{"id":3667,"date":"2015-01-23T08:16:27","date_gmt":"2015-01-23T10:16:27","guid":{"rendered":"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/?p=3667"},"modified":"2018-05-04T21:45:28","modified_gmt":"2018-05-05T00:45:28","slug":"atentados-em-paris","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/2015\/01\/atentados-em-paris\/","title":{"rendered":"Atentados em Paris"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/je-ne-suis-pas.jpg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-3668\" src=\"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/je-ne-suis-pas.jpg\" alt=\"je ne suis pas\" width=\"480\" height=\"215\" srcset=\"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/je-ne-suis-pas.jpg 480w, https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/je-ne-suis-pas-300x134.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 480px) 100vw, 480px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">O EQU\u00cdVOCO DO TERRORISMO, A FARSA DA LIBERDADE DE EXPRESS\u00c3O,<br \/>\nO CINISMO IMPERIALISTA E A DEFESA DE UMA ALTERNATIVA SOCIALISTA<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Este texto \u00e9 uma contribui\u00e7\u00e3o individual, que n\u00e3o representa a posi\u00e7\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o Espa\u00e7o Socialista, e por isso se encontra assinado por seu autor<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Daniel M Delfino<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No dia 7 de janeiro de 2015, uma quarta-feira, dois homens armados invadiram a sede da revista humor\u00edstica francesa Charlie Hebdo e mataram 12 pessoas, sendo 4 cartunistas que eram os dirigentes e principais artistas da publica\u00e7\u00e3o e 2 policiais que tentaram proteg\u00ea-los. Nos dias seguintes a pol\u00edcia francesa deu ca\u00e7a \u00e0 suposta \u201cc\u00e9lula terrorista\u201d que realizou o atentado. A ca\u00e7ada humana, com tons de filme de a\u00e7\u00e3o hollywoodiano, terminou na sexta-feira, dia 9, com a morte dos dois atiradores e mais um homem armado que agia em separado e dizia apoiar os dois primeiros, e que por sua vez foi respons\u00e1vel pela morte de mais 4 ref\u00e9ns num mercado judeu.<br \/>\nA revista Charlie Hebdo ficou conhecida internacionalmente por ter reproduzido em 2006 charges da autoria de Kurt Westergaard, que tinham como personagem o profeta Maom\u00e9, as quais haviam sido publicadas no jornal de direita Jyllands-Posten, da Dinamarca. O editor da revista francesa, que se diz \u201cde esquerda\u201d, justificou a publica\u00e7\u00e3o em nome da \u201cliberdade de express\u00e3o\u201d. J\u00e1 na \u00e9poca, em 2006, houve rea\u00e7\u00f5es violentas contra as charges por parte de mu\u00e7ulmanos em v\u00e1rios pa\u00edses, e em 2011 houve uma tentativa de atear fogo ao pr\u00e9dio da revista francesa. Agora, os fan\u00e1ticos chegaram ao ponto m\u00e1ximo de viol\u00eancia e tiraram as vidas de artistas e funcion\u00e1rios da publica\u00e7\u00e3o.<br \/>\nEm resposta ao ataque, manifesta\u00e7\u00f5es espont\u00e2neas surgiram em toda a Fran\u00e7a, em apoio \u00e0 revista. E no domingo dia 11, o governo franc\u00eas organizou uma \u201cmarcha republicana\u201d, que teve o comparecimento de milh\u00f5es de pessoas em Paris e v\u00e1rias cidades francesas. Na capital o presidente Fran\u00e7ois Hollande desfilou ao lado de dezenas de chefes de estado de v\u00e1rios pa\u00edses, como Angela Merkel da Alemanha, Matteo Renzi da It\u00e1lia, e do secret\u00e1rio de estado estadunidense John Kerry. Todos foram un\u00e2nimes em condenar o atentado, que est\u00e1 sendo atribu\u00eddo \u00e0 Al Qaeda, e querem o apoio da popula\u00e7\u00e3o para a repress\u00e3o.<br \/>\nInforma\u00e7\u00f5es mais detalhadas divulgadas posteriormente questionam a possibilidade de que as a\u00e7\u00f5es na reda\u00e7\u00e3o da revista e no mercado judeu, pelo seu amadorismo e a facilidade da pol\u00edcia para localizar e abater os autores, tenham sido coordenadas e praticadas por agentes treinados de uma \u201cc\u00e9lula terrorista\u201d. O mais prov\u00e1vel \u00e9 que sejam de autoria de jovens franceses descendentes de imigrantes e de religi\u00e3o mu\u00e7ulmana, revoltados com a discrimina\u00e7\u00e3o cotidiana que sofrem e estimulados por pregadores radicais, mas sem qualquer rela\u00e7\u00e3o org\u00e2nica com a Al Qaeda e o Estado Isl\u00e2mico. Mesmo assim, com todas as evid\u00eancias apontando contra uma \u201copera\u00e7\u00e3o terrorista\u201d, os governantes j\u00e1 est\u00e3o mobilizando suas tropas. Os tambores da \u201cguerra ao terror\u201d est\u00e3o soando novamente.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">A quest\u00e3o da liberdade de express\u00e3o<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diz-se que em toda guerra a primeira v\u00edtima \u00e9 a verdade, e parece tamb\u00e9m ser esse o caso dos atentados \u00e0 revista e da renovada \u201cguerra ao terror\u201d que eles motivaram. H\u00e1 um emaranhado de quest\u00f5es que est\u00e3o sendo soterradas em meio aos clich\u00eas que dominam o debate.<br \/>\nA primeira quest\u00e3o a ser discutida \u00e9 o aspecto do ataque como um atentado contra a liberdade de express\u00e3o. Partimos do pressuposto de que devemos defender a liberdade de express\u00e3o como um princ\u00edpio, um pr\u00e9-requisito b\u00e1sico para que haja qualquer pensamento e qualquer luta. Quando uma ditadura se instaura, sua primeira medida \u00e9 justamente estabelecer a censura, para proibir a oposi\u00e7\u00e3o de se expressar. Defendemos a liberdade de express\u00e3o, porque a censura, de qualquer tipo que seja, com pretexto religioso ou diretamente pol\u00edtico, \u00e9 o pior recurso para lidar com a diversidade de ideias. Devemos defender a possibilidade da livre express\u00e3o, do debate, do di\u00e1logo e do aprendizado coletivo, que s\u00e3o impossibilitadas pela censura.<br \/>\nEstabelecido este primeiro ponto, \u00e9 preciso esclarecer tamb\u00e9m que liberdade de express\u00e3o n\u00e3o \u00e9 o mesmo que impunidade. As ideias devem ser expostas, e os seus autores devem ser responsabilizados por elas. Aqueles que se utilizarem da liberdade para expor ideias que refor\u00e7am a opress\u00e3o, devem ser punidos por isso. Sendo assim, condenamos o atentados contra Charlie Hebdo, mas isso n\u00e3o significa conceder \u00e1libi para que humoristas possam destilar machismo, racismo e LGBTfobia disfar\u00e7ados de entretenimento, como o que predomina hoje nas \u201cstand ups\u201d e \u201ctalk shows\u201d que est\u00e3o na moda no Brasil. Tamb\u00e9m tem que haver puni\u00e7\u00e3o adequada para esses oportunistas que reproduzem preconceito e opress\u00e3o com a m\u00e1scara do humor. At\u00e9 porque a reprodu\u00e7\u00e3o do preconceito na m\u00eddia e nos ve\u00edculos de entretenimento legitima agress\u00f5es f\u00edsicas e morais que mulheres, negros e LGBTs sofrem cotidianamente.<br \/>\nRetomando a quest\u00e3o da revista francesa, reafirmamos que \u00e9 sim dever da esquerda defender a liberdade de express\u00e3o, o jornalismo, o humor, a arte e a cultura, como valores humanistas. Entretanto, temos que reafirmar que a revista Charlie Hebdo representava muito mal e porcamente esses valores. A revista foi fundada na d\u00e9cada de 1970 como um ve\u00edculo para a s\u00e1tira contra os poderosos (como parte do mesmo processo que gerou por exemplo o \u201cPasquim\u201d, no Brasil). Alguns integrantes da reda\u00e7\u00e3o se definiam como \u201cde esquerda\u201d. Stephane Charbonnier, conhecido por Charb, que no momento era o editor e principal artista da publica\u00e7\u00e3o, j\u00e1 havia feito ilustra\u00e7\u00f5es para publica\u00e7\u00f5es de obras de Marx e de autores marxistas franceses, como Daniel Bensaid, entre outros. N\u00e3o havia apenas charges sobre Maom\u00e9, mas sobre o Papa, o general De Gaulle, etc. A cr\u00edtica era direcionada n\u00e3o apenas ao islamismo, mas tamb\u00e9m ao fanatismo crist\u00e3o, judaico, aos nazistas, etc.<br \/>\nEntretanto, com o passar do tempo e a perda de refer\u00eancias ideol\u00f3gicas, come\u00e7am a surgir tamb\u00e9m charges racistas e islamof\u00f3bicas. O puro e simples mau gosto e vulgaridade tomaram lugar da criatividade. Assim, os atentados transformaram os respons\u00e1veis por uma publica\u00e7\u00e3o med\u00edocre em m\u00e1rtires da liberdade de express\u00e3o. O assassinato dos chargistas \u00e9 sempre lament\u00e1vel porque se trata de vidas humanas, mas \u00e9 tamb\u00e9m lament\u00e1vel porque tira a possibilidade de que pudessem ser criticados por publica\u00e7\u00f5es islamof\u00f3bicas e racistas e fossem obrigados a se retratar pela press\u00e3o de um movimento unit\u00e1rio de trabalhadores, que \u00e9 o que a esquerda deveria fazer. Ao inv\u00e9s da devida retrata\u00e7\u00e3o que precisavam emitir, ter\u00e3o a imerecida gl\u00f3ria da imortalidade, primeiro resultado da estupidez dos atiradores. Charlie Hebdo, na sua espiral decadente em dire\u00e7\u00e3o ao oportunismo, n\u00e3o estava nem um pouco \u00e0 altura dos valores humanistas que defendemos, mas a morte dos membros da sua equipe, para c\u00famulo da ironia, os transformou em \u201cher\u00f3is\u201d, justamente o que o imperialismo precisava neste momento.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">O terrorismo e a crise de alternativas<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um segundo aspecto \u00e9 que os ataques s\u00e3o conden\u00e1veis sob o ponto de vista pol\u00edtico, como m\u00e9todo de luta equivocado. O terrorismo j\u00e1 foi rejeitado como m\u00e9todo de luta pelos revolucion\u00e1rios h\u00e1 mais de um s\u00e9culo. Na R\u00fassia, os bolcheviques e revolucion\u00e1rios sempre se colocaram contra a a\u00e7\u00e3o isolada de grupos vanguardistas que se descolavam do restante da popula\u00e7\u00e3o para atacar governantes e autoridades. Esse m\u00e9todo nunca serviu para trazer apoio da popula\u00e7\u00e3o para a luta. Ao contr\u00e1rio, os governantes sempre conseguiram reverter a opini\u00e3o p\u00fablica contra os atentados e com isso obter legitimidade para reprimir n\u00e3o apenas os pr\u00f3prios terroristas, mas todo tipo de a\u00e7\u00e3o ou pensamento cr\u00edticos da sociedade e todos os demais grupos de oposi\u00e7\u00e3o. Os revolucion\u00e1rios sempre apostaram no avan\u00e7o da consci\u00eancia e da organiza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores enquanto classe e coletivo, nunca em a\u00e7\u00f5es \u201cher\u00f3icas\u201d, voluntaristas e individualistas.<br \/>\nO fato de que muitos jovens de pa\u00edses de religi\u00e3o majoritariamente mu\u00e7ulmana adotem o terrorismo como m\u00e9todo de luta tem a ver com a crise de alternativas socialistas, a falta de uma perspectiva que aponte para o fim do capitalismo e a constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade socialista. Na falta desse projeto, os jovens se identificam n\u00e3o como parte da classe trabalhadora e como habitantes de pa\u00edses explorados pelo imperialismo, mas como adeptos de determinada religi\u00e3o ou grupo \u00e9tnico. As lutas acabam sendo desviadas para os sintomas mais evidentes dos problemas que essa popula\u00e7\u00e3o vive, como a domina\u00e7\u00e3o por governantes autorit\u00e1rios e corruptos, que obedecem o imperialismo, entregam a riqueza do petr\u00f3leo e insultam a cultura, a religi\u00e3o e a tradi\u00e7\u00e3o desses pa\u00edses; n\u00e3o contra a causa dos problemas, que \u00e9 o pr\u00f3prio sistema capitalista. Por isso \u00e9 preciso insistentemente oferecer uma explica\u00e7\u00e3o socialista para quest\u00f5es que s\u00e3o apenas aparentemente ou parcialmente religiosas e \u00e9tnicas, mas que dizem respeito \u00e0 domina\u00e7\u00e3o de classe e \u00e0 domina\u00e7\u00e3o nacional.<br \/>\nEm resumo, rejeitamos o terrorismo, n\u00e3o porque ele seja uma afronta \u00e0 \u201cciviliza\u00e7\u00e3o ocidental\u201d, mas porque \u00e9 contraproducente como m\u00e9todo de luta dos explorados e oprimidos. Defendemos o direito dos povos do Oriente M\u00e9dio e do mundo inteiro de se defender e se libertar da domina\u00e7\u00e3o imperialista, por meio da luta armada se for preciso, mas n\u00e3o a a\u00e7\u00e3o de grupos isolados que agem em separado dos movimentos sociais, n\u00e3o acatam o conjunto do movimento e matam indiscriminadamente. Defendemos o processo de organiza\u00e7\u00e3o coletiva dos povos para formar seus instrumentos de luta, seus partidos, sindicatos, associa\u00e7\u00f5es e \u00f3rg\u00e3os de autodefesa. Defendemos o exemplo da resist\u00eancia armada curda na regi\u00e3o de Rojava, na S\u00edria, com sua concep\u00e7\u00e3o laica e pluralista, que aceita todos os grupos \u00e9tnicos e religiosos, curdos, s\u00edrios, mu\u00e7ulmanos, crist\u00e3os, etc., e forma inclusive mil\u00edcias de mulheres. Defendemos que a refer\u00eancia para a organiza\u00e7\u00e3o dos povos \u00e9 a classe trabalhadora, que tem a condi\u00e7\u00e3o de reorganizar toda a vida social a partir da expropria\u00e7\u00e3o dos meios de produ\u00e7\u00e3o e do controle coletivo, rumo ao socialismo.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">O terrorismo e o estere\u00f3tipo dos mu\u00e7ulmanos<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os atentados j\u00e1 surtiram o efeito previs\u00edvel, ou seja, deslanchar uma imensa onda de islamofobia e racismo. Os fan\u00e1ticos que pegaram em armas contra Charlie Hebdo n\u00e3o est\u00e3o defendendo os mu\u00e7ulmanos do mundo inteiro, est\u00e3o atraindo sobre eles a repulsa e a desconfian\u00e7a. A islamofobia, a xenofobia e o racismo apregoados por setores de extrema direita v\u00e3o ter ainda mais apoio agora que essa amostra de irracionalismo e barb\u00e1rie aparentemente lhes deu raz\u00e3o. Mas a direita n\u00e3o tem raz\u00e3o tamb\u00e9m neste caso. O terrorismo, repetimos, n\u00e3o \u00e9 algo inerente \u00e0 religi\u00e3o isl\u00e2mica. O islamismo n\u00e3o \u00e9 um todo homog\u00eaneo (assim como o cristianismo tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9). Dentro da popula\u00e7\u00e3o de mais de 1 bilh\u00e3o de mu\u00e7ulmanos no planeta, encontram-se in\u00fameras divis\u00f5es e subdivis\u00f5es em seitas e grupos. A grande maioria da popula\u00e7\u00e3o mu\u00e7ulmana \u00e9 pac\u00edfica (assim como a maioria dos crist\u00e3os, dos budistas, etc.), e o extremismo \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o min\u00fascula e ultra minorit\u00e1ria. E para completar, crist\u00e3os, judeus, hindu\u00edstas, etc., tamb\u00e9m n\u00e3o est\u00e3o isentos de cometer atos de viol\u00eancia e crimes de todos os tipos, muito pelo contr\u00e1rio, pois acontecem a todo momento. N\u00e3o \u00e9 a religi\u00e3o, mas a pol\u00edtica e a luta de classes que explicam a viol\u00eancia.<br \/>\nO ataque terrorista \u00e9 acima de tudo um ato politicamente est\u00fapido, porque deu o pretexto para que uma vasta gama de oportunistas passasse a defender o aumento da repress\u00e3o. For\u00e7as policiais e militares est\u00e3o se mobilizando em toda a Fran\u00e7a com o pretexto de ca\u00e7ar terroristas remanescentes ou supostamente relacionados aos ataques. Em toda a Europa se refor\u00e7am medidas repressivas, que acabar\u00e3o se voltando contra as lutas dos trabalhadores, conforme discutiremos a seguir. Governos do mundo inteiro est\u00e3o defendendo a\u00e7\u00f5es militares contra os grupos localizados em pa\u00edses do Oriente M\u00e9dio e que s\u00e3o supostamente respons\u00e1veis pelos ataques. Enquanto os governos preparam a guerra no exterior, for\u00e7as da repress\u00e3o e grupos neonazistas e de extrema direita intensificam a a\u00e7\u00e3o no interior de cada pa\u00eds sobre setores \u201csuspeitos\u201d da popula\u00e7\u00e3o, imigrantes em geral, em especial negros, \u00e1rabes, indianos, latinoamericanos, etc.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">O contexto da luta de classes na Europa<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma das principais armas da burguesia para conter as lutas dos trabalhadores, especialmente na Europa, \u00e9 justamente a divis\u00e3o da nossa classe entre nacionais e estrangeiros. Os setores de direita exploram essa divis\u00e3o e difundem o preconceito contra negros, \u00e1rabes, indianos, latinoamericanos, etc. Devido a sua baixa taxa de natalidade e envelhecimento da popula\u00e7\u00e3o economicamente ativa, o continente europeu precisa da m\u00e3o de obra de imigrantes, que chegam \u00e0 taxa de 1 milh\u00e3o de pessoas por ano, mas ocupam os piores empregos, recebem os piores sal\u00e1rios, moram nos piores bairros, e ainda por cima s\u00e3o tratados pelos nativos como culpados pelos problemas. Essa \u00e9 a base para a xenofobia, a islamofobia e o racismo, e \u00e9 por esse motivo, por serem obst\u00e1culo \u00e0 unidade da classe, que \u00e9 preciso combater essas ideias.<br \/>\nOs atentados acontecem num momento em que havia um crescimento das lutas dos trabalhadores na Europa contra as pol\u00edticas de \u201causteridade\u201d prevalecentes no continente. Manifesta\u00e7\u00f5es de massa na It\u00e1lia, greve geral na B\u00e9lgica, elei\u00e7\u00f5es altamente polarizadas na Gr\u00e9cia, crescimento da oposi\u00e7\u00e3o na Espanha. Todos esses fen\u00f4menos eram sintomas de que a classe trabalhadora europeia estava se levantando contra as pol\u00edticas dos governos do continente, que querem fazer com que paguem os custos de uma crise que j\u00e1 se arrasta desde 2008, e da qual o capitalismo europeu jamais se recuperou plenamente. Os governos querem cortar sal\u00e1rios, direitos e benef\u00edcios, demitir funcion\u00e1rios p\u00fablicos, cortar verbas e sucatear os servi\u00e7os, reduzir aposentadorias e aumentar o tempo de contribui\u00e7\u00e3o, aumentar impostos, etc. Exatamente como anunciou o novo ministro da fazenda do governo Dilma no Brasil.<br \/>\n\u00c9 contra essas medidas que os trabalhadores estavam em luta, e n\u00e3o apenas na Europa, mas em escala mundial. Prova disso s\u00e3o os exemplos das manifesta\u00e7\u00f5es no M\u00e9xico, por conta do desaparecimento dos 43 estudantes de Ayotzinapa, e nos Estados Unidos, por conta da morte de jovens negros pela pol\u00edcia, dos quais o caso de Ferguson foi o mais emblem\u00e1tico. No Brasil, temos a luta contra as demiss\u00f5es (que foram revertidas na Volks \u00e0 custa de uma acordo que imp\u00f5e arrocho salarial, mas continuam na Mercedes), contra o aumento das passagens, por moradia, etc. \u00c9 nesse contexto de lutas dos trabalhadores e da juventude que acontecem os atentados, dos quais as for\u00e7as imperialistas querem se aproveitar para reverter o clima pol\u00edtico em favor da repress\u00e3o. O aumento da repress\u00e3o, com o uso massivo de policiais e tropas militares nas ruas, sob o pretexto de \u201creprimir o terrorismo\u201d, na verdade serve para conter as manifesta\u00e7\u00f5es, ocupa\u00e7\u00f5es, piquetes e greves dos trabalhadores.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">Contra a \u201cmarcha republicana\u201d e a hipocrisia imperialista<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os atentados terroristas s\u00e3o um grave equ\u00edvoco como m\u00e9todo de luta, mas o que \u00e9 mesmo absolutamente conden\u00e1vel s\u00e3o os governantes oportunistas que querem dirigir a indigna\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o em favor de suas pol\u00edticas de militariza\u00e7\u00e3o, guerra, refor\u00e7o da repress\u00e3o e mecanismos de vigil\u00e2ncia e controle. Esses mecanismos, em \u00faltima inst\u00e2ncia, v\u00e3o ser usados contra a pr\u00f3pria popula\u00e7\u00e3o, n\u00e3o apenas os imigrantes, os negros, \u00e1rabes, indianos, latinoamericanos, etc., mas os trabalhadores em geral, conforme expusemos acima.<br \/>\n\u00c9 para manipular a situa\u00e7\u00e3o a seu favor que governantes imperialistas do mundo inteiro se unificaram numa grande frente com o presidente franc\u00eas Fran\u00e7ois Hollande para condenar os ataques. A composi\u00e7\u00e3o dessa frente \u00e9 um espet\u00e1culo dantesco de hipocrisia. A lista dos nomes que desfilaram na \u201cmarcha republicana\u201d do dia 11 \u00e9 aterradora. Al\u00e9m de ditadores africanos, acostumados a afogar a oposi\u00e7\u00e3o em sangue e monarquias do Oriente M\u00e9dio, corruptas at\u00e9 os ossos e igualmente repressivas, tivemos algumas celebridades que abrilhantaram o evento com seu cinismo sem limites.<br \/>\nEntre eles, Petro Poroshenko, presidente ucraniano eleito num processo fraudulento, que se seguiu a um golpe de estado fascista, e que est\u00e1 em guerra civil contra uma parte do pa\u00eds que n\u00e3o aceita o golpe e a pol\u00edtica que est\u00e1 por tr\u00e1s dele, a imposi\u00e7\u00e3o das medidas de austeridade exigidas pela Uni\u00e3o Europeia; Recep Tayyip Erdogan, primeiro ministro da Turquia, pa\u00eds que h\u00e1 d\u00e9cadas mant\u00e9m a pol\u00edtica de repress\u00e3o sobre a minoria curda no oeste do pa\u00eds, sendo que em seu governo reprimiu duramente as manifesta\u00e7\u00f5es na Pra\u00e7a Taksim em Istambul em 2013 e tamb\u00e9m as manifesta\u00e7\u00f5es contra as den\u00fancias de corrup\u00e7\u00e3o em seu governo em 2014; John Kerry, secret\u00e1rio de Estado estadunidense, cujo governo financiou o Talib\u00e3, a Al Qaeda e o Estado Isl\u00e2mico, e que agora quer reenviar tropas ao Oriente M\u00e9dio para supostamente combat\u00ea-los, ao mesmo tempo em que empreendem uma ca\u00e7ada mundial contra Julian Assange e Eduard Snowden, por terem publicado segredos das conspira\u00e7\u00f5es imperialistas (isso \u00e9 que \u00e9 defesa da liberdade de express\u00e3o!); e finalmente Benjamin Netanyahu, primeiro ministro israelense, que em 2014 deu seguimento a mais uma rodada de genoc\u00eddio dos palestinos, bombardeando Gaza, inclusive escolas e hospitais, matando milhares de pessoas, inclusive mulheres e crian\u00e7as. Foram esses fac\u00ednoras que marcharam em Paris em defesa da \u201cliberdade de express\u00e3o\u201d!<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">Je ne suis pas Charlie!<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m dos pol\u00edticos profissionais, v\u00e1rios setores da m\u00eddia e intelectuais se perfilaram numa esp\u00e9cie de campanha com o slogan \u201cje suis Charlie\u201d (\u201ceu sou Charlie\u201d), em defesa da \u201cliberdade de express\u00e3o\u201d e conclamando o mundo inteiro a se unir \u201ccontra o terrorismo\u201d. A \u201cmarcha republicana\u201d do domingo dia 11 recebeu a ades\u00e3o de in\u00fameros partidos e organiza\u00e7\u00f5es, inclusive da esquerda francesa. Esses setores de esquerda que aderiram \u00e0 marcha governista est\u00e3o capitulando vergonhosamente ao governo burgu\u00eas e imperialista de Hollande e aos demais imperialistas que lhe d\u00e3o apoio, desde Obama \u00e0 Angela Merkel. O papel da esquerda e dos intelectuais neste momento deveria ser o de denunciar o imperialismo e todos os seus representantes, como o pr\u00f3prio Hollande e os demais citados acima, como os primeiros e maiores respons\u00e1veis pelo terrorismo.<br \/>\nUma coisa s\u00e3o os atos espont\u00e2neos da popula\u00e7\u00e3o francesa em rep\u00fadio ao ataque, por indigna\u00e7\u00e3o com a intoler\u00e2ncia e a viol\u00eancia, e em defesa de valores humanistas e democr\u00e1ticos. \u00c9 dever da esquerda organizada participar desses atos para impedir que sejam dirigidos pela direita e extrema direita sempre prontas para injetar a islamofobia, a xenofobia e o racismo. Outra coisa \u00e9 a marcha governista dirigida pelos maiores representantes do imperialismo e culpados pelo terrorismo. Nesse caso, \u00e9 dever da esquerda denunciar os v\u00ednculos do terrorismo com as pol\u00edticas imperialistas para o Oriente M\u00e9dio e a inten\u00e7\u00e3o dos governantes de usar a \u201cguerra ao terror\u201d para reprimir as lutas dos trabalhadores.<br \/>\nPor \u00faltimo, tamb\u00e9m repudiamos a indigna\u00e7\u00e3o seletiva de setores intelectuais que s\u00e3o os primeiros a dizer \u201cje suis Charlie\u201d, mas n\u00e3o tiveram a mesma presteza para dizer \u201cje suis Gaza\u201d, para condenar o genoc\u00eddio palestino nas m\u00e3os do sionismo israelense, para se levantar contra todos os crimes, massacres, viol\u00eancias e opress\u00f5es praticados pelas for\u00e7as imperialistas e defensores da explora\u00e7\u00e3o e da opress\u00e3o capitalista no mundo inteiro. Ou, poucos dias depois, n\u00e3o demonstraram nenhuma gota de indigna\u00e7\u00e3o quando a mil\u00edcia Boko Haram massacrou 2 mil pessoas, em Baga, na Nig\u00e9ria. N\u00e3o vimos nenhuma \u201cmarcha republicana\u201d dos l\u00edderes mundiais em rep\u00fadio ao ataque e em defesa da vida dos 2 mil mortos, como se suas vidas n\u00e3o valessem o mesmo que as das quase 20 mortas em Paris. O \u201chumanismo seletivo\u201d, que s\u00f3 reconhece como v\u00edtimas uma parte da popula\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 humanismo, \u00e9 a sua nega\u00e7\u00e3o e a rendi\u00e7\u00e3o a um mundo desumano e \u00e0 hipocrisia dos poderosos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Contra o terrorismo! Contra a viol\u00eancia e a intoler\u00e2ncia!<br \/>\nEm defesa do humanismo, da cultura e da liberdade de pensamento e de express\u00e3o!<br \/>\nContra o oportunismo de humoristas, \u201cartistas\u201d e celebridades que veiculam o racismo, o machismo e a LGBTfobia<br \/>\nContra a islamofobia, a xenofobia e o racismo! Contra a extrema direita e todos os oportunistas!<br \/>\nContra os governantes imperialistas, maiores respons\u00e1veis pelo terrorismo e culpados de in\u00fameras agress\u00f5es aos povos do mundo inteiro!<br \/>\nContra a \u201cmarcha republicana\u201d e a ofensiva pol\u00edtica e ideol\u00f3gica do estado capitalista franc\u00eas para legitimar a repress\u00e3o!<br \/>\nPelo direito de defesa, inclusive armada, dos povos \u00e1rabes e de todos os povos explorados e oprimidos pelo capitalismo!<br \/>\nEm defesa da unidade da classe trabalhadora, nativos e imigrantes, na Europa e no mundo inteiro, contra a explora\u00e7\u00e3o e a opress\u00e3o capitalistas!<br \/>\nPor uma alternativa socialista para a humanidade!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O EQU\u00cdVOCO DO TERRORISMO, A FARSA DA LIBERDADE DE EXPRESS\u00c3O, O CINISMO IMPERIALISTA E A DEFESA DE UMA ALTERNATIVA SOCIALISTA<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":3668,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":true,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[11,76],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3667"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3667"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3667\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6100,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3667\/revisions\/6100"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3668"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3667"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3667"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3667"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}