{"id":3428,"date":"2014-10-05T11:32:25","date_gmt":"2014-10-05T14:32:25","guid":{"rendered":"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/?p=3428"},"modified":"2014-10-05T11:32:25","modified_gmt":"2014-10-05T14:32:25","slug":"o-lugar-do-racismo-na-luta-de-classes-brasileira-o-dilema-do-proletariado-preto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/2014\/10\/o-lugar-do-racismo-na-luta-de-classes-brasileira-o-dilema-do-proletariado-preto\/","title":{"rendered":"O lugar do racismo na luta de classes brasileira. O dilema do proletariado preto."},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Apresentamos a seguir a contribui\u00e7\u00e3o do rapper e ativista G\u00e1s-Pa, do coletivo de hip hop Lutarmada, sobre a quest\u00e3o racial e a esquerda. As contribui\u00e7\u00f5es individuais n\u00e3o necessariamente expressam a posi\u00e7\u00e3o do Espa\u00e7o Socialista, mas as publicamos por considerar relevantes para o debate do movimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;-<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">O Brasil \u00e9 o pa\u00eds com a segunda maior popula\u00e7\u00e3o preta do mundo, ficando atr\u00e1s somente da Nig\u00e9ria. Esse contingente afro-descendente \u00e9 resultado do com\u00e9rcio negreiro de maior volume da hist\u00f3ria, que importou cerca de 6 milh\u00f5es de africanos. O desenrolar hist\u00f3rico dessa rep\u00fablica capitalista que n\u00e3o fez sua revolu\u00e7\u00e3o burguesa (nos moldes cl\u00e1ssicos) imp\u00f4s \u00e0 nossa luta de classes uma din\u00e2mica diferenciada no que tange \u00e0 quest\u00e3o racial. E essa particularidade \u00e9 ainda inc\u00f3gnita, ou emba\u00e7ada, para o olhar de quem se organiza contra a explora\u00e7\u00e3o e a opress\u00e3o. Pra uns a luta contra o racismo \u00e9 fragment\u00e1ria e, por isso mesmo, retarda o nosso triunfo sobre a burguesia, e a supera\u00e7\u00e3o do racismo seria uma consequ\u00eancia inevit\u00e1vel e autom\u00e1tica da revolu\u00e7\u00e3o socialista. Pra outros o racismo \u00e9 a contradi\u00e7\u00e3o central da nossa sociedade, e deve ser combatido pelas suas v\u00edtimas sem a interfer\u00eancia de brancos que, no geral, se apresentam para conduzir a luta preta com pseudo-solu\u00e7\u00f5es \u2013 euro-centradas \u2013 como o socialismo, que n\u00e3o passaria de mais um projeto de supremacia branca. H\u00e1 tamb\u00e9m aqueles que, divergindo dos dois outros grupos, admitem que as duas frentes de luta s\u00e3o na verdade uma s\u00f3. Mas sem entender direito o porqu\u00ea, n\u00e3o conseguem ir al\u00e9m de repetir frases de \u00edcones dessa luta, como \u201cracismo e capitalismo s\u00e3o duas faces da mesma moeda\u201d (Steve Biko), ou \u201cn\u00e3o h\u00e1 capitalismo sem racismo\u201d (Malcolm X). O que faremos daqui pra frente \u00e9 buscar a compreens\u00e3o de porque essas duas lutas est\u00e3o ligadas umbilicalmente, e que, por isso, nem o capitalismo e nem o racismo ser\u00e3o superados se combatidos separadamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar do consenso de que s\u00f3 existe uma ra\u00e7a \u2013 a humana \u2013 iremos debater sobre um fen\u00f4meno que tem nome, e esse nome \u00e9 \u201cracismo\u201d. Ent\u00e3o, falaremos o tempo todo em ra\u00e7a, pra n\u00e3o tornar o texto burocr\u00e1tico, e pra n\u00e3o sermos obrigados a recorrer a termos como etnicismo, fenotipismo, melaninismo, ou outras bizarrices ainda piores. E, como no resto do mundo, nos referiremos aos africanos e seus descendentes como pretos, deixando o termo negro somente para nos referirmos aos pretos escravizados (exceto quando tratamos das organiza\u00e7\u00f5es do povo preto. Ex. \u201cmovimento negro\u201d). Da mesma forma, o que a historiografia oficial chamou de tr\u00e1fico negreiro, aqui daremos outro tratamento. At\u00e9 a Lei Euz\u00e9bio de Queiroz, em 1850, o com\u00e9rcio de escravos era livre, legal, o que torna incoerente a utiliza\u00e7\u00e3o da palavra \u201ctr\u00e1fico\u201d. Por isso, todo o com\u00e9rcio internacional de africanos anterior a essa lei, chamaremos de \u201cimporta\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">A nossa primeira classe trabalhadora.<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">A primeira classe trabalhadora deste pa\u00eds \u2013 que nos impuseram chamar de Brasil \u2013 foi a escrava, constitu\u00edda por africanos, j\u00e1 que a tentativa de escravizar os povos nativos havia falhado. Por tanto, a exist\u00eancia de pretos e do racismo no Brasil tem a ver diretamente com a escravid\u00e3o. Por isso mesmo \u00e9 bom fazer uma distin\u00e7\u00e3o. Racismo e escravid\u00e3o n\u00e3o est\u00e3o necessariamente subordinados um ao outro. Escravid\u00e3o existiu em sociedades antigas como Roma e Gr\u00e9cia, mas n\u00e3o como resultado de uma suposta superioridade de uma ra\u00e7a sobre a outra (at\u00e9 porque em ambos os casos tanto escravos e senhores eram brancos). As guerras entre povos africanos tamb\u00e9m geravam escravos, mas estes eram, num certo prazo e por v\u00e1rias vias diferentes, integrados \u00e0 sociedade \u00e0 qual serviam. Al\u00e9m disso, sua condi\u00e7\u00e3o humana n\u00e3o lhe era negada e a escravid\u00e3o n\u00e3o era um modo de produ\u00e7\u00e3o. A novidade trazida pelo S\u00e9culo XVI \u00e9 que no Novo Mundo, a escravid\u00e3o, j\u00e1 como modo de produ\u00e7\u00e3o, era justificada na origem do escravizado, que traria a reboque uma suposta inferioridade intelectual e cultural de um povo que tinha em comum o mesmo fen\u00f3tipo, numa ponta, e na outra, a superioridade do branco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Durante tr\u00eas s\u00e9culos o principal inc\u00f4modo causado ao escravismo brasileiro era a rebeldia de sua classe escrava, que se manifestava de v\u00e1rias formas, indo do suic\u00eddio, passando pelo assassinato de seus senhores, resvalando nas greves [1]chegando \u00e0 quilombagem \u2013 com direito a resgate de escravos nas fazendas \u2013 ou, v\u00e1rias dessas formas combinadas. Dentre elas, a quilombagem foi a que mais contribuiu para enfraquecer o escravismo. Cada grupo de escravos \u2013 por menor que fosse \u2013 fugido das fazendas significava preju\u00edzo ao seu senhor que havia pagado por cada um deles. Al\u00e9m disso, mais dinheiro era gasto pra se remunerar as mil\u00edcias e custear as incurs\u00f5es nas matas para capturar os fugitivos e desarticular os quilombos. Cada escravo fugido era um escravo a menos produzindo para o sistema. E, dependendo do n\u00edvel de organiza\u00e7\u00e3o de um determinado quilombo, ele produzia o suficiente para comercializar com o mundo branco, concorrendo com os senhores escravocratas. E assim a quilombagem contribuiu muit\u00edssimo para desorganizar a economia escravista, tornando-se a primeira forma expressiva de organiza\u00e7\u00e3o combativa da classe trabalhadora brasileira. E j\u00e1 data dessa \u00e9poca a pr\u00e1tica de negar ao preto rebelde o car\u00e1ter de preso pol\u00edtico. Por mais que sua a\u00e7\u00e3o organizada e coletiva tenha como fim a subvers\u00e3o de uma ordem, o preto subversivo sempre foi relegado ao status de bandido comum.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por\u00e9m, j\u00e1 na metade do S\u00e9culo XIX a resist\u00eancia dos escravos n\u00e3o era a \u00fanica preocupa\u00e7\u00e3o dos escravistas do Brasil. A press\u00e3o da principal pot\u00eancia pol\u00edtico-militar e econ\u00f4mica da \u00e9poca, criava muitos problemas para o futuro do escravismo brasileiro. Com sua revolu\u00e7\u00e3o industrial realizada um s\u00e9culo antes, a Inglaterra precisava expandir seu mercado. E essa expans\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel para regi\u00f5es onde trabalhadores n\u00e3o recebem sal\u00e1rio.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">E os senhores s\u00e3o libertos de seus escravos.<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">No apagar das luzes do s\u00e9culo XVIII a classe escrava do Haiti mostrou do que os negros eram capazes ao fazer sua revolu\u00e7\u00e3o. Principalmente porque para isso eles tiveram que derrotar o poderoso ex\u00e9rcito napole\u00f4nico. O efeito desse importante feito \u2013 que, mesmo seguindo o rastro da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa n\u00e3o consta nos livros de hist\u00f3ria entre as grandes revolu\u00e7\u00f5es \u2013 foi que toda a classe senhorial do continente americano teve que come\u00e7ar a pensar na possibilidade de uma aboli\u00e7\u00e3o sem o radicalismo com que ocorreu na pequena ilha caribenha. No que toca ao Brasil era importante redobrar os cuidados j\u00e1 que foi pra c\u00e1 que o maior contingente de africanos havia sido importado desde o S\u00e9culo XVI. S\u00f3 pra se ter uma id\u00e9ia, em 1849 o Rio de Janeiro era a capital mais \u201cafricana\u201d das Am\u00e9ricas. O susto foi tamanho que o termo haitianismo passou a ser empregado a tudo que era considerado risco de uma rebeli\u00e3o escrava. A paran\u00f3ia se agravou depois da Revolta dos Mal\u00eas, em 1835, quando negros islamizados se valeram de seu dom\u00ednio da escrita \u00e1rabe para organizar, durante meses, um levante na prov\u00edncia da Bahia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alguns setores da classe dominante ainda defendiam a manuten\u00e7\u00e3o do escravismo. Mas mesmo os que faziam campanha pela aboli\u00e7\u00e3o foram se precavendo para que ela acontecesse sem sustos. Por isso, j\u00e1 a partir de 1850 legisladores come\u00e7am a tomar suas provid\u00eancias e uma s\u00e9rie de Projetos de Leis (PLs) foram criados no sentido da aboli\u00e7\u00e3o gradual e controlada. Esses PLs tratavam da aboli\u00e7\u00e3o dos castigos f\u00edsicos, liberta\u00e7\u00e3o dos filhos de m\u00e3es escravas, o direito aos escravos de comprar sua alforria, liberta\u00e7\u00e3o dos escravos pertencentes ao governo, proibi\u00e7\u00e3o do trabalho escravo nas cidades, a proibi\u00e7\u00e3o de se desfazer fam\u00edlias de escravos no com\u00e9rcio interno, liberta\u00e7\u00e3o de escravos com mais de sessenta anos\u2026 Entre outros. \u00c9 desse ano tanto a primeira lei relevante abolicionista \u2013 a que proibia a importa\u00e7\u00e3o de africanos \u2013 como a importante lei N\u00ba 601, a Lei de Terras. Antes dela a aquisi\u00e7\u00e3o de terras s\u00f3 era poss\u00edvel atrav\u00e9s da doa\u00e7\u00e3o pelo Rei. Este concedia os lotes segundo alguns crit\u00e9rios, dentre os quais, servi\u00e7os prestados \u00e0 Coroa. A Lei de Terras altera essa rela\u00e7\u00e3o que deixa de ser de concess\u00e3o para ser de venda. A partir de ent\u00e3o s\u00f3 seria propriet\u00e1rio de terra quem tivesse dinheiro pra compr\u00e1-la. Aos negros, que na \u00c1frica eram agricultores e aqui vieram pra trabalhar na agricultura, foi eliminada qualquer possibilidade de acesso \u00e0 terra. Dinheiro pra comprar, por raz\u00f5es \u00f3bvias, n\u00e3o tinha. Agora tamb\u00e9m j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 chances de adquiri-las em fun\u00e7\u00e3o de seus servi\u00e7os prestados \u00e0 Coroa. Na possibilidade da liberta\u00e7\u00e3o dos escravos, a esses o acesso \u00e0s terras j\u00e1 estava blindado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A queda no pre\u00e7o do a\u00e7\u00facar cria grandes dificuldades para os fazendeiros do Nordeste. Quatro anos antes da assinatura da Lei \u00c1urea a prov\u00edncia do Cear\u00e1 j\u00e1 tinha abolido a escravid\u00e3o, sendo seguida por outras. As vantagens de se pagar sal\u00e1rios ao inv\u00e9s de comprar e manter escravos j\u00e1 apareciam com mais nitidez ante os olhos das elites brasileiras. As revoltas, as leis abolicionistas e a inviabilidade de alguns senhores manterem seus escravos, j\u00e1 tinham liberado a maior parte da m\u00e3o de obra escrava antes de maio de 1888 (em 1887 a popula\u00e7\u00e3o brasileira passava dos 13 milh\u00f5es, dos quais, pouco mais de 720 mil eram escravos). N\u00e3o tardou para que os egressos das senzalas entendessem que a tal \u201cliberta\u00e7\u00e3o\u201d na verdade era uma condena\u00e7\u00e3o \u00e0 mis\u00e9ria. A \u00faltima preocupa\u00e7\u00e3o dessa lei foi com os negros. Tanto \u00e9 verdade que a eles n\u00e3o foi dada nenhuma garantia de sustento, de manuten\u00e7\u00e3o das pr\u00f3prias vidas. A Lei N\u00ba 601 impediu a aquisi\u00e7\u00e3o de terra pelos pretos \u2013 que tantos servi\u00e7os prestaram \u00e0 Coroa \u2013 mas garantiu lotes para algumas fam\u00edlias de europeus que imigravam pra c\u00e1 \u00e0 custa de fundos arrecadados pela venda dessas terras. Para se importar 6 milh\u00f5es de africanos, foi preciso mais de trezentos anos. Mas bastaram algumas d\u00e9cadas entre o fim do S\u00e9culo XIX e o come\u00e7o do XX para que cerca de quatro milh\u00f5es de trabalhadores europeus entrassem no Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com tanta gente liberada das senzalas, pra que trazer trabalhadores da Europa? Uma boa parte da nossa esquerda se esfor\u00e7a pra negar que tenha sido por racismo, mas o faz, at\u00e9 agora, com argumentos fr\u00e1geis. Uma pol\u00edtica de branqueamento do pa\u00eds entrou em curso a partir da segunda metade do s\u00e9culo XIX. E foi essa mentalidade tamb\u00e9m que deu mais f\u00f4lego \u00e0 campanha abolicionista, que refletiu o desejo de muitos brancos de se livrarem da \u201cmancha negra\u201d, dessa marca do atraso do pa\u00eds.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">Pol\u00edtica de embranquecimento.<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alguns \u201cmaterialistas\u201d afirmam que essa sangria de trabalhadores europeus pra c\u00e1, ao inv\u00e9s de motiva\u00e7\u00f5es racistas, se deveu ao fato de que mesmo lenta, a industrializa\u00e7\u00e3o brasileira carecia do emprego de trabalhadores j\u00e1 habituados a lidar com o maquin\u00e1rio fabril. S\u00f3 que a maior parte dos imigrantes n\u00e3o veio para trabalhar na ind\u00fastria. Al\u00e9m disso, devemos considerar a reorganiza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o. Os artes\u00e3os transformados em trabalhadores assalariados dominavam o conhecimento de todas as fases do processo produtivo. Suas habilidades eram imprescind\u00edveis ao patr\u00e3o. Mas com a divis\u00e3o do processo em v\u00e1rias opera\u00e7\u00f5es distintas, e com um oper\u00e1rio realizando cada uma delas, o aprendizado de cada tarefa se torna bem mais breve. Muito mais ainda com a introdu\u00e7\u00e3o da m\u00e1quina que veio dispensar as habilidades espec\u00edficas do antigo artes\u00e3o. Assim sendo, capacitar a for\u00e7a de trabalho liberada da escravid\u00e3o seria bem mais plaus\u00edvel do que importar trabalhadores da Europa. Mas n\u00e3o para por a\u00ed. Para os africanos que aqui chegavam, os horrores do escravismo eram uma aberra\u00e7\u00e3o nunca vista antes. Para eles rebelar-se era uma necessidade imperativa. Mas muitos dos escravos do ultimo per\u00edodo do Imp\u00e9rio nasceram no Brasil escravista e n\u00e3o tinham vivenciado a liberdade ainda. Para esses, o cativeiro era muito mais f\u00e1cil de ser assimilado. Desde 1850 o parlamento produzia, debatia e aprovava leis abolicionistas. Isso criava nesses negros uma expectativa de serem libertados a qualquer momento por vias legais. Para isso as elites deliberantes n\u00e3o poderiam se sentir amea\u00e7adas. Do contr\u00e1rio, a liberdade dos negros \u00e9 que correria perigo. N\u00e3o foi a toa que esses anos que se seguiram de 1850 at\u00e9 1888 n\u00e3o registraram grandes rebeli\u00f5es, ao contr\u00e1rio dos anteriores. O mesmo n\u00e3o se podia dizer dos europeus que vieram. Uma parte deles j\u00e1 atuava no movimento sindical de seus pa\u00edses e j\u00e1 havia criado muito problema para seus burgueses. Pra que ent\u00e3o trocar o novo comportamento mais brando que vinha se verificando entre os negros pela j\u00e1 conhecida rebeldia dos trabalhadores do Velho Mundo? Atribui-se tamb\u00e9m essa pol\u00edtica imigrantista \u00e0 id\u00e9ia de que para modernizar o Brasil era necess\u00e1rio romper os v\u00ednculos com o anacronismo da escravid\u00e3o. E de fato o pa\u00eds estava t\u00e3o atrasado que enquanto aqui ainda se discutia se libertava ou n\u00e3o os filhos de m\u00e3es escravas, em Paris a classe oper\u00e1ria j\u00e1 tomava o poder da burguesia. Ora, o Brasil foi condenado ao atraso por ter sido o ultimo pa\u00eds no mundo a abolir a escravid\u00e3o. O negro era o principal e mais combativo inimigo desse modo de produ\u00e7\u00e3o defendido pelo branco com todas as armas poss\u00edveis e necess\u00e1rias. Assim sendo, era a classe dominante branca a respons\u00e1vel por esse atraso que, na decad\u00eancia do modo de produ\u00e7\u00e3o escravista, era diretamente vinculado \u00e0 figura do negro. Que nome damos a isso se n\u00e3o racismo? Lembremos que uma das fun\u00e7\u00f5es da ideologia \u00e9 naturalizar o que n\u00e3o \u00e9 natural, alguma situa\u00e7\u00e3o de explora\u00e7\u00e3o e opress\u00e3o constru\u00edda pela pr\u00f3pria humanidade no decorrer de sua hist\u00f3ria. Trezentos anos de domina\u00e7\u00e3o senhorial s\u00e3o mais do que suficientes para naturalizar a \u201cinferioridade do negro\u201d. Mesmo movida por raz\u00f5es econ\u00f4micas, a classe dominante n\u00e3o est\u00e1 isenta de ver o mundo distorcido pela ideologia que ela mesma criou e alimenta. Ali\u00e1s, \u00e9 pra isso que existe a ideologia. [2]Ent\u00e3o, a pol\u00edtica de imigra\u00e7\u00e3o foi sim uma pol\u00edtica racista. \u00c9 importante sermos materialistas, ainda mais se tamb\u00e9m formos hist\u00f3ricos e dial\u00e9ticos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Definitivamente o povo preto estava descartado dos planos da rep\u00fablica que nascia em 1889. Em 1911 o Brasil envia para o Congresso Universal das Ra\u00e7as, em Londres, o m\u00e9dico Jo\u00e3o Batista Lacerda que, preconizando uma superioridade da ra\u00e7a branca, previu a extin\u00e7\u00e3o do preto no Brasil at\u00e9 o ano 2012. Sendo a preta uma ra\u00e7a mais fraca, no processo de miscigena\u00e7\u00e3o, j\u00e1 em curso desde o escravismo, um s\u00e9culo bastaria para que a ra\u00e7a branca prevalecesse absoluta. Assim explicou Jo\u00e3o:<br \/>\n\u201cA sele\u00e7\u00e3o sexual cont\u00ednua aperfei\u00e7oa sempre ao subjugar o atavismo e purga os descendentes de mesti\u00e7os de todos os tra\u00e7os caracter\u00edsticos do negro. Gra\u00e7as a este procedimento de redu\u00e7\u00e3o \u00e9tnica, \u00e9 l\u00f3gico supor que, no espa\u00e7o de um novo s\u00e9culo, os mesti\u00e7os desaparecer\u00e3o do Brasil, fato que coincidir\u00e1 com a extin\u00e7\u00e3o paralela da ra\u00e7a negra entre n\u00f3s\u201d<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">E segue a profecia:<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cA popula\u00e7\u00e3o mista do Brasil dever\u00e1 ent\u00e3o ter, dentro de um s\u00e9culo, um aspecto bem diferente do atual. As correntes de imigra\u00e7\u00e3o europ\u00e9ia, que aumentam a cada dia e em maior grau o elemento branco desta popula\u00e7\u00e3o, terminar\u00e3o, ao fim de certo tempo, por sufocar os elementos dentro dos quais poderiam persistir ainda alguns tra\u00e7os do negro.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A miscigena\u00e7\u00e3o sozinha n\u00e3o daria conta de tal fa\u00e7anha. Ent\u00e3o nosso intelectual discorre sobre outros aspectos que nos levaria a essa \u201cpurifica\u00e7\u00e3o\u201d racial no pa\u00eds mais preto fora da \u00c1frica:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cDepois da aboli\u00e7\u00e3o, o negro entregue a ele pr\u00f3prio come\u00e7ou por sair dos grandes centros civilizados, sem procurar melhorar, no entanto sua posi\u00e7\u00e3o social, fugindo do movimento e do progresso ao qual n\u00e3o poderia se adaptar. Vivendo uma exist\u00eancia quase selvagem, sujeito a todas as causas de destrui\u00e7\u00e3o, sem recursos suficientes para se manter, refrat\u00e1rio a qualquer disciplina que seja, o negro se propaga pelas regi\u00f5es pouco povoadas e tende a desaparecer de nosso territ\u00f3rio, como uma ra\u00e7a destinada \u00e0 vida selvagem e rebelde \u00e0 civiliza\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O interessante dessas \u00faltimas linhas \u00e9 que, assim como se atribuiu ao ex-escravo o atraso do pa\u00eds resultante do escravismo mantido pelo branco, agora, de novo, o preto \u00e9 responsabilizado por sua pr\u00f3pria marginaliza\u00e7\u00e3o. N\u00e3o foi que as portas do novo modo de produ\u00e7\u00e3o lhes foram fechadas em favor do embranquecimento do Brasil que priorizou importa\u00e7\u00e3o de for\u00e7a de trabalho europ\u00e9ia. Ao inv\u00e9s disso, afirma o pseudo-cientista, o povo preto que, \u201csem procurar melhorar sua posi\u00e7\u00e3o social\u201d, optou por \u201cuma exist\u00eancia quase selvagem, sujeito a todas as causas de destrui\u00e7\u00e3o, sem recursos suficientes para se manter\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 prestes a encerrar sua comunica\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, um quase clamor:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cSuas [do Brasil] quest\u00f5es lim\u00edtrofes est\u00e3o resolvidas, e as leis votadas ultimamente em favor da imigra\u00e7\u00e3o, a fim de assegurar os direitos dos estrangeiros diante dos tribunais da na\u00e7\u00e3o, s\u00e3o as melhores garantias dos capitais estrangeiros empregados nos trabalhos de utilidade nacional. Pode-se, portanto afirmar, sem medo de faltar \u00e0 verdade, que o Brasil est\u00e1 pronto, nesse momento, para acolher em seu vasto seio o \u00eaxodo dos povos europeus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eles descobrir\u00e3o, como fim \u00e0 sua atividade, e para constituir a base da riqueza de suas fam\u00edlias, as grandes culturas de caf\u00e9, de cana-de-a\u00e7\u00facar, de cacau, a explora\u00e7\u00e3o de borracha, a cultura de frutas tropicais, da videira e do trigo, as ind\u00fastrias de fabrica\u00e7\u00f5es diversas, a cultura do bicho-da-seda, a explora\u00e7\u00e3o de minerais, a cria\u00e7\u00e3o dos rebanhos de bois e cavalos, a ind\u00fastria leiteira etc., fonte de riquezas as quais as leis do pa\u00eds prestam ainda mais seguros e assist\u00eancia, pela concess\u00e3o de terras e pela promessa de garantia em dinheiro.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A participa\u00e7\u00e3o do m\u00e9dico racista nesse encontro foi patrocinada pelo presidente marechal Hermes da Fonseca. O embranquecimento do Brasil n\u00e3o era uma teoria, mas sim um projeto.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">Racismo. Um bom neg\u00f3cio.<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">A transi\u00e7\u00e3o escravismo\/capitalismo ao inv\u00e9s de uma ruptura revolucion\u00e1ria, fez manter de p\u00e9 a hegemonia da oligarquia agr\u00e1ria. E essa hegemonia perdurou at\u00e9 a d\u00e9cada de 1930. S\u00f3 ent\u00e3o, com a chamada Revolu\u00e7\u00e3o de 30, se p\u00f5e fim \u00e0 \u201cfarra do caf\u00e9 com leite\u201d e os caminhos se abrem para a burguesia industrial, para a consolida\u00e7\u00e3o do capitalismo no Brasil. E isso vai mudar a cara do racismo brasileiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para o capital a fun\u00e7\u00e3o do ex\u00e9rcito industrial de reserva \u00e9 manter sempre favor\u00e1vel ao patr\u00e3o a lei de oferta e procura da mercadoria for\u00e7a de trabalho. Mas o que acontece quando uma enorme massa encontra-se alijada at\u00e9 desse ex\u00e9rcito, e que nem na reserva est\u00e1? Pois bem. Para al\u00e9m da delinqu\u00eancia e de outros recursos que n\u00e3o nos interessa agora, h\u00e1 poucas alternativas. Duas delas s\u00e3o disputar no mercado de trabalho aquelas fun\u00e7\u00f5es de menores prest\u00edgio e remunera\u00e7\u00e3o, ou exercer as mesmas fun\u00e7\u00f5es que os trabalhadores brancos, mas por um sal\u00e1rio menor.[3] Ora. J\u00e1 vimos que essa nova rep\u00fablica que pretende se modernizar quer faz\u00ea-lo livre da presen\u00e7a repugnante do povo preto, cuja figura remete imediatamente ao atraso. Vimos que a situa\u00e7\u00e3o de mis\u00e9ria \u00e0 qual os pretos foram relegados era t\u00e3o intensa que cientistas previam que essa ra\u00e7a n\u00e3o resistiria mais que um s\u00e9culo a tamanhas adversidades. A exist\u00eancia cont\u00ednua de uma grande e determinada parcela do proletariado que por tais condi\u00e7\u00f5es \u00e9 obrigada a vender sua for\u00e7a de trabalho por um pre\u00e7o abaixo do praticado com os trabalhadores brancos \u2013 quase que exclusivos no mercado \u2013 faz constante press\u00e3o pra baixo nos sal\u00e1rios gerais. O trabalhador branco vive entre o baixo sal\u00e1rio e a amea\u00e7a de ser substitu\u00eddo por um outro trabalhador disposto a ganhar menos do que ele. Se a raz\u00e3o de ser do capitalismo \u00e9 cada vez maiores lucros, ent\u00e3o o racismo n\u00e3o se encaixa perfeitamente aos seus objetivos? Pois \u00e9. Por mais que as esquerdas n\u00e3o tenham notado isso at\u00e9 hoje, para o capital n\u00e3o passou despercebido. E ele se utiliza do racismo para se fortalecer cada vez mais. Isso no campo econ\u00f4mico, mas e no pol\u00edtico? A manuten\u00e7\u00e3o do racismo acirra disputas que n\u00e3o deveriam existir no interior da classe, deixando-a dividida (isso sim fragmenta a nossa classe), dificultando a identifica\u00e7\u00e3o e a\u00e7\u00e3o unit\u00e1ria contra o inimigo comum.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">A democracia racial.<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um cen\u00e1rio como este n\u00e3o \u00e9 compat\u00edvel com a pol\u00edtica de embranquecimento do pa\u00eds. Como as classes dominantes v\u00e3o deixar que se extinga uma parcela da popula\u00e7\u00e3o que \u00e9 pe\u00e7a fundamental de um mecanismo que fortalece sua domina\u00e7\u00e3o? N\u00e3o foi a toa que na d\u00e9cada de 1930 surgiu a farsa da democracia racial, que vinha substituir a pol\u00edtica de embranquecimento[4]. A democracia racial deriva de uma corrente de pensamento que pretendeu vender ao mundo a imagem de perfeita harmonia na rela\u00e7\u00e3o entre as ra\u00e7as no Brasil. Na base dessa inven\u00e7\u00e3o h\u00e1 o argumento de que, ao contr\u00e1rio da Am\u00e9rica protestante, a Am\u00e9rica cat\u00f3lica era mais benevolente com seus escravos, permitindo uma conviv\u00eancia t\u00e3o \u00edntima que possibilitou que as ra\u00e7as se misturassem, miscigenando como em nenhum outro canto do mundo[5]. Portanto, num ambiente como esse, o racismo n\u00e3o encontraria terreno. A partir da\u00ed o Brasil passa a configurar como laborat\u00f3rio de rela\u00e7\u00f5es raciais para o mundo. Todas as ra\u00e7as teriam iguais oportunidades, sendo de responsabilidade \u00fanica de cada indiv\u00edduo seu sucesso ou o fracasso, n\u00e3o importando seu fen\u00f3tipo. De acordo com essa ideologia a barreira entre o preto e sua dignidade seria o pr\u00f3prio preto. Tal farsa ecoou pelo exterior a ponto de a Unesco patrocinar uma pesquisa cujo resultado deveria servir de manual pr\u00e1tico das boas rela\u00e7\u00f5es raciais para o mundo. Assinado por Florestan Fernandes, Otavio Ianni, Fernando Henrique Cardoso e Roger Bastide, o estudo desvelou a verdadeira face racista do Brasil, contrariando a propaganda que se fazia das nossas \u201cboas rela\u00e7\u00f5es raciais\u201d. S\u00f3 que a pesquisa repercutiu muito menos do que a fal\u00e1cia que ela desmentiu. E assim o mito da democracia racial sobrevive at\u00e9 hoje, resistindo \u00e0s estat\u00edsticas que s\u00e3o divulgadas anualmente no dia 20 de novembro, quando se evidencia o abismo que separa o \u201cBrasil preto\u201d do \u201cBrasil branco\u201d [6].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Opor a \u201cAm\u00e9rica cat\u00f3lica\u201d a \u201cAm\u00e9rica protestante\u201d, dentro desse contexto, \u00e9 opor Brasil aos EUA. Os defensores da fal\u00e1cia da democracia racial gostam dessa compara\u00e7\u00e3o por serem os Estados Unidos um pa\u00eds onde a legisla\u00e7\u00e3o segregou pretos e brancos at\u00e9 a d\u00e9cada de 1960. Na vig\u00eancia dessas leis o preto estadunidense precisou criar seus pr\u00f3prios espa\u00e7os de sociabilidade, assim como se submeter a outros que o Estado lhe reservava. Eram escolas pra pretos, igrejas pra pretos, clubes pra pretos, bebedouros pra pretos, bairros pra pretos, etc pra pretos. Essa segrega\u00e7\u00e3o escancarada permitiu ao preto de l\u00e1 preservar e fortalecer sua identidade racial. Isso propiciou uma unidade na luta que lhes proporcionou conquistas e avan\u00e7os[7]. Aqui, com o racismo fantasiado de democracia racial, onde a segrega\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem respaldo jur\u00eddico, ele incide com muito mais for\u00e7a e efic\u00e1cia na informalidade. O racismo brasileiro esconde o antes, o durante, e maquia o depois do seu processo, de forma que nem suas v\u00edtimas conseguem perceber que sua condi\u00e7\u00e3o de precariedade \u2013 que atinge a um percentual maior da sua popula\u00e7\u00e3o e com maior intensidade que ao proletariado branco \u2013 tem liga\u00e7\u00e3o direta com algumas caracter\u00edsticas f\u00edsicas que elas herdaram de seus antepassados escravizados. E um dos fatores que dificultam essa percep\u00e7\u00e3o \u00e9 justamente aquele que serviu de base pros defensores da democracia racial: A miscigena\u00e7\u00e3o. Ela fez da popula\u00e7\u00e3o brasileira um povo de muitas cores. E se nos EUA preto \u00e9 preto e branco \u00e9 branco, aqui essa diversidade responde por uma hierarquiza\u00e7\u00e3o crom\u00e1tica que coloca em p\u00f3los opostos o branco e o preto, mudando o tratamento que a sociedade vai dar aos indiv\u00edduos de acordo com a proximidade que cada qual tem com um dos p\u00f3los. Se o que a sociedade tem de pior est\u00e1 reservado pra quem tem a pele mais escura, logo, na medida em que a pessoa se distancia dessa tonalidade, menos incide nela a discrimina\u00e7\u00e3o que se funda na origem racial. Mecanismos sociais simb\u00f3licos t\u00eam sido usados como recurso de fuga dessa realidade t\u00e3o adversa. Por exemplo, no recenseamento de 1980, quando os pesquisadores do IBGE perguntavam pela cor, os entrevistados respondiam com muitos subterf\u00fagios, que iam do \u201cbege\u201d, passando pelo \u201ccinza\u201d, resvalando no \u201cmorena bem chegada\u201d indo at\u00e9 o \u201croxa\u201d, totalizando 136 cores diferentes (e bem bizarras). Essa pesquisa mostra que miscigena\u00e7\u00e3o n\u00e3o iguala ningu\u00e9m. Ao contr\u00e1rio, cria uma hierarquia que n\u00e3o tem mais tamanho. Se viv\u00eassemos de fato numa democracia racial n\u00e3o haveria necessidade de ningu\u00e9m querer escamotear sua verdadeira identidade buscando se aproximar o m\u00e1ximo poss\u00edvel de um modelo entendido como o certo, o belo, o limpo, o puro, o honesto, o inteligente\u2026 Em fim, o padr\u00e3o (branco). E o pior de tudo \u00e9 que, como s\u00e3o simb\u00f3licos, esses subterf\u00fagios surtem pouco efeito na rela\u00e7\u00e3o com o opressor, pois para o departamento pessoal das empresas, pro cano do fuzil do policial, pro elevador de servi\u00e7o, pro poder judici\u00e1rio, pro sistema penitenci\u00e1rio, etc., n\u00e3o existe \u201cbege\u201d, \u201cmelada\u201d, \u201cfogoi\u00f3\u201d, \u201ccor de ouro\u201d, \u201cmorena bem chegada\u201d\u2026 N\u00e3o. \u00c9 tudo preto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se a oposi\u00e7\u00e3o que fazemos ao Projeto Democr\u00e1tico Popular (e \u00e0 sua variante, o Projeto Popular para o Brasil) nos imp\u00f5e uma postura cr\u00edtica \u00e0 exalta\u00e7\u00e3o das identidades, a luta socialista, dialeticamente, nos exige batalhar pela aquisi\u00e7\u00e3o e afirma\u00e7\u00e3o da identidade do prolet\u00e1rio preto. Numa sociedade dividida em classes e com uma classe subalterna dividida em ra\u00e7as, a identidade racial \u00e9 uma identidade grupal, que por sua vez \u00e9 precondi\u00e7\u00e3o para supera\u00e7\u00e3o da aliena\u00e7\u00e3o. Assim diz o professor da UFRJ, Mauro Iasi, no seu trabalho Ensaios sobre consci\u00eancia e emancipa\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cQuando uma pessoa vive uma injusti\u00e7a solitariamente, tende \u00e0 revolta, mas em certas circunst\u00e2ncias pode ver em outra pessoa sua pr\u00f3pria contradi\u00e7\u00e3o. Esse tamb\u00e9m \u00e9 um mecanismo de identifica\u00e7\u00e3o da primeira forma [de consci\u00eancia], mas aqui a identidade com o outro produz um salto de qualidade.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas como um afro-descendente vai ver num outro preto a sua pr\u00f3pria contradi\u00e7\u00e3o se ele nem se v\u00ea como tal, mas sim como um \u201cfogoi\u00f3\u201d, um \u201ccinza\u201d, um \u201cmarrom bombom\u201d, um \u201cmoreninho\u201d, um \u201cpardinho\u201d, um \u201cmelado\u201d\u2026?[8] Num pa\u00eds com o hist\u00f3rico que o Brasil tem nas suas rela\u00e7\u00f5es raciais, a luta contra o racismo perpassa por uma batalha extremamente \u00e1rdua pela identidade racial. Identidade de um determinado grupo de pessoas que se assemelham em determinados tra\u00e7os f\u00edsicos que lhes inferioriza perante o outro grupo que guarda as caracter\u00edsticas f\u00edsicas da classe dominante. E se o grupo \u00e9 precondi\u00e7\u00e3o para a supera\u00e7\u00e3o da aliena\u00e7\u00e3o rumo \u00e0 consci\u00eancia de classe para si, negligenciar a luta contra o racismo no pa\u00eds com o racismo mais eficaz do mundo, \u00e9 frear o avan\u00e7o da luta prolet\u00e1ria contra o capital.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conceitos como mais-valia, valor de uso, valor de troca, capital constante, capital vari\u00e1vel, entre outros necess\u00e1rios para um entendimento b\u00e1sico de economia pol\u00edtica ainda s\u00e3o caros \u00e0s massas. S\u00e3o rela\u00e7\u00f5es vividas cotidianamente por quem produz a riqueza desse pa\u00eds, mas imposs\u00edvel de serem vistas a \u201colhos nus\u201d. Por\u00e9m, a companhia indesej\u00e1vel dos seguran\u00e7as dos shoppings e lojas de departamento; a demora pra ser atendido nesses mesmos espa\u00e7os, assim como em restaurantes; a sua cor como sin\u00f4nimo de ruim, feio, perigoso, sujo, sombrio, l\u00fagubre, mal\u00e9volo, impuro, etc.; as constantes revistas policiais e, nelas ter que fingir que \u00e9 inocente mesmo sendo inocente; as piadas \u2013 nada inocentes, diga-se de passagem \u2013 referentes aos tra\u00e7os f\u00edsicos; a maior precariedade no acesso \u00e0 sa\u00fade[9]; o desemprego ou o trabalho precarizado; a baixa escolaridade\u2026 S\u00e3o todos inc\u00f4modos sentidos na pele no dia-a-dia do trabalhador preto, mesmo que ele n\u00e3o perceba que h\u00e1 algo em comum entre ele e a grande maioria das v\u00edtimas dessas mazelas. Na aus\u00eancia de uma esquerda que discuta e atue seriamente na quest\u00e3o racial com um recorte de classe, esses trabalhadores seguem na in\u00e9rcia pol\u00edtica. E essa pode ser a melhor das hip\u00f3teses. Pior ainda \u00e9 quando aos poucos eles v\u00e3o sendo cooptados por um setor do Movimento Negro que nega a luta de classes e que prega contra o comunismo alegando que ele \u00e9 uma proposta de luta euroc\u00eantrica, que desconsidera o ethos negro, e que no fim das contas, n\u00e3o passa de mais um projeto de domina\u00e7\u00e3o branca. Al\u00e9m disso, acusam os militantes dos movimentos e partidos de esquerda de serem racistas \u2013 acusa\u00e7\u00e3o que procede em muitos casos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O racismo \u00e9 uma das manifesta\u00e7\u00f5es da luta de classes. Portanto, podemos afirmar que a luta anti-racismo n\u00e3o fragmenta a luta prolet\u00e1ria. Mas, ao contr\u00e1rio, fragmentamos o proletariado quando deixamos de incorporar efetivamente a luta anti-racismo, pois assim deixamos de trazer pras nossas trincheiras parte da parcela maior da nossa classe. E ainda corremos o risco de empurrar muitos trabalhadores pretos pra dentro de organiza\u00e7\u00f5es que atuam no sentido de integr\u00e1-los na sociedade burguesa, inverter os p\u00f3los de opress\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o, e que elegeram a n\u00f3s comunistas inimigos preferenciais.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">O racismo da nossa esquerda.<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cMuitos s\u00e3o racistas e dizem n\u00e3o ser<br \/>\nTalvez voc\u00ea seja mesmo sem voc\u00ea saber\u201d<br \/>\nConsci\u00eancia Urbana<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Somos uma ilha de democracia racial, cercada de racistas por todos os lados. O preconceito \u00e9 t\u00e3o abomin\u00e1vel que at\u00e9 os preconceituosos o condenam (pelo menos teoricamente). Uma pesquisa organizada pela antrop\u00f3loga Lilia Moritz Schwarcz perguntou aos entrevistados se \u201cvoc\u00ea tem preconceito?\u201d. A essa pergunta 96% responderam que n\u00e3o. Agora \u00e9 que vem o absurdo. A segunda pergunta era: \u201cVoc\u00ea conhece algu\u00e9m que tenha preconceito?\u201d. Curiosamente 99% das pessoas responderam que sim (!). O preconceito \u2013 e no caso do objeto do nosso debate, o racismo \u2013 \u00e9 sempre um defeito \u201cdo outro\u201d, mas nunca \u201cmeu\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como j\u00e1 foi dito antes, uma das fun\u00e7\u00f5es da ideologia \u00e9 naturalizar a opress\u00e3o e a explora\u00e7\u00e3o. Como somos formados dentro de uma sociedade racista \u00e9 quase inevit\u00e1vel a reprodu\u00e7\u00e3o de atitudes e discursos racistas, sem que eles sejam percebidos como tal. Assim sendo, o racismo \u00e9 praticado por in\u00fameros militantes que o condenam. Combater o racismo n\u00e3o pode ser entendido simplesmente como reconhecer sua exist\u00eancia, se posicionar contra ele e exibir como trof\u00e9u um preto que ocupe cargo de dire\u00e7\u00e3o dentro do seu partido, sindicato, movimento ou instrumento de organiza\u00e7\u00e3o e luta da nossa classe.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para essas pessoas um importante primeiro passo \u00e9 reconhecer \u2013 sem culpa \u2013 os privil\u00e9gios que a sociedade lhes reserva, com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 parcela preta do proletariado. Pra quem se enxerga no cume da consci\u00eancia revolucion\u00e1ria, isso vai parecer constrangedor. Por\u00e9m, pra quem deseja sinceramente a supera\u00e7\u00e3o de uma sociedade que explora\/oprime, esse \u00e9 um movimento necess\u00e1rio. \u00c9 cat\u00e1rtico. \u00c9 libertador. Reconhecidos esses privil\u00e9gios, eles podem, inclusive, serem colocados a servi\u00e7o do fim dos pr\u00f3prios privil\u00e9gios. Basta o comprometimento com a luta revolucion\u00e1ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A simbologia \u00e9 um campo tamb\u00e9m f\u00e9rtil para o nosso debate. A esquerda n\u00e3o abre m\u00e3o de vestir vermelho, por exemplo, sendo fiel a uma simbologia pr\u00f3pria da nossa luta. Assim \u00e9 tamb\u00e9m com o hino d\u2019A Internacional (cada vez menos freq\u00fcente nos nossos espa\u00e7os, \u00e9 verdade), e tamb\u00e9m com um linguajar que \u00e9 comum somente no nosso meio. Isso prova que n\u00e3o estamos, em setor algum da nossa sociedade, imune ao poder dos s\u00edmbolos. Por\u00e9m, se tratando das palavras \u2013 sejam elas faladas ou escritas \u2013 no nosso meio muitas vezes v\u00eam carregadas de conte\u00fado racista. O problema \u00e9 que a ideologia dominante tratou de naturalizar essas express\u00f5es de tal forma que seu potencial ofensivo \u00e9 artificialmente minimizado. N\u00e3o podemos perder de vista que a viol\u00eancia simb\u00f3lica \u00e9 a que antecede e justifica a viol\u00eancia f\u00edsica. A viol\u00eancia com a qual a m\u00eddia burguesa trata as favelas prepara o terreno para a viol\u00eancia f\u00edsica do Estado nessas comunidades. Ela produz nos moradores \u201cdo asfalto\u201d um alto n\u00edvel de aprova\u00e7\u00e3o das opera\u00e7\u00f5es policiais que aniquilam favelados \u2013 pretos, em sua maioria. Do mesmo modo a viol\u00eancia simb\u00f3lica das express\u00f5es, dos termos, das piadas racistas, refor\u00e7a a naturaliza\u00e7\u00e3o de uma inferioridade que legitima a viol\u00eancia f\u00edsica praticada contra o prolet\u00e1rio preto. Por isso em pesquisa recente 55,8% dos entrevistados afirmaram que a morte de jovens \u201cnegros\u201d choca menos do que a de jovens brancos. S\u00e3o n\u00fameros que refletem situa\u00e7\u00f5es j\u00e1 conhecidas, como a do jovem preto, acusado de roubo, espancado e preso pelo pesco\u00e7o a um poste \u2013 como seus antepassados escravos presos no pelourinho \u2013 na mesma capital onde um jovem branco que passa com seu carro importando por cima de um ciclista preto, matando-o, \u00e9 condenado a prestar dois anos de servi\u00e7os comunit\u00e1rios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 prov\u00e1vel que os companheiros brancos se surpreendam e se incomodem com as queixas dos militantes pretos com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s pr\u00e1ticas racistas verificadas nos espa\u00e7os comuns de milit\u00e2ncia. Onde a quest\u00e3o racial n\u00e3o \u00e9 devidamente discutida \u00e9 perfeitamente compreens\u00edvel tanto as den\u00fancias feitas pelos pretos quanto o inc\u00f4modo dos brancos com as den\u00fancias. Essa \u00e9 a hora em que o companheirismo deve prevalecer, assim como a confian\u00e7a pol\u00edtica dos militantes brancos naqueles companheiros que sentem na pele os efeitos nocivos de todo o preconceito produzido e propagado contra os africanos e descendentes nesses 500 anos de hist\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Materialistas que somos, n\u00e3o cremos na supera\u00e7\u00e3o do racismo simplesmente monitorando as palavras usadas no nosso cotidiano. Mas como nossa luta tamb\u00e9m se d\u00e1 no campo das ideias (caso contr\u00e1rio n\u00e3o perder\u00edamos tempo com cursos de forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, e produzindo material de propaganda), \u00e9 prudente ser vigilante com as pr\u00f3prias palavras pra n\u00e3o reproduzir o discurso racial da classe dominante, poupando o companheiro preto que poder\u00e1 canalizar suas energias militantes somente contra o inimigo comum.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sem teoria revolucion\u00e1ria n\u00e3o h\u00e1 a\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria, dizia o camarada Lenin. Por isso os estudos s\u00e3o tarefa imperativa para melhor qualificar a luta contra o capital. Por\u00e9m, \u00e9 mister compreender o tempo do revolucion\u00e1rio preto no cumprimento dessa tarefa. Por uma n\u00edtida op\u00e7\u00e3o, aos brancos basta a produ\u00e7\u00e3o te\u00f3rica de seus pares. Mas, al\u00e9m de se apropriar das mesmas fontes que os camaradas brancos, aos pretos \u00e9 necess\u00e1ria ainda a apreens\u00e3o do que j\u00e1 foi produzido pelos autores da di\u00e1spora africana. E como na maioria das vezes essa produ\u00e7\u00e3o te\u00f3rica dos pretos n\u00e3o leva em considera\u00e7\u00e3o o fator \u201cclasse\u201d, ainda recai sobre o militante preto produzir combinando esses v\u00e1rios legados. Mas n\u00e3o termina a\u00ed. Aos militantes pretos cabe ainda a tarefa de ler o que setores do Movimento Negro escrevem contra o marxismo, pra poder tecer a cr\u00edtica sobre essas obras. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dado o quadro das rela\u00e7\u00f5es entre as ra\u00e7as no Brasil, o simples fato de desestimular o debate, os estudos e a a\u00e7\u00e3o sobre as quest\u00f5es espec\u00edficas do prolet\u00e1rio preto, j\u00e1 se configura em postura racista. \u00c9 importante a compreens\u00e3o de que, com base em tudo que foi escrito acima, o fortalecimento da identidade preta, quando conduzido por quem est\u00e1 comprometido com o socialismo, ao contr\u00e1rio de enfraquecer, s\u00f3 fortalece a identidade de classe. Por isso \u00e9 importante evitar o paternalismo e, ao mesmo tempo, entender que a forma\u00e7\u00e3o de n\u00facleos de militantes pretos em nossos partidos, instrumentos e movimentos n\u00e3o significa a constru\u00e7\u00e3o de guetos internos. Ao inv\u00e9s disso, \u00e9 certo enxerg\u00e1-los como espa\u00e7os de elabora\u00e7\u00e3o de t\u00e1ticas que, considerando nossas especificidades na luta de classes, buscar\u00e1 uma maior ades\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o preta prolet\u00e1ria, com um n\u00edvel de comprometimento e de consci\u00eancia revolucion\u00e1ria cada vez maior.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cada vez mais vermelho, sem deixar de ser preto, Gas-PA<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">09-03-2014<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[1] Mesmo antes da chegada dos imigrantes, os negros j\u00e1 realizavam seus movimentos paredistas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[2] \u201cAt\u00e9 agora os homens formaram sempre ideias falsas sobre si mesmos, sobre aquilo que s\u00e3o ou deveriam ser (\u2026). Os filhos de suas cabe\u00e7as cresceram-lhes acima da cabe\u00e7a. Curvaram-se, eles que s\u00e3o os criadores, diante das suas criaturas.\u201d (Marx e Engels, no pref\u00e1cio de A Ideologia Alem\u00e3.)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[3] Ainda hoje a diferen\u00e7a entre o sal\u00e1rio do trabalhador branco para o trabalhador preto orbita entre os 45%<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[4] Isso n\u00e3o significa que estejamos, por exemplo, negando um processo de exterm\u00ednio da popula\u00e7\u00e3o preta (de acordo com Karl Marx nenhuma transforma\u00e7\u00e3o social ocorre sem que as for\u00e7as produtivas se desenvolvam a ponto de se chocarem com as rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o existentes. Quando isso acontece apresenta-se um per\u00edodo revolucion\u00e1rio. Para tentar impedir a revolu\u00e7\u00e3o, cabe \u00e0 classe dominante barrar a evolu\u00e7\u00e3o das for\u00e7as produtivas, destruindo-as. Segundo a soci\u00f3loga Vera Malaguti Batista estima-se que 20% da for\u00e7a de trabalho hoje existente deem conta de mover a economia no mundo. Os 80% restante s\u00e3o um percentual exagerado pra ser comportado dentro do ex\u00e9rcito industrial de reserva. Ent\u00e3o, o que fazer com o que sobra? Pesquisa divulgada em 2013 revela que aqui se mata 139% a mais de pretos do que de pessoas brancas. No Brasil coube ao afro descendente o papel de excedente do ex\u00e9rcito industrial de reserva. A for\u00e7a de trabalho preta \u00e9 parte significativa das for\u00e7as produtivas que o inimigo aniquila para impedir o choque delas com as rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o capitalista). O que negamos, ent\u00e3o, \u00e9 que qualquer pol\u00edtica racista corrente tenha como finalidade a extin\u00e7\u00e3o do preto no Brasil capitalista, assim como o Brasil escravista n\u00e3o podia abrir m\u00e3o de seus negros, ainda que os massacrasse.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[5] A partir de 1908 essa miscigena\u00e7\u00e3o ganha mais um elemento com a imigra\u00e7\u00e3o japonesa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[6] Em 2005 o Brasil era o 63\u00ba no ranking do \u00cdndice de Desenvolvimento Humano (IDH). Analisando dados de ent\u00e3o, o economista Marcelo Paix\u00e3o revelou que se divid\u00edssemos o Brasil em dois, um preto e um branco, e compar\u00e1ssemos ambos os IDHs com os dos outros pa\u00edses, o Brasil branco subiria para 47\u00aa posi\u00e7\u00e3o, enquanto o Brasil preto cairia para 92\u00ba.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[7] Vejamo o que diz Darcy Ribeiro, no seu cl\u00e1ssico O povo brasileiro: \u00b4\u00b4\u00c9 preciso reconhecer, entretanto, que o apartheid tem conte\u00fados de toler\u00e2ncia que aqui se ignora. Quem afasta o alterno (diferente) e o p\u00f5e \u00e0 dist\u00e2ncia maior poss\u00edvel, admite que ele conserve, l\u00e1 longe, sua identidade, continuando a ser ele mesmo. Em consequ\u00eancia, induz \u00e0 profunda solidariedade interna do grupo discriminado, o que o capacita a lutar claramente por seus direitos sem admitir paternalismos.\u00b4\u00b4<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[8] Ainda no mesmo par\u00e1grafo da obra citada na nota anterior: \u00b4\u00b4Nas conjunturas assimilacionistas, ao contr\u00e1rio, se dilui a negritude numa vasta escala de gradua\u00e7\u00f5es, que quebra s solidariedade, reduz a combatividade (\u2026)\u00b4\u00b4. (S\u00f3 para ilustrar, o ent\u00e3o jogador Ronaldo (fen\u00f4meno), em entrevista sobre o racismo na Europa, disse que at\u00e9 ele que n\u00e3o \u00e9 negro (sic) se sente profundamente incomodado e solid\u00e1rio ao problema de seus companheiros v\u00edtimas do preconceito racial. Tal declara\u00e7\u00e3o foi condenada publicamente por seu pai, um \u201cnegro\u201d assumido.)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[9] Por exemplo, pesquisa da Fiocruz que entrevistou 10 mil mulheres, conclui que 11,1% das pretas n\u00e3o receberam anestesia no parto. Mais que o dobre do percentual de mulheres brancas (5,1%)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Apresentamos a seguir a contribui\u00e7\u00e3o do rapper e ativista G\u00e1s-Pa, do coletivo de hip hop Lutarmada, sobre a quest\u00e3o racial<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":3346,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":true,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[11],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3428"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3428"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3428\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3430,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3428\/revisions\/3430"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3346"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3428"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3428"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3428"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}