{"id":376,"date":"2012-12-19T03:56:44","date_gmt":"2012-12-19T05:56:44","guid":{"rendered":"http:\/\/espacosocialista.org\/?q=node\/376"},"modified":"2018-05-04T21:37:08","modified_gmt":"2018-05-05T00:37:08","slug":"contribuicao-individual-13","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/2012\/12\/contribuicao-individual-13\/","title":{"rendered":"Brev\u00edssimo coment\u00e1rio sobre a quest\u00e3o das drogas &#8211; Daniel Delfino"},"content":{"rendered":"<h4 class=\"rteleft\"><span style=\"font-size: 14px; line-height: 20px; background-color: #ffffff;\">\u00a0<\/span><span style=\"font-size: 14px; background-color: #ffffff; color: #333333;\">\u00a0<\/span><b style=\"font-size: 14px; background-color: #ffffff; line-height: 20px; color: #333333;\"><span class=\"ecxApple-style-span\" style=\"font-size: 14px;\"><b style=\"font-size: 14px;\"><span class=\"ecxApple-style-span\" style=\"font-size: 14px; font-family: Garamond,serif;\"><span class=\"ecxApple-style-span\" style=\"font-size: 14px;\">Este texto \u00e9 uma contribui\u00e7\u00e3o individual,\u00a0<\/span><span class=\"ecxApple-style-span\" style=\"font-size: 14px;\">n\u00e3o necessariamente expressa a opini\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o e por este motivo se apresenta assinado por seu autor.<\/span><\/span><\/b><\/span><\/b><strong><br \/>\n<\/strong><\/h4>\n<p class=\"rteright\"><strong><span style=\"font-size: 11pt; color: red; text-transform: uppercase;\">BREV\u00cdSSIMO COMENT\u00c1RIO SOBRE A QUEST\u00c3O DAS DROGAS<br \/>\n<\/span><\/strong>Daniel Delfino<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A recente \u201conda de viol\u00eancia\u201d em S\u00e3o Paulo (ver o texto \u201c<a href=\"http:\/\/espacosocialista.org\/node\/375\">Na guerra entre a pol\u00edcia e o crime organizado o alvo s\u00e3o os trabalhadores\u201d<\/a>) trouxe novamente \u00e0 discuss\u00e3o a quest\u00e3o das drogas. Afinal, o tr\u00e1fico de drogas \u00e9 o principal nicho de atividade das organiza\u00e7\u00f5es criminosas, aquele que obt\u00e9m mais lucro e do qual derivam os demais (tr\u00e1fico de armas, que por sua vez alimenta os assaltos a m\u00e3o armada, sequestros, etc.). O tr\u00e1fico de drogas \u00e9 praticamente sin\u00f4nimo de crime organizado e de viol\u00eancia, essas express\u00f5es s\u00e3o em geral intercambi\u00e1veis. Ou ainda, fala-se simplesmente em \u201cproblema das drogas\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ora, as drogas n\u00e3o representam um problema e sim dois: primeiro o uso de drogas em si e os malef\u00edcios a ele associados, entre os quais a depend\u00eancia; e segundo, os crimes de viol\u00eancia associados ao fato de que as drogas s\u00e3o proibidas, praticados pelas organiza\u00e7\u00f5es do com\u00e9rcio ilegal de drogas e pelas for\u00e7as policiais encarregadas da sua repress\u00e3o (e que na verdade disputam parte do seu lucro). \u00c9 preciso separar as duas dimens\u00f5es do problema. Pois se o com\u00e9rcio de drogas n\u00e3o fosse proibido, existiria apenas o primeiro problema e n\u00e3o o segundo. A proibi\u00e7\u00e3o das drogas, como uma pol\u00edtica de Estado destinada a lidar com o primeiro problema (o uso de drogas e a depend\u00eancia), n\u00e3o resolve esse problema, e acaba criando outro, os crimes de viol\u00eancia associados ao tr\u00e1fico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A descriminaliza\u00e7\u00e3o do uso de drogas n\u00e3o acabaria de uma vez por todas com todo tipo de crime, pois como vimos no texto citado acima, continuaria havendo a mis\u00e9ria provocada pelo capitalismo, que \u00e9 a causa fundamental da pr\u00e1tica de crimes. Entretanto, \u00e9 muito razo\u00e1vel supor que o crime diminuiria bastante. A atual situa\u00e7\u00e3o de proibi\u00e7\u00e3o das drogas gera muito mais preju\u00edzos sociais do que a eventual descriminaliza\u00e7\u00e3o. A viol\u00eancia provocada pela guerra das organiza\u00e7\u00f5es do tr\u00e1fico com a pol\u00edcia e pela guerra dessas organiza\u00e7\u00f5es entre si representa uma forma de opress\u00e3o que castiga cotidianamente principalmente as popula\u00e7\u00f5es das periferias. Diariamente acontecem dezenas de mortes nesses confrontos, seja pelas armas de policiais ou de organiza\u00e7\u00f5es do tr\u00e1fico. Esse n\u00famero de mortes, compar\u00e1vel ao de pa\u00edses em situa\u00e7\u00e3o de conflagra\u00e7\u00e3o, s\u00f3 se torna socialmente toler\u00e1vel porque se trata de mortos das classes subalternas, que s\u00e3o tratados pela m\u00eddia como meras estat\u00edsticas. A ideologia dos meios de comunica\u00e7\u00e3o s\u00f3 trata como v\u00edtimas os brancos e pessoas de classe m\u00e9dia para cima. Esse n\u00famero inaceit\u00e1vel de mortes tenderia a diminuir enormemente se as drogas passassem a ser comercializadas legalmente. Se empresas que operam dentro da lei passassem a vender drogas, diminuiria a necessidade dos usu\u00e1rios de recorrer a comerciantes ilegais. O tr\u00e1fico deixaria de ser lucrativo e de recrutar seus soldados e \u201cavi\u00f5ezinhos&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O pressuposto de que estamos partindo \u00e9 de que \u00e9 imposs\u00edvel impedir que as pessoas usem drogas, o m\u00e1ximo que se pode fazer \u00e9 reduzir os danos que as drogas provocam. A militariza\u00e7\u00e3o da quest\u00e3o das drogas, baseada numa ideologia proibicionista, \u00e9 uma pol\u00edtica que j\u00e1 se provou fracassada. Ao longo da hist\u00f3ria da humanidade praticamente todas as sociedades fizeram uso de subst\u00e2ncias que alteram o estado de consci\u00eancia, seja para fins de rituais religiosos, seja para a simples obten\u00e7\u00e3o de prazer. Apenas no s\u00e9culo XX algumas drogas foram proscritas na maioria dos pa\u00edses, como maconha, \u00f3pio e coca\u00edna, enquanto outras permaneceram sendo consideradas legais, como o \u00e1lcool e o tabaco. A maior parte dessa proibi\u00e7\u00e3o partiu dos Estados Unidos, por motivos pol\u00edticos, seja para reprimir os trabalhadores de origem mexicana, seja para reprimir os movimentos contra a guerra do Vietn\u00e3, seja para vigiar os pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina. De modo geral, a proibi\u00e7\u00e3o do uso de drogas \u00e9 refor\u00e7ada pelas religi\u00f5es, que de resto querem reprimir toda forma de prazer, como fazem em rela\u00e7\u00e3o ao sexo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A proibi\u00e7\u00e3o do consumo de drogas obedece a crit\u00e9rios pol\u00edticos, n\u00e3o t\u00e9cnicos. Ainda que o consumo de qualquer droga tenha efeitos potencialmente nocivos para o usu\u00e1rio, a decis\u00e3o de us\u00e1-las ou n\u00e3o deve permanecer sendo uma escolha do indiv\u00edduo, n\u00e3o do Estado. Nos casos em que o usu\u00e1rio causa preju\u00edzos a terceiros, como o motorista embriagado, ou como o dependente qu\u00edmico que rouba para alimentar seu v\u00edcio, esse usu\u00e1rio deve ser devidamente responsabilizado pelas a\u00e7\u00f5es que cometeu, n\u00e3o pelo consumo de drogas em si. Esses casos devem ser vistos com a dimens\u00e3o que realmente t\u00eam, de uma minoria. Nem todo usu\u00e1rio de drogas se torna um viciado, assim como nem todo usu\u00e1rio de \u00e1lcool se torna um alco\u00f3latra. N\u00e3o se pode confundir uso de drogas com abuso, n\u00e3o se pode confundir usu\u00e1rio com viciado (ainda que algumas drogas tenham maior poder de provocar depend\u00eancia). E acima de tudo, n\u00e3o se pode atribuir ao Estado o poder de legislar sobre o que os indiv\u00edduos fazem para obter prazer para si.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para reduzir os danos provocados pelo uso de drogas, \u00e9 preciso construir uma estrutura adequada dentro do sistema de sa\u00fade para tratar desse problema. Al\u00e9m de descriminalizar as drogas hoje proibidas, seria preciso criar uma taxa\u00e7\u00e3o sobre elas, e tamb\u00e9m sobre as drogas que hoje s\u00e3o legalizadas. Os recursos dessa taxa\u00e7\u00e3o seriam usados para financiar o tratamento do primeiro problema mencionado acima, ou seja, os malef\u00edcios causados pela droga. As drogas atualmente legalizadas, como \u00e1lcool e o tabaco tamb\u00e9m s\u00e3o socialmente muito destrutivas. Basta lembrar a quantidade de casos de c\u00e2ncer e outros problemas de sa\u00fade causados pelo cigarro, ou a quantidade de acidentes automobil\u00edsticos, com mortes, ferimentos e preju\u00edzos provocados pelo consumo de \u00e1lcool, ou ainda, os casos de viol\u00eancia dom\u00e9stica causados por embriaguez, etc. As ind\u00fastrias de \u00e1lcool e tabaco deveriam ser pesadamente taxadas de modo a financiar o tratamento dos problemas diretamente relacionados ao uso de seus produtos. A mesma abordagem deveria ser empregada para todo tipo de droga, tanto \u00e1lcool e tabaco quanto maconha, coca\u00edna, etc.: a taxa\u00e7\u00e3o sobre os usu\u00e1rios deve financiar o tratamento dos dependentes. Evidentemente, existem casos extremos de drogas que n\u00e3o s\u00e3o pass\u00edveis de qualquer uso recreativo, como o crack, totalmente destrutivas. Para esses casos especiais, o sistema de sa\u00fade teria que ter uma abordagem especial (que n\u00e3o se confunde com a interna\u00e7\u00e3o compuls\u00f3ria hoje sendo aplicada, que n\u00e3o passa de uma medida de higieniza\u00e7\u00e3o social e legitima\u00e7\u00e3o do autoritarismo e da militariza\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para finalizar, \u00e9 preciso ir \u00e0 raiz primordial do problema e considerar o fato de que muitos usu\u00e1rios, seja de drogas hoje consideradas legais ou ilegais, somente se tornam viciados porque o consumo da droga acaba sendo uma forma de escapar da mis\u00e9ria subjetiva da sociedade capitalista. N\u00e3o \u00e9 apenas a mis\u00e9ria material que causa sofrimento, mas tamb\u00e9m a mis\u00e9ria espiritual, a falta de sentido, de realiza\u00e7\u00e3o, de humanidade, de rela\u00e7\u00f5es plenas, num mundo baseado na l\u00f3gica da competi\u00e7\u00e3o e da mercadoria. O uso de drogas muitas vezes \u00e9 o ref\u00fagio contra essa realidade b\u00e1rbara. N\u00e1 h\u00e1 campanha educativa ou restri\u00e7\u00e3o \u00e0 publicidade que possam fazer com que as pessoas deixem de buscar al\u00edvio em drogas, nos momentos em que a mis\u00e9ria existencial da vida alienada sob o capitalismo assola nossas individualidades estranhadas. Apenas o fim do capitalismo, da explora\u00e7\u00e3o e do trabalho alienado permitir\u00e1 a constru\u00e7\u00e3o de rela\u00e7\u00f5es humanas livres e um uso humano do tempo. Consequentemente, o uso de drogas (assim como os casos de loucura, os crimes, etc.) passar\u00e1 a ser um fen\u00f4meno minorit\u00e1rio, residual. E mesmo que as drogas continuem sendo usadas, esse uso n\u00e3o ter\u00e1 o mesmo conte\u00fado dram\u00e1tico que tem hoje, de al\u00edvio existencial, restando apenas o seu aspecto recreativo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<h4 class=\"rteleft\"><span style=\"font-size: 14px; line-height: 20px; background-color: rgb(255, 255, 255); \">&nbsp;<\/span><span style=\"font-size: 14px; background-color: rgb(255, 255, 255); color: rgb(51, 51, 51); \">&nbsp;<\/span><b style=\"font-size: 14px; background-color: rgb(255, 255, 255); line-height: 20px; color: rgb(51, 51, 51); \"><span class=\"ecxApple-style-span\" style=\"font-size: 14px; \"><b style=\"font-size: 14px; \"><font class=\"ecxApple-style-span\" face=\"Garamond, serif\" style=\"font-size: 14px; \"><span class=\"ecxApple-style-span\" style=\"font-size: 14px; \">Este texto &eacute; uma contribui&ccedil;&atilde;o individual,&nbsp;<\/span><span class=\"ecxApple-style-span\" style=\"font-size: 14px; \">n&atilde;o necessariamente expressa a opini&atilde;o da organiza&ccedil;&atilde;o e por este motivo se apresenta assinado por seu autor.<\/span><\/font><\/b><\/span><\/b><strong><br \/>\n<\/strong><\/h4>\n<p class=\"rteright\"><strong><span style=\"font-size: 11pt; color: red; text-transform: uppercase; \">BREV&Iacute;SSIMO COMENT&Aacute;RIO SOBRE A QUEST&Atilde;O DAS DROGAS<br \/>\n<\/span><\/strong>Daniel Delfino<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A recente &ldquo;onda de viol&ecirc;ncia&rdquo; em S&atilde;o Paulo (ver o texto &ldquo;<a href=\"http:\/\/espacosocialista.org\/node\/375\">Na guerra entre a pol&iacute;cia e o crime organizado o alvo s&atilde;o os trabalhadores&rdquo;<\/a>) trouxe novamente &agrave; discuss&atilde;o a quest&atilde;o das drogas. Afinal, o tr&aacute;fico de drogas &eacute; o principal nicho de atividade das organiza&ccedil;&otilde;es criminosas, aquele que obt&eacute;m mais lucro e do qual derivam os demais (tr&aacute;fico de armas, que por sua vez alimenta os assaltos a m&atilde;o armada, sequestros, etc.). O tr&aacute;fico de drogas &eacute; praticamente sin&ocirc;nimo de crime organizado e de viol&ecirc;ncia, essas express&otilde;es s&atilde;o em geral intercambi&aacute;veis. Ou ainda, fala-se simplesmente em &ldquo;problema das drogas&rdquo;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ora, as drogas n&atilde;o representam um problema e sim dois: primeiro o uso de drogas em si e os malef&iacute;cios a ele associados, entre os quais a depend&ecirc;ncia; e segundo, os crimes de viol&ecirc;ncia associados ao fato de que as drogas s&atilde;o proibidas, praticados pelas organiza&ccedil;&otilde;es do com&eacute;rcio ilegal de drogas e pelas for&ccedil;as policiais encarregadas da sua repress&atilde;o (e que na verdade disputam parte do seu lucro). &Eacute; preciso separar as duas dimens&otilde;es do problema. Pois se o com&eacute;rcio de drogas n&atilde;o fosse proibido, existiria apenas o primeiro problema e n&atilde;o o segundo. A proibi&ccedil;&atilde;o das drogas, como uma pol&iacute;tica de Estado destinada a lidar com o primeiro problema (o uso de drogas e a depend&ecirc;ncia), n&atilde;o resolve esse problema, e acaba criando outro, os crimes de viol&ecirc;ncia associados ao tr&aacute;fico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A descriminaliza&ccedil;&atilde;o do uso de drogas n&atilde;o acabaria de uma vez por todas com todo tipo de crime, pois como vimos no texto citado acima, continuaria havendo a mis&eacute;ria provocada pelo capitalismo, que &eacute; a causa fundamental da pr&aacute;tica de crimes. Entretanto, &eacute; muito razo&aacute;vel supor que o crime diminuiria bastante. A atual situa&ccedil;&atilde;o de proibi&ccedil;&atilde;o das drogas gera muito mais preju&iacute;zos sociais do que a eventual descriminaliza&ccedil;&atilde;o. A viol&ecirc;ncia provocada pela guerra das organiza&ccedil;&otilde;es do tr&aacute;fico com a pol&iacute;cia e pela guerra dessas organiza&ccedil;&otilde;es entre si representa uma forma de opress&atilde;o que castiga cotidianamente principalmente as popula&ccedil;&otilde;es das periferias. Diariamente acontecem dezenas de mortes nesses confrontos, seja pelas armas de policiais ou de organiza&ccedil;&otilde;es do tr&aacute;fico. Esse n&uacute;mero de mortes, compar&aacute;vel ao de pa&iacute;ses em situa&ccedil;&atilde;o de conflagra&ccedil;&atilde;o, s&oacute; se torna socialmente toler&aacute;vel porque se trata de mortos das classes subalternas, que s&atilde;o tratados pela m&iacute;dia como meras estat&iacute;sticas. A ideologia dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o s&oacute; trata como v&iacute;timas os brancos e pessoas de classe m&eacute;dia para cima. Esse n&uacute;mero inaceit&aacute;vel de mortes tenderia a diminuir enormemente se as drogas passassem a ser comercializadas legalmente. Se empresas que operam dentro da lei passassem a vender drogas, diminuiria a necessidade dos usu&aacute;rios de recorrer a comerciantes ilegais. O tr&aacute;fico deixaria de ser lucrativo e de recrutar seus soldados e &ldquo;avi&otilde;ezinhos&quot;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O pressuposto de que estamos partindo &eacute; de que &eacute; imposs&iacute;vel impedir que as pessoas usem drogas, o m&aacute;ximo que se pode fazer &eacute; reduzir os danos que as drogas provocam. A militariza&ccedil;&atilde;o da quest&atilde;o das drogas, baseada numa ideologia proibicionista, &eacute; uma pol&iacute;tica que j&aacute; se provou fracassada. Ao longo da hist&oacute;ria da humanidade praticamente todas as sociedades fizeram uso de subst&acirc;ncias que alteram o estado de consci&ecirc;ncia, seja para fins de rituais religiosos, seja para a simples obten&ccedil;&atilde;o de prazer. Apenas no s&eacute;culo XX algumas drogas foram proscritas na maioria dos pa&iacute;ses, como maconha, &oacute;pio e coca&iacute;na, enquanto outras permaneceram sendo consideradas legais, como o &aacute;lcool e o tabaco. A maior parte dessa proibi&ccedil;&atilde;o partiu dos Estados Unidos, por motivos pol&iacute;ticos, seja para reprimir os trabalhadores de origem mexicana, seja para reprimir os movimentos contra a guerra do Vietn&atilde;, seja para vigiar os pa&iacute;ses da Am&eacute;rica Latina. De modo geral, a proibi&ccedil;&atilde;o do uso de drogas &eacute; refor&ccedil;ada pelas religi&otilde;es, que de resto querem reprimir toda forma de prazer, como fazem em rela&ccedil;&atilde;o ao sexo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A proibi&ccedil;&atilde;o do consumo de drogas obedece a crit&eacute;rios pol&iacute;ticos, n&atilde;o t&eacute;cnicos. Ainda que o consumo de qualquer droga tenha efeitos potencialmente nocivos para o usu&aacute;rio, a decis&atilde;o de us&aacute;-las ou n&atilde;o deve permanecer sendo uma escolha do indiv&iacute;duo, n&atilde;o do Estado. Nos casos em que o usu&aacute;rio causa preju&iacute;zos a terceiros, como o motorista embriagado, ou como o dependente qu&iacute;mico que rouba para alimentar seu v&iacute;cio, esse usu&aacute;rio deve ser devidamente responsabilizado pelas a&ccedil;&otilde;es que cometeu, n&atilde;o pelo consumo de drogas em si. Esses casos devem ser vistos com a dimens&atilde;o que realmente t&ecirc;m, de uma minoria. Nem todo usu&aacute;rio de drogas se torna um viciado, assim como nem todo usu&aacute;rio de &aacute;lcool se torna um alco&oacute;latra. N&atilde;o se pode confundir uso de drogas com abuso, n&atilde;o se pode confundir usu&aacute;rio com viciado (ainda que algumas drogas tenham maior poder de provocar depend&ecirc;ncia). E acima de tudo, n&atilde;o se pode atribuir ao Estado o poder de legislar sobre o que os indiv&iacute;duos fazem para obter prazer para si.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para reduzir os danos provocados pelo uso de drogas, &eacute; preciso construir uma estrutura adequada dentro do sistema de sa&uacute;de para tratar desse problema. Al&eacute;m de descriminalizar as drogas hoje proibidas, seria preciso criar uma taxa&ccedil;&atilde;o sobre elas, e tamb&eacute;m sobre as drogas que hoje s&atilde;o legalizadas. Os recursos dessa taxa&ccedil;&atilde;o seriam usados para financiar o tratamento do primeiro problema mencionado acima, ou seja, os malef&iacute;cios causados pela droga. As drogas atualmente legalizadas, como &aacute;lcool e o tabaco tamb&eacute;m s&atilde;o socialmente muito destrutivas. Basta lembrar a quantidade de casos de c&acirc;ncer e outros problemas de sa&uacute;de causados pelo cigarro, ou a quantidade de acidentes automobil&iacute;sticos, com mortes, ferimentos e preju&iacute;zos provocados pelo consumo de &aacute;lcool, ou ainda, os casos de viol&ecirc;ncia dom&eacute;stica causados por embriaguez, etc. As ind&uacute;strias de &aacute;lcool e tabaco deveriam ser pesadamente taxadas de modo a financiar o tratamento dos problemas diretamente relacionados ao uso de seus produtos. A mesma abordagem deveria ser empregada para todo tipo de droga, tanto &aacute;lcool e tabaco quanto maconha, coca&iacute;na, etc.: a taxa&ccedil;&atilde;o sobre os usu&aacute;rios deve financiar o tratamento dos dependentes. Evidentemente, existem casos extremos de drogas que n&atilde;o s&atilde;o pass&iacute;veis de qualquer uso recreativo, como o crack, totalmente destrutivas. Para esses casos especiais, o sistema de sa&uacute;de teria que ter uma abordagem especial (que n&atilde;o se confunde com a interna&ccedil;&atilde;o compuls&oacute;ria hoje sendo aplicada, que n&atilde;o passa de uma medida de higieniza&ccedil;&atilde;o social e legitima&ccedil;&atilde;o do autoritarismo e da militariza&ccedil;&atilde;o).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para finalizar, &eacute; preciso ir &agrave; raiz primordial do problema e considerar o fato de que muitos usu&aacute;rios, seja de drogas hoje consideradas legais ou ilegais, somente se tornam viciados porque o consumo da droga acaba sendo uma forma de escapar da mis&eacute;ria subjetiva da sociedade capitalista. N&atilde;o &eacute; apenas a mis&eacute;ria material que causa sofrimento, mas tamb&eacute;m a mis&eacute;ria espiritual, a falta de sentido, de realiza&ccedil;&atilde;o, de humanidade, de rela&ccedil;&otilde;es plenas, num mundo baseado na l&oacute;gica da competi&ccedil;&atilde;o e da mercadoria. O uso de drogas muitas vezes &eacute; o ref&uacute;gio contra essa realidade b&aacute;rbara. N&aacute; h&aacute; campanha educativa ou restri&ccedil;&atilde;o &agrave; publicidade que possam fazer com que as pessoas deixem de buscar al&iacute;vio em drogas, nos momentos em que a mis&eacute;ria existencial da vida alienada sob o capitalismo assola nossas individualidades estranhadas. Apenas o fim do capitalismo, da explora&ccedil;&atilde;o e do trabalho alienado permitir&aacute; a constru&ccedil;&atilde;o de rela&ccedil;&otilde;es humanas livres e um uso humano do tempo. Consequentemente, o uso de drogas (assim como os casos de loucura, os crimes, etc.) passar&aacute; a ser um fen&ocirc;meno minorit&aacute;rio, residual. E mesmo que as drogas continuem sendo usadas, esse uso n&atilde;o ter&aacute; o mesmo conte&uacute;do dram&aacute;tico que tem hoje, de al&iacute;vio existencial, restando apenas o seu aspecto recreativo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[11,76],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/376"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=376"}],"version-history":[{"count":10,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/376\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2097,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/376\/revisions\/2097"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=376"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=376"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=376"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}