{"id":4059,"date":"2015-07-06T08:16:27","date_gmt":"2015-07-06T11:16:27","guid":{"rendered":"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/?p=4059"},"modified":"2018-05-04T21:40:28","modified_gmt":"2018-05-05T00:40:28","slug":"crise-e-corrupcao-na-fifa-reflexoes-sobre-o-futebol-na-era-da-sua-mercantilizacao-parte-1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/2015\/07\/crise-e-corrupcao-na-fifa-reflexoes-sobre-o-futebol-na-era-da-sua-mercantilizacao-parte-1\/","title":{"rendered":"Crise e corrup\u00e7\u00e3o na FIFA &#8211; Reflex\u00f5es sobre o futebol na era da sua mercantiliza\u00e7\u00e3o &#8211; parte 1"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/Marin.jpg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-4060\" src=\"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/Marin.jpg\" alt=\"Marin\" width=\"241\" height=\"209\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Este texto \u00e9 uma contribui\u00e7\u00e3o individual, que n\u00e3o reflete necessariamente a posi\u00e7\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o, e por isso encontra-se assinado por seu autor, Daniel M. Delfino<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O mundo do futebol entrou em polvorosa no m\u00eas de junho com as pris\u00f5es de v\u00e1rios integrantes do Comit\u00ea Executivo da FIFA (entre eles o ex-presidente da CBF, Jos\u00e9 Maria Marin), \u00e0s v\u00e9speras do Congresso mundial da entidade. O Congresso, reunido com toda a pompa na sede da FIFA, em Zurique, na Su\u00ed\u00e7a, reelegeria o ent\u00e3o presidente, Sepp Blatter, para mais um mandato. No entanto, uma semana depois de eleito, Blatter renunciou, e nova elei\u00e7\u00e3o foi apontada para escolher o presidente da entidade que comanda o futebol mundial.<br \/>\nAs pris\u00f5es foram efetuadas pela Interpol em obedi\u00eancia a um mandado do FBI. A pol\u00edcia federal estadunidense investiga a corrup\u00e7\u00e3o na FIFA h\u00e1 algum tempo, e entre outros casos, reuniu provas de que os membros do Comit\u00ea Executivo receberam propina de determinadas empresas para lhes vender os direitos de transmiss\u00f5es de competi\u00e7\u00f5es como a Copa Am\u00e9rica e competi\u00e7\u00f5es nacionais, como a Copa do Brasil. Tamb\u00e9m h\u00e1 a suspeita de que receberam propinas para votar nas candidaturas da R\u00fassia e do Qatar, escolhidas para sede das Copas do Mundo de 2018 e 2022, respectivamente (este caso est\u00e1 sendo investigado diretamente pela pol\u00edcia su\u00ed\u00e7a). Ambas as escolhas foram bastante criticadas na \u00e9poca em que foram anunciadas, em 2010, seja por haver outros concorrentes em muito melhores condi\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas de sediar uma Copa, como a Inglaterra, ou seja pela quase total aus\u00eancia de tradi\u00e7\u00e3o no mundo do futebol, condi\u00e7\u00e3o especialmente gritante no caso do Qatar.<br \/>\nAs investiga\u00e7\u00f5es do FBI ainda n\u00e3o atingiram o pr\u00f3prio Blatter, mas o ex-homem forte da FIFA preferiu sair de cena antes que o esc\u00e2ndalo o alcan\u00e7asse mais diretamente. Um dos nomes cotados para suceder Blatter \u00e9 seu ferrenho opositor e presidente da UEFA (Confedera\u00e7\u00e3o Europeia de Futebol), o ex-craque franc\u00eas Michel Platini. No Brasil, Jos\u00e9 Maria Marin acabava de ser substitu\u00eddo por Marco Polo Del Nero na presid\u00eancia da CBF. Por via das d\u00favidas, Del Nero se retirou do Congresso da FIFA ainda antes do encerramento. Em rela\u00e7\u00e3o a Marin, os fatos que motivaram sua pris\u00e3o aconteceram quando ainda era vice presidente, atr\u00e1s do todo poderoso Ricardo Teixeira, que comandou a CBF por mais de 20 anos, e renunciou ao cargo \u00e0s v\u00e9speras da Copa do Mundo de 2014 (mais ou menos como faria Blatter).<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">O \u201ccoronelismo\u201d no futebol<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">A FIFA \u00e9 uma entidade privada, j\u00e1 que n\u00e3o \u00e9 subordinada a nenhum governo ou organismo internacional. Ao contr\u00e1rio, a FIFA costuma se gabar de ter mais pa\u00edses filiados do que a ONU (209 contra 193, na \u00faltima contagem). E em muitos casos, tem poder superior ao de alguns governos, impondo as suas condi\u00e7\u00f5es para a realiza\u00e7\u00e3o da Copa do Mundo, como fez com o Brasil. De qualquer maneira, em termos jur\u00eddicos, \u00e9 uma entidade privada, sem fins lucrativos. A FIFA n\u00e3o possui propriet\u00e1rios privados, pois seus dirigentes s\u00e3o eleitos pelas federa\u00e7\u00f5es nacionais e continentais. Entretanto, o futebol \u00e9 um neg\u00f3cio muito lucrativo, e a FIFA tamb\u00e9m se beneficia dele. Como uma empresa, a FIFA vende um produto, a Copa do Mundo de sele\u00e7\u00f5es nacionais de futebol, que \u00e9 patrocinada por grandes empresas, que pagam fortunas para aparecerem nas transmiss\u00f5es dos jogos, que tamb\u00e9m custam uma fortuna \u00e0s emissoras. A Copa de 2014 custou US$ 4 bilh\u00f5es ao Brasil, e rendeu US$ 2 bilh\u00f5es para a FIFA.<br \/>\nUma vez que a pr\u00f3pria FIFA n\u00e3o \u00e9 uma empresa, portanto seu lucro n\u00e3o \u00e9 destinado a propriet\u00e1rios privados, o que acaba acontecendo \u00e9 que uma parte desse lucro acaba sendo ilicitamente embolsado pelos gestores eleitos, como Blatter e Marin. A investiga\u00e7\u00e3o do FBI diz respeito a US$ 150 milh\u00f5es que teriam sido pagos em suborno a dirigentes para que escolhessem determinados parceiros de patroc\u00ednio e transmiss\u00f5es, em detrimento de outros. Trata-se de crimes contra a concorr\u00eancia econ\u00f4mica. Esses gestores da FIFA, como dissemos, s\u00e3o eleitos por representantes das federa\u00e7\u00f5es nacionais. Em cada federa\u00e7\u00e3o nacional, por sua vez, encontramos figuras como Marin e Ricardo Teixeira, que ascenderam ao comando da entidade sem nenhuma hist\u00f3ria relevante como dirigentes de futebol.<br \/>\nRicardo Teixeira era simplesmente genro de Jo\u00e3o Havelange, antecessor e padrinho de Blatter na presid\u00eancia da FIFA. Jos\u00e9 Maria Marin era integrante do partido da ditadura militar, a ARENA, tendo sido vereador em S\u00e3o Paulo e governador em exerc\u00edcio entre 1982 e 1983, como vice de Paulo Maluf. Em 1975, ainda vereador, fez um discurso contra a TV Cultura, por conta da linha cr\u00edtica ao regime que l\u00e1 aparecia, e 15 dias depois o jornalista Vladimir Herzog apareceria morto no DOPS.<br \/>\nPara chegar ao comando das federa\u00e7\u00f5es nacionais como a CBF, essas figuras s\u00e3o eleitas pelos presidentes de federa\u00e7\u00f5es estaduais, que por sua vez s\u00e3o eleitos por presidentes dos clubes, que por sua vez s\u00e3o eleitos por grupos restritos de conselheiros ou s\u00f3cios especiais. Em outras palavras, uma estrutura nebulosa e antidemocr\u00e1tica na sua ess\u00eancia. O futebol, o esporte mais popular e democr\u00e1tico do mundo, est\u00e1 sob comando das figuras mais retr\u00f3gradas, corruptas, autorit\u00e1rias, incompetentes, med\u00edocres que se possa encontrar.<br \/>\nOs chamados \u201ccartolas\u201d que dirigem o futebol s\u00e3o uma esp\u00e9cie de remanescentes dos \u201ccoron\u00e9is\u201d que mandavam na pol\u00edtica de regi\u00f5es atrasadas. Ambos vivem de uma rede de troca de favores, de compadrio, de toma l\u00e1 d\u00e1 c\u00e1. Elegem-se uns aos outros, trocando favores por votos, numa rede de relacionamentos obscura, que nada t\u00eam a ver com os objetivos das entidades e o pr\u00f3prio futebol em si. Nesse sentido, a pseudo \u201cfaxina\u201d em andamento na FIFA corresponde a uma esp\u00e9cie de pseudo \u201crevolu\u00e7\u00e3o burguesa\u201d, com a remo\u00e7\u00e3o de alguns cartolas ligados a essas redes de favores mais retr\u00f3gradas e a poss\u00edvel instala\u00e7\u00e3o de um corpo de gestores mais profissional.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">Limites da pseudo \u201crevolu\u00e7\u00e3o burguesa\u201d na FIFA<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o acreditamos que a pris\u00e3o de algumas figuras possa \u201cmoralizar\u201d o futebol, seja em n\u00edvel internacional ou nacional. Enquanto o futebol for um neg\u00f3cio capitalista, estar\u00e1 sujeito a corrup\u00e7\u00e3o, troca de favores, suborno, comiss\u00f5es \u201cpor debaixo do pano\u201d, compra de resultados, apostas, etc. Todas essas pr\u00e1ticas caracterizam a competi\u00e7\u00e3o capitalista, dentro e fora do mundo do esporte. O capital n\u00e3o tem lei, n\u00e3o obedece \u00e0s regras do jogo.<br \/>\nTudo que puder ser feito para aumentar o lucro ser\u00e1 feito: matar, contaminar, depredar, roubar, mentir, subornar, chantagear, extorquir, amea\u00e7ar, trapacear. N\u00e3o h\u00e1 legisla\u00e7\u00e3o financeira, fiscal, trabalhista, ambiental, sanit\u00e1ria ou de qualquer natureza que possa impedir uma empresa capitalista de chegar ao seu lucro. Policiais, fiscais, ju\u00edzes, pol\u00edticos, jornalistas, s\u00e3o comprados para acobertar os crimes. A transgress\u00e3o das leis n\u00e3o \u00e9 uma escolha acidental de um determinado empres\u00e1rio ou gestor capitalista, \u00e9 um fato generalizado e amplamente disseminado que faz parte da natureza do sistema. Se um determinado dirigente capitalista opta por ser \u201c\u00e9tico\u201d (a rigor a \u00e9tica como tal \u00e9 imposs\u00edvel numa sociedade dividida em classes), ele ser\u00e1 derrotado na concorr\u00eancia capitalista por aqueles que n\u00e3o o s\u00e3o.<br \/>\nNa verdade, os empres\u00e1rios privados, gestores e diversas personifica\u00e7\u00f5es do capital n\u00e3o s\u00e3o os verdadeiros sujeitos do processo, mas meros objetos das leis f\u00e9rreas da competi\u00e7\u00e3o e da acumula\u00e7\u00e3o capitalista. Cada fra\u00e7\u00e3o do capital, enquanto valor econ\u00f4mico abstrato, luta contra as demais para se valorizar, e pune implacavelmente com a fal\u00eancia aquelas personifica\u00e7\u00f5es que fracassarem em viabilizar este imperativo.<br \/>\nConsiderando essa realidade subjacente, a pseudo \u201crevolu\u00e7\u00e3o burguesa\u201d em andamento na FIFA vai t\u00e3o somente tocar na superf\u00edcie dos fen\u00f4menos, removendo as figuras ou grupos atualmente encastelados na gest\u00e3o do futebol, substituindo-os por uma nova categoria de gestores mais \u201cmoderna\u201d, \u201cprofissional\u201d, transparente\u201d, \u201c\u00e9tica\u201d, gerando a ilus\u00e3o de que algo de positivo foi feito. Na realidade, a l\u00f3gica profunda da competi\u00e7\u00e3o capitalista que est\u00e1 por tr\u00e1s dos fen\u00f4menos seguir\u00e1 intocada, e com isso novos esc\u00e2ndalos ser\u00e3o gerados. Uma determinada turma de empres\u00e1rios capitalistas conseguir\u00e1 colocar os seus novos gestores de confian\u00e7a na FIFA, em disputa contra outra turma. Emissoras de televis\u00e3o, seus patrocinadores, dirigentes de grandes clubes e empres\u00e1rios de jogadores seguir\u00e3o mandando no futebol, com os mesmos m\u00e9todos mafiosos.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">Clubes X Sele\u00e7\u00f5es<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como pano de fundo dessa pseudo \u201crevolu\u00e7\u00e3o burguesa\u201d na FIFA, temos uma dissocia\u00e7\u00e3o entre as duas dimens\u00f5es em que \u00e9 jogado o futebol, a dos clubes e a das sele\u00e7\u00f5es nacionais. Os clubes de futebol, especialmente na Europa, est\u00e3o se transformando em corpora\u00e7\u00f5es superpoderosas, com marcas mundialmente conhecidas, torcedores em todos os continentes, audi\u00eancia e valor de mercado em ascens\u00e3o. \u00c9 o caso de gigantes como Real Madrid, Barcelona, Manchester United, Chelsea, Bayern de Munique, e alguns poucos outros em cada pa\u00eds. Os times montados por esses clubes s\u00e3o verdadeiras sele\u00e7\u00f5es mundiais, com os melhores jogadores de cada continente. Esses clubes protagonizam uma disputa, a Liga dos Campe\u00f5es da Europa, onde se joga o melhor futebol do mundo, com jogos disputad\u00edssimos, de alta intensidade, onde os melhores jogadores entregam seu melhor desempenho.<br \/>\nComo resultado, o futebol jogado na Ligas dos Campe\u00f5es e nos campeonatos nacionais mais importantes da Europa cresce em interesse, audi\u00eancia, valor de mercado, e o futebol das sele\u00e7\u00f5es nacionais decresce na mesma medida. Antes, as Copas do Mundo eram um evento extraordin\u00e1rio no futebol, no sentido de que nessa competi\u00e7\u00e3o se jogava o melhor futebol do mundo. Os jogadores esperavam 4 anos para estar entre os melhores dos melhores do seu pa\u00eds, para ter a chance de jogar uma Copa, uma oportunidade que aparecia 2 ou no m\u00e1ximo 3 vezes na curta carreira dos futebolistas. Era nas Copas do Mundo que se faziam os her\u00f3is, que se consagravam os mitos. Agora, a Copa \u00e9 um evento extraordin\u00e1rio em outro sentido, como uma interrup\u00e7\u00e3o do calend\u00e1rio \u201cnormal\u201d do futebol, que \u00e9 o das competi\u00e7\u00f5es dos clubes, em especial os grandes clubes da Europa.<br \/>\nO calend\u00e1rio do futebol europeu come\u00e7a entre fins de agosto e in\u00edcio de setembro de cada ano, para terminar em maio do ano seguinte. As competi\u00e7\u00f5es de sele\u00e7\u00f5es acontecem entre junho e julho, no intervalo entre as temporadas europeias, per\u00edodo que acaba sendo de descanso e refazimento para os profissionais de alto n\u00edvel. Os jogadores s\u00e3o preparados fisiologicamente por preparadores f\u00edsicos, que trabalham cientificamente para isso, de maneira a que eles atinjam o m\u00e1ximo de desempenho f\u00edsico entre os meses de mar\u00e7o e maio, na reta final das competi\u00e7\u00f5es europeias, quando se definem os campe\u00f5es. Uma vez atingido esse auge, a tend\u00eancia natural \u00e9 o relaxamento e a queda de desempenho. Nem que o indiv\u00edduo queira, \u00e9 fisicamente e psicologicamente imposs\u00edvel manter o mesmo n\u00edvel de rendimento e motiva\u00e7\u00e3o.<br \/>\nDepois de se dedicar com a m\u00e1xima intensidade \u00e0 disputa da Liga dos Campe\u00f5es ou dos campeonatos nacionais mais importantes da Europa, depois de atingir o auge do desempenho f\u00edsico e t\u00e9cnico e tamb\u00e9m de concentra\u00e7\u00e3o mental para essas competi\u00e7\u00f5es, n\u00e3o h\u00e1 como manter o mesmo n\u00edvel para as competi\u00e7\u00f5es de sele\u00e7\u00f5es no meio do ano. Depois de entregarem seu melhor desempenho jogando pelos clubes, que disputam as competi\u00e7\u00f5es mais importantes e mais rent\u00e1veis, os melhores jogadores do mundo chegam esgotados para os jogos das sele\u00e7\u00f5es nacionais no meio do ano.<br \/>\nDevido a essa invers\u00e3o, a Copa do Mundo n\u00e3o \u00e9 mais o par\u00e2metro para consagrar os melhores jogadores. O jogador que fez o gol que deu a Copa do Mundo de 2014 para a Alemanha, o jovem Mario G\u00f6tze, n\u00e3o ascendeu imediatamente \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de semideus, de imortal do futebol. Ainda n\u00e3o \u00e9 considerado como tal, longe disso, porque ainda n\u00e3o se consagrou na disputa que agora realmente interessa, a da Liga dos Campe\u00f5es da Europa, e ainda \u00e9 reserva no seu clube, o Bayern de Munique. N\u00e3o \u00e9 mais o futebol das sele\u00e7\u00f5es que consagra os g\u00eanios, mas o dos clubes. Temos uma exce\u00e7\u00e3o que ilustra o funcionamento dessa tend\u00eancia, o caso de Lionel Messi, da Argentina. O atual melhor do mundo j\u00e1 foi protagonista da Liga dos Campe\u00f5es mais de uma vez jogando pelo Barcelona, mas ainda n\u00e3o \u00e9 considerado pela torcida de seu pa\u00eds igual ou melhor que Maradona, porque este ganhou a Copa do Mundo pela sele\u00e7\u00e3o argentina. Mas para boa parte da cr\u00edtica internacional, inclusive este autor, Messi j\u00e1 se iguala ou supera Maradona.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/gol-do-messi.jpg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-4061\" src=\"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/gol-do-messi.jpg\" alt=\"gol do messi\" width=\"911\" height=\"683\" srcset=\"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/gol-do-messi.jpg 911w, https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/gol-do-messi-300x224.jpg 300w, https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/gol-do-messi-80x60.jpg 80w\" sizes=\"(max-width: 911px) 100vw, 911px\" \/><\/a><\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">A coloniza\u00e7\u00e3o do mundo da bola pelos gigantes europeus<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o sabemos at\u00e9 onde vai essa queda de import\u00e2ncia t\u00e9cnica da Copa do Mundo, afinal os povos de quase todos os pa\u00edses ainda torcem apaixonadamente por suas sele\u00e7\u00f5es nacionais. Os estados nacionais e com eles o nacionalismo futebol\u00edstico ainda devem ser uma parte do cen\u00e1rio por muitas d\u00e9cadas. Mas que existe uma tend\u00eancia de agigantamento do futebol dos clubes, isso \u00e9 ineg\u00e1vel. J\u00e1 se estabeleceu um cen\u00e1rio em que os clubes europeus drenam todo o talento futebol\u00edstico que surge em pa\u00edses de continentes pobres, como Am\u00e9rica do Sul, \u00c1frica e \u00c1sia. As competi\u00e7\u00f5es nacionais e continentais da Am\u00e9rica do Sul s\u00e3o uma esp\u00e9cie de 2\u00aa divis\u00e3o mundial, j\u00e1 que as principais competi\u00e7\u00f5es s\u00e3o as da Europa. Os melhores jogadores ficam pouqu\u00edssimos anos nos seus clubes de origem no Brasil (e no restante da Am\u00e9rica do Sul) e assim que se destacam s\u00e3o vendidos para a Europa. Esse j\u00e1 \u00e9 o seu \u201cplano de carreira\u201d desde que saem das categorias de base.<br \/>\nOs jogadores que ficam no Brasil s\u00e3o os que n\u00e3o s\u00e3o bons o suficiente para irem para a Europa, ou j\u00e1 n\u00e3o mais s\u00e3o bons o bastante para ficarem por l\u00e1, entraram em decad\u00eancia f\u00edsica, est\u00e3o lesionados, etc., e por isso voltam. Ao mesmo tempo, j\u00e1 se encontram nas ruas do Brasil torcedores com camisas de times europeus quase em igualdade com o n\u00famero de torcedores de times nacionais. O futebol dos grandes clubes da Europa est\u00e1 \u201ccolonizando\u201d o mundo. E nessa coloniza\u00e7\u00e3o temos uma mudan\u00e7a no car\u00e1ter do futebol. Este se transforma cada vez mais em um espet\u00e1culo televisivo do que num espa\u00e7o de conviv\u00eancia, como era a sua origem. Esses \u201ctorcedores\u201d de clubes europeus que assistem jogos de outros continentes pela televis\u00e3o dificilmente ter\u00e3o a experi\u00eancia de torcer para seus clubes de ado\u00e7\u00e3o no est\u00e1dio, que \u00e9 como o futebol se construiu.<br \/>\nEst\u00e1 acontecendo uma esp\u00e9cie de homogeneiza\u00e7\u00e3o do futebol jogado em todos os pa\u00edses. As diferen\u00e7as entre as escolas nacionais, com seus diferentes estilos espec\u00edficos, est\u00e3o se diluindo. Em cada clube grande da Europa existem mais estrangeiros do que nacionais: um ou dois brasileiros, um argentino, um uruguaio ou colombiano, um ou dois africanos, um sul-coreano, \u00e0s vezes at\u00e9 um australiano, etc. Esses jogadores jogam um futebol padronizado, t\u00e9cnico, mas burocr\u00e1tico, com bom dom\u00ednio de bola, mas sem imagina\u00e7\u00e3o, com velocidade, mas sem criatividade, e assim por diante.<br \/>\nA homogeneiza\u00e7\u00e3o do futebol, bem como os demais fen\u00f4menos descritos acima, a forma\u00e7\u00e3o de clubes super gigantes, que monopolizam os campeonatos nacionais e criam torcedores\/espectadores\/consumidores em um mercado global, \u00e9 um processo que tem seu marco na senten\u00e7a Bosman, em 1995. Neste ano, uma corte da Uni\u00e3o Europeia \u2013 UE, decidiu que o jogador belga Jean Marc Bosman poderia jogar em qualquer pa\u00eds da UE sem ser considerado estrangeiro. A partir desse precedente, os grandes clubes europeus passaram a poder comprar jogadores europeus como se fossem nacionais, caindo por terra a tradicional e hist\u00f3rica limita\u00e7\u00e3o de tr\u00eas estrangeiros por clube que vigorava at\u00e9 aquele momento. O passo seguinte foi a obten\u00e7\u00e3o de passaportes portugueses, italianos, espanhois, por jogadores brasileiros, argentinos, uruguaios, etc.<br \/>\nCom isso, eles tamb\u00e9m passariam a ser cidad\u00e3os europeus, e tamb\u00e9m poderiam jogar em clubes de qualquer pa\u00eds europeu sem serem contados como estrangeiros. J\u00e1 \u00e9 comum ver times ingleses sem nenhum jogador ingl\u00eas em campo, clubes italianos sem nenhum italiano, e assim por diante. Na pr\u00e1tica, acabou o limite para jogadores estrangeiros em cada elenco, e os times com mais dinheiro passaram a poder comprar os melhores jogadores do mundo, e formar as sele\u00e7\u00f5es mundiais que temos hoje no Real Madrid, Barcelona, Manchester United, etc. Isso desequilibrou os campeonatos nacionais em favor dos gigantes, e aumentou o interesse na Copa dos Campe\u00f5es da Europa, transformada em Liga dos Campe\u00f5es em 1994, uma verdadeira \u201cCopa do Mundo\u201d jogada anualmente.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">A elitiza\u00e7\u00e3o e desenraizamento do futebol<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma das conseq\u00fc\u00eancias desse agigantamento dos grandes clubes \u00e9 a elitiza\u00e7\u00e3o do futebol. Est\u00e1 se tornando imposs\u00edvel freq\u00fcentar os est\u00e1dios, devido ao pre\u00e7o dos ingressos. Muitos desses clube gigantes reservam partes das suas arquibancadas para ag\u00eancias de turismo. O resultado \u00e9 que, ao inv\u00e9s de torcedores, eles t\u00eam espectadores no est\u00e1dio. O restante dos ingressos \u00e9 vendido a torcedores de alta renda. Os trabalhadores n\u00e3o podem mais ir ao est\u00e1dio, e t\u00eam que se contentar em ver os jogos pela televis\u00e3o.<br \/>\nEsse processo j\u00e1 est\u00e1 t\u00e3o acentuado em alguns pa\u00edses que at\u00e9 gerou uma rea\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria. O \u201cslogan\u201d comercial da federa\u00e7\u00e3o inglesa para divulgar os jogos da 2\u00aa divis\u00e3o \u00e9 \u201creal football for real fans\u201d. Ou seja, futebol de verdade para torcedores de verdade. A segunda divis\u00e3o \u00e9 jogada por times pequenos, de cidades pequenas, em est\u00e1dios pequenos, mas sempre lotados, com uma torcida apaixonada, que canta durante o jogo inteiro, e literalmente empurra o time. Uma torcida de trabalhadores. O futebol \u201cde verdade\u201d da segunda divis\u00e3o inglesa \u00e9 o \u201ckick and rush\u201d, ou seja, chut\u00e3o para frente e correria. Muita dedica\u00e7\u00e3o e pouco talento. Por mais que a qualidade dos jogos n\u00e3o seja nem de longe a mesma da primeira divis\u00e3o, a badalada \u201cPremier League\u201d, que \u00e9 o melhor campeonato nacional do mundo, a segunda divis\u00e3o inglesa motiva seus torcedores, porque \u00e9 muito mais aut\u00eantica. Diante dos jogos altamente competitivos, mas tamb\u00e9m muitas vezes burocr\u00e1ticos, repetitivos, o torcedor prefere o bom e velho \u201ckick and rush\u201d da segunda divis\u00e3o.<br \/>\nQuando os trabalhadores perdem a possibilidade de freq\u00fcentar os est\u00e1dios, o futebol se descaracteriza e se transforma num espet\u00e1culo televisivo. A classe oper\u00e1ria \u00e9 a alma do futebol. O h\u00e1bito de torcer ombro a ombro, sofrer junto nas derrotas e comemorar as vit\u00f3rias, a \u201creligi\u00e3o\u201d de torcer para um time, \u00e9 parte da identidade de classe que unifica os trabalhadores. Posteriormente, j\u00e1 num momento de degenera\u00e7\u00e3o, surgem as gangues de \u201chooligans\u201d e torcedores organizados, n\u00e3o mais para torcer, mas para brigar com outras gangues rivais. A elitiza\u00e7\u00e3o do p\u00fablico, por meio de ingressos proibitivos, \u00e9 uma forma de tentar retirar as gangues do cen\u00e1rio, mas que retira tamb\u00e9m os trabalhadores.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">Ideologia da competi\u00e7\u00e3o x competi\u00e7\u00e3o esportiva<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">A transforma\u00e7\u00e3o do futebol em um neg\u00f3cio bilion\u00e1rio \u00e9 parte do processo multissecular de mercantiliza\u00e7\u00e3o de todas as esferas da vida, descrito por Marx e Engels no Manifesto Comunista, no long\u00ednquo 1848. \u201cA burguesia despojou de sua aur\u00e9ola toda a ocupa\u00e7\u00e3o at\u00e9 ent\u00e3o considerada honrada e encarada com respeito. Converteu o m\u00e9dico, o jurista, o padre, o poeta, o homem de ci\u00eancia em trabalhadores assalariados\u201d. O capitalismo transformou em um neg\u00f3cio de compra e venda todas as atividades, todas as profiss\u00f5es, incluindo hoje os jogadores de futebol. Marx e Engels foram g\u00eanios vision\u00e1rios por terem identificado esse processo em seu nascedouro, no s\u00e9culo XIX (e tamb\u00e9m por prescrever a \u00fanica forma de enfrentar tal processo e alcan\u00e7ar a emancipa\u00e7\u00e3o humana: a revolu\u00e7\u00e3o socialista). Agora, vivemos no momento de consuma\u00e7\u00e3o da ascens\u00e3o hist\u00f3rica do capital, quando tudo j\u00e1 est\u00e1 transformado em mercadoria.<br \/>\nUma vez que a realidade \u00e9 dial\u00e9tica, as suas diversas esferas se influenciam reciprocamente, e absorvem caracter\u00edsticas umas das outras. Se o esporte se torna mercadoria, a mercadoria tamb\u00e9m se converte em competi\u00e7\u00e3o. A ideologia da competi\u00e7\u00e3o se espalha da pr\u00e1tica esportiva para as demais atividades humanas. Desempenho, performance, metas, recordes, resultados, lideran\u00e7a, vit\u00f3ria e derrota, s\u00e3o categorias que passam a vigorar em esferas as mais d\u00edspares. Se fala em \u201cperformance sexual\u201d, se mede a qualidade dos filmes pelo resultado na bilheteria (ou pela quantidade de pr\u00eamios), se corre no tr\u00e2nsito para chegar na frente (de quem?), se vive com pressa, tentando \u201crender mais\u201d, sempre mais. A psicologia dos indiv\u00edduos \u00e9 contaminada por essa obsess\u00e3o competitiva, produtivista, quantitativa, tomada emprestada da competi\u00e7\u00e3o esportiva, pela press\u00e3o da competi\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica.<br \/>\nA ideologia da competi\u00e7\u00e3o, transportada para a vida privada dos indiv\u00edduos, tamb\u00e9m n\u00e3o se pauta pelas caracter\u00edsticas da pr\u00f3pria competi\u00e7\u00e3o esportiva em si. Quando o esporte se torna uma atividade econ\u00f4mica, a sua pr\u00f3pria natureza \u00e9 descaracterizada. Afinal, a competi\u00e7\u00e3o esportiva tem uma l\u00f3gica diferente da competi\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica. No esporte existem regras para o jogo, o resultado tem que ser obtido dentro das quatro linhas, \u00e9 requerido um conjunto de habilidades especiais que somente se obt\u00e9m com treinamento e trabalho duro. O resultado final, enfim, \u00e9 \u201cjusto\u201d, dentro daquilo que \u00e9 estabelecido quando o jogo come\u00e7a. A competi\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, por outro lado, n\u00e3o tem quaisquer limites, como vimos acima.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">A educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica para o capital<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na sua origem moderna, o esporte tamb\u00e9m teve uma fun\u00e7\u00e3o de disciplinamento e \u201ceduca\u00e7\u00e3o\u201d dos indiv\u00edduos para um modo de vida adequado \u00e0 l\u00f3gica do capital. Os esportes tais como os conhecemos hoje, tanto as modalidades ol\u00edmpicas quanto o futebol, surgiram entre a metade e o fim do s\u00e9culo XIX. Nessa \u00e9poca estava se impondo a industrializa\u00e7\u00e3o e a urbaniza\u00e7\u00e3o capitalistas. Era preciso adaptar os trabalhadores e a popula\u00e7\u00e3o em geral para uma vida pautada pelos ritmos da produ\u00e7\u00e3o capitalista.<br \/>\nA semana inglesa de 7 dias, a jornada de trabalho (objeto de dura disputa do nascente movimento oper\u00e1rio contra a patronal, at\u00e9 ser reduzida para 8 horas no s\u00e9culo XX), o ritmo regular e repetitivo das m\u00e1quinas, a monotonia das tarefas segmentadas da produ\u00e7\u00e3o taylorista-fordista, os sinais de tr\u00e2nsito, a contagem do tempo em minutos e segundos, etc., tudo isso teve que ser imposto sobre uma popula\u00e7\u00e3o acostumada a regular o ritmo de vida pelos ciclos da natureza. Durante mil\u00eanios a humanidade regulou suas atividades pelas esta\u00e7\u00f5es do ano, \u00e9pocas de frio e calor, de chuva e de seca, de neve, de colheita, pela claridade do dia, etc. Os ciclos de atividade e descanso seguiam esses ritmos, sazonais, intermitentes, mais ou menos regulares, conforme as regi\u00f5es e os tipos de atividade. Os ciclos artificiais da vida urbana, do trabalho industrial, do controle burocr\u00e1tico, etc., foram implantados \u00e0 for\u00e7a, por meio de multas, puni\u00e7\u00f5es, regulamentos, castigos dos capatazes, bed\u00e9is, fiscais, guardas de tr\u00e2nsito, etc.<br \/>\nParalelamente a esse aparato repressivo, o ritmo de vida artificial adequado \u00e0 produ\u00e7\u00e3o capitalista foi imposto tamb\u00e9m com a ajuda persuasiva mais suave e l\u00fadica das pr\u00e1ticas esportivas. Os esportes se popularizam e educam a popula\u00e7\u00e3o, acostumando-a \u00e0 contagem do tempo, apito inicial e apito final, aquecimento, intervalo, quatro linhas, pontua\u00e7\u00e3o, regras, arbitragem, etc., toda uma coreografia ordenada dos gestos que se espalha dos esportes para outras esferas da vida cotidiana. At\u00e9 as artes marciais, patrim\u00f4nio das classes aristocr\u00e1ticas do Extremo Oriente, tamb\u00e9m se popularizam (o jud\u00f4 foi criado por Jigoro Kano em 1920, a partir das t\u00e9cnicas da finada classe dos samurais para as lutas sem armas, especialmente para educar a popula\u00e7\u00e3o do moderno Jap\u00e3o imperialista).<br \/>\nOs pr\u00f3prios efeitos ben\u00e9ficos das pr\u00e1ticas esportivas e da atividade f\u00edsica para a sa\u00fade ficam hoje em segundo plano, j\u00e1 que o esporte, o h\u00e1bito de freq\u00fcentar academias, etc., tamb\u00e9m est\u00e1 submetido \u00e0 ideologia geral da competi\u00e7\u00e3o que ajudou a difundir, e que o submete de outras maneiras. Dentro das pr\u00f3prias academias, os freq\u00fcentadores competem para mostrar mais resultado. O objetivo n\u00e3o \u00e9 a sa\u00fade, mas a exibi\u00e7\u00e3o de um \u201ccorpo perfeito\u201d, conforme um padr\u00e3o de beleza artificialmente imposto. At\u00e9 mesmo as artes marciais, as mais nobres e requintadas formas de cultivo do corpo e da mente, se transformaram em UFC.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">Um chute que saiu pela culatra<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em resumo, a imposi\u00e7\u00e3o de um modo de vida adequado \u00e0 reprodu\u00e7\u00e3o do capital contou com a colabora\u00e7\u00e3o imprevista da populariza\u00e7\u00e3o das pr\u00e1ticas esportivas. Mas essa populariza\u00e7\u00e3o teve um outro efeito, que n\u00e3o foi previsto. Na \u00e9poca, em fins do s\u00e9culo XIX, esse efeito educativo das pr\u00e1ticas esportivas sobre o conjunto da popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o era a inten\u00e7\u00e3o original dos criadores do esporte moderno. As Olimp\u00edadas modernas e o pr\u00f3prio futebol foram criados com uma concep\u00e7\u00e3o aristocr\u00e1tica, um ideal cavalheiresco burgu\u00eas, inspirado em uma idealiza\u00e7\u00e3o da antiga pr\u00e1tica greco-romana de cultivo do corpo.<br \/>\nO futebol moderno surgiu nas escolas p\u00fablicas inglesas na metade do s\u00e9culo XIX, como parte desse projeto burgu\u00eas e elitista. Em fins do s\u00e9culo, entretanto, o jogo j\u00e1 tinha sido adotado pela classe oper\u00e1ria, que come\u00e7ou a fundar clubes de futebol por toda parte. Marinheiros ingleses difundiram o jogo pelos quatro cantos do mundo. O futebol se popularizou mais do que qualquer outro esporte, devido a uma s\u00e9rie de caracter\u00edsticas: a \u201cjogabilidade\u201d, a plasticidade do jogo, a liberdade de cria\u00e7\u00e3o que oferece, a possibilidade de ser jogado em qualquer terreno, em qualquer espa\u00e7o, sem requerer equipamentos especiais, nem, principalmente, qualidades f\u00edsicas excepcionais, podendo ao contr\u00e1rio ser praticado por qualquer biotipo, bem como a simplicidade das regras, e a imprevisibilidade dos resultados.<br \/>\nAo contr\u00e1rio dos demais esportes coletivos, no futebol o melhor time pode perder. Um gol vale mais do que uma d\u00fazia de chances perdidas. Um time pode jogar um jogo inteiro por uma bola apenas, e vencer. Uma quantidade enorme de fatores interfere nos resultados, em combina\u00e7\u00f5es vari\u00e1veis: individualidade, qualidade do campo, press\u00e3o da torcida, erro de arbitragem, preparo f\u00edsico, entrosamento, esquema t\u00e1tico, ou puro e simples azar. Essas caracter\u00edsticas mant\u00e9m viva a disputa durante os 90 minutos. At\u00e9 o apito final, qualquer coisa pode acontecer. Com isso, a motiva\u00e7\u00e3o de quem joga permanece viva at\u00e9 o final, e tamb\u00e9m a de quem assiste.<br \/>\nCom essa imprevisibilidade e variedade, o futebol seduziu torcidas pelo mundo inteiro, criou verdadeiras religi\u00f5es. Mas sempre com uma base social oper\u00e1ria. Hoje, em tempos de mercantiliza\u00e7\u00e3o e mundializa\u00e7\u00e3o, e tamb\u00e9m de corrup\u00e7\u00e3o e tram\u00f3ias, cada vez mais torcer por bom futebol se tornar\u00e1 um ato de nostalgia e resist\u00eancia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Este texto \u00e9 uma contribui\u00e7\u00e3o individual, que n\u00e3o reflete necessariamente a posi\u00e7\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o, e por isso encontra-se assinado<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":4060,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":true,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[11,76],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4059"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4059"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4059\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6090,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4059\/revisions\/6090"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4060"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4059"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4059"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4059"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}