{"id":38,"date":"2008-12-13T16:12:54","date_gmt":"2008-12-13T16:12:54","guid":{"rendered":"http:\/\/espacosocialista.org\/?q=node\/38"},"modified":"2018-05-04T21:49:59","modified_gmt":"2018-05-05T00:49:59","slug":"a-batalha-de-argel-manual-da-revolucao-em-23-licoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/2008\/12\/a-batalha-de-argel-manual-da-revolucao-em-23-licoes\/","title":{"rendered":"&#8220;A Batalha de Argel&#8221;: Manual da revolu\u00e7\u00e3o em 23 li\u00e7\u00f5es"},"content":{"rendered":"<p class=\"MsoNormal\">\n<h1>A BATALHA DE ARGEL: MANUAL DA REVOLU\u00c7\u00c3O EM 23 LI\u00c7\u00d5ES<\/h1>\n<h1><\/h1>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: center;\" align=\"center\">(Coment\u00e1rio sobre o filme \u201cA batalha de Argel\u201d)<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Nome original: Battaglia di Algeri<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Produ\u00e7\u00e3o: Arg\u00e9lia, It\u00e1lia<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Ano: 1966<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Idiomas: Franc\u00eas, Ingl\u00eas, \u00c1rabe<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Diretor: Gilo Pontecorvo<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Roteiro: Gilo Pontecorvo, Franco Solinas<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Elenco: Brahim Hadjadj, Jean Martin, Yacef Saadi, Samia Kerbash, Ugo Paletti, Fusia El Kader, Omar, Mohamed Ben Kassen<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 G\u00eanero: drama, hist\u00f3ria, guerra<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <span lang=\"EN-US\">Fonte: \u201cThe Internet Movie Database\u201d \u2013 <\/span><a href=\"http:\/\/www.imdb.com\/\"><span lang=\"EN-US\">http:\/\/www.imdb.com\/<\/span><\/a><span lang=\"EN-US\">\u00a0 <\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 1. A guerra n\u00e3o \u00e9 bonita, nem her\u00f3ica, nem gloriosa, pois serve como uma evid\u00eancia cabal da barb\u00e1rie. A guerra \u00e9 um fen\u00f4meno pertencente ao per\u00edodo de pr\u00e9-Hist\u00f3ria da Humanidade em que estamos vivendo. Num est\u00e1gio em que a Humanidade n\u00e3o alcan\u00e7ou a plena posse de si mesma, vigora a divis\u00e3o social do trabalho, que divide a esp\u00e9cie em classes sociais. Tal divis\u00e3o separa verticalmente os indiv\u00edduos e imp\u00f5e uma estrutura social de comando de tipo hier\u00e1rquico. Essa estrutura somente pode se sustentar por meio da for\u00e7a, o que obriga as classes dirigentes a um estado de guerra permanente. A guerra \u00e9 exercida por meio dos aparelhos do Estado, instrumento por excel\u00eancia da domina\u00e7\u00e3o, contra as classes subalternas e contra os demais Estados nacionais.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">As guerras somente deixar\u00e3o de existir numa sociedade sem classes, estruturada de modo horizontal, n\u00e3o-hier\u00e1rquico. Mas para impedir que essa sociedade venha a existir, as classes dominantes se empenham em uma guerra de contra-revolu\u00e7\u00e3o permanente, para a qual cabe encontrar a resposta adequada. Os argelinos empreenderam sua tentativa, com a qual nos cabe aprender.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 2. Vencer a guerra de liberta\u00e7\u00e3o nacional era apenas o primeiro passo. O desafio mais dif\u00edcil estaria adiante, depois da independ\u00eancia, na constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade melhor. O acerto dessa afirma\u00e7\u00e3o de um dos dirigentes da FLN (Frente de Liberta\u00e7\u00e3o Nacional, a organiza\u00e7\u00e3o que conduziu a luta de independ\u00eancia) foi tragicamente demonstrado pela hist\u00f3ria posterior da Arg\u00e9lia independente. Hoje, o pa\u00eds est\u00e1 entregue \u00e0 vala comum dos Estados neocoloniais falidos com uma popula\u00e7\u00e3o vitimada pela mis\u00e9ria e um regime dilacerado por guerras civis intermin\u00e1veis. Nessa guerra pontificam interesses tribais e preconceitos bem diferentes dos ideais generosos que dirigiram as lutas do passado.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">3. A batalha de Argel, \u00e9 bom lembrar, foi perdida. O filme em quest\u00e3o retrata um epis\u00f3dio de derrota dos insurgentes, n\u00e3o a vit\u00f3ria de sua causa, que s\u00f3 viria anos depois. Os organizadores da guerrilha urbana e dos atentados a partir da Casbah (bairro mu\u00e7ulmano encravado em Argel) s\u00e3o alcan\u00e7ados um a um pela repress\u00e3o. \u201cA batalha de Argel\u201d mostra n\u00e3o s\u00f3 a organiza\u00e7\u00e3o exemplar da FLN e o entusiasmo da popula\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m o poder do aparato e a determina\u00e7\u00e3o f\u00e9rrea da contra-revolu\u00e7\u00e3o. Mostrar uma batalha que foi perdida \u00e9 importante para lembrar que uma guerra se faz de v\u00e1rias batalhas. E cada batalha pode terminar em vit\u00f3ria ou em derrota. A luta \u00e9 longa, ora avan\u00e7ando, ora recuando.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 4. Uma batalha n\u00e3o se vence apenas com armas, mas com intelig\u00eancia e organiza\u00e7\u00e3o. A FLN estava organizada numa estrutura que potencializava seus resultados com um m\u00ednimo de efetivo num\u00e9rico e de risco de seguran\u00e7a. Cada militante somente tinha contato com um superior hier\u00e1rquico e com seus respectivos subordinados. N\u00e3o havia contatos laterais. Em caso de morte ou captura, a estrutura sofria o m\u00ednimo de dano, pois o conhecimento limitado de cada um sobre o conjunto da organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o podia ser obtido pelo inimigo. Para desmontar essa estrutura em pir\u00e2mide, seria preciso percorr\u00ea-la por inteiro, com extrema dificuldade.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 5. Os militantes da FLN ganharam o respeito, a confian\u00e7a e a ades\u00e3o do povo argelino com sua organiza\u00e7\u00e3o e determina\u00e7\u00e3o. As id\u00e9ias e princ\u00edpios organizativos que norteiam a luta somente se tornam uma for\u00e7a material quando de apoderam das massas. At\u00e9 que as massas tomassem a luta em suas m\u00e3os, foi necess\u00e1rio o sacrif\u00edcio de um grupo de militantes para acender o rastilho de p\u00f3lvora. A batalha de Argel retratada no filme, \u00e9 bom lembrar, foi vencida pelos franceses. Mas os argelinos venceram a guerra, poucos anos depois, quando grandes massas sa\u00edram \u00e0s ruas. Foram as massas que obtiveram a independ\u00eancia da Arg\u00e9lia.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 6. A luta de liberta\u00e7\u00e3o passa n\u00e3o apenas pelo confronto armado, mas pela mudan\u00e7a na condu\u00e7\u00e3o da vida cotidiana. O casal que se recusa a se casar num cart\u00f3rio franc\u00eas exercita a desobedi\u00eancia civil, desconhecendo e deslegitimando a autoridade colonial. Ao mesmo tempo, reconhece-se o oficial da FLN como autoridade legal de fato e de direito.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 7. A FLN conquistou o respeito da popula\u00e7\u00e3o combatendo o crime. Reprimindo o uso de drogas, bebidas, jogatina, prostitui\u00e7\u00e3o, a FLN se imp\u00f4s como poder de fato sobre a Casbah. Nem o Estado nem o crime se colocariam no caminho da luta pela liberta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 8. A greve geral faz com que o povo tome consci\u00eancia da for\u00e7a que possui quando atua de maneira coletiva e organizada. Nada pode ser mais perigoso para o regime do que um povo que descobre que pode, de maneira coletiva e organizada, desobedecer ordens e recusar-se a colaborar com o funcionamento do sistema.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">9. \u00c9 preciso fazer a sua voz ser ouvida. A prega\u00e7\u00e3o da ideologia dominante \u00e9 cont\u00ednua e massacrante. Mas basta uma fa\u00edsca de contesta\u00e7\u00e3o furar o cerco dessa prega\u00e7\u00e3o para tirar a \u201cplat\u00e9ia\u201d do torpor e iniciar um inc\u00eandio. \u00c9 o que acontece quando o garoto rebelde se insinua sem ser notado e usa o microfone dos pr\u00f3prios franceses para exortar o povo da Casbah a continuar resistindo.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 10. A revolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o se faz sem alguns m\u00e1rtires. S\u00e3o as massas que realizam as grandes transforma\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas. Entretanto, as massas precisam do exemplo, do impulso e do ensinamento de uma vanguarda que a represente. Os elementos dessa vanguarda, por se colocarem na linha de frente da luta de classes, inevitavelmente sofrem baixas. A queda de alguns poucos pode se transformar por\u00e9m em est\u00edmulo para que muitos outros prossigam.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 11. A colabora\u00e7\u00e3o das mulheres teve uma import\u00e2ncia fundamental na luta. Com ou sem a burqa, as mulheres de Argel colaboraram com a FLN, correndo o mesmo risco pessoal dos demais militantes. Hoje, elas obtiveram como recompensa a repress\u00e3o por parte do fundamentalismo isl\u00e2mico. E todas t\u00eam que usar burqas.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">12. Em \u00faltima inst\u00e2ncia, um povo rebelado \u00e9 incontrol\u00e1vel. A ocupa\u00e7\u00e3o da Casbah \u00e9 imposs\u00edvel, assim como a ocupa\u00e7\u00e3o das favelas do Rio de Janeiro. O ex\u00e9rcito franc\u00eas subia e descia os morros, impunha toque de recolher, cerco, barreiras em todas as entradas e sa\u00eddas, revistas sobre a popula\u00e7\u00e3o. Sem resultado.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">13. Para a repress\u00e3o, os fins tamb\u00e9m justificaram os meios. Os militantes da FLN usaram de todos os meios em sua luta, inclusive os mais question\u00e1veis, como o terrorismo. O Estado franc\u00eas fez a mesma coisa. Matou, torturou, mentiu. A repress\u00e3o n\u00e3o tem escr\u00fapulos.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">14. A ONU n\u00e3o serve para nada. N\u00e3o foram poucas as vezes em que a ONU deixou \u201cna m\u00e3o\u201d os povos coloniais e dominados que se atreveram a levantar a cabe\u00e7a contra a opress\u00e3o imperialista. Nada pode ser mais ilustrativo da sua inoper\u00e2ncia e da fal\u00eancia do modelo democr\u00e1tico-burgu\u00eas em que est\u00e1 baseada a Carta das Na\u00e7\u00f5es Unidas do que a incapacidade de impor resolu\u00e7\u00f5es contra as pot\u00eancias que tem a for\u00e7a a seu favor, como Estados Unidos e Israel. A Fran\u00e7a tamb\u00e9m teria poder de veto a qualquer resolu\u00e7\u00e3o da ONU, o que de sa\u00edda frustrava as esperan\u00e7as contidas no pleito argelino.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 15. O discurso do patriotismo forja uma falsa unidade do interesse nacional. O coronel encarregado da repress\u00e3o passa um serm\u00e3o nos jornalistas que se atrevem a question\u00e1-lo. A Fran\u00e7a quer ou n\u00e3o quer manter seu dom\u00ednio sobre a Arg\u00e9lia? Se quer faz\u00ea-lo, precisa aceitar os m\u00e9todos necess\u00e1rios para tal. Tortura? Interrogat\u00f3rios, responde o coronel. Sem mais perguntas. Est\u00e3o todos no mesmo barco. S\u00e3o todos franceses. N\u00e3o h\u00e1 divis\u00f5es, h\u00e1 a Fran\u00e7a como um todo unit\u00e1rio e h\u00e1 seu interesse nacional, que \u00e9 a manuten\u00e7\u00e3o do colonialismo. O coronel menciona at\u00e9 a exist\u00eancia de setores da esquerda que concordam com a ocupa\u00e7\u00e3o colonial (do lado de c\u00e1, cabe perguntar como a esquerda pode ser contra a luta de independ\u00eancia nacional de um povo colonizado?).<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 16. Numa guerra de liberta\u00e7\u00e3o contra um pa\u00eds imperialista, \u00e9 fundamental contar com o apoio pol\u00edtico de algum setor da popula\u00e7\u00e3o da metr\u00f3pole colonial. O coronel encarregado da repress\u00e3o \u00e0 rebeli\u00e3o expressa seu desagrado com a dificuldade que representa ter um nome do peso de um Sartre contra sua estrat\u00e9gia. Um artigo num jornal da metr\u00f3pole cria dificuldades pol\u00edticas para a autoridade do Estado, dificultando e atrasando a tarefa da repress\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 17. Um intelectual que se reivindica de esquerda estar\u00e1 nas barricadas ao lado do povo, disparando com as armas de que disp\u00f5e para fazer avan\u00e7ar a luta. O coronel pergunta com ironia: por que os Sartres nascem sempre do outro lado? Sartre lutou na Resist\u00eancia francesa contra os nazistas, assim como o militar. O mesmo ex\u00e9rcito franc\u00eas que lutou contra os nazistas na Resist\u00eancia luta no momento contra a resist\u00eancia argelina. Agora, Sartre e o coronel est\u00e3o em lados opostos. Mas foi o fil\u00f3sofo quem permaneceu com a causa certa.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 18. Assim como o fil\u00f3sofo, o artista tamb\u00e9m assume um papel pol\u00edtico. O autor do filme em quest\u00e3o toma partido a favor de uma causa. Os intelectuais e artistas da d\u00e9cada de 1960 (do s\u00e9culo XX em geral) n\u00e3o tinham medo de se engajar nos movimentos de luta, ao contr\u00e1rio do que ocorre hoje. O movimento dos intelectuais e artistas contra a guerra no Iraque tem muito menos peso objetivo do que tinha por exemplo, naquela d\u00e9cada, o movimento dos m\u00fasicos contra a guerra do Vietn\u00e3. A arte era parte da luta libert\u00e1ria da humanidade contra uma sociedade opressiva. Hoje, n\u00e3o s\u00f3 o n\u00edvel de engajamento dos intelectuais e artistas diminui dramaticamente, como tamb\u00e9m diminui o grau de influ\u00eancia material que a sua manifesta\u00e7\u00e3o no debate pode exercer.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 19. A realiza\u00e7\u00e3o do filme \u00e9 um prod\u00edgio da produ\u00e7\u00e3o italiana, pela dificuldade de reproduzir com grande fidelidade acontecimentos de tal complexidade, num contexto pol\u00edtico em que tudo ainda era muito recente (a guerra terminou em 1962, o filme \u00e9 de 1966).\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O filme retrata um acontecimento da luta entre a Fran\u00e7a e a ent\u00e3o col\u00f4nia da Arg\u00e9lia, mas n\u00e3o \u00e9 falado em franc\u00eas e sim em italiano, com toques de \u00e1rabe (se fosse feito hoje, seria falado em puro ingl\u00eas). \u201cA batalha de Argel\u201d \u00e9 uma obra italiana de cinema universal.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 20. O papel do artista n\u00e3o \u00e9 idealizar, nem romantizar, mas mostrar os argelinos com o seu rosto, sua l\u00edngua, seus costumes, suas cren\u00e7as, sua bandeira, sem ceder a preconceitos e estere\u00f3tipos. Tomar partido da causa n\u00e3o significa ocultar os erros dos argelinos, transformando-os em her\u00f3is do tipo hollywoodiano. Os argelinos cometeram atentados terroristas. Mataram civis, homens, mulheres e crian\u00e7as, em locais p\u00fablicos, que n\u00e3o tinham rela\u00e7\u00e3o com o aparato de poder colonial franc\u00eas, atacados sem aviso.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 21. Numa guerra comentem-se erros e acertos. Uma coisa \u00e9 atacar a pol\u00edcia francesa em territ\u00f3rio argelino: quem \u00e9 policial num pa\u00eds conflagrado sob ocupa\u00e7\u00e3o est\u00e1 se oferecendo como alvo. Coisa muito diferente \u00e9 atacar a popula\u00e7\u00e3o civil. Os atentados contra a popula\u00e7\u00e3o civil da parte francesa da cidade s\u00e3o justificados pelo dirigente da FLN em nome da desigualdade de for\u00e7as. Os franceses t\u00eam avi\u00f5es para bombardear as aldeias argelinas. Os guerrilheiros n\u00e3o os t\u00eam, por isso usam bombas em lugares p\u00fablicos. Verdade seja dita, os primeiros a usar terrorismo contra civis foram os civis franceses que plantaram uma bomba na Casbah, num alvo residencial. At\u00e9 ent\u00e3o, os militantes argelinos combatiam apenas a pol\u00edcia.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">22. A arte politicamente engajada precisa manter seu compromisso com a verdade acima de tudo. Do contr\u00e1rio, n\u00e3o estar\u00e1 servindo \u00e0 causa com a qual pretende colaborar. O cinema de Gillo Pontecorvo se coloca a favor da causa argelina e para isso mostra a verdade dessa luta. O horror da guerra \u00e9 retratado em toda sua crueza. Repress\u00e3o de um lado, terrorismo do outro. Guerra \u00e9 guerra, n\u00e3o h\u00e1 anjos nem dem\u00f4nios nesse terreno. Cada um luta com as armas de que disp\u00f5e e deixa a moral para depois.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">23. O sabor de vit\u00f3ria da causa da independ\u00eancia s\u00f3 aparece no final do filme, com as imagens das massivas manifesta\u00e7\u00f5es, do povo marchando contra a pol\u00edcia, dos gritos de desafio ecoando 24 horas nas favelas, da bandeira argelina sendo carregada pela multid\u00e3o, em meio a cassetetes da pol\u00edcia e bombas de g\u00e1s, tremulando nas m\u00e3os das mulheres, que dan\u00e7am e sorriem nas ruas. Um final que n\u00e3o poderia ser mais belo.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Salam aleikum!<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">Daniel M. Delfino<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">10\/09\/2005<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p class=\"MsoNormal\"><o:p>&nbsp;<\/o:p><\/p>\n<h1>A BATALHA DE ARGEL: MANUAL DA REVOLU&Ccedil;&Atilde;O EM 23 LI&Ccedil;&Otilde;ES<\/h1>\n<h1><o:p>&nbsp;<\/o:p><\/h1>\n<p align=\"center\" style=\"text-align: center;\" class=\"MsoNormal\">(Coment&aacute;rio sobre o filme &ldquo;A batalha de Argel&rdquo;)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" class=\"MsoNormal\"><o:p>&nbsp;<\/o:p><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" class=\"MsoNormal\"><o:p>&nbsp;<\/o:p><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" class=\"MsoNormal\"><o:p>&nbsp;<\/o:p><\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[9,76],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/38"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=38"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/38\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6144,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/38\/revisions\/6144"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=38"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=38"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=38"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}