{"id":36,"date":"2008-12-13T16:09:36","date_gmt":"2008-12-13T16:09:36","guid":{"rendered":"http:\/\/espacosocialista.org\/?q=node\/36"},"modified":"2018-05-04T21:50:12","modified_gmt":"2018-05-05T00:50:12","slug":"o-codigo-da-vinci-e-os-segredos-do-espetaculo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/2008\/12\/o-codigo-da-vinci-e-os-segredos-do-espetaculo\/","title":{"rendered":"&#8220;O C\u00f3digo Da Vinci&#8221; e os segredos do espet\u00e1culo"},"content":{"rendered":"<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<h1>O C\u00d3DIGO DA VINCI E OS SEGREDOS DO ESPET\u00c1CULO<\/h1>\n<h1><\/h1>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\"><span lang=\"EN-US\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Toda vez que \u00e9 perguntado sobre \u201cO C\u00f3digo da Vinci\u201d, este escriba oferece uma \u00fanica resposta: \u201cO p\u00eandulo de Foucault\u201d. O livro do italiano Umberto Eco \u00e9 o verdadeiro comp\u00eandio das teorias de conspira\u00e7\u00e3o envolvendo cabala, alquimia, magia, Igreja, sociedades secretas, druidas, templ\u00e1rios, rosa-cruzes, ma\u00e7ons, Santo Graal, linhagem merov\u00edngia, etc., urdido com inesgot\u00e1vel erudi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o apenas sustentado em rigorosa pesquisa, mas inspirado em d\u00e9cadas de dedicado conv\u00edvio com livros, manuscritos, pergaminhos, papiros e toda sorte de documentos aut\u00eanticos que os s\u00e9culos depositaram nas venerandas bibliotecas medievais ainda hoje preservadas na Europa.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O livro de Dan Brown \u00e9 uma simples brincadeira superficial, que se aproveita de maneira oportunista de alguns daqueles temas. Evidentemente, \u201cO C\u00f3digo da Vinci\u201d est\u00e1 destinado a se tornar \u201cbest seller\u201d mundial e assunto da moda, enquanto \u201cO p\u00eandulo de Foucault\u201d permanece uma curiosidade restrita ao mundo dos aficcionados. As qualidades liter\u00e1rias que distinguem um livro do outro d\u00e3o esmagadora vantagem ao autor italiano, mas isso n\u00e3o importa. A fortuna cr\u00edtica da produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria e art\u00edstica em geral est\u00e1 sujeita ao jugo da ind\u00fastria cultural. N\u00e3o importa a qualidade intr\u00ednseca da obra, importa o quanto ela rende aos intermedi\u00e1rios que mercadejam a cultura.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Os livros, filmes, m\u00fasicas, etc., se tornam not\u00f3rios n\u00e3o por serem bons, mas pelo n\u00famero de c\u00f3pias que vendem. Pode acontecer de algumas obras de qualidade serem tamb\u00e9m sucessos comerciais, mas tais casos excepcionais constituem felizes exce\u00e7\u00f5es. A tend\u00eancia prevalecente \u00e9 de que aconte\u00e7a o oposto. Numa \u00e9poca em que o valor cultural est\u00e1 submetido ao valor de troca, a ind\u00fastria cultural direciona a produ\u00e7\u00e3o e o consumo de produtos culturais tendo em vista um gosto e uma sensibilidade m\u00e9dios capazes de lhe proporcionar um mercado o mais amplo poss\u00edvel.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">S\u00e3o editadas\/produzidas apenas as obras que ter\u00e3o retorno comercial garantido, ou pelo menos preferencialmente tais obras.\u00a0 Tudo o que destoa desse padr\u00e3o constitui um restrito e minorit\u00e1rio ato de resist\u00eancia. Inversamente, o gosto e a sensibilidade do leitor\/espectador\/ouvinte\/consumidor tendem a permanecer limitados ao n\u00edvel padr\u00e3o da ind\u00fastria. Nem autores, nem comerciantes, nem p\u00fablico querem correr riscos e fazer experi\u00eancias.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A produ\u00e7\u00e3o rebaixa o consumo e o consumo rebaixa a produ\u00e7\u00e3o.\u00a0 Nesse c\u00edrculo vicioso, a cultura deixa de cumprir a fun\u00e7\u00e3o de elevar os esp\u00edritos, alargar os horizontes, despertar as consci\u00eancias e enriquecer a Humanidade. A cultura passa a ser simples divers\u00e3o. Nada contra a divers\u00e3o. Umberto Eco tamb\u00e9m escreveu um thriller medieval em que a causa dos crimes era o \u201cperigo\u201d representado pelo riso. Acontece que divertir \u00e9 apenas uma das fun\u00e7\u00f5es das obras de arte. Sua fun\u00e7\u00e3o completa \u00e9 definir, retratar e moldar o ser humano. Ser \u201ca mem\u00f3ria e a auto-consci\u00eancia da humanidade\u201d, na defini\u00e7\u00e3o de Luk\u00e1cs.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A cr\u00edtica de um produto cultural dessa natureza n\u00e3o se esgota no procedimento de denunciar a sua vulgaridade e superficialidade. \u00c9 preciso qualificar historicamente essa vulgariza\u00e7\u00e3o. A segmenta\u00e7\u00e3o entre a cultura erudita e a cultura da massa n\u00e3o \u00e9 uma novidade da sociedade capitalista. A ind\u00fastria cultural \u00e9 apenas a forma atualizada dessa segmenta\u00e7\u00e3o. Sempre existiu uma cultura popular, local, espont\u00e2nea, tradicional, folcl\u00f3rica e artesanal (que hoje cede lugar ao filme-m\u00fasica-programa de TV industrializados); que embora formalmente contraposta, desenvolvia uma rela\u00e7\u00e3o de m\u00e3o dupla muitas vezes fecunda com a aristocr\u00e1tica arte erudita (que por sua vez se tornou um nicho de mercado segmentado e minorit\u00e1rio), sendo que ambas retinham de formas diferentes o potencial de retratar o universal humano.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O paradoxo da forma especificamente capitalista de segmenta\u00e7\u00e3o \u00e9 que ela deixa de cumprir o papel emancipador embutido na capacidade multiplicadora dos meios t\u00e9cnicos de difus\u00e3o de massa. Ao inv\u00e9s de multiplicar os conte\u00fados e torn\u00e1-los acess\u00edveis a todos os p\u00fablicos a tecnologia aplicada \u00e0 ind\u00fastria cultural os reduz em sua variedade e rebaixa em sua qualidade. A tecnologia n\u00e3o \u00e9 politicamente neutra. A produ\u00e7\u00e3o em massa de livros, a imprensa industrial, o cinema, o r\u00e1dio, a televis\u00e3o, a internet, etc.; serviram apenas para enquadrar a produ\u00e7\u00e3o cultural nas exig\u00eancias da forma-mercadoria.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Esse discurso parece bastante deslocado para falar do \u201cC\u00f3digo da Vinci\u201d. Trata-se de um livro, mas n\u00e3o de uma obra de literatura (rigorosamente, nem mesmo \u201cO p\u00eandulo de Foucault\u201d \u00e9 literatura, \u00e9 uma boa obra de mist\u00e9rio). Livros desse tipo s\u00e3o concebidos expressamente para serem \u201cbest sellers\u201d. O destino final de todo \u201cbest seller\u201d realmente bem-sucedido, por sua vez, \u00e9 servir como roteiro de cinema.\u00a0 A sub-literaura atualmente produzida \u00e9 a ante-sala do cinema. Na produ\u00e7\u00e3o cultural contempor\u00e2nea, inverteu-se a rela\u00e7\u00e3o de depend\u00eancia e determina\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 a literatura que precede o cinema, o cinema \u00e9 prioridade em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 literatura. N\u00e3o \u00e9 a literatura que est\u00e1 alimentando o cinema de id\u00e9ias consistentes e relevantes, \u00e9 o cinema que est\u00e1 demandando id\u00e9ias film\u00e1veis dos escritores.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O leitor do \u201cC\u00f3digo da Vinci\u201d est\u00e1 lendo um roteiro de cinema, ao inv\u00e9s de um livro. N\u00e3o apenas o imagin\u00e1rio do autor est\u00e1 determinado por uma vis\u00e3o cinematogr\u00e1fica e imag\u00e9tica da realidade (coisa que toda arte que verdadeiramente retrata o mundo atual tamb\u00e9m est\u00e1), mas o livro \u00e9 escrito de sa\u00edda como uma seq\u00fc\u00eancia de imagens film\u00e1veis. O leitor imaginativo \u00e9 capaz de visualizar imediatamente as cenas, os cortes de edi\u00e7\u00e3o e at\u00e9 ouvir a trilha sonora padr\u00e3o com seus coros e violinos. O livro n\u00e3o se serve plenamente dos recursos da comunica\u00e7\u00e3o escrita, n\u00e3o explora o potencial das palavras para criar conceitos, mundos e sentimentos, capazes de desafiar o leitor, de faz\u00ea-lo mergulhar nos seus abismos interiores e sair transformado da experi\u00eancia. Apesar de se servir de palavras escritas, a linguagem do livro \u00e9 visual e n\u00e3o liter\u00e1ria.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Curiosamente, trata-se de um livro que fala da alta cultura, do mundo dos museus e das grandes obras de artes, da hist\u00f3ria e dos segredos profundos da religi\u00e3o. Tais temas sugerem uma alta densidade de pensamento, uma ampla riqueza de significados, uma grande profundidade de reflex\u00e3o. Deparamo-nos por\u00e9m com o mundo de her\u00f3is e vil\u00f5es bidimensionais, conflitos e atitudes tradicionais, for\u00e7as do bem e do mal rigidamente demarcadas. Os personagens do \u201cC\u00f3digo da Vinci\u201d vivem uma aventura f\u00edsica e exterior, n\u00e3o uma jornada de transforma\u00e7\u00e3o interior. Tampouco as cren\u00e7as e valores do leitor s\u00e3o confrontados.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00c9 curioso o conceito que o autor faz da alta cultura, da arte e da religi\u00e3o. S\u00e3o objetos de curiosidade, de conversa de sal\u00e3o, de almanaque de luxo, de \u201ccultura in\u00fatil\u201d. N\u00e3o t\u00eam nada de especial a dizer aos personagens e ao leitor, nenhuma mensagem de significado complexo e profundo. S\u00e3o t\u00e3o somente nomes, constituindo um repert\u00f3rio quantitativo de informa\u00e7\u00f5es indiferentes. A estrutura da trama \u00e9 a de um jogo de enigmas que devem ser decifrados para conduzir ao enigma seguinte, e os enigmas s\u00e3o jogos de palavras encadeados de maneira exterior, n\u00e3o mensagens que exigem reflex\u00e3o e amadurecimento. O conceito de atividade intelectual desenvolvido no livro \u00e9 de uma mera acumula\u00e7\u00e3o quantitativa de dados. Um jogo competitivo a ser resolvido pela for\u00e7a bruta da capacidade de memoriza\u00e7\u00e3o. O intelectual n\u00e3o \u00e9 um s\u00e1bio, \u00e9 um sabich\u00e3o. O intelectual \u00e9 um colecionador de figurinhas de luxo, um nerd das antiguidades e das letras.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Ningu\u00e9m precisa ser um estudioso acad\u00eamico da simbologia religiosa para distinguir pares de conceitos b\u00e1sicos e evidentes como o masculino e o feminino, a luz e as sombras, o dia e a noite, a esquerda e a direita, etc. Tais pares de contraposi\u00e7\u00f5es est\u00e3o imediatamente dados e s\u00e3o discern\u00edveis \u00e0 observa\u00e7\u00e3o mais superficial. N\u00e3o \u00e9 preciso ser um professor universit\u00e1rio para descobr\u00ed-las por toda parte. Mas e quanto aos c\u00f3digos escondidos? As pistas para decifrar os enigmas? Os c\u00f3digos s\u00e3o o verdadeiro protagonista da trama e justamente por isso a rela\u00e7\u00e3o com os objetos de arte \u00e9 utilit\u00e1ria e superficial. A fun\u00e7\u00e3o da arte \u00e9 servir de suporte para os c\u00f3digos. Isso est\u00e1 longe de expressar \u201ca mensagem de significado complexo e profundo\u201d que constitui o escopo da arte. \u201cO C\u00f3digo da Vinci\u201d destaca a intelig\u00eancia de seus personagens, mas n\u00e3o faz justi\u00e7a ao significado e ao conte\u00fado da arte que pretende talvez homenagear.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O que temos em m\u00e3os \u00e9 um cen\u00e1rio de luxo e um rico contexto hist\u00f3rico como pano de fundo para uma aventura comum. Mas se trata-se de uma aventura comum, o que explica o extraordin\u00e1rio sucesso comercial? O fasc\u00ednio do livro decorre da ignor\u00e2ncia geral com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 hist\u00f3ria da religi\u00e3o em especial e tamb\u00e9m da arte. O livro \u00e9 considerado pol\u00eamico, escandaloso ou at\u00e9 mesmo ofensivo. Na tese que estrutura a trama, artistas como Leonardo da Vinci e cientistas como Isaac Newton faziam parte de uma organiza\u00e7\u00e3o secreta, que detinha conhecimentos capazes de destruir as certezas da religi\u00e3o estabelecida, e tentaram transmitir parte desses conhecimentos em suas obras de arte e de arquitetura em locais que se tornaram hist\u00f3ricos.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Est\u00e1 em curso uma guerra dos sup\u00e9rstites contempor\u00e2neos dessa organiza\u00e7\u00e3o secreta contra um grupo tamb\u00e9m secreto da Igreja Cat\u00f3lica que sabe da exist\u00eancia desses conhecimentos e quer destru\u00ed-los. Os protagonistas do livro s\u00e3o apanhados no fogo cruzado dessa guerra, sendo obrigados a decifrar pistas que se espalham por obras de arte e locais hist\u00f3ricos. Ter\u00e3o como pr\u00eamio, al\u00e9m de salvar a pele e a reputa\u00e7\u00e3o, o acesso ao tesouro secreto dos antagonistas do Vaticano.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Com essa trama, havia a possibilidade de tratar de algumas quest\u00f5es fundamentais da hist\u00f3ria e da cultura ocidental. Pelo menos tr\u00eas n\u00facleos de quest\u00f5es se destacam.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O primeiro deles est\u00e1 relacionado \u00e0 humanidade de Jesus. Quando se considera a B\u00edblia como objeto hist\u00f3rico, \u00e9 for\u00e7oso destacar o fato de que o livro dos livros foi editado atrav\u00e9s de um processo milenar de sele\u00e7\u00e3o desenvolvido com base em escolhas pol\u00edticas contingentes. As escolhas que determinaram quais escritos seriam considerados can\u00f4nicos e quais seriam ap\u00f3crifos foram feitas de acordo com os interesses sociais e pol\u00edticos prevalecentes. A doutrina e as f\u00f3rmulas da religi\u00e3o crist\u00e3 foram definidas autoritariamente pela c\u00fapula do clero cat\u00f3lico, tendo em vista conveni\u00eancias pol\u00edticas do imp\u00e9rio romano. Com isso, a imagem de Jesus desapareceu sob os v\u00e9us obscurantistas do dogma. O homem foi suprimido e transformado em objeto sobrenatural de culto. A filosofia do amor, da paz e da toler\u00e2ncia se transformou no fanatismo homicida das seitas, cruzadas e inquisi\u00e7\u00f5es. Quem quer que se disponha a seguir Jesus e viver como ele viveu se coloca automaticamente na fila para ser queimado como herege. O pr\u00f3prio Jesus, se voltasse hoje para expulsar os vendilh\u00f5es do templo, seria prontamente crucificado por aqueles que em seu nome constru\u00edram aparatos de poder material, repress\u00e3o social e retrocesso ideol\u00f3gico. Tal \u00e9 o destino de m\u00e1rtires que se dedicam a desenvolver as melhores qualidades humanas, como Jesus, como S\u00f3crates, como Gandhi, etc.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Um segundo aspecto importante a ser destacado \u00e9 a opress\u00e3o imposta sobre as mulheres. Ao contr\u00e1rio do ensinamento de Jesus, o cristianismo que historicamente se desenvolveu nas seitas organizadas relegou as mulheres a um papel secund\u00e1rio, inferior, subordinado, servil, desvalorizado, esvaziado e at\u00e9 mesmo maligno. A mulher \u00e9 a pecadora, a impura, a bruxa, a prostituta, a escrava, a ignorante. O patriarcado oriental contaminou o juda\u00edsmo, o cristianismo e o islamismo. Houve momentos da hist\u00f3ria em que alguns povos adeptos das tr\u00eas religi\u00f5es b\u00edblicas observaram um certo respeito pelas mulheres, mas na maior parte do tempo prevaleceu e ainda prevalecem o obscurantismo b\u00e1rbaro e o autoritarismo machista, materializado na mais selvagem e odiosa opress\u00e3o. Em algumas religi\u00f5es n\u00e3o-b\u00edblicas, como a grega e a romana, e nas religi\u00f5es dos povos origin\u00e1rios da Am\u00e9rica e da Oceania, o papel feminino n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o desvalorizado e em alguns casos \u00e9 t\u00e3o destacado quanto o masculino. N\u00e3o h\u00e1 hierarquia entre eles, h\u00e1 diferen\u00e7a. Ou no m\u00ednimo, n\u00e3o h\u00e1 o mesmo grau de inferioriza\u00e7\u00e3o da figura da mulher.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Cada religi\u00e3o reflete as caracter\u00edsticas da sociedade em que floresce. A sociedade de classe, baseada na desigualdade e na for\u00e7a, necessariamente exclui e oprime partes inteiras de sua popula\u00e7\u00e3o. A primeira dessas partes a ser subjugada corresponde ao inteiro g\u00eanero feminino. Isso se reflete na demoniza\u00e7\u00e3o da mulher pela religi\u00e3o crist\u00e3 institucionalizada.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A demoniza\u00e7\u00e3o da mulher tem como contrapeso, evidentemente, a valoriza\u00e7\u00e3o da mulher submissa, obediente e assexuada. O melhor exemplo desse modelo \u00e9 a figura da virgem Maria, o exato oposto do sagrado feminino das religi\u00f5es pag\u00e3s. Isso leva ao terceiro complexo de problemas fundamentais da cultura ocidental minimamente arranhados pelo livro, que diz respeito \u00e0 interdi\u00e7\u00e3o do sexo. A imposi\u00e7\u00e3o autorit\u00e1ria de uma moral abstrata pelo cristianismo organizado exige a nega\u00e7\u00e3o do mundo terreno, da vida material, das rela\u00e7\u00f5es autenticamente humanas, do corpo humano e do sexo. O cristianismo hist\u00f3rico organizado definiu o homem pelo pecado, n\u00e3o pelo amor, estimulando a segrega\u00e7\u00e3o e n\u00e3o o perd\u00e3o, a auto-repress\u00e3o e n\u00e3o a auto-realiza\u00e7\u00e3o. O pecado a ser combatido \u00e9 tudo aquilo que causa prazer. O prazer a ser reprimido \u00e9 basicamente o prazer sexual.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Dan Brown estaria se colocando contra essas tr\u00eas tend\u00eancias obscurantistas por meio de uma \u00fanica id\u00e9ia, a do casamento de Jesus com Maria de Magdala, que teria originado toda uma linhagem de descendentes. Com isso estaria restitu\u00edda a humanidade de Jesus, a import\u00e2ncia das mulheres e a naturalidade do sexo. Um autor com disposi\u00e7\u00e3o e muni\u00e7\u00e3o para levar adiante essas tr\u00eas causas teria o apoio entusi\u00e1stico deste escriba. \u201cO C\u00f3digo da Vinci\u201d tem pelo menos o m\u00e9rito de tocar nessas quest\u00f5es. Mas seu esfor\u00e7o iluminista \u00e9 prontamente inutilizado e esterilizado por todo o aparato que cerca os produtos culturais: juntamente com a campanha promocional, vem a campanha difamat\u00f3ria, dizendo que \u00e9 tudo mentira, em seguida vem os desmentidos, e logo depois a turma do \u201cdeixa disso\u201d entra em campo, dizendo que o problema n\u00e3o tem import\u00e2ncia, \u201c\u00e9 tudo fic\u00e7\u00e3o mesmo\u201d, ningu\u00e9m precisa levar nada a s\u00e9rio e tudo pode continuar como antes. N\u00e3o vai mudar a vida de ningu\u00e9m.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: center;\" align=\"center\">O C\u00d3DIGO DA VINCI &#8211; O FILME<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Nome original: The Da Vinci code<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Produ\u00e7\u00e3o: Estados Unidos<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Ano: 2006<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Idiomas: Ingl\u00eas, Franc\u00eas, Latim<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Diretor: Ron Howard<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Roteiro: Akiva Goldsman, Dan Brown (romance)<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Elenco: Tom Hanks, Audrey Tautou, Ian McKellen, Jean Reno, Paul Bettany, Alfred Molina<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 G\u00eanero: drama, mist\u00e9rio, thriller<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <span lang=\"EN-US\">Fonte: \u201cThe Internet Movie Database\u201d \u2013 <\/span><a href=\"http:\/\/www.imdb.com\/\"><span lang=\"EN-US\">http:\/\/www.imdb.com\/<\/span><\/a><span lang=\"EN-US\">\u00a0 <\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A tend\u00eancia normal dos filmes feitos a partir da adapta\u00e7\u00e3o de obras liter\u00e1rias \u00e9 diluir o conte\u00fado da obra e rebaixar a complexidade de sua mensagem. O cinema \u00e9 o videoclip da literatura. O videoclip acabou com a possibilidade do ouvinte imaginar e fantasiar a m\u00fasica; o cinema fez algo parecido em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 literatura. O cinema se tornou a forma mais imediata de representar a realidade, fornecendo a linguagem e as met\u00e1foras da cultura popular globalizada. Isso se deve ao fato de que os artefatos da s\u00e9tima arte s\u00e3o muito mais acess\u00edveis \u00e0 percep\u00e7\u00e3o, embora o seu modo de produ\u00e7\u00e3o seja car\u00edssimo e o torne uma forma de express\u00e3o cuja pr\u00e1tica est\u00e1 limitada a uma restrit\u00edssima minoria. A palavra escrita, cujo poder de express\u00e3o \u00e9 substancialmente maior e cuja forma pr\u00e1tica a torna infinitamente mais acess\u00edvel, foi paradoxalmente relegada a um papel secund\u00e1rio na cultura.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Um livro \u00e9 capaz de dizer mais que um filme. Mas h\u00e1 livros e livros. No caso do \u201cC\u00f3digo da Vinci\u201d, expressamente concebido para virar filme, o resultado parece invertido. O filme parece realizar mais plenamente a \u201cinten\u00e7\u00e3o art\u00edstica\u201d contida no livro. O filme completa o livro, d\u00e1-lhe acabamento e forma final. O livro \u00e9 o rascunho e o filme \u00e9 a vers\u00e3o definitiva. Nesse caso, a imagem vale mais que mil palavras. Em um pouco mais de duas horas, os cen\u00e1rios, a m\u00fasica, o elenco, d\u00e3o vida e conte\u00fado a uma hist\u00f3ria que vegetava nas p\u00e1ginas de leitura ligeira e complei\u00e7\u00e3o raqu\u00edtica do livro. Em outras palavras, o filme \u00e9 melhor que o livro. Ron Howard e equipe s\u00e3o melhores fazendo fimes do que Dan Brown como escritor.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Isso n\u00e3o significa por\u00e9m que o filme seja mais profundo que o livro. Significa apenas que, no cinema, o charlatanismo, o escapismo, as emo\u00e7\u00f5es descart\u00e1veis, s\u00e3o muito mais disseminados e \u201caceit\u00e1veis\u201d do que na literatura. Na verdade, o filme consegue tornar ainda mais superficial e dilu\u00eddo o conte\u00fado do livro. Tamb\u00e9m n\u00e3o significa que o filme seja bom e se sustente com as pr\u00f3prias pernas. O elenco \u00e9 muito bem escalado, especialmente os coadjuvantes, mas falta qu\u00edmica entre os protagonistas. O papel de Sophie Neveu foi drasticamene reduzido na pel\u00edcula; todos os passos decisivos da trama cabem a Robert Langdon. Aqui evidentemente falou mais alto o poder do dinheiro hollywodiano em prol do astro estadunidense.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Se no livro havia uma disposi\u00e7\u00e3o m\u00ednima para apontar alguns problemas pol\u00edtico-ideol\u00f3gicos implicados nos dados hist\u00f3ricos levantados a pretexto da trama, o filme passou uma plaina por cima de tudo. N\u00e3o h\u00e1 disputa entre a concep\u00e7\u00e3o divina e a humana de Jesus, entre a diviniza\u00e7\u00e3o e a sataniza\u00e7\u00e3o da mulher, entre o banimento e o louvor ao sexo, entre a busca pela verdade e o obscurantismo da Opus Dei. No final das contas, todas as cren\u00e7as s\u00e3o v\u00e1lidas, o que importa \u00e9 ter f\u00e9, somos todos bonzinhos e at\u00e9 mesmo a Opus Dei e os setores mais reacion\u00e1rios do Vaticano n\u00e3o passam de pe\u00f5es no jogo de um velho ensandecido.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Se no livro estava colocada em discuss\u00e3o a causa iluminista e libert\u00e1ria da restaura\u00e7\u00e3o da humanidade de Jesus, da reabilita\u00e7\u00e3o do sagrado feminino, da absolvi\u00e7\u00e3o da sexualidade, atrav\u00e9s do combate ao autoritarismo clerical e \u00e0 usurpa\u00e7\u00e3o da filosofia de Jesus pelas seitas organizadas; no filme essa discuss\u00e3o est\u00e1 em \u00faltimo plano. N\u00e3o h\u00e1 causa em jogo, o Santo Graal \u00e9 s\u00f3 uma curiosidade arqueol\u00f3gica a satisfazer a vaidade de intelectuais-nerds-aristocratas.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Num filme feito para o mercado mundial, nada de tomar partido, de definir posi\u00e7\u00f5es, de ferir suscetibilidades pol\u00edtico-ideol\u00f3gicas e cren\u00e7as religiosas. Ficar em cima do muro \u00e9 a melhor pol\u00edtica que os produtores de cinema conseguem conceber. Transformar toda a disputa de significados em torno dos s\u00edmbolos mencionados no \u201cC\u00f3digo da Vinci\u201d em um simples jogo de gato e rato. Um jogo a princ\u00edpio envolvente, esteticamente elaborado, realizado com eleg\u00e2ncia, mas afinal esquec\u00edvel e descart\u00e1vel. \u00c9 o que melhor sabem fazer os alquimistas da cultura industrial contempor\u00e2nea.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">Daniel M. Delfino<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">02\/08\/2006<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\" class=\"MsoNormal\"><o:p>&nbsp;<\/o:p><\/p>\n<h1>O C&Oacute;DIGO DA VINCI E OS SEGREDOS DO ESPET&Aacute;CULO<\/h1>\n<h1><o:p>&nbsp;<\/o:p><\/h1>\n<p style=\"text-align: justify;\" class=\"MsoNormal\"><span lang=\"EN-US\" style=\"\"><o:p>&nbsp;<\/o:p><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" class=\"MsoNormal\"><o:p>&nbsp;<\/o:p><\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[9,76],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/36"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=36"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/36\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6146,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/36\/revisions\/6146"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=36"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=36"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=36"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}