{"id":4003,"date":"2015-06-16T20:19:09","date_gmt":"2015-06-16T23:19:09","guid":{"rendered":"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/?p=4003"},"modified":"2018-05-04T18:50:02","modified_gmt":"2018-05-04T21:50:02","slug":"jornal-79-por-que-as-revolucoes-nao-levaram-a-sociedade-socialista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/2015\/06\/jornal-79-por-que-as-revolucoes-nao-levaram-a-sociedade-socialista\/","title":{"rendered":"Jornal 79: Por que as revolu\u00e7\u00f5es n\u00e3o levaram \u00e0 sociedade socialista?"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">A QUEST\u00c3O \u00c9 MAIOR DO QUE SUA APAR\u00caNCIA<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As revolu\u00e7\u00f5es s\u00e3o um fen\u00f4meno hist\u00f3rico para a humanidade. A primeira foi a Revolu\u00e7\u00e3o Inglesa, entre 1642 e 1688. A segunda, mas a primeira com impacto mundial, foi a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa entre 1789-1815. O s\u00e9culo 19 conheceu v\u00e1rios per\u00edodos revolucion\u00e1rios, o mais intenso deles foi o de 1848-52, quando pela primeira vez o proletariado e a burguesia entraram em um aberto conflito. Depois, viria a Comuna de Paris (1871).<br \/>\nContudo, o maior e mais intenso per\u00edodo revolucion\u00e1rio da hist\u00f3ria \u00e9 aquele que se inicia com a Revolu\u00e7\u00e3o Russa de 1905 e se estende at\u00e9 o final da Revolu\u00e7\u00e3o Chinesa (1949). Essa \u00e9 uma fase da hist\u00f3ria em que h\u00e1 revolu\u00e7\u00f5es em todos os continentes, exceto a Oceania. Movimentos revolucion\u00e1rios \u2013 e mesmo revolu\u00e7\u00f5es \u2013 tiveram lugar em pa\u00edses mais avan\u00e7ados, com um proletariado significativo (Revolu\u00e7\u00e3o Alem\u00e3, Espanhola, Greve de 1936 na Fran\u00e7a, resist\u00eancia contra os nazistas no final da II Guerra Mundial) e em pa\u00edses muito menos desenvolvidos no sentido capitalista (como a China, a \u00cdndia e o Paquist\u00e3o, o M\u00e9xico); t\u00e1ticas e estrat\u00e9gias revolucion\u00e1rias, as mais diversas, foram surgindo e se desenvolvendo segundo as necessidades de cada situa\u00e7\u00e3o (stalinismo, mao\u00edsmo, autonomismo, tito\u00edsmo, trotskismo, leninismo, anarquismo etc.) \u2013 e tamb\u00e9m foi nesse per\u00edodo que conhecemos a primeira organiza\u00e7\u00e3o verdadeiramente mundial dos trabalhadores, a III Internacional ou Internacional Comunista. Contava com partidos em praticamente todos os pa\u00edses do mundo e, em v\u00e1rios deles, tinha os mais importantes partidos de base oper\u00e1ria (Fran\u00e7a, Alemanha, por exemplo). Foi, ainda, esse per\u00edodo que assistiu ao amadurecimento ideol\u00f3gico e te\u00f3rico da gera\u00e7\u00e3o de revolucion\u00e1rios mais significativa da hist\u00f3ria, com Lenin, Rosa Luxemburgo, Trotsky, Bukharin, Preobrajensky, Radek, Riazanov e, tamb\u00e9m, da gera\u00e7\u00e3o seguinte, marcada principalmente por Gramsci e Luk\u00e1cs. De todas as revolu\u00e7\u00f5es, a mais importante foi a Revolu\u00e7\u00e3o Russa de 1917. N\u00e3o apenas por ter sido a primeira com um vasto impacto em todo o planeta, mas tamb\u00e9m porque, em poucas d\u00e9cadas, elevou a URSS \u00e0 segunda pot\u00eancia mundial.<br \/>\nA quest\u00e3o, portanto, \u00e9 de uma import\u00e2ncia enorme: por que foram derrotadas (no sentido de n\u00e3o abrirem a transi\u00e7\u00e3o ao comunismo, atrav\u00e9s do socialismo) todas as revolu\u00e7\u00f5es do maior per\u00edodo revolucion\u00e1rio que a humanidade jamais conheceu, com uma gera\u00e7\u00e3o de te\u00f3ricos e dirigentes que at\u00e9 hoje n\u00e3o foi superada por nenhuma outra? Por que nenhuma das revolu\u00e7\u00f5es que colocaram os revolucion\u00e1rios no poder p\u00f4de superar o capital?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O REINADO DA CONFUS\u00c3O<br \/>\nOs revolucion\u00e1rios que viveram esses anos foram sendo surpreendidos por inesperadas evolu\u00e7\u00f5es dos processos revolucion\u00e1rios em andamento. A previs\u00e3o de Marx, Engels, Lenin, Rosa Luxemburgo, etc. de que o poder revolucion\u00e1rio, na esfera da pol\u00edtica, se caracterizaria pelo gradual, por\u00e9m acelerado, desaparecimento do Estado, das classes sociais, da fam\u00edlia monog\u00e2mica e dos pa\u00edses (tratamos disso em \u201cO que \u00e9 o socialismo?\u201d), era sistematicamente negada. As revolu\u00e7\u00f5es davam, seguidamente, origem a Estados ainda mais poderosos do que o das velhas classes dominantes, seus ex\u00e9rcitos eram ainda mais fortes e maiores, a dist\u00e2ncia entre os dirigentes e os trabalhadores n\u00e3o parava de aumentar, a repress\u00e3o pol\u00edtica e a pol\u00edcia pol\u00edtica jogavam um papel cada vez mais importante na vida social.<br \/>\nNa esfera da produ\u00e7\u00e3o, as coisas n\u00e3o caminhavam muito melhor: a propriedade individual foi substitu\u00edda pela propriedade estatal, originando um gigantesco e poderoso aparato, unificado nacionalmente, com a for\u00e7a policial e pol\u00edtica do Estado a lhe dar respaldo, de controle sobre os trabalhadores. O trabalho prolet\u00e1rio que \u2013 como vimos em \u201cO que \u00e9 socialismo?\u201d \u2013 funda o modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista, n\u00e3o apenas n\u00e3o era naqueles processos superados pelo trabalho associado, como ainda se expandia e passava a imperar em toda a esfera produtiva. Uma f\u00e9rrea ditadura, tanto na esfera da pol\u00edtica quanto da produ\u00e7\u00e3o, se contrapunha dolorosamente ao reino da liberdade e da pronta redu\u00e7\u00e3o da jornada de trabalho propostas por Marx e Engels.<br \/>\nAo mesmo tempo, pelos mesmos processos, os pa\u00edses que fizeram suas revolu\u00e7\u00f5es conheceram um acelerado desenvolvimento das for\u00e7as produtivas, com uma n\u00e3o menos acelerada redu\u00e7\u00e3o da mis\u00e9ria secular de seus povos. Poucas d\u00e9cadas depois das revolu\u00e7\u00f5es, as condi\u00e7\u00f5es de vida e trabalho da vasta maioria dos sovi\u00e9ticos, chineses etc. haviam melhorado de forma muito significativa. Educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica e universal, assist\u00eancia m\u00e9dica para todos, casa e trabalho para todos etc. eram realiza\u00e7\u00f5es efetivas. O apoio dos trabalhadores aos governos revolucion\u00e1rios \u2013 mesmo sendo ditatoriais e opressivos \u2013 era muito grande. St\u00e1lin era adorado pelos trabalhadores sovi\u00e9ticos, o mesmo ocorrendo com Mao-Tse-Tung na China. A consolida\u00e7\u00e3o do stalinismo, do mao\u00edsmo, do tito\u00edsmo etc. s\u00e3o fen\u00f4menos ideol\u00f3gicos que t\u00eam suas bases sociais na incr\u00edvel melhoria das condi\u00e7\u00f5es de vida e trabalho das massas de trabalhadores de seus respectivos pa\u00edses.<br \/>\nEssa foi a situa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica que inaugurou uma enorme confus\u00e3o entre os revolucion\u00e1rios.<br \/>\nPor um lado, convertendo necessidade em virtude, uma parcela dos revolucion\u00e1rios passou a defender que as teses de Marx e Engels eram ut\u00f3picas (no sentido de n\u00e3o terem lugar na hist\u00f3ria) e que a vida estaria mostrando que o verdadeiro socialismo, \u201csocialismo real\u201d, era o que estava sendo constru\u00eddo naqueles dias na URSS (ou, a depender a filia\u00e7\u00e3o pol\u00edtico-partid\u00e1ria, na Rep\u00fablica Popular da China, ou no Vietnam, ou na Alb\u00e2nia, e assim por diante). Em todas essas variantes, aceitava-se que o socialismo seria um Estado ditatorial, com um gigantesco aparato de controle policial e pol\u00edtico dos trabalhadores. Aceitavam, ainda, que o socialismo n\u00e3o superaria o mercado e o trabalho prolet\u00e1rio \u2013 pelo contr\u00e1rio, estes seriam essenciais \u201cao socialismo real\u201d!<br \/>\nO campo do \u201csocialismo real\u201d n\u00e3o era, de modo algum, homog\u00eaneo: stalinistas criticavam os mao\u00edstas, estes criticavam os tito\u00edstas, todos combatiam os trotskistas, estes \u00faltimos criticavam de volta a todos os outros&#8230; mas, em todas as cr\u00edticas aceitava-se como socialistas o mercado, o Estado, o trabalho prolet\u00e1rio, a repress\u00e3o sobre os trabalhadores e prolet\u00e1rios. O que estaria errado \u2013 nisso tamb\u00e9m todos coincidiam \u2013 seria, apenas e t\u00e3o somente, a dire\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Se Trotsky \u2013 e n\u00e3o St\u00e1lin \u2013 houvesse permanecido no poder na URSS, o socialismo teria sido l\u00e1 constru\u00eddo, argumentavam os trotskistas. Se os stalinistas e n\u00e3o os mao\u00edstas tivessem vencido a luta interna no PC Chin\u00eas, a revolu\u00e7\u00e3o naquele pa\u00eds teria sido socialista \u2013 diziam os stalinistas sobre a China, enquanto o PC Chin\u00eas garantia que se os mao\u00edstas estivessem no poder na URSS, esta n\u00e3o teria degenerado em um \u201cEstado burocr\u00e1tico\u201d. A quest\u00e3o, no fundo, para todo esse campo, centrava-se na dire\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Dependendo da prefer\u00eancia pol\u00edtica, a dire\u00e7\u00e3o \u201ccorreta\u201d seria o stalinismo, o mao\u00edsmo, o trotskismo, o tito\u00edsmo e, logo depois, o castrismo, o guevarismo etc., etc. e, j\u00e1 mais bem para frente, nos anos 1980, o eurocomunismo.<br \/>\nAl\u00e9m do campo do \u201csocialismo real\u201d, abriu-se outro campo mais amplo e ainda mais heterog\u00eaneo, que afirmava que a ordem surgida das revolu\u00e7\u00f5es seria, na verdade, a trai\u00e7\u00e3o dos ideais revolucion\u00e1rios. J\u00e1 nos anos de 1920 esse campo come\u00e7ou a se delinear com a Oposi\u00e7\u00e3o Oper\u00e1ria na R\u00fassia e, depois, com as cr\u00edticas \u00e0 nascente ordem sovi\u00e9tica pelos autonomistas e anarquistas. Com o passar do tempo, muitos intelectuais e organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas foram se aproximando ou aderindo a essa concep\u00e7\u00e3o: as sociedades sa\u00eddas dos processos revolucion\u00e1rios nem eram socialistas, nem estavam a caminho de se converterem em socialistas. Uma parte desse campo migrou para a direita: a democracia burguesa seria a melhor op\u00e7\u00e3o para a humanidade e, pela adora\u00e7\u00e3o \u00e0 democracia, essa por\u00e7\u00e3o aderiu ao campo da contrarrevolu\u00e7\u00e3o. A Escola de Frankfurt, com Adorno e Habermas, foi o exemplo mais t\u00edpico dessa evolu\u00e7\u00e3o, mas longe de ser o \u00fanico. Uma outra parte permaneceu \u00e0 esquerda: as concep\u00e7\u00f5es pol\u00edticas autorit\u00e1rias \u2013 que, argumenta-se, j\u00e1 estariam presentes em O que fazer? de Lenin, com a concep\u00e7\u00e3o do partido centralizado que traria \u201cde fora\u201d da classe a consci\u00eancia revolucion\u00e1ria \u2013 seriam a causa principal da degeneresc\u00eancia do poder revolucion\u00e1rio em ditaduras contra os trabalhadores. Suas express\u00f5es mais importantes foram os luxemburguistas e os autonomistas: o problema decisivo teria sido, segundo eles, a liquida\u00e7\u00e3o da autonomia dos trabalhadores nos anos de 1919-1920 na antiga R\u00fassia. Os principais respons\u00e1veis pelas derrotas seriam os bolcheviques, os leninistas de todos os tipos.<br \/>\nA confus\u00e3o estava posta: a quest\u00e3o da dire\u00e7\u00e3o pol\u00edtica (e, portanto, da concep\u00e7\u00e3o pol\u00edtico-ideol\u00f3gica dos dirigentes) seria o que decidiria se uma revolu\u00e7\u00e3o superaria (ou n\u00e3o), pelo socialismo, a ordem burguesa. No fundo, a verdade dependia da escolha pessoal de cada revolucion\u00e1rio: se optasse pelo mao\u00edsmo, os traidores seriam os stalinistas, trotskistas, autonomistas etc. Se fosse um stalinista, os traidores seriam os trotskistas, os mao\u00edstas, os autonomistas etc. Se fosse um anarquista, os culpados seriam os leninistas, stalinistas, trotskistas \u2013 e assim sucessivamente.<br \/>\nQuando a escolha pessoal passa a ter tal import\u00e2ncia, a confus\u00e3o est\u00e1 instalada: n\u00e3o h\u00e1 argumentos que seja superior a outro, a opini\u00e3o de cada um \u00e9 o crit\u00e9rio da verdade. Esse \u00e9 um claro sinal de que a teoria n\u00e3o est\u00e1 dando conta de acompanhar a hist\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">M\u00c9SZ\u00c1ROS E PARA AL\u00c9M DO CAPITAL<br \/>\nEsse reino da confus\u00e3o come\u00e7aria a ser superado com a publica\u00e7\u00e3o, por M\u00e9sz\u00e1ros, na Inglaterra, em 1944, de sua obra-prima, Para al\u00e9m do capital. Este foi o primeiro \u2013 e at\u00e9 hoje \u00fanico \u2013 estudo aprofundado sobre as condi\u00e7\u00f5es de reprodu\u00e7\u00e3o do capital no s\u00e9culo 20. Em se tratando o nosso tema, M\u00e9sz\u00e1ros assinala que as revolu\u00e7\u00f5es do s\u00e9culo 20 ainda podiam desenvolver \u2013 e desenvolveram de forma muito r\u00e1pida \u2013 as for\u00e7as produtivas em escala nacional. A produ\u00e7\u00e3o poderia ser enormemente ampliada, o desemprego podia ser eficientemente administrado, as condi\u00e7\u00f5es de vida e trabalho da popula\u00e7\u00e3o poderiam ser muit\u00edssimo melhoradas, pela explora\u00e7\u00e3o dos trabalhadores por meio de um Estado que concentrasse a propriedade e que planejasse toda a produ\u00e7\u00e3o.<br \/>\nA intensa e r\u00edgida repress\u00e3o dos trabalhadores e prolet\u00e1rios correspondia \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de explora\u00e7\u00e3o dos trabalhadores que se faziam imprescind\u00edveis. Muito rapidamente, nas \u201csociedades p\u00f3s-revolucion\u00e1rias\u201d tivemos o surgimento de uma nova modalidade da explora\u00e7\u00e3o dos trabalhadores pelo capital. Nova, porque tem no Estado o propriet\u00e1rio dos meios de produ\u00e7\u00e3o. Mas, ainda assim, mant\u00e9m a explora\u00e7\u00e3o dos trabalhadores e prolet\u00e1rios pelo assalariamento.<br \/>\nA explora\u00e7\u00e3o dos trabalhadores e prolet\u00e1rios pelo assalariamento \u00e9, precisa e exatamente, o capital. O trabalho que produz o capital \u2013 como vimos em \u201cO que s\u00e3o classes sociais?\u201d \u2013 \u00e9 o trabalho prolet\u00e1rio.<br \/>\nLembremos que o capital \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o social pela qual se extrai o trabalho excedente pela redu\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho a uma mercadoria e o assalariamento \u00e9 a sua a express\u00e3o cotidiana. As revolu\u00e7\u00f5es da primeira metade do s\u00e9culo 20, afirma M\u00e9sz\u00e1ros, deram origem a pa\u00edses que se estruturam ao redor da explora\u00e7\u00e3o do homem pelo homem (com tudo que a acompanha: o Estado, a fam\u00edlia monog\u00e2mica, as classes sociais e as desumanidades que t\u00eam sua origem no capital); foram revolu\u00e7\u00f5es nacionais e que cumpriram o papel de desenvolver muito rapidamente as for\u00e7as produtivas do capital em pa\u00edses muito atrasados, como a R\u00fassia e a China. Tais revolu\u00e7\u00f5es \u2013 nacionais e em pa\u00edses pouco desenvolvidos \u2013 n\u00e3o podiam iniciar a transi\u00e7\u00e3o ao comunismo pela passagem do trabalho prolet\u00e1rio ao trabalho associado.<br \/>\nTodavia, por que isso ocorreu? Por que nas \u201csociedades p\u00f3s-revolucion\u00e1rias\u201d n\u00e3o se superou o capital? A possibilidade de uma explica\u00e7\u00e3o veio de uma profunda mudan\u00e7a no modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista, o in\u00edcio da crise estrutural do capital, na d\u00e9cada de 1970.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A CRISE ESTRUTURAL<br \/>\nVimos, em \u201cO que \u00e9 o socialismo?\u201d, como, com a Revolu\u00e7\u00e3o Industrial (1776-1830), a capacidade produtiva ultrapassa as necessidades humanas e gera uma abund\u00e2ncia que, para o capitalismo, n\u00e3o passa de superprodu\u00e7\u00e3o. Isto \u00e9, a oferta de mercadorias \u00e9 maior do que a procura e, consequentemente, os pre\u00e7os tendem a cair conforme aumenta a produ\u00e7\u00e3o, conduzindo \u00e0s crises c\u00edclicas. Na d\u00e9cada de 1970, a abund\u00e2ncia se tornou t\u00e3o intensa (dado o desenvolvimento da produ\u00e7\u00e3o) que nem sequer a crise foi capaz de superar a superprodu\u00e7\u00e3o. Para sobreviverem, as empresas precisaram demitir trabalhadores e aumentar a produ\u00e7\u00e3o: essa \u00e9 a din\u00e2mica de uma crise infind\u00e1vel, pois, a cada aumento da produ\u00e7\u00e3o com o aumento correspondente do desemprego, se intensifica a contradi\u00e7\u00e3o fundamental: uma crescente produ\u00e7\u00e3o para um mercado que se reduz pelo aumento do desemprego. Em 1970 a abund\u00e2ncia torna-se permanente e tem in\u00edcio a crise estrutural do sistema do capital em seu todo.<br \/>\nA crise estrutural bloqueia a via do desenvolvimento das for\u00e7as produtivas nacionais pela propriedade estatal dos meios de produ\u00e7\u00e3o, por um sistema pol\u00edtico ditatorial e atrav\u00e9s da explora\u00e7\u00e3o dos prolet\u00e1rios e trabalhadores. Isso porque o capital em crise estrutural necessita, imediata e diretamente, de toda mais-valia produzida no planeta e nada mais sobra para desenvolver \u2013 como fizeram a R\u00fassia, a China etc. \u2013 as for\u00e7as produtivas locais.<br \/>\n\u00c9 essa necessidade absoluta do capital por todo \u00e1tomo de mais-valia que conseguiu extrair dos trabalhadores e prolet\u00e1rios um dos fatores decisivos para a atual \u201cintegra\u00e7\u00e3o\u201d da R\u00fassia e da China, do Vietnam e de Cuba, ao mercado mundial. \u00c9 essa mesma necessidade que inviabiliza que novas revolu\u00e7\u00f5es sigam a \u201cvia\u201d chinesa, ou sovi\u00e9tica, ou cubana etc.<br \/>\nO sistema do capital, nesse per\u00edodo de sua crise estrutural, se converteu em uma totalidade mundial de tal forma articulada que as revolu\u00e7\u00f5es apenas podem sobreviver se confrontarem o capital como um todo. Por isso, as revolu\u00e7\u00f5es que vierem a acontecer ter\u00e3o, muito rapidamente, de se desenvolver at\u00e9 o socialismo ou perecer\u00e3o frente \u00e0 contrarrevolu\u00e7\u00e3o: j\u00e1 n\u00e3o existe mais o meio termo de os revolucion\u00e1rios se manterem no poder pela via do desenvolvimento, sob o capital, das for\u00e7as produtivas em escala nacional pela explora\u00e7\u00e3o do trabalho prolet\u00e1rio.<br \/>\nPor que, ent\u00e3o, todas as revolu\u00e7\u00f5es foram derrotadas? Porque ocorreram em um per\u00edodo hist\u00f3rico, antes de 1970, em que ainda era poss\u00edvel o desenvolvimento das for\u00e7as produtivas do capital em pa\u00edses isolados e economicamente atrasados. Por isso nem puderam se internacionalizar, nem puderam abrir a transi\u00e7\u00e3o ao comunismo. Isolados no poder, os revolucion\u00e1rios tiveram apenas a alternativa de desenvolver a for\u00e7a produtiva do capital: as \u201csociedades p\u00f3s-revolucion\u00e1rias\u201d, que faziam parte do sistema mundial do capital. N\u00e3o lhes restava alternativa: havia que substituir as velhas formas de trabalho da R\u00fassia czarista, da China Imperial etc. pelo trabalho prolet\u00e1rio. Houve uma vasta melhoria nas condi\u00e7\u00f5es de vida dos trabalhadores, mas isso estava longe de dar in\u00edcio ao socialismo.<br \/>\nEm nossos dias, n\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o para qualquer confus\u00e3o. Descoberta a principal raz\u00e3o hist\u00f3rica de todas as revolu\u00e7\u00f5es do s\u00e9culo 20 n\u00e3o terem conduzido ao socialismo e ao comunismo, torna-se poss\u00edvel uma avalia\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, hist\u00f3rica, dos processos revolucion\u00e1rios que supere as opini\u00f5es e prefer\u00eancias pessoais. Os acertos e os erros do passado, suas variadas express\u00f5es ideol\u00f3gicas, as n\u00e3o menos diferentes tentativas de explica\u00e7\u00e3o te\u00f3rica etc. podem, agora, ser compreendidos a partir de sua base social: tornou-se, finalmente, poss\u00edvel uma compreens\u00e3o que forne\u00e7a elementos para o desenvolvimento da teoria revolucion\u00e1ria. Essa \u00e9 parte da enorme contribui\u00e7\u00e3o de M\u00e9sz\u00e1ros ao movimento revolucion\u00e1rio.<br \/>\nPor outro lado, as revolu\u00e7\u00f5es que vierem a ocorrer confrontar\u00e3o o sistema do capital como uma unidade: ou destruir\u00e3o o capital ou ser\u00e3o por ele derrotadas. Ser\u00e3o revolu\u00e7\u00f5es que, mesmo se iniciando em pa\u00edses, se internacionalizar\u00e3o rapidamente \u2013 ou perecer\u00e3o n\u00e3o menos rapidamente. Contar\u00e3o com uma possibilidade que n\u00e3o existia antes da crise estrutural, qual seja, a possibilidade do desenvolvimento das for\u00e7as produtivas em escala planet\u00e1ria \u2013 para al\u00e9m do trabalho explorado por meio do assalariamento (o trabalho prolet\u00e1rio), para al\u00e9m do mercado.<br \/>\nEssa possibilidade, nova, que abre as portas para a transi\u00e7\u00e3o ao comunismo pela media\u00e7\u00e3o do socialismo, n\u00e3o existia antes da crise estrutural: por isso, todas as revolu\u00e7\u00f5es do mais incr\u00edvel per\u00edodo revolucion\u00e1rio da hist\u00f3ria foram derrotadas \u2013 no sentido de n\u00e3o inaugurarem a transi\u00e7\u00e3o para al\u00e9m do capital.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A QUEST\u00c3O \u00c9 MAIOR DO QUE SUA APAR\u00caNCIA As revolu\u00e7\u00f5es s\u00e3o um fen\u00f4meno hist\u00f3rico para a humanidade. 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