{"id":4063,"date":"2015-07-06T08:36:25","date_gmt":"2015-07-06T11:36:25","guid":{"rendered":"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/?p=4063"},"modified":"2018-05-04T21:39:33","modified_gmt":"2018-05-05T00:39:33","slug":"por-que-as-revolucoes-nao-levaram-a-sociedade-socialista-um-debate-com-sergio-lessa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/2015\/07\/por-que-as-revolucoes-nao-levaram-a-sociedade-socialista-um-debate-com-sergio-lessa\/","title":{"rendered":"Por que as revolu\u00e7\u00f5es n\u00e3o levaram \u00e0 sociedade socialista &#8211; Um debate com S\u00e9rgio Lessa"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/est\u00e1tua-l\u00eanin.jpg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-4064\" src=\"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/est\u00e1tua-l\u00eanin.jpg\" alt=\"est\u00e1tua l\u00eanin\" width=\"231\" height=\"218\" \/><\/a><br \/>\nEste texto \u00e9 uma contribui\u00e7\u00e3o individual, que n\u00e3o reflete necessariamente a posi\u00e7\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o, e por isso encontra-se assinado por seu autor, Daniel M. Delfino<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"CENTER\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\">\u00a0<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"> Na edi\u00e7\u00e3o de n\u00ba 79 do jornal do Espa\u00e7o Socialista, o companheiro S\u00e9rgio Lessa publicou mais um texto da s\u00e9rie de materiais de forma\u00e7\u00e3o te\u00f3rica, com o prop\u00f3sito de responder, conforme o t\u00edtulo do texto, \u201cPor que as revolu\u00e7\u00f5es do s\u00e9culo XX n\u00e3o levaram \u00e0 sociedade socialista?\u201d (<a href=\"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/?p=4003\">http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/?p=4003<\/a>). Na nota introdut\u00f3ria do artigo, a coordena\u00e7\u00e3o do Espa\u00e7o Socialista deixou claro que este tema \u00e9 uma quest\u00e3o ainda em aberto no movimento dos trabalhadores e tamb\u00e9m dentro da pr\u00f3pria organiza\u00e7\u00e3o, de modo que publicamos o texto de Lessa como uma contribui\u00e7\u00e3o ao debate. Seguiremos publicando as contribui\u00e7\u00f5es do companheiro Lessa, as quais reputamos valios\u00edssimas para a forma\u00e7\u00e3o dos militantes, ativistas e trabalhadores e para o debate rumo \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de uma alternativa socialista.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"> O que apresento a seguir \u00e9 mais uma contribui\u00e7\u00e3o individual, assinada por mim, Daniel M. Delfino, e que portanto tamb\u00e9m n\u00e3o necessariamente reflete a posi\u00e7\u00e3o do conjunto do Espa\u00e7o Socialista. Ao entrar nesse debate, ressalto mais uma vez que o texto de S\u00e9rgio Lessa foi escrito com o prop\u00f3sito de forma\u00e7\u00e3o, portanto sem o espa\u00e7o adequado para entrar em detalhes na argumenta\u00e7\u00e3o. Assim, ao fazer uma cr\u00edtica ao texto, de certa forma estou sendo \u201cinjusto\u201d, j\u00e1 que o objeto da cr\u00edtica n\u00e3o se propunha tamb\u00e9m, por sua vez, a se colocar como instrumento de pol\u00eamica, e dessa forma n\u00e3o p\u00f4de expor todo o arsenal necess\u00e1rio para defender suas posi\u00e7\u00f5es. Mesmo assim, em face da import\u00e2ncia do tema, e considerando essa ressalva, a pol\u00eamica se faz necess\u00e1ria.<\/span><\/span><\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"> Onde concordo<\/span><\/span><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"> De sa\u00edda, concordo em alguns pontos com o companheiro S\u00e9rgio Lessa, mesmo tendo uma compreens\u00e3o ligeiramente diferente sobre cada um desses pontos de concord\u00e2ncia. Para come\u00e7ar, as revolu\u00e7\u00f5es do s\u00e9culo XX de fato n\u00e3o abriram a transi\u00e7\u00e3o para o socialismo. Os processos iniciados naquele momento foram derrotados. Isso tem como conseq\u00fc\u00eancia a conclus\u00e3o de que houve mudan\u00e7as estruturais no mundo desde ent\u00e3o, e de que a luta de classes e o desafio das revolu\u00e7\u00f5es n\u00e3o se colocam da mesma forma hoje que no in\u00edcio do s\u00e9culo XX, mas de maneira bem diferente. O simples fato de termos que explicar que a URSS (e China, Cuba, Cor\u00e9ia do Norte, Vietn\u00e3, etc.,) n\u00e3o era socialista, e de que portanto n\u00e3o defendemos o \u201cmodelo\u201d que existia naqueles pa\u00edses j\u00e1 \u00e9 um problema. Hoje a maior parte do senso comum (influenciado \u00e9 claro pela propaganda dos apologetas do capitalismo) ainda diz que n\u00e3o acredita no socialismo porque j\u00e1 \u201cdeu errado\u201d na URSS e outros casos (isso quando sequer tem conhecimento de que existiu algo que foi chamado de \u201csocialismo\u201d). Esse \u00e9 um obst\u00e1culo s\u00e9rio, que n\u00e3o existia quando os revolucion\u00e1rios lutaram pelo poder naquela \u00e9poca.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"> Uma segunda concord\u00e2ncia est\u00e1 em que tamb\u00e9m entendo que nos pa\u00edses que romperam com o capitalismo permaneceu de p\u00e9 o sistema do capital, ou seja, o valor econ\u00f4mico abstrato, que se reproduz de maneira ampliada atrav\u00e9s da explora\u00e7\u00e3o do trabalho de tipo assalariado, sob a tutela do Estado. As revolu\u00e7\u00f5es substitu\u00edram a explora\u00e7\u00e3o privada capitalista pela explora\u00e7\u00e3o estatal burocr\u00e1tica. Ao romper com o capitalismo, n\u00e3o se inicia automaticamente, de maneira mec\u00e2nica, o socialismo. No caso concreto do s\u00e9culo XX, o que surgiram foram regimes intermedi\u00e1rios, que iniciaram a transi\u00e7\u00e3o para al\u00e9m do capitalismo, mas que foram interrompidos a certa altura do caminho. Ao serem interrompidos, permaneceram com uma forma mista, com elementos n\u00e3o capitalistas (fim da propriedade privada dos meios de produ\u00e7\u00e3o, planifica\u00e7\u00e3o centralizada) e perman\u00eancia do sistema do capital (valor, trabalho assalariado e Estado) misturados. Essa forma mista, finalmente, n\u00e3o tendia para a supera\u00e7\u00e3o do capital e a constru\u00e7\u00e3o do socialismo, mas para a restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo, que foi o que de fato aconteceu.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"> Uma terceira concord\u00e2ncia \u00e9 o reconhecimento de que as revolu\u00e7\u00f5es trouxeram enorme desenvolvimento material para os pa\u00edses que romperam com o capitalismo (ainda que n\u00e3o tenham rompido com o sistema do capital). O fato de que nesses pa\u00edses a burguesia foi expropriada e os meios de produ\u00e7\u00e3o estatizados; a instaura\u00e7\u00e3o da planifica\u00e7\u00e3o centralizada, em lugar da anarquia do mercado capitalista; e o monop\u00f3lio do com\u00e9rcio exterior pelo estado; esses elementos combinados foram suficientes para que pa\u00edses atrasados e semifeudais como a R\u00fassia e a China saltassem em poucas d\u00e9cadas o que as pot\u00eancias capitalistas levaram s\u00e9culos para atingir. \u00c9 claro que a extens\u00e3o territorial, as riquezas naturais e o volume populacional desses pa\u00edses ajudaram, mas sem a revolu\u00e7\u00e3o jamais teriam chegado a ser as pot\u00eancias que s\u00e3o hoje. E \u00e9 claro tamb\u00e9m que esse salto tinha os seus limites, e em algum momento iria \u201cbater no teto\u201d, como de fato aconteceu. O modo de produ\u00e7\u00e3o neles instalado, ao n\u00e3o avan\u00e7ar de fato para o socialismo, o que n\u00e3o poderia fazer sem uma nova revolu\u00e7\u00e3o interna e internacional, s\u00f3 poderia retornar para o capitalismo, como de fato aconteceu (esse ponto n\u00e3o est\u00e1 presente na explica\u00e7\u00e3o de Lessa).<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"> Por \u00faltimo, tamb\u00e9m concordo que o capital atingiu um est\u00e1gio de crise estrutural, em que os mecanismos cl\u00e1ssicos de administra\u00e7\u00e3o das contradi\u00e7\u00f5es do sistema n\u00e3o mais funcionam. A superprodu\u00e7\u00e3o de mercadorias e de capital n\u00e3o pode mais ser dissipada pela simples destrui\u00e7\u00e3o de capital, como nas crises c\u00edclicas anteriores, que provocaram duas guerras mundiais para que o capitalismo pudesse se reciclar. Uma nova guerra mundial hoje, em que todas as pot\u00eancias est\u00e3o equipadas com armas nucleares, significaria a destrui\u00e7\u00e3o da humanidade, e da pr\u00f3pria burguesia inclusive. Assim, a superprodu\u00e7\u00e3o tem que ser deslocada para outras esferas, como a da especula\u00e7\u00e3o financeira, o consumo perdul\u00e1rio de recursos em mercadorias com vida \u00fatil artificialmente reduzida (taxa de utiliza\u00e7\u00e3o decrescente das mercadorias), a cria\u00e7\u00e3o de necessidades artificiais, a produ\u00e7\u00e3o destrutiva de mais armamentos, guerras parciais de recoloniza\u00e7\u00e3o, etc. Esse deslocamento, por sua vez, n\u00e3o resolve os problemas do capitalismo, ao contr\u00e1rio cria outros: o impulso para renova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica produz o desemprego estrutural, o aumento da produ\u00e7\u00e3o de objetos de pouca utiliza\u00e7\u00e3o produz uma crise ambiental, e assim por diante.<\/span><\/span><\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"> Onde discordo<\/span><\/span><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"> Estabelecidos os pontos em que tenho acordo, passo para os pontos em que n\u00e3o concordo. O racioc\u00ednio do companheiro S\u00e9rgio Lessa \u00e9 de que as revolu\u00e7\u00f5es do s\u00e9culo XX n\u00e3o poderiam dar certo porque esbarravam num limite objetivo: ainda havia margem para um certo grau de desenvolvimento das for\u00e7as produtivas em pa\u00edses atrasados, no contexto de um modo de produ\u00e7\u00e3o ainda baseado no trabalho prolet\u00e1rio, ou seja, no trabalho assalariado, alienado. Uma vez que ainda era poss\u00edvel obter esse desenvolvimento por dentro de um sistema baseado no trabalho prolet\u00e1rio, as revolu\u00e7\u00f5es podiam estacionar no meio do caminho, romper com o capitalismo, e estabelecer formas intermedi\u00e1rias temporariamente vi\u00e1veis, tais como as que existiram na URSS e demais pa\u00edses n\u00e3o capitalistas. E podiam fazer isso sem seguir avan\u00e7ando na busca pelo socialismo. <\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"> Sendo assim, era poss\u00edvel para as correntes governantes nesses pa\u00edses se acomodar nessa situa\u00e7\u00e3o intermedi\u00e1ria, oferecendo melhorias para as massas, mas ao mesmo tempo preservando o poder nas m\u00e3os da burocracia. A partir do momento em que se instala a crise estrutural do capital, entretanto, n\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel obter esse desenvolvimento por dentro de um sistema baseado no trabalho prolet\u00e1rio. Somente rompendo com a l\u00f3gica do capital e ultrapassando o trabalho alienado seria poss\u00edvel obter novos avan\u00e7os. Os pa\u00edses n\u00e3o capitalistas n\u00e3o deram esse passo, e o modo de produ\u00e7\u00e3o neles vigente tornou-se invi\u00e1vel. Em algumas d\u00e9cadas, esse modo de produ\u00e7\u00e3o intermedi\u00e1rio seria derrubado e haveria a restaura\u00e7\u00e3o capitalista.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"> Entretanto, o texto em quest\u00e3o n\u00e3o alcan\u00e7a o momento da derrubada do modo de produ\u00e7\u00e3o vigente nos pa\u00edses n\u00e3o capitalistas e do seu retorno ao redil do capitalismo. A elabora\u00e7\u00e3o se det\u00e9m na explica\u00e7\u00e3o de que as revolu\u00e7\u00f5es n\u00e3o avan\u00e7aram para o socialismo porque os pa\u00edses que romperam com o capitalismo tinham margem para desenvolvimento mesmo mantendo um modo de produ\u00e7\u00e3o baseado no trabalho prolet\u00e1rio. Em outras palavras, a explica\u00e7\u00e3o oferecida diz que os pa\u00edses que romperam com o capitalismo n\u00e3o estavam maduros para avan\u00e7ar para o socialismo, porque o pr\u00f3prio sistema do capital ainda n\u00e3o havia chegado a sua crise estrutural.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"> Considero essa explica\u00e7\u00e3o um determinismo grosseiro, com algumas conseq\u00fc\u00eancias muito graves. A primeira delas \u00e9 que resolve um problema criando outro. De um lado, supostamente resolve o problema de porque as revolu\u00e7\u00f5es n\u00e3o levaram ao socialismo: porque o capital ainda n\u00e3o havia atingido o est\u00e1gio de sua crise estrutural. Ainda havia margem para que o capital fizesse concess\u00f5es (ou tolerasse as conquistas dos trabalhadores), tanto pela via reformista social-democrata como pela via burocr\u00e1tica stalinista. Mas se \u00e9 assim, ent\u00e3o por que no per\u00edodo atual, agora que o capital est\u00e1 nessa fase de crise estrutural (e j\u00e1 fazem 4 d\u00e9cadas), portanto agora que n\u00e3o h\u00e1 mais margem para reformas e concess\u00f5es, e que temos condi\u00e7\u00f5es de partir de um patamar de abund\u00e2ncia e alto desenvolvimento das for\u00e7as produtivas, e que portanto j\u00e1 h\u00e1 condi\u00e7\u00f5es materiais para uma transi\u00e7\u00e3o ao socialismo, agora que est\u00e3o dadas todas essas condi\u00e7\u00f5es, n\u00e3o acontecem nem sequer revolu\u00e7\u00f5es? O que falta para que a crise estrutural abra um novo per\u00edodo revolucion\u00e1rio? Na perspectiva adotada por Lessa, n\u00e3o sabemos.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"> Outro absurdo: se na \u00e9poca mais revolucion\u00e1ria da hist\u00f3ria da humanidade, entre 1905 e 1949, quando aconteceram revolu\u00e7\u00f5es em praticamente todos os continentes, etc., se nesse per\u00edodo o capital ainda n\u00e3o havia atingido a crise estrutural, portanto, n\u00e3o havia ainda um grau de abund\u00e2ncia e desenvolvimento suficiente das for\u00e7as produtivas (e portanto ainda havia espa\u00e7o para um desenvolvimento sob a \u00e9gide do trabalho alienado), ent\u00e3o, na verdade, seguindo esse racioc\u00ednio, os revolucion\u00e1rios n\u00e3o deveriam ter feito a revolu\u00e7\u00e3o! O capitalismo ainda n\u00e3o estava maduro para ser derrubado, e nem o socialismo para ser alcan\u00e7ado. Lenin, Trotsky, Rosa, Gramsci, Lukacs, e todos os revolucion\u00e1rios da primeira metade do s\u00e9culo XX, todos eles deveriam ter guardado as armas e esperado mais algumas d\u00e9cadas, at\u00e9 que o capital chegasse \u00e0 crise estrutural. E que dizer ent\u00e3o de Marx, Engels e seus companheiros no long\u00ednquo s\u00e9culo XIX, desde as barricadas de 1848 at\u00e9 a Comuna de Paris? N\u00e3o deveriam ter tentado o \u201cassalto ao c\u00e9u\u201d, como disse Marx? <\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"> N\u00e3o posso aceitar essa conclus\u00e3o. Ainda que a crise estrutural n\u00e3o estivesse instalada, houve crises muito graves, houve guerras mundiais, houve brechas no poder das burguesias. E o que talvez seja o elemento principal, houve lutas massivas dos trabalhadores. A classe oper\u00e1ria estava na ofensiva pela constru\u00e7\u00e3o de uma nova sociedade, com seus sindicatos, partidos, associa\u00e7\u00f5es, fundos de ajuda m\u00fatua, caixas de assist\u00eancia, publica\u00e7\u00f5es, bibliotecas, clubes de futebol, etc. A tarefa dos revolucion\u00e1rios era intervir nessas lutas para tentar superar o capitalismo. Se o socialismo seria atingido ou n\u00e3o, isso dependeria do resultado final da luta. Mas a luta tinha que ser feita, at\u00e9 mesmo para deixar para a posteridade algum ponto de apoio a partir do qual continuar a caminhada. As revolu\u00e7\u00f5es do s\u00e9culo XX poderiam n\u00e3o ter chegado ao socialismo, poderiam retroceder de diversas maneiras, poderiam esbarrar em limites materiais, no desenvolvimento insuficiente das for\u00e7as produtivas, etc. Mas n\u00e3o estava escrito que necessariamente tinham que se afundar no beco sem sa\u00edda do stalinismo. Outras alternativas eram poss\u00edveis, e os revolucion\u00e1rios que pegaram em armas o fizeram corretamente ao lutar por tais alternativas.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"> O terceiro absurdo: essa explica\u00e7\u00e3o implicitamente admite que, caso j\u00e1 estiv\u00e9ssemos no est\u00e1gio de uma crise estrutural do capital, no momento em que aconteceram as revolu\u00e7\u00f5es (ou caso aconte\u00e7am novas revolu\u00e7\u00f5es nos dias atuais, em que j\u00e1 chegamos a tal est\u00e1gio) alguns pa\u00edses isoladamente poderiam chegar ao socialismo. E isso n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, uma vez que o socialismo s\u00f3 pode ser estabelecido em escala mundial. Essa perspectiva da necessidade de uma revolu\u00e7\u00e3o mundial n\u00e3o aparece na explica\u00e7\u00e3o de Lessa. O texto se desenvolve tendo um pressuposto impl\u00edcito de que alguns pa\u00edses romperam com o capitalismo, mas n\u00e3o chegaram ao socialismo, e poderiam ter chegado, a n\u00e3o ser t\u00e3o somente por um problema de natureza objetiva, um limite hist\u00f3rico, a aus\u00eancia de uma crise estrutural. Mas isso n\u00e3o \u00e9 correto, esses pa\u00edses que romperam com capitalismo precisavam, tamb\u00e9m, como condi\u00e7\u00e3o sine qua non para o avan\u00e7o rumo ao socialismo, lutar pela revolu\u00e7\u00e3o mundial.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"> Individualmente, os pa\u00edses em que acontecerem revolu\u00e7\u00f5es e derrubarem o capitalismo podem instalar regimes transit\u00f3rios, que impulsionem o processo de constru\u00e7\u00e3o do socialismo. Mas o socialismo propriamente dito s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel em escala mundial, com a socializa\u00e7\u00e3o das for\u00e7as produtivas da humanidade, a multiplica\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia e da tecnologia a partir do seu patamar mais desenvolvido. Inclusive, era isso o que defendiam os revolucion\u00e1rios que atuaram naqueles pa\u00edses e naquele per\u00edodo. Cada um lutava pela revolu\u00e7\u00e3o em seu pa\u00eds e entendia essa luta como parte da luta geral pela revolu\u00e7\u00e3o mundial. Por isso, uma primeira alternativa que se pode oferecer \u00e0 resposta dada por Lessa \u00e9 de que as revolu\u00e7\u00f5es do s\u00e9culo XX n\u00e3o levaram \u00e0 sociedade socialista porque n\u00e3o se expandiram em escala mundial, e ficaram isoladas em alguns poucos pa\u00edses atrasados. E isso nos conduz ent\u00e3o a uma s\u00e9rie de outras quest\u00f5es.<\/span><\/span><\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"> O problema de fundo<\/span><\/span><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"> A explica\u00e7\u00e3o determinista dada por Lessa se desenvolve a partir de um pressuposto impl\u00edcito, que \u00e9 o de desconsiderar completamente a dire\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e a estrat\u00e9gia aplicada nos processos revolucion\u00e1rios. Essa explica\u00e7\u00e3o \u00e9 uma tentativa abstrata e unilateral de negar qualquer import\u00e2ncia \u00e0 esfera da pol\u00edtica. Na tentativa de corrigir os erros da esquerda socialista no s\u00e9culo XX, em especial a perspectiva politicista de praticamente todas as correntes e organiza\u00e7\u00f5es (que ali\u00e1s permanece no s\u00e9culo XXI), comete-se o erro oposto, de negar completamente qualquer papel positivo para a a\u00e7\u00e3o na esfera da pol\u00edtica. E esse defeito de origem que est\u00e1 na base da explica\u00e7\u00e3o dada por Lessa causa v\u00e1rios problemas, que impede que tal explica\u00e7\u00e3o seja uma resposta real e totalizante para a quest\u00e3o.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"> O primeiro desses problemas \u00e9 a incapacidade de fazer uma an\u00e1lise concreta da hist\u00f3ria da luta pelo socialismo no s\u00e9culo XX. Sem fazer essa an\u00e1lise, o texto de Lessa acaba por igualar indistintamente o stalinismo, o mao\u00edsmo, o trotskismo, o anarquismo, etc., e trat\u00e1-los todos indevidamente como puras seitas ou &#8220;religi\u00f5es ideol\u00f3gicas&#8221;, sem nenhuma base social real e sem nenhuma condi\u00e7\u00e3o de oferecer caminhos distintos para a humanidade. Essa iguala\u00e7\u00e3o \u00e9 um erro grave, pois n\u00e3o permite reler a hist\u00f3ria encontrando as alternativas poss\u00edveis que se colocavam concretamente em cada situa\u00e7\u00e3o. No caso da revolu\u00e7\u00e3o mais importante do s\u00e9culo XX, reconhecida como tal por Lessa, a Revolu\u00e7\u00e3o Russa de 1917, fez muita diferen\u00e7a na Hist\u00f3ria o fato de a dire\u00e7\u00e3o da URSS ter sido assumida por um setor, o stalinismo, a partir de 1924, que representava os interesses sociais da burocracia, e n\u00e3o pela Oposi\u00e7\u00e3o de Esquerda liderada por Trotsky. <\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"> Para come\u00e7ar, o stalinismo defendia a tese do \u201csocialismo em um s\u00f3 pa\u00eds\u201d. Trotsky, fiel \u00e0 perspectiva do marxismo revolucion\u00e1rio, defendia a expans\u00e3o da revolu\u00e7\u00e3o para outros pa\u00edses. Se essa linha tivesse prevalecido na III Internacional, e outras revolu\u00e7\u00f5es tivessem acontecido em outros pa\u00edses, a URSS poderia ter sa\u00eddo do isolamento dram\u00e1tico em que se encontrava. Poderia ter constru\u00eddo um interc\u00e2mbio com outras sociedades n\u00e3o capitalistas que teriam surgido de outras revolu\u00e7\u00f5es. Com isso, o campo dos pa\u00edses n\u00e3o capitalistas poderia ter obtido um salto em suas for\u00e7as produtivas, a ponto de se colocar em condi\u00e7\u00f5es de cercar e futuramente suplantar o imperialismo, e iniciar, a\u00ed sim, a constru\u00e7\u00e3o do socialismo, em escala mundial. Essa \u00e9 uma das alternativas que poderiam ter se materializado, a depender do resultado da disputa pol\u00edtica. Outra quest\u00e3o \u00e9 se a linha de Trotsky tinha condi\u00e7\u00f5es de vencer a disputa no interior da URSS, j\u00e1 que a burocratiza\u00e7\u00e3o da revolu\u00e7\u00e3o era um processo social e n\u00e3o apenas pol\u00edtico. <\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"> O stalinismo n\u00e3o era a causa da burocratiza\u00e7\u00e3o, era tamb\u00e9m uma conseq\u00fc\u00eancia (dialeticamente, os processos sociais e pol\u00edticos se influenciam de maneira rec\u00edproca). Mas de qualquer forma, a estrat\u00e9gia internacionalista, a independ\u00eancia de classe, a revolu\u00e7\u00e3o permanente, permaneciam como perspectivas pol\u00edticas, como alternativas estrat\u00e9gicas, em outros processos que se desenvolveram para al\u00e9m da URSS, como a China, a Revolu\u00e7\u00e3o Espanhola, as revolu\u00e7\u00f5es do p\u00f3s II Guerra, etc. Reconhecer que a alternativa estrat\u00e9gica defendida por Trotsky poderia ter feito diferen\u00e7a at\u00e9 um certo ponto n\u00e3o significa desconhecer os erros e limites te\u00f3ricos do pr\u00f3prio Trotsky, nem os erros muito mais graves daquilo que se constituiu como trotskismo (ou trotskismos) depois de sua morte. Significa tratar da Hist\u00f3ria de maneira concreta. Os problemas de cada corrente te\u00f3rico\/pol\u00edtica, de cada estrat\u00e9gia, tem que ser explicados em detalhe para que se encontre o fio da meada da luta hist\u00f3rica pela revolu\u00e7\u00e3o, determinando os erros e acertos cometidos ao longo do processo. <\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"> Sem reconstruir o fio da meada e apontar os erros e os acertos, como vamos colaborar para construir a revolu\u00e7\u00e3o no s\u00e9culo XXI? Esse \u00e9 o segundo problema embutido nesse pressuposto de nega\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica. Ao renunciar a qualquer an\u00e1lise concreta de uma estrat\u00e9gia pol\u00edtica determinada, na verdade se renuncia a qualquer tipo de a\u00e7\u00e3o. Cai-se num determinismo que n\u00e3o reconhece nenhum papel ativo para o elemento subjetivo na revolu\u00e7\u00e3o. Se o que determina a possibilidade de transi\u00e7\u00e3o rumo ao socialismo \u00e9 a vig\u00eancia ou n\u00e3o de condi\u00e7\u00f5es objetivas, ou seja, a presen\u00e7a ou n\u00e3o da crise estrutural do sistema do capital, ent\u00e3o o elemento subjetivo n\u00e3o determina absolutamente nada, n\u00e3o h\u00e1 nenhuma margem para a interven\u00e7\u00e3o do sujeito hist\u00f3rico. Se o que determina tudo \u00e9 a vig\u00eancia da crise estrutural, ent\u00e3o devemos apenas esperar uma cat\u00e1strofe social e\/ou ambiental gigantesca, provocada pela abund\u00e2ncia\/mis\u00e9ria. Mas e quando essa cat\u00e1strofe se materializar, o que fazemos? Ficamos sentados olhando os trabalhadores fazerem tudo? N\u00e3o h\u00e1 necessidade de um projeto assumido de maneira coletiva, consciente e organizada?<\/span><\/span><\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"> A necessidade de uma supera\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica da esfera alienada da pol\u00edtica<\/span><\/span><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"> Essa concep\u00e7\u00e3o de nega\u00e7\u00e3o absoluta e abstrata da pol\u00edtica n\u00e3o oferece uma resposta que permita servir como base para a constru\u00e7\u00e3o de um projeto, uma alternativa, uma estrat\u00e9gia a ser apresentada como refer\u00eancia para a luta pela revolu\u00e7\u00e3o no s\u00e9culo XXI. Essa concep\u00e7\u00e3o busca contornar o debate sobre as alternativas pol\u00edticas, ao inv\u00e9s de enfrent\u00e1-lo. Para isso, basta condenar a pol\u00edtica \u00e0 irrelev\u00e2ncia. E essa abordagem \u00e9 grosseiramente unilateral, anti dial\u00e9tica. No esfor\u00e7o de negar o politicismo que contaminou toda a esquerda do s\u00e9culo XX, e que permanece no s\u00e9culo XXI, desenvolve-se uma nega\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica que \u00e9 absoluta e abstrata, mas n\u00e3o \u00e9 real. A nega\u00e7\u00e3o, no sentido dial\u00e9tico, como ensinam os cl\u00e1ssicos, \u00e9 um processo em tr\u00eas dimens\u00f5es: destrui\u00e7\u00e3o, conserva\u00e7\u00e3o e ultrapassagem. E a nega\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica tem que ser tamb\u00e9m um processo de destrui\u00e7\u00e3o, conserva\u00e7\u00e3o e ultrapassagem.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"> Ou seja, em termos concretos, a dire\u00e7\u00e3o pol\u00edtica na revolu\u00e7\u00e3o tem que existir, mas com o objetivo de suprimir a pol\u00edtica enquanto esfera alienada (destrui\u00e7\u00e3o do Estado burgu\u00eas, e suas institui\u00e7\u00f5es fundamentais, poderes executivo, legislativo, judici\u00e1rio, for\u00e7as armadas, pol\u00edcia, pris\u00f5es, direito burgu\u00eas), construir um poder transicional que de certa forma ainda conserva elementos de uma forma de estado, de poder pol\u00edtico (ditadura do proletariado, com o m\u00e1ximo de democracia para os trabalhadores e repress\u00e3o sobre a burguesia, l\u00fampens e setores contra revolucion\u00e1rios, de modo a garantir a luta pela revolu\u00e7\u00e3o mundial) e por fim negar a pol\u00edtica, restituindo os poderes de decis\u00e3o aos trabalhadores, dissolvendo o estado e o poder pol\u00edtico. O objetivo de negar a pol\u00edtica tem que ser obtido por um meio que \u00e9 tamb\u00e9m de certa forma pol\u00edtico. Essa dificuldade ter\u00e1 que ser enfrentada por n\u00f3s que lutamos pela revolu\u00e7\u00e3o no s\u00e9culo XXI. Temos que por em pr\u00e1tica uma luta que v\u00e1 para al\u00e9m da pol\u00edtica, mas fazendo uso da pol\u00edtica, de uma maneira que caminhe para a nega\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"> A inten\u00e7\u00e3o de onde parte a concep\u00e7\u00e3o de Lessa, de combater o politicismo da esquerda, est\u00e1 na sua origem correta. Ela parte de uma avalia\u00e7\u00e3o de um grave erro da esquerda que atravessou o s\u00e9culo XX e permanece presente nas organiza\u00e7\u00f5es e correntes que reivindicam a revolu\u00e7\u00e3o no presente: a obsess\u00e3o pelo poder pol\u00edtico. A esquerda socialista revolucion\u00e1ria tem tratado a revolu\u00e7\u00e3o de maneira reducionista como sin\u00f4nimo de uma simples tomada do poder pol\u00edtico. E isso n\u00e3o \u00e9 totalmente correto, pois a tomada do poder \u00e9 uma parte do processo, o objetivo da revolu\u00e7\u00e3o \u00e9 muito mais amplo e profundo. \u00c9 preciso que os trabalhadores disputem o poder na sociedade, mas n\u00e3o apenas para ocupar o poder (nem muito menos o poder do Estado tal como existe, que deve ser quebrado, dissolvido, destru\u00eddo), e sim para dissolver o poder pol\u00edtico enquanto esfera separada da sociedade. A revolu\u00e7\u00e3o \u00e9 pol\u00edtica \u201ccom alma social\u201d, como dizia Marx. A revolu\u00e7\u00e3o \u00e9 uma mudan\u00e7a na postura dos trabalhadores, que passam de seres passivos para sujeitos ativos no processo de reprodu\u00e7\u00e3o social, decidindo de maneira coletiva, consciente e organizada sobre a produ\u00e7\u00e3o e todos os aspectos da vida.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"> A luta pela revolu\u00e7\u00e3o tem que ter em mente essa perspectiva de uma revolu\u00e7\u00e3o social, uma mudan\u00e7a na estrutura profunda da sociedade, na atitude dos trabalhadores perante todas as quest\u00f5es, trazendo-os para a discuss\u00e3o dos problemas, ampliando ao m\u00e1ximo os f\u00f3runs de decis\u00e3o. Como parte desse processo, destr\u00f3i-se o Estado burgu\u00eas. Essa era a perspectiva cl\u00e1ssica dos revolucion\u00e1rios do in\u00edcio do s\u00e9culo XX. \u00c9 essa perspectiva que precisamos retomar hoje. Em algum momento do s\u00e9culo XX essa perspectiva foi perdida. \u00c9 preciso recuper\u00e1-la, mas a explica\u00e7\u00e3o oferecida por Lessa, ao se negar a fazer uma arqueologia concreta da luta pela revolu\u00e7\u00e3o no s\u00e9culo XX, uma an\u00e1lise detalhada das alternativas dispon\u00edveis ent\u00e3o em disputa, bloqueia o caminho para uma explica\u00e7\u00e3o real e concreta.<\/span><\/span><\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"> Considera\u00e7\u00f5es finais<\/span><\/span><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"> Para finalizar, infelizmente tamb\u00e9m n\u00e3o vou poder responder aqui a essa quest\u00e3o crucial: porque as revolu\u00e7\u00f5es do s\u00e9culo XX n\u00e3o levaram \u00e0 sociedade socialista? N\u00e3o h\u00e1 mais espa\u00e7o aqui para apresentar sequer um esbo\u00e7o de resposta, mas talvez apenas para sistematizar algumas linhas de racioc\u00ednio, que est\u00e3o impl\u00edcitas nas obje\u00e7\u00f5es que apresentei \u00e0 explica\u00e7\u00e3o de Lessa: <\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"> &#8211; a luta pelo socialismo n\u00e3o foi derrotada no terreno da URSS, mas no da revolu\u00e7\u00e3o mundial. Quando a revolu\u00e7\u00e3o \u00e9 derrotada nos pa\u00edses avan\u00e7ados (Alemanha, Fran\u00e7a, etc.), a luta pelo socialismo ficou isolada na URSS;<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"> &#8211; ao ficar isolada, a perspectiva revolucion\u00e1ria tinha como tarefa resistir dentro da URSS e fortalecer a luta pela revolu\u00e7\u00e3o internacional, que pudesse tirar a URSS do isolamento;<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"> &#8211; a primeira parte da tarefa foi cumprida at\u00e9 certo ponto, mas a partir do momento em que os revolucion\u00e1rios foram afastados do poder, e substitu\u00eddos por representantes da burocracia, a luta pela revolu\u00e7\u00e3o internacional foi abandonada;<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"> &#8211; ao se abandonar a luta pela revolu\u00e7\u00e3o internacional, a URSS ao mesmo tempo se afirma como \u201cmodelo\u201d de \u201csocialismo\u201d, e as medidas que foram tomadas em fun\u00e7\u00e3o do atraso russo, o regime de partido \u00fanico, a centraliza\u00e7\u00e3o autorit\u00e1ria, a aus\u00eancia de democracia, foram tomadas como regra e n\u00e3o como exce\u00e7\u00e3o que eram;<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"> &#8211; essa invers\u00e3o da exce\u00e7\u00e3o que se torna regra contaminou inclusive os setores que reivindicavam a luta pela revolu\u00e7\u00e3o em oposi\u00e7\u00e3o ao stalinismo, como os trotskistas, que adotaram um vi\u00e9s policitista, reducionista, de que a revolu\u00e7\u00e3o se limita \u00e0 luta pelo poder pol\u00edtico (uma \u201ccrise de dire\u00e7\u00e3o\u201d), abandonando a perspectiva totalizante da revolu\u00e7\u00e3o social;<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"> &#8211; algumas poucas revolu\u00e7\u00f5es aconteceram depois da II Guerra (China, Cuba, Vietn\u00e3), derrubando o capitalismo em alguns pa\u00edses tamb\u00e9m atrasados como a URSS, mas tamb\u00e9m em base a uma perspectiva restrita, politicista e reducionista, de \u201csocialismo em um s\u00f3 pa\u00eds\u201d;<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"> &#8211; os regimes adotados nesses pa\u00edses mantiveram a explora\u00e7\u00e3o do trabalho assalariado e a extra\u00e7\u00e3o de mais valia, centralizada nas m\u00e3os da burocracia, ao inv\u00e9s da extra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica nas m\u00e3os de empresas privadas;<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"> &#8211; ao mesmo tempo, o capitalismo, reciclado depois da destrui\u00e7\u00e3o provocada pelas guerras mundiais, experimentou d\u00e9cadas de crescimento extraordin\u00e1rio, at\u00e9 o in\u00edcio dos anos 1970;<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"> &#8211; no contraste com o crescimento capitalista, os pa\u00edses n\u00e3o capitalistas, produtos das revolu\u00e7\u00f5es do s\u00e9culo XX, com seus regimes de transi\u00e7\u00e3o interrompida, esbarraram nos seus limites internos, na falta de dinamismo, na estagna\u00e7\u00e3o, e acabaram retornando ao capitalismo;<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"> &#8211; a queda dos regimes existentes nos pa\u00edses n\u00e3o capitalistas, entre 1989-91, seu retorno ao capitalismo, serviu como propaganda da vit\u00f3ria do capitalismo na \u201cGuerra Fria\u201d, como prova da vig\u00eancia eterna do capitalismo, instalando a ideia de \u201cfim da hist\u00f3ria\u201d e de que n\u00e3o h\u00e1 alternativa ao capitalismo;<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"> &#8211; a queda URSS e do leste europeu e toda a propaganda em torno do \u201cfim da hist\u00f3ria\u201d ofuscaram a crise estrutural do capital que vinha desde a d\u00e9cada de 1970, escondendo a impossibilidade de um novo per\u00edodo de crescimento como o do p\u00f3s II Guerra, ocultando o atingimento de limites estruturais absolutos desse modo de produ\u00e7\u00e3o;<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"> &#8211; as contradi\u00e7\u00f5es do capitalismo seguiram produzindo novas crises e instabilidades (ou seja, a hist\u00f3ria n\u00e3o acabou), mas as novas gera\u00e7\u00f5es que lutam contra as conseq\u00fc\u00eancias do capitalismo est\u00e3o desprovidas de uma alternativa social totalizante a esse sistema, porque n\u00e3o visualizam o socialismo como uma possibilidade;<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"> &#8211; \u00e9 preciso reconstruir a perspectiva do socialismo, retomando os princ\u00edpios do internacionalismo, da independ\u00eancia de classe, da supera\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica, da revolu\u00e7\u00e3o social em todas as suas dimens\u00f5es.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"JUSTIFY\">Encerro essa contribui\u00e7\u00e3o ao debate com a ideia de que os revolucion\u00e1rios do passado estiveram diante de escolhas, a respeito das quais tomaram decis\u00f5es, que tiveram conseq\u00fc\u00eancias. No nosso presente, h\u00e1 muitas escolhas que podemos fazer, e que v\u00e3o afetar os resultados do futuro. S\u00f3 no futuro saberemos onde erramos. O que podemos fazer hoje \u00e9 tentar errar menos. E para isso temos que superar os erros dos que atuaram antes de n\u00f3s. Superar significa aprender com eles, e n\u00e3o ignor\u00e1-los, jog\u00e1-los na vala comum da irrelev\u00e2ncia. Essa falsa nega\u00e7\u00e3o do passado, sem uma supera\u00e7\u00e3o real, \u00e9 uma escolha que n\u00e3o podemos fazer!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Este texto \u00e9 uma contribui\u00e7\u00e3o individual, que n\u00e3o reflete necessariamente a posi\u00e7\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o, e por isso encontra-se assinado<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":4064,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":true,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[11,76,16,55],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4063"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4063"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4063\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5549,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4063\/revisions\/5549"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4064"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4063"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4063"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4063"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}