{"id":3752,"date":"2015-02-28T09:01:17","date_gmt":"2015-02-28T12:01:17","guid":{"rendered":"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/?p=3752"},"modified":"2018-05-04T21:45:21","modified_gmt":"2018-05-05T00:45:21","slug":"as-idas-e-wandas-da-historia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/2015\/02\/as-idas-e-wandas-da-historia\/","title":{"rendered":"As Idas e Wandas da hist\u00f3ria"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/idas-e-wandas.jpg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-3753\" src=\"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/idas-e-wandas.jpg\" alt=\"idas e wandas\" width=\"1024\" height=\"576\" srcset=\"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/idas-e-wandas.jpg 1024w, https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/idas-e-wandas-300x168.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Coment\u00e1rio sobre o filme &#8220;Ida&#8221;, vencedor do Oscar de filme estrangeiro. Por Daniel M. Delfino<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O filme polon\u00eas &#8220;Ida&#8221; est\u00e1 ambientado na d\u00e9cada de 1960, portanto cerca de duas d\u00e9cadas depois do fim da II Guerra, em que a Pol\u00f4nia serviu como palco para a maior parte do Holocausto judeu. O filme mostra uma jovem novi\u00e7a (chamada Ida) que, \u00e0s v\u00e9speras de proferir seus votos no convento em que foi criada como \u00f3rf\u00e3, recebe a not\u00edcia de que possui uma tia ainda viva, e junto com a not\u00edcia, a ordem da madre superiora de que v\u00e1 visit\u00e1-la A tia, uma ju\u00edza chamada Wanda Gruz, lhe revela a sua origem judia e a leva para sua cidade natal, para que visite o t\u00famulo dos pais e saiba como morreram. A tia na verdade sempre soube da exist\u00eancia da sobrinha, mas somente neste momento resolveu lhe contar a verdade, porque parece ser o momento em que resolveu tamb\u00e9m acertar as contas com o pr\u00f3prio passado. Nesse passado se esconde a tristeza de ter um filho morto ainda crian\u00e7a (juntamente com os pais de Ida).<br \/>\nA personagem Ida, teoricamente a protagonista, \u00e9 o que h\u00e1 de menos interessante no filme, porque ela pr\u00f3pria n\u00e3o se interessa por nada, e se comporta como uma mera espectadora dos acontecimentos. A revela\u00e7\u00e3o de sua origem judia n\u00e3o lhe provoca nenhuma como\u00e7\u00e3o ou impacto. Em nenhum momento ela cogita em conhecer o passado de sua fam\u00edlia e de seu povo. O drama do Holocausto parece ter acontecido em outro planeta. Ida est\u00e1 desconectada da hist\u00f3ria, e mesmo da hist\u00f3ria recente. Nem a hist\u00f3ria dos judeus na Pol\u00f4nia, nem o discurso ateu da tia, nem a sedu\u00e7\u00e3o da vida fora do convento, seus prazeres, seus amores e suas dores, repetimos, nada lhe interessa al\u00e9m da f\u00e1bula da religi\u00e3o. Ida \u00e9 imperme\u00e1vel, parece bem adaptada ao t\u00e9dio do convento, onde o sil\u00eancio s\u00f3 \u00e9 quebrado pelo som dos garfos tilintando nos pratos na hora das refei\u00e7\u00f5es. No convento tudo \u00e9 decidido pelos superiores e j\u00e1 vem pronto, sem requerer envolvimento existencial.<br \/>\nA atitude de Ida em face da hist\u00f3ria do pa\u00eds e seu entrela\u00e7amento com sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria pessoal \u00e9 bastante semelhante \u00e0quela caracter\u00edstica dos dias atuais, que tamb\u00e9m parecem desconectados da hist\u00f3ria. As grandes quest\u00f5es humanas, os conflitos pol\u00edticos, as guerras e revolu\u00e7\u00f5es, parece que nada disso faz algum sentido ou tem explica\u00e7\u00e3o. O sentido da trag\u00e9dia que se abateu sobre o pa\u00eds, onde foi executado o maior n\u00famero de judeus pelos nazistas (basta lembrar que o mais infame dos campos de concentra\u00e7\u00e3o, Auschwitz, fica na Pol\u00f4nia), a luta para se libertar do invasor alem\u00e3o, a ocupa\u00e7\u00e3o pelo Ex\u00e9rcito Vermelho e a instala\u00e7\u00e3o da chamada \u201cdemocracia popular\u201d, s\u00e3o um pano de fundo t\u00e3o distante que n\u00e3o aparece e n\u00e3o \u00e9 questionado no filme. Os personagens s\u00e3o jogados de um lado para o outro pelos acontecimentos, \u00e9 assim que a mentalidade p\u00f3s-moderna do s\u00e9culo XXI os v\u00ea. Tudo n\u00e3o passa de idas e vindas aleat\u00f3rias, o contexto hist\u00f3rico parece indiferente, e \u00e9 assim que a pr\u00f3pria Ida v\u00ea a sua hist\u00f3ria pessoal.<br \/>\nA n\u00e3o ser por algumas refer\u00eancias e formas de tratamento, como o uso do termo &#8220;camarada&#8221;, o espectador n\u00e3o tem no\u00e7\u00e3o de que a Pol\u00f4nia foi durante algumas d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX um dos chamados pa\u00edses &#8220;socialistas&#8221;. O modo de vida das personagens, que passeiam, se hospedam em um hotel, v\u00e3o a um sal\u00e3o de baile, onde uma banda toca John Coltrane, novidade \u201ccult\u201d da \u00e9poca, parece id\u00eantico ao de qualquer outro pa\u00eds, capitalista ou n\u00e3o. O r\u00e1pido flerte de Ida com o saxofonista da banda parece n\u00e3o avan\u00e7ar porque ele n\u00e3o tem nada de diferente a lhe oferecer a n\u00e3o ser, como ele mesmo diz, um casamento, uma casa, um c\u00e3o, filhos, a &#8220;vida&#8221;, tal como ela \u00e9 vivida em qualquer parte.<br \/>\nO verdadeiro interesse do filme esta na tia de Ida, a ju\u00edza Wanda Gruz. O movimento que desencadeia os acontecimentos da narrativa parte de sua iniciativa, quando resolve se dar a conhecer \u00e0 sobrinha. Esse passo deve ser entendido na verdade como parte de um movimento mais geral de busca de seu pr\u00f3prio passado, como dissemos. Esse movimento, e o pr\u00f3prio filme, na verdade n\u00e3o t\u00eam um final feliz. E a \u00fanica forma de entend\u00ea-lo, e entender a profundidade dram\u00e1tica do filme, \u00e9 recorrendo \u00e0 hist\u00f3ria, ou seja, \u00e0 luta de classes.<br \/>\nAs sinopses e o pr\u00f3prio aparato publicit\u00e1rio de divulga\u00e7\u00e3o comercial do filme v\u00e3o citar suas apuradas qualidades est\u00e9ticas, a bela fotografia em preto e branco, o uso peculiar da m\u00fasica e do sil\u00eancio (os personagens ouvem muita m\u00fasica &#8211; jazz, pop, erudita &#8211; mas n\u00e3o h\u00e1 quase trilha sonora), etc. E foi provavelmente em fun\u00e7\u00e3o dessas qualidades est\u00e9ticas que o filme foi premiado com o Oscar para produ\u00e7\u00f5es em l\u00edngua n\u00e3o inglesa. Mas esse modo de apresentar o filme, tipicamente p\u00f3s moderno, n\u00e3o permitir\u00e1 entender o seu sentido profundo, as motiva\u00e7\u00f5es da personagem Wanda e as raz\u00f5es do seu fracasso.<br \/>\nEm certo momento a tia de Ida se refere a si mesma no passado como &#8220;Wanda, a vermelha&#8221;, pelo que deduzimos que ela foi uma militante bastante ativa na juventude. Depois ficamos sabendo que ela teve um filho, a quem abandonou (e que acabaria sendo morto junto com os pais de Ida) para se engajar na guerra contra os nazistas. O tom com o qual ela se refere ao seu passado vermelho \u00e9 de um certo deboche, como se a sua \u00e9poca de \u201cvermelhid\u00e3o\u201d ardente fosse uma \u00e9poca de ingenuidade. Daquele passado militante ela manteve as caracter\u00edsticas de uma mulher forte, dura, que toma iniciativa em tudo, mant\u00e9m o controle em qualquer situa\u00e7\u00e3o, caracter\u00edsticas que ela emprega em sua fun\u00e7\u00e3o de ju\u00edza. Entretanto, apesar dessa for\u00e7a aparente, no geral Wanda parece uma mulher amargurada e at\u00e9 arrependida. O retrato da mulher militante acaba sendo desfavor\u00e1vel, como algu\u00e9m que afoga as frustra\u00e7\u00f5es no alcoolismo e no sexo casual, sem muito prop\u00f3sito.<br \/>\nEssa \u00e9 a conclus\u00e3o que pode surgir sobre Wanda, mas a verdade profunda \u00e9 outra. Wanda foi uma militante que dedicou a sua juventude a uma revolu\u00e7\u00e3o socialista. Mas o que houve na Pol\u00f4nia n\u00e3o foi uma revolu\u00e7\u00e3o, e sim a liberta\u00e7\u00e3o do pa\u00eds da ocupa\u00e7\u00e3o nazista pelo Ex\u00e9rcito Vermelho sovi\u00e9tico, contando com o apoio de militantes locais. O Ex\u00e9rcito Vermelho imp\u00f4s de fora para dentro e de cima para baixo um regime politico chamado &#8220;socialista&#8221;, que expropriou a burguesia, mas que n\u00e3o colocou a produ\u00e7\u00e3o e as demais rela\u00e7\u00f5es sociais sob controle da classe trabalhadora, e sim da burocracia do partido comunista polon\u00eas, sat\u00e9lite do governo sovi\u00e9tico. Ou seja, o regime existente na Pol\u00f4nia (e em todo o leste europeu onde o processo se reproduziu), como o da pr\u00f3pria URSS, n\u00e3o era de fato socialista, e sim o resultado de uma transi\u00e7\u00e3o interrompida. Rompeu-se com o capitalismo, mas estacionou-se num ponto intermedi\u00e1rio, que n\u00e3o tinha para onde avan\u00e7ar, e ao final retrocedeu para a restaura\u00e7\u00e3o capitalista. O determinante para o fracasso dessa transi\u00e7\u00e3o foi a falta de organismos de poder pr\u00f3prios da classe trabalhadora, onde os produtores associados exercessem direta e conscientemente o poder pol\u00edtico e o econ\u00f4mico simultaneamente.<br \/>\nNa falta desses elementos para uma transi\u00e7\u00e3o ao socialismo, os frutos da expropria\u00e7\u00e3o da burguesia foram colhidos pela burocracia \u201ccomunista\u201d, que estabeleceu uma forma de explora\u00e7\u00e3o sobre os trabalhadores em benef\u00edcio pr\u00f3prio. Essa forma bastarda de sistema econ\u00f4mico emperrou na sua pr\u00f3pria inefici\u00eancia burocr\u00e1tica, na incapacidade de melhorar a vida dos trabalhadores e assim contar com sua ades\u00e3o, e na impossibilidade de se subtrair \u00e0 concorr\u00eancia do mercado mundial e \u00e0 vig\u00eancia da lei do valor. Essas formas de transi\u00e7\u00e3o interrompidas n\u00e3o tinham condi\u00e7\u00f5es de se perpetuar e naufragaram d\u00e9cadas depois dos acontecimentos do filme, entre 1989 e 1991.<br \/>\nWanda Gruz era uma dessas burocratas, exerceu o cargo de promotora, tornou-se ju\u00edza, mas experimentava um sensa\u00e7\u00e3o profunda de t\u00e9dio e vazio com sua fun\u00e7\u00e3o. N\u00f3s a presenciamos julgando causas insignificantes, picuinhas, perseguindo antigos opositores (como um r\u00e9u contra o qual pesava a evid\u00eancia condenat\u00f3ria de haver herdado do av\u00f4 uma rel\u00edquia da legi\u00e3o do general Pilsudski). Isso \u00e9 muito pouco para quem foi \u201cvermelha\u201d na juventude. Com a fun\u00e7\u00e3o que tinha, Wanda levava uma vida confort\u00e1vel, num pa\u00eds estacionado mediocremente acima da pobreza, mas isso n\u00e3o lhe trazia consolo. Reencontrar a sobrinha, confrontar o passado, a morte dos pais dela e de seu pr\u00f3prio filho, tirar Ida do convento e lhe apresentar o ate\u00edsmo e a liberdade sexual, nada disso acabou trazendo um novo sentido para a vida de Wanda, por isso, como dissemos, n\u00e3o temos um final feliz.<br \/>\nFelizmente, a hist\u00f3ria n\u00e3o acabou (ao contr\u00e1rio do que dizem os apologetas vulgares do capitalismo), a revolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o morreu, a luta de classes continua, a emancipa\u00e7\u00e3o humana ainda est\u00e1 no horizonte, e temos que avan\u00e7ar para o socialismo, para n\u00e3o cair na barb\u00e1rie. Ou nos conectamos com a hist\u00f3ria e aprendemos com ela para mudar o presente, ou n\u00e3o teremos futuro. O limbo cinzento da p\u00f3s modernidade, da impermeabilidade e de pessoas indiferentes, dar\u00e1 lugar ao vermelho vivo de novas Wandas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Coment\u00e1rio sobre o filme &#8220;Ida&#8221;, vencedor do Oscar de filme estrangeiro. Por Daniel M. 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