{"id":39,"date":"2008-12-13T16:14:13","date_gmt":"2008-12-13T16:14:13","guid":{"rendered":"http:\/\/espacosocialista.org\/?q=node\/39"},"modified":"2018-05-04T21:49:54","modified_gmt":"2018-05-05T00:49:54","slug":"a-classe-operaria-vai-ao-paraiso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/2008\/12\/a-classe-operaria-vai-ao-paraiso\/","title":{"rendered":"A classe oper\u00e1ria vai ao para\u00edso"},"content":{"rendered":"<p class=\"MsoBodyTextIndent\" style=\"text-indent: 0cm;\">\n<h1><span style=\"text-transform: uppercase;\">A classe oper\u00e1ria vai ao para\u00edso<\/span><\/h1>\n<h1><\/h1>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent\">\n<p class=\"MsoBodyTextIndent\">\n<p class=\"MsoNormal\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Nome original: La classe operaria va in paradiso<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Produ\u00e7\u00e3o: It\u00e1lia<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Ano: 1971<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Idiomas: Italiano<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Diretor: Elio Petri<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Roteiro: Elio Petri, Ugo Pirro<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Elenco: Gian Maria Volont\u00e9, Mariangela Melato, Gino Pernice, Salvo Randone, Luigi Diberti<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 G\u00eanero: drama<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <span lang=\"EN-US\">Fonte: \u201cThe Internet Movie Database\u201d \u2013 <\/span><a href=\"http:\/\/www.imdb.com\/\">http:\/\/www.imdb.com\/<\/a><span lang=\"EN-US\">\u00a0 <\/span><\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent\">\n<p class=\"MsoBodyTextIndent\">O t\u00edtulo deste artigo n\u00e3o cont\u00e9m nenhuma alus\u00e3o \u00e0 elei\u00e7\u00e3o de Lulla para presidente. Mesmo porque, em tal elei\u00e7\u00e3o, a classe oper\u00e1ria brasileira n\u00e3o chegou ao poder, n\u00e3o teve contemplado nenhum item do seu programa hist\u00f3rico de reivindica\u00e7\u00f5es e muito menos chegou ao para\u00edso. O t\u00edtulo do artigo cont\u00e9m talvez um trocadilho infame, por conta de poder aludir \u00e0 recente ida deste escriba-prolet\u00e1rio ao bairro paulistano do Para\u00edso, onde o Centro Cultural S\u00e3o Paulo projetou um ciclo de filmes italianos (a rigor, banc\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 prolet\u00e1rio, mas conceda-se a licen\u00e7a po\u00e9tica). Dentre os filmes deste ciclo estava \u201cA classe oper\u00e1ria vai ao para\u00edso\u201d, de Elio Petri, realizado em 1971, o qual ser\u00e1 objeto do presente coment\u00e1rio.<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent\">O personagem principal do filme, assim como Lulla, tamb\u00e9m \u00e9 um Lu\u00eds, o italiano Ludovico Massa, apelidado de Lulu. Assim como Lulla, um metal\u00fargico, e como ele, tamb\u00e9m v\u00edtima de um acidente de trabalho, no qual perde um dedo. Mas as semelhan\u00e7as entre os dois param por a\u00ed. Lulu protagoniza apenas e t\u00e3o somente um pequeno epis\u00f3dio de luta sindical. Mas esse epis\u00f3dio vem a ser uma preciosa fonte de ensinamentos sobre o papel da classe oper\u00e1ria na hist\u00f3ria universal da luta de classes.<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent\">A princ\u00edpio, Lulu parece ser o menos indicado para protagonizar qualquer epis\u00f3dio de luta sindical. Ele \u00e9 o oper\u00e1rio-padr\u00e3o, o stakanovista, que se submete voluntariamente a um ritmo desumano de produ\u00e7\u00e3o, na tentativa de ganhar um valor extra no sal\u00e1rio referente a uma premia\u00e7\u00e3o por pe\u00e7a. O movimento sindical local est\u00e1 justamente em luta contra esse sistema de produ\u00e7\u00e3o por pe\u00e7a, que representa um retrocesso em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 remunera\u00e7\u00e3o por tempo de trabalho. Mas Lulu ignora a luta. Pior que isso, presta-se a servir de par\u00e2metro para calibrar a produtividade dos colegas, quando os engenheiros de produ\u00e7\u00e3o passam a exigir que os demais produzam tantas pe\u00e7as\/tempo quanto ele.<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent\">Com isso, Lulu atrai a hostilidade de todos, n\u00e3o s\u00f3 dos colegas e dos militantes sindicais, mas tamb\u00e9m da mulher com quem vive e at\u00e9 de si mesmo, como veremos. Temos aqui um exame cl\u00ednico da condi\u00e7\u00e3o do oper\u00e1rio sob o capitalismo. O oper\u00e1rio-padr\u00e3o, sem consci\u00eancia de classe, acredita que o trabalho duro pode lhe dar os meios para melhorar de vida. Por acreditar nisso, persegue caninamente as metas tra\u00e7adas pelos patr\u00f5es. Mas o dinheiro nunca \u00e9 o bastante para satisfazer a todas as necessidades. O desgaste f\u00edsico e mental impede que o trabalhador obtenha alguma frui\u00e7\u00e3o at\u00e9 mesmo dos objetos de consumo aos quais tem acesso.<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent\">De nada serve uma casa mobiliada, de nada serve a televis\u00e3o, que apenas apascenta o c\u00e9rebro, sem aliment\u00e1-lo com nada \u00fatil. Ali\u00e1s, se tivesse algum interesse em cultura, Lulu n\u00e3o teria tempo nem for\u00e7as para dedicar-se \u00e0 atividade de apreciar qualquer forma de arte ou literatura. Nem sequer a satisfa\u00e7\u00e3o sexual ele consegue devido \u00e0 devasta\u00e7\u00e3o f\u00edsica do trabalho. Ou seja, em todos os sentidos, o trabalhador \u00e9 um ser mutilado, um homem pela metade, um rebotalho esmagado e triturado diariamente pela rotina massacrante. Lulu gira em c\u00edrculos com sua raiva, frustra\u00e7\u00e3o, des\u00e2nimo, sem saber como encontrar a solu\u00e7\u00e3o para a exist\u00eancia auto-destrutiva em que vive.<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent\">A solu\u00e7\u00e3o somente ser\u00e1 descoberta ao custo de muita luta e sofrimento. Trata-se de uma solu\u00e7\u00e3o que vai al\u00e9m da problem\u00e1tica de um \u00fanico indiv\u00edduo, mas envolve a totalidade dos seres humanos submetidos ao capitalismo. Didaticamente, somos apresentados ao longo do filme aos quatro momentos da aliena\u00e7\u00e3o descritos na an\u00e1lise cl\u00e1ssica de Marx:<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.45pt;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.45pt;\">1. O homem se aliena dos resultados do seu trabalho, dos objetos sob a forma de mercadoria, da materialidade circundante em geral. O oper\u00e1rio Lulu Massa se encontra em sua casa cercado de objetos sem utilidade e sem valor, que depois de adquiridos n\u00e3o podem ser consumidos nem sequer revendidos, que dirigem a sua vida e dos quais n\u00e3o pode sequer usufruir. O status de vida pequeno-burguesa ambicionado por sua companheira sacrifica at\u00e9 a conviv\u00eancia no ambiente do lar, tornado infernal por brigas constantes. Na civiliza\u00e7\u00e3o burguesa \u00e9 mais importante conservar os objetos do que satisfazer os seres humanos.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.45pt;\">2. O homem se auto-aliena no processo de trabalho. O processo de trabalho n\u00e3o \u00e9 a realiza\u00e7\u00e3o, mas a nega\u00e7\u00e3o do homem. Aqui ele se sente objeto e n\u00e3o sujeito. O homem se torna um ap\u00eandice das m\u00e1quinas. O oper\u00e1rio-modelo Lulu escraviza-se ao ritmo repetitivo das m\u00e1quinas, esfor\u00e7ando-se para cumprir cotas de produ\u00e7\u00e3o e superar os demais oper\u00e1rios. Ele haure motiva\u00e7\u00e3o inserindo conota\u00e7\u00e3o sexual aos seus gestos. Trabalha repetindo para si mentalmente o refr\u00e3o: \u201cuma pe\u00e7a, um rabo, uma pe\u00e7a, um rabo, uma pe\u00e7a, um rabo\u201d, desviando para a atividade de trabalho o desejo sexual por uma colega de trabalho.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.45pt;\">O trabalho \u00e9 uma atividade torturante que n\u00e3o tem significado em si, mas \u00e9 necess\u00e1rio como meio de sobreviv\u00eancia. O homem se desumaniza quando trabalha, pois torna-se m\u00e1quina, animal de carga. O trabalho \u00e9 sua tortura e n\u00e3o sua realiza\u00e7\u00e3o. O trabalhador se sente humano quando est\u00e1 fora do trabalho e n\u00e3o dentro dele. E no entanto, este \u201csentir-se humano\u201d \u00e9 um mero intervalo escapista no qual n\u00e3o s\u00e3o permitidas outras atividades criativas, nem sequer o sexo, pois o intervalo se destina apenas a repor as for\u00e7as do animal-trabalhador para a jornada seguinte.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.45pt;\">3. O homem se aliena em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 finalidade do seu trabalho. O resultado do dia de trabalho de um oper\u00e1rio \u00e9 uma por\u00e7\u00e3o de objetos que lhe s\u00e3o estranhos, indiferentes. O oper\u00e1rio \u00e9 considerado louco porque n\u00e3o consegue ver o sentido humano daquilo que faz, o que torna o seu trabalho desumano. O velho Militina, ex-oper\u00e1rio internado no manic\u00f4mio, explica a Lulu que a sua loucura foi diagnosticada quando inquiriu da dire\u00e7\u00e3o da f\u00e1brica o destino daquilo que produziu. Por que produziu parafusos durante a vida inteira? Para onde iam os parafusos? Qual seria o seu uso? Como continuar trabalhando sem saber o uso a ser dado ao produto do seu trabalho? Al\u00e9m de instigar essas interroga\u00e7\u00f5es no espectador, a visita de Lulu a Militina proporciona uma cole\u00e7\u00e3o de frases de efeito, que s\u00e3o um dos momentos altos do filme.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.45pt;\">4. Sob o capitalismo, o oper\u00e1rio deve se contentar em vender a sua for\u00e7a de trabalho ao capitalista e adquirir em troca a possibilidade do consumo, sem o direito de questionar para que trabalha e porque deve consumir o que lhe \u00e9 oferecido. Ele tem um papel na sociedade, o qual lhe cabe cumprir servilmente. N\u00e3o lhe \u00e9 dado opinar, decidir, escolher, propor nada, visto que a administra\u00e7\u00e3o da sociedade est\u00e1 totalmente fora de seu alcance, entregue a um mecanismo distante e impessoal. Lulu n\u00e3o sabe nem sequer quem \u00e9 o propriet\u00e1rio da f\u00e1brica, a pessoa que dirige o empreendimento. N\u00e3o h\u00e1 mais um capitalista empreendedor. H\u00e1 uma sociedade de pessoas que participam em maior ou menor grau da propriedade capitalista. Uma sociedade de pessoas que se p\u00f5em em rela\u00e7\u00e3o ao dinheiro como meios para o fim da acumula\u00e7\u00e3o. Nessa medida, o capitalista \u00e9 t\u00e3o alienado quanto o trabalhador, embora a aliena\u00e7\u00e3o tenha diferentes efeitos sobre cada um.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.45pt;\">Nessa \u00faltima dimens\u00e3o do processo, o trabalhador acaba alienado de si mesmo como homem e dos outros homens. Para o capital, \u00e9 indiferente a individualidade das pessoas de que se serve. Lulu encarna essa mentalidade quando n\u00e3o se interessa sequer pelo nome dos oper\u00e1rios a quem d\u00e1 treinamento. S\u00f3 interessam ao capital como fonte de for\u00e7a de trabalho. O homem deixa de ser sujeito e de ter valor enquanto indiv\u00edduo, para ser mero reposit\u00f3rio quantitativo de for\u00e7a de trabalho. O homem se torna estranho para outro homem e para si mesmo.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.45pt;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.45pt;\">Essas quatro formas de aliena\u00e7\u00e3o, naturalmente, se articulam e se sobrep\u00f5em simultaneamente. Para desvendar alguns desses tra\u00e7os de aliena\u00e7\u00e3o peculiares \u00e0 figura hist\u00f3rica do trabalhador assalariado, Lulu ser\u00e1 v\u00edtima de um acidente de trabalho. No esfor\u00e7o de cumprir as cotas, sofre um acidente e perde um dedo, ficando incapacitado de trabalhar no mesmo ritmo. Sem a possibilidade de vender sua for\u00e7a de trabalho, o trabalhador perde aquilo que define o seu ser. Mas o aspecto humano do problema nunca \u00e9 levado em considera\u00e7\u00e3o. O homem n\u00e3o interessa sen\u00e3o como m\u00e1quina. O capital, interessado em restituir o mesmo n\u00edvel de produtividade ao oper\u00e1rio mutilado, manda-o ao psic\u00f3logo, encarregado de convenc\u00ea-lo a voltar para a \u201cnormalidade\u201d.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.45pt;\">O incidente com Lulu \u00e9 o ponto de partida para conflitos sindicais que culminam na demiss\u00e3o dele. Na condi\u00e7\u00e3o de desempregado, Lulu encara a sua posi\u00e7\u00e3o de indiv\u00edduo deformado pelo capital, vendedor de for\u00e7a de trabalho, consumidor de mercadorias, incapaz de corresponder \u00e0 expectativa da fam\u00edlia, dos companheiros de trabalho e do capital simultaneamente. Ele conscientiza-se da pr\u00f3pria aliena\u00e7\u00e3o, e paulatinamente se integra na atua\u00e7\u00e3o sindical, que culmina na sua readmiss\u00e3o ao emprego. Mas ele n\u00e3o \u00e9 mais o mesmo oper\u00e1rio modelo e n\u00e3o tem mais as mesmas ilus\u00f5es de realiza\u00e7\u00e3o dentro do consumismo.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.45pt;\">Ele aprende que \u00e9 preciso derrubar um \u201cmuro\u201d, met\u00e1fora das condi\u00e7\u00f5es sociais capitalistas, que separam os indiv\u00edduos da sua humanidade. \u00c9 preciso superar a aliena\u00e7\u00e3o. Entretanto, isso \u00e9 mais f\u00e1cil de dizer do que fazer. Que o digam os ativistas que militam na porta da f\u00e1brica. Diariamente, um grupo de agitadores, de megafone em punho, enfrenta a brutal indiferen\u00e7a dos oper\u00e1rios que entram na f\u00e1brica sem dar a m\u00ednima para o seu discurso, jogando ao ch\u00e3o os panfletos t\u00e3o logo os apanham, como uma manada de seres irracionais.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.45pt;\">O filme n\u00e3o deixa de ser tamb\u00e9m o documento de um momento peculiar da luta de classes na It\u00e1lia da d\u00e9cada de 1970. Naquele momento viveu-se um importante ascenso das lutas sociais no pa\u00eds. Greves e mobiliza\u00e7\u00f5es foram cruciais para elevar o n\u00edvel de vida da classe trabalhadora italiana ao n\u00edvel de seus vizinhos europeus. Mas a constru\u00e7\u00e3o desse movimento n\u00e3o foi f\u00e1cil, tranq\u00fcila, linear ou uniforme. O filme toma partido a favor dos oper\u00e1rios, mas n\u00e3o deixa de apontar as limita\u00e7\u00f5es e contradi\u00e7\u00f5es do movimento.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.45pt;\">Os ativistas que militam na porta da f\u00e1brica est\u00e3o divididos em dois grupos. De um lado, os sindicalistas ligados \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o da esquerda reformista, que desejam lutas parciais sem confronta\u00e7\u00e3o aberta para obter pequenos avan\u00e7os \u00e0 custa de um m\u00ednimo de mobiliza\u00e7\u00e3o e muita negocia\u00e7\u00e3o. De outro, os militantes estudantis ligados \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o da esquerda revolucion\u00e1ria que querem transformar a sociedade como um todo e precisam convencer os oper\u00e1rios de que esse \u00e9 o seu papel. Sobre um dos lados, pesa a suspeita de oportunismo. Sobre o outro, a de apenas fazer discursos e n\u00e3o pertencer \u00e0quela realidade.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.45pt;\">Ali\u00e1s, os estudantes n\u00e3o pertencem \u00e0 realidade nenhuma. Nem sequer s\u00e3o propriamente \u201cestudantes\u201d. Moram na universidade, circulam de uma luta a outra, fomentando greves, foragidos da pol\u00edcia. Refugiam-se inclusive na casa de Lulu, o que precipita o fim do relacionamento com sua companheira. Os revolucion\u00e1rios n\u00e3o tomam o poder, mas revolucionam a vida de Lulu.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.45pt;\">Respira-se nesse momento um pouco da atmosfera dos anos 1960. Naquele grande impulso libert\u00e1rio, tentava-se superar todas as formas de poder que escravizavam a humanidade: capitalismo, stalinismo, farisa\u00edsmo, patriarcado, machismo, autoritarismo, academicismo, etc. Tentava-se mudar tudo ao mesmo tempo, e para isso, era aceit\u00e1vel buscar qualquer tipo de caminho. Tudo era permitido e nada era proibido. Era indiferente inclusive ficar desempregado, como o estudante diz a Lulu. A vida pode ser vivida de qualquer maneira, n\u00e3o tem que ser obrigatoriamente da maneira determinada pela sociedade tradicional.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.45pt;\">Claro que isso expressa muito mais debilidade organizativa do que viabilidade program\u00e1tica da parte do setor revolucion\u00e1rio do movimento. Esse vago aspecto libert\u00e1rio \u00e9 marginal em rela\u00e7\u00e3o ao peso e opacidade dos v\u00edcios da esquerda tradicional, mesmo aquela organizada em grupos revolucion\u00e1rios. Se o apelo dos revolucion\u00e1rios parece honesto e sedutor, prova-se tamb\u00e9m ao final prec\u00e1rio e materialmente vago. Entretanto, o sindicalismo reformista, potencialmente oportunista e pelego, n\u00e3o fica muito atr\u00e1s em incompet\u00eancia.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.45pt;\">Na verdade, os oper\u00e1rios ignoram os dois grupos o quanto podem. A aliena\u00e7\u00e3o \u00e9 um sofrimento, mas \u00e9 um sofrimento com o qual podem conviver e preferem se conformar. J\u00e1 a luta emancipat\u00f3ria provoca choques e embates, interiores e exteriores, exige sacrif\u00edcios e escolhas, colocando ao indiv\u00edduo a tarefa de posicionar-se. E isso ningu\u00e9m quer. O acidente com Lulu o obriga a tomar parte das mobiliza\u00e7\u00f5es. Por meio de seu caso individual temos um exemplo dos passos e percal\u00e7os que atravessam o avan\u00e7o da consci\u00eancia de classe. Todo esse epis\u00f3dio faz com que um oper\u00e1rio adquira o conhecimento da for\u00e7a de sua mobiliza\u00e7\u00e3o individual e coletiva. Mas ao final, tudo volta ao normal, com um pequeno avan\u00e7o, e o sonho de derrubar o muro da aliena\u00e7\u00e3o plantado em mais consci\u00eancias.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.45pt;\">Por meio da greve e da mobiliza\u00e7\u00e3o coletiva os oper\u00e1rios realizam o seu aprendizado pol\u00edtico. Percebem o poder da a\u00e7\u00e3o coletiva, a import\u00e2ncia do debate democr\u00e1tico, a sentimento da lealdade m\u00fatua, a necessidade de organiza\u00e7\u00e3o. Tomam o primeiro passo em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 descoberta final, a mais radical de todas, que ser\u00e1 a da inutilidade social da classe propriet\u00e1ria e da possibilidade e necessidade dos trabalhadores governarem suas pr\u00f3prias vidas, atrav\u00e9s da emancipa\u00e7\u00e3o de seu trabalho da regra do capital.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Se o filme \u00e9 um documento da situa\u00e7\u00e3o particular da luta de classes na It\u00e1lia de 1971, serve tamb\u00e9m como documento das dificuldades da esquerda em geral de fazer avan\u00e7ar seu programa hist\u00f3rico. A esquerda reformista e a revolucion\u00e1ria v\u00e3o disputar o espa\u00e7o na consci\u00eancia dos trabalhadores e acabam por faz\u00ea-la avan\u00e7ar. Mas isso n\u00e3o ser\u00e1 feito sem lutas e sem traumas. Os dois programas podem em determinado momento parecer pass\u00edveis de unifica\u00e7\u00e3o por projetarem no limite um mesmo alvo, mas a sua marcha em dire\u00e7\u00e3o a esse alvo n\u00e3o se d\u00e1 sem contradi\u00e7\u00f5es. A divis\u00e3o fratricida da esquerda sempre impressiona, mas n\u00e3o mais do que o alheamento dos oper\u00e1rios em rela\u00e7\u00e3o ao discurso de ambos os grupos. Nem o agrupamento dos radicais nem o dos moderados conseguem inser\u00e7\u00e3o org\u00e2nica no seio dos trabalhadores. Permanecem sendo elementos estranhos, alien\u00edgenas.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.45pt;\">A tarefa de levar a consci\u00eancia de classe aos trabalhadores permanece sendo um dilema das organiza\u00e7\u00f5es de esquerda, tamb\u00e9m aqui no nosso mundo real bastante distante do para\u00edso. Ao final, o filme parece terminar com uma nota otimista, pois demonstra que a consci\u00eancia se produz na luta direta, fomentando a dial\u00e9tica entre os discursos da vanguarda organizada e os impulsos espont\u00e2neos dos trabalhadores. Aos trancos e barrancos, essa dial\u00e9tica avan\u00e7a. N\u00e3o h\u00e1 solu\u00e7\u00f5es m\u00e1gicas na constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade emancipada. H\u00e1 um lento tatear no escuro, em que se aprende fazendo e se faz aprendendo.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">Daniel M. Delfino<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">08\/09\/2005<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p style=\"text-indent: 0cm;\" class=\"MsoBodyTextIndent\"><o:p>&nbsp;<\/o:p><\/p>\n<h1><span style=\"text-transform: uppercase;\">A classe oper&aacute;ria vai ao para&iacute;so<o:p><\/o:p><\/span><\/h1>\n<h1><o:p>&nbsp;<\/o:p><\/h1>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent\"><o:p>&nbsp;<\/o:p><\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent\"><o:p>&nbsp;<\/o:p><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><span style=\"\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <\/span>Nome original: La classe operaria va in paradiso<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[9,76],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/39"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=39"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/39\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6143,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/39\/revisions\/6143"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=39"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=39"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=39"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}