{"id":3810,"date":"2015-03-19T00:59:06","date_gmt":"2015-03-19T03:59:06","guid":{"rendered":"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/?p=3810"},"modified":"2018-05-01T00:44:53","modified_gmt":"2018-05-01T03:44:53","slug":"grecia-syriza-engana-seus-eleitores-e-cede-a-troika","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/2015\/03\/grecia-syriza-engana-seus-eleitores-e-cede-a-troika\/","title":{"rendered":"Gr\u00e9cia: Syriza engana seus eleitores e cede \u00e0 Troika"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/Glezos01.jpg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-3812\" src=\"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/Glezos01.jpg\" alt=\"Glezos01\" width=\"800\" height=\"496\" srcset=\"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/Glezos01.jpg 800w, https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/Glezos01-300x186.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este texto \u00e9 uma contribui\u00e7\u00e3o individual, que n\u00e3o necessariamente representa a posi\u00e7\u00e3o do Espa\u00e7o Socialista, e por isso se encontra assinado por seu autor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Daniel M. Delfino<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Syriza (Coaliz\u00e3o da Esquerda Radical, em grego) foi recentemente eleito de maneira espetacular na Gr\u00e9cia, pela forma como derrotou os partidos tradicionais, com a promessa de acabar com as pol\u00edticas de &#8220;austeridade&#8221; impostas pela Comiss\u00e3o Europeia (\u00f3rg\u00e3o formado por representantes de cada pa\u00eds da Uni\u00e3o Europeia), o Banco Central Europeu (BCE) e o FMI, a chamada \u201cTroika\u201d. Essas pol\u00edticas foram ditadas pelo infame \u201cMemorando\u201d de 2010, que impunha cortes nos gastos p\u00fablicos, privatiza\u00e7\u00f5es, demiss\u00f5es nos servi\u00e7os p\u00fablicos, aumento de impostos, aumento do tempo de aposentadoria, retirada de direitos trabalhistas, etc., em troca de ajuda para pagar a d\u00edvida do pa\u00eds.<br \/>\nO resultado dessas medidas foi uma brutal recess\u00e3o econ\u00f4mica, o aumento explosivo do desemprego (especialmente entre os jovens, com 60% sem trabalho na faixa de 18 a 25 anos) e o aumento do n\u00famero de pobres no pa\u00eds de 2% para 14% entre 2009 e 2014 (http:\/\/pt.euronews.com\/2014\/02\/13\/grecia-desemprego-e-pobreza-batem-recordes\/). Ao mesmo tempo, a d\u00edvida grega s\u00f3 fez aumentar, chegando a 174% do PIB em 2014 (http:\/\/pt.tradingeconomics.com\/greece\/government-debt-to-gdp).<br \/>\nEntretanto, em pouco menos de um m\u00eas o governo do Syriza passou de uma consagradora elei\u00e7\u00e3o, em 25 de janeiro, para uma vergonhosa capitula\u00e7\u00e3o nas negocia\u00e7\u00f5es com a Troika, encerradas em 20 de fevereiro. O acordo entre as duas partes mant\u00e9m o essencial da pol\u00edtica que vinha sendo aplicada pelos governos anteriores do PASOK e Nova Democracia, massivamente repudiados nas urnas pelos gregos. O Syriza aceitou todos os pontos que eram fundamentais para o imperialismo alem\u00e3o, maior pot\u00eancia da Uni\u00e3o Europeia e verdadeira for\u00e7a por tr\u00e1s da Troika:<br \/>\n&#8211; reconheceu a validade da d\u00edvida do pa\u00eds, ou seja, comprometeu-se a de alguma forma seguir pagando;<br \/>\n&#8211; aceitou a supervis\u00e3o dos organismos internacionais, comprometendo-se a n\u00e3o adotar nenhuma medida unilateral e notificar aos organismos internacionais qualquer a\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica econ\u00f4mica;<br \/>\n&#8211; comprometeu-se a apresentar uma lista de medidas a serem tomadas para garantir o cumprimento do acordo, ou seja, medidas de &#8220;austeridade&#8221; contra a popula\u00e7\u00e3o grega.<br \/>\nEm troca, os bancos privados e o Banco Central Europeu concordaram em fazer empr\u00e9stimos para que a Gr\u00e9cia consiga pagar suas d\u00edvidas que tiverem vencimento nos pr\u00f3ximos 4 meses. Esses empr\u00e9stimos n\u00e3o s\u00e3o dinheiro que vai entrar na Gr\u00e9cia para ajudar a economia do pa\u00eds, mas v\u00e3o direto para os credores dos t\u00edtulos gregos, e o pa\u00eds fica obrigado a pagar esses novos empr\u00e9stimos aos bancos e novos credores, em condi\u00e7\u00f5es cada vez mais severas, numa bola de neve sem fim.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">O pacote de maldades do Syriza<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na ter\u00e7a-feira dia 24 o ministro das finan\u00e7as Yannis Varoufakis apresentou a lista de medidas exigidas pela Troika. Trata-se de mais um pacote de maldades contra os trabalhadores, id\u00eantico aos que vinham sendo aplicados pelos governos anteriores:<br \/>\n&#8211; melhorar a coleta do Imposto sobre Valor Agregado (pago pelos consumidores em cada mercadoria) para diminuir a evas\u00e3o e acabar com isen\u00e7\u00f5es e descontos;<br \/>\n&#8211; controle rigoroso dos gastos em todas as \u00e1reas do governo (educa\u00e7\u00e3o, defesa, transporte, governos locais, benef\u00edcios sociais);<br \/>\n&#8211; n\u00e3o reverter as privatiza\u00e7\u00f5es anteriores (como a do porto do Pireu, um dos principais da Europa, como chegou a ser comemorado pelos entusiastas do Syriza mundo afora), e tamb\u00e9m a dar continuidade \u00e0s privatiza\u00e7\u00f5es que j\u00e1 tinham sido iniciadas;<br \/>\n&#8211; eliminar falhas e incentivos na pol\u00edtica de pens\u00f5es que d\u00e3o origem a um n\u00famero muito alto de aposentadorias precoces (O Syriza assume o princ\u00edpio t\u00edpico dos governos neoliberais de que os trabalhadores se aposentam antes da &#8220;idade devida&#8221; porque s\u00e3o pregui\u00e7osos ou fraudadores);<br \/>\n&#8211; submeter as futuras mudan\u00e7as no sal\u00e1rio m\u00ednimo \u00e0s \u201cinstitui\u00e7\u00f5es\u201d da Troika de modo a salvaguardar a \u201ccompetitividade dos neg\u00f3cios\u201d;<br \/>\n&#8211; aumentar a transpar\u00eancia dos gastos p\u00fablicos e combater a corrup\u00e7\u00e3o;<br \/>\n&#8211; reduzir o n\u00famero de minist\u00e9rios de 16 para 10, cortando cargos excedentes;<br \/>\n&#8211; reformar os planos de cargos do setor p\u00fablico de modo que n\u00e3o haja mais aumento nos pisos salariais;<br \/>\n&#8211; garantir que o combate \u00e0 crise humanit\u00e1ria n\u00e3o tenha efeito fiscal negativo (ou seja, combater a mis\u00e9ria sem aumentar a d\u00edvida do governo!);<br \/>\n&#8211; aumentar a \u201cefici\u00eancia\u201d dos governos locais;<br \/>\n&#8211; dar maior independ\u00eancia \u00e0 Secretaria da Receita;<br \/>\nO texto de Varoufakis est\u00e1 dispon\u00edvel na \u00edntegra em ingl\u00eas atrav\u00e9s do link: http:\/\/www.ansa.it\/documents\/1424780332479_Lettera_Grecia.pdf .<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">Causas estruturais da crise grega<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">O programa anunciado pelo Syriza equivale a jogar mais gasolina para acabar com o inc\u00eandio. N\u00e3o h\u00e1 a m\u00ednima chance de retomar o crescimento econ\u00f4mico e melhorar o n\u00edvel de vida da popula\u00e7\u00e3o com tais medidas. Esses meros paliativos administrativos n\u00e3o s\u00e3o capazes de atacar as causas estruturais da crise grega.<br \/>\nA Gr\u00e9cia faz parte da Zona do Euro, conjunto de 19 pa\u00edses que opera com a moeda comum europeia, o euro. Entretanto, o uso da moeda comum pelos diversos pa\u00edses n\u00e3o anulou as diferen\u00e7as entre as suas economias nacionais, ao contr\u00e1rio, tornou-as abissais. Ao fazer neg\u00f3cios com os gigantes do bloco, em especial a Alemanha, a despropor\u00e7\u00e3o entre a produtividade das economias menores se torna evidente. A estrutura de custos da economia alem\u00e3 funciona como norma reguladora para a economia do continente: quem n\u00e3o consegue produzir com a efici\u00eancia dos alem\u00e3es (ningu\u00e9m na Europa) vai ficando fora da competi\u00e7\u00e3o. Na l\u00f3gica do sistema capitalista, as economias mais fortes engolem as mais fracas, assim como na concorr\u00eancia entre as empresas.<br \/>\nO tempo de trabalho socialmente necess\u00e1rio para produzir as mercadorias na Gr\u00e9cia e demais pa\u00edses da periferia europeia \u00e9 muito maior do que na Alemanha. Isso faz com que as empresas gregas n\u00e3o consigam concorrer com as alem\u00e3s, sendo compradas por estrangeiros, fechadas ou indo \u00e0 fal\u00eancia. A condi\u00e7\u00e3o para seguir concorrendo nesse mercado \u00e9 rebaixar cada vez mais os custos, fechando postos de trabalho, aumentando a explora\u00e7\u00e3o e reduzindo sal\u00e1rios, direitos e benef\u00edcios. O fechamento de empresas, a redu\u00e7\u00e3o da atividade econ\u00f4mica, o desemprego, caminham paralelo com o d\u00e9ficit comercial, j\u00e1 que esses pa\u00edses se tornam compradores de produtos alem\u00e3es e estrangeiros, e com o d\u00e9ficit p\u00fablico, j\u00e1 que diminui a arrecada\u00e7\u00e3o de impostos do governo. Ao tentar sair da crise, o governo tenta reverter o d\u00e9ficit com pol\u00edticas de &#8220;austeridade&#8221; contra os trabalhadores, ao mesmo tempo em que aumenta o pr\u00f3prio d\u00e9ficit com a generosidade desmedida para com os bancos e grandes empresas.<br \/>\nEssa pol\u00edtica contradit\u00f3ria \u00e9 a \u00fanica poss\u00edvel no sistema capitalista, j\u00e1 que em tal sistema n\u00e3o se admite que diminua o lucro das empresas, mas se admite que a popula\u00e7\u00e3o suporte todo tipo de sofrimento. Desemprego, fome, doen\u00e7as, viol\u00eancia, a mis\u00e9ria em todas as suas formas, podem avan\u00e7ar sem limite, contanto que a sacrossanta propriedade privada e os lucros do capital estejam garantidos. Para acabar com a mis\u00e9ria e o sofrimento do povo, n\u00e3o h\u00e1 outra sa\u00edda a n\u00e3o ser romper com o capitalismo. Mas essa nunca foi a inten\u00e7\u00e3o do Syriza.<br \/>\nO partido acredita poder tirar a Gr\u00e9cia da crise por meio de um conjunto de medidas de melhoria na gest\u00e3o, de maior efici\u00eancia administrativa do Estado, sem nenhuma ruptura real com o sistema. Como se o problema do pa\u00eds tivesse sido causado apenas pela neglig\u00eancia, corrup\u00e7\u00e3o ou incompet\u00eancia dos governos anteriores. Longe disso, a origem da crise grega est\u00e1 na pr\u00f3pria ess\u00eancia do capitalismo, a lei do valor, que se imp\u00f5e sobre a economia capitalista como a lei da gravidade na f\u00edsica.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">Jogos de palavras n\u00e3o escondem a fal\u00eancia do reformismo eleitoral<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Syriza aceitou as estreitas margens de manobra dispon\u00edveis para pilotar a m\u00e1quina do cambaleante capitalismo grego, e o \u00fanico resultado poss\u00edvel seria render-se \u00e0 Troika. O novo governo grego j\u00e1 foi para a negocia\u00e7\u00e3o derrotado. Nas semanas anteriores milh\u00f5es de euros foram retirados dos bancos na Grecia, pelo temor dos investidores de que o governo n\u00e3o conseguisse um acordo. Ao n\u00e3o optar por medidas de ruptura e buscar uma linha de menor resist\u00eancia, que n\u00e3o atacasse os pilares da submiss\u00e3o da Gr\u00e9cia, o novo governo se viu sem outra op\u00e7\u00e3o a n\u00e3o ser fechar um acordo de curto prazo (quatro meses) e comprometer-se com o pacote de medidas administrativas.<br \/>\nPara tornar aceit\u00e1vel mais um pacote de maldades para o eleitorado grego, at\u00e9 ontem t\u00e3o esperan\u00e7oso, o primeiro ministro Alexis Tsipras adotou a t\u00e1tica de criar confus\u00e3o para que o povo n\u00e3o entenda o que est\u00e1 acontecendo. Tsipras, Varoufakis e sua equipe voltaram ao pa\u00eds cantando vit\u00f3ria e dando novos nomes \u00e0s coisas. As entidades odiadas pelos gregos receberam novas denomina\u00e7\u00f5es, como se isso pudesse mudar o que s\u00e3o. A Troika foi rebatizada de &#8220;Institui\u00e7\u00f5es&#8221;, o Memorando foi chamado de &#8220;Acordo&#8221; e os credores foram chamados de &#8220;parceiros&#8221;.<br \/>\nEssa t\u00e1tica confusionista ter\u00e1 efeitos muito limitados, pois n\u00e3o s\u00f3 os gregos, mas o mundo inteiro acompanha muito atentamente o que o Syriza faz. Para a Troika e o imperialismo \u00e9 fundamental usar o Syriza para esmagar a esperan\u00e7a do povo grego de sair da &#8220;austeridade&#8221;, pois isso servir\u00e1 para evitar que as ilus\u00f5es de mudan\u00e7a se alastrem para outros pa\u00edses, como Portugal, Irlanda, Espanha, It\u00e1lia, que passam por processos de recess\u00e3o e empobrecimento (pois tamb\u00e9m seguem os Memorandos de &#8220;austeridade&#8221;) como a Gr\u00e9cia. A burguesia quer dar uma dura li\u00e7\u00e3o para todos os que acreditam que \u00e9 poss\u00edvel sair facilmente do ditado da &#8220;austeridade&#8221;, por meio de aventuras eleitorais.<br \/>\nA s\u00edntese brutal dessa pol\u00edtica foi formulada por Jeroen Dijsselbloem (presidente do Eurogrupo, conselho dos ministros de finan\u00e7as dos pa\u00edses da Uni\u00e3o Europeia, que participou das negocia\u00e7\u00f5es do novo acordo com os gregos), numa declara\u00e7\u00e3o em maio de 2013: &#8220;Os governos podem ir e vir, mas os programas continuam a ser necess\u00e1rios&#8221; (http:\/\/www.publico.pt\/economia\/noticia\/presidente-do-eurogrupo-os-governos-podem-ir-e-vir-mas-os-programas-continuam-a-ser-necessarios-1595663). Na pr\u00e1tica, isso significa dizer que os Estados nacionais n\u00e3o t\u00eam soberania alguma, os eleitores podem votar em quem quiserem, mas qualquer que seja o partido eleito, o programa de governo j\u00e1 est\u00e1 tra\u00e7ado nos Memorandos.<br \/>\nOu seja, independentemente das elei\u00e7\u00f5es, quem governa de fato \u00e9 a Troika. As institui\u00e7\u00f5es europeias criaram uma malha de imposi\u00e7\u00f5es, consagradas como cl\u00e1usula p\u00e9trea nas constitui\u00e7\u00f5es dos pa\u00edses membros, que garantem a obedi\u00eancia aos ditames da burguesia financeira. As condi\u00e7\u00f5es para perman\u00eancia na Zona do Euro imp\u00f5em tetos de d\u00edvida (total do volume de t\u00edtulos emitidos pelo governo) e d\u00e9ficit (diferen\u00e7a negativa entre o que o governo arrecada e o que gasta num determinado ano). Para alcan\u00e7ar esses tetos, n\u00e3o h\u00e1 outro meio sen\u00e3o submeter-se a medidas cada vez mais ferozes de &#8220;austeridade&#8221;. Esse \u00e9 o significado \u00faltimo do pertencimento ao euro e da Uni\u00e3o Europeia para os pa\u00edses menores: submeter-se \u00e0s exig\u00eancias da burguesia europeia.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">O car\u00e1ter de classe do Syriza<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">A veloc\u00edssima capitula\u00e7\u00e3o do Syriza e sua rendi\u00e7\u00e3o rel\u00e2mpago \u00e0 Troika tem explica\u00e7\u00e3o no seu car\u00e1ter de partido reformista parlamentar e em sua op\u00e7\u00e3o pela negocia\u00e7\u00e3o com a burguesia europeia. O reformismo hist\u00f3rico via a luta por melhorias pontuais como uma forma de chegar gradualmente ao socialismo, e j\u00e1 fracassou h\u00e1 d\u00e9cadas. O reformismo atual se limita a tentar conquistar uma vida melhor dentro do pr\u00f3prio capitalismo, j\u00e1 tendo abandonado a pretens\u00e3o de transform\u00e1-lo. E esse reformismo atual tamb\u00e9m est\u00e1 condenado a fracassar, como acabam de experimentar amargamente o Syriza e os gregos. N\u00e3o h\u00e1 mais possibilidade de reformas e melhorias duradouras dentro do capitalismo. A crise estrutural do sistema do capital exige ataques cada vez mais severos sobre os trabalhadores e a retirada das conquistas e melhorias anteriores. Exatamente o que o Syriza est\u00e1 fazendo ao optar por administrar o capitalismo.<br \/>\nA op\u00e7\u00e3o pela via parlamentar e pela negocia\u00e7\u00e3o com organismos europeus tem a ver com o car\u00e1ter de classe do Syriza. Trata-se de um partido pequeno burgu\u00eas eleitoral. O Syriza n\u00e3o \u00e9 um partido oper\u00e1rio, baseado na organiza\u00e7\u00e3o e luta dos trabalhadores. N\u00e3o tem como estrat\u00e9gia a mobiliza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores para enfrentar a burguesia grega e europeia. Sua elei\u00e7\u00e3o n\u00e3o serviu para acelerar a luta de classes, mas para apaziguar a popula\u00e7\u00e3o com a esperan\u00e7a de que o governo eleito faria tudo por eles. A estrat\u00e9gia eleitoral serviu para desmobilizar os gregos.<br \/>\nO problema n\u00e3o \u00e9 apenas o Syriza ter concorrido a elei\u00e7\u00f5es, mas o fato de n\u00e3o ter um projeto de enfrentamento e luta contra o capital estruturado entre os trabalhadores a partir da base. O partido n\u00e3o tem um trabalho organizado que aponte uma refer\u00eancia para a ruptura com as burocracias sindicais da GSEE (central sindical dos trabalhadores do setor privado, dirigida pelo PASOK) e ADEDY (central do setor p\u00fablico, dirigida pelo Partido Comunista \u2013 KKE, stalinista), que seguem uma linha de colabora\u00e7\u00e3o de classe e impedem lutas consequentes contra a &#8220;austeridade&#8221;. Dezenas de greves gerais de 24h foram decretadas por essas centrais desde a imposi\u00e7\u00e3o do Memorando, n\u00e3o como uma forma de derrot\u00e1-lo, mas para descomprimir a insatisfa\u00e7\u00e3o das bases. Nenhuma dire\u00e7\u00e3o batalhou para construir pela base greves por tempo indeterminado at\u00e9 a retirada das medidas do Memorando. Nem o Syriza apontou essa perspectiva, porque, afinal de contas, n\u00e3o se trata de um partido militante.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">Come\u00e7am as rupturas<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">A decep\u00e7\u00e3o com os rumos tomados pelo Syriza j\u00e1 se manifesta nas pr\u00f3prias fileiras do partido, e inclusive em setores pr\u00f3ximos \u00e0 sua dire\u00e7\u00e3o. Manolis Glezos \u00e9 uma lenda viva da esquerda grega, com 92 anos de idade e mais de 7 d\u00e9cadas de milit\u00e2ncia, visto na imagem no topo do artigo num protesto contra a &#8220;austeridade&#8221; em 2012. Glezos ganhou notoriedade quando, em 30 de maio de 1941, juntamente com seu amigo Apostolos Santas (falecido em 2011), escalou o topo da Acr\u00f3pole de Atenas para remover uma bandeira com a su\u00e1stica hasteada tr\u00eas dias antes pelos nazistas, quando os alem\u00e3es ocuparam o pa\u00eds na II Guerra. Tornou-se s\u00edmbolo da resist\u00eancia contra o nazismo (expulso da Gr\u00e9cia em outubro de 1944), depois contra a ditadura dos coron\u00e9is (1967 \u2013 1974), hoje contra a ditadura da Troika.<br \/>\nEste her\u00f3i da resist\u00eancia, hoje deputado do Parlamento Europeu pelo Syriza, acaba de lan\u00e7ar um manifesto pedindo desculpas por ter ajudado a criar a ilus\u00e3o de que o partido romperia com a pol\u00edtica de &#8220;austeridade&#8221; da Troika, e conclamando a todos os organismos do partido a se reunir para reverter o acordo assinado no fim de semana passado. O texto em ingl\u00eas pode ser acessado em: http:\/\/roarmag.org\/2015\/02\/glezos-greek-bailout-illusion\/. Segue abaixo uma tradu\u00e7\u00e3o do manifesto:<br \/>\n&#8220;O fato de que a Troika tenha sido rebatizada de &#8216;as institui\u00e7\u00f5es&#8217;, o Memorando tenha sido renomeado de o &#8216;Acordo&#8217; e os credores renomeados de os &#8216;parceiros&#8217;, da mesma forma que renomear carne como peixe, n\u00e3o muda a situa\u00e7\u00e3o anterior.<br \/>\nE voc\u00ea n\u00e3o pode mudar o voto do povo grego na elei\u00e7\u00e3o de 25 de janeiro.<br \/>\nO povo grego votou naquilo que Syriza prometeu: que abol\u00edssemos o regime de &#8220;austeridade&#8221; que \u00e9 a estrat\u00e9gia n\u00e3o s\u00f3 dos oligarcas da Alemanha e de outros pa\u00edses credores mas tamb\u00e9m da oligarquia grega; que n\u00f3s revog\u00e1ssemos o memorando e a Troika e toda a legisla\u00e7\u00e3o de &#8220;austeridade&#8221;; que no dia seguinte com uma lei n\u00f3s abol\u00edssemos a Troika e todas as suas consequ\u00eancias.<br \/>\nUm m\u00eas se passou e essa promessa ainda tem que se tornar a\u00e7\u00e3o. Isso \u00e9 uma pena, de fato.<br \/>\nDa minha parte eu pe\u00e7o desculpas ao povo grego por ter contribu\u00eddo para essa ilus\u00e3o.<br \/>\nAntes que a dire\u00e7\u00e3o errada continue.<br \/>\nAntes que seja tarde demais, vamos reagir.<br \/>\nAcima de tudo os integrantes, amigos e apoiadores do Syriza, em reuni\u00f5es de urg\u00eancia em todos os n\u00edveis da organiza\u00e7\u00e3o devem decidir se aceitam essa situa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nAlgumas pessoas dizem que num acordo voc\u00ea deve tamb\u00e9m fazer concess\u00f5es. Por princ\u00edpio, entre o opressor e o oprimido n\u00e3o pode haver acordo por meio de concess\u00f5es, assim como n\u00e3o pode haver entre o escravo e o conquistador; liberdade \u00e9 a \u00fanica solu\u00e7\u00e3o.<br \/>\nMas mesmo se aceita essa absurdidade, as concess\u00f5es que de qualquer modo j\u00e1 foram feitas pelos governos pr\u00f3-memorando anteriores com desemprego, pobreza e suic\u00eddio, est\u00e3o al\u00e9m de qualquer limite de concess\u00e3o.\u201d<br \/>\nN\u00e3o sabemos ainda o resultado dessa convoca\u00e7\u00e3o de Glezos, figura de grande autoridade moral na esquerda grega. Temos que acompanhar os acontecimentos e verificar at\u00e9 que ponto a experi\u00eancia com o Syriza pode avan\u00e7ar para a mobiliza\u00e7\u00e3o, a luta, a a\u00e7\u00e3o direta e a forma\u00e7\u00e3o de uma nova consci\u00eancia e novas organiza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o h\u00e1 sa\u00edda indolor para a crise<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">De certa forma, o povo grego j\u00e1 est\u00e1 acostumado a ver os partidos prometerem uma coisa e entregarem outra. Foi assim que o PASOK e o Nova Democracia, representando respectivamente a \u201cesquerda\u201d e a \u201cdireita\u201d se revezaram no poder nas \u00faltimas d\u00e9cadas. O Syriza seria somente mais um caso. A maioria dos eleitores votou mesmo com a esperan\u00e7a de que, com esse simples gesto do voto, poderia se livrar da &#8220;austeridade&#8221;. Os eleitores acreditaram que, votando no Syriza, poderiam reverter a situa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. A grande quest\u00e3o \u00e9 o que vir\u00e1 depois da decep\u00e7\u00e3o com o atual governo. Depois do Syriza, a pr\u00f3xima alternativa da burguesia pode ser a ultra direita. A ascen\u00e7\u00e3o do Aurora Dourada, partido neonaizsta, tinha sido contida pela elei\u00e7\u00e3o do Syriza, estacionando nos 7% de votos. Um eventual fracasso do Syriza pode levar a um novo crescimento da ultra direita.<br \/>\nA \u00fanica alternativa a isso \u00e9 uma radicaliza\u00e7\u00e3o pela esquerda. Uma parte do eleitorado do Syriza (ou talvez a maior parte), como dissemos, votou com a ilus\u00e3o de que as coisas poderiam se resolver sem rupturas. Outra parte \u00e9 composta dos setores combativos que tem protagonizado mobiliza\u00e7\u00f5es e tentado levar as greves e manifesta\u00e7\u00f5es adiante, enfrentando a pol\u00edcia, ocupando locais de trabalho, etc. Os trabalhadores gregos precisam construir organiza\u00e7\u00f5es independentes dos partidos eleitorais e tamb\u00e9m opostas \u00e0s burocracias sindicais, para lutar por um programa que contemple as suas necessidades. Como disse Glezos, n\u00e3o h\u00e1 acordo poss\u00edvel entre oprimido e opressor, \u00e9 preciso lutar sem tr\u00e9guas pelo fim da opress\u00e3o. Um programa para os trabalhadores gregos ter\u00e1 necessariamente que romper com o Syriza e se chocar de fato com a Troika:<br \/>\n&#8211; n\u00e3o pagamento da d\u00edvida;<br \/>\n&#8211; retirada do euro;<br \/>\n&#8211; nacionaliza\u00e7\u00e3o dos bancos;<br \/>\n&#8211; proibi\u00e7\u00e3o de remessa de dinheiro para o exterior;<br \/>\n&#8211; revoga\u00e7\u00e3o das privatiza\u00e7\u00f5es;<br \/>\n&#8211; estatiza\u00e7\u00e3o, sob controle dos trabalhadores, das empresas que demitirem e fecharem;<br \/>\n&#8211; redu\u00e7\u00e3o da jornada sem redu\u00e7\u00e3o dos sal\u00e1rios, at\u00e9 que haja emprego para todos;<br \/>\n&#8211; sal\u00e1rio m\u00ednimo vital calculado pelas organiza\u00e7\u00f5es dos trabalhadores;<br \/>\n&#8211; reconstru\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os p\u00fablicos;<br \/>\nEssas medidas s\u00e3o as \u00fanicas capazes de reverter o sofrimento do povo grego. Entretanto, elas somente ser\u00e3o poss\u00edveis por meio de uma intensa e massiva mobiliza\u00e7\u00e3o, que \u00e9 preciso construir desde j\u00e1. Ao mesmo tempo, essas medidas encontrar\u00e3o oposi\u00e7\u00e3o cerrada da burguesia grega e europeia, que pode isolar o pa\u00eds com san\u00e7\u00f5es ou mesmo interven\u00e7\u00e3o militar.<br \/>\nPor outro lado, essas medidas devem ser apresentadas juntamente com um chamado \u00e0 solidariedade dos trabalhadores do mundo inteiro. A luta da Gr\u00e9cia \u00e9 uma luta contra o capitalismo, portanto \u00e9 uma luta que interessa a todos os trabalhadores do mundo. A luta contra a &#8220;austeridade&#8221; exige os mesmos passos na Gr\u00e9cia, na periferia europeia e no Brasil. Ao dar esses passos, os trabalhadores gregos estar\u00e3o estabelecendo o exemplo real de como lutar contra &#8220;austeridade&#8221;, exemplo que servir\u00e1 para os trabalhadores em outros pa\u00edses. Essa deve ser a perspectiva dos socialistas revolucion\u00e1rios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este texto \u00e9 uma contribui\u00e7\u00e3o individual, que n\u00e3o necessariamente representa a posi\u00e7\u00e3o do Espa\u00e7o Socialista, e por isso se encontra<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":3812,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":true,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[11,76,64],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3810"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3810"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3810\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5953,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3810\/revisions\/5953"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3812"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3810"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3810"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3810"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}