{"id":29,"date":"2008-12-13T15:58:56","date_gmt":"2008-12-13T15:58:56","guid":{"rendered":"http:\/\/espacosocialista.org\/?q=node\/29"},"modified":"2018-05-04T21:50:40","modified_gmt":"2018-05-05T00:50:40","slug":"tiros-em-columbine","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/2008\/12\/tiros-em-columbine\/","title":{"rendered":"Tiros em Columbine"},"content":{"rendered":"<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: center;\" align=\"center\">\n<h1>TIROS EM COLUMBINE<\/h1>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: center;\" align=\"center\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: center;\" align=\"center\">Ou: \u201cTudo que voc\u00ea gostaria de dizer sobre os Estados Unidos dito por um cidad\u00e3o estadunidense\u201d<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: center;\" align=\"center\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: center;\" align=\"center\">(Coment\u00e1rio sobre o document\u00e1rio \u201cTiros em Columbine\u201d)<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Nome original: Bowling for Columbine<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Produ\u00e7\u00e3o: Canad\u00e1, Estados Unidos, Alemanha<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Ano: 2002<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Idiomas: Ingl\u00eas<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Diretor: Michael Moore<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Roteiro: Michael Moore<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Elenco: Jacobo Arbenz, George Bush, George W. Bush, Charlton Heston, Marilyn Manson, Timothy McVeigh, Michael Moore, Mohammed Mossadegh, Dinh Diem Ngo, Terry Nichols, Manuel Noriega, Shah Mohammed Reza Pahlavi, Augusto Pinochet, Jeff Rossen, Matt Stone<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">G\u00eanero: document\u00e1rio<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\"><span lang=\"EN-US\">Fonte: \u201cThe Internet Movie Database\u201d \u2013 <\/span><a href=\"http:\/\/www.imdb.com\/\"><span lang=\"EN-US\">http:\/\/www.imdb.com\/<\/span><\/a><span lang=\"EN-US\">\u00a0 <\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Nesses tempos de acirrada milit\u00e2ncia anti-estadunidense, todos t\u00eam algumas palavras de ordem ensaiadas na ponta da l\u00edngua para vociferar contra o gigante imperialista. Para quem quer passar da fase do simples \u201cgringo go home\u201d e adquirir subs\u00eddios para entender as complexidades e contradi\u00e7\u00f5es da presen\u00e7a estadunidense no mundo de hoje, recomenda-se um olhar vindo de dentro dos pr\u00f3prios Estados Unidos, de algu\u00e9m que questiona violentamente aquilo que seu pa\u00eds representa.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">O document\u00e1rio vencedor do Oscar 2003, \u201cTiros em Columbine\u201d, de Michael Moore, esteve em cartaz em alguns cinemas escondidos no centro de S\u00e3o Paulo. Excelente oportunidade para constatar que, apesar das abundantes evid\u00eancias em contr\u00e1rio, existe vida inteligente nos Estados Unidos. Existe pelo menos um ser inteligente, que importuna, incomoda, cutuca, p\u00f5e o dedo na ferida, obriga a pensar, mostra o que ningu\u00e9m quer ver e fala sobre o que ningu\u00e9m quer ouvir.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Michael Moore topa qualquer parada. N\u00e3o tem um pingo de vergonha na cara para incomodar pol\u00edticos, celebridades, altos executivos, autoridades. Todos eles sofrem a inquiri\u00e7\u00e3o impiedosa de sua c\u00e2mera e suas perguntas \u201cinconvenientes\u201d. Moore \u00e9 um chato, um chato profissional, que sabe incomodar, sabe provocar constrangimento, sabe expor ao rid\u00edculo, sabe fazer piada da seriedade farisaica de seu pa\u00eds.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00c9 dif\u00edcil falar sobre o conte\u00fado de um document\u00e1rio sem \u201ccontar a hist\u00f3ria\u201d e estragar a surpresa de quem ainda n\u00e3o o viu. O tema do filme \u00e9 o massacre de estudantes e professores por dois alunos da escola Columbine, na cidade de Littleton, no Colorado, em 1999. A partir dessa trag\u00e9dia, Moore abre um leque de quest\u00f5es que v\u00e3o do culto que o povo estadunidense prestam \u00e0s armas de fogo, passa pelo medo indiscriminado e hist\u00e9rico que a m\u00eddia irradia, pelo racismo que d\u00e1 origem \u00e0 Ku Klux Klan, pela falta de pol\u00edtica social para os pobres (exemplificado pelo fechamento da f\u00e1brica da General Motors em Flint, cidade natal de Moore), pela pol\u00edtica externa do governo Bush e at\u00e9 pela persegui\u00e7\u00e3o \u00e0s figuras destoantes, como o roqueiro Marilin Manson.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O que conduz a argumenta\u00e7\u00e3o de Moore ao longo dessas quest\u00f5es \u00e9 uma pergunta persistente. Uma pergunta para a qual os defensores do uso de armas apresentam respostas parciais e evasivas, desmontadas uma por uma. Porque nos E.U.A. tanta gente morre vitimada por armas de fogo? Ser\u00e1 responsabilidade da hist\u00f3ria do pa\u00eds, repleta de viol\u00eancia em seu passado? Ora, o passado da Alemanha, da Inglaterra, da Fran\u00e7a, do Jap\u00e3o, est\u00e1 repleto de epis\u00f3dios de viol\u00eancia extrema, tais como o holocausto, as guerras mundiais, as guerras imperialistas, etc.. Nem por isso alem\u00e3es, ingleses, franceses e japoneses se matam. A taxa de homic\u00eddios por armas de fogo nesses pa\u00edses \u00e9 de 70 a 300 por ano. Nos E.U.A. passa de 11.000.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A causa ser\u00e3o os filmes violentos? Ora, nesses mesmos pa\u00edses os jovens assistem aos mesmos filmes violentos, jogam os mesmos videogames, acessam os mesmos sites, etc.; e nem por isso tamb\u00e9m saem se matando. Caberia ent\u00e3o fazer a pergunta inversa. Porque nesses pa\u00edses as pessoas n\u00e3o se matam? Porque h\u00e1 a restri\u00e7\u00e3o \u00e0 posse de armas? Talvez. Mas o que explica o Canad\u00e1? O Canad\u00e1 possui as mesmas leis liberais que os E.U.A. a respeito da posse de armas de fogo. H\u00e1 milh\u00f5es de armas de fogo no Canad\u00e1. Mas os canadenses as usam para ca\u00e7ar. A ca\u00e7a \u00e9 uma tradi\u00e7\u00e3o nacional. Os canadenses ca\u00e7am animais, que fique bem entendido, e n\u00e3o outros canadenses.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Porque ent\u00e3o os estadunidenses se matam tanto? A pergunta de Moore prossegue. As raz\u00f5es s\u00e3o profundas e inc\u00f4modas. S\u00e3o demonstradas de forma gradual, articulada e abrangente. O que dizer do exemplo da pol\u00edtica externa? No dia do massacre de Columbine, Clinton estava jogando bombas sobre a S\u00e9rvia. Vivia-se ent\u00e3o a guerra do Kosovo. Clinton, que n\u00e3o era um completo retardado como \u00e9 George W. Bush, que tinha l\u00e1 seu charme, que apreciava, entre outras coisas, os favores das estagi\u00e1rias; tamb\u00e9m era chegado a jogar umas bombas aqui e ali.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 No mesmo dia do massacre, o simp\u00e1tico Bill, entre um \u201cblow-job\u201d e outro, foi obrigado a ir \u00e0 TV e falar ao respeit\u00e1vel p\u00fablico sobre os acontecimentos correntes. \u201cJogamos algumas bombas l\u00e1 na S\u00e9rvia. E ali no Colorado alguns garotos atiraram em seus colegas e se mataram\u201d. Fatos correntes. Seria apenas isso? Fatos correntes? Fatos isolados? Sem conex\u00e3o? O direito de usar sistematicamente armas de fogo como instrumento corriqueiro de pol\u00edtica externa n\u00e3o estaria indiretamente legitimando o suposto \u201cdireito\u201d de usar armas de fogo como ve\u00edculo de al\u00edvio das frustra\u00e7\u00f5es pessoais? Os atos do Presidente n\u00e3o estariam sendo exemplo para os jovens do pa\u00eds? Jogar tiros e bombas n\u00e3o teria se tornado a maneira preferencial dos indiv\u00edduos e do pa\u00eds como um todo viabilizar suas demandas ?<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Moore ilustra a tese com n\u00fameros impressionantes. Os n\u00fameros causados pelas interven\u00e7\u00f5es armadas dos E.U.A. desde a Guerra Fria. Interven\u00e7\u00f5es no Ir\u00e3, Cor\u00e9ia, Vietn\u00e3, Chile, Nicar\u00e1gua, El Salvador, Som\u00e1lia, Afeganist\u00e3o, Iraque. Dezenas de milhares, centenas de milhares, milh\u00f5es de v\u00edtimas, tombando ao som de \u201cWhat a wonderfull world\u201d, de Louis Armstrong.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A m\u00eddia prefere achar outros culpados. Os interesses de al\u00e9m-mar n\u00e3o podem jamais ser mencionados em tom de cr\u00edtica, muito menos implicados em semelhante esparrela. \u00c9 preciso achar uma face mais conveniente. Algu\u00e9m em quem colocar a culpa. Algu\u00e9m como o bizarro Marilin Manson. A culpa \u00e9 do roqueiro, do auto declarado anticristo, do andr\u00f3gino, satanista, desajustado, auto-mutilado. Feio, inconveniente, pecador e barulhento. A culpa s\u00f3 pode ser dele. O pr\u00f3prio Marilin est\u00e1 consciente disso e o diz em entrevista ao cineasta. Ele faz dessa persegui\u00e7\u00e3o e da resist\u00eancia que op\u00f5e a ela o mote de seu marketing pessoal, mais do que a atra\u00e7\u00e3o de sua m\u00fasica (que ali\u00e1s \u00e9 bem ruim).<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Ruindade \u00e0 parte, Manson est\u00e1 com a raz\u00e3o. Nos Estados Unidos p\u00f3s-Columbine ningu\u00e9m tem o direito de ser diferente. Instalou-se um clima de Inquisi\u00e7\u00e3o nas escolas. Qualquer sintoma de comportamento destoante \u00e9 identificado e isolado por uma quarentena preventiva. Suspens\u00f5es absurdas e despropositadas atingem qualquer um que se atreva sequer a pintar os cabelos. Qualquer um que apresente sintomas de desajuste, depress\u00e3o, timidez, introspec\u00e7\u00e3o, \u00e9 automaticamente suspeito de maquinar planos homicidas. \u00c9 preciso a todo custo apresentar uma atitude positiva, sorridente. A pol\u00edcia do pensamento est\u00e1 \u00e1 espreita. Imaginamos que Orwell teria alguma coisa a dizer de semelhante ambiente.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Os E.U.A. s\u00e3o um pa\u00eds de paran\u00f3icos. A paran\u00f3ia os persegue desde o gin\u00e1sio, explica Matt Stone, um dos criadores de \u201cSouth Park\u201d e ex-morador de Littleton. Se voc\u00ea n\u00e3o passar na prova, n\u00e3o vai chegar ao segundo grau, n\u00e3o vai conseguir emprego, vai ser um perdedor para sempre, ningu\u00e9m vai se casar com voc\u00ea, vai morrer pobre e solit\u00e1rio. Esse \u00e9 o discurso insistente que inferniza a mente dos estadunidenses desde a mais tenra juventude. O discurso dos pais e educadores.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Para Matt Stone seus jovens concidad\u00e3os fizeram o que fizeram porque ningu\u00e9m lhes disse que o segundo grau n\u00e3o \u00e9 nada demais, que ningu\u00e9m precisa ter os mesmos empregos de prest\u00edgio que seus pais, que h\u00e1 outras maneiras de uma pessoa se realizar e ser feliz, outros caminhos que n\u00e3o a competi\u00e7\u00e3o feroz e excludente armada pelos adultos. E principalmente, fizeram o que fizeram porque n\u00e3o foram inteligentes o bastante, como Matt e seu colega Trey Parker, para transformar sua frustra\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 cidade natal no combust\u00edvel de uma s\u00e1tira \u00e1cida e contundente, que \u00e9 o desenho animado \u201cSouth Park\u201d.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Michael Moore n\u00e3o est\u00e1 interessado em demonizar os diferentes. Ele sabe que a resposta para a insistente pergunta n\u00e3o passa por esse caminho. Ele busca outras conex\u00f5es. Por exemplo, a f\u00e1brica da Lockheed Martin em Littleton. A Lockheed \u00e9 uma fabricante de m\u00edsseis teleguiados. Diariamente, os cidad\u00e3os da pacata Littleton assistiam ao desfile de carretas transportando gigantescos foguetes e ogivas. Armas de destrui\u00e7\u00e3o em massa daquelas que Hans Blix penou para achar no Iraque, em v\u00e3o. Elas est\u00e3o em Littleton, abundantes, monstruosas, inacredit\u00e1veis. O maior poder destrutivo j\u00e1 reunido pela humanidade, distribu\u00eddo em silos espalhados pelas pequenas cidades do interior. Nada de mais. Coisa inocente. Armas para defender o povo, explica a Moore um executivo da Lockheed. Que os jovens de Littleton tenham cogitado em explodir umas cabe\u00e7as por a\u00ed \u00e9 fato puramente casual, n\u00e3o tem qualquer rela\u00e7\u00e3o com as armas da Lockheed. Ent\u00e3o t\u00e1.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00c9 compreens\u00edvel que o cidad\u00e3o estadunidense m\u00e9dio conceba a presen\u00e7a de seu pa\u00eds no exterior como fundamentalmente positiva. Afinal, os cidad\u00e3os de todos os imp\u00e9rios assim o fizeram. Mas \u00e9 deveras bizarro que a posse de armas de destrui\u00e7\u00e3o em massa como instrumento de dissuas\u00e3o e a pr\u00e1tica de interven\u00e7\u00f5es armadas seja considerada uma parte natural dessa presen\u00e7a positiva. O cidad\u00e3o estadunidense m\u00e9dio considera normal que seu pa\u00eds use armas no exterior porque considera normal possu\u00ed-las para defender sua casa. \u00c9 o que explicam a Moore os membros da mil\u00edcia de Michigan. Os colegas dos terroristas que explodiram o edif\u00edcio federal em Oklahoma, em 1995.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Para os membros da mil\u00edcia, \u00e9 responsabilidade de todo cidad\u00e3o possuir armas de fogo e saber us\u00e1-las. Os Estados Unidos s\u00e3o a terra do cada um por si. Cabe a cada pai e m\u00e3e de fam\u00edlia defender os seus entes queridos. O governo \u00e9 tido como inerentemente opressor e incompetente. O ex\u00e9rcito \u00e9 incompetente. A pol\u00edcia \u00e9 incompetente. As autoridades s\u00e3o incompetentes. N\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m em quem se possa confiar. A n\u00e3o ser na sua Magnum 44, sua Uzi, seu M16. Coisa semelhante um pai dizia ao jovem filho em \u201cConan o b\u00e1rbaro\u201d, apontando para uma espada: \u201cnisto voc\u00ea pode confiar\u201d. No a\u00e7o voc\u00ea pode confiar. O mundo \u00e9 voc\u00ea, sua espada e os outros. Estamos de volta \u00e1 barb\u00e1rie.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Os milicianos estadunidenses produziram essa figura te\u00f3rica absurda, o anarquismo de direita. O pequeno-burgu\u00eas armado at\u00e9 os dentes para proteger sua fortaleza do assalto das hordas invasoras. Contra quem se defendem os membros da mil\u00edcia? De quem eles t\u00eam medo? De onde vem o medo? Teremos que assistir um pouco de TV para saber. O medo \u00e9 um ingrediente farto e indiscriminado na televis\u00e3o estadunidense. Os telespectadores t\u00eam medo de tudo. As cenas a esse respeito s\u00e3o extremamente hil\u00e1rias. Os n\u00edveis de imbecilidade alcan\u00e7ados pela televis\u00e3o daquele pa\u00eds est\u00e3o al\u00e9m do que pode sonhar o mais desvairado produtor brasileiro. A imbecilidade campeia l\u00e1 como c\u00e1, mas o ingrediente fundamental \u00e9 o medo. Medo do \u201cbug\u201d do mil\u00eanio, medo de abelhas assassinas, medo de elevadores, medo de alien\u00edgenas, etc..<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A especialidade da TV estadunidense sempre foi fomentar o medo, o \u00f3dio e o preconceito, apelando para os instintos mais baixos da audi\u00eancia. Isso se tornou especialmente intenso depois dos atentados de 11 de Setembro. O medo do terrorismo atingiu propor\u00e7\u00f5es descabidas. Pessoas estocam armas, muni\u00e7\u00e3o, m\u00e1scaras de g\u00e1s e mantimentos em suas casas. Medo do terrorismo, medo das \u00e1guas contaminadas, medo de antraz. Guerra, morte, fome, peste, os cavaleiros do apocalipse est\u00e3o \u00e0 solta no imagin\u00e1rio coletivo. O medo do apocalipse \u00e9 uma tend\u00eancia latente na cultura estadunidense, que de vez em quando se manifesta mais fortemente. Mas h\u00e1 tamb\u00e9m um medo escancarado em rela\u00e7\u00e3o aos negros.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Os negros s\u00e3o o \u201can\u00f4nimo urbano\u201d. O suspeito preferencial da pol\u00edcia, da m\u00eddia, dos cidad\u00e3os \u201cdecentes\u201d nos seus sub\u00farbios brancos de classe m\u00e9dia. Em qualquer ocorr\u00eancia policial, o suspeito \u00e9 sempre \u201cum certo homem negro\u201d, tal altura, etc.. Para escapar de uma acusa\u00e7\u00e3o, basta trasfer\u00ed-la para as costas de um negro. A pol\u00edcia acredita, os promotores acreditam, o j\u00fari acredita, a m\u00eddia d\u00e1 o veredicto e o juiz condena. Moore exp\u00f5e v\u00e1rios desses casos em que pessoas de cor foram presas apenas porque o verdadeiro criminoso foi esperto o bastante para jogar a culpa num negro. Inverteu-se a norma consagrada do direito: \u201cIn d\u00fabio, pro branco\u201d.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Um produtor de TV comparece para explicar que um programa que mostra a pol\u00edcia em a\u00e7\u00e3o ao vivo, perseguindo suspeitos (que quase sempre s\u00e3o negros), tem audi\u00eancia porque \u00e9 isso que as pessoas querem ver. Da Tena e outros fascistas que o imitam no Brasil dariam um bra\u00e7o para ter os mesmos recursos t\u00e9cnicos que os programas de TV da matriz exibem para poder mostrar aqui a pol\u00edcia prendendo e arrebentando nas favelas. Moore pergunta se n\u00e3o seria o caso de se fazer um programa mostrando a pol\u00edcia capturando com a mesma trucul\u00eancia os criminosos de colarinho branco que abundam nas corpora\u00e7\u00f5es estadunidenses, protagonizando esc\u00e2ndalos tipo Enron, WorldComm, et caterva. O produtor de TV desconversa. O p\u00fablico n\u00e3o est\u00e1 preparado para ver homens brancos engravatados sendo achacados por policiais. Quanto a negros desocupados, estes tudo bem&#8230;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Em certo momento o filme se pergunta se a forma mais adequada de lidar com as minorias e com a pobreza em geral n\u00e3o seria prestar assist\u00eancia social aos pobres. Do tipo da que existe na Europa do \u201cwell-fare state\u201d. N\u00e3o ser\u00e1 por causa da assist\u00eancia governamental, da sa\u00fade gratuita, da educa\u00e7\u00e3o que recebem, que as minorias e os pobres desses pa\u00edses deixam de recorrer ao crime? N\u00e3o ser\u00e1 por causa dos la\u00e7os de coes\u00e3o social e comunit\u00e1ria criados por esse tipo de pol\u00edtica que os canadenses tem confian\u00e7a em seus concidad\u00e3os, a ponto de n\u00e3o trancar as portas das casas, como foi abundantemente mostrado?<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Um conservador estadunidense t\u00edpico diria que n\u00e3o. Assist\u00eancia social para os pobres, no seu ponto de vista, \u00e9 uma maneira de manter os vagabundos sem fazer nada e onerar os cidad\u00e3os trabalhadores. Vale mais \u00e0 pena investir em armas. A prop\u00f3sito desse assunto, Bush comparece com sua dic\u00e7\u00e3o de boneco-de-ventr\u00edloquo-que-n\u00e3o-consegue-ler-o-ponto-eletr\u00f4nico para dizer que \u201co Congresso faria um grande bem ao pa\u00eds se compreendesse que o or\u00e7amento militar deveria se tornar a prioridade numero 1 da gest\u00e3o p\u00fablica\u201d. O mesmo princ\u00edpio empregado para a vizinhan\u00e7a dos sub\u00farbios vale para a vizinhan\u00e7a global. Ao inv\u00e9s de assist\u00eancia para os pa\u00edses pobres, bomba neles. Se eles optam pelo terrorismo, assim como os pobres que optam pelo crime, tanto pior para eles. Mais bombas, mais armas, mais paran\u00f3ia.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">As ra\u00edzes de toda essa paran\u00f3ia est\u00e3o na Hist\u00f3ria. Numa das passagens mais hil\u00e1rias do filme, uma anima\u00e7\u00e3o mostra uma vers\u00e3o da hist\u00f3ria estadunidense do ponto de vista de uma bala de rev\u00f3lver. Os puritanos vieram para o territ\u00f3rio do que hoje s\u00e3o os Estados Unidos com medo das persegui\u00e7\u00f5es. Aqui chegando, por medo, exterminaram os \u00edndios. Por medo, escravizaram os negros. Por medo, lutaram na guerra civil para mant\u00ea-los escravizados. Por medo, fundaram a Ku Klux Klan, para se defender dos mesmos negros. Com a repress\u00e3o \u00e0 Klan, fundaram a N.R.A., a Associa\u00e7\u00e3o Nacional do Rifle, organiza\u00e7\u00e3o dedicada a defender o direito de todo cidad\u00e3o de usar armas de fogo, presidida pelo vener\u00e1vel Charlton Heston, ganhador do Oscar, protagonista do \u00e9pico \u201cOs Dez Mandamentos\u201d, filme no qual se diz, entre outras coisas, \u201cn\u00e3o matar\u00e1s\u201d&#8230;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A essa altura as contradi\u00e7\u00f5es se acumulam uma ap\u00f3s a outra. O argumento do filme est\u00e1 sobejamente demonstrado. Mas o chato quer mais. Moore marca um ponto importante quando consegue uma declara\u00e7\u00e3o da rede K-Mart se comprometendo a n\u00e3o mais vender muni\u00e7\u00e3o em suas lojas. A declara\u00e7\u00e3o foi obtida com a participa\u00e7\u00e3o de dois sobreviventes do massacre de Columbine, um dos quais parapl\u00e9gico, ambos ainda com balas em seus corpos, que acompanharam Moore na tentativa de \u201cdevolver\u201d simbolicamente as balas que os mutilaram \u00e0 K-Mart.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Para terminar, Moore continua questionando os \u201cnormais\u201d, os alinhados, os brancos, anglo-sax\u00f5es, crist\u00e3os, burgueses, os verdadeiros donos do pa\u00eds, que se acham no direito de usar armas e matar quem se atreve a ser diferente em sua terra. Ele vai lhes perguntar, afinal de qu\u00ea os homens mais poderosos do mundo tem medo. De onde estamos, nos perguntamos o que \u00e9 o seu medo sen\u00e3o, como disse George Orwell, \u201co imposto que a consci\u00eancia paga para a culpa\u201d? N\u00e3o ser\u00e1 a arrog\u00e2ncia e a hipocrisia com que governam um disfarce para uma consci\u00eancia repleta de crimes?<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Moore vai at\u00e9 o covil da Besta, em plena Hollywood, com toda cara de pau do mundo, tocar a campainha na mans\u00e3o de Charlton Heston. Inacreditavelmente, ele consegue uma entrevista com o presidente da N.R.A. para lhe perguntar, entre outras coisas, porque logo ap\u00f3s o massacre de Columbine a organiza\u00e7\u00e3o esteve em Littleton fazendo uma campanha. O que os defensores do direito ao uso de armas estariam dizendo com sua presen\u00e7a numa cidade onde dois jovens acabaram de promover o massacre? N\u00e3o estariam com isso dizendo que os que morreram tinham mesmo que morrer? O pai de uma das v\u00edtimas de Columbine, ainda estupefato, aparece em mais de uma momento para perguntar porque seu filho morreu.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Moore foi levar ao dirigente m\u00e1ximo da N.R.A. uma foto de uma menina de seis anos morta por um colega de classe da mesma idade, que encontrou a arma na casa de um tio, onde fora deixado por sua m\u00e3e, uma jovem negra que havia acabado de sofrer uma a\u00e7\u00e3o de despejo e precisa trabalhar em dois empregos para sobreviver, servindo drinks no bar de Dick Clark, esp\u00e9cie de Raul Gil americano que apresentava o programa de TV em que todos os astros do rock n\u00b4roll se tornaram famosos, um dos \u00edcones do sonho estadunidense. Uma jovem m\u00e3e negra reproduzindo em pleno s\u00e9culo XXI a mesma escravid\u00e3o de seus ancestrais do s\u00e9culo XIX, vitimada duplamente pela cegueira social que governa o pa\u00eds, vendo seu filho de seis anos se tornar v\u00edtima do \u00f3dio de cartas racistas do pa\u00eds inteiro, pedindo ao promotor da cidade a condena\u00e7\u00e3o do garoto, fazendo o criminalista se sentir enojado.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Depois dessa hist\u00f3ria, Heston abandona a entrevista, sem resposta. A foto da menina morta, v\u00edtima de uma outra v\u00edtima, \u00e9 deixada na mans\u00e3o de Heston, aquele que disse que seu rifle s\u00f3 seria arrancado de suas m\u00e3os quando estivessem frias e mortas, para del\u00edrio de uma multid\u00e3o de seus fan\u00e1ticos e neur\u00f3ticos seguidores. O autor intelectual do crime se recusa a ver a imagem de sua v\u00edtima. Se recusa a estabelecer a conex\u00e3o entre os dois fatos. A tarefa de Moore foi cumprida. O ciclo chegou ao fim. O filme voltou ao come\u00e7o. Estamos ainda presos em Columbine. Para terminar, os Ramones reinterpretam \u201cWhat a wonderfull world\u201d, com seu peculiar estilo non-sense, acelerado, c\u00f4mico, desleixado e verdadeiro. Nada mais apropriado.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">Daniel M. Delfino<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">24\/05\/2003<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p align=\"center\" style=\"text-align: center;\" class=\"MsoNormal\"><o:p>&nbsp;<\/o:p><\/p>\n<h1>TIROS EM COLUMBINE<\/h1>\n<p align=\"center\" style=\"text-align: center;\" class=\"MsoNormal\"><o:p>&nbsp;<\/o:p><\/p>\n<p align=\"center\" style=\"text-align: center;\" class=\"MsoNormal\">Ou: &ldquo;Tudo que voc&ecirc; gostaria de dizer sobre os Estados Unidos dito por um cidad&atilde;o estadunidense&rdquo;<\/p>\n<p align=\"center\" style=\"text-align: center;\" class=\"MsoNormal\"><o:p>&nbsp;<\/o:p><\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[9,76],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=29"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6153,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29\/revisions\/6153"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=29"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=29"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=29"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}