{"id":3581,"date":"2014-11-27T00:35:37","date_gmt":"2014-11-27T02:35:37","guid":{"rendered":"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/?p=3581"},"modified":"2014-11-27T00:42:11","modified_gmt":"2014-11-27T02:42:11","slug":"ferguson-e-uma-revolta-da-populacao-negra-e-de-toda-a-classe-trabalhadora","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/2014\/11\/ferguson-e-uma-revolta-da-populacao-negra-e-de-toda-a-classe-trabalhadora\/","title":{"rendered":"Jornal 74: Ferguson: \u00c9 uma revolta da popula\u00e7\u00e3o negra e de toda a classe trabalhadora!"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">No dia 9 de Agosto desse ano, James Brown \u2013 jovem negro de 18 anos \u2013 caminhava com um amigo pelas ruas da cidade de Ferguson (em Missouri, Estados Unidos), quando uma viatura da pol\u00edcia interrompeu o seu percurso. Mesmo estando o jovem desarmado e sem ter reagido, o policial branco Darren Wilson o confrontou e perseguiu at\u00e9 causar a sua morte, descarregando seis tiros. Era dia e v\u00e1rias pessoas testemunharam o assassinato.<br \/>\nO cruel evento desembocou numa s\u00e9rie de manifesta\u00e7\u00f5es em den\u00fancia do ocorrido, que se estenderam pelos \u00faltimos meses. A pol\u00edcia local, com o apoio da Guarda Nacional, vem reprimindo as mobiliza\u00e7\u00f5es da popula\u00e7\u00e3o com g\u00e1s lacrimog\u00eaneo, balas de borracha e pris\u00f5es \u2013 qualquer semelhan\u00e7a com a democracia brasileira n\u00e3o \u00e9 mera coincid\u00eancia.<br \/>\nO homic\u00eddio desse jovem n\u00e3o \u00e9 um epis\u00f3dio acidental, muito menos um caso isolado de racismo: faz parte da rotina dos Estados Unidos. Assim como acontece no Brasil, o racismo da sociedade norte-americana se expressa de v\u00e1rias formas. Para trazer alguns exemplos: a cidade de Ferguson tem 21 mil habitantes &#8211; a cada 3 pessoas, 2 s\u00e3o negras. O desemprego atinge metade da juventude negra, enquanto apenas 2 a cada 10 jovens brancos est\u00e3o nessa condi\u00e7\u00e3o. Outro dado interessante diz respeito \u00e0 composi\u00e7\u00e3o do contingente policial: em Ferguson, \u00e9 formado quase na totalidade por policiais brancos. Passar por baculejos fazem parte do dia a dia da juventude negra na cidade. No ano passado, a cada 10 carros que foram parados pela abordagem policial, 9 eram dirigidos por negros.<br \/>\nSabemos que \u00e9 preciso ir al\u00e9m das apar\u00eancias para entender esses fen\u00f4menos. Se nos contentarmos em enxergar a ideologia e viol\u00eancia racistas como meros impulsos desumanos e autorit\u00e1rios, sem buscar alcan\u00e7ar suas ra\u00edzes, n\u00e3o saberemos como enfrent\u00e1-las, uma vez que o alvo do problema deixar\u00e1 de ser o que causa o racismo, para se tornar os indiv\u00edduos que sustentam e disseminam esses comportamentos atrozes.<br \/>\nA condi\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o negra norte-americana possui elementos em comum em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 brasileira: menor forma\u00e7\u00e3o educacional (seja no ensino fundamental ou superior), reduzido acesso aos servi\u00e7os de sa\u00fade e lazer, maiores taxas de desemprego, menores sal\u00e1rios e assim por diante. A ideologia racista, por h\u00e1bito, explica esses n\u00fameros atrav\u00e9s do que sup\u00f5e ser a \u201cmaneira negra de se viver\u201d \u2013 abstrai todos os determinantes sociais que rondam e torturam a popula\u00e7\u00e3o negra na atualidade.<br \/>\nTal como se deu no Brasil, a popula\u00e7\u00e3o negra estadunidense foi composta por povos que foram sequestrados de suas terras natais (de 1500 ao s\u00e9culo 18), durante o processo colonizador, para realizar trabalho for\u00e7ado (fatigante, sob vig\u00edlia e amea\u00e7a dos senhores de escravos) e garantir o desenvolvimento econ\u00f4mico das metr\u00f3poles europeias \u2013 ber\u00e7o da sociedade capitalista. N\u00e3o h\u00e1 um s\u00f3 pa\u00eds deste grande continente (que engloba a Am\u00e9rica do Norte e a Am\u00e9rica Latina) que tenha se desenvolvido sem depender do trabalho escravo \u2013 seja de africanos ou ind\u00edgenas: essa \u00e9 a hist\u00f3ria da sociedade moderna.<br \/>\nEsses 11 milh\u00f5es de indiv\u00edduos, arrancados da \u00c1frica, cumpriram papel fundamental na hist\u00f3ria de nosso continente: sob o peso das correntes, da fome, do encarceramento, da viol\u00eancia f\u00edsica e espiritual, garantiram o pleno florescer do com\u00e9rcio e da ind\u00fastria da Europa. Com o trabalho nos latif\u00fandios e nas minas, alimentavam o insaci\u00e1vel est\u00f4mago do capitalismo com mat\u00e9rias-primas, o que se traduzia numa sempre crescente produ\u00e7\u00e3o de mercadorias pela ind\u00fastria europeia.<br \/>\nA popula\u00e7\u00e3o negra atravessou s\u00e9culos de resist\u00eancia perante os mandos e trucul\u00eancias exercidas pela classe branca dominante. O fim do tr\u00e1fico negreiro para os Estados Unidos se deu por volta da aboli\u00e7\u00e3o da escravatura, que aconteceu em 1863. Como no Brasil, ao mesmo tempo em que representou o imenso avan\u00e7o de liberta\u00e7\u00e3o dos trabalhadores negros das correntes dos senhores de escravos, n\u00e3o os livrou do dom\u00ednio da l\u00f3gica que mercantiliza o ser humano, nem das piores condi\u00e7\u00f5es de vida com que podiam deparar-se naquele pa\u00eds, uma vez que seguiam sendo os setores que enfrentavam as situa\u00e7\u00f5es mais precarizadas, de priva\u00e7\u00e3o de direitos sociais e pol\u00edticos fundamentais.<br \/>\nA sociedade norte-americana, desde ent\u00e3o, passou por uma s\u00e9rie de transforma\u00e7\u00f5es. Especialmente a partir de 1950, sob as bandeiras dos movimentos feministas e antirracista, a classe trabalhadora reuniu uma s\u00e9rie de conquistas, como a lei que pro\u00edbe a discrimina\u00e7\u00e3o \u00e9tnica, de g\u00eanero e religiosa em escolas, no trabalho e em locais p\u00fablicos (antes, alguns desses eram acess\u00edveis apenas \u00e0 popula\u00e7\u00e3o branca); a aprova\u00e7\u00e3o da lei que garantia o direito ao voto pela popula\u00e7\u00e3o negra; e o direito ao sal\u00e1rio igual pelas mulheres.<br \/>\nTodas essas vit\u00f3rias devem ser atribu\u00eddas \u00e0s lutas coletivas dos movimentos sociais do pa\u00eds \u2013 e n\u00e3o, como nos ensinam os livros de Hist\u00f3ria, \u00e0s grandes mentes pensantes, de personagens pol\u00edticos que sacaram ideais humanit\u00e1rios da cabe\u00e7a. Foram direitos conquistados a partir de necessidades cotidianas b\u00e1sicas dos trabalhadores, frente a uma sociedade que, al\u00e9m de estar dividida entre dominantes (que desfrutam da riqueza socialmente produzida) e dominados (que disputam o p\u00e3o socialmente amassado), sustenta disparidades socioecon\u00f4micas entre as categorias que comp\u00f5em estes.<br \/>\nO ide\u00e1rio e comportamento racistas \u2013 estejam eles alojados na pol\u00edcia, no Estado, na classe trabalhadora ou reproduzidos pela pr\u00f3pria popula\u00e7\u00e3o negra \u2013 n\u00e3o podem ser entendidos como uma brutalidade que as pessoas decidem, espontaneamente, perpetrar contra uma minoria. Ele \u00e9 uma express\u00e3o de um processo s\u00f3cio-hist\u00f3rico \u2013 de grupos, g\u00eaneros, ra\u00e7as\/etnias, nacionalidades etc. que enfrentam condi\u00e7\u00f5es desiguais na vida social.<br \/>\nIsso tamb\u00e9m nos serve pra entender, por exemplo, porque a pol\u00edcia \u2013 apesar de ser apresentada como a \u201cfor\u00e7a p\u00fablica respons\u00e1vel seguran\u00e7a e bem-estar da popula\u00e7\u00e3o\u201d (coisa que vemos ser desmentida a cada dia; pois cumpre o papel direto de manuten\u00e7\u00e3o do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista) \u2013 torna-se fonte de medo pelos setores mais desfavorecidos e marginalizados da sociedade (70% dos americanos negros sentem-se injusti\u00e7ados, quando comparam o tratamento que a for\u00e7a policial d\u00e1 aos americanos brancos; no Brasil, uma pesquisa recente revelou que 80% da popula\u00e7\u00e3o teme ser torturada, se detida pela pol\u00edcia).<br \/>\nOs trabalhadores n\u00e3o devem baixar suas cabe\u00e7as frente \u00e0 repress\u00e3o policial: quando um trabalhador negro \u00e9 humilhado, torturado e assassinado, somos derrotados, pois perdemos mais um de n\u00f3s. Destruir essa tirania, certamente, passa pelo germinar de uma sociedade onde o bem-estar das pessoas n\u00e3o mais esteja sujeito \u00e0s suas caracter\u00edsticas \u00e9tnicas, de orienta\u00e7\u00e3o sexual, de g\u00eanero, nem de classe; a sociedade socialista representa o projeto pol\u00edtico que pode p\u00f4r fim a essas opress\u00f5es. Hoje, no entanto, temos o imperativo de lutar contra o exterm\u00ednio dos negros, LGBTs, das mulheres e de outras minorias \u2013 as bandeiras das minorias s\u00e3o bandeiras de toda a classe trabalhadora!<img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-3582\" alt=\"fergusson 1\" src=\"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2014\/11\/fergusson-1.jpg\" width=\"800\" height=\"445\" srcset=\"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2014\/11\/fergusson-1.jpg 800w, https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2014\/11\/fergusson-1-300x166.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No dia 9 de Agosto desse ano, James Brown \u2013 jovem negro de 18 anos \u2013 caminhava com um amigo<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":3582,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":true,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6,13,21],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3581"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3581"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3581\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3591,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3581\/revisions\/3591"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3582"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3581"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3581"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3581"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}