{"id":30,"date":"2008-12-13T16:00:17","date_gmt":"2008-12-13T16:00:17","guid":{"rendered":"http:\/\/espacosocialista.org\/?q=node\/30"},"modified":"2018-05-04T21:50:36","modified_gmt":"2018-05-05T00:50:36","slug":"carandiru-o-lixo-da-sociedade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/2008\/12\/carandiru-o-lixo-da-sociedade\/","title":{"rendered":"&#8220;Carandiru&#8221;: O lixo da sociedade"},"content":{"rendered":"<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: center;\" align=\"center\">\n<h1>\u201cCARANDIRU\u201d: <span style=\"text-transform: uppercase;\">O lixo da sociedade<\/span><\/h1>\n<h1><\/h1>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: center;\" align=\"center\">(Coment\u00e1rio sobre o filme \u201cCarandiru\u201d)<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Nome original: Carandiru<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Produ\u00e7\u00e3o: Brasil, Argentina<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Ano: 2003<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Idiomas: Portugu\u00eas<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Diretor: Hector Babenco<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Roteiro: Hector Babenco, Fernando Bonassi<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Elenco: Luiz Carlos Vasconcelos, Milton Gon\u00e7alves, Ivan de Almeida, Ailton Gra\u00e7a, Maria Luisa Mendon\u00e7a, Ainda Leiner, Rodrigo Santor, Rita Cadillac, Gero Camilo, Caio Blat, L\u00e1zaro Ramos, Wagner Moura, J\u00falia Ianina, Sabrina Greve, Floriano Peixoto<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">G\u00eanero: drama, crime<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\"><span lang=\"EN-US\">Fonte: \u201cThe Internet Movie Database\u201d \u2013 <\/span><a href=\"http:\/\/www.imdb.com\/\"><span lang=\"EN-US\">http:\/\/www.imdb.com\/<\/span><\/a><span lang=\"EN-US\">\u00a0 <\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A sociedade capitalista n\u00e3o tem lugar para o lixo. O subproduto do processo de produ\u00e7\u00e3o\/consumo\/destrui\u00e7\u00e3o transforma-se numa massa intermin\u00e1vel de refugo t\u00f3xico e infecto. O lixo se acumula indefinidamente em aterros sanit\u00e1rios, contaminando mananciais e len\u00e7\u00f3is fre\u00e1ticos, constituindo uma das modalidades de polui\u00e7\u00e3o, como os gases emanados da queima de combust\u00edveis f\u00f3sseis, os dejetos industriais, etc. O capitalismo n\u00e3o tem um plano para o manejo racional dos recursos que manipula no seu metabolismo. O capital pensa apenas no curto prazo, no ciclo de investimento\/produ\u00e7\u00e3o\/venda que resulta em sua valoriza\u00e7\u00e3o, sendo-lhe indiferente o car\u00e1ter ecologicamente destrutivo da produ\u00e7\u00e3o e do consumo.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O lixo \u00e9 o n\u00e3o-assunto da sociedade, o buraco negro do pensamento, algo sobre o qual ningu\u00e9m reflete. O ciclo acelerado de valoriza\u00e7\u00e3o no curto prazo interdita ao pensamento o acesso ao questionamento racional dos meios e fins do processo capitalista de reprodu\u00e7\u00e3o social. Onde o mundo vai parar se tudo continuar como est\u00e1? O que fazer com todo o lixo, assim como com a polui\u00e7\u00e3o? Ningu\u00e9m sabe. Ningu\u00e9m tem resposta. Ningu\u00e9m pensa no assunto. O lixo vai se acumular, indefinidamente, at\u00e9 que todos estejamos soterrados at\u00e9 o pesco\u00e7o, afogados em churume.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O mesmo acontece com o subproduto das rela\u00e7\u00f5es sociais capitalistas, que s\u00e3o os presidi\u00e1rios. O presidi\u00e1rio \u00e9 o lixo da sociedade. \u00c9 o n\u00e3o-sujeito, o n\u00e3o-homem, o v\u00e1cuo social, isolado nas profundezas do inferno, de onde se espera que n\u00e3o volte jamais, invis\u00edvel, intoc\u00e1vel e impens\u00e1vel. Ningu\u00e9m quer saber o que acontece com os criminosos depois que s\u00e3o banidos do conv\u00edvio social pelas penas privativas de liberdade, assim como ningu\u00e9m quer saber o que vai acontecer com o lixo depois que os garis recolhem os sacos pretos. O preso est\u00e1 morto, para todos os efeitos. A justi\u00e7a foi feita, o caso encerrado, a sociedade pode seguir em frente. Com as consci\u00eancias tranq\u00fcilas, as autoridades burguesas sentenciam \u00e0 pris\u00e3o os derrotados da competi\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Enquanto isso, a m\u00eddia pede sangue. Os programas de TV dedicados a explorar as calamidades da vida miser\u00e1vel das periferias e das grandes metr\u00f3poles especializam-se em criar um clima de \u00f3dio e medo. Viver \u00e9 perigoso. Ningu\u00e9m est\u00e1 seguro. H\u00e1 bandidos por toda parte. Assassinos, ladr\u00f5es, estupradores, seq\u00fcestradores, ped\u00f3filos, gangues, traficantes, corruptos, etc., todos \u00e0 solta, insaci\u00e1veis. N\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m para det\u00ea-los, o cidad\u00e3o comum est\u00e1 indefeso. Nunca haver\u00e1 pol\u00edcia suficiente para satisfazer a santa ira dos apresentadores de \u201ccidade alerta\u201d e quejandos.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">No seu entendimento, a pol\u00edcia tem todo o direito de entrar e arrebentar, atirar para matar, disparar primeiro e perguntar depois, torturar e castigar. Nesse circo de horrores da m\u00eddia, os abutres da TV instrumentalizam o \u00f3dio da massa urbana contra a arraia-mi\u00fada de p\u00e9s-de-chinelo para conseguir votos para pol\u00edticos de direita que s\u00e3o os mais nocivos e perniciosos de todos os criminosos. Eles \u00e9 que s\u00e3o causadores da mis\u00e9ria em que germina o crime de viol\u00eancia que choca a todos. A inseguran\u00e7a mostrada nos programas de TV \u00e9 verdadeira, afinal o Estado est\u00e1 falido. Mas ao ser mostrada de maneira imediata e unidimensional, alcan\u00e7ando seu termo final sob a forma do criminoso armado, a viol\u00eancia social torna-se um processo irracional e incontrol\u00e1vel, uma doen\u00e7a a ser erradicada, com o recurso dos meios truculentos dos pol\u00edticos de direita.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Dissemos tudo isso a prop\u00f3sito do lixo, dos criminosos e do crime na m\u00eddia para falar do fen\u00f4meno \u201cCarandiru\u201d. O novo filme do diretor Hector Babenco \u00e9 o arrasa-quarteir\u00e3o brasileiro da temporada. O tema do filme \u00e9 o pres\u00eddio do Carandiru, em S\u00e3o Paulo, demolido no final de 2002, que foi palco de uma massacre de presos rebelados, em 1991. \u00c9 o nosso candidato em Cannes e qui\u00e7\u00e1 no Oscar 2004, na nossa eterna busca por afirma\u00e7\u00e3o e reconhecimento (?). Estamos aqui tentando entender o que faz de um filme sobre um pres\u00eddio um sucesso de bilheteria. Bastaria dizer que o filme \u00e9 bom, mas isso n\u00e3o \u00e9 suficiente. H\u00e1 filmes que s\u00e3o p\u00e9ssimos e mesmo assim s\u00e3o vistos por muita gente, enquanto a maioria dos que s\u00e3o muito bons n\u00e3o \u00e9 vista por quase ningu\u00e9m. H\u00e1 um complexo conjunto de raz\u00f5es que faz um filme se transformar numa atra\u00e7\u00e3o, e neste caso particular, h\u00e1 outras raz\u00f5es al\u00e9m do fato de que o filme \u00e9 bom.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A primeira delas \u00e9 \u201cCidade de Deus\u201d, o melhor filme brasileiro desde a assim chamada \u201cretomada\u201d do cinema nacional. \u201cCidade de Deus\u201d mostrou que um filme brasileiro pode ser muito bom. \u00c9 um filme inteligente, \u00e1gil, divertido, musical, tecnicamente bem feito e ideologicamente contundente. Depois do exemplo do filme carioca, n\u00e3o h\u00e1 vergonha em assistir um filme brasileiro. N\u00e3o \u00e9 mais coisa de burgu\u00eas metido a intelectual. \u201cCarandiru\u201d beneficia-se desse efeito e busca se tornar uma esp\u00e9cie de resposta paulista \u00e0 \u201cCidade\u201d. Bairrismos \u00e0 parte, eu ainda fico com Z\u00e9 Pequeno e seus comparsas.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">N\u00e3o que \u201cCarandiru\u201d n\u00e3o tenha seus personagens carism\u00e1ticos e curiosos. H\u00e1 \u201cseu\u201d Chico, o preso velho que est\u00e1 prestes a ser libertado, h\u00e1 o \u201cPeixeira\u201d, o matador profissional que vira crente, h\u00e1 o chefe da cozinha que faz a lei no pres\u00eddio, h\u00e1 o \u201cMajestade\u201d, com suas duas esposas, os garotos da periferia, \u201cZico\u201d e Deusdete, atra\u00eddos desastradamente para o mundo do crime, a performer Rita Cadilac interpretando a si mesma, a servi\u00e7o da causa da preven\u00e7\u00e3o \u00e0 AIDS, os dois assaltantes de banco e suas esposas, o hil\u00e1rio \u201cSem-chance\u201d, assistente do m\u00e9dico e noivo do travesti Ladi Di, de Rodrigo Santoro, protagonista das cenas mais grotescamente engra\u00e7adas. E h\u00e1 o m\u00e9dico, o dr., espectador e narrador dos dramas dessa gente toda.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Apesar desse elenco de personagens interessantes, n\u00e3o h\u00e1 o mesmo apelo nost\u00e1lgico, rom\u00e2ntico, \u00e9pico, de \u201cCidade de Deus\u201d. O filme de Hector Babenco \u00e9 mais frio e cinzento, como a garoa paulistana, contrastando com a alegria solar do Rio. \u201cCarandiru\u201d \u00e9 quase documental, quase uma reportagem, feita de pequenas hist\u00f3rias. A narrativa \u00e9 convencional, linear, sem novidades, sem complica\u00e7\u00f5es, bem-comportada. Isso n\u00e3o \u00e9 dem\u00e9rito do filme, pelo fato de que se trata de uma hist\u00f3ria real, na qual n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel tomar as mesmas liberdades que h\u00e1 em \u201cCidade de Deus\u201d. N\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para as mesmas licen\u00e7as po\u00e9ticas.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">O filme tamb\u00e9m \u00e9 tecnicamente bem-feito, pois se trata de uma superprodu\u00e7\u00e3o, para os padr\u00f5es brasileiros. H\u00e1 alguns erros de continuidade, mas nada que prejudique o conjunto. Por exemplo, o distintivo do Corinthians aparece emoldurando gloriosamente diversos lugares pres\u00eddio, pois como se sabe 90% da popula\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria paulistana \u00e9 composta de corintianos da periferia. O problema \u00e9 que o distintivo aparece em v\u00e1rias cenas acompanhado de tr\u00eas estrelas, sendo que na \u00e9poca possu\u00eda apenas uma. Trata-se de uma detalhe que somente fan\u00e1ticos como o escriba perceberiam, e que no final das contas \u00e9 perdo\u00e1vel, pois a quantidade de estrelas e conquistas do Corinthians \u00e9 algo dif\u00edcil de ser acompanhado&#8230;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Voltaremos \u00e0 conex\u00e3o corintianos\/presidi\u00e1rios\/policiais logo adiante. O que interessa aqui \u00e9 a hist\u00f3ria do filme em si. A hist\u00f3ria a ser contada, na verdade, \u00e9 a de presos que viveram um massacre. O grande fato do filme \u00e9 a rebeli\u00e3o de 1991. Acredito que a pretens\u00e3o do filme n\u00e3o tenha sido explicar a chacina, ou julg\u00e1-la, apenas mostr\u00e1-la, assumindo o lado daqueles que estiveram do lado de c\u00e1 das balas. N\u00e3o se trata de transformar os criminosos em her\u00f3is nem de demonizar os policiais. Trata-se de mostrar mais uma face da trag\u00e9dia social brasileira. O pa\u00eds est\u00e1 repleto de miser\u00e1veis. Na mis\u00e9ria germina o crime. Para responder ao crime a sociedade constr\u00f3i pres\u00eddios. Os pres\u00eddios funcionam de forma prec\u00e1ria e desumana. Os presos se rebelam. A pol\u00edcia entra atirando e massacra 111 presos, segundo a contagem oficial. Podem ter sido 200, 300, \u00e9 dif\u00edcil saber. O n\u00famero em si n\u00e3o \u00e9 importante. N\u00e3o teria sido menos grave e sintom\u00e1tico se tivessem morrido apenas 10.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">\u00c9 sintom\u00e1tica a maneira como a sociedade trata seu lixo. Diante do fato narrado no filme, h\u00e1 amplas parcelas do p\u00fablico que, bestializadas pela ret\u00f3rica escatol\u00f3gica do show de horrores televisivo, ter\u00e3o dito: \u201cbem feito!\u201d, \u201cbandido tem mais \u00e9 que morrer mesmo\u201d, \u201ctinha que matar era tudo!\u201d,\u201dbandido bom \u00e9 bandido morto!\u201d. O pres\u00eddio \u00e9 id\u00eantico a uma favela. A mesma sujeira, a mesma fei\u00fara, as roupas penduradas na janela, nada para fazer, pessoas gastando o tempo, drogas, futebol, a mesma precariedade. Vindo da favela, o presidi\u00e1rio faveliza o pres\u00eddio.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">A respeito desse aspecto, o contraste com os filmes de pris\u00e3o hollywoodianos \u00e9 gritante. A pris\u00e3o estadunidense t\u00edpica \u00e9 militarizada, robotizada, ass\u00e9ptica. O sistema prisional funciona. As autoridades carcer\u00e1rias tem o efetivo controle das celas, dos corredores, dos p\u00e1tios. Ningu\u00e9m circula sem permiss\u00e3o. Ningu\u00e9m respira sem permiss\u00e3o. Os contribuintes fazem quest\u00e3o de saber que sua m\u00e1quina repressiva est\u00e1 trabalhando a todo vapor, livrando-os da perigosa presen\u00e7a de negros e hisp\u00e2nicos. O pres\u00eddio brasileiro, ao contr\u00e1rio, \u00e9 ca\u00f3tico. As autoridades carcer\u00e1rias n\u00e3o tem o menor controle do que se passa l\u00e1. Beira-mar que o diga. O diretor do pres\u00eddio em \u201cCarandiru\u201d faz coro quando pede pateticamente aos seus colegas que se rendam, para evitar o massacre.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Assim como o presidi\u00e1rio \u00e9 um ser bestializado, o policial obrigado a lidar com ele \u00e9 ainda mais bestial. Os policiais do batalh\u00e3o de choque que invadiu o Carandiru comportam-se como uma tribo de b\u00e1rbaros \u00e0s portas de Roma. Batem nos escudos com os cassetetes e gritam \u201cChoque! Choque! Choque!\u201d. Os policiais abrem m\u00e3o da denomina\u00e7\u00e3o formal de sua corpora\u00e7\u00e3o. Eles n\u00e3o s\u00e3o o Batalh\u00e3o de Choque da Pol\u00edcia Militar. S\u00e3o \u201co choque\u201d. A tribo do choque. A gangue do choque. Freq\u00fcentador ass\u00edduo dos est\u00e1dios paulistanos, ouvi de muitos veteranos da Gavi\u00f5es da Fiel esse modo de falar, \u201co choque\u201d, a respeito da pol\u00edcia que cuida dos est\u00e1dios, nivelada ao patamar das demais gangues com as quais a Gavi\u00f5es de vez em quando se atraca, a Mancha, a Independente, a Jovem, etc.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">N\u00e3o deve ser mera coincid\u00eancia que o futebol, um esporte infestado pelas gangues, tenha sido o estopim da confus\u00e3o que detonou a rebeli\u00e3o, que por sua vez detonou o massacre. Mais curioso ainda que um dos times do jogo da pris\u00e3o tenha o nome de \u201cMangue\u201d, que \u00e9 o nome de uma favela pr\u00f3xima da minha casa. Conex\u00f5es e coincid\u00eancias demais&#8230;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Como diz\u00edamos, todos os que est\u00e3o l\u00e1 s\u00e3o, para a sociedade burguesa que os expeliu, criminosos, e ponto. Seu Chico os desmente quando explica ao dr. que \u201cali dentro ningu\u00e9m \u00e9 culpado\u201d. Mas a reflex\u00e3o chega tarde. O pres\u00eddio foi invadido, transformado em pra\u00e7a de guerra e finalmente, demolido. Os instintos ego\u00edstas do burgu\u00eas-do-fim-do-mundo brasileiro ir\u00e3o se regozijar com a demoli\u00e7\u00e3o final do pres\u00eddio, que \u00e9 o simulacro da demoli\u00e7\u00e3o das favelas, no seu sonho inconfess\u00e1vel de reengenharia social e assepsia fascista. O burgu\u00eas quer se livrar do pres\u00eddio e dos presidi\u00e1rios assim como quer se livrar da favela e dos criminosos, que para ele s\u00e3o uma s\u00f3 e mesma coisa. Ele se refestela na poltrona do cinema para se deliciar com o espet\u00e1culo proporcionado pela puni\u00e7\u00e3o dos miser\u00e1veis. Em cada presidi\u00e1rio de \u201cCarandiru\u201d ele v\u00ea os trombadinhas que ousaram roubar seu \u201crolex\u201d no sem\u00e1foro.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Suspeitamos que uma grande massa dos espectadores que lota as salas para assistir \u201cCarandiru\u201d esteja l\u00e1 movida por uma curiosidade m\u00f3rbida, interessada em bisbilhotar o cotidiano daqueles indiv\u00edduos\/desindividualizados banidos do conv\u00edvio social, isolados como feras em um zool\u00f3gico. Tememos que a popula\u00e7\u00e3o pobre que vai ao cinema ver \u201cCarandiru\u201d esteja indo para rir de si mesma, de sua mis\u00e9ria e do grotesco que \u00e9 o seu pr\u00f3prio cotidiano.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">A resposta definitiva para o sucesso do filme, no entendimento deste resenhista, \u00e9 o best-seller \u201cEsta\u00e7\u00e3o-Carandiru\u201d, do m\u00e9dico Drauzio Varela, em que o autor, uma esp\u00e9cie de m\u00e9dico-celebridade, relata sua luta her\u00f3ica e um tanto quixotesca pela preven\u00e7\u00e3o \u00e0 AIDS nos pres\u00eddios. De seu conv\u00edvio de v\u00e1rios anos com os presidi\u00e1rios resultaram as hist\u00f3rias que comp\u00f5em o livro. A hist\u00f3ria de vida daqueles criminosos. O sucesso comercial do livro abriu as portas para a produ\u00e7\u00e3o do filme.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A consist\u00eancia liter\u00e1ria do livro, resultado da sensibilidade humana do m\u00e9dico, forneceu a base para a viabilidade art\u00edstica do filme, o que honra Drauzio Varela. O filme \u00e9 bom porque \u00e9 humano, porque fala de seres humanos reais, o que honra Hector Babenco. Os presidi\u00e1rios s\u00e3o seres humanos, a despeito do que pensa a ideologia vulgar dos apresentadores de TV fascistas. N\u00e3o estamos dizendo que s\u00e3o bons seres humanos. O ponto n\u00e3o \u00e9 esse. O ponto \u00e9 que, recolhido o lixo, isolado o refugo da sociedade, fechadas as portas do inferno e do ex\u00edlio, a vida continua. Os presos continuam vivos. E como seres vivos que s\u00e3o, est\u00e3o condenados a continuar arrastando sua humanidade miser\u00e1vel pelos corredores e celas do pres\u00eddio.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Os presos tamb\u00e9m amam, de forma \u00e0s vezes tr\u00e1gica, \u00e0s vezes c\u00f4mica. Os presos tem fam\u00edlias que os esperam, tem amigos, tem times de futebol, tem neg\u00f3cios. Tem vida, enfim. Apesar do interdito que \u00e9 imposto sobre o assunto, os presos est\u00e3o l\u00e1. O m\u00e9rito do filme \u00e9 expor essa realidade. O lixo est\u00e1 l\u00e1, esperando ser reconhecido como gente. Como qualquer outra parcela de nossa popula\u00e7\u00e3o, \u00f3rf\u00e3 do Estado, os presidi\u00e1rios est\u00e3o l\u00e1, com suas demandas. No Brasil, pa\u00eds de car\u00eancias seculares, tudo \u00e9 prec\u00e1rio. O pres\u00eddio tampouco deixaria de ser prec\u00e1rio. Prec\u00e1rio, b\u00e1rbaro, grotesco, infernal.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Assim como n\u00e3o h\u00e1 a menor sombra de uma iniciativa para tratar do lixo, para organizar uma reciclagem maci\u00e7a e articular um sistema de produ\u00e7\u00e3o sustent\u00e1vel; n\u00e3o h\u00e1 uma iniciativa para \u201creciclar\u201d os seres humanos desumanizados pela mis\u00e9ria e animalizados pelo crime e pela m\u00e1quina de repress\u00e3o ao crime. Para eles a \u00fanica resposta s\u00e3o as balas da pol\u00edcia, a brutalidade do \u201cchoque\u201d. N\u00e3o h\u00e1 perspectiva para a reinser\u00e7\u00e3o desses indiv\u00edduos na sociedade de forma produtiva, pois n\u00e3o h\u00e1 nem mesmo perspectivas para aqueles que nunca foram criminosos, com o desemprego e a precariza\u00e7\u00e3o do trabalho. Se nem os trabalhadores honestos da periferia encontram perspectiva, que dir\u00e1 os que escorregaram para o crime. O criminoso est\u00e1 no \u00faltimo degrau da escala de prioridades. Est\u00e1 no fundo do po\u00e7o. No fundo da privada de uma megal\u00f3pole de terceiro mundo. \u00c9 por isso que observ\u00e1-los em \u201cCarandiru\u201d \u00e9 o mesmo que observar a nossa decad\u00eancia final, enquanto sociedade.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">Daniel M. Delfino<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">24\/05\/2003<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p align=\"center\" style=\"text-align: center;\" class=\"MsoNormal\"><o:p>&nbsp;<\/o:p><\/p>\n<h1>&ldquo;CARANDIRU&rdquo;: <span style=\"text-transform: uppercase;\">O lixo da sociedade<o:p><\/o:p><\/span><\/h1>\n<h1><o:p>&nbsp;<\/o:p><\/h1>\n<p align=\"center\" style=\"text-align: center;\" class=\"MsoNormal\">(Coment&aacute;rio sobre o filme &ldquo;Carandiru&rdquo;)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\" class=\"MsoNormal\"><o:p>&nbsp;<\/o:p><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\" class=\"MsoNormal\"><o:p>&nbsp;<\/o:p><\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[9,76],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=30"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6152,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30\/revisions\/6152"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=30"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=30"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=30"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}