{"id":4056,"date":"2015-07-06T07:54:56","date_gmt":"2015-07-06T10:54:56","guid":{"rendered":"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/?p=4056"},"modified":"2018-05-04T21:40:35","modified_gmt":"2018-05-05T00:40:35","slug":"a-trajetoria-do-pt-da-negacao-do-socialismo-ao-naufragio-do-5o-congresso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/2015\/07\/a-trajetoria-do-pt-da-negacao-do-socialismo-ao-naufragio-do-5o-congresso\/","title":{"rendered":"A trajet\u00f3ria do PT, da nega\u00e7\u00e3o do socialismo ao naufr\u00e1gio do 5\u00ba Congresso"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/lula-e-dilma.jpg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-4068\" src=\"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/lula-e-dilma.jpg\" alt=\"lula e dilma\" width=\"358\" height=\"141\" srcset=\"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/lula-e-dilma.jpg 358w, https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/lula-e-dilma-300x118.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 358px) 100vw, 358px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este texto \u00e9 uma contribui\u00e7\u00e3o individual, que n\u00e3o reflete necessariamente a posi\u00e7\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o, e por isso encontra-se assinado por seu autor, Daniel M. Delfino<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O PT surgiu como uma organiza\u00e7\u00e3o formada por militantes que participavam das greves e lutas do novo movimento sindical da d\u00e9cada de 1980, e das lutas de outros movimentos sociais da \u00e9poca, no campo, nos bairros, nas escolas e universidades, etc. Lutas que ajudaram a enterrar a ditadura militar, e que eram travadas por alguns dos participantes como passos de um processo acumulativo que visava derrubar o capitalismo no pa\u00eds, e construir o socialismo (ainda que este nunca tivesse sido muito bem definido). Na disputa entre as tend\u00eancias no interior do partido, entretanto, acabou prevalecendo a corrente liderada por Lula (chamada de Articula\u00e7\u00e3o, nome que tem at\u00e9 hoje nos sindicatos), contra as tend\u00eancias socialistas. Com isso, passou a haver cada vez menos lutas e cada vez mais o desvio da atividade dos militantes para a ocupa\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os no Estado, atrav\u00e9s das elei\u00e7\u00f5es.<br \/>\nA partir da queda do Muro de Berlim e da URSS em 1989-91, desencadeou-se uma ofensiva pol\u00edtica e ideol\u00f3gica da burguesia, em escala mundial, em torno da ideia de fim do socialismo, do marxismo, da luta de classes, etc. (ainda que a URSS e demais pa\u00edses que lhe seguiam o \u201cmodelo\u201d n\u00e3o fossem socialistas), o que foi usado como justificativa para ataques aos trabalhadores, no processo chamado de \u201cglobaliza\u00e7\u00e3o\u201d e neoliberalismo. Isso deu tamb\u00e9m o pretexto para que os dirigentes do PT removessem do discurso do partido qualquer refer\u00eancia ao socialismo, e passassem a defender abertamente a administra\u00e7\u00e3o do capitalismo, a sua \u201chumaniza\u00e7\u00e3o\u201d, a \u201cjusti\u00e7a social\u201d, etc. Conforme passava \u00e0 defesa do capitalismo, o PT se habilitava aos poucos para a conquista do governo federal, depois de se firmar entre os principais partidos do pa\u00eds com a ocupa\u00e7\u00e3o de prefeituras, governos estaduais, bancadas de deputados e senadores.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">Aceita\u00e7\u00e3o do capitalismo, burocratiza\u00e7\u00e3o e o aparelhamento do Estado<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir da op\u00e7\u00e3o de administrar o capitalismo, o PT se adapta \u00e0 l\u00f3gica de uma sociedade baseada na explora\u00e7\u00e3o. Apesar do intenso bombardeio ideol\u00f3gico de intelectuais burgueses neoliberais e p\u00f3s-modernos, o capitalismo continua sendo o que sempre foi, um sistema que sobrevive \u00e0s custas da extra\u00e7\u00e3o de trabalho n\u00e3o pago (mais valia) da maioria da popula\u00e7\u00e3o, em benef\u00edcio de uma minoria de exploradores. O trabalhador \u00e9 roubado todos os dias, uma vez que o valor que recebe como sal\u00e1rio \u00e9 sempre menor do que o valor que seu trabalho produz para o patr\u00e3o. Essa desigualdade estrutural na sociedade capitalista \u00e9 a fonte de todas as demais desigualdades e opress\u00f5es.<br \/>\nA luta entre a classe dos exploradores, a burguesia, e o proletariado explorado continua sendo o motor da hist\u00f3ria, pois s\u00e3o as \u00fanicas classes que trazem consigo um projeto de sociedade. O projeto do proletariado s\u00f3 pode ser o fim do capitalismo, da explora\u00e7\u00e3o, da propriedade privada, do trabalho assalariado, das classes sociais e do Estado, em favor do trabalho livre associado. Qualquer outro projeto significa a continuidade do capitalismo e da explora\u00e7\u00e3o. Ao negar o socialismo e assumir a continuidade do capitalismo como seu projeto, o PT gradualmente deixa de ser um partido de trabalhadores e muda o seu car\u00e1ter de classe, passando a ser um partido burgu\u00eas composto de burocratas.<br \/>\nEssa muta\u00e7\u00e3o se processa tamb\u00e9m por meio do estabelecimento de uma esp\u00e9cie de \u201cplano de carreira\u201d para os militantes do partido. No n\u00edvel mais baixo est\u00e3o os dirigentes de sindicatos (at\u00e9 hoje a maior fonte de quadros para o PT), movimentos sociais, ONGs e acad\u00eamicos. Esses dirigentes j\u00e1 vivem uma vida de privilegiados em rela\u00e7\u00e3o aos trabalhadores, pois possuem interesses pr\u00f3prios, separados e opostos aos do proletariado. Formam uma camada social que denominamos de burocracia, com um perfil pequeno burgu\u00eas, comumente chamado de classe m\u00e9dia. Os burocratas usam seu prest\u00edgio nas bases sociais para subir ao segundo n\u00edvel, concorrendo a mandatos de vereadores, prefeitos, deputados estaduais. Depois, os mais bem sucedidos passam para os postos de deputados federais, secret\u00e1rios de governo, dirigentes de empresas estatais. E no n\u00edvel mais alto ficam os senadores, governadores de estados, ministros, de onde saem os candidatos \u00e0 presid\u00eancia.<br \/>\nEm todo esse percurso os burocratas devem permanecer leais ao partido, ou seja, usar as estruturas que dirigem, sejam os sindicatos e movimentos sociais, sejam os mandatos em cargos menores, em favor das campanhas eleitorais do partido, conseguindo dinheiro e votos. Essa \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o para que cada um dos burocratas individualmente possam aspirar a ser eles pr\u00f3prios futuramente promovidos aos cargos mais altos. Foi assim que uma massa de milhares de burocratas petistas, a partir da elei\u00e7\u00e3o de Lula em 2002, tomou conta de cargos nos governos federais e estaduais, minist\u00e9rios, diretorias de estatais, fundos de pens\u00e3o, etc.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">PT \u00e9 usado pela burguesia e depois destinado \u00e0 lata de lixo<\/h2>\n<h2 style=\"text-align: justify;\"><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">A condi\u00e7\u00e3o para que o PT chegasse ao governo foi que administrasse o pa\u00eds em favor do conjunto das fra\u00e7\u00f5es do capital, garantindo os lucros dos bancos, agroneg\u00f3cio, empreiteiras, montadoras, transnacionais. Al\u00e9m disso, seria preciso usar o controle sobre os sindicatos e demais movimentos sociais para impedir a ocorr\u00eancia de greves e mobiliza\u00e7\u00f5es que amea\u00e7assem os lucros da burguesia. Para contrabalan\u00e7ar o arrocho sobre os trabalhadores e as camadas m\u00e9dias, o PT usaria as migalhas dos programas assistenciais destinados aos mais pobres como maquiagem, criando a imagem de um governo \u201cben\u00e9fico aos pobres\u201d e assegurando dessa forma uma base eleitoral cativa para se perpetuar no poder.<br \/>\nIsso funcionou por algum tempo, enquanto a economia internacional apresentava condi\u00e7\u00f5es favor\u00e1veis, em especial no \u00faltimo ciclo de crescimento econ\u00f4mico mundial entre 2002 e 2007. A partir do momento em que diminuem os lucros com as exporta\u00e7\u00f5es de mat\u00e9rias primas, como cereais e min\u00e9rios, com a crise mundial de 2008, a aposta passa a ser no consumo interno baseado em endividamento. Entretanto, depois de alguns anos, com o endividamento chegando ao limite e o esfriamento do mercado interno, a margem de manobra do governo fica menor. A dificuldade de garantir os lucros e ao mesmo tempo a fachada \u201csocial\u201d aumenta. Surge uma divis\u00e3o no interior da burguesia sobre a continuidade do PT \u00e0 frente do governo. Um setor da classe dominante come\u00e7a a considerar que o PT n\u00e3o \u00e9 mais a melhor op\u00e7\u00e3o para gerir o capital no pa\u00eds.<br \/>\nNuma disputa apertada pela reelei\u00e7\u00e3o em 2014, Dilma \u00e9 obrigada a apelar para \u201cos pobres\u201d para conseguir o 2\u00ba mandato (o que sempre traz o risco de expor a divis\u00e3o de classes existente na sociedade), numa esp\u00e9cie de \u201cgiro \u00e0 esquerda\u201d no discurso. Entretanto, assim que Dilma toma posse para o 2\u00ba mandato, o giro de volta \u00e0 direita \u00e9 t\u00e3o violento que causa revolta. A composi\u00e7\u00e3o do novo minist\u00e9rio, que foi literalmente loteada entre as diferentes fra\u00e7\u00f5es do capital (bancos, agroneg\u00f3cio, etc.), o pacote de maldades com reajuste nos pre\u00e7os da eletricidade e gasolina, as medidas provis\u00f3rias anunciando cortes no seguro desemprego, PIS e pens\u00f5es, os cortes de verbas no or\u00e7amento, etc., tudo isso gerou uma sensa\u00e7\u00e3o difusa de estelionato eleitoral. Ao mesmo tempo, surgem as manifesta\u00e7\u00f5es pedindo o impeachment de Dilma e at\u00e9 a volta da ditadura.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">Op\u00e7\u00e3o do PT pela administra\u00e7\u00e3o do capitalismo refor\u00e7a as ideias de direita<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao longo da sua transforma\u00e7\u00e3o em um partido burgu\u00eas o PT abriu m\u00e3o da disputa ideol\u00f3gica na sociedade, deixando de defender qualquer tipo de projeto de transforma\u00e7\u00e3o social. Mesmo que n\u00e3o fosse socialista, era preciso que o partido tivesse algum tipo de projeto, de meta, de horizonte a apresentar. Ao inv\u00e9s disso, o partido confiou na continuidade da \u201cprosperidade\u201d experimentada na era Lula, como se isso fosse suficiente para garantir a sua perman\u00eancia no poder indefinidamente. Quando as bases materiais dessa prosperidade come\u00e7am a se dissolver (endividamento do governo, das empresas, dos consumidores, queda nas exporta\u00e7\u00f5es, queda no consumo interno, desemprego, infla\u00e7\u00e3o, etc.), surge uma insatisfa\u00e7\u00e3o ampla e generalizada, com a qual o PT n\u00e3o tem como lidar.<br \/>\nSetores da classe trabalhadora que tiveram algum acesso ao consumo (via endividamento e n\u00e3o aumento real da renda) se sentem frustrados em suas expectativas de continuidade das melhorias materiais. Setores das camadas m\u00e9dias se sentem lesados com os programas assistenciais, como se eles fossem os culpados pelo arrocho e queda no seu padr\u00e3o de vida (na verdade, o governo destina mais de 40% do or\u00e7amento para pagamento da fraudulenta d\u00edvida p\u00fablica, ou seja, para cevar os banqueiros e especuladores, e menos de 1% para os programas assistenciais). Setores da alta burguesia que n\u00e3o foram diretamente beneficiados pelos governos do PT (afinal, cada burgu\u00eas do Bradesco, Odebrecht, Friboi, etc., que tem seus acordos com o PT, tamb\u00e9m tem concorrentes que n\u00e3o se sentem devidamente contemplados) passam a lutar para ter acesso direto \u00e0s verbas do Estado, sem a necessidade de pagar um \u201cped\u00e1gio\u201d \u00e0 burocracia petista. Em tempos de crise, mostra-se bastante dispendioso manter milhares de burocratas aparelhando o Estado.<br \/>\nO resultado dessa insatisfa\u00e7\u00e3o \u00e9 o crescimento das ideias de direita. Depois de uma d\u00e9cada de incentivo ao individualismo consumista, os valores coletivos foram solapados, e recrudesce a meritocracia, o racismo, o machismo, a LGBTfobia, o fundamentalismo religioso, etc. Na aus\u00eancia n\u00e3o s\u00f3 de um projeto socialista, mas na verdade de qualquer projeto ou discurso, por omiss\u00e3o do PT, proliferam os projetos da direita: redu\u00e7\u00e3o da maioridade penal, estatuto da fam\u00edlia, demarca\u00e7\u00e3o de terras ind\u00edgenas e quilombolas nas m\u00e3os de um Congresso recheado de latifundi\u00e1rios grileiros, o PL 4330 da terceiriza\u00e7\u00e3o j\u00e1 bem encaminhado, etc. As marchas contra Dilma contam inclusive com um setor minorit\u00e1rio defendendo a volta da ditadura militar.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">O 5\u00ba Congresso do PT e o naufr\u00e1gio da esperan\u00e7a<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse cen\u00e1rio, desenvolvem-se duas esp\u00e9cies de respostas pol\u00edticas que precisamos analisar. De um lado, no interior do pr\u00f3prio PT, algumas correntes da \u201cesquerda\u201d petista alimentaram a ilus\u00e3o de uma poss\u00edvel \u201ccorre\u00e7\u00e3o nos rumos\u201d do governo, de uma volta ao programa cl\u00e1ssico do partido (ou seja, ao ilus\u00f3rio programa de uma \u201cgest\u00e3o benigna\u201d do capitalismo), de abandono das medidas neoliberais mais radicais, etc. Essas esperan\u00e7as convergiram para o 5\u00ba Congresso do PT, nos dias 12 e 13\/06, quando aqueles que ainda acreditam no PT tentaram reanimar o partido para lutar contra o que identificam com uma ofensiva da \u201cdireita\u201d. Evidentemente, tais esperan\u00e7as foram todas frustradas. Ao inv\u00e9s do partido centralizar o governo Dilma e impor uma \u201cvirada \u00e0 esquerda\u201d, o que aconteceu foi o contr\u00e1rio, o governo Dilma centralizou o partido. Na ter\u00e7a-feira dia 9\/06, Dilma apresentou um pacote de privatiza\u00e7\u00f5es na \u00e1rea de infra estrutura, totalizando cerca de R$ 198 bilh\u00f5es. Ou seja, quanto mais a burguesia pressiona, mais o PT cede. E a milit\u00e2ncia do partido tem que se contentar com isso, e seguir defendendo o governo Dilma.<br \/>\nDe outro lado, um setor n\u00e3o organicamente vinculado ao PT, mas que se preocupou com a mesma amea\u00e7a da direita, cerrou fileiras em defesa do partido, desde a campanha eleitoral de 2014 at\u00e9 os atos anti Dilma e pr\u00f3 Dilma dos meses de mar\u00e7o e abril. Desenvolveu-se uma campanha nas redes sociais, tentando combater as ideias de direita, tentando mostrar que o PSDB \u00e9 t\u00e3o ou mais corrupto que o PT, tentando \u201cigualar o jogo\u201d contra o discurso anti petista que se tornou hegem\u00f4nico na sociedade. Alguns setores dos movimentos sociais organizados, como MST e MTST, se engajaram em marchas \u201ccontra a direita, por direitos\u201d, colaborando indiretamente para a defesa do PT, a partir de uma defini\u00e7\u00e3o amb\u00edgua do que \u00e9 \u201cdireita\u201d e \u201cesquerda\u201d que se omite quanto ao que realmente \u00e9 o PT hoje.<br \/>\nPara enfrentar a ofensiva da direita, precisamos restabelecer o significado das palavras. Direita e esquerda s\u00e3o, respectivamente, os que s\u00e3o a favor da manuten\u00e7\u00e3o e da transforma\u00e7\u00e3o da ordem social. Nesse sentido, a direita inclui tanto o PT quanto o PSDB, pois ambos s\u00e3o partidos burgueses, com um programa de administra\u00e7\u00e3o do capitalismo, de manuten\u00e7\u00e3o da explora\u00e7\u00e3o, da propriedade privada, da mais valia, do Estado, etc. Esquerda s\u00e3o somente os que defendem o fim do capitalismo e a ruptura rumo ao socialismo. Portanto, se formos rigorosos com o uso das palavras, de nada adianta defender o PT \u201ccontra a direita\u201d, j\u00e1 que o PT \u00e9 parte dessa mesma direita. Conforme expusemos acima, em termos hist\u00f3ricos e ideol\u00f3gicos, a responsabilidade pelo atual avan\u00e7o das ideias de direita \u00e9 toda do PT, j\u00e1 que o pr\u00f3prio partido abriu m\u00e3o da defesa de qualquer projeto alternativo, e se conformou inteiramente \u00e0 gest\u00e3o do capitalismo.<br \/>\nO resultado n\u00e3o poderia ser outro al\u00e9m do crescimento do individualismo, do ressentimento dos setores m\u00e9dios contra os mais pobres, etc., sentimentos que est\u00e3o na base dos projetos da direita. Os tr\u00eas mandatos do PT foram alimentados por uma ilus\u00e3o de prosperidade material. Quando essa ilus\u00e3o n\u00e3o se materializa, a frustra\u00e7\u00e3o \u00e9 descarregada contra os integrantes do PT, que s\u00e3o definidos como sin\u00f4nimos de corrup\u00e7\u00e3o (como se os demais partidos n\u00e3o fossem), os quais se sustentam no poder \u00e0 custa de enganar os pobres com bolsas (quando na verdade, o que sustenta o PT s\u00e3o os lucros excepcionais dos banqueiros e outros setores).<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">Construir na lutas uma alternativa socialista<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda assim, existe um setor que, pragmaticamente, reconhece tudo isso, reconhece a responsabilidade do PT na germina\u00e7\u00e3o subterr\u00e2nea e ulterior erup\u00e7\u00e3o das ideias de direita, reconhece que o partido tem um programa pr\u00f3 capitalista e uma gest\u00e3o neoliberal, etc., mas que ainda assim entende que o PT \u00e9 menos pior do que \u201ca direita\u201d. O problema dessa posi\u00e7\u00e3o \u00e9 que, como dissemos, quanto mais se alimenta a ilus\u00e3o de que o PT pode ser algum tipo de obst\u00e1culo contra \u201ca direita\u201d, mais o pr\u00f3prio PT assume o programa t\u00edpico da direita. O programa que a campanha do PT atribuiu \u00e0 candidatura de A\u00e9cio est\u00e1 sendo praticado por Dilma, porque na verdade o PT \u00e9 parte da direita, na medida em que defende a continuidade do capitalismo.<br \/>\nMas ent\u00e3o, prosseguem esses setores que defendem o PT, se a esquerda de verdade \u00e9 s\u00f3 aquela que defende o socialismo, ent\u00e3o n\u00e3o existe esquerda. A oposi\u00e7\u00e3o de esquerda ao PT fracassou. Os grupos que se colocam \u00e0 esquerda do PT, como PSOL, PSTU, PCB, PCO, e todos os grupos menores que n\u00e3o possuem legenda eleitoral, em conjunto, n\u00e3o foram capazes de construir uma alternativa pol\u00edtica e program\u00e1tica cr\u00edvel, contra a hegemonia de ideias conservadoras, pr\u00f3 capitalistas e de direita. A oposi\u00e7\u00e3o de esquerda ao PT est\u00e1 muito longe de poder disputar o poder na sociedade, contra as diferentes fra\u00e7\u00f5es da burguesia, a burocracia petista, as igrejas neopentecostais, etc. Em rela\u00e7\u00e3o a essa disputa, essa \u201cbriga de cachorro grande\u201d, a oposi\u00e7\u00e3o de esquerda, com toda sua fragmenta\u00e7\u00e3o, debilidades, v\u00edcios, etc., est\u00e1 na 2\u00aa divis\u00e3o. Assumindo esse fracasso da esquerda, esse setor defensor do PT entende que n\u00e3o h\u00e1 outra alternativa al\u00e9m de defender o PT por enquanto, at\u00e9 que supostamente a amea\u00e7a da \u201cdireita\u201d esteja afastada, e se possa reconstruir um projeto socialista, em algum momento de um futuro indefinido.<br \/>\n\u00c0 parte o fato de que esse balan\u00e7o da oposi\u00e7\u00e3o de esquerda (incapacidade objetiva de se colocar como alternativa na disputa de poder na sociedade) esteja em linhas gerais correto, essa posi\u00e7\u00e3o pragm\u00e1tica de reconhecer uma correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as desfavor\u00e1vel (e se refugiar na defesa do PT) na pr\u00e1tica desarma para as tarefas necess\u00e1rias para a reconstru\u00e7\u00e3o de um projeto de esquerda, ou seja, socialista. Reconhecer a crise terminal do PT, a sua decomposi\u00e7\u00e3o, o vazio ideol\u00f3gico \u00e0 esquerda e a ascens\u00e3o de ideias de direita, n\u00e3o pode nos conduzir a uma rendi\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica. Nem muito menos em apostar no pr\u00f3prio PT como t\u00e1bua de salva\u00e7\u00e3o. Se n\u00e3o lutarmos agora por uma alternativa socialista, classista, independente, antigovernista, n\u00e3o teremos futuro.<br \/>\nA decomposi\u00e7\u00e3o do PT tem uma base material que \u00e9 o fim do seu projeto de um capitalismo \u201cbom para todos\u201d. Sobre essa base material se desenrola a luta aberta entre os setores da burguesia e das camadas m\u00e9dias pela sua fatia no esp\u00f3lio da decadente \u201cprosperidade\u201d petista. Essa luta se traduz em uma onda de ataques sobre a classe trabalhadora e os setores oprimidos da sociedade. O ataque aos direitos trabalhistas (PL 4330), aos direitos civis (redu\u00e7\u00e3o da maioridade penal, estatuto da fam\u00edlia), etc., precisa ser respondido com luta. Essa luta tem que partir de uma ruptura com qualquer esperan\u00e7a no PT e tudo que seu projeto de administra\u00e7\u00e3o do capitalismo representam.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">Superar na pr\u00e1tica a experi\u00eancia hist\u00f3rica do PT<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">A \u00fanica coisa que os militantes preocupados com a \u201camea\u00e7a da direita\u201d (e o PT, ao assumir a administra\u00e7\u00e3o do capitalismo, \u00e9 parte da direita, nunca podemos deixar de reafirmar isso) podem fazer \u00e9 romper com o PT, a CUT e demais entidades aparelhadas pelo partido, e organizar desde a base a luta contra os ataques da burguesia e do governo. O maior crime de Lula e da Articula\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o os bilh\u00f5es desviados da Petrobr\u00e1s e outros esc\u00e2ndalos, mas destruir a credibilidade da esquerda, dos sindicatos, partidos de trabalhadores, movimentos sociais, pois no imagin\u00e1rio coletivo consolidou-se a imagem de que se trata de trampolins para a promo\u00e7\u00e3o de corruptos.<br \/>\n\u00c9 preciso recome\u00e7ar do zero e reconstruir um projeto socialista dos trabalhadores a partir das lutas concretas atualmente em curso. Isso significa superar o projeto de ocupa\u00e7\u00e3o de lugar no Estado, projeto aplicado pelo PT e que inevitavelmente levou ao seu fracasso (e de cuja sombra a oposi\u00e7\u00e3o de esquerda ao PT nunca conseguiu sair), para que se possa construir um projeto autenticamente anticapitalista. Superar o projeto do PT n\u00e3o quer dizer apenas fazer cr\u00edticas ao PT no governo. Se fosse assim, seria muito f\u00e1cil. O desafio real \u00e9 construir na pr\u00e1tica uma experi\u00eancia superior ao que foi o PT na sua origem, n\u00e3o ao PT decadente e burocratizado, governando para o capital. O PT a ser superado \u00e9 aquele PT da \u00e9poca em que era uma organiza\u00e7\u00e3o classista e combativa, que impulsionava as lutas na virada dos anos 1980, como descrevemos no in\u00edcio.<br \/>\nAquele PT classista e combativo somente veio a naufragar porque n\u00e3o superou uma pol\u00edtica eleitoralista, nem uma pr\u00e1tica sindical acomodada \u00e0 estrutura varguista do sindicalismo brasileiro (sindicalismo corporativo, economicista, estatizado, atrelado ao imposto sindical, etc.). As novas lutas em curso tem que superar esses limites. Somente assim podemos construir uma experi\u00eancia superior \u00e0 do PT. A base social para esse projeto \u00e9 a nova vanguarda que nasce nas lutas, desde as jornadas de junho em sua primeira fase, passando pelas greves dos garis e de professores, com seu esp\u00edrito de combatividade, radicalidade e rejei\u00e7\u00e3o de todas as formas burocr\u00e1ticas e carcomidas, que caracterizam desde o PT at\u00e9 a pr\u00f3pria esquerda propriamente dita. Sobre a base dessa nova vanguarda, ainda n\u00e3o contaminada com os v\u00edcios que comprometem a esquerda (tanto o eleitoralismo como o sindicalismo burocr\u00e1tico), \u00e9 que se pode construir um projeto capaz de enfrentar a direita em todas as suas faces, do PSDB ao PT.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este texto \u00e9 uma contribui\u00e7\u00e3o individual, que n\u00e3o reflete necessariamente a posi\u00e7\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o, e por isso encontra-se assinado por<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":4068,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":true,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[11,76],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4056"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4056"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4056\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6092,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4056\/revisions\/6092"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4068"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4056"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4056"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4056"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}