{"id":3697,"date":"2015-02-12T08:03:05","date_gmt":"2015-02-12T10:03:05","guid":{"rendered":"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/?p=3697"},"modified":"2018-05-01T00:46:01","modified_gmt":"2018-05-01T03:46:01","slug":"jornal-75-eleicoes-na-grecia-faz-falta-uma-esquerda-anticapitalista-e-socialista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/2015\/02\/jornal-75-eleicoes-na-grecia-faz-falta-uma-esquerda-anticapitalista-e-socialista\/","title":{"rendered":"Jornal 75 &#8211; ELEI\u00c7\u00d5ES NA GR\u00c9CIA: FAZ FALTA UMA ESQUERDA ANTICAPITALISTA E SOCIALISTA"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Este texto \u00e9 uma contribui\u00e7\u00e3o individual e n\u00e3o expressa necessariamente a posi\u00e7\u00e3o do conjunto da organiza\u00e7\u00e3o, por isso se encontra assinado por seus autores<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Daniel M. Delfino e Dalmo Duarte<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">O REP\u00daDIO \u00c0 TROIKA<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">No dia 25\/01 aconteceram elei\u00e7\u00f5es gerais na Gr\u00e9cia, antecipadas devido ao colapso do governo anterior (liderado pelo partido mais tradicional da direita, o Nova Democracia), conforme as regras do sistema parlamentarista. As elei\u00e7\u00f5es foram vencidas pelo partido SYRIZA (Coaliz\u00e3o da Esquerda Radical em grego), que elegeu 149 de um total de 300 deputados e junto com partidos menores apontar\u00e3o seu l\u00edder Alexis Tsipras para o posto de primeiro ministro. A principal promessa de campanha do SYRIZA \u00e9 o fim das medidas de \u201causteridade\u201d que v\u00eam sangrando o pa\u00eds desde a crise do euro em 2010, mais um epis\u00f3dio da crise mundial iniciada em 2008, e que n\u00e3o se encerrou na Europa.<br \/>\nPara poder continuar operando com o euro, o governo anterior se submeteu desde 2010 a um memorando da chamada \u201cTroika\u201d (Uni\u00e3o Europ\u00e9ia, Banco Central Europeu e FMI) que impunha medidas severas como aumento de impostos e corte nos gastos p\u00fablicos, retirada de direitos (redu\u00e7\u00e3o salarial, fim da estabilidade, etc.), para que se continuasse pagando a d\u00edvida aos credores (especuladores, agiotas e banqueiros) internacionais e, assim, recuperar sua credibilidade perante o mercado internacional. Os cortes atingiram pesadamente a popula\u00e7\u00e3o trabalhadora, pois atingiram os servi\u00e7os p\u00fablicos, a sa\u00fade, a Educa\u00e7\u00e3o, o pagamento de aposentadorias e pens\u00f5es. Foi essa pol\u00edtica que os eleitores gregos rejeitaram maci\u00e7amente nas urnas.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">A TRAG\u00c9DIA SOCIAL DA &#8220;AUSTERIDADE&#8221;<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">As medidas de \u201causteridade\u201d vinham sendo implantadas pelos governos do Nova Democracia e do PASOK (Partido Social Democrata, o partido da \u201cesquerda\u201d tradicional), que t\u00eam se alternado no poder nas \u00faltimas d\u00e9cadas, sem conseguir reativar a economia. Segundo dados do FMI (http:\/\/www.imf.org\/) de outubro de 2014, o PIB da Gr\u00e9cia est\u00e1 em US$ 246 bilh\u00f5es, tendo se mantido praticamente est\u00e1vel em 2014 (crescimento de 0,6%), depois de uma sequ\u00eancia de quedas brutais (-3,8% em 2013, -6,9% em 2012, -7,1% em 2011, -4,9% em 2010 e -3,1% em 2009). A taxa de desemprego est\u00e1 em 25,7% (ou seja, \u00bc da popula\u00e7\u00e3o economicamente ativa), sendo 60% entre os jovens de 18 a 25 anos. E a d\u00edvida p\u00fablica est\u00e1 em 168,6% do PIB.<br \/>\nAs consequ\u00eancias da &#8220;austeridade&#8221; e do desemprego s\u00e3o o aumento explosivo da pobreza nos anos recentes: \u201cCom 1,38 milh\u00f5es de pessoas no desemprego (de uma popula\u00e7\u00e3o de 11 milh\u00f5es de habitantes), a pobreza tem aumentado na Gr\u00e9cia. Um estudo da Universidade de Atenas revela que no ano passado 14% da popula\u00e7\u00e3o viviam na pobreza, contra 2% em 2009.\u201d(http:\/\/pt.euronews.com\/2014\/02\/13\/grecia-desemprego-e-pobreza-batem-recordes\/).<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">A BUSCA POR UMA ALTERNATIVA POL\u00cdTICA<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Toda crise com a dimens\u00e3o da grega abre imensas possibilidades para a revolu\u00e7\u00e3o socialista. Mas esse processo n\u00e3o se d\u00e1 sem contratempos ou sem as d\u00favidas por parte da classe trabalhadora a respeito de qual caminho seguir. Algumas vezes a classe segue posi\u00e7\u00f5es de direita, outras vezes procura sa\u00eddas \u201cmenos traum\u00e1ticas\u201d, como eleger partidos reformistas ou que defendem uma sa\u00edda, por dentro do sistema, mudando apenas o governo. S\u00f3 depois dessas experi\u00eancias \u00e9 que os trabalhadores seguem para o caminho da ruptura. N\u00e3o \u00e9 uma regra, mas \u00e9 o mais comum.<br \/>\nNo caso grego, buscaram o caminho eleitoral, pois ainda est\u00e3o iludidos com a possibilidade de que o sistema capitalista v\u00e1 resolver as suas demandas, entendem que o que n\u00e3o presta \u00e9 o governo e n\u00e3o o pr\u00f3prio sistema social . Os trabalhadores acreditam que votando no Syriza ter\u00e3o seus empregos e seus direitos de volta.<br \/>\nEm que pese o papel do SYRIZA e as enormes limita\u00e7\u00f5es do seu programa, n\u00e3o podemos desconsiderar o fato de que o voto dos trabalhadores gregos foi por mudan\u00e7a e sinaliza uma tend\u00eancia de enfrentamento com o plano da Troika e com os governos imperialistas da regi\u00e3o.<br \/>\nEsse exemplo n\u00e3o deixa de ser um est\u00edmulo para outros pa\u00edses da periferia europeia, como Portugal, Espanha, Irlanda ou mesmo a It\u00e1lia \u00e0s voltas com os mesmos sofrimentos provocados pela &#8220;austeridade&#8221;.<br \/>\nA quest\u00e3o \u00e9 que o SYRIZA (assim como as demais forma\u00e7\u00f5es ditas \u201cradicais\u201d da esquerda eleitoral europeia) n\u00e3o ir\u00e1 pelo caminho da ruptura, mas buscar\u00e1 uma sa\u00edda negociada. E mesmo esse caminho conciliat\u00f3rio n\u00e3o deve encontrar respaldo entre as pot\u00eancias imperialistas da regi\u00e3o. Pelo contr\u00e1rio, no dia seguinte \u00e0s elei\u00e7\u00f5es, todas as declara\u00e7\u00f5es foram no sentido de exigir que a Gr\u00e9cia cumpra o determinado pela Troika.<br \/>\nAl\u00e9m da ilus\u00e3o em reformas por dentro do sistema, materializada no projeto eleitoral do SYRIZA, a classe trabalhadora grega tem ainda outros obst\u00e1culos pol\u00edticos e ideol\u00f3gicos na luta por um projeto socialista. Um deles s\u00e3o as burocracias sindicais, comandadas pelo KKE (Partido Comunista grego, stalinista e como tal aferrado \u00e0 colabora\u00e7\u00e3o de classe) e pelo PASOK. Gra\u00e7as ao controle dos partidos de concilia\u00e7\u00e3o de classe sobre as principais centrais sindicais, mais de duas dezenas de greves gerais de 24h e 48h t\u00eam sido realizadas desde 2008 sem, no entanto, avan\u00e7ar para um enfrentamento real e capaz de derrotar a pol\u00edtica de &#8220;austeridade&#8221;.<br \/>\nOutro obst\u00e1culo \u00e9 o limite program\u00e1tico do anarquismo, que possui grande influ\u00eancia entre os setores em luta na Gr\u00e9cia, especialmente entre os mais jovens e precarizados. A mesma obsess\u00e3o do anarquismo em negar o poder pol\u00edtico do Estado \u00e9 aplicada em negar tamb\u00e9m a constru\u00e7\u00e3o de organismos de poder oper\u00e1rio capazes de superar o poder econ\u00f4mico do capital (que \u00e9, na verdade, a fonte do poder pol\u00edtico). Esse limite program\u00e1tico \u00e9 parte dos problemas que impedem que as grandes lutas realizadas na Gr\u00e9cia, desde a manifesta\u00e7\u00e3o da crise mundial em 2008, tenham avan\u00e7ado para a constru\u00e7\u00e3o de um programa anticapitalista e socialista.<br \/>\nO setor mais avan\u00e7ado da esquerda grega \u00e9 o ANTARSYA (Coopera\u00e7\u00e3o da Esquerda Anticapitalista para a Ruptura), frente formada por 10 pequenas organiza\u00e7\u00f5es que incluem stalinistas, mao\u00edstas, trotskystas e ecologistas, que combinam uma atua\u00e7\u00e3o militante (coisa que o SYRIZA n\u00e3o mais pratica) com a luta eleitoral (em que n\u00e3o ultrapassa a barreira para eleger deputados). Entretanto, algumas das suas lideran\u00e7as, inclusive, chamaram voto no SYRIZA, o que n\u00e3o contribuiu para ajudar a classe trabalhadora a superar as ilus\u00f5es eleitorais, nem para romper com as burocracias sindicais, superar seus limites program\u00e1ticos e enfrentar as medidas de \u201causteridade\u201d com os m\u00e9todos de luta direta.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">OS LIMITES DO PROGRAMA DO SYRIZA<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">O programa do Syriza e de seu l\u00edder Tsipras (apesar de todo o terrorismo da m\u00eddia com o fantasma do esquerdismo, amea\u00e7a aos mercados e do entusiasmo dos reformistas mundo afora) ainda se mant\u00e9m nos marcos do capitalismo:<br \/>\n&#8211; Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 d\u00edvida p\u00fablica: perd\u00e3o de metade dos 320 bi de euros, pagar o restante em longo prazo e morat\u00f3ria por um per\u00edodo, mantendo a sujei\u00e7\u00e3o do pa\u00eds ao capital financeiro especulativo internacional;<br \/>\n&#8211; Medidas sociais: programa de moradia para 30 mil, atendimento m\u00e9dico e rem\u00e9dios para os desempregados, aumento do sal\u00e1rio m\u00ednimo e a cria\u00e7\u00e3o de 300 mil postos de trabalho;<br \/>\n&#8211; Medidas econ\u00f4micas: sobretaxar as grandes fortunas e abolir os impostos sobre as pequenas propriedades<br \/>\nComo se v\u00ea, ainda que bastante avan\u00e7adas e expressando uma tentativa de revigorar o \u201cEstado de bem-estar-social\u201d, n\u00e3o s\u00e3o propostas de solu\u00e7\u00e3o \u201cradical\u201d capazes de resolver os problemas do pa\u00eds. Primeiro que qualquer solu\u00e7\u00e3o de fato passaria pelo fim do capitalismo e depois que, pela pr\u00f3pria configura\u00e7\u00e3o do capital em sua crise estrutural, n\u00e3o h\u00e1 mais espa\u00e7o para reformas dentro do capitalismo.<br \/>\nA origem da crise econ\u00f4mica grega est\u00e1 na sua baixa produtividade em compara\u00e7\u00e3o com as demais economias da zona do euro, em especial gigantes como a Alemanha e a Fran\u00e7a. A perman\u00eancia da Gr\u00e9cia no euro \u00e9 uma fic\u00e7\u00e3o mantida \u00e0 custa do endividamento do governo grego, j\u00e1 que a produtividade do pa\u00eds \u00e9 muito inferior \u00e0 da economia reguladora do bloco, a Alemanha, que assim est\u00e1 colonizando as demais participantes do euro. Esse endividamento, por sua vez, tem sido repassado pelo governo aos trabalhadores.<br \/>\nO governo do SYRIZA n\u00e3o ser\u00e1 capaz de romper realmente com a &#8220;austeridade&#8221; e reverter o empobrecimento dos trabalhadores, porque para isso teria que tomar medidas realmente anticapitalistas: n\u00e3o pagamento da d\u00edvida p\u00fablica, sa\u00edda da zona do euro e fim das pol\u00edticas de &#8220;austeridade&#8221;, redu\u00e7\u00e3o da jornada sem redu\u00e7\u00e3o dos sal\u00e1rios, reativa\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os p\u00fablicos, igualdade de direitos para os imigrantes, estatiza\u00e7\u00e3o das empresas que amea\u00e7arem fechar. Ao inv\u00e9s de chamar voto no SYRYZA, organizar os trabalhadores em torno desse programa deveria ser a tarefa da esquerda grega.<br \/>\nDe todo modo, as elei\u00e7\u00f5es s\u00e3o somente mais um cap\u00edtulo de uma luta que est\u00e1 longe de terminar. Que os ventos soprem em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o socialista na Gr\u00e9cia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este texto \u00e9 uma contribui\u00e7\u00e3o individual e n\u00e3o expressa necessariamente a posi\u00e7\u00e3o do conjunto da organiza\u00e7\u00e3o, por isso se encontra<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[79,76,64,6],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3697"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3697"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3697\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5954,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3697\/revisions\/5954"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3697"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3697"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3697"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}