter reservas em ouro capazes de sustentar o valor de sua moeda. Isso significa que o valor do dinheiro passou a ser puramente simb\u00f3lico, sem rela\u00e7\u00e3o com um valor material concretizado em alguma mercadoria. Pouco depois disso, em 1973, os pa\u00edses produtores de petr\u00f3leo, agrupados na OPEP, aumentaram os pre\u00e7os do petr\u00f3leo, provocando uma crise mundial. Uma das conseq\u00fc\u00eancias dessa 1\u00ba crise do petr\u00f3leo foi o ac\u00famulo de uma grande quantidade de d\u00f3lares pelos pa\u00edses exportadores de petr\u00f3leo (chamados \u201cpetrod\u00f3lares\u201d).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Iniciou-se ent\u00e3o uma verdadeira inunda\u00e7\u00e3o de petrod\u00f3lares no mercado financeiro mundial, que se transformou por exemplo em empr\u00e9stimos para os pa\u00edses perif\u00e9ricos, que por sua vez, juntamente com a alta dos juros nos Estados Unidos, provocou a crise da d\u00edvida externa no in\u00edcio dos anos 1980. Essa inunda\u00e7\u00e3o de petrod\u00f3lares foi um dos primeiros impulsos para o crescimento da especula\u00e7\u00e3o a partir dos anos 1970.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao inv\u00e9s de enfraquecer o d\u00f3lar, a crise dos anos 1970 provocou na verdade uma a consolida\u00e7\u00e3o de um outro padr\u00e3o financeiro, em substitui\u00e7\u00e3o ao d\u00f3lar-ouro, que seria o \u201cd\u00f3lar-petr\u00f3leo\u201d. Os pa\u00edses da OPEP, os maiores fornecedores mundiais de petr\u00f3leo, exigem pagamento em d\u00f3lar para suas exporta\u00e7\u00f5es. Assim, os pa\u00edses do mundo inteiro precisam ter reservas em d\u00f3lar para poder comprar petr\u00f3leo. A necessidade universal de acumular reservas em d\u00f3lar por parte dos governos do mundo inteiro mant\u00e9m o d\u00f3lar no centro da estrutura financeira internacional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Indiretamente, isso se tornou mais um motivo para que os Estados Unidos mantenham governos amig\u00e1veis no Oriente M\u00e9dio. Al\u00e9m de manter o fornecimento de petr\u00f3leo para sua pr\u00f3pria economia, os Estados Unidos precisam garantir que os exportadores de petr\u00f3leo continuem fazendo neg\u00f3cios em d\u00f3lar. Se os pa\u00edses exportadores passassem a negociar em outras moedas, como por exemplo, o euro, isso seria um golpe fatal na hegemonia do d\u00f3lar, e conseq\u00fcentemente, dos Estados Unidos. Da\u00ed a necessidade crucial de que os governos dos pa\u00edses \u00e1rabes, maior parte dos exportadores, sejam pr\u00f3-estadunidenses.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"center\"><b>6.2) Nova alta do pre\u00e7o dos alimentos<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 2008, o mundo produziu uma safra recorde de 2,23 bilh\u00f5es de toneladas de gr\u00e3os. Mesmo assim, os pre\u00e7os dos alimentos atingiram uma alta tamb\u00e9m recorde, resultando em protestos populares contra a carestia em mais de 30 pa\u00edses. Isso somente se explica pelo uso que os especuladores fizeram das commodities como alimentos, petr\u00f3leo e min\u00e9rios para se recuperar das perdas no mercado de hipotecas estadunidense, que j\u00e1 estava fazendo \u00e1gua desde fins de 2007. Especuladores aproveitam a abund\u00e2ncia de liquidez nos mercados financeiros para comprar grandes quantidades de commodities, chantageando o mercado e lucrando com o aumento dos pre\u00e7os. Al\u00e9m disso, um ter\u00e7o da produ\u00e7\u00e3o de gr\u00e3os se destina a ra\u00e7\u00e3o animal, que se transforma em carne para os pa\u00edses ricos, e uma fra\u00e7\u00e3o crescente est\u00e1 sendo transformada em agrocombust\u00edveis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A maior parte dos pa\u00edses pobres na \u00c1frica, no sudeste asi\u00e1tico e na Am\u00e9rica Latina teve sua agricultura familiar destru\u00edda pelo agroneg\u00f3cio e se tornou importador de gr\u00e3os. Os governos est\u00e3o altamente endividados e n\u00e3o t\u00eam condi\u00e7\u00f5es de subsidiar as importa\u00e7\u00f5es, deixando os pre\u00e7os flutuarem ao sabor do mercado. Em muitos pa\u00edses pobres o custo dos alimentos chega a comprometer 50% da renda familiar ou mais. Enquanto milh\u00f5es passam fome e s\u00e3o obrigados a lutar nas ruas contra seus governos por comida, outros lucram com a mis\u00e9ria e o sofrimento. A Cargill, uma das maiores transnacionais do agroneg\u00f3cio, viu seu lucro aumentar 300% entre 2009 e 2010, quando passou de US$ 489 milh\u00f5es para 1,49 bilh\u00e3o. O mesmo quadro de especula\u00e7\u00e3o financeira, aumento da produ\u00e7\u00e3o e dos pre\u00e7os se repete agora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A FAO, ag\u00eancia da ONU para alimenta\u00e7\u00e3o e agricultura, alertou para o pre\u00e7o recorde dos alimentos no in\u00edcio de 2011, o qual superou as marcas de 2008. Naquele ano, os pre\u00e7os subiram a ponto de dobrar num intervalo de 18 meses. Depois da queda dos pre\u00e7os em 2009, os \u00edndices voltaram a subir novamente em 2010. Nos \u00faltimos doze meses, o pre\u00e7o do milho subiu 52%, o trigo subiu 49%, a soja 28%, o caf\u00e9 53% e o algod\u00e3o 119%. Outras commodities tamb\u00e9m est\u00e3o subindo, como o cobre (30%) e o petr\u00f3leo (26,5%). O pre\u00e7o do petr\u00f3leo, por sua vez influencia no pre\u00e7o final dos alimentos, uma vez que aumenta o custo dos transportes, dos fertilizantes e tamb\u00e9m, indiretamente, o dos agrocombust\u00edveis. A FAO tem uma lista de 29 pa\u00edses em situa\u00e7\u00e3o de emerg\u00eancia alimentar, ou seja, fome.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"center\"><b>6.3) Situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e social em alguns pa\u00edses africanos e \u00e1rabes<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Jord\u00e2nia tornou-se independente da Inglaterra em 1956, sob o governo do rei Hussein, sucedido em 1999 por seu filho Abdullah, componentes de uma dinastia chamada hachemita. Metade da popula\u00e7\u00e3o \u00e9 composta de palestinos expulsos de sua terra natal por Israel, quadro semelhante ao do L\u00edbano. Os habitantes de origem palestina s\u00e3o tratados como cidad\u00e3os de segunda categoria, sem acesso a cargos nas for\u00e7as armadas e no Estado, e sem direito de organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Os grupos militantes palestinos foram massacrados pela monarquia em 1971, no que foi chamado de Setembro Negro. A Jord\u00e2nia impediu assim o surgimento de um movimento como o Hizbollah liban\u00eas, colaborando explicitamente com Israel na repress\u00e3o dos palestinos. Como a maior parte dos pa\u00edses \u00e1rabes, a maioria da popula\u00e7\u00e3o jordaniana \u00e9 jovem (70% tem menos de 30 anos) e enfrenta alto desemprego (o \u00edndice oficial \u00e9 de 14%) e baixos sal\u00e1rios. Na esteira dos protestos no norte da \u00c1frica, o povo jordaniano tamb\u00e9m tem se manifestado, for\u00e7ando o rei Abdullah a substituir o primeiro-ministro, numa manobra distracionista para ganhar tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O I\u00eamen, pequeno pa\u00eds da pen\u00ednsula ar\u00e1bica com 23 milh\u00f5es de habitantes, n\u00e3o det\u00e9m reservas de petr\u00f3leo compar\u00e1veis \u00e0s de seus vizinhos. Mesmo assim, possui grande import\u00e2ncia estrat\u00e9gica, pois cerca de 3 milh\u00f5es de barris de petr\u00f3leo passam diariamente pelo estreito de Bab al-Mandab, no litoral iemenita, entre a pen\u00ednsula ar\u00e1bica e a Eti\u00f3pia, em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Europa. O pa\u00eds \u00e9 governado desde 1978 por Ali Abdullah Saleh, apoiado pelos Estados Unidos e respons\u00e1vel pela reunifica\u00e7\u00e3o do pa\u00eds (a metade sul, onde havia um regime pr\u00f3-sovi\u00e9tico, foi anexada em 1990), e enfrenta um conflito contra tribos xiitas no norte. Metade da popula\u00e7\u00e3o sobrevive com menos de US$ 2 por dia, portanto abaixo da linha de pobreza. A taxa de desemprego \u00e9 de 35%, o analfabetismo \u00e9 de 50% e 65% da popula\u00e7\u00e3o tem menos de 24 anos. Seguindo seus irm\u00e3os do norte da \u00c1frica, a popula\u00e7\u00e3o iemenita tamb\u00e9m se mobilizou e organizou v\u00e1rias manifesta\u00e7\u00f5es no in\u00edcio de fevereiro de 2011. Em resposta, o presidente Saleh seguiu os mesmos passos de seus malfadados colegas eg\u00edpcio e tunisiano, primeiro prometendo que n\u00e3o vai prolongar o mandato, depois convocando a oposi\u00e7\u00e3o tolerada a fazer parte do governo, como forma de aplacar a insatisfa\u00e7\u00e3o popular por meio de medidas democr\u00e1ticas de fachada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O L\u00edbano foi v\u00edtima de uma invas\u00e3o israelense em 2006, que terminou sem atingir sua finalidade, que era destruir o movimento Hizbollah, organiza\u00e7\u00e3o cuja base social se comp\u00f5e de refugiados palestinos. Desde ent\u00e3o o Hizbollah tem aumentado sua influ\u00eancia, a ponto de indicar ministros para o governo liban\u00eas formado em 2009. No in\u00edcio de 2011, o Hizbollah e seus aliados se retiraram da coaliz\u00e3o governante, despontando como maioria nas elei\u00e7\u00f5es seguintes e habilitando-se a indicar o chefe de governo da nova coaliz\u00e3o. Isso amea\u00e7a o delicado equil\u00edbrio entre minorias crist\u00e3s e mu\u00e7ulmanas que mant\u00e9m o governo liban\u00eas de p\u00e9 desde o fim da guerra civil dos anos 1980.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Sud\u00e3o viveu em estado de guerra civil praticamente desde sua independ\u00eancia em 1956 at\u00e9 2005, num conflito que op\u00f5e as fac\u00e7\u00f5es governantes do norte e do sul do pa\u00eds e deixou mais de 2 milh\u00f5es de mortos e 4 milh\u00f5es de refugiados. No in\u00edcio de 2011, foi realizado um referendo em que a proposta de secess\u00e3o do sul e cria\u00e7\u00e3o de um novo pa\u00eds venceu por esmagadora maioria. Mas n\u00e3o foi o desejo popular pela paz que determinou a realiza\u00e7\u00e3o do referendo e sim o desejo dos Estados Unidos de criar um governo fantoche, o qual seria um instrumento para deter o crescente controle da China sobre recursos petrol\u00edferos e minerais sudaneses.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Zimbabwe, pa\u00eds do sudeste africano rico em diamantes, \u00e9 governado desde 1980 por Robert Mugabe, que se mant\u00e9m no poder fazendo concess\u00f5es \u00e0 elite local e ao imperialismo. O n\u00edvel de vida da popula\u00e7\u00e3o tem ca\u00eddo drasticamente devido ao desemprego e \u00e0 alta dos alimentos. A expectativa de vida \u00e9 de apenas 47 anos, e 1,5 milh\u00f5es de zimbabweanos emigraram para a \u00c1frica do Sul em busca de melhores condi\u00e7\u00f5es. Desde 2008 o poder \u00e9 partilhado com o oposicionista Tsvangirai, apoiado pelo imperialismo. Nos bastidores, Mugabe luta para conseguir uma rendosa aposentadoria, assegurando o controle do campo de diamantes de Marange, cuja prospec\u00e7\u00e3o revelou um potencial de valor muito maior do que os campos atualmente em explora\u00e7\u00e3o no pa\u00eds. Manter-se no controle do tr\u00e1fico de diamantes seria sua condi\u00e7\u00e3o para deixar o poder e evitar uma guerra civil com os apoiadores de Tsvangirai. O l\u00edder da oposi\u00e7\u00e3o, origin\u00e1rio da burocracia sindical, por sua vez, n\u00e3o est\u00e1 disposto a permitir que a insatisfa\u00e7\u00e3o popular tome a forma de protestos e mobiliza\u00e7\u00f5es espont\u00e2neas, sobre as quais n\u00e3o teria controle.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Costa do Marfim passou por elei\u00e7\u00f5es presidenciais em novembro de 2010 e ambos os candidatos se declararam vencedores. O atual presidente Laurent Gbagbo, t\u00edpico pol\u00edtico africano autorit\u00e1rio e corrupto, apoiado pelas for\u00e7as armadas, se recusa a deixar o poder e acusa seu oponente Alassane Ouattara de dividir o pa\u00eds em favor de uma crescente minoria mu\u00e7ulmana. Ouattara, ex-funcion\u00e1rio do FMI e ex-ministro identificado com reformas neoliberais, foi reconhecido pelo conjunto do imperialismo como vencedor das elei\u00e7\u00f5es, e conta com tropas da ONU, da Fran\u00e7a e de pa\u00edses africanos vizinhos para revindicar o poder. As negocia\u00e7\u00f5es para um governo de coaliz\u00e3o n\u00e3o avan\u00e7am, pois os exemplos de acordos semelhantes no Quenia e no Zimbabwe, em que a instabilidade continuou, se mostraram desfavor\u00e1veis para os neg\u00f3cios do imperialismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O impasse prossegue h\u00e1 meses e j\u00e1 tem havido choques entre fac\u00e7\u00f5es rivais no interior do pa\u00eds, provocando algumas centenas de mortes e a migra\u00e7\u00e3o de alguns milhares de refugiados. Uma greve geral foi convocada por Ouattara em fins de 2010, mas teve pouca ades\u00e3o, j\u00e1 que ele conta com escasso apoio popular por estar identificado com as reformas de mercado. Uma guerra civil em 2004 quase dividiu o pa\u00eds e terminou com a interven\u00e7\u00e3o de tropas francesas, ex-pot\u00eancia colonial. Juntamente com outros governantes africanos da regi\u00e3o, que tamb\u00e9m disponibilizaram tropas, o imperialismo franc\u00eas est\u00e1 pressionando Gbagbo a renunciar, amea\u00e7ando confiscar os bens de seu cl\u00e3 no exterior e negar-lhes visto para deixar o pa\u00eds. A Costa do Marfim \u00e9 um dos maiores produtores mundiais de cacau e caf\u00e9, al\u00e9m de detentor de grandes reservas de min\u00e9rio e madeira, mas a maioria da popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o se beneficia dessas riquezas (60% est\u00e3o abaixo da linha de pobreza, a expectativa de vida \u00e9 de apenas 59 anos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A \u00c1frica do Sul, que tem sido listada entre os emergentes do mercado mundial, recebeu a Copa do Mundo em 2010, em plena celebra\u00e7\u00e3o pelos 20 anos do fim do apartheid, no que foi apresentado como uma vit\u00f3ria da democracia. Entretanto, o fim do apartheid n\u00e3o trouxe melhoria significativa para os negros, que comp\u00f5em a esmagadora maioria dos 70% de sul-africanos abaixo da linha de probreza e dos 40% desempregados. A \u00fanica melhoria foi para um min\u00fasculo setor de burocratas do CNA (Congresso Nacional Africano, o partido de Mandela), que se converteu em uma milion\u00e1ria burguesia negra, gra\u00e7as \u00e0s pol\u00edticas neoliberais aplicadas pelo partido. O pa\u00eds possui 40% das reservas mundiais de ouro. O presidente da \u00c1frica do Sul, Jacob Zuma visitou Pequim em agosto de 2010, juntamente com uma delega\u00e7\u00e3o de empres\u00e1rios, e assinou uma s\u00e9rie de acordos com o governo chin\u00eas, referentes \u00e0 explora\u00e7\u00e3o dos recursos minerais sul-africanos. Acordos desse tipo t\u00eam se tornado padr\u00e3o no continente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"center\"><b>6.4) Rela\u00e7\u00e3o entre a crise e a revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica nos pa\u00edses \u00e1rabes<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A recess\u00e3o e o desemprego na Europa fez com que v\u00e1rios pa\u00edses endurecessem as regras contra a imigra\u00e7\u00e3o vinda do norte da \u00c1frica e de outros continentes. Nessas situa\u00e7\u00f5es, os trabalhadores mais prec\u00e1rios, em geral imigrantes, s\u00e3o os primeiros a serem demitidos e tamb\u00e9m enfrentam a hostilidade generalizada, o preconceito e a persegui\u00e7\u00e3o de bandos fascistas e neonazistas. A xenofobia se converte em pol\u00edtica de Estado em pa\u00edses como a Fran\u00e7a e a It\u00e1lia. Milhares de jovens que buscavam empregos permanentes ou tempor\u00e1rios na Europa foram impedidos de entrar ou obrigados a voltar para seus pa\u00edses de origem. Assim como os nordestinos em S\u00e3o Paulo, muitos imigrantes africanos e de outros continentes estabelecidos na Europa mant\u00e9m os la\u00e7os com suas fam\u00edlias nos pa\u00edses de origem, enviam dinheiro regularmente, retornam periodicamente, etc. Quando a porta do \u201csucesso\u201d individual se fecha na Europa, a a\u00e7\u00e3o coletiva nos pa\u00edses natais \u00e9 a \u00fanica escolha que resta aos jovens.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A a\u00e7\u00e3o coletiva se manifestou finalmente como rebeli\u00e3o social na virada do ano. O mundo foi surpreendido no in\u00edcio de 2011 pelo que foi batizado de \u201cRevolu\u00e7\u00e3o de Jasmim\u201d na Tun\u00edsia. Mas as tens\u00f5es j\u00e1 vinham se acumulando no norte da \u00c1frica e Oriente M\u00e9dio h\u00e1 meses. O Egito na verdade precedeu a Tun\u00edsia, pois os protestos ocupam a pra\u00e7a Tahrir, na capital Cairo, desde meados de 2010. A queda do presidente tunisiano deu \u00e2nimo aos povos de toda essa vasta regi\u00e3o, e fez com que se lan\u00e7assem \u00e0s ruas. Protestos semelhantes se espalharam pelo Marrocos, Arg\u00e9lia, Jord\u00e2nia, I\u00eamen e Bahrein. As lutas sociais tamb\u00e9m se reavivaram fortemente em pa\u00edses j\u00e1 tensos da regi\u00e3o, como Ir\u00e3, Iraque e L\u00edbano. A mesma combina\u00e7\u00e3o explosiva de alto desemprego, infla\u00e7\u00e3o galopante, autoritarismo pol\u00edtico, corrup\u00e7\u00e3o, servilismo aos Estados Unidos e popula\u00e7\u00f5es predominantemente jovens se repete em todos esses pa\u00edses para explicar o levantamento popular.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica em processo por parte dos povos \u00e1rabes deixou o imperialismo em estado de alerta, pois a economia capitalista mundial \u00e9 cronicamente dependente do fornecimento de petr\u00f3leo do Oriente M\u00e9dio, o qual \u00e9 garantido por governos pr\u00f3-ocidentais, extremamente corruptos, autorit\u00e1rios e violent\u00edssimos na repress\u00e3o aos seus povos. Muitos desses ditadores governam h\u00e1 d\u00e9cadas e se sustentam no poder gra\u00e7as ao medo que seus aparatos de terror estatal inspiravam na popula\u00e7\u00e3o. Esse cen\u00e1rio agora come\u00e7a a mudar. Muitos desses pa\u00edses passaram por tumultos e greves por ocasi\u00e3o da alta dos pre\u00e7os dos alimentos em 2008, antes da crise mundial. Agora, com uma nova alta dos pre\u00e7os, a continuidade do desemprego e da repress\u00e3o, novos levantamentos come\u00e7am a acontecer, configurando uma revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica em alguns pa\u00edses. Mas dessa vez, em 2011, os povos \u00e1rabes miram mais alto e exigem a sa\u00edda dos odiados governantes, o que representa um salto em rela\u00e7\u00e3o aos tumultos de 2008.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O primeiro foco de revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica em processo por parte a chamar aten\u00e7\u00e3o foi o Maghreb, regi\u00e3o do norte da \u00c1frica composta por Maurit\u00e2nia, Marrocos, Sahara Ocidental, Tun\u00edsia, Arg\u00e9lia, e L\u00edbia. Esses pa\u00edses s\u00e3o ocupados por povos de variadas composi\u00e7\u00f5es \u00e9tnicas, mas s\u00e3o unificados pela l\u00edngua \u00e1rabe e pela religi\u00e3o mu\u00e7ulmana. Todos partilham tamb\u00e9m um passado de ocupa\u00e7\u00e3o imperialista, especialmente por parte de franceses e ingleses. Desde meados do s\u00e9culo XX, esses pa\u00edses, como o restante do mundo colonial, se tornaram formalmente independentes, mas mantiveram-se submetidos \u00e0 pol\u00edtica imperialista, aos interesses das transnacionais das antigas metr\u00f3poles e ao imperativo de reprimir suas popula\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em alguns deles, como o Egito, chegou-se a ensaiar um movimento nacionalista, sob a lideran\u00e7a de Gamal Abdel Nasser, militar que nacionalizou o canal de Suez, enfrentando o imperialismo anglo-franc\u00eas, dentro do contexto do movimento dos chamados \u201cpa\u00edses n\u00e3o-alinhados\u201d (supostamente equidistantes em rela\u00e7\u00e3o aos Estados Unidos e URSS). Entretanto, o nacionalismo \u00e1rabe gradualmente se dobrou ao imperialismo. O sucessor de Nasser no Egito, Anwar Sadat, foi o primeiro governante \u00e1rabe a assinar um tratado reconhecendo Israel. Sadat foi assassinado em 1981 e sucedido por Hosni Mubarak, que se manteve no poder at\u00e9 2011. No final das contas, as ditaduras nacionalistas serviram apenas para reprimir a oposi\u00e7\u00e3o de esquerda, virtualmente exterminada, e abrir caminho para os fundamentalistas isl\u00e2micos, a principal forma de oposi\u00e7\u00e3o conhecida no mundo \u00e1rabe. Entretanto, esse cen\u00e1rio est\u00e1 mudando, pois uma nova forma de oposi\u00e7\u00e3o popular, oper\u00e1ria e da juventude, onde a influ\u00eancia do fundamentalismo isl\u00e2mico \u00e9 minorit\u00e1ria, est\u00e1 emergindo das lutas recentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"center\"><b>6.5) Tarefas da revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica em curso<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Est\u00e1 em curso um processo de revolu\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas com a queda de ditaduras de d\u00e9cadas sustentadas pelo imperialismo e ao mesmo tempo seus agentes na regi\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1) Os elementos desse ciclo, com express\u00f5es mais ou menos avan\u00e7adas de pa\u00eds para pa\u00eds, s\u00e3o:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; A queda brusca de ditaduras hist\u00f3ricas a partir da a\u00e7\u00e3o direta e da organiza\u00e7\u00e3o das massas;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Participa\u00e7\u00e3o dos setores da classe trabalhadora no processo;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; A crise e divis\u00e3o das for\u00e7as armadas com a dificuldade para a repress\u00e3o direta aos movimentos;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; A conquista de v\u00e1rias liberdades democr\u00e1ticas e de organiza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores e das massas em geral;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; A transi\u00e7\u00e3o mais ou menos r\u00e1pida para regimes democr\u00e1tico-burgueses com a realiza\u00e7\u00e3o de elei\u00e7\u00f5es. Mesmo no caso do Egito, em que as for\u00e7as armadas assumem o poder pol\u00edtico atrav\u00e9s da junta militar, est\u00e3o marcadas elei\u00e7\u00f5es para a constitui\u00e7\u00e3o de um governo civil e para o parlamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2) Mesmo estando desprovido de uma consci\u00eancia socialista e de dire\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias, esse processo abre uma nova situa\u00e7\u00e3o nesses pa\u00edses do Oriente M\u00e9dio e Norte da \u00c1frica, com melhores condi\u00e7\u00f5es para a luta e a organiza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores, agora diretamente contra a burguesia e a domina\u00e7\u00e3o imperialista que tende a permanecer. Essa situa\u00e7\u00e3o est\u00e1 ligada \u00e0 eclos\u00e3o da crise a partir de 2008.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os problemas estruturais, contudo, n\u00e3o foram resolvidos. A partir de agora as lutas tendem a se travar entre os trabalhadores e a burguesia, com a polariza\u00e7\u00e3o de classe tomando uma dimens\u00e3o maior, que combinado \u00e0s liberdades democr\u00e1ticas conquistadas tende a desenvolver um processo de organiza\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora e seus organismos de luta, como sindicatos, etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No entanto, a caracteriza\u00e7\u00e3o de que se trata de revolu\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas ao mesmo tempo busca apontar os limites desse processo. Com a mudan\u00e7a para regimes democr\u00e1tico-burgueses combinada com a profunda crise de alternativas socialistas, tende a haver a divis\u00e3o dos setores que protagonizaram essas revolu\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas, devido \u00e0 capacidade da democracia burguesa de diluir, cooptar e se contrapor \u00e0s necessidades de luta da classe trabalhadora contra a burguesia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As tarefas democr\u00e1ticas, apesar de conquistadas em boa medida, n\u00e3o est\u00e3o consolidadas e nem foram plenamente atingidas, assim como outras revolu\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas na Am\u00e9rica Latina, por exemplo. Assim, colocam-se as seguintes tarefas para o pr\u00f3ximo per\u00edodo:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">a)Consolidar e expandir ao m\u00e1ximo o processo de conquistas democr\u00e1ticas a partir da manuten\u00e7\u00e3o da mobiliza\u00e7\u00e3o das massas;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">b)Avan\u00e7ar num processo de lutas e organiza\u00e7\u00e3o independentes da classe trabalhadora por suas demandas direcionadas contra a burguesia e o Estado burgu\u00eas;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">c) a necessidade de uma nova revolu\u00e7\u00e3o, desta vez socialista, sustentada nos organismos da classe trabalhadora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"center\"><b>7) Am\u00e9rica Latina<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois do Oriente M\u00e9dio, as maiores reservas mundiais de petr\u00f3leo se encontram na Am\u00e9rica Latina. Somente na Venezuela s\u00e3o estimados 500 bilh\u00f5es de barris, fora os 100 bilh\u00f5es localizados nas bacias que j\u00e1 est\u00e3o em explora\u00e7\u00e3o (ALAI, 14\/02\/2011). Al\u00e9m do petr\u00f3leo, a Am\u00e9rica Latina tamb\u00e9m \u00e9 o maior produtor mundial de biocombust\u00edveis, com o Brasil sozinho produzindo 45% do total mundial. Para al\u00e9m dos combust\u00edveis tradicionais, o continente possui 80% das reservas mundialmente conhecidas de l\u00edtio, metal de alt\u00edssima import\u00e2ncia, foco das atuais pesquisas em gera\u00e7\u00e3o de energia nuclear por fus\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O l\u00edtio, juntamente com o colt\u00e1n (min\u00e9rio cujas maiores reservas est\u00e3o na \u00c1frica, mas que tamb\u00e9m foi localizado na Venezuela), tamb\u00e9m possui a propriedade de armazenar energia, o que o torna fundamental para as ind\u00fastrias que concentram a maior parte do desenvolvimento tecnol\u00f3gico atual e futuro, desde a fabrica\u00e7\u00e3o de microchips at\u00e9 a de carros el\u00e9tricos com baterias de longa dura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As reservas de petr\u00f3leo, min\u00e9rios, biodiversidade, terras f\u00e9rteis e \u00e1gua doce da Am\u00e9rica Latina t\u00eam enorme import\u00e2ncia estrat\u00e9gica. O acesso a tais reservas \u00e9 uma quest\u00e3o vital para o imperialismo e deve se tornar ainda mais crucial na medida em que se tornar mais premente a necessidade da transi\u00e7\u00e3o da matriz energ\u00e9tica baseada em combust\u00edveis f\u00f3sseis para as fontes de energia alternativa. A Am\u00e9rica Latina possui tanto reservas de petr\u00f3leo e biocombust\u00edveis quanto potenciais de aproveitamento de fontes renov\u00e1veis (solar, hidrel\u00e9trica, e\u00f3lica, etc.), o que a tornar\u00e1 um alvo cada vez mais importante dos interesses imperialistas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O ressurgimento na Europa das greves gerais, greves nacionais de categorias, grandes manifesta\u00e7\u00f5es, greves com a\u00e7\u00f5es de massa e a\u00e7\u00f5es radicais como piquetes, ocupa\u00e7\u00f5es de f\u00e1bricas e bloqueios de estradas, recoloca em seus devidos patamares a discuss\u00e3o sobre as alternativas da classe trabalhadora. O in\u00edcio do despertar do proletariado europeu faz empalidecer o outrora festejado e colorido espectro de \u201calternativas\u201d pol\u00edticas latino-americanas, agrupadas em torno da refer\u00eancia do chavismo e seus cong\u00eaneres nacionalistas burocr\u00e1ticos. A quest\u00e3o da independ\u00eancia de classe como fundamento para a constru\u00e7\u00e3o de uma alternativa socialista revolucion\u00e1ria demonstra a sua import\u00e2ncia crucial diante da fal\u00eancia das diversas vertentes da \u201cesquerda\u201d latino-americana agrupadas em torno do chamado \u201csocialismo do s\u00e9culo XXI\u201d, que est\u00e3o passando para o segundo plano da luta de classes mundial. A crise econ\u00f4mica p\u00f4s a nu a mis\u00e9ria pol\u00edtica e ideol\u00f3gica do projeto bolivariano, quando Hugo Ch\u00e1vez apareceu em rede de TV para pedir aos venezuelanos que comprem \u201cprodutos socialistas\u201d (chineses).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A incapacidade dos governos nacionalistas burocr\u00e1ticos de romper com o capitalismo faz com que n\u00e3o consigam avan\u00e7ar em melhorias nas condi\u00e7\u00f5es de vida dos trabalhadores. As medidas assistencialistas esgotam seu limite e produzem a queda no respaldo e na popularidade de tais governantes. Nas elei\u00e7\u00f5es parlamentares de setembro Ch\u00e1vez n\u00e3o obteve a maioria que desejava para as mudan\u00e7as constitucionais. Os partidos chavistas chegaram a 5,4 milh\u00f5es de votos, ou 48%, contra 5,6 milh\u00f5es (52%) dos partidos de oposi\u00e7\u00e3o. Gra\u00e7as ao sistema de circunscri\u00e7\u00f5es eleitorais, o chavismo ter\u00e1 98 cadeiras no parlamento, contra 67 da oposi\u00e7\u00e3o, ainda uma grande maioria, mas insuficiente para mudan\u00e7as constitucionais. Al\u00e9m disso, essa vota\u00e7\u00e3o representa uma queda brutal em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 m\u00e9dia de 60 a 63% do eleitorado que apoiou Ch\u00e1vez e seus partid\u00e1rios nas 12 elei\u00e7\u00f5es e referendos desde sua primeira elei\u00e7\u00e3o em 1998. Esse resultado animou a direita, que volta a sonhar com as elei\u00e7\u00f5es presidenciais de 2012.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No Chile, a presidente \u201csocialista\u201d Michele Bachelet, que contava com os mesmos 80% de popularidade de Lula no Brasil, n\u00e3o conseguiu transferir seus votos para o candidato do Partido Socialista, entregando o cargo para o opositor da direita tradicional, Sebastian Pi\u00f1era. Esses desenvolvimentos desmentem a tese de que \u00e9 preciso apoiar os governos nacionalistas burocr\u00e1ticos para evitar a volta da direita, pois tais governos, ao n\u00e3o se enfrentar com o capital, s\u00e3o incapazes de trazer melhorias substanciais e duradouras nas condi\u00e7\u00f5es de vida da popula\u00e7\u00e3o. Com a continuidade da explora\u00e7\u00e3o capitalista e da mis\u00e9ria da grande maioria da popula\u00e7\u00e3o, a oposi\u00e7\u00e3o de direita tem um amplo terreno a explorar para readquirir base eleitoral.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m das elei\u00e7\u00f5es, a direita latino-americana e o imperialismo estadunidense contam sempre com o recurso dos golpes de Estado, como o que foi executado em Honduras, cujo presidente, um burgu\u00eas latifundi\u00e1rio, amea\u00e7ava aproximar-se do chavismo. O golpe foi tratado de maneira duplipensada pelo imperialismo, que emitiu as condena\u00e7\u00f5es formais de praxe, mas respaldou o novo governo surgido de elei\u00e7\u00f5es fraudulentas encenadas em plena vig\u00eancia do regime golpista ilegal. O presidente deposto, como bom burgu\u00eas, capitulou ao novo governo e a resist\u00eancia popular hondurenha ficou desarmada no enfrentamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os dirigentes nacionalistas burocr\u00e1ticos latino-americanos, mesmo os que surgiram e se respaldaram em impressionantes processos de luta e mobiliza\u00e7\u00e3o popular, t\u00eam como caracter\u00edstica a capitula\u00e7\u00e3o \u00e0 direita no momento dos enfrentamentos decisivos, como as tentativas de golpe, pois n\u00e3o podem avan\u00e7ar contra sua pr\u00f3pria classe social. N\u00e3o podem admitir o armamento dos trabalhadores para se defender da contra-revolu\u00e7\u00e3o direitista e fascista, pois isso poderia permitir o surgimento de organismos oper\u00e1rios de duplo poder capazes de fazer frente ao Estado burgu\u00eas e ultrapass\u00e1-lo. A debilidade pol\u00edtica das for\u00e7as de esquerda do continente permite a reorganiza\u00e7\u00e3o da direita, que avan\u00e7a na Col\u00f4mbia rumo ao esmagamento da insurg\u00eancia das FARC, projetando a constitui\u00e7\u00e3o de um Estado policial fascista pronto para reprimir as lutas dos trabalhadores por meio de for\u00e7as legais e ilegais, como os para-militares.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Col\u00f4mbia \u00e9 a principal cabe\u00e7a-de-ponte dos Estados Unidos no continente, com a cess\u00e3o de nada menos do que 7 bases militares para as for\u00e7as armadas estadunidenses, que l\u00e1 interv\u00e9m sob o pretexto de \u201ccombater as drogas\u201d. Enquanto o consumo de drogas permanece proibido, mas florescente em todo o mundo, as economias ilegais ligadas ao tr\u00e1fico prosperam. A coca\u00edna sobe de US$ 600 a tonelada nas zonas produtoras para US$ 25.000 no consumo. Essas \u00e1reas produtoras ocupam 200 mil hectares e empregam meio milh\u00e3o de pessoas na Col\u00f4mbia, Peru e Bol\u00edvia. Sob o pretexto de combate \u00e0s drogas e \u00e0 insurg\u00eancia das FARC, o governo colombiano, os agentes militares estadunidenses e tamb\u00e9m os para-militares de extrema-direita sistematicamente matam lideran\u00e7as populares, camponesas e sindicais que tentam organizar a popula\u00e7\u00e3o local.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A viol\u00eancia contra os trabalhadores produz o fen\u00f4meno dos refugiados, que se deslocam para os pa\u00edses vizinhos, como Equador e Venezuela, tamb\u00e9m pobres, onde encontram dificuldades para reconstruir suas vidas. Ao todo h\u00e1 4 milh\u00f5es de colombianos vivendo no Equador e na Venezuela como refugiados, em situa\u00e7\u00e3o extremamente prec\u00e1ria. A fumiga\u00e7\u00e3o de \u00e1reas de plantio de coca com herbicidas tem arruinado a economia agr\u00edcola na Col\u00f4mbia e tamb\u00e9m no Equador. O interesse dos Estados Unidos em derrotar os governos de Ch\u00e1vez na Venezuela e Correa no Equador tem levado os dois pa\u00edses \u00e0 beira do confronto militar com a Col\u00f4mbia. A amea\u00e7a de guerra tamb\u00e9m d\u00e1 a Ch\u00e1vez e Correa, por sua vez, o pretexto para militarizar as zonas de fronteira com a Col\u00f4mbia, reprimindo as popula\u00e7\u00f5es locais e impedindo sua auto-organiza\u00e7\u00e3o para lutar contra a presen\u00e7a de transnacionais estrangeiras, em especial as mineradoras, petrol\u00edferas e empreiteiras (inclusive brasileiras) no Equador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao mesmo tempo em que n\u00e3o tem for\u00e7a para contestar os interesses do imperialismo, nem sequer de seus s\u00f3cios da burguesia brasileira, ou nem mesmo a l\u00fampen-burguesia da droga, o nacionalismo burocr\u00e1tico exerce a repress\u00e3o contra os trabalhadores, camponeses e povos origin\u00e1rios nos seus pa\u00edses, impedindo-os de se organizarem autonomamente. E o que \u00e9 pior, esse comportamento conta com o benepl\u00e1cito da esquerda latino-americana, ainda seduzida pela ret\u00f3rica \u201cradical\u201d da \u201crevolu\u00e7\u00e3o bolivariana\u201d. A confus\u00e3o ideol\u00f3gica dos movimentos populares latino-americanos faz com que mantenham lealdade pol\u00edtica para com dirigentes como os irm\u00e3os Castro (que est\u00e3o restaurando o capitalismo em Cuba num estilo semelhante ao da China), ou o presidente equatoriano Rafael Correa, que durante todo seu mandato favoreceu as empresas de minera\u00e7\u00e3o e empreiteiras estrangeiras (inclusive brasileiras) contra as organiza\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas amaz\u00f4nicas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por falar em Brasil, a gest\u00e3o de Lula foi mundialmente reconhecida pela burguesia como modelo de sucesso pelo seu tratamento da crise econ\u00f4mica, mas tamb\u00e9m por todo um mandato exemplar em termos de amortecimento dos conflitos sociais. Ao desviar uma parte \u00ednfima da renda do Estado para programas assistencialistas, Lula construiu uma base eleitoral s\u00f3lida para si e seu partido, que pode durar por d\u00e9cadas no poder. Ao mesmo tempo, n\u00e3o descuidou de cevar os setores mais importantes da burguesia nacional e internacional, como o capital financeiro (a d\u00edvida p\u00fablica brasileira j\u00e1 passa de R$ 1,8 trilh\u00e3o), os bancos, o agroneg\u00f3cio, as montadoras e empreiteiras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tendo essas prioridades no or\u00e7amento, o governo Lula precisa sucatear os servi\u00e7os p\u00fablicos, o que implica em reduzir os gastos de pessoal, principalmente dos funcion\u00e1rios das estatais, o que por sua vez exige cooptar a burocracia sindical para impedir qualquer mobiliza\u00e7\u00e3o independente desses setores. A CUT foi praticamente integrada ao aparelho do Estado e desenvolve uma pol\u00edtica de franca trai\u00e7\u00e3o de classe, colabora\u00e7\u00e3o com a burguesia, implementa\u00e7\u00e3o de ataques e acordos rebaixados contra os trabalhadores e conten\u00e7\u00e3o de suas lutas por meio do controle institucional do aparato dos sindicatos. Esse mesmo procedimento de coopta\u00e7\u00e3o e conten\u00e7\u00e3o das lutas \u00e9 usado com os demais movimentos sociais, como os movimentos de sem terras, sem tetos, estudantes, movimento negro, e outros, antes combativos, hoje convertidas em correias de transmiss\u00e3o do PT, em ONGs, etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um crescimento econ\u00f4mico artificial impulsionado pela explos\u00e3o do cr\u00e9dito e do endividamento dos trabalhadores foi a receita da \u201cestabilidade\u201d econ\u00f4mica da era Lula, que deve ainda ter f\u00f4lego para prosseguir ao longo do mandato de Dilma Roussef. Esse sucesso, do ponto de vista da burguesia, deu a Lula proje\u00e7\u00e3o internacional, sacramentada pela escolha do Brasil para sede da Copa do Mundo em 2014 e 2016, o que deve manter os holofotes no pa\u00eds por mais alguns anos. A proje\u00e7\u00e3o de Lula \u00e9 importante para conter as veleidades esquerdistas de outros l\u00edderes latino-americanos, que passam a t\u00ea-lo como modelo e girar politicamente para a direita sem nenhum peso na consci\u00eancia. Uma \u00faltima palavra em rela\u00e7\u00e3o ao \u201csucesso\u201d do governo Lula: a taxa de desemprego de cerca de 9% que \u00e9 festejada como baixa no Brasil \u00e9 considerada catastr\u00f3fica nos Estados Unidos, estando inclusive no centro do debate das elei\u00e7\u00f5es parlamentares que acontecer\u00e3o em novembro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"center\"><b>8) Principais eixos pol\u00edticos<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A crise mundial iniciada em 2008 ainda n\u00e3o est\u00e1 superada no plano da economia. H\u00e1 sinais de recupera\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o e do com\u00e9rcio nos Estados Unidos e na Europa, mas que ainda n\u00e3o chegaram aos n\u00edveis pr\u00e9-crise. Al\u00e9m disso, a crise que estamos atravessando n\u00e3o \u00e9 apenas uma crise econ\u00f4mica, mas uma crise societal, ou seja, uma crise do modo de produ\u00e7\u00e3o social em suas v\u00e1rias esferas. Os impactos sociais, pol\u00edticos e culturais da crise econ\u00f4mica s\u00e3o por demais severos para que se possa dizer que o mundo retornou \u00e0 \u201cnormalidade\u201d pr\u00e9-crise. Seguiremos convivendo com esses impactos no pr\u00f3ximo per\u00edodo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A crise atual j\u00e1 produziu suas \u201cargentinas\u201d, ou seja, pa\u00edses fortemente afetados em que, como no vizinho platino em 2001, o grau de insatisfa\u00e7\u00e3o social chegou ao ponto de colocar milh\u00f5es de pessoas nas ruas para derrubar os governos. A diferen\u00e7a \u00e9 que, desta vez, os povos se levantam contra governos muito mais duros, ditaduras que j\u00e1 duravam d\u00e9cadas, que pareciam s\u00f3lidas e inquestion\u00e1veis, em pa\u00edses com uma import\u00e2ncia estrat\u00e9gica maior para o imperialismo do que os da Am\u00e9rica do Sul.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m disso, no pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o do imperialismo, o ataque \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de vida dos trabalhadores, necess\u00e1rio para que os governos possam recompor os or\u00e7amentos dilacerados pelo salvamento da burguesia, colocou esses trabalhadores nas ruas tamb\u00e9m nos pa\u00edses centrais. A Europa j\u00e1 enfrentou greves gerais na Fran\u00e7a, Espanha e Portugal, mobiliza\u00e7\u00f5es em diversos pa\u00edses, e um estado quase permanente de enfrentamento na Gr\u00e9cia, em que quase dez greves gerais fort\u00edssimas se sucederam desde meados de 2010. Agora, a classe trabalhadora come\u00e7a a se mover at\u00e9 mesmo nos Estados Unidos, que h\u00e1 d\u00e9cadas, desde o in\u00edcio do governo Reagan, n\u00e3o assistiam a processos de mobiliza\u00e7\u00e3o t\u00e3o grandes como o que est\u00e1 acontecendo nos estados de Wisconsin, Minnesota, Ohio, Indiana e Pensilvania, com marchas de mais de dezenas de milhares de servidores, apoiados pela popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, por mais que os lucros da burguesia tenham retornado, e que aos poucos, nos pr\u00f3ximos anos, se reinicie um novo ciclo de crescimento, o que ainda n\u00e3o est\u00e1 claramente colocado, as conseq\u00fc\u00eancias da crise continuar\u00e3o provocando um acirramento da luta de classes, com dificuldades pol\u00edticas enormes para a burguesia seguir administrando a crise estrutural. O mundo j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 o mesmo depois do retorno das lutas sociais nos pa\u00edses imperialistas e da colossal revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica em processo por parte dos povos \u00e1rabes. Houve uma mudan\u00e7a de qualidade importante, o retorno das mobiliza\u00e7\u00f5es de massa dos povos e da classe trabalhadora, que derrubam governos e chegam a fazer tremer as estruturas do regime burgu\u00eas em v\u00e1rios pa\u00edses.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"center\"><b>8.1) Rivalidades interimperialistas, guerras, invas\u00f5es, golpes de Estado, militariza\u00e7\u00e3o<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A necessidade de cada governo nacional de salvar os neg\u00f3cios da sua burguesia leva ao agravamento das rivalidades e tens\u00f5es pol\u00edticas, que em \u00faltima inst\u00e2ncia s\u00f3 se resolvem pela guerra. As guerras entre Estados imperialistas n\u00e3o est\u00e3o totalmente descartadas, mas o mais prov\u00e1vel \u00e9 a ocorr\u00eancia de guerras, invas\u00f5es e interven\u00e7\u00f5es do imperialismo contra pa\u00edses perif\u00e9ricos. O imperialismo, em especial o estadunidense, que responde sozinho por metade dos gastos militares do planeta e concentra um poder de destrui\u00e7\u00e3o apocal\u00edptico, se arvora no direito de fiscalizar o poder militar de outros pa\u00edses, e de intervir militarmente para defender os interesses das suas corpora\u00e7\u00f5es, em nome da \u201cdemocracia\u201d, da \u201cciviliza\u00e7\u00e3o\u201d, da \u201cpaz\u201d. \u00c9 preciso denunciar e combater as invas\u00f5es imperialistas em qualquer territ\u00f3rio, sob os pretextos de \u201cguerra ao terror\u201d, \u201cguerra \u00e0s drogas\u201d, interven\u00e7\u00f5es \u201chumanit\u00e1rias\u201d, miss\u00f5es \u201cde paz\u201d, contra a \u201cprolifera\u00e7\u00e3o nuclear\u201d e as \u201carmas de destrui\u00e7\u00e3o em massa\u201d, etc. A luta contra as interven\u00e7\u00f5es militares imperialistas e a solidariedade \u00e0 resist\u00eancia dos povos n\u00e3o significa por sua vez deixar de se diferenciar politicamente das for\u00e7as de resist\u00eancia de tipo terrorista, fundamentalista, nacionalista-burgu\u00eas, nem deixar de lutar pela perspectiva da auto-defesa e auto-organiza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores rumo \u00e0 tomada do poder.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Direito \u00e0 auto-determina\u00e7\u00e3o dos povos. Que os povos de cada pa\u00eds sejam livres para decidir seu destino, sem a interfer\u00eancia de outros Estados!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Fora todas as tropas de ocupa\u00e7\u00e3o imperialista ou a seu servi\u00e7o em qualquer territ\u00f3rio. Retirada dos Estados Unidos do Iraque e do Afeganist\u00e3o. Contra os bombardeios no Paquist\u00e3o e contra a invas\u00e3o do Ir\u00e3! Fora Israel de Gaza e da Cisjord\u00e2nia. Destrui\u00e7\u00e3o do muro que isola os povos palestinos. Fora tropas de ocupa\u00e7\u00e3o, inclusive do Brasil, do Haiti e do L\u00edbano. Retirada de todas as bases militares estrangeiras. Retirada das bases militares estadunidenses de todos os pa\u00edses. Retirada das bases da OTAN do leste europeu. Expuls\u00e3o dos agentes de espionagem e de contra-informa\u00e7\u00e3o imperialistas e burgueses.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Defesa da soberania dos pa\u00edses, considerados pelos EUA como \u201cEixo do Mal\u201d (Ir\u00e3, Cor\u00e9ia do Norte e Cuba). Contra qualquer san\u00e7\u00e3o, retalia\u00e7\u00e3o ou invas\u00e3o a esses pa\u00edses, o que n\u00e3o significa o apoio \u00e0s dire\u00e7\u00f5es pol\u00edticas desses pa\u00edses.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Contra as tentativas de golpe, mudan\u00e7a de regime e subvers\u00e3o patrocinadas pelo imperialismo em qualquer pa\u00eds!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Todos os povos t\u00eam o direito de defender seu territ\u00f3rio. Nenhum povo pode ser obrigado a se desarmar enquanto as pot\u00eancias imperialistas dispuserem de arsenais nucleares e de destrui\u00e7\u00e3o de massa e de sistemas de espionagem e contra-informa\u00e7\u00e3o imperialistas e burgueses.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Desarmamento de todas as pot\u00eancias nucleares. Desmantelamento dos arsenais de armas de destrui\u00e7\u00e3o em massa. Desmantelamento das armas nucleares, das armas qu\u00edmicas e bacteriol\u00f3gicas. Desmantelamento dos sistemas de espionagem e contra-informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Puni\u00e7\u00e3o a todos os criminosos de guerra em tribunais internacionais dos trabalhadores, independentemente do pa\u00eds de origem. Fim da tortura e puni\u00e7\u00e3o para todos os seus praticantes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Dissolu\u00e7\u00e3o do Estado de Israel. Por um Estado laico, democr\u00e1tico e que congregue o proletariado multi-\u00e9tnico no territ\u00f3rio da Palestina. Por uma confedera\u00e7\u00e3o socialista do Oriente M\u00e9dio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Soberania inviol\u00e1vel de todas as na\u00e7\u00f5es. Cada povo \u00e9 senhor de seu territ\u00f3rio e das riquezas correspondentes e tem o direito de dispor sobre elas como melhor atender suas necessidades. Solidariedade aos povos dos pa\u00edses com recursos escassos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"center\"><b>8.2) Repress\u00e3o e criminaliza\u00e7\u00e3o dos movimentos sociais<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m da guerra externa contra outros Estados visando a espolia\u00e7\u00e3o de suas riquezas, o Estado capitalista em crise tende a intensificar tamb\u00e9m as medidas de \u201cguerra interna\u201d contra os trabalhadores. Recrudesce a repress\u00e3o policial e judicial, as leis anti-sindicais, leis contra os piquetes de greve, interditos proibit\u00f3rios, reintegra\u00e7\u00f5es de posse contra as ocupa\u00e7\u00f5es, persegui\u00e7\u00e3o judicial e administrativa contra os militantes e ativistas, a restri\u00e7\u00e3o aos direitos democr\u00e1ticos, a criminaliza\u00e7\u00e3o dos movimentos sociais, a criminaliza\u00e7\u00e3o da pobreza, o crescimento do aparato policial e repressivo, \u00a0a espionagem telef\u00f4nica e eletr\u00f4nica, a monitora\u00e7\u00e3o dos espa\u00e7os p\u00fablicos por circuitos de TV, monitora\u00e7\u00e3o via sat\u00e9lite, etc. Quando esse golpe de Estado \u201csilencioso\u201d ou a \u201cconta-gotas\u201d se mostra insuficiente, a burguesia pode apelar para os golpes de Estado propriamente ditos, como atestam os casos de Honduras e Equador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Em defesa dos direitos democr\u00e1ticos dos trabalhadores! Pelo direito de ir e vir, liberdade de reuni\u00e3o e de organiza\u00e7\u00e3o, liberdade de express\u00e3o, pelo direito de recorrer \u00e0 justi\u00e7a, direito ao habeas corpus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Pelo direito de greve, pela liberdade de organiza\u00e7\u00e3o sindical independente da tutela do Estado, pela estabilidade, inviolabilidade e inamovibilidade dos dirigentes sindicais!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Pelo direito \u00e0 manifesta\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Contra a criminaliza\u00e7\u00e3o dos movimentos sociais, contra as puni\u00e7\u00f5es judiciais e administrativas aos militantes e ativistas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Contra a criminaliza\u00e7\u00e3o da pobreza, contra a viol\u00eancia policial, contra a opress\u00e3o carcer\u00e1ria! Puni\u00e7\u00e3o para o abuso de autoridade, para a tortura e a corrup\u00e7\u00e3o policial!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"center\"><b>8.3) Fascistiza\u00e7\u00e3o social, neonazismo, racismo, xenofobia, homofobia, reorganiza\u00e7\u00e3o da ultra-direita<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m das medidas estatais de guerra contra os trabalhadores, a burguesia conta ainda com os movimentos de extrema-direita, as diversas ideologias fascistas, neonazistas, rascistas, anti-isl\u00e2micas, \u201canti-pobres\u201d, cujos seguidores se atiram contra os imigrantes, os pobres, os negros, os africanos, asi\u00e1ticos, latino-americanos, as minorias \u00e9tnicas, religiosas, ling\u00fc\u00edsticas, os homossexuais, militantes, etc. O \u00f3rg\u00e3o da ONU para migra\u00e7\u00f5es calcula em 200 milh\u00f5es o n\u00famero de trabalhadores vivendo fora de seus pa\u00edses. 5 milh\u00f5es o fizeram em raz\u00e3o de conflitos pol\u00edticos, guerras e amea\u00e7as de genoc\u00eddio. Por isso coloca-se na ordem do dia a defesa dos direitos democr\u00e1ticos, a reconstru\u00e7\u00e3o da solidariedade de classe e do internacionalismo prolet\u00e1rio, pela unidade da classe contra a rea\u00e7\u00e3o fascista da burguesia, pelo direito \u00e0 livre locomo\u00e7\u00e3o da for\u00e7a do trabalho, pelos direitos dos imigrantes e pelo acesso aos direitos e servi\u00e7os sociais para todos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Contra os movimentos fascistas e de extrema-direita, contra a xenofobia, o racismo e a homofobia, contra o fundamentalismo crist\u00e3o, isl\u00e2mico ou sionista!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Solidariedade \u00e0s lutas dos trabalhadores em todos os cen\u00e1rios onde elas s\u00e3o travadas, independentemente de qual seja o pa\u00eds, religi\u00e3o, etnia ou g\u00eanero dos envolvidos!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Fim de qualquer persegui\u00e7\u00e3o em fun\u00e7\u00e3o de cren\u00e7as religiosas, tra\u00e7os culturais, cor da pele, homossexualidade!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Igualdade de direitos para homens e mulheres!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Livre circula\u00e7\u00e3o dos trabalhadores pelas fronteiras de qualquer pa\u00eds. Fim da persegui\u00e7\u00e3o aos imigrantes, plena integra\u00e7\u00e3o \u00e0s sociedades onde vivem, direito ao trabalho, livre acesso a todos os servi\u00e7os sociais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Fim da xenofobia e da persegui\u00e7\u00e3o dos imigrantes!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Destrui\u00e7\u00e3o imediata do muro levantado pelo imperialismo na fronteira dos EUA com o\u00a0 M\u00e9xico, do Muro constru\u00eddo na Cisjord\u00e2nia pelo Estado de Israel, e todos os muros de exclus\u00e3o social e de domina\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Legaliza\u00e7\u00e3o de todos os imigrantes. Direitos e sal\u00e1rios dos negros e imigrantes iguais aos dos demais trabalhadores!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Fim do trabalho escravo e do tr\u00e1fico de seres humanos! Fim do trabalho infantil!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Fim da explora\u00e7\u00e3o sexual de mulheres e crian\u00e7as! Fim da explora\u00e7\u00e3o sexual de transexuais, homossexuais e travestis!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"center\"><b>8.4) Ataques aos direitos e conquistas sociais dos trabalhadores<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As guerras, golpes de Estado, aumento da repress\u00e3o e fascistiza\u00e7\u00e3o social s\u00e3o o recurso extremo da burguesia para impor seus interesses. O outro recurso s\u00e3o os instrumentos legais do Estado para legitimar uma gigantesca opera\u00e7\u00e3o de confisco social. A necessidade do Estado burgu\u00eas de arrecadar dinheiro para cobrir o endividamento deixado pelos pacotes de salvamento da burguesia financeira coloca na al\u00e7a de mira os direitos e conquistas sociais da classe trabalhadora. A defesa dessas conquistas precisa avan\u00e7ar a ponto de ser capaz de derrotar os planos de austeridade aprovados nos parlamentos burgueses.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Contra os ataques da burguesia aos direitos dos trabalhadores! Defesa dos empregos, dos sal\u00e1rios, dos benef\u00edcios, das condi\u00e7\u00f5es de trabalho, dos servi\u00e7os p\u00fablicos e das conquistas sociais dos trabalhadores do mundo inteiro!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Contra as medidas de \u201causteridade\u201d dos governos capitalistas, os cortes nos gastos sociais, aumentos de impostos e reformas da legisla\u00e7\u00e3o trabalhista!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Regulamenta\u00e7\u00e3o dos direitos trabalhistas para todos os trabalhadores do mundo: dura\u00e7\u00e3o da jornada, condi\u00e7\u00f5es de trabalho, sal\u00e1rio m\u00ednimo, que garantam as necessidades b\u00e1sicas de vida digna ao trabalhador!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Redu\u00e7\u00e3o da jornada de trabalho sem redu\u00e7\u00e3o de sal\u00e1rio, para garantir o pleno emprego!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; N\u00e3o ao confisco das propriedades dos trabalhadores e da classe m\u00e9dia. Anula\u00e7\u00e3o das d\u00edvidas dos trabalhadores e da classe m\u00e9dia com os bancos!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"center\"><b>8.5) Especula\u00e7\u00e3o, endividamento e divis\u00e3o mundial do trabalho<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os pacotes de salvamento revelam a identidade do Estado como engrenagem do capitalismo a servi\u00e7o da burguesia, com a fun\u00e7\u00e3o de privatizar os lucros e socializar os preju\u00edzos. Os pacotes de salvamento das institui\u00e7\u00f5es financeiras na crise atual s\u00e3o um cl\u00e1ssico exemplo desse processo. Essas opera\u00e7\u00f5es deixam como rastro d\u00edvidas p\u00fablicas gigantescas, que tornam os Estados nacionais presas f\u00e1ceis de opera\u00e7\u00f5es especulativas, que exigem juros cada vez mais elevados pela aquisi\u00e7\u00e3o de seus t\u00edtulos, que se tornam assim cada vez mais impag\u00e1veis. Essas d\u00edvidas servem ainda como pretexto para atacar as condi\u00e7\u00f5es de vida dos trabalhadores. Os pa\u00edses centrais imp\u00f5em sobre os perif\u00e9ricos o pagamento de d\u00edvidas fraudulentas, com o agravante de juros abusivos e outras formas de extors\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Pelo n\u00e3o pagamento das d\u00edvidas fraudulentas aos especuladores burgueses!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Pela estatiza\u00e7\u00e3o e socializa\u00e7\u00e3o do sistema financeiro, sob controle dos trabalhadores!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Pelo n\u00e3o pagamento das d\u00edvidas externas e internas, contra a servid\u00e3o dos povos e dos trabalhadores ao capital financeiro. Os pa\u00edses imperialistas devem reparar os pa\u00edses colonizados e oprimidos pelos anos de saque de suas riquezas naturais e explora\u00e7\u00e3o de suas popula\u00e7\u00f5es. Indeniza\u00e7\u00e3o aos pa\u00edses africanos pelos anos de escraviza\u00e7\u00e3o dos negros, sem perder de vista a perspectiva da revolu\u00e7\u00e3o socialista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"center\"><b>8.6) O poder das empresas transnacionais<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dos aspectos centrais da mundializa\u00e7\u00e3o do capital \u00e9 a forma\u00e7\u00e3o de grandes monop\u00f3lios, empresas transnacionais com riqueza e poder superior aos pr\u00f3prios Estados nacionais, capazes de impor seus interesses sobre as popula\u00e7\u00f5es, o meio ambiente, a cultura de pa\u00edses inteiros, com a coniv\u00eancia de governos perif\u00e9ricos corruptos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Controle de cada pa\u00eds sobre os empreendimentos estrangeiros em seu territ\u00f3rio. Fim da remessa de lucros!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Repara\u00e7\u00f5es pelos Estados Unidos e demais pa\u00edses imperialistas aos pa\u00edses v\u00edtimas de crimes de guerra, pr\u00e1tica de tortura, abusos das transnacionais, crimes ambientais, crimes contra a sa\u00fade p\u00fablica, etc. , sem perder de vista a perspectiva da revolu\u00e7\u00e3o socialista<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Revoga\u00e7\u00e3o de todos os para\u00edsos fiscais, pois executam a lavagem de dinheiro da m\u00e1fia, da sonega\u00e7\u00e3o fiscal e da corrup\u00e7\u00e3o. Que todo o dinheiro depositado em contas secretas seja revertido para os pa\u00edses de origem sob controle dos trabalhadores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Estatiza\u00e7\u00e3o sob controle dos trabalhadores sem indeniza\u00e7\u00e3o, puni\u00e7\u00f5es, multas e expropria\u00e7\u00e3o das transnacionais de qualquer proced\u00eancia que violarem a legisla\u00e7\u00e3o de cada pa\u00eds, suas normas trabalhistas, ambientais, fiscais, etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"center\"><b>8.7) Os danos da crise societal<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As corpora\u00e7\u00f5es transnacionais s\u00e3o as maiores respons\u00e1veis pela destrui\u00e7\u00e3o do meio ambiente planet\u00e1rio, pela polui\u00e7\u00e3o, a desertifica\u00e7\u00e3o, a fome, as doen\u00e7as, etc. A luta contra o capitalismo \u00e9 uma luta pela pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia da humanidade e contra a destrui\u00e7\u00e3o do planeta. O socialismo \u00e9 a \u00fanica alternativa contra a barb\u00e1rie, e precisa n\u00e3o s\u00f3 reverter os processos de destrui\u00e7\u00e3o em curso, mas estabelecer em seu lugar novas formas racionais de produ\u00e7\u00e3o e consumo, e fundamentalmente, novas rela\u00e7\u00f5es humanas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Estabelecimento de metas de redu\u00e7\u00e3o da polui\u00e7\u00e3o do ar, da \u00e1gua e do solo, de reciclagem do lixo, de produ\u00e7\u00e3o org\u00e2nica e ambientalmente sustent\u00e1vel, com expropria\u00e7\u00f5es a todas as empresas que as descumprirem, com puni\u00e7\u00e3o dos respons\u00e1veis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Pelo uso racional dos recursos naturais, isto \u00e9, de acordo com as necessidades humanas, como no caso do petr\u00f3leo e da \u00e1gua.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Contra o uso de sementes transg\u00eanicas, agrot\u00f3xicos, pesticidas, horm\u00f4nios, pecu\u00e1ria intensiva e outras formas predat\u00f3rias de produ\u00e7\u00e3o de alimentos. Por uma agricultura coletiva, org\u00e2nica e ecol\u00f3gica a servi\u00e7o das necessidades dos trabalhadores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Pelo direito a soberania alimentar de todos os povos, pelo direito \u00e0s sementes, \u00e0 terra e \u00e0s fontes de \u00e1gua pot\u00e1vel. Contra a privatiza\u00e7\u00e3o das sementes, fontes de \u00e1gua, florestas e recursos naturais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Em defesa da biodiversidade, contra a destrui\u00e7\u00e3o das florestas, dos manguezais, dos corais, zonas pesqueiras, e outros ecossistemas amea\u00e7ados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Pela redu\u00e7\u00e3o do uso de combust\u00edveis f\u00f3sseis, pelo incentivo \u00e0s fontes alternativas de energia renov\u00e1vel. Prioridade para o transporte coletivo em \u00f4nibus, metr\u00f4s e trens, em lugar das obras vi\u00e1rias voltadas para o transporte individual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Quebra das patentes de medicamentos que tratam as doen\u00e7as que afetam a maioria da popula\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o gratuita, libera\u00e7\u00e3o das pesquisas com c\u00e9lulas-tronco, contra as patentes de seq\u00fc\u00eancias de DNA humano ou de outras esp\u00e9cies.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Contra o ensino do criacionismo nas escolas p\u00fablicas, pela livre difus\u00e3o do conhecimento cient\u00edfico, contra os preconceitos de ordem moral e religiosa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Direito de cada na\u00e7\u00e3o de preservar sua cultura por meio da limita\u00e7\u00e3o de entrada, sob controle dos trabalhadores, de produtos culturais estrangeiros. Subs\u00eddios para a cultura local, defesa da l\u00edngua, da literatura e da tradi\u00e7\u00e3o de seu pr\u00f3prio povo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"center\"><b>8.8) A organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dos trabalhadores<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na confer\u00eancia passada dissemos que n\u00e3o se tratava de uma simples crise econ\u00f4mica, mas que abrangia uma crise de domina\u00e7\u00e3o, social, ambiental, uma crise societal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Houve mudan\u00e7as na realidade? Os elementos de crise abrangente permaneceram, apesar de que a crise econ\u00f4mica foi contida, nos marcos da crise estrutural do capital, sendo que suas causas n\u00e3o foram resolvidas pelas medidas paliativas impulsionadas pelo conjunto dos governos e capitalistas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A caracteriza\u00e7\u00e3o que chegamos a discutir de que poderia ter se aberto uma situa\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria e a din\u00e2mica de que a crise econ\u00f4mica iria \u00e0 depress\u00e3o, mostrou-se totalmente equivocada. E isto teve conseq\u00fc\u00eancias nos ritmos da pol\u00edtica, na clarifica\u00e7\u00e3o das tarefas e na constru\u00e7\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o e do movimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A quest\u00e3o fundamental, que apesar de estar presente, n\u00e3o foi devidamente considerada, e que determina a realidade mundial, \u00e9 a contradi\u00e7\u00e3o entre os elementos objetivos e subjetivos, materializada na crise de alternativa. A utiliza\u00e7\u00e3o mec\u00e2nica e simplista de analogias com a crise de 29 levou a considerar que surgiria um ascenso revolucion\u00e1rio (o que n\u00e3o ocorreu), menosprezando a profunda crise de alternativa, que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 ideol\u00f3gica (socialista), mas mais profunda e implica na reconstru\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia da classe em si e de suas organiza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A falta de resposta do proletariado permitiu que a situa\u00e7\u00e3o se estabilizasse, no marco de que a tend\u00eancia \u00e0 instabilidade confirmou-se nas lutas que come\u00e7aram a espocar e no surgimento de movimentos\/a\u00e7\u00f5es da ultra-direita.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No in\u00edcio deste ano, surgiu um elemento novo. As mobiliza\u00e7\u00f5es contra as ditaduras no norte da \u00c1frica\/Oriente M\u00e9dio representam um salto de qualidade na disposi\u00e7\u00e3o de luta das massas, que alterou toda a situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica na regi\u00e3o, com repercuss\u00f5es mundiais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar do elemento que faltava, a disposi\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria das massas, come\u00e7ar a surgir, a crise de alternativa ainda se imp\u00f5e, fazendo com que no pr\u00f3ximo per\u00edodo n\u00e3o se resolva o problema subjetivo, que n\u00e3o \u00e9 simplesmente da dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria, mas tamb\u00e9m da consci\u00eancia do proletariado e seus organismo de luta e poder.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas houve uma mudan\u00e7a. Esta mudan\u00e7a significa que se abriram condi\u00e7\u00f5es para maiores lutas da classe trabalhadora, com maior n\u00edvel de organiza\u00e7\u00e3o de base e independ\u00eancia frente ao Estado e \u00e0s dire\u00e7\u00f5es burocr\u00e1ticas, e consequentemente melhores condi\u00e7\u00f5es de que os trabalhadores e ativistas ou\u00e7am, sejam atra\u00eddos e se envolvam nas id\u00e9ias, propostas e na constru\u00e7\u00e3o de organiza\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias que consigam ser parte impulsionadora desses processos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diante destes acontecimentos, haver\u00e1 mudan\u00e7as em toda a esquerda mundial, provocando crises e realinhamentos. Neste sentido, \u00e9 fundamental acompanhar a situa\u00e7\u00e3o internacional, tanto para tirarmos li\u00e7\u00f5es, como tamb\u00e9m para estar atentos \u00e0 possibilidade de aproxima\u00e7\u00e3o com outras organiza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As lutas dos trabalhadores contra o capitalismo em crise precisam passar da defensiva para a ofensiva. Os planos dos governos capitalistas precisam ser derrotados e revertidos pela a\u00e7\u00e3o organizada da classe trabalhadora. \u00c9 preciso romper com os limites pol\u00edticos e os obst\u00e1culos organizativos das atuais dire\u00e7\u00f5es reformistas e burocr\u00e1ticas dos partidos e sindicatos. A luta em defesa das condi\u00e7\u00f5es de vida e contra os ataques da burguesia precisa se desenvolver em dire\u00e7\u00e3o a uma alternativa de poder dos trabalhadores, que apresente um projeto socialista de reorganiza\u00e7\u00e3o da vida social, contra a barb\u00e1rie capitalista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Forma\u00e7\u00e3o de uma Organiza\u00e7\u00e3o Internacional dos Trabalhadores, estruturando-se a partir das lutas concretas do proletariado em cada pa\u00eds. Que essa Organiza\u00e7\u00e3o Internacional seja armada de um programa de ruptura do capitalismo e de constru\u00e7\u00e3o da revolu\u00e7\u00e3o socialista mundial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Por um poder socialista dos trabalhadores. Por uma Sociedade Socialista Internacional.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp;Veja tamb&eacute;m o caderno em<a href=\"http:\/\/www.espacosocialista.org\/sites\/default\/files\/Resolues sobre situao poltica internacional 2011.pdf\"> vers&atilde;o PDF <u>(190.73 KB)<\/u><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/276"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=276"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/276\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1401,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/276\/revisions\/1401"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=276"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=276"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=276"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}