{"id":3661,"date":"2015-01-16T23:28:42","date_gmt":"2015-01-17T01:28:42","guid":{"rendered":"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/?p=3661"},"modified":"2018-05-04T21:45:41","modified_gmt":"2018-05-05T00:45:41","slug":"o-abutre-e-o-fim-do-jornalismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/2015\/01\/o-abutre-e-o-fim-do-jornalismo\/","title":{"rendered":"&#8220;O Abutre&#8221; e o fim do jornalismo"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Coment\u00e1rio sobre o filme &#8220;O Abutre&#8221; &#8211; Daniel M. Delfino<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/abutre.jpg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-3662\" src=\"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/abutre.jpg\" alt=\"abutre\" width=\"498\" height=\"374\" srcset=\"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/abutre.jpg 498w, https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/abutre-300x225.jpg 300w, https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/abutre-80x60.jpg 80w\" sizes=\"(max-width: 498px) 100vw, 498px\" \/><\/a>O filme \u201cO abutre\u201d trata do mundo do jornalismo policial sensacionalista. Ambientado em Los Angeles, retrata a ascens\u00e3o de um cinegrafista amador, chamado Louis Bloom, que come\u00e7a de maneira improvisada vendendo v\u00eddeos para uma emissora local, e aos poucos se torna uma esp\u00e9cie de pequeno empres\u00e1rio do ramo. No in\u00edcio, ele aparece como um jovem desempregado, sem perspectivas, que vivia de bicos e pequenos delitos. Ao presenciar um acidente automobil\u00edstico e a a\u00e7\u00e3o de um cinegrafista \u201cfreelancer\u201d profissional e j\u00e1 bem estabelecido, Bloom resolve ingressar na \u00e1rea e se tornar tamb\u00e9m cinegrafista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sua coragem para quebrar as regras, se aproximar das cenas, expor em detalhes os incidentes, chegar antes mesmo da pol\u00edcia ou do resgate, o levam para um lugar de destaque no mundo das not\u00edcias. Suas filmagens s\u00e3o repetidamente exibidas como mat\u00e9ria de abertura do telejornal matinal de uma emissora local. A regra b\u00e1sica do jornalismo policial sensacionalista \u00e9 exposta logo no in\u00edcio pelo veterano cinegrafista e concorrente de Bloom, com um poder de s\u00edntese que s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel na l\u00edngua inglesa: \u201cif it bleeds, it leads\u201d, algo como, \u201cse tem sangue, tem manchete\u201d. A audi\u00eancia do jornalismo \u201cmundo c\u00e3o\u201d depende de sangue, de cenas violentas, tiroteios, atropelamentos, inc\u00eandios, com as v\u00edtimas sendo expostas sangrando.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quanto mais brutal, melhor. Louis Bloom aprende r\u00e1pido, como ele mesmo diz mais de uma vez. Tanto que aprende a manipular os acontecimentos, para que sejam os mais espetaculares e cinematogr\u00e1ficos poss\u00edveis. Para ser o melhor, ele n\u00e3o apenas retrata os incidentes, mas tamb\u00e9m os produz, nem que para isso tenha que colocar vidas humanas em risco e enganar a pol\u00edcia. A ascens\u00e3o de Bloom o leva at\u00e9 mesmo para o apartamento da diretora de jornalismo Nina, que se torna dependente dos seus materiais. A equa\u00e7\u00e3o \u00e9 muito simples: viol\u00eancia traz audi\u00eancia, audi\u00eancia traz dinheiro, dinheiro traz poder e poder traz sexo. O sexo traz compromisso e a exig\u00eancia de mais dinheiro e poder, o ciclo do capital n\u00e3o pode parar.<br \/>\nQue o jornalismo sensacionalista n\u00e3o tem escr\u00fapulos e seja levado ao c\u00famulo da desumaniza\u00e7\u00e3o pelo impulso da concorr\u00eancia por cenas mais espetaculares, isso j\u00e1 \u00e9 de certa forma conhecido. O mais interessante do filme, por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 a simples den\u00fancia da falta de escr\u00fapulos e de limites dos abutres que vivem \u00e0s custas de expor a viol\u00eancia urbana. O que d\u00e1 ao filme uma import\u00e2ncia maior s\u00e3o dois elementos muito marcantes no seu pano de fundo: a demonstra\u00e7\u00e3o impiedosa da fun\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica do jornalismo sensacionalista na luta de classes e tamb\u00e9m da degrada\u00e7\u00e3o social dos Estados Unidos na era Obama.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">A fun\u00e7\u00e3o do jornalismo: meias verdades que se tornam uma mentira<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Numa certa passagem algu\u00e9m diz que os programas jornal\u00edsticos dedicam 20 segundos para as not\u00edcias que dizem respeito \u00e0 economia, pol\u00edtica, quest\u00f5es sociais mais gerais, e 20 minutos para a viol\u00eancia urbana. Nessa propor\u00e7\u00e3o, qualquer possibilidade de est\u00edmulo a uma vis\u00e3o geral e cr\u00edtica da realidade est\u00e1 impossibilitada j\u00e1 desde o in\u00edcio. O jornalismo sucumbe ao sensacionalismo, e o sensacionalismo transforma o jornalismo num ramo de entretenimento, com a fun\u00e7\u00e3o narrar uma hist\u00f3ria, cujo roteiro j\u00e1 est\u00e1 definido.<br \/>\nA finalidade do jornalismo sensacionalista, sua fun\u00e7\u00e3o como ramo da m\u00eddia, aparece por meio da personagem Nina. Como diretora de jornalismo, ela sabe o que interessa \u00e0 audi\u00eancia e ensina \u00e0 equipe da emissora e ao cinegrafista Bloom. O crit\u00e9rio ideol\u00f3gico para avaliar o que \u00e9 not\u00edcia \u00e9 bastante preciso. H\u00e1 uma narrativa padr\u00e3o que deve ser permanentemente refor\u00e7ada. As hist\u00f3rias que interessam s\u00e3o as que mostram os brancos, bem sucedidos, de fam\u00edlias de alta renda, que moram em bairros de classe m\u00e9dia e de luxo, sendo v\u00edtimas de crimes cometidos por negros, latinos e asi\u00e1ticos. Isso \u00e9 not\u00edcia, o restante n\u00e3o \u00e9. Se os crimes acontecem nos bairros onde moram essas minorias, j\u00e1 n\u00e3o interessam \u00e0 audi\u00eancia, n\u00e3o s\u00e3o not\u00edcia.<br \/>\nA fun\u00e7\u00e3o da not\u00edcia no jornalismo sensacionalista n\u00e3o \u00e9 expor a realidade, \u00e9 enquadr\u00e1-la numa narrativa ideologicamente pr\u00e9 definida. Os brancos do segmento \u201cWASP\u201d (white, anglo-saxon, protestant \u2013 branco, anglo-sax\u00e3o, protestante) s\u00e3o os mocinhos, as minorias s\u00e3o os vil\u00f5es. Essa \u00e9 a narrativa padr\u00e3o que deve ser refor\u00e7ada, e tudo o que foge dessa narrativa deve ser oculto. No principal incidente do filme, um traficante de drogas que mora num bairro de luxo \u00e9 assassinado com a fam\u00edlia. Para o jornalismo sensacionalista, o assassinato \u00e9 a \u00fanica parte da realidade que interessa. Mostrar que se tratava de um traficante n\u00e3o interessa. A descoberta posterior de que ele tinha grande quantidade de coca\u00edna em casa n\u00e3o precisa ser mostrada, n\u00e3o \u00e9 not\u00edcia, porque \u201cestraga a hist\u00f3ria\u201d. A hist\u00f3ria tem que ser sempre a mesma: brancos como v\u00edtimas, minorias como vil\u00f5es.<br \/>\nO jornalismo policial sensacionalista parece estar mostrando uma realidade nua e crua, expondo em detalhes a viol\u00eancia urbana de uma grande metr\u00f3pole. Na verdade, essa aproxima\u00e7\u00e3o das lentes, essa exposi\u00e7\u00e3o cir\u00fargica dos detalhes dos incidentes, das pessoas sangrando no ch\u00e3o das ruas, n\u00e3o est\u00e1 se aproximando da realidade, mas se afastando dela. A verdade n\u00e3o est\u00e1 no detalhe em si, mas na sua rela\u00e7\u00e3o com o conjunto.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">\u201cA verdade est\u00e1 no todo\u201d, dizia Hegel<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para entender a viol\u00eancia urbana, \u00e9 preciso explicar a fun\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da proibi\u00e7\u00e3o do consumo de drogas, o fato de que a humanidade sempre consumiu drogas, de que algumas s\u00e3o permitidas e outras s\u00e3o proibidas; de que o crit\u00e9rio para a proibi\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem a ver com a letalidade das subst\u00e2ncias em si (afinal, \u00e1lcool e cigarro, que s\u00e3o legalizados, tamb\u00e9m causam uma quantidade enorme de mortes, doen\u00e7as, viol\u00eancia dom\u00e9stica, acidentes de tr\u00e2nsito, etc.), mas com a hist\u00f3ria, a pol\u00edtica e a luta de classes; de que o estado pode montar um imenso aparato policial e militar para reprimir as minorias, sob o pretexto de reprimir o tr\u00e1fico; de que os lucros do tr\u00e1fico s\u00e3o repartidos entre traficantes, policiais, ju\u00edzes, banqueiros, pol\u00edticos, etc.<br \/>\nA verdade sobre a viol\u00eancia urbana e sobre os incidentes mostrados no jornalismo policial sensacionalista est\u00e1 no contexto social que produz a viol\u00eancia, n\u00e3o no detalhe dos incidentes em si. Mas o que \u00e9 exaustivamente mostrado s\u00e3o justamente os incidentes. A fragmenta\u00e7\u00e3o da realidade e a falta de vis\u00e3o do conjunto e do contexto s\u00f3 servem para produzir medo e \u00f3dio contra as minorias, para refor\u00e7ar estere\u00f3tipos, preconceitos, discrimina\u00e7\u00e3o, segrega\u00e7\u00e3o e repress\u00e3o.<br \/>\nCumpre assinalar tamb\u00e9m que essa metodologia n\u00e3o \u00e9 exclusiva do jornalismo policial estadunidense. N\u00e3o se trata apenas de que a concorr\u00eancia comercial obriga as empresas de m\u00eddia a exibir o que parece atraente para seu p\u00fablico, mas de que os dirigentes dessas empresas exercem conscientemente uma fun\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica. Seja em \u201cO abutre\u201d ou nos programas \u201cmundo c\u00e3o\u201d da TV brasileira (cujo p\u00fablico, inversamente, est\u00e1 mais na pr\u00f3pria periferia do que na classe m\u00e9dia), o jornalismo policial sensacionalista cumpre a fun\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de mostrar a cada classe social qual \u00e9 o seu lugar. A m\u00eddia tem o poder de fabricar uma narrativa que estabelece quem \u00e9 digno de ser considerado humano e cuja vida possui valor, e quem n\u00e3o \u00e9.<br \/>\nEsse poder de apresentar grupos sociais como protagonistas e vil\u00f5es \u00e9 usado em favor da manuten\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas que refor\u00e7am a domina\u00e7\u00e3o de classe e os interesses globais e particulares da burguesia. Tal crit\u00e9rio \u00e9 aplicado, por exemplo, na cobertura jornal\u00edstica internacional do processo de limpeza \u00e9tnica e genoc\u00eddio dos palestinos nas m\u00e3os do ex\u00e9rcito de ocupa\u00e7\u00e3o sionista. As vidas dos palestinos n\u00e3o contam, podem morrer aos milhares, porque s\u00e3o parte de um povo \u201cb\u00e1rbaro\u201d, \u201cfan\u00e1tico\u201d e \u201cterrorista\u201d. As vidas que contam s\u00e3o as dos israelenses, um povo \u201ccivilizado\u201d e \u201cdemocr\u00e1tico\u201d. \u00c9 o mesmo caso das \u201cbalas perdidas\u201d que matam cidad\u00e3os da classe m\u00e9dia carioca, e que motivam passeatas \u201cpela paz\u201d, enquanto que as mortes de Amarildos e Cl\u00e1udias, que se sucedem aos milhares, n\u00e3o merecem sequer uma nota de rodap\u00e9.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">A decad\u00eancia social nos Estados Unidos da era Obama<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outro aspecto bastante marcante do filme \u201cO abutre\u201d \u00e9 a cr\u00f4nica da decad\u00eancia social nos Estados Unidos p\u00f3s crise de 2008. Louis Bloom se apresenta como algu\u00e9m que n\u00e3o teve muita educa\u00e7\u00e3o formal, mas fez um curso \u201con line\u201d de administra\u00e7\u00e3o de empresas. Para progredir na carreira, Bloom contrata um assistente e o explora at\u00e9 o limite, reproduzindo a mesma explora\u00e7\u00e3o de que j\u00e1 foi v\u00edtima e que observa por toda parte. Ao longo do filme, ele repete exaustivamente para seu assistente os chav\u00f5es e clich\u00eas do mundo da administra\u00e7\u00e3o. As frases feitas dos gurus do \u201cmanagement\u201d s\u00e3o uma esp\u00e9cie de religi\u00e3o para ele. Os mantras da gest\u00e3o capitalista tomam uma fei\u00e7\u00e3o sinistra e caricata ao serem repetidos sem parar por um personagem sem escr\u00fapulos, e que confessa que n\u00e3o gosta das pessoas.<br \/>\nNa verdade, n\u00e3o \u00e9 uma caricatura, mas a express\u00e3o de uma realidade social brutalizada. A crise econ\u00f4mica de 2008 produziu um empobrecimento dr\u00e1stico nos Estados Unidos, que \u00e9 o pa\u00eds com o maior n\u00famero de miser\u00e1veis e a maior desigualdade social entre os pa\u00edses ricos. A classe trabalhadora estadunidense foi penalizada com a crise, for\u00e7ada a conviver com o desemprego e o subemprego. H\u00e1 uma parcela imensa da juventude que n\u00e3o tem perspectiva, que vive de bicos e subempregos. \u00c9 o caso do pr\u00f3prio Bloom e do assistente que ele contrata em regime ultra precarizado, como \u201cestagi\u00e1rio\u201d, com a promessa de que se houver suficiente esfor\u00e7o, ser\u00e1 recompensado quando vier uma \u201cavalia\u00e7\u00e3o de desempenho\u201d.<br \/>\nNos Estados Unidos, as rela\u00e7\u00f5es trabalhistas n\u00e3o est\u00e3o minimamente regulamentadas, n\u00e3o h\u00e1 um m\u00ednimo de prote\u00e7\u00e3o, \u00e9 bastante comum que os contratos sejam verbais. Os patr\u00f5es se comprometem oralmente a pagar uma certa quantia em dinheiro e ponto final. Em muitos casos, como entre Bloom e seu assistente, n\u00e3o h\u00e1 contrato de trabalho, contribui\u00e7\u00e3o para a previd\u00eancia social, para aposentadoria, seguro desemprego, aux\u00edlio doen\u00e7a ou invalidez, etc. \u00c9 o mundo do salve-se quem puder, a distopia do liberalismo em estado puro. No final das contas, a fun\u00e7\u00e3o do assistente (n\u00e3o por coincid\u00eancia, um jovem de descend\u00eancia \u00e1rabe) \u00e9 servir como mais uma v\u00edtima, e portanto mat\u00e9ria prima de mais uma superprodu\u00e7\u00e3o sensacionalista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ficha t\u00e9cnica:<br \/>\nNome original: Nightcrawler<br \/>\nProdu\u00e7\u00e3o: Estados Unidos<br \/>\nAno: 2014<br \/>\nIdiomas: ingl\u00eas<br \/>\nDiretor: Dan Gilroy<br \/>\nRoteiro: Dan Gilroy<br \/>\nElenco: Jake Gyllenhaal, Rene Russo, Bill Paxton, Riz Ahmed<br \/>\nFonte: \u201cThe Internet Movie Database\u201d \u2013 http:\/\/www.imdb.com\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Coment\u00e1rio sobre o filme &#8220;O Abutre&#8221; &#8211; Daniel M. 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