{"id":3938,"date":"2015-05-16T19:46:29","date_gmt":"2015-05-16T22:46:29","guid":{"rendered":"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/?p=3938"},"modified":"2018-05-04T18:51:35","modified_gmt":"2018-05-04T21:51:35","slug":"jornal-78-o-que-e-socialismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/2015\/05\/jornal-78-o-que-e-socialismo\/","title":{"rendered":"Jornal 78: O que \u00e9 Socialismo?"},"content":{"rendered":"<h2><a href=\"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/66.jpg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-medium wp-image-3931\" style=\"float: left; margin: 3px;\" src=\"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/66-300x225.jpg\" alt=\"66\" width=\"300\" height=\"225\" srcset=\"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/66-300x225.jpg 300w, https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/66-80x60.jpg 80w, https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/66.jpg 550w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/h2>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>Duas dificuldades<\/h2>\n<p>A resposta a essa quest\u00e3o enfrenta dois problemas. O primeiro se relaciona ao fato de que o desenvolvimento da humanidade, com frequ\u00eancia, cria possibilidades novas, antes inexistentes, que fazem com que a imagina\u00e7\u00e3o do que seria o seu futuro seja, quase sempre, uma tarefa in\u00fatil. Marx e Engels recusaram todo futurologismo, isto \u00e9, dizer como seria uma sociedade em que n\u00e3o houvesse a explora\u00e7\u00e3o do homem pelo homem. Essa a primeira dificuldade: n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel afirmar com precis\u00e3o aquilo que os seres humanos poder\u00e3o fazer no futuro.<br \/>\nA segunda dificuldade diz respeito ao pr\u00f3prio socialismo.<br \/>\nEscravismo, feudalismo e capitalismo, n\u00f3s sabemos o que s\u00e3o. S\u00e3o as formas de organiza\u00e7\u00e3o social que se baseiam nas formas t\u00edpicas do trabalho explorado (do trabalho alienado). O trabalho escravo \u00e9 a base do modo de produ\u00e7\u00e3o escravista, o trabalho do servo \u00e9 o alicerce do feudalismo e, o trabalho prolet\u00e1rio, do capitalismo1.<br \/>\nComunismo \u2013 ainda que nunca o tenhamos conhecido \u2013 tamb\u00e9m tem uma defini\u00e7\u00e3o clara, precisa: \u00e9 o modo de produ\u00e7\u00e3o que tem por base o trabalho associado (ou seja, n\u00e3o alienado, n\u00e3o explorado). Por n\u00e3o ter por base a explora\u00e7\u00e3o do homem pelo homem, o comunismo ser\u00e1 uma forma de organiza\u00e7\u00e3o social sem Estado, propriedade privada, classes sociais ou fam\u00edlia monog\u00e2mica (trataremos do comunismo no pr\u00f3ximo Jornal Espa\u00e7o Socialista).<br \/>\nSocialismo, contudo, \u00e9 algo diferente. O socialismo \u00e9 a etapa hist\u00f3rica de transi\u00e7\u00e3o entre o modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista e o modo de produ\u00e7\u00e3o comunista. Suas caracter\u00edsticas depender\u00e3o, portanto, de onde se iniciar a transi\u00e7\u00e3o. Em uma sociedade mais desenvolvida, as tarefas imediatas da transi\u00e7\u00e3o ser\u00e3o muito diferentes das de uma sociedade mais atrasada. Dependendo do patamar do desenvolvimento das for\u00e7as produtivas, a humanidade pode ter problemas, desafios e possibilidades muito diferentes para a transi\u00e7\u00e3o do capitalismo ao comunismo.<br \/>\nPor isso, ao contr\u00e1rio do capitalismo, do feudalismo, do escravismo e do comunismo, o socialismo s\u00f3 pode ser definido como uma transi\u00e7\u00e3o. Diferente do capitalismo que tem em sua base o trabalho prolet\u00e1rio, do feudalismo que se alicer\u00e7a no trabalho servil, do modo de produ\u00e7\u00e3o escravista, que se baseia no trabalho escravo, o socialismo \u00e9 a passagem do trabalho prolet\u00e1rio ao trabalho associado, da sociedade capitalista \u00e0 sociedade comunista. N\u00e3o h\u00e1 um modo espec\u00edfico de trabalho (como o trabalho escravo, o prolet\u00e1rio, etc.) que seja a base do socialismo. Nesse preciso sentido, o socialismo n\u00e3o \u00e9 um modo de produ\u00e7\u00e3o, mas a passagem do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista ao modo de produ\u00e7\u00e3o comunista.<br \/>\nDentro de limites \u2013 portanto, sem futurologismo e sem perdermos de vista o seu car\u00e1ter passageiro, transit\u00f3rio \u2013 \u00e9 poss\u00edvel dar uma resposta \u00e0 quest\u00e3o sobre o que \u00e9 o socialismo.<a href=\"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/6.jpg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-medium wp-image-3927\" style=\"float: right; margin: 3px;\" src=\"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/6-300x281.jpg\" alt=\"6\" width=\"300\" height=\"281\" srcset=\"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/6-300x281.jpg 300w, https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/6.jpg 476w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<h2>A resposta<\/h2>\n<p>Marx e Engels conheceram apenas uma experi\u00eancia revolucion\u00e1ria que deu os primeiros passos dessa transi\u00e7\u00e3o: a Comuna de Paris, de 1871. Os trabalhadores formaram, por 73 dias, um governo pr\u00f3prio \u2013 e a forma dessa organiza\u00e7\u00e3o serviu para as primeiras an\u00e1lises sobre a transi\u00e7\u00e3o. N\u00f3s conhecemos, no s\u00e9culo 20, v\u00e1rias experi\u00eancias revolucion\u00e1rias (Revolu\u00e7\u00e3o Russa, Revolu\u00e7\u00e3o Chinesa, Guerra Civil Espanhola, etc.), que tamb\u00e9m, cada uma a seu modo, com suas diferen\u00e7as, serve de exemplos para nosso estudo. Os processos revolucion\u00e1rios e os primeiros momentos da consolida\u00e7\u00e3o do novo poder fornecem ind\u00edcios interessantes para respondermos a quest\u00e3o sobre o socialismo, j\u00e1 que alguns elementos estiveram sempre presentes:<br \/>\n1) a tomada do poder pelos trabalhadores tem sido, sempre, o resultado de uma intensa luta contra os exploradores. Nessa luta, as for\u00e7as armadas, a pol\u00edcia, o Estado, a burocracia e todos os instrumentos que servem para manter os trabalhadores sendo explorados pelos capitalistas come\u00e7am a se dissolver, at\u00e9 desaparecerem quase completamente. No interior das f\u00e1bricas e das fazendas, prolet\u00e1rios e camponeses tomam o poder e come\u00e7am a organizar, eles pr\u00f3prios, a produ\u00e7\u00e3o. A dissolu\u00e7\u00e3o do velho poder \u00e9 causada pela press\u00e3o das massas revolucion\u00e1rias, pelos embates e pela viol\u00eancia que \u00e9 inerente a todas as revolu\u00e7\u00f5es.<br \/>\nNo ano de 1917, na R\u00fassia, o ex\u00e9rcito e a pol\u00edtica, a burocracia estatal e o governo foram perdendo for\u00e7as e sendo substitu\u00eddos pela auto-organiza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores e soldados. Eles criaram uma forma nova de organiza\u00e7\u00e3o do poder militar e pol\u00edtico, o soviet (conselho). O soviet era muito parecido a como os trabalhadores organizaram seu autogoverno na Comuna de Paris, quase 50 anos antes.<br \/>\nA mais vis\u00edvel caracter\u00edstica do socialismo \u00e9 a destrui\u00e7\u00e3o do velho Estado da classe dominante, a dissolu\u00e7\u00e3o de todos os instrumentos que serviam para dominar os trabalhadores e sua substitui\u00e7\u00e3o por uma nova forma de poder.<br \/>\n2) A nova forma de governo \u00e9 a auto-organiza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores. Para dar conta das tarefas de transi\u00e7\u00e3o ao comunismo, nas experi\u00eancias que conhecemos, essa nova forma sempre assumiu algumas caracter\u00edsticas:<br \/>\n&#8211; termina a separa\u00e7\u00e3o entre o legislativo e o executivo, t\u00edpico dos governos burgueses. Agora, o mesmo corpo que toma as decis\u00f5es tamb\u00e9m as leva \u00e0 pr\u00e1tica, os acertos e os erros podem ser rapidamente aproveitados ou corrigidos, conforme o caso.<br \/>\n&#8211; os representantes dos trabalhadores s\u00e3o, mesmo, \u201crepresentantes\u201d. Ou seja, s\u00e3o eleitos para cumprirem determinadas tarefas por um per\u00edodo limitado de tempo e, se n\u00e3o corresponderem aos que representam ou se n\u00e3o forem capaz de cumprir as tarefas, podem ser substitu\u00eddos por um novo representante tamb\u00e9m indicado pela base \u2013 autonomamente, sem qualquer autoriza\u00e7\u00e3o ou controle de qualquer inst\u00e2ncia que seja.<br \/>\n&#8211; os representantes n\u00e3o podem ser sempre os mesmos, h\u00e1 rotatividade.<br \/>\n&#8211; o sal\u00e1rio de um representante \u00e9 o mesmo que de um trabalhador.<br \/>\n3) a repress\u00e3o social fica a cargo dos trabalhadores em armas. N\u00e3o haver\u00e1 mais um ex\u00e9rcito profissional, policiais, carcereiros etc., os pr\u00f3prios trabalhadores, em armas, organizar\u00e3o as formas que ainda forem necess\u00e1rias de repress\u00e3o. Sendo um governo e uma for\u00e7a p\u00fablica armada dos trabalhadores, a repress\u00e3o ser\u00e1 contra as for\u00e7as da contrarrevolu\u00e7\u00e3o e, n\u00e3o, sobre os trabalhadores. Mil\u00edcia, no dizer da Comuna de Paris, n\u00e3o mais um ex\u00e9rcito e pol\u00edcia como \u00e9 na ordem burguesa.<br \/>\n4) Um governo formado por representantes dos trabalhadores (que podem ser removidos a qualquer momento pela base, lembremos), uma mil\u00edcia composta pelos trabalhadores em armas s\u00e3o iniciativas que se articulam com a organiza\u00e7\u00e3o da vida social em novas bases. Como ser\u00e1 organizada a produ\u00e7\u00e3o em cada f\u00e1brica, em cada cidade ou como ser\u00e1 organizada a Educa\u00e7\u00e3o em cada bairro, como ser\u00e3o criadas as crian\u00e7as menores, como ser\u00e1 o abastecimento de \u00e1gua, energia el\u00e9trica, etc. \u2013 s\u00e3o quest\u00f5es, entre muitas outras, que ser\u00e3o decididas pelas pessoas e comunidades diretamente envolvidas. A autonomia dos indiv\u00edduos e a autonomia das comunidades locais s\u00e3o condi\u00e7\u00f5es para a coopera\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria e consciente de todos os indiv\u00edduos que comp\u00f5em a humanidade.<\/p>\n<h2>O trabalho associado<\/h2>\n<p>Todavia, essas profundas e importantes inova\u00e7\u00f5es que a revolu\u00e7\u00e3o traz para a organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e social n\u00e3o s\u00e3o suficientes para conduzir o processo de transi\u00e7\u00e3o ao comunismo, porque se limitam \u00e0s esferas da pol\u00edtica e da vida social. Se essas inova\u00e7\u00f5es n\u00e3o forem, ao mesmo tempo, acompanhadas pela substitui\u00e7\u00e3o crescente pelo trabalho associado do trabalho prolet\u00e1rio (isto \u00e9, o trabalho explorado do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista), o capital voltar\u00e1 a dominar a sociedade mais cedo ou mais tarde. A consolida\u00e7\u00e3o e o avan\u00e7o pol\u00edtico e social que a revolu\u00e7\u00e3o traz n\u00e3o podem se consolidar e avan\u00e7ar para o comunismo se n\u00e3o houver a substitui\u00e7\u00e3o do trabalho proletariado pelo trabalho associado em um espa\u00e7o de tempo n\u00e3o muito longo. Temos, com isso, a quinta caracter\u00edstica importante do socialismo: o revolucionamento da produ\u00e7\u00e3o pela entrada do trabalho associado.<br \/>\nO trabalho associado apenas pode existir em condi\u00e7\u00f5es sociais muito espec\u00edficas: a capacidade produtiva deve ser muito maior do que todas as necessidades de todos os indiv\u00edduos que comp\u00f5em a humanidade. Marx e Engels calculavam que, em seus dias, se todos os indiv\u00edduos capazes trabalhassem, seria preciso uma jornada de 40 horas por semana para produzir tudo o que a humanidade necessitava. Hoje, precisar\u00edamos trabalhar poucos minutos por dia2.<br \/>\nEsse \u00e9 o significado da abund\u00e2ncia: no modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista, para que os lucros sejam os mais elevados, aqueles que trabalham precisam cumprir jornadas de 8 ou mais horas por dia, enquanto uma enorme parte dos trabalhadores \u00e9 condenada ao desemprego. No socialismo, pelo contr\u00e1rio, precisar\u00edamos trabalhar ridiculamente pouco para produzirmos o que necessitamos.<br \/>\nNa esfera da produ\u00e7\u00e3o, a primeira tarefa do socialismo \u00e9 trazer todos para trabalhar. N\u00e3o apenas os desempregados, mas TODOS. Isso significa que passar\u00e3o a trabalhar todos aqueles que exerciam atividades como a pol\u00edcia, o ex\u00e9rcito (que deixaram de existir), o funcionalismo p\u00fablico, os empregados nos sistemas administrativos das empresas, etc. A jornada de trabalho deve ser rapidamente reduzida de forma significativa \u2013 devendo se reduzir cada vez mais conforme se avan\u00e7a para o comunismo.<br \/>\nComo todos estar\u00e3o produzindo para o consumo de todos, como se trabalha muito menos horas e consome-se muito mais do que na velha ordem burguesa, o interesse comum passa a ser a mais eficiente colabora\u00e7\u00e3o de todos com todos. Quanto melhor a colabora\u00e7\u00e3o, todos trabalham menos e, ainda, podem consumir, assim o desejando, ainda mais. A colabora\u00e7\u00e3o (n\u00e3o mais a concorr\u00eancia) passa a ser a necessidade cotidiana de todos. A organiza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o vai deixando de ser a organiza\u00e7\u00e3o e controle das pessoas para se concentrar na administra\u00e7\u00e3o das coisas e dos processos de produ\u00e7\u00e3o: algo muito mais simples e que n\u00e3o requer todos os mecanismos de controle da produ\u00e7\u00e3o capitalista.<br \/>\nNecessitando-se de um menor controle precisam-se de menos pessoas a ele dedicadas: mais gente pode ser deslocada para a produ\u00e7\u00e3o, com isso a jornada de trabalho pode ser ainda menor e assim sucessivamente. A economia passa a funcionar por outro crit\u00e9rio: ao inv\u00e9s do lucro, o &#8220;tempo dispon\u00edvel&#8221; para todos viverem a vida que desejarem. Quanto menos tempo necess\u00e1rio de trabalho, maior o &#8220;tempo dispon\u00edvel&#8221;.<br \/>\nO trabalho no socialismo deixa de ser exercido pelo controle da classe dominante sobre os trabalhadores e passa a ser a colabora\u00e7\u00e3o livre, volunt\u00e1ria e consciente de todos os seres humanos com a finalidade de produzirem o que necessitam. Isto \u00e9 o trabalho associado.<br \/>\nA substitui\u00e7\u00e3o, a mais r\u00e1pida pratic\u00e1vel, do trabalho prolet\u00e1rio pelo trabalho associado \u00e9 o que caracteriza o socialismo do ponto de vista da produ\u00e7\u00e3o: como vimos, esta \u00e9 sua quinta caracter\u00edstica, ao lado da substitui\u00e7\u00e3o do Estado pela Comuna ou Soviet, a substitui\u00e7\u00e3o do ex\u00e9rcito e da pol\u00edtica pela mil\u00edcia dos trabalhadores em armas, a cria\u00e7\u00e3o de um governo com representantes que podem ser removidos a qualquer momento pela base e que recebem o mesmo sal\u00e1rio dos trabalhadores e, por fim, a auto-organiza\u00e7\u00e3o e autonomia dos trabalhadores em todas as esferas, mas principalmente na produ\u00e7\u00e3o.<br \/>\nTudo isso nos conduz \u00e0 sexta caracter\u00edstica do socialismo: a Internacional<\/p>\n<h2>A Internacional<\/h2>\n<p>A humanidade hoje se organiza em pa\u00edses. Os pa\u00edses s\u00e3o, se bem analisados, nada mais do que um territ\u00f3rio dominado por um Estado que \u00e9 a express\u00e3o pol\u00edtica do dom\u00ednio de uma classe exploradora sobre os trabalhadores. O que hoje se chama de na\u00e7\u00e3o ou de pa\u00eds \u2013 e o patriotismo que faz parte de sua ideologia \u2013 nada mais s\u00e3o do que a express\u00e3o, em nossos dias, do dom\u00ednio da burguesia sobre o proletariado em um territ\u00f3rio determinado.<br \/>\nNo mundo que conhecemos, a concorr\u00eancia existente entre as classes dominantes se expressa na concorr\u00eancia, que leva \u00e0 guerra, entre os pa\u00edses. A coopera\u00e7\u00e3o de todos os trabalhadores, de todos os pa\u00edses vai eliminar a concorr\u00eancia e a oposi\u00e7\u00e3o entre as na\u00e7\u00f5es que hoje conhecemos. Apenas ser\u00e1 poss\u00edvel reduzir a jornada de trabalho de forma significativa se a coopera\u00e7\u00e3o entre os trabalhadores dos, hoje, distintos pa\u00edses for se tornando cada vez mais forte e intensa. Uma coopera\u00e7\u00e3o internacional dar\u00e1 origem a uma organiza\u00e7\u00e3o mundial dos trabalhadores.<br \/>\nDaqui a sexta caracter\u00edstica importante do socialismo: n\u00e3o haver\u00e1 mais pa\u00edses e fronteiras como hoje conhecemos. Todos os humanos ser\u00e3o cada vez mais (lembremos: o socialismo \u00e9 um processo de transi\u00e7\u00e3o ao comunismo) trabalhadores associados e, cada vez mais, a coopera\u00e7\u00e3o internacional impor\u00e1 uma organiza\u00e7\u00e3o internacional da produ\u00e7\u00e3o. Esse governo internacional dos trabalhadores \u00e9 o que o movimento revolucion\u00e1rio cl\u00e1ssico (isto \u00e9, da \u00e9poca de Marx, Engels, Lenin, Rosa Luxemburgo, etc.) denominava de a Internacional. A cria\u00e7\u00e3o e fortalecimento da Internacional, o governo mundial dos trabalhadores \u00e9 a sexta caracter\u00edstica importante do socialismo.<\/p>\n<p>Socialismo e Comunismo<br \/>\nFrente ao capitalismo, o socialismo \u00e9 quase um para\u00edso que parece imposs\u00edvel de ser atingido.<br \/>\nTrabalhar um ou mais dias por semana, ter acesso a todos os bens produzidos pela humanidade, participar das decis\u00f5es e do poder todos os que trabalham \u00e9, para nossos dias, um para\u00edso quase inimagin\u00e1vel (lembremos, o velho Estado ser\u00e1 substitu\u00eddo pela mil\u00edcia dos trabalhadores em armas e pela auto-organiza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores).<br \/>\nTodavia, ainda n\u00e3o \u00e9 o comunismo. O socialismo, por ser uma fase de transi\u00e7\u00e3o, ainda cont\u00e9m restos do velho passado. A classe dominante, enquanto existir tentar\u00e1 sabotar a produ\u00e7\u00e3o, inviabilizar o socialismo e para impedi-la a mil\u00edcia dos trabalhadores em armas \u00e9 imprescind\u00edvel. Apenas pela for\u00e7a pode-se impedir a contrarrevolu\u00e7\u00e3o: pois \u00e9 sempre pela for\u00e7a que a contrarrevolu\u00e7\u00e3o tenta impor novamente a explora\u00e7\u00e3o dos trabalhadores.<br \/>\nNesse per\u00edodo de transi\u00e7\u00e3o, ainda haver\u00e1 a luta de classes e, por isso, a mil\u00edcia dos trabalhadores em armas \u00e9 t\u00e3o decisiva, repetimos. Ainda que seja a repress\u00e3o da enorme maioria da popula\u00e7\u00e3o contra a minoria, ainda assim \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica em que a for\u00e7a ainda decide para onde vai a humanidade. No socialismo a sociedade \u00e9 muito mais &#8220;democr\u00e1tica&#8221; que qualquer democracia burguesa, pois \u00e9 a maioria que reprime a minoria, n\u00e3o o inverso. Mas ainda \u00e9 a for\u00e7a e a viol\u00eancia, como dizia Marx e Engels, a &#8220;parteira da hist\u00f3ria&#8221;.<br \/>\nPor isso, Marx, Engels, Lenin, Rosa Luxemburgo entre muitos denominaram de Ditadura do Proletariado o novo governo revolucion\u00e1rio. Ditadura porque \u2013 sem a hipocrisia da ideologia burguesa \u2013 assume-se abertamente a repress\u00e3o sobre os contrarrevolucion\u00e1rios. E prolet\u00e1ria porque ir\u00e1 desaparecer t\u00e3o logo as classes sociais tenham desaparecido, com a transforma\u00e7\u00e3o de todos em trabalhadores.<br \/>\nO m\u00e1ximo da justi\u00e7a que teremos no per\u00edodo socialista ser\u00e1 o de \u201cigual remunera\u00e7\u00e3o para trabalho igual\u201d. Quem trabalha tem acesso aos bens produzidos na propor\u00e7\u00e3o em que contribuir para a produ\u00e7\u00e3o. Frente ao mundo burgu\u00eas, \u00e9 um enorme avan\u00e7o: mas, ainda, \u00e9 essencialmente injusto. Os indiv\u00edduos humanos s\u00e3o diferentes entre si, suas necessidades pessoais e sua capacidade de produ\u00e7\u00e3o individual n\u00e3o s\u00e3o as mesmas. Tratar os indiv\u00edduos como iguais (um enorme progresso frente \u00e0 \u201cjusti\u00e7a\u201d burguesa) \u00e9, no fundo, uma vasta injusti\u00e7a. No comunismo, teremos um crit\u00e9rio verdadeiramente justo: \u201ca cada um, de acordo com sua necessidade; de cada um, de acordo com sua capacidade\u201d.<\/p>\n<h2>Conclus\u00e3o<\/h2>\n<p>O socialismo, portanto, \u00e9 a finalidade primeira de todo movimento revolucion\u00e1rio. Derrubar a ordem burguesa e implantar o socialismo significa abrir a transi\u00e7\u00e3o para o modo de produ\u00e7\u00e3o comunista. Mas \u00e9 apenas a finalidade primeira: o real objetivo dos revolucion\u00e1rios \u00e9 o comunismo. E h\u00e1 uma raz\u00e3o b\u00e1sica para ser assim: se o trabalho prolet\u00e1rio, portanto, explorado, n\u00e3o for superado completamente pelo trabalho associado, os problemas hist\u00f3ricos que hoje a humanidade enfrenta n\u00e3o poder\u00e3o ser solucionados e, ainda, as enormes possibilidades de desenvolvimento que temos hoje n\u00e3o poder\u00e3o ser aproveitadas. Em poucas palavras: o poder do capital retorna e as mis\u00e9rias do trabalho prolet\u00e1rio voltam a ordenar a vida social.<br \/>\nO comunismo \u00e9 claramente definido: um modo de produ\u00e7\u00e3o fundado no trabalho associado, sem explora\u00e7\u00e3o do homem pelo homem, sem propriedade privada, sem Estado e sem patriarcalismo (sem fam\u00edlia monog\u00e2mica). O socialismo \u00e9 a transi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica do capitalismo ao comunismo. As principais tarefas dessa transi\u00e7\u00e3o: ir substituindo o trabalho prolet\u00e1rio pelo trabalho associado; destruir o velho Estado e o substituir pelo autogoverno dos trabalhadores, criar e fortalecer a Internacional. Essa \u00e9 a tarefa hist\u00f3rica imediata dos revolucion\u00e1rios em nossos dias.<\/p>\n<h2>Indica\u00e7\u00f5es para leitura:<\/h2>\n<p>O texto mais interessante para se iniciar o estudo \u00e9 de Lenin, O Estado e a Revolu\u00e7\u00e3o. De Marx, tr\u00eas textos s\u00e3o esclarecedores: As lutas de classe na Fran\u00e7a, em que analisa a Comuna de Paris, a Cr\u00edtica ao Programa de Gotha e, com Engels, O manifesto comunista. De Engels, muito \u00fatil \u00e9 Do socialismo ut\u00f3pico e cient\u00edfico \u2013 mas devemos desconsiderar seu entusiasmo pela estatiza\u00e7\u00e3o dos meios de produ\u00e7\u00e3o, um entusiasmo que a hist\u00f3ria n\u00e3o confirmou. De Ivo Tonet, Sobre o socialismo (Instituto Luk\u00e1cs) \u00e9 o melhor texto produzido entre n\u00f3s.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Duas dificuldades A resposta a essa quest\u00e3o enfrenta dois problemas. 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