{"id":375,"date":"2012-11-29T14:13:41","date_gmt":"2012-11-29T14:13:41","guid":{"rendered":"http:\/\/espacosocialista.org\/?q=node\/375"},"modified":"2013-02-12T22:34:14","modified_gmt":"2013-02-13T00:34:14","slug":"na-guerra-entre-policia-e-crime-organizado-o-alvo-sao-os-trabalhadores-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/2012\/11\/na-guerra-entre-policia-e-crime-organizado-o-alvo-sao-os-trabalhadores-2\/","title":{"rendered":"Na guerra entre pol\u00edcia e crime organizado, o alvo s\u00e3o os trabalhadores (vers\u00e3o completa)"},"content":{"rendered":"<p><strong>Vers\u00e3o completa<\/strong><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" style=\"font-size: 13.63636302947998px; background-color: #ffffff; text-align: justify;\" alt=\"\" src=\"http:\/\/espacosocialista.org\/sites\/default\/files\/acerto-de-contas-pm-e-pcc-em-sp-2.jpg\" width=\"542\" height=\"300\" \/><\/p>\n<p>Leia tamb\u00e9m:<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/?p=374\">&gt;&gt; vers\u00e3o resumida<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<p><strong>A ideologia do policiamento<\/strong><\/p>\n<p>Nas \u00faltimas semanas de outubro e in\u00edcio de novembro, as manchetes foram tomadas por not\u00edcias de uma \u201conda de viol\u00eancia\u201d na periferia de S\u00e3o Paulo, com o assassinato de policiais, de baixa e alta patente, e mortes tamb\u00e9m de alegados criminosos em supostos confrontos com a pol\u00edcia. As mortes chegaram a algumas dezenas por semana, e estabeleceu-se o temor de que algo semelhante ao que aconteceu em 2006 (quando confrontos do mesmo tipo numa escala muito maior paralisaram a maior cidade do pa\u00eds na \u00e9poca do dia das m\u00e3es), inclusive com toque de recolher em alguns bairros da periferia e regi\u00f5es da Grande S\u00e3o Paulo. O governo federal e o estadual estabeleceram um acordo de coopera\u00e7\u00e3o para debelar a onda de viol\u00eancia, incluindo a presen\u00e7a do ex\u00e9rcito nas ruas e a transfer\u00eancia de l\u00edderes da fac\u00e7\u00e3o PCC para pres\u00eddios federais em outros estados. No entanto, h\u00e1 quase um m\u00eas, as mortes continuam.<\/p>\n<p>A primeira considera\u00e7\u00e3o a se fazer \u00e9 que nenhuma onda de viol\u00eancia e atividade criminosa, nem esta em particular, poder\u00e1 ser refreadas apenas com recurso a mais policiamento, mais confronto, mais militariza\u00e7\u00e3o. As raz\u00f5es para o estado de guerra que vigora na periferia de S\u00e3o Paulo e de outras grandes cidades do pa\u00eds s\u00e3o complexas e profundas, e da mesma forma devem ser as solu\u00e7\u00f5es. O discurso que resume tudo a falhas espec\u00edficas na pol\u00edtica de seguran\u00e7a p\u00fablica ou na compet\u00eancia de seus gestores apenas arranham a superf\u00edcie do problema. Esse discurso simplista sobre assunto t\u00e3o complexo n\u00e3o \u00e9 politicamente inocente, pois existe para justificar um projeto determinado, justamente o projeto de colocar mais policiais nas ruas, com maior liberdade para agir. Busca-se legitimar perante o conjunto da popula\u00e7\u00e3o a pr\u00e1tica policial j\u00e1 corrente de atirar primeiro e perguntar depois. At\u00e9 os paralelep\u00edpedos das ruas da periferia sabem que a pol\u00edcia de S\u00e3o Paulo mata indiscriminadamente, de prefer\u00eancia se o suspeito for negro, e monta \u201cautos de resist\u00eancia\u201d forjados, colocando armas nas m\u00e3os dos mortos para legitimar as execu\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O refor\u00e7o do policiamento, e especificamente esse tipo de policiamento ultraviolento, \u00e9 feito mediante um processo de convencimento junto \u00e0 popula\u00e7\u00e3o e aos trabalhadores, no sentido de que a \u201cguerra ao crime\u201d \u00e9 a \u00fanica solu\u00e7\u00e3o para \u201co problema da viol\u00eancia\u201d. Esse convencimento \u00e9 permanente, por meio de programas televisivos estilo \u201cmundo c\u00e3o\u201d, que se popularizaram enormemente na \u00faltima d\u00e9cada, com o m\u00e9todo sensacionalista e oportunista de ignorar os problemas sociais profundos e prometer solu\u00e7\u00f5es simplistas: mais pol\u00edcia e mais mortes. A popula\u00e7\u00e3o \u00e9 levada a apoiar essa pol\u00edcia que atira primeiro e pergunta depois, que mata indiscriminadamente, que dispensa o devido processo judicial e age simultaneamente como investigador, juiz e carrasco, que executa a pena de morte instantaneamente, que tem a tortura como m\u00e9todo sistem\u00e1tico de investiga\u00e7\u00e3o, que nunca paga por seus crimes.<\/p>\n<p><strong>Os interesses pol\u00edticos e de classe<\/strong><\/p>\n<p>Como uma organiza\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria que luta pela supera\u00e7\u00e3o do capitalismo, somos contra esse discurso e o projeto que ele legitima. A pol\u00edcia que ganha essa completa liberdade de a\u00e7\u00e3o nas ruas ser\u00e1 a mesma pol\u00edcia usada para reprimir movimentos dos trabalhadores, como greves, ocupa\u00e7\u00f5es, manifesta\u00e7\u00f5es e a\u00e7\u00f5es diretas. Ambos ser\u00e3o tratados com a mesma brutalidade e viol\u00eancia, como foram os moradores do Pinheirinho em S\u00e3o Jos\u00e9 dos Campos no in\u00edcio deste ano e os estudantes da USP em fins do ano passado. Perante a opini\u00e3o p\u00fablica em geral toda a repress\u00e3o ser\u00e1 leg\u00edtima, seja aquela disparada contra o crime, seja contra os movimentos sociais em geral. Qualquer movimento por sal\u00e1rio, moradia, educa\u00e7\u00e3o, passa a ser tratado como atividade criminosa, punida com pris\u00e3o e condena\u00e7\u00e3o judicial ou administrativa de diversos tipos. Com essa pr\u00e1tica de criminaliza\u00e7\u00e3o e repress\u00e3o armada, os movimentos s\u00e3o isolados da grande maioria de trabalhadores, que poderia vir a apoi\u00e1-los.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o social torna-se assim caso de pol\u00edcia, como era assumidamente nas palavras do \u00faltimo presidente da Rep\u00fablica Velha. A rep\u00fablica neoliberal que se estabeleceu no Brasil p\u00f3s-ditadura, seja sob gest\u00f5es do PSDB ou do PT, tem a criminaliza\u00e7\u00e3o dos movimentos sociais como m\u00e9todo preferencial para suprimir todo o poss\u00edvel descontentamento que n\u00e3o seja suficientemente abafado pelas diversas modalidades de bolsa-esmola. Para isso, foi preciso apenas lan\u00e7ar m\u00e3o daquilo que permaneceu como legado inalterado da ditadura, uma pol\u00edcia militar montada para tratar os pobres, pretos e perif\u00e9ricos como inimigos. A \u201cdemocracia\u201d brasileira mostra assim a sua verdadeira face, a ditadura de uma classe, que n\u00e3o precisa revogar formalmente as garantias democr\u00e1ticas como no tempo da ditadura, basta soterr\u00e1-las debaixo de balas e cassetetes policiais, com ou sem as c\u00e2meras de TV como coadjuvantes, conforme o caso.<\/p>\n<p>O recrudescimento da repress\u00e3o em geral no Brasil e a \u201cguerra ao crime\u201d no caso em particular se baseiam em m\u00e9todos, estruturas e preconceitos seculares, mas possuem raz\u00f5es econ\u00f4micas e pol\u00edticas bastante atuais, como a necessidade de \u201climpar a casa\u201d para receber os estrangeiros nos megaeventos esportivos de 2014 e 2016. O Estado brasileiro precisa demonstrar que possui controle sobre o territ\u00f3rio das periferias, pois isso \u00e9 crucial para vender a imagem de um pa\u00eds que est\u00e1 progredindo rumo ao \u201c1\u00ba mundo\u201d. Que esse suposto progresso esteja sendo alicer\u00e7ado numa maior explora\u00e7\u00e3o sobre os trabalhadores como a que estamos vivenciando nos \u00faltimos anos, particularmente depois da crise mundial iniciada em 2008, \u00e9 algo que deve ser ocultado, por meio da exposi\u00e7\u00e3o estrondosa de alguma grande vit\u00f3ria, e nada melhor para isso do que uma Copa do Mundo. O sucesso em vender essa imagem \u00e9 crucial para que o atual dirigente do Estado, o PT, consiga se perpetuar como gestor do capitalismo brasileiro. Da\u00ed a coopera\u00e7\u00e3o entre Dilma e Alckmin no caso da atual \u201conda de viol\u00eancia\u201d.<\/p>\n<p>Para completar esse ponto, \u00e9 preciso assinalar que as lutas contra a repress\u00e3o aos movimentos sociais, contra a viol\u00eancia policial, abusos de poder, maus tratos, corrup\u00e7\u00e3o policial e em defesa dos direitos humanos, constituem um conjunto de lutas parciais que n\u00e3o pode ser isolado da luta pol\u00edtica global contra a totalidade do projeto que est\u00e1 em curso no pa\u00eds, o projeto da burguesia e do PT de gest\u00e3o do capitalismo perif\u00e9rico brasileiro. N\u00e3o existe possibilidade de vit\u00f3ria na luta contra a viol\u00eancia sem que esta seja parte da luta geral contra os demais problemas causados pelo capitalismo, e que seja uma luta n\u00e3o apenas contra os efeitos, mas contra as causas desses problemas, o pr\u00f3prio capitalismo, uma luta abertamente anticapitalista e socialista.<\/p>\n<p><strong>A militariza\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Paulo<\/strong><\/p>\n<p>A viol\u00eancia estatal ou mesmo a \u201cmilitariza\u00e7\u00e3o\u201d que o crime organizado instaura nas periferias \u00e9 uma ferramenta fundamental na manuten\u00e7\u00e3o da explora\u00e7\u00e3o, intimidando os trabalhadores para que n\u00e3o entrem em luta. A pol\u00edcia tem como papel fundamental reprimir os trabalhadores e mant\u00ea-los sob controle. O Estado brasileiro tem um projeto para o pa\u00eds e para implantar esse projeto passa por cima dos direitos e das aspira\u00e7\u00f5es de milh\u00f5es de trabalhadores. A pol\u00edcia funciona como um agente direto dos setores do capital que controlam o Estado. Para favorecer a especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria, o judici\u00e1rio e a pol\u00edcia realizam despejos em \u00e1reas ocupadas e favelas, remo\u00e7\u00f5es for\u00e7adas, ca\u00e7ada a moradores de rua, etc., tudo isso no sentido de \u201chigienizar\u201d as cidades e literalmente abrir terreno para construtoras, shopping centers, etc.<\/p>\n<p>Em Janeiro de 2012 a desocupa\u00e7\u00e3o do bairro Pinheirinho em S\u00e3o Jos\u00e9 dos Campos j\u00e1 foi uma express\u00e3o da escalada reacion\u00e1ria em curso no pa\u00eds e tamb\u00e9m uma demonstra\u00e7\u00e3o da liga\u00e7\u00e3o org\u00e2nica das for\u00e7as da repress\u00e3o com o grande capital. Um bairro inteiro, com milhares de habitantes, foi desocupado, com a destrui\u00e7\u00e3o das casas e do patrim\u00f4nio dos trabalhadores, com enorme brutalidade despejada indiscriminadamente contra mulheres, idosos e crian\u00e7as, apenas para garantir os interesses da especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria.<\/p>\n<p>Imposs\u00edvel n\u00e3o notar que estamos no momento que antecede a Copa do Mundo e h\u00e1 grandes \u00e1reas, como a Zona Leste de S\u00e3o Paulo, que est\u00e3o na mira da especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria. O Estado precisa preparar essas \u00e1reas para explora\u00e7\u00e3o por imobili\u00e1rias e empreiteiras. Por isso aumentam os inc\u00eandios de favelas, desocupa\u00e7\u00f5es, remo\u00e7\u00e3o de moradores de rua, etc. A viol\u00eancia \u00e9 tamb\u00e9m uma forma de afastar a popula\u00e7\u00e3o para regi\u00f5es mais distantes e facilitar a explora\u00e7\u00e3o. Certas regi\u00f5es da cidade se tornam palco de guerra entre a pol\u00edcia e organiza\u00e7\u00f5es do crime.<\/p>\n<p>Esses epis\u00f3dios de guerra facilitam o discurso de demoniza\u00e7\u00e3o dos pobres, dos negros e da periferia em geral. Para o Estado e a burguesia, \u00e9 conveniente manter certas regi\u00f5es sob uma esp\u00e9cie de estado de s\u00edtio, fortalecendo a pol\u00edcia e o aparato repressivo em geral. O pr\u00f3prio aparato do Estado, em n\u00edvel municipal, est\u00e1 sendo militarizado.<\/p>\n<p>Das 31 subprefeituras de S\u00e3o Paulo, 30 est\u00e3o sob comando de ex-coron\u00e9is da PM. Esse movimento de militariza\u00e7\u00e3o (realizado pela gest\u00e3o de Kassab, ex-DEM, hoje PSD) coincide com o esvaziamento das fun\u00e7\u00f5es das subprefeituras, que perdem atribui\u00e7\u00f5es sociais, e tamb\u00e9m suas verbas, que ca\u00edram de R$ 2,9 bilh\u00f5es para pouco mais de R$ 1 bilh\u00e3o (http:\/\/www.redebrasilatual.com.br\/temas\/politica\/2012\/09\/subprefeituras-sao-desmanteladas-1); transformam-se em meras zeladorias e \u00f3rg\u00e3os de fiscaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A militariza\u00e7\u00e3o e o discurso de guerra n\u00e3o correspondem exatamente ao que apontam os n\u00fameros. A cidade de S\u00e3o Paulo \u00e9 a capital menos violenta do pa\u00eds, de acordo com o Mapa da Viol\u00eancia 2012, com uma m\u00e9dia de 13 assassinatos para cada 100 mil habitantes (dados de 2010, os mais atualizados dispon\u00edveis. A capital mais violenta \u00e9 Macei\u00f3, com 109,9 assassinatos para cada 100 mil (http:\/\/mapadaviolencia.org.br\/pdf2012\/mapa2012_web.pdf). Para legitimar o clima de terror, \u00e9 preciso algo mais.<\/p>\n<p>Para avan\u00e7ar na militariza\u00e7\u00e3o, \u00e9 preciso um pretexto mais forte, e para isso recorre-se \u00e0 guerra contra organiza\u00e7\u00f5es criminosas como o PCC. Desde a crise de 2006 vigorava um acordo entre a pol\u00edcia\/governo e o crime, que mantinha a situa\u00e7\u00e3o \u201cest\u00e1vel\u201d na periferia. Por algum motivo, esse acordo foi suspenso em 2012. Policiais come\u00e7aram a ser mortos, inclusive fora de servi\u00e7o, e em repres\u00e1lia, agentes policiais come\u00e7aram a matar criminosos e supostos criminosos em grande n\u00famero, numa situa\u00e7\u00e3o de guerra declarada e completamente por fora de qualquer procedimento legal (investiga\u00e7\u00e3o, julgamento, pris\u00e3o). A vers\u00e3o policial dos \u201cautos de resist\u00eancia\u201d sempre prevalece e torna-se imposs\u00edvel distinguir entre os mortos quem realmente tinha envolvimento com o crime e quem foi pego pelo fogo cruzado de um ou de outro lado.<\/p>\n<p>O que importa \u00e9 que foi criada uma legitima\u00e7\u00e3o social para a a\u00e7\u00e3o violenta da pol\u00edcia. A pol\u00edcia de S\u00e3o Paulo abriga em seu interior grupos de exterm\u00ednio, que cumprem esse tipo de miss\u00e3o com alguma \u201cdiscri\u00e7\u00e3o\u201d em per\u00edodos \u201cnormais\u201d e s\u00e3o \u201cliberados\u201d para agir mais abertamente em momentos de crise como esse. O Estado aproveita a situa\u00e7\u00e3o, criada por ele mesmo, para aumentar a repress\u00e3o ao movimento social. No limite, o avan\u00e7o da atual pol\u00edtica de confronto aponta para a possibilidade de ocupa\u00e7\u00e3o das favelas em S\u00e3o Paulo, tais como as UPPs do Rio.<\/p>\n<p><strong>As m\u00faltiplas dimens\u00f5es do problema<\/strong><\/p>\n<p>Os interesses pol\u00edticos e de classe que est\u00e3o por tr\u00e1s da escalada repressiva s\u00e3o evidentes, mas desmontar o mecanismo ideol\u00f3gico que legitima a repress\u00e3o \u00e0s lutas sociais perante os pr\u00f3prios trabalhadores que poderiam se beneficiar delas n\u00e3o \u00e9 tarefa f\u00e1cil. Os ide\u00f3logos da repress\u00e3o, como os \u201cjornalistas\u201d dos programas \u201cmundo c\u00e3o\u201d, podem manipular as emo\u00e7\u00f5es da popula\u00e7\u00e3o com muita facilidade, ao tratar o crime em uma \u00fanica dimens\u00e3o, como um simples caso de policial-her\u00f3i X bandido-monstro. Os ide\u00f3logos da repress\u00e3o s\u00e3o s\u00f3rdidos o suficiente para caricaturizar todos os cr\u00edticos dos abusos policiais e defensores de direitos humanos como \u201camigos dos bandidos\u201d, ou no caso dos estudantes da USP, como \u201cmaconheiros\u201d. Trata-se de uma batalha dur\u00edssima e que est\u00e1 sendo vencida pelos agentes ideol\u00f3gicos da extrema direita. Parte disso contaminou at\u00e9 mesmo as artes e a cultura, como as \u201cstand up comedies\u201d, que fazem sucesso ridicularizando o assim chamado \u201cpoliticamente correto\u201d, o que em si n\u00e3o \u00e9 problema, mas no atual contexto n\u00e3o faz mais do que inclinar os sentimentos do p\u00fablico mais para a direita.<\/p>\n<p>Como n\u00e3o estamos diante de \u201cum simples caso de policial-her\u00f3i X bandido-monstro\u201d, mas de uma escalada de viol\u00eancia e repress\u00e3o relacionada \u00e0 gest\u00e3o do capitalismo perif\u00e9rico brasileiro no contexto da crise mundial do sistema, precisamos discutir a \u201conda de viol\u00eancia\u201d n\u00e3o em seu aspecto superficial e fenom\u00eanico, mas em suas determina\u00e7\u00f5es sociais profundas, que se estendem por diversas dimens\u00f5es da realidade:<\/p>\n<ul>\n<li>ainda relacionado ao discurso da televis\u00e3o, precisamos recusar o uso que se faz do termo \u201cbandido\u201d como algum tipo de subesp\u00e9cie, um n\u00e3o-humano que pode legitimamente ser morto, como um personagem de videogame. De acordo com esse discurso, \u201cbandido\u201d n\u00e3o pode ter acesso aos direitos humanos, pois \u201cn\u00e3o \u00e9 gente\u201d (ou como dizem, \u201cdireitos humanos para humanos direitos\u201d, uma formula\u00e7\u00e3o que evidentemente s\u00f3 poderia vir da direita). Ora, muitos dos que chamam por \u201cbandidos\u201d s\u00e3o humanos que foram desumanizados pela mis\u00e9ria do meio social de onde prov\u00eam, pelo conv\u00edvio com a viol\u00eancia de policiais e outros criminosos, e desumanizados mais uma vez ao serem tratados como menos do que humanos pela TV e a opini\u00e3o p\u00fablica que a segue. N\u00e3o negamos que os criminosos sejam extremamente cru\u00e9is e brutalizados, mas isso n\u00e3o justifica nenhum tipo de pol\u00edtica de exterm\u00ednio. Justifica o emprego do devido processo legal e da aplica\u00e7\u00e3o de todas as garantias fundamentais, podendo culminar, ao fim do processo, com a pris\u00e3o, pois essa institui\u00e7\u00e3o abre ao menos a possibilidade, mesmo que remota, de algum tipo de recupera\u00e7\u00e3o. Mas, para isso, seria preciso que os pres\u00eddios deixassem de ser os b\u00e1rbaros dep\u00f3sitos de gente que existem hoje no Brasil, e que servem apenas para brutalizar ainda mais os seres j\u00e1 violentos que nela s\u00e3o despejados. Se a sa\u00fade e a educa\u00e7\u00e3o para os trabalhadores e seus filhos recebem verbas min\u00fasculas (em fun\u00e7\u00e3o da prioridade que \u00e9 o pagamento da d\u00edvida fraudulenta aos banqueiros e o apoio ao capital), que se dir\u00e1 ent\u00e3o sobre o sistema prisional, em que os condenados s\u00e3o despejados como lixo, apenas para sumir da vista da sociedade, sem qualquer perspectiva de recupera\u00e7\u00e3o. Nos pres\u00eddios, est\u00e3o sujeitos a todo tipo de atrocidades, assassinatos, estupros, torturas, maus tratos, superlota\u00e7\u00e3o, sem qualquer possibilidade de ressocializa\u00e7\u00e3o pelo trabalho e sem o devido isolamento para l\u00edderes de fac\u00e7\u00f5es e criminosos de alta periculosidade. Desse modo, s\u00f3 podem sair piores do que entraram;<\/li>\n<li>Como a humaniza\u00e7\u00e3o do sistema penal em geral n\u00e3o est\u00e1 entre as prioridades, \u00e9 mais simples condenar todos os \u201cbandidos\u201d automaticamente \u00e0 morte, concedendo \u00e0 pol\u00edcia e seus arautos na TV a prerrogativa de determinar quem \u00e9 bandido e quem n\u00e3o \u00e9. Essa categoria fict\u00edcia do \u201cbandido\u201d com as caracter\u00edsticas de um animal irracional ultraviolento e irrecuper\u00e1vel \u00e9 aplicada principalmente sobre um segmento social muito real, os jovens negros da periferia. A pol\u00edcia brasileira \u00e9 bastante seletiva e racista, e sabe muito bem quem se encaixa nesse estere\u00f3tipo televisivo de bandido, quem deve ser abordado numa ronda noturna, quem n\u00e3o se espera que possa estar dirigindo um carro um novo, etc. De outro lado, a m\u00eddia \u00e9 hip\u00f3crita o suficiente para tratar os mortos da periferia, tanto criminosos de verdade quanto trabalhadores mortos por criminosos e pela pol\u00edcia, como simples estat\u00edsticas. Os mortos da periferia n\u00e3o t\u00eam nome, n\u00e3o t\u00eam rosto, n\u00e3o sentem dor, n\u00e3o t\u00eam sentimentos, n\u00e3o t\u00eam sonhos, n\u00e3o t\u00eam entes queridos que choram por eles. J\u00e1 os mortos dos bairros centrais, onde moram a pequena burguesia e a burguesia, esses sim t\u00eam nome, sobrenome, fotografia, fam\u00edlia para lan\u00e7ar depoimentos emocionados na TV e at\u00e9 mesmo motivar passeatas \u201cpela paz\u201d. Essa opera\u00e7\u00e3o de mistifica\u00e7\u00e3o atribui a uma determinada classe social a condi\u00e7\u00e3o de sujeito, de protagonista, de ser considerado entre os que tem direito \u00e0 voz no espa\u00e7o p\u00fablico, enquanto aos trabalhadores e pobres em geral se nega a condi\u00e7\u00e3o de humano e se aceita por defini\u00e7\u00e3o que possam morrer \u00e0s d\u00fazias em chacinas an\u00f4nimas, merecendo nada al\u00e9m de notas de rodap\u00e9 com o n\u00famero de v\u00edtimas;<\/li>\n<li>a naturaliza\u00e7\u00e3o do \u201cbandido\u201d deve ser combatida ainda por outro motivo: n\u00e3o \u00e9 simplesmente um problema da natureza do indiv\u00edduo ou de car\u00e1ter que o torna apto a cometer crimes violentos, mas uma determinada situa\u00e7\u00e3o social, a mis\u00e9ria material extrema que reina nas periferias. A falta de empregos ou empregos extremamente prec\u00e1rios e degradantes, falta de moradia, de saneamento b\u00e1sico, de sa\u00fade p\u00fablica, de educa\u00e7\u00e3o, de lazer e cultura, em que vivem os moradores da periferia, fazem com que o crime se torne uma op\u00e7\u00e3o razo\u00e1vel, mesmo que seja apenas para a pequena minoria que efetivamente adere ao crime. Quando se situa a causa da exist\u00eancia de criminosos na \u201cnatureza\u201d violenta de alguns indiv\u00edduos, isso \u00e9 pretexto para deixar de combater a mis\u00e9ria e sua causa, o sistema capitalista;<\/li>\n<li>a mis\u00e9ria \u00e9 a causa do crime, e o capitalismo \u00e9 a causa da mis\u00e9ria. Logo, o crime \u00e9 parte do capitalismo, n\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno exterior ou oposto ao modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista. O capitalismo estabelece o monop\u00f3lio do uso da for\u00e7a (armas) pelo Estado, por meio das for\u00e7as armadas e da pol\u00edcia. Mas ao mesmo tempo, ao estabelecer a competi\u00e7\u00e3o de todos contra todos, e criar tamb\u00e9m um ex\u00e9rcito industrial de reserva (cada vez mais permanente) de desempregados e miser\u00e1veis, o capitalismo cria tamb\u00e9m a tenta\u00e7\u00e3o de prevalecer na competi\u00e7\u00e3o por meio de atividades banidas pelo Estado e que envolvem o uso da for\u00e7a. Essas atividades criminosas s\u00e3o presididas pela mesma l\u00f3gica da competi\u00e7\u00e3o empresarial capitalista. O objetivo de todos os l\u00edderes criminosos \u00e9 obter riqueza suficiente para entrar no mundo dos neg\u00f3cios \u201clegais\u201d e ingressar na burguesia. A ideologia dos soldados do crime ao seguir seus chefes \u00e9 obter status e prest\u00edgio, comprando carros e mulheres (como se estas fossem mercadorias).<\/li>\n<li>em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 \u201cideologia policial\u201d de resolver as quest\u00f5es sociais por meio da for\u00e7a, trata-se de uma tend\u00eancia recorrente e perigosa em momentos de crise. Na Gr\u00e9cia, ex-policiais integram as mil\u00edcias do partido neonazista Aurora Dourada, que promete resolver os problemas do pa\u00eds expulsando os imigrantes por meio da viol\u00eancia. Na Alemanha, Hitler contou com os restos do aparato militar e policial do antigo imp\u00e9rio e da Rep\u00fablica de Weimar, convertidos em desordeiros, bem como l\u00fampens e elementos desclassificados em geral, para recrutar as mil\u00edcias nazistas das SS e SA. O fato de que esse fen\u00f4meno esteja come\u00e7ando a se repetir em pa\u00edses europeus perif\u00e9ricos, no bojo da crise que \u00e9 a mais s\u00e9ria desde a de 1930, \u00e9 algo que deve nos deixar em estado de alerta. As mil\u00edcias paramilitares do nazismo serviram como bra\u00e7o armado da patronal alem\u00e3 para dizimar as organiza\u00e7\u00f5es dos trabalhadores na base da viol\u00eancia (a divis\u00e3o entre comunistas e socialistas, por obra do stalinismo, contribuiu decisivamente para isso, mas trata-se de outra hist\u00f3ria) nos anos 1930 e abriram caminho para a subida de Hitler ao poder. Quando dissemos que a mesma pol\u00edcia hoje utilizada para \u201ccombater o crime\u201d ser\u00e1 usada para combater os movimentos dos trabalhadores, precisamos ter esses exemplos hist\u00f3ricos passados e atuais em perspectiva;<\/li>\n<li>num pa\u00eds perif\u00e9rico como o Brasil, o Estado sucateado pelo pagamento da d\u00edvida n\u00e3o consegue exercer a sua fun\u00e7\u00e3o b\u00e1sica de monop\u00f3lio do uso da for\u00e7a, pois os agentes que emprega para isso acabam agindo por conta pr\u00f3pria e usando a for\u00e7a n\u00e3o para fins p\u00fablicos, mas para seus pr\u00f3prios fins particulares. Tanto as for\u00e7as armadas como as policiais s\u00e3o sucateadas, sem instala\u00e7\u00f5es, sem equipamento, sem treinamento, sem forma\u00e7\u00e3o, sem recursos, com baixos sal\u00e1rios, etc. Dessa forma, os agentes diretamente envolvidos no \u201ccombate ao crime\u201d, os que atuam na linha de frente das periferias, acabam dando seu \u201cjeitinho\u201d para sobreviver. O Estado praticamente empurra os policiais para as pr\u00e1ticas ilegais. Alguns fazem \u201cbicos\u201d e servi\u00e7os \u201cpor fora\u201d em empresas de seguran\u00e7a (muitas vezes comandadas pelos pr\u00f3prios oficiais e ex-oficiais da pol\u00edcia) nos dias de folga. Ou o que \u00e9 mais grave, fazem acordos com as pr\u00f3prias organiza\u00e7\u00f5es criminosas, deixando de reprimi-las em troca de uma parte de sua renda. Os peri\u00f3dicos surtos e \u201condas de viol\u00eancia\u201d entre policiais e criminosos em geral se referem a desacordos entre os dois setores sobre a porcentagem que cabe a cada um na reparti\u00e7\u00e3o dos lucros do tr\u00e1fico. E \u00e9 aqui que o crime organizado mais uma vez se revela como parte integrante do pr\u00f3prio sistema capitalista: \u00e9 uma empresa em funcionamento; como tal, o que lhe interessa \u00e9 o lucro. \u00c9 nesse sentido que o tr\u00e1fico \u00e9 um grande neg\u00f3cio do mercado brasileiro. Em casos extremos, como no Rio, grupos de ex-policiais formam \u201cmil\u00edcias\u201d que, sob o pretexto de combater o tr\u00e1fico, se tornam elas pr\u00f3prias \u201cdonas\u201d dos morros e extorquem dos moradores em troca dos seus \u201cservi\u00e7os\u201d, controlando todos os pequenos neg\u00f3cios legais e ilegais no bairro. Ou seja, o Estado brasileiro n\u00e3o tem controle sobre os seus homens armados, que ao inv\u00e9s de combaterem o crime, tornam-se parte dele. Nesse sentido, por sua vez, o crime organizado termina por instaurar nas regi\u00f5es em que controla um \u201cEstado de vi\u00e9s fascista\u201d, muito pior do que os Estados de direito oficiais. Para completar, os pol\u00edticos e \u201cjornalistas\u201d que manipulam o medo da popula\u00e7\u00e3o e advogam \u201cmais pol\u00edcia\u201d est\u00e3o defendendo uma esp\u00e9cie de \u201cind\u00fastria do policiamento\u201d, como os coron\u00e9is do nordeste defendiam a \u201cind\u00fastria da seca\u201d, mais um pretexto para transformar determinados territ\u00f3rios em verdadeiros feudos sob controle de homens armados.<\/li>\n<li>n\u00e3o s\u00e3o apenas os policiais na linha de frente do \u201ccombate ao crime\u201d, mas tamb\u00e9m as demais institui\u00e7\u00f5es do Estado, como o judici\u00e1rio, \u00f3rg\u00e3os de fiscaliza\u00e7\u00e3o, etc., que se associam aos neg\u00f3cios criminosos. Ju\u00edzes, advogados, promotores, fiscais, gerentes de bancos, etc., todos eles recebem tamb\u00e9m a sua parte da renda do crime. Sem os servi\u00e7os dessa camada de \u201cespecialistas\u201d, as organiza\u00e7\u00f5es e lideran\u00e7as criminosas n\u00e3o teriam como fazer a lavagem do seu dinheiro. Ao mesmo tempo, os canais que permitem a lavagem de dinheiro do crime, como as contas em para\u00edsos fiscais, n\u00e3o podem jamais ser fechados, pois s\u00e3o os mesmos que os pr\u00f3prios grandes burgueses usam ordinariamente para remeter ilegalmente seu dinheiro para o exterior. O combate efetivo \u00e0 lavagem de dinheiro e aos para\u00edsos fiscais, seja para asfixiar as organiza\u00e7\u00f5es terroristas, seja para criminosos comuns, jamais ter\u00e1 sucesso, pois tratam-se dos mesmos mecanismos usados por pol\u00edticos corruptos, grandes empres\u00e1rios que sonegam impostos, banqueiros e investidores, etc. Sem esses mecanismos, tamb\u00e9m ilegais e que movimentam grandes fortunas, o capitalismo n\u00e3o funcionaria para os burgueses individuais, portanto, nenhum Estado nacional ser\u00e1 capaz de extingu\u00ed-los (mesmo porque se tratam de redes mundializadas de circula\u00e7\u00e3o de dinheiro), e eles seguir\u00e3o sendo usados tamb\u00e9m pelas organiza\u00e7\u00f5es criminosas.<\/li>\n<li>a \u201cguerra \u00e0s drogas\u201d \u00e9 uma vers\u00e3o para a Am\u00e9rica Latina daquilo que se pratica no Oriente M\u00e9dio com o nome de \u201cguerra ao terror\u201d. \u00c9 um pretexto para que o ex\u00e9rcito estadunidense controle pa\u00edses como a Col\u00f4mbia e mais recentemente o M\u00e9xico. Nesses pa\u00edses, instalam-se bases militares estadunidenses, de onde as tropas imperialistas podem ter f\u00e1cil acesso \u00e0s riquezas do continente, como petr\u00f3leo, min\u00e9rios, \u00e1gua pot\u00e1vel, biodiversidade, etc. Sob o pretexto da \u201cguerra \u00e0s drogas\u201d, o que se quer tamb\u00e9m \u00e9 controlar os movimentos sociais da regi\u00e3o, que desde o in\u00edcio da d\u00e9cada passada t\u00eam sido uma for\u00e7a pol\u00edtica importante.<\/li>\n<\/ul>\n<p><strong>Propostas para a quest\u00e3o da viol\u00eancia<\/strong><\/p>\n<p>Retomamos ent\u00e3o a discuss\u00e3o apresentada no in\u00edcio quando indicamos que o simples aumento do policiamento n\u00e3o ir\u00e1 resolver o problema do crime e da viol\u00eancia. No caso brasileiro, o limite a que se pode chegar com essa pol\u00edtica de mais policiamento \u00e9 um estado de terror nas periferias, sob controle de agentes policiais extremamente violentos (e nem por isso menos corruptos, nem menos associados ao crime), que transmitam uma falsa sensa\u00e7\u00e3o de \u201ctranquilidade\u201d e \u201cpaz social\u201d por ocais\u00e3o dos megaeventos esportivos.<\/p>\n<p>Os aspectos que levantamos acima em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s m\u00faltiplas dimens\u00f5es do problema social do crime e da viol\u00eancia colocam como solu\u00e7\u00f5es correspondentes as seguintes propostas:<br \/>\n<strong><br \/>\n&#8211; emprego, moradia e servi\u00e7os p\u00fablicos para todos os trabalhadores;<br \/>\n&#8211; educa\u00e7\u00e3o, cultura e lazer para a juventude em todos os bairros;<br \/>\n&#8211; redu\u00e7\u00e3o de danos para dependentes e drogas, com narcossalas, fornecimento de seringas, etc; por tratamento humanizado, fim da interna\u00e7\u00e3o compuls\u00f3ria;<br \/>\n&#8211; humaniza\u00e7\u00e3o do sistema penal em geral sob o controle do Estado, com a constru\u00e7\u00e3o de novas unidades e a contrata\u00e7\u00e3o de pessoal at\u00e9 dar fim \u00e0 superlota\u00e7\u00e3o dos pres\u00eddios, aos maus tratos e \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o dos agentes carcer\u00e1rios;<br \/>\n&#8211; combate \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o policial e judicial, julgamento de policiais em tribunais civis, expuls\u00e3o e pris\u00e3o de todos os corruptos e confisco de seus bens;<br \/>\n&#8211; desmilitariza\u00e7\u00e3o da PM, unifica\u00e7\u00e3o das pol\u00edcias em uma \u00fanica corpora\u00e7\u00e3o civil, com direito de sindicaliza\u00e7\u00e3o e elei\u00e7\u00e3o dos comandantes e sob controle democr\u00e1tico da popula\u00e7\u00e3o dos bairros;<br \/>\n&#8211; fim da lavagem de dinheiro e repatria\u00e7\u00e3o de todo dinheiro remetido ilegalmente para o exterior;<br \/>\n&#8211; campanha contra a repress\u00e3o aos movimentos sociais, pelo direito de greve e de manifesta\u00e7\u00e3o;<br \/>\n&#8211; campanha permanente de esclarecimento dos malef\u00edcios causados pelo uso abusivo das drogas em geral.<br \/>\n<\/strong><br \/>\nBoa parte dessas medidas exigir\u00e3o uma luta contra a l\u00f3gica do sistema capitalista como um todo, conforme assinalamos acima. Para gerar emprego, moradia e servi\u00e7os p\u00fablicos de qualidade para todos, seria preciso, por exemplo, inverter a prioridade do or\u00e7amento p\u00fablico, que hoje est\u00e1 comprometido em cerca de 50% com o pagamento de juros da d\u00edvida p\u00fablica aos banqueiros e especuladores. Para obter o n\u00e3o pagamento dos juros, por sua vez, seria preciso enfrentar um dos setores mais poderosos do capitalismo brasileiro e mundial, o mercado financeiro. Seria preciso desenvolver uma luta contra o Estado e suas atuais institui\u00e7\u00f5es, no contexto de uma luta que acabaria inevitavelmente se colocando contra o capitalismo e projetando a constru\u00e7\u00e3o do socialismo. O mesmo se aplica a v\u00e1rias das demais medidas, que devem ser compreendias como parte de um programa anticapitalista e socialista.<\/p>\n<p>Para finalizar, por falar em banqueiros, como dizia Brecht, \u201co que \u00e9 o crime de roubar um banco comparado ao de fundar um?\u201d<\/p>\n<p><span style=\"background-color: #ffffff; font-size: 13.63636302947998px; text-align: justify;\">Espa\u00e7o Socialista, Novembro de 2012<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Vers&atilde;o completa<\/strong><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/espacosocialista.org\/sites\/default\/files\/acerto-de-contas-pm-e-pcc-em-sp-2.jpg\" width=\"542\" height=\"300\" alt=\"\" style=\"font-size: 13.63636302947998px; background-color: rgb(255, 255, 255); text-align: justify;\" \/><\/p>\n<p>Leia tamb&eacute;m:<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/espacosocialista.org\/node\/374\">&gt;&gt; vers&atilde;o resumida<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div style=\"text-align: justify\">\n<p><strong>A ideologia do policiamento<\/strong><\/p>\n<p>\nNas &uacute;ltimas semanas de outubro e in&iacute;cio de novembro, as manchetes foram tomadas por not&iacute;cias de uma &ldquo;onda de viol&ecirc;ncia&rdquo; na periferia de S&atilde;o Paulo, com o assassinato de policiais, de baixa e alta patente, e mortes tamb&eacute;m de alegados criminosos em supostos confrontos com a pol&iacute;cia. As mortes chegaram a algumas dezenas por semana, e estabeleceu-se o temor de que algo semelhante ao que aconteceu em 2006 (quando confrontos do mesmo tipo numa escala muito maior paralisaram a maior cidade do pa&iacute;s na &eacute;poca do dia das m&atilde;es), inclusive com toque de recolher em alguns bairros da periferia e regi&otilde;es da Grande S&atilde;o Paulo. O governo federal e o estadual estabeleceram um acordo de coopera&ccedil;&atilde;o para debelar a onda de viol&ecirc;ncia, incluindo a presen&ccedil;a do ex&eacute;rcito nas ruas e a transfer&ecirc;ncia de l&iacute;deres da fac&ccedil;&atilde;o PCC para pres&iacute;dios federais em outros estados. No entanto, h&aacute; quase um m&ecirc;s, as mortes continuam.<\/p>\n<p>A primeira considera&ccedil;&atilde;o a se fazer &eacute; que nenhuma onda de viol&ecirc;ncia e atividade criminosa, nem esta em particular, poder&aacute; ser refreadas apenas com recurso a mais policiamento, mais confronto, mais militariza&ccedil;&atilde;o. As raz&otilde;es para o estado de guerra que vigora na periferia de S&atilde;o Paulo e de outras grandes cidades do pa&iacute;s s&atilde;o complexas e profundas, e da mesma forma devem ser as solu&ccedil;&otilde;es. O discurso que resume tudo a falhas espec&iacute;ficas na pol&iacute;tica de seguran&ccedil;a p&uacute;blica ou na compet&ecirc;ncia de seus gestores apenas arranham a superf&iacute;cie do problema. Esse discurso simplista sobre assunto t&atilde;o complexo n&atilde;o &eacute; politicamente inocente, pois existe para justificar um projeto determinado, justamente o projeto de colocar mais policiais nas ruas, com maior liberdade para agir. Busca-se legitimar perante o conjunto da popula&ccedil;&atilde;o a pr&aacute;tica policial j&aacute; corrente de atirar primeiro e perguntar depois. At&eacute; os paralelep&iacute;pedos das ruas da periferia sabem que a pol&iacute;cia de S&atilde;o Paulo mata indiscriminadamente, de prefer&ecirc;ncia se o suspeito for negro, e monta &ldquo;autos de resist&ecirc;ncia&rdquo; forjados, colocando armas nas m&atilde;os dos mortos para legitimar as execu&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>O refor&ccedil;o do policiamento, e especificamente esse tipo de policiamento ultraviolento, &eacute; feito mediante um processo de convencimento junto &agrave; popula&ccedil;&atilde;o e aos trabalhadores, no sentido de que a &ldquo;guerra ao crime&rdquo; &eacute; a &uacute;nica solu&ccedil;&atilde;o para &ldquo;o problema da viol&ecirc;ncia&rdquo;. Esse convencimento &eacute; permanente, por meio de programas televisivos estilo &ldquo;mundo c&atilde;o&rdquo;, que se popularizaram enormemente na &uacute;ltima d&eacute;cada, com o m&eacute;todo sensacionalista e oportunista de ignorar os problemas sociais profundos e prometer solu&ccedil;&otilde;es simplistas: mais pol&iacute;cia e mais mortes. A popula&ccedil;&atilde;o &eacute; levada a apoiar essa pol&iacute;cia que atira primeiro e pergunta depois, que mata indiscriminadamente, que dispensa o devido processo judicial e age simultaneamente como investigador, juiz e carrasco, que executa a pena de morte instantaneamente, que tem a tortura como m&eacute;todo sistem&aacute;tico de investiga&ccedil;&atilde;o, que nunca paga por seus crimes.<\/p>\n<p><strong>Os interesses pol&iacute;ticos e de classe<\/strong><\/p>\n<p>\nComo uma organiza&ccedil;&atilde;o revolucion&aacute;ria que luta pela supera&ccedil;&atilde;o do capitalismo, somos contra esse discurso e o projeto que ele legitima. A pol&iacute;cia que ganha essa completa liberdade de a&ccedil;&atilde;o nas ruas ser&aacute; a mesma pol&iacute;cia usada para reprimir movimentos dos trabalhadores, como greves, ocupa&ccedil;&otilde;es, manifesta&ccedil;&otilde;es e a&ccedil;&otilde;es diretas. Ambos ser&atilde;o tratados com a mesma brutalidade e viol&ecirc;ncia, como foram os moradores do Pinheirinho em S&atilde;o Jos&eacute; dos Campos no in&iacute;cio deste ano e os estudantes da USP em fins do ano passado. Perante a opini&atilde;o p&uacute;blica em geral toda a repress&atilde;o ser&aacute; leg&iacute;tima, seja aquela disparada contra o crime, seja contra os movimentos sociais em geral. Qualquer movimento por sal&aacute;rio, moradia, educa&ccedil;&atilde;o, passa a ser tratado como atividade criminosa, punida com pris&atilde;o e condena&ccedil;&atilde;o judicial ou administrativa de diversos tipos. Com essa pr&aacute;tica de criminaliza&ccedil;&atilde;o e repress&atilde;o armada, os movimentos s&atilde;o isolados da grande maioria de trabalhadores, que poderia vir a apoi&aacute;-los.<\/p>\n<p>A quest&atilde;o social torna-se assim caso de pol&iacute;cia, como era assumidamente nas palavras do &uacute;ltimo presidente da Rep&uacute;blica Velha. A rep&uacute;blica neoliberal que se estabeleceu no Brasil p&oacute;s-ditadura, seja sob gest&otilde;es do PSDB ou do PT, tem a criminaliza&ccedil;&atilde;o dos movimentos sociais como m&eacute;todo preferencial para suprimir todo o poss&iacute;vel descontentamento que n&atilde;o seja suficientemente abafado pelas diversas modalidades de bolsa-esmola. Para isso, foi preciso apenas lan&ccedil;ar m&atilde;o daquilo que permaneceu como legado inalterado da ditadura, uma pol&iacute;cia militar montada para tratar os pobres, pretos e perif&eacute;ricos como inimigos. A &ldquo;democracia&rdquo; brasileira mostra assim a sua verdadeira face, a ditadura de uma classe, que n&atilde;o precisa revogar formalmente as garantias democr&aacute;ticas como no tempo da ditadura, basta soterr&aacute;-las debaixo de balas e cassetetes policiais, com ou sem as c&acirc;meras de TV como coadjuvantes, conforme o caso.<\/p>\n<p>O recrudescimento da repress&atilde;o em geral no Brasil e a &ldquo;guerra ao crime&rdquo; no caso em particular se baseiam em m&eacute;todos, estruturas e preconceitos seculares, mas possuem raz&otilde;es econ&ocirc;micas e pol&iacute;ticas bastante atuais, como a necessidade de &ldquo;limpar a casa&rdquo; para receber os estrangeiros nos megaeventos esportivos de 2014 e 2016. O Estado brasileiro precisa demonstrar que possui controle sobre o territ&oacute;rio das periferias, pois isso &eacute; crucial para vender a imagem de um pa&iacute;s que est&aacute; progredindo rumo ao &ldquo;1&ordm; mundo&rdquo;. Que esse suposto progresso esteja sendo alicer&ccedil;ado numa maior explora&ccedil;&atilde;o sobre os trabalhadores como a que estamos vivenciando nos &uacute;ltimos anos, particularmente depois da crise mundial iniciada em 2008, &eacute; algo que deve ser ocultado, por meio da exposi&ccedil;&atilde;o estrondosa de alguma grande vit&oacute;ria, e nada melhor para isso do que uma Copa do Mundo. O sucesso em vender essa imagem &eacute; crucial para que o atual dirigente do Estado, o PT, consiga se perpetuar como gestor do capitalismo brasileiro. Da&iacute; a coopera&ccedil;&atilde;o entre Dilma e Alckmin no caso da atual &ldquo;onda de viol&ecirc;ncia&rdquo;.<\/p>\n<p>Para completar esse ponto, &eacute; preciso assinalar que as lutas contra a repress&atilde;o aos movimentos sociais, contra a viol&ecirc;ncia policial, abusos de poder, maus tratos, corrup&ccedil;&atilde;o policial e em defesa dos direitos humanos, constituem um conjunto de lutas parciais que n&atilde;o pode ser isolado da luta pol&iacute;tica global contra a totalidade do projeto que est&aacute; em curso no pa&iacute;s, o projeto da burguesia e do PT de gest&atilde;o do capitalismo perif&eacute;rico brasileiro. N&atilde;o existe possibilidade de vit&oacute;ria na luta contra a viol&ecirc;ncia sem que esta seja parte da luta geral contra os demais problemas causados pelo capitalismo, e que seja uma luta n&atilde;o apenas contra os efeitos, mas contra as causas desses problemas, o pr&oacute;prio capitalismo, uma luta abertamente anticapitalista e socialista.<\/p>\n<p><strong>A militariza&ccedil;&atilde;o de S&atilde;o Paulo<\/strong><\/p>\n<p>A viol&ecirc;ncia estatal ou mesmo a &ldquo;militariza&ccedil;&atilde;o&rdquo; que o crime organizado instaura nas periferias &eacute; uma ferramenta fundamental na manuten&ccedil;&atilde;o da explora&ccedil;&atilde;o, intimidando os trabalhadores para que n&atilde;o entrem em luta. A pol&iacute;cia tem como papel fundamental reprimir os trabalhadores e mant&ecirc;-los sob controle. O Estado brasileiro tem um projeto para o pa&iacute;s e para implantar esse projeto passa por cima dos direitos e das aspira&ccedil;&otilde;es de milh&otilde;es de trabalhadores. A pol&iacute;cia funciona como um agente direto dos setores do capital que controlam o Estado. Para favorecer a especula&ccedil;&atilde;o imobili&aacute;ria, o judici&aacute;rio e a pol&iacute;cia realizam despejos em &aacute;reas ocupadas e favelas, remo&ccedil;&otilde;es for&ccedil;adas, ca&ccedil;ada a moradores de rua, etc., tudo isso no sentido de &ldquo;higienizar&rdquo; as cidades e literalmente abrir terreno para construtoras, shopping centers, etc.<\/p>\n<p>Em Janeiro de 2012 a desocupa&ccedil;&atilde;o do bairro Pinheirinho em S&atilde;o Jos&eacute; dos Campos j&aacute; foi uma express&atilde;o da escalada reacion&aacute;ria em curso no pa&iacute;s e tamb&eacute;m uma demonstra&ccedil;&atilde;o da liga&ccedil;&atilde;o org&acirc;nica das for&ccedil;as da repress&atilde;o com o grande capital. Um bairro inteiro, com milhares de habitantes, foi desocupado, com a destrui&ccedil;&atilde;o das casas e do patrim&ocirc;nio dos trabalhadores, com enorme brutalidade despejada indiscriminadamente contra mulheres, idosos e crian&ccedil;as, apenas para garantir os interesses da especula&ccedil;&atilde;o imobili&aacute;ria.<\/p>\n<p>Imposs&iacute;vel n&atilde;o notar que estamos no momento que antecede a Copa do Mundo e h&aacute; grandes &aacute;reas, como a Zona Leste de S&atilde;o Paulo, que est&atilde;o na mira da especula&ccedil;&atilde;o imobili&aacute;ria. O Estado precisa preparar essas &aacute;reas para explora&ccedil;&atilde;o por imobili&aacute;rias e empreiteiras. Por isso aumentam os inc&ecirc;ndios de favelas, desocupa&ccedil;&otilde;es, remo&ccedil;&atilde;o de moradores de rua, etc. A viol&ecirc;ncia &eacute; tamb&eacute;m uma forma de afastar a popula&ccedil;&atilde;o para regi&otilde;es mais distantes e facilitar a explora&ccedil;&atilde;o. Certas regi&otilde;es da cidade se tornam palco de guerra entre a pol&iacute;cia e organiza&ccedil;&otilde;es do crime.<\/p>\n<p>Esses epis&oacute;dios de guerra facilitam o discurso de demoniza&ccedil;&atilde;o dos pobres, dos negros e da periferia em geral. Para o Estado e a burguesia, &eacute; conveniente manter certas regi&otilde;es sob uma esp&eacute;cie de estado de s&iacute;tio, fortalecendo a pol&iacute;cia e o aparato repressivo em geral. O pr&oacute;prio aparato do Estado, em n&iacute;vel municipal, est&aacute; sendo militarizado.<\/p>\n<p>Das 31 subprefeituras de S&atilde;o Paulo, 30 est&atilde;o sob comando de ex-coron&eacute;is da PM. Esse movimento de militariza&ccedil;&atilde;o (realizado pela gest&atilde;o de Kassab, ex-DEM, hoje PSD) coincide com o esvaziamento das fun&ccedil;&otilde;es das subprefeituras, que perdem atribui&ccedil;&otilde;es sociais, e tamb&eacute;m suas verbas, que ca&iacute;ram de R$ 2,9 bilh&otilde;es para pouco mais de R$ 1 bilh&atilde;o (http:\/\/www.redebrasilatual.com.br\/temas\/politica\/2012\/09\/subprefeituras-sao-desmanteladas-1); transformam-se em meras zeladorias e &oacute;rg&atilde;os de fiscaliza&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>A militariza&ccedil;&atilde;o e o discurso de guerra n&atilde;o correspondem exatamente ao que apontam os n&uacute;meros. A cidade de S&atilde;o Paulo &eacute; a capital menos violenta do pa&iacute;s, de acordo com o Mapa da Viol&ecirc;ncia 2012, com uma m&eacute;dia de 13 assassinatos para cada 100 mil habitantes (dados de 2010, os mais atualizados dispon&iacute;veis. A capital mais violenta &eacute; Macei&oacute;, com 109,9 assassinatos para cada 100 mil (http:\/\/mapadaviolencia.org.br\/pdf2012\/mapa2012_web.pdf). Para legitimar o clima de terror, &eacute; preciso algo mais.<\/p>\n<p>Para avan&ccedil;ar na militariza&ccedil;&atilde;o, &eacute; preciso um pretexto mais forte, e para isso recorre-se &agrave; guerra contra organiza&ccedil;&otilde;es criminosas como o PCC. Desde a crise de 2006 vigorava um acordo entre a pol&iacute;cia\/governo e o crime, que mantinha a situa&ccedil;&atilde;o &ldquo;est&aacute;vel&rdquo; na periferia. Por algum motivo, esse acordo foi suspenso em 2012. Policiais come&ccedil;aram a ser mortos, inclusive fora de servi&ccedil;o, e em repres&aacute;lia, agentes policiais come&ccedil;aram a matar criminosos e supostos criminosos em grande n&uacute;mero, numa situa&ccedil;&atilde;o de guerra declarada e completamente por fora de qualquer procedimento legal (investiga&ccedil;&atilde;o, julgamento, pris&atilde;o). A vers&atilde;o policial dos &ldquo;autos de resist&ecirc;ncia&rdquo; sempre prevalece e torna-se imposs&iacute;vel distinguir entre os mortos quem realmente tinha envolvimento com o crime e quem foi pego pelo fogo cruzado de um ou de outro lado.<\/p>\n<p>O que importa &eacute; que foi criada uma legitima&ccedil;&atilde;o social para a a&ccedil;&atilde;o violenta da pol&iacute;cia. A pol&iacute;cia de S&atilde;o Paulo abriga em seu interior grupos de exterm&iacute;nio, que cumprem esse tipo de miss&atilde;o com alguma &ldquo;discri&ccedil;&atilde;o&rdquo; em per&iacute;odos &ldquo;normais&rdquo; e s&atilde;o &ldquo;liberados&rdquo; para agir mais abertamente em momentos de crise como esse. O Estado aproveita a situa&ccedil;&atilde;o, criada por ele mesmo, para aumentar a repress&atilde;o ao movimento social. No limite, o avan&ccedil;o da atual pol&iacute;tica de confronto aponta para a possibilidade de ocupa&ccedil;&atilde;o das favelas em S&atilde;o Paulo, tais como as UPPs do Rio.<\/p>\n<p><strong>As m&uacute;ltiplas dimens&otilde;es do problema<\/strong><\/p>\n<p>Os interesses pol&iacute;ticos e de classe que est&atilde;o por tr&aacute;s da escalada repressiva s&atilde;o evidentes, mas desmontar o mecanismo ideol&oacute;gico que legitima a repress&atilde;o &agrave;s lutas sociais perante os pr&oacute;prios trabalhadores que poderiam se beneficiar delas n&atilde;o &eacute; tarefa f&aacute;cil. Os ide&oacute;logos da repress&atilde;o, como os &ldquo;jornalistas&rdquo; dos programas &ldquo;mundo c&atilde;o&rdquo;, podem manipular as emo&ccedil;&otilde;es da popula&ccedil;&atilde;o com muita facilidade, ao tratar o crime em uma &uacute;nica dimens&atilde;o, como um simples caso de policial-her&oacute;i X bandido-monstro. Os ide&oacute;logos da repress&atilde;o s&atilde;o s&oacute;rdidos o suficiente para caricaturizar todos os cr&iacute;ticos dos abusos policiais e defensores de direitos humanos como &ldquo;amigos dos bandidos&rdquo;, ou no caso dos estudantes da USP, como &ldquo;maconheiros&rdquo;. Trata-se de uma batalha dur&iacute;ssima e que est&aacute; sendo vencida pelos agentes ideol&oacute;gicos da extrema direita. Parte disso contaminou at&eacute; mesmo as artes e a cultura, como as &ldquo;stand up comedies&rdquo;, que fazem sucesso ridicularizando o assim chamado &ldquo;politicamente correto&rdquo;, o que em si n&atilde;o &eacute; problema, mas no atual contexto n&atilde;o faz mais do que inclinar os sentimentos do p&uacute;blico mais para a direita.<\/p>\n<p>Como n&atilde;o estamos diante de &ldquo;um simples caso de policial-her&oacute;i X bandido-monstro&rdquo;, mas de uma escalada de viol&ecirc;ncia e repress&atilde;o relacionada &agrave; gest&atilde;o do capitalismo perif&eacute;rico brasileiro no contexto da crise mundial do sistema, precisamos discutir a &ldquo;onda de viol&ecirc;ncia&rdquo; n&atilde;o em seu aspecto superficial e fenom&ecirc;nico, mas em suas determina&ccedil;&otilde;es sociais profundas, que se estendem por diversas dimens&otilde;es da realidade:<\/p>\n<ul>\n<li>ainda relacionado ao discurso da televis&atilde;o, precisamos recusar o uso que se faz do termo &ldquo;bandido&rdquo; como algum tipo de subesp&eacute;cie, um n&atilde;o-humano que pode legitimamente ser morto, como um personagem de videogame. De acordo com esse discurso, &ldquo;bandido&rdquo; n&atilde;o pode ter acesso aos direitos humanos, pois &ldquo;n&atilde;o &eacute; gente&rdquo; (ou como dizem, &ldquo;direitos humanos para humanos direitos&rdquo;, uma formula&ccedil;&atilde;o que evidentemente s&oacute; poderia vir da direita). Ora, muitos dos que chamam por &ldquo;bandidos&rdquo; s&atilde;o humanos que foram desumanizados pela mis&eacute;ria do meio social de onde prov&ecirc;m, pelo conv&iacute;vio com a viol&ecirc;ncia de policiais e outros criminosos, e desumanizados mais uma vez ao serem tratados como menos do que humanos pela TV e a opini&atilde;o p&uacute;blica que a segue. N&atilde;o negamos que os criminosos sejam extremamente cru&eacute;is e brutalizados, mas isso n&atilde;o justifica nenhum tipo de pol&iacute;tica de exterm&iacute;nio. Justifica o emprego do devido processo legal e da aplica&ccedil;&atilde;o de todas as garantias fundamentais, podendo culminar, ao fim do processo, com a pris&atilde;o, pois essa institui&ccedil;&atilde;o abre ao menos a possibilidade, mesmo que remota, de algum tipo de recupera&ccedil;&atilde;o. Mas, para isso, seria preciso que os pres&iacute;dios deixassem de ser os b&aacute;rbaros dep&oacute;sitos de gente que existem hoje no Brasil, e que servem apenas para brutalizar ainda mais os seres j&aacute; violentos que nela s&atilde;o despejados. Se a sa&uacute;de e a educa&ccedil;&atilde;o para os trabalhadores e seus filhos recebem verbas min&uacute;sculas (em fun&ccedil;&atilde;o da prioridade que &eacute; o pagamento da d&iacute;vida fraudulenta aos banqueiros e o apoio ao capital), que se dir&aacute; ent&atilde;o sobre o sistema prisional, em que os condenados s&atilde;o despejados como lixo, apenas para sumir da vista da sociedade, sem qualquer perspectiva de recupera&ccedil;&atilde;o. Nos pres&iacute;dios, est&atilde;o sujeitos a todo tipo de atrocidades, assassinatos, estupros, torturas, maus tratos, superlota&ccedil;&atilde;o, sem qualquer possibilidade de ressocializa&ccedil;&atilde;o pelo trabalho e sem o devido isolamento para l&iacute;deres de fac&ccedil;&otilde;es e criminosos de alta periculosidade. Desse modo, s&oacute; podem sair piores do que entraram;<br \/>\n    &nbsp;<\/li>\n<li>Como a humaniza&ccedil;&atilde;o do sistema penal em geral n&atilde;o est&aacute; entre as prioridades, &eacute; mais simples condenar todos os &ldquo;bandidos&rdquo; automaticamente &agrave; morte, concedendo &agrave; pol&iacute;cia e seus arautos na TV a prerrogativa de determinar quem &eacute; bandido e quem n&atilde;o &eacute;. Essa categoria fict&iacute;cia do &ldquo;bandido&rdquo; com as caracter&iacute;sticas de um animal irracional ultraviolento e irrecuper&aacute;vel &eacute; aplicada principalmente sobre um segmento social muito real, os jovens negros da periferia. A pol&iacute;cia brasileira &eacute; bastante seletiva e racista, e sabe muito bem quem se encaixa nesse estere&oacute;tipo televisivo de bandido, quem deve ser abordado numa ronda noturna, quem n&atilde;o se espera que possa estar dirigindo um carro um novo, etc. De outro lado, a m&iacute;dia &eacute; hip&oacute;crita o suficiente para tratar os mortos da periferia, tanto criminosos de verdade quanto trabalhadores mortos por criminosos e pela pol&iacute;cia, como simples estat&iacute;sticas. Os mortos da periferia n&atilde;o t&ecirc;m nome, n&atilde;o t&ecirc;m rosto, n&atilde;o sentem dor, n&atilde;o t&ecirc;m sentimentos, n&atilde;o t&ecirc;m sonhos, n&atilde;o t&ecirc;m entes queridos que choram por eles. J&aacute; os mortos dos bairros centrais, onde moram a pequena burguesia e a burguesia, esses sim t&ecirc;m nome, sobrenome, fotografia, fam&iacute;lia para lan&ccedil;ar depoimentos emocionados na TV e at&eacute; mesmo motivar passeatas &ldquo;pela paz&rdquo;. Essa opera&ccedil;&atilde;o de mistifica&ccedil;&atilde;o atribui a uma determinada classe social a condi&ccedil;&atilde;o de sujeito, de protagonista, de ser considerado entre os que tem direito &agrave; voz no espa&ccedil;o p&uacute;blico, enquanto aos trabalhadores e pobres em geral se nega a condi&ccedil;&atilde;o de humano e se aceita por defini&ccedil;&atilde;o que possam morrer &agrave;s d&uacute;zias em chacinas an&ocirc;nimas, merecendo nada al&eacute;m de notas de rodap&eacute; com o n&uacute;mero de v&iacute;timas;<br \/>\n    &nbsp;<\/li>\n<li>a naturaliza&ccedil;&atilde;o do &ldquo;bandido&rdquo; deve ser combatida ainda por outro motivo: n&atilde;o &eacute; simplesmente um problema da natureza do indiv&iacute;duo ou de car&aacute;ter que o torna apto a cometer crimes violentos, mas uma determinada situa&ccedil;&atilde;o social, a mis&eacute;ria material extrema que reina nas periferias. A falta de empregos ou empregos extremamente prec&aacute;rios e degradantes, falta de moradia, de saneamento b&aacute;sico, de sa&uacute;de p&uacute;blica, de educa&ccedil;&atilde;o, de lazer e cultura, em que vivem os moradores da periferia, fazem com que o crime se torne uma op&ccedil;&atilde;o razo&aacute;vel, mesmo que seja apenas para a pequena minoria que efetivamente adere ao crime. Quando se situa a causa da exist&ecirc;ncia de criminosos na &ldquo;natureza&rdquo; violenta de alguns indiv&iacute;duos, isso &eacute; pretexto para deixar de combater a mis&eacute;ria e sua causa, o sistema capitalista;<br \/>\n    &nbsp;<\/li>\n<li>a mis&eacute;ria &eacute; a causa do crime, e o capitalismo &eacute; a causa da mis&eacute;ria. Logo, o crime &eacute; parte do capitalismo, n&atilde;o &eacute; um fen&ocirc;meno exterior ou oposto ao modo de produ&ccedil;&atilde;o capitalista. O capitalismo estabelece o monop&oacute;lio do uso da for&ccedil;a (armas) pelo Estado, por meio das for&ccedil;as armadas e da pol&iacute;cia. Mas ao mesmo tempo, ao estabelecer a competi&ccedil;&atilde;o de todos contra todos, e criar tamb&eacute;m um ex&eacute;rcito industrial de reserva (cada vez mais permanente) de desempregados e miser&aacute;veis, o capitalismo cria tamb&eacute;m a tenta&ccedil;&atilde;o de prevalecer na competi&ccedil;&atilde;o por meio de atividades banidas pelo Estado e que envolvem o uso da for&ccedil;a. Essas atividades criminosas s&atilde;o presididas pela mesma l&oacute;gica da competi&ccedil;&atilde;o empresarial capitalista. O objetivo de todos os l&iacute;deres criminosos &eacute; obter riqueza suficiente para entrar no mundo dos neg&oacute;cios &ldquo;legais&rdquo; e ingressar na burguesia. A ideologia dos soldados do crime ao seguir seus chefes &eacute; obter status e prest&iacute;gio, comprando carros e mulheres (como se estas fossem mercadorias).<br \/>\n    &nbsp;<\/li>\n<li>em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; &ldquo;ideologia policial&rdquo; de resolver as quest&otilde;es sociais por meio da for&ccedil;a, trata-se de uma tend&ecirc;ncia recorrente e perigosa em momentos de crise. Na Gr&eacute;cia, ex-policiais integram as mil&iacute;cias do partido neonazista Aurora Dourada, que promete resolver os problemas do pa&iacute;s expulsando os imigrantes por meio da viol&ecirc;ncia. Na Alemanha, Hitler contou com os restos do aparato militar e policial do antigo imp&eacute;rio e da Rep&uacute;blica de Weimar, convertidos em desordeiros, bem como l&uacute;mpens e elementos desclassificados em geral, para recrutar as mil&iacute;cias nazistas das SS e SA. O fato de que esse fen&ocirc;meno esteja come&ccedil;ando a se repetir em pa&iacute;ses europeus perif&eacute;ricos, no bojo da crise que &eacute; a mais s&eacute;ria desde a de 1930, &eacute; algo que deve nos deixar em estado de alerta. As mil&iacute;cias paramilitares do nazismo serviram como bra&ccedil;o armado da patronal alem&atilde; para dizimar as organiza&ccedil;&otilde;es dos trabalhadores na base da viol&ecirc;ncia (a divis&atilde;o entre comunistas e socialistas, por obra do stalinismo, contribuiu decisivamente para isso, mas trata-se de outra hist&oacute;ria) nos anos 1930 e abriram caminho para a subida de Hitler ao poder. Quando dissemos que a mesma pol&iacute;cia hoje utilizada para &ldquo;combater o crime&rdquo; ser&aacute; usada para combater os movimentos dos trabalhadores, precisamos ter esses exemplos hist&oacute;ricos passados e atuais em perspectiva;<br \/>\n    &nbsp;<\/li>\n<li>num pa&iacute;s perif&eacute;rico como o Brasil, o Estado sucateado pelo pagamento da d&iacute;vida n&atilde;o consegue exercer a sua fun&ccedil;&atilde;o b&aacute;sica de monop&oacute;lio do uso da for&ccedil;a, pois os agentes que emprega para isso acabam agindo por conta pr&oacute;pria e usando a for&ccedil;a n&atilde;o para fins p&uacute;blicos, mas para seus pr&oacute;prios fins particulares. Tanto as for&ccedil;as armadas como as policiais s&atilde;o sucateadas, sem instala&ccedil;&otilde;es, sem equipamento, sem treinamento, sem forma&ccedil;&atilde;o, sem recursos, com baixos sal&aacute;rios, etc. Dessa forma, os agentes diretamente envolvidos no &ldquo;combate ao crime&rdquo;, os que atuam na linha de frente das periferias, acabam dando seu &ldquo;jeitinho&rdquo; para sobreviver. O Estado praticamente empurra os policiais para as pr&aacute;ticas ilegais. Alguns fazem &ldquo;bicos&rdquo; e servi&ccedil;os &ldquo;por fora&rdquo; em empresas de seguran&ccedil;a (muitas vezes comandadas pelos pr&oacute;prios oficiais e ex-oficiais da pol&iacute;cia) nos dias de folga. Ou o que &eacute; mais grave, fazem acordos com as pr&oacute;prias organiza&ccedil;&otilde;es criminosas, deixando de reprimi-las em troca de uma parte de sua renda. Os peri&oacute;dicos surtos e &ldquo;ondas de viol&ecirc;ncia&rdquo; entre policiais e criminosos em geral se referem a desacordos entre os dois setores sobre a porcentagem que cabe a cada um na reparti&ccedil;&atilde;o dos lucros do tr&aacute;fico. E &eacute; aqui que o crime organizado mais uma vez se revela como parte integrante do pr&oacute;prio sistema capitalista: &eacute; uma empresa em funcionamento; como tal, o que lhe interessa &eacute; o lucro. &Eacute; nesse sentido que o tr&aacute;fico &eacute; um grande neg&oacute;cio do mercado brasileiro. Em casos extremos, como no Rio, grupos de ex-policiais formam &ldquo;mil&iacute;cias&rdquo; que, sob o pretexto de combater o tr&aacute;fico, se tornam elas pr&oacute;prias &ldquo;donas&rdquo; dos morros e extorquem dos moradores em troca dos seus &ldquo;servi&ccedil;os&rdquo;, controlando todos os pequenos neg&oacute;cios legais e ilegais no bairro. Ou seja, o Estado brasileiro n&atilde;o tem controle sobre os seus homens armados, que ao inv&eacute;s de combaterem o crime, tornam-se parte dele. Nesse sentido, por sua vez, o crime organizado termina por instaurar nas regi&otilde;es em que controla um &ldquo;Estado de vi&eacute;s fascista&rdquo;, muito pior do que os Estados de direito oficiais. Para completar, os pol&iacute;ticos e &ldquo;jornalistas&rdquo; que manipulam o medo da popula&ccedil;&atilde;o e advogam &ldquo;mais pol&iacute;cia&rdquo; est&atilde;o defendendo uma esp&eacute;cie de &ldquo;ind&uacute;stria do policiamento&rdquo;, como os coron&eacute;is do nordeste defendiam a &ldquo;ind&uacute;stria da seca&rdquo;, mais um pretexto para transformar determinados territ&oacute;rios em verdadeiros feudos sob controle de homens armados.<br \/>\n    &nbsp;<\/li>\n<li>n&atilde;o s&atilde;o apenas os policiais na linha de frente do &ldquo;combate ao crime&rdquo;, mas tamb&eacute;m as demais institui&ccedil;&otilde;es do Estado, como o judici&aacute;rio, &oacute;rg&atilde;os de fiscaliza&ccedil;&atilde;o, etc., que se associam aos neg&oacute;cios criminosos. Ju&iacute;zes, advogados, promotores, fiscais, gerentes de bancos, etc., todos eles recebem tamb&eacute;m a sua parte da renda do crime. Sem os servi&ccedil;os dessa camada de &ldquo;especialistas&rdquo;, as organiza&ccedil;&otilde;es e lideran&ccedil;as criminosas n&atilde;o teriam como fazer a lavagem do seu dinheiro. Ao mesmo tempo, os canais que permitem a lavagem de dinheiro do crime, como as contas em para&iacute;sos fiscais, n&atilde;o podem jamais ser fechados, pois s&atilde;o os mesmos que os pr&oacute;prios grandes burgueses usam ordinariamente para remeter ilegalmente seu dinheiro para o exterior. O combate efetivo &agrave; lavagem de dinheiro e aos para&iacute;sos fiscais, seja para asfixiar as organiza&ccedil;&otilde;es terroristas, seja para criminosos comuns, jamais ter&aacute; sucesso, pois tratam-se dos mesmos mecanismos usados por pol&iacute;ticos corruptos, grandes empres&aacute;rios que sonegam impostos, banqueiros e investidores, etc. Sem esses mecanismos, tamb&eacute;m ilegais e que movimentam grandes fortunas, o capitalismo n&atilde;o funcionaria para os burgueses individuais, portanto, nenhum Estado nacional ser&aacute; capaz de extingu&iacute;-los (mesmo porque se tratam de redes mundializadas de circula&ccedil;&atilde;o de dinheiro), e eles seguir&atilde;o sendo usados tamb&eacute;m pelas organiza&ccedil;&otilde;es criminosas.<br \/>\n    &nbsp;<\/li>\n<li>a &ldquo;guerra &agrave;s drogas&rdquo; &eacute; uma vers&atilde;o para a Am&eacute;rica Latina daquilo que se pratica no Oriente M&eacute;dio com o nome de &ldquo;guerra ao terror&rdquo;. &Eacute; um pretexto para que o ex&eacute;rcito estadunidense controle pa&iacute;ses como a Col&ocirc;mbia e mais recentemente o M&eacute;xico. Nesses pa&iacute;ses, instalam-se bases militares estadunidenses, de onde as tropas imperialistas podem ter f&aacute;cil acesso &agrave;s riquezas do continente, como petr&oacute;leo, min&eacute;rios, &aacute;gua pot&aacute;vel, biodiversidade, etc. Sob o pretexto da &ldquo;guerra &agrave;s drogas&rdquo;, o que se quer tamb&eacute;m &eacute; controlar os movimentos sociais da regi&atilde;o, que desde o in&iacute;cio da d&eacute;cada passada t&ecirc;m sido uma for&ccedil;a pol&iacute;tica importante.<\/li>\n<\/ul>\n<p><strong>Propostas para a quest&atilde;o da viol&ecirc;ncia<\/strong><\/p>\n<p>\nRetomamos ent&atilde;o a discuss&atilde;o apresentada no in&iacute;cio quando indicamos que o simples aumento do policiamento n&atilde;o ir&aacute; resolver o problema do crime e da viol&ecirc;ncia. No caso brasileiro, o limite a que se pode chegar com essa pol&iacute;tica de mais policiamento &eacute; um estado de terror nas periferias, sob controle de agentes policiais extremamente violentos (e nem por isso menos corruptos, nem menos associados ao crime), que transmitam uma falsa sensa&ccedil;&atilde;o de &ldquo;tranquilidade&rdquo; e &ldquo;paz social&rdquo; por ocais&atilde;o dos megaeventos esportivos.<\/p>\n<p>Os aspectos que levantamos acima em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s m&uacute;ltiplas dimens&otilde;es do problema social do crime e da viol&ecirc;ncia colocam como solu&ccedil;&otilde;es correspondentes as seguintes propostas:<br \/>\n<strong><br \/>\n&#8211; emprego, moradia e servi&ccedil;os p&uacute;blicos para todos os trabalhadores;<br \/>\n&#8211; educa&ccedil;&atilde;o, cultura e lazer para a juventude em todos os bairros;<br \/>\n&#8211; redu&ccedil;&atilde;o de danos para dependentes e drogas, com narcossalas, fornecimento de seringas, etc; por tratamento humanizado, fim da interna&ccedil;&atilde;o compuls&oacute;ria;<br \/>\n&#8211; humaniza&ccedil;&atilde;o do sistema penal em geral sob o controle do Estado, com a constru&ccedil;&atilde;o de novas unidades e a contrata&ccedil;&atilde;o de pessoal at&eacute; dar fim &agrave; superlota&ccedil;&atilde;o dos pres&iacute;dios, aos maus tratos e &agrave; corrup&ccedil;&atilde;o dos agentes carcer&aacute;rios;<br \/>\n&#8211; combate &agrave; corrup&ccedil;&atilde;o policial e judicial, julgamento de policiais em tribunais civis, expuls&atilde;o e pris&atilde;o de todos os corruptos e confisco de seus bens;<br \/>\n&#8211; desmilitariza&ccedil;&atilde;o da PM, unifica&ccedil;&atilde;o das pol&iacute;cias em uma &uacute;nica corpora&ccedil;&atilde;o civil, com direito de sindicaliza&ccedil;&atilde;o e elei&ccedil;&atilde;o dos comandantes e sob controle democr&aacute;tico da popula&ccedil;&atilde;o dos bairros;<br \/>\n&#8211; fim da lavagem de dinheiro e repatria&ccedil;&atilde;o de todo dinheiro remetido ilegalmente para o exterior;<br \/>\n&#8211; campanha contra a repress&atilde;o aos movimentos sociais, pelo direito de greve e de manifesta&ccedil;&atilde;o;<br \/>\n&#8211; campanha permanente de esclarecimento dos malef&iacute;cios causados pelo uso abusivo das drogas em geral.<br \/>\n<\/strong><br \/>\nBoa parte dessas medidas exigir&atilde;o uma luta contra a l&oacute;gica do sistema capitalista como um todo, conforme assinalamos acima. Para gerar emprego, moradia e servi&ccedil;os p&uacute;blicos de qualidade para todos, seria preciso, por exemplo, inverter a prioridade do or&ccedil;amento p&uacute;blico, que hoje est&aacute; comprometido em cerca de 50% com o pagamento de juros da d&iacute;vida p&uacute;blica aos banqueiros e especuladores. Para obter o n&atilde;o pagamento dos juros, por sua vez, seria preciso enfrentar um dos setores mais poderosos do capitalismo brasileiro e mundial, o mercado financeiro. Seria preciso desenvolver uma luta contra o Estado e suas atuais institui&ccedil;&otilde;es, no contexto de uma luta que acabaria inevitavelmente se colocando contra o capitalismo e projetando a constru&ccedil;&atilde;o do socialismo. O mesmo se aplica a v&aacute;rias das demais medidas, que devem ser compreendias como parte de um programa anticapitalista e socialista.<\/p>\n<p>Para finalizar, por falar em banqueiros, como dizia Brecht, &ldquo;o que &eacute; o crime de roubar um banco comparado ao de fundar um?&rdquo;<\/p>\n<p><span style=\"background-color: rgb(255, 255, 255); font-size: 13.63636302947998px; text-align: justify;\">Espa&ccedil;o Socialista, Novembro de 2012<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":995,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/375"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=375"}],"version-history":[{"count":9,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/375\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1492,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/375\/revisions\/1492"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/995"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=375"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=375"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=375"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}