{"id":3962,"date":"2015-05-20T08:46:33","date_gmt":"2015-05-20T11:46:33","guid":{"rendered":"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/?p=3962"},"modified":"2018-05-04T21:40:42","modified_gmt":"2018-05-05T00:40:42","slug":"a-polemica-do-feminismo-em-mad-max","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/2015\/05\/a-polemica-do-feminismo-em-mad-max\/","title":{"rendered":"A pol\u00eamica do feminismo em Mad Max"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/furiosa.jpg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-3963\" src=\"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/furiosa.jpg\" alt=\"furiosa\" width=\"268\" height=\"188\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Daniel M. Delfino<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A trilogia \u201cMad Max\u201d antiga se comp\u00f5e de um bom primeiro epis\u00f3dio, um segundo filme que se converteu em um verdadeiro cl\u00e1ssico e um terceiro em que absolutamente nada se aproveita. O que fez do segundo epis\u00f3dio (que tem o subt\u00edtulo \u201cThe road warrior\u201d no original e \u201cA ca\u00e7ada continua\u201d em portugu\u00eas) um cl\u00e1ssico foi o fato de que alterou completamente o cen\u00e1rio e o contexto do primeiro filme e situou o protagonista num mundo p\u00f3s-apocal\u00edptico. Um mundo em que as pessoas guerreiam por gasolina, matam, roubam e enganam sem qualquer escr\u00fapulo, e o her\u00f3i do filme n\u00e3o \u00e9 diferente.<br \/>\nMad Max 2 causou impacto quando do seu lan\u00e7amento, em 1981, como um filme p\u00f3s-apocal\u00edptico num mundo ainda pr\u00e9-apocal\u00edptico. Hoje vivemos num mundo p\u00f3s queda do Muro de Berlim e p\u00f3s \u201cfim da hist\u00f3ria\u201d, um mundo em que se proclamou a barb\u00e1rie neoliberal como a forma definitiva de sociedade humana. Nesse mundo j\u00e1 portanto p\u00f3s-apocal\u00edptico em que vivemos, mais um filme p\u00f3s-apocal\u00edptico como o novo epis\u00f3dio de Mad Max, que tem o subt\u00edtulo de \u201cA estrada da f\u00faria\u201d, j\u00e1 n\u00e3o causa mais o mesmo impacto. J\u00e1 estamos habituados \u00e0 viol\u00eancia e amoralidade, que n\u00e3o causam mais o pavor e a ang\u00fastia que causavam na \u00e9poca do segundo epis\u00f3dio.<br \/>\n\u00c9 claro que o diretor, o mesmo George Miller da trilogia original, tentou causar impacto, e usou todos os recursos do cinema de hoje para produzir um filme ainda mais violento, megaloman\u00edaco, grotesco e vertiginoso que o original. Para quem tem o senso de humor apropriado para este tipo de produ\u00e7\u00e3o (\u00e9 o caso deste autor), trata-se de uma excelente pedida. De resto, a receita do cinema para qualquer continua\u00e7\u00e3o \u00e9 mesmo aumentar a dosagem dos elementos que fizeram sucesso no filme anterior, e isso vale tamb\u00e9m para uma continua\u00e7\u00e3o produzida d\u00e9cadas depois.<br \/>\nMais do que uma simples continua\u00e7\u00e3o turbinada, \u201cA estrada da f\u00faria\u201d parece se inscrever numa esp\u00e9cie de tend\u00eancia de reciclagem de cl\u00e1ssicos que est\u00e1 na moda do cinema atual. Recentemente, George Lucas filmou uma segunda trilogia \u201cStar Wars\u201d, com d\u00e9cadas de intervalo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 primeira, contando (e estragando) a origem do vil\u00e3o Darth Vader, convertido em um garoto mimado. Spielberg filmou um novo epis\u00f3dio de \u201cIndiana Jones\u201d, muito aqu\u00e9m do encanto os tr\u00eas primeiros. Tamb\u00e9m foi contada num filme med\u00edocre a origem de Hannibal Lecter, cl\u00e1ssico vil\u00e3o do \u201cSil\u00eancio dos Inocentes\u201d. A s\u00e9rie \u201cAlien\u201d, cujos dois primeiros epis\u00f3dios s\u00e3o igualmente cl\u00e1ssicos e excepcionais, tamb\u00e9m teve uma releitura sem nenhuma imagina\u00e7\u00e3o em \u201cPrometheus\u201d. E \u201cO Exterminador do futuro\u201d, outro cl\u00e1ssico apocal\u00edptico dos anos 1980, tamb\u00e9m segue tendo novos epis\u00f3dios, com alguma periodicidade.<br \/>\nEm todos esses casos, h\u00e1 uma tentativa de explorar a aura e o apelo de personagens e cen\u00e1rios cl\u00e1ssicos, mas sem a mesma criatividade que gerou esses cl\u00e1ssicos, o que resulta em banalidades que profanam e mancham a fortuna cr\u00edtica dos filmes originais. Na maior parte dos casos, \u00e9 melhor ignorar e rejeitar essas tentativas de recriar filmes e hist\u00f3rias cl\u00e1ssicas e ficar com a boa mem\u00f3ria dos originais. Numa sociedade que perdeu a capacidade de imaginar o futuro, a ind\u00fastria cultural est\u00e1 condenada a reciclar o passado.<br \/>\nMas isso apenas parece ser o caso de \u201cA estrada da f\u00faria\u201d, pois h\u00e1 um elemento que tornou este filme digno de coment\u00e1rio, a suposta presen\u00e7a de uma propaganda feminista. E quem detectou o ind\u00edcio de feminismo foram ativistas estadunidenses defensores do machismo. Num site chamado \u201cReturn of the kings\u201d (O retorno dos reis), um apedeuta chamado Aron Clarey (que tamb\u00e9m responde pela alcunha de \u201ccapit\u00e3o capitalismo\u201d, que j\u00e1 d\u00e1 uma ideia do tipo de sistema social e ideologia que defende) conclamou os \u201chomens de verdade\u201d a n\u00e3o assistirem o filme. Segundo este g\u00eanio da estupidez patriarcal e neoliberal, o novo Mad Max \u00e9 uma armadilha que seduz os homens com cenas de tiroteios e explos\u00f5es, mas na verdade entrega um roteiro em que a personagem de Charlize Theron se sobressai em rela\u00e7\u00e3o ao protagonista Max. Portanto, cuidado homens! Sua masculinidade est\u00e1 amea\u00e7ada!<br \/>\nPara al\u00e9m da quest\u00e3o de que a premiada sul africana \u00e9 muito melhor atriz do que Tom Hardy, no papel que j\u00e1 foi de Mel Gibson, e portanto merece aparecer mais, o infame blog conseguiu seus imerecidos 15 minutos de fama e de merecidamente se tornar motivo de deboche e esc\u00e1rnio por conta do rid\u00edculo das posi\u00e7\u00f5es que defende. Al\u00e9m disso, o blog machista conseguiu evidentemente o efeito contr\u00e1rio, pois o marketing do filme foi alavancado pela pol\u00eamica, conforme ve\u00edculos de m\u00eddia burgueses, mas tamb\u00e9m setores do jornalismo e da cr\u00edtica cultural mais pr\u00f3ximos da esquerda, entraram na brincadeira e trataram de promover o novo Mad Max por conta justamente dos seus m\u00e9ritos feministas.<br \/>\nApesar do aspecto aned\u00f3tico e hilariante dessa pol\u00eamica, n\u00e3o podemos deixar de alertar para o perigo de sites como \u201cReturn of the kings\u201d. N\u00e3o se trata apenas de um site, mas de um movimento de defesa dos \u201cdireitos dos homens\u201d, e n\u00e3o dos direitos humanos no sentido a que estamos acostumados, mas do \u201chomem\u201d no sentido sexual, oposto \u00e0s mulheres. Os ativistas desse movimento defendem que homens e mulheres s\u00e3o biologicamente diferentes e portanto os seus pap\u00e9is sociais tamb\u00e9m tem que ser diferentes, condenando a homossexualidade, a transsexualidade, o div\u00f3rcio, a escolha de n\u00e3o ter filhos, o direito das mulheres exercerem as mesmas profiss\u00f5es, etc. O site \u201cReturn of the kings\u201d diz besteiras como essa: \u201co socialismo, o feminismo, o marxismo cultural e o combate por justi\u00e7a social pretendem destruir a unidade familiar, decrescer a taxa de fertilidade e empobrecer o Estado por meio de benef\u00edcios sociais\u201d.<br \/>\nEsse movimento dos \u201cdireitos dos homens\u201d ardilosamente usa a mesma linguagem e os c\u00f3digos do feminismo hoje predominante para combater o pr\u00f3prio feminismo. Segundo o movimento, os homens brancos heterossexuais est\u00e3o sendo supostamente demonizados pelas mulheres, negros e LGBTs, e portanto precisam se defender \u00e0 altura. As bases te\u00f3ricas do feminismo e dos demais movimentos de minorias hoje predominantes criaram essa armadilha. O feminismo, o movimento negro, movimentos ind\u00edgenas, LGBTs, etc., tem baseado suas reivindica\u00e7\u00f5es no direito de serem reconhecidos em suas identidades. Essa pol\u00edtica de identidades se alicer\u00e7a numa ideologia liberal funcional ao capitalismo, que reconhece plenamente os direitos das minorias, desde que n\u00e3o se coloquem como classe oposta ao sistema do capital.<br \/>\nO conte\u00fado essencialmente liberal dos movimentos de minorias, a sua falta de alicerces hist\u00f3ricos, classistas e anticapitalistas, se volta contra eles, pois, nos termos em que se fundamentam, o movimento de \u201cdireitos dos homens\u201d \u00e9 um produto leg\u00edtimo da mesma fonte. Se cada grupo social tem o direito de defender sua identidade, os homens brancos heterossexuais tamb\u00e9m o tem. Se o problema dos conflitos sociais \u00e9 a identidade \u00e9tnica, sexual, religiosa, etc., dos grupos em que se subdivide a popula\u00e7\u00e3o de cada pa\u00eds, ent\u00e3o o grupo dos homens brancos heterossexuais tamb\u00e9m se qualifica como um grupo com uma identidade do mesmo car\u00e1ter.<br \/>\nPara refutar o movimento de \u201cdireito dos homens\u201d, \u00e9 preciso ir al\u00e9m da pol\u00edtica que se baseia em \u201cidentidades\u201d (com sua fundamenta\u00e7\u00e3o liberal, p\u00f3s moderna, irracionalista e relativista) e buscar argumentos hist\u00f3ricos, classistas e anticapitalistas. Os homens brancos heterossexuais n\u00e3o t\u00eam direitos enquanto grupo, t\u00eam privil\u00e9gios. S\u00e3o formados com a ideia de que \u00e9 natural que as mulheres fa\u00e7am as tarefas dom\u00e9sticas, cuidem das crian\u00e7as, idosos e doentes, estejam em postos de trabalho subalternos, sejam vistas e tratadas como objetos sexuais para o prazer do homem, etc. Tudo isso \u00e9 naturalizado na forma\u00e7\u00e3o do homem, o que faz com que se comportem de maneira inevitavelmente machista. \u00c9 preciso muita luta para remover essa forma\u00e7\u00e3o opressiva.<br \/>\nA opress\u00e3o das mulheres \u00e9 real e as feministas t\u00eam todo o direito de reivindicar a igualdade. As diferen\u00e7as entre homens e mulheres se originaram em bases biol\u00f3gicas, mas isso aconteceu na pr\u00e9-hist\u00f3ria. Hoje j\u00e1 n\u00e3o somos trogloditas (com exce\u00e7\u00e3o dos autores do \u201cReturn of the kings\u201d), e vivemos mil\u00eanios de opress\u00e3o das mulheres que foram historicamente constru\u00eddos. H\u00e1 todo um aparato de pr\u00e1ticas e ideias de domina\u00e7\u00e3o, acrescentados pelas diversas sociedades de classes, que h\u00e1 mil\u00eanios oprimem as mulheres. Essas formas de domina\u00e7\u00e3o precisam ser superadas, e para isso \u00e9 preciso superar a pr\u00f3pria sociedade de classes.<br \/>\nO que os defensores dos \u201cdireitos dos homens\u201d subentendem como ess\u00eancia da masculinidade, e que julgam necess\u00e1rio defender contra o feminismo, \u00e9 a pura for\u00e7a bruta. Para eles, n\u00e3o haveria nada de errado em Mad Max se fossem apenas tiroteios, explos\u00f5es, pancadaria. Se n\u00e3o houvesse a personagem de Charlize Theron e sua tribo de guerreiras, portadoras da esperan\u00e7a de um futuro menos b\u00e1rbaro, estaria tudo certo. O homem \u201coprimido pelo feminismo\u201d (!!!) poderia festejar no cinema o macho em estado puro, ou seja, o individualismo, a competitividade e a viol\u00eancia!<br \/>\nAo adotar essa posi\u00e7\u00e3o, os ativistas dos \u201cdireito dos homens\u201d est\u00e3o justamente bloqueando qualquer possibilidade de melhorar a vida dos homens reais. Afinal, o machismo \u00e9 um sistema historicamente constru\u00eddo e refor\u00e7ado de opress\u00e3o sobre as mulheres, mas que tem como subproduto uma opress\u00e3o suplementar sobre os pr\u00f3prios homens, que s\u00e3o tamb\u00e9m, de certa forma, v\u00edtimas (claro que num grau muito menor do que as mulheres). Os homens s\u00e3o \u201cv\u00edtimas\u201d do machismo no sentido de que, para se qualificar para exercer o papel de \u201chomem\u201d, no sentido de \u201cmacho\u201d, os indiv\u00edduos do sexo masculino s\u00e3o obrigados a mutilar a si mesmos, reprimir emo\u00e7\u00f5es e sentimentos, tornar-se agressivos, individualistas, competitivos e brutos.<br \/>\nO conjunto dos caracteres \u201cmasculinos\u201d exigidos para que o indiv\u00edduo se qualifique como homem, e assim adquira o \u201cdireito\u201d, que \u00e9 na verdade o privil\u00e9gio, de oprimir as mulheres, pesa tamb\u00e9m sobre os homens. O sistema de domina\u00e7\u00e3o patriarcal cria uma separa\u00e7\u00e3o entre indiv\u00edduos de ambos os sexos, impedindo que compartilhem caracter\u00edsticas psicol\u00f3gicas, emocionais e intelectuais comuns, empobrecendo a ambos. Numa sociedade emancipada, as caracter\u00edsticas que s\u00e3o tratadas hoje como atributos exclusivos de um ou de outro g\u00eanero, separadas em pares opostos como raz\u00e3o e emo\u00e7\u00e3o, intelig\u00eancia e sensibilidade, reflex\u00e3o e impulsividade, desejo e amor, etc., poder\u00e3o ser desenvolvidas livremente por indiv\u00edduos de qualquer sexo e na propor\u00e7\u00e3o em que escolherem, sem que sejam socialmente for\u00e7ados a optar por um p\u00f3lo em oposi\u00e7\u00e3o ao outro.<br \/>\nN\u00e3o \u00e9 isso que reivindicam os ativistas dos \u201cdireitos dos homens\u201d. O que querem \u00e9 continuar sendo seres emocionalmente e humanamente empobrecidos, para seguir oprimindo as mulheres, em nome da fam\u00edlia, da propriedade privada e do Estado. Portando, abaixo o \u201cReturn of the kings\u201d, bem vindo Mad Max e viva a Imperatriz Furiosa!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Daniel M. 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