{"id":4141,"date":"2015-08-15T11:00:21","date_gmt":"2015-08-15T14:00:21","guid":{"rendered":"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/?p=4141"},"modified":"2015-08-15T11:01:25","modified_gmt":"2015-08-15T14:01:25","slug":"jornal-81-uma-introducao-ao-conceito-de-mais-valia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/2015\/08\/jornal-81-uma-introducao-ao-conceito-de-mais-valia\/","title":{"rendered":"Jornal 81: Uma introdu\u00e7\u00e3o ao conceito de mais-valia"},"content":{"rendered":"<style type=\"text\/css\"><!--\n<span id=\"mce_marker\" data-mce-type=\"bookmark\"><\/span><span id=\"__caret\">_<\/span><!--\nP { margin-bottom: 0.08in; }\n--><\/style>\n<p>Antes de tudo, uma advert\u00eancia ao leitor: h\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o muito importante entre a mais-valia e a luta de classes. Em parte, j\u00e1 tocamos nessa rela\u00e7\u00e3o ao tratarmos das classes sociais (ver Jornal Espa\u00e7o Socialista n. 77). Voltaremos a ela ao tratar, no futuro, da aristocracia oper\u00e1ria. Nesse artigo nos limitaremos ao que \u00e9 a mais-valia. <a href=\"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/j81-1.jpg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignright\" alt=\"j81-1\" src=\"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/j81-1-300x199.jpg\" width=\"300\" height=\"199\" \/><\/a><\/p>\n<h2>O &#8220;tempo de trabalho socialmente necess\u00e1rio&#8221;<\/h2>\n<p>Para compreender a mais-valia, \u00e9 indispens\u00e1vel o esclarecimento do que \u00e9 o &#8220;tempo de trabalho socialmente necess\u00e1rio&#8221;.<\/p>\n<p>A vida humana tem uma caracter\u00edstica interessante: descontando eventos pontuais, que est\u00e3o longe da reprodu\u00e7\u00e3o normal das sociedades, a vida de cada um de n\u00f3s \u2013 e a vida da sociedade como um todo \u2013 \u00e9 determinada por for\u00e7as materiais muito curiosas. Trope\u00e7amos em uma pedra, uma montanha nos obriga a escal\u00e1-la, a gravidade nos prende \u00e0 superf\u00edcie do planeta: essas for\u00e7as materiais, contudo, n\u00e3o determinam os nossos destinos pessoais e coletivos. As for\u00e7as que determinam a nossa hist\u00f3ria pertencem \u00e0 mat\u00e9ria social. E, esta, \u00e9 o conjunto das rela\u00e7\u00f5es sociais. As rela\u00e7\u00f5es sociais s\u00e3o rela\u00e7\u00f5es que estabelecemos entre n\u00f3s, seres-humanos. Como tudo o que fazemos na vida tem consequ\u00eancias objetivas que sempre terminam se voltando sobre n\u00f3s pr\u00f3prios, os resultados das a\u00e7\u00f5es humanas terminam compondo o que Marx, em O 18 Brum\u00e1rio de Lu\u00eds Bonaparte, chamou de &#8220;circunst\u00e2ncias&#8221;: &#8220;Os homens fazem a sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria, mas n\u00e3o a fazem segundo a sua livre vontade; n\u00e3o a fazem sob circunst\u00e2ncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado. A tradi\u00e7\u00e3o de todas as gera\u00e7\u00f5es mortas oprime como um pesadelo o c\u00e9rebro dos vivos.&#8221;<\/p>\n<p>O &#8220;tempo de trabalho socialmente necess\u00e1rio&#8221; ocupa uma parte muito especial dessas &#8220;circunst\u00e2ncias&#8221;, &#8220;legadas&#8221; pela &#8220;tradi\u00e7\u00e3o&#8221;. Sua origem \u00e9 muito antiga, j\u00e1 est\u00e1 presente nas primeiras sociedades de classe, na velha Babil\u00f4nia e na velha China. Tal como o desenvolvimento das for\u00e7as produtivas fez com que pass\u00e1ssemos da produ\u00e7\u00e3o de ferro pelos antigos ferreiros \u00e0s modernas usinas sider\u00fargicas, o tempo de trabalho socialmente necess\u00e1rio foi se desenvolvendo, de gera\u00e7\u00e3o a gera\u00e7\u00e3o, de modo de produ\u00e7\u00e3o a modo de produ\u00e7\u00e3o, at\u00e9 se converter no &#8220;pesadelo&#8221; que, hoje, &#8220;oprime&#8221; nossos c\u00e9rebros. Percebam: \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o social, uma rela\u00e7\u00e3o entre os seres humanos, &#8220;legada e transmitida&#8221; pelas gera\u00e7\u00f5es que vieram antes de n\u00f3s e que, hoje, ordena as nossas vidas, os nossos pensamentos, a nossa vis\u00e3o de mundo, de uma forma muito mais &#8220;dura&#8221;, muito mais determinante que qualquer pedra ou cordilheira, muito mais determinante que uma for\u00e7a natural t\u00e3o importante quanto a gravidade. E, contudo, \u00e9 uma for\u00e7a material que n\u00e3o passa de uma rela\u00e7\u00e3o entre n\u00f3s, de uma rela\u00e7\u00e3o social, criada e mantida pela pr\u00f3pria humanidade.<\/p>\n<p>Tal como tudo no mundo, se compreendermos o est\u00e1gio mais evolu\u00eddo do tempo de trabalho socialmente necess\u00e1rio, apreendemos tamb\u00e9m o fundamental de suas etapas menos desenvolvidas. Por isso, vamos analisar os nossos dias.<\/p>\n<p>Todos n\u00f3s, ao comprarmos qualquer coisa, sabemos que, dentro de certo limite, o pre\u00e7o da mercadoria \u00e9 justo, acima disso a mercadoria est\u00e1 cara e, abaixo, barata. Um quilo de cebola por 9 reais \u00e9 muito caro, um quilo de carne de primeira por 9 reais \u00e9 muito barato. O que possibilita que todos n\u00f3s, sem contarmos com uma ag\u00eancia reguladora que anuncie o pre\u00e7o de cada mercadoria a cada dia, tenhamos uma vis\u00e3o muito aproximada do valor de todas as in\u00fameras mercadorias que entram em nossas vidas?<\/p>\n<p>Uma &#8220;circunst\u00e2ncia&#8221;: o mercado. O mercado \u00e9 um tipo especial de rela\u00e7\u00e3o entre os seres humanos em que a coopera\u00e7\u00e3o \u00e9 inteira e totalmente substitu\u00edda pela concorr\u00eancia. As feiras livres de nossos dias s\u00e3o um belo exemplo. Re\u00fanem milhares de seres humanos que apenas possuem uma rela\u00e7\u00e3o entre si: o dinheiro dos compradores e as mercadorias dos vendedores.<\/p>\n<p>No in\u00edcio os pre\u00e7os est\u00e3o mais altos, ao final da feira caem. Os pre\u00e7os variam, no mesmo local, com as mesmas mercadorias, pela rela\u00e7\u00e3o da oferta e da procura. Contudo, essa oscila\u00e7\u00e3o tem lugar dentro de uma determinada margem que nem sempre \u00e9 muito ampla. Um quilo de camar\u00e3o, em qualquer momento da feira, ser\u00e1 sempre mais caro que um quilo de tomate, um quilo de lagosta ainda mais caro e, um p\u00e9 de alface, mais barato que a lagosta, o tomate e o camar\u00e3o.<\/p>\n<p>De onde vem esse crit\u00e9rio que faz com que, desconsiderando o pre\u00e7o de cada mercadoria e suas oscila\u00e7\u00f5es pela varia\u00e7\u00e3o da oferta e da procura, a lagosta seja sempre mais cara que camar\u00e3o, tomate sempre mais barato que lagosta e mais caro que alface, etc.? De algo que todas as mercadorias t\u00eam em comum: s\u00e3o todas resultado do trabalho humano. Em toda mercadoria, seja ela uma aula de matem\u00e1tica ou um p\u00e9 de alface, h\u00e1 uma quantidade de trabalho que a produziu. O produtor de alface sabe que abaixo de um determinado valor sua mercadoria vai lhe dar preju\u00edzo: vai buscar, por isso, sempre um pre\u00e7o que seja maior que aquele valor. O mesmo para o vendedor de qualquer outra mercadoria.<\/p>\n<p>Esse m\u00ednimo que o vendedor tem de conseguir pela sua mercadoria \u00e9 dado por essa rela\u00e7\u00e3o social que \u00e9 a concorr\u00eancia. Todos os produtores de alface colocam seu produto no mercado. Aquele que conseguir vender mais barato, vender\u00e1 toda a sua mercadoria e ter\u00e1 mais lucro. Os outros ficar\u00e3o com aqueles compradores que n\u00e3o conseguiram comprar dos produtores &#8220;mais eficientes&#8221;. Por fim, alguns vendedores ter\u00e3o preju\u00edzo porque o valor pelo qual podem vender suas mercadorias est\u00e1 &#8220;fora&#8221; do mercado.<\/p>\n<p>Essa rela\u00e7\u00e3o de concorr\u00eancia faz com que a mercadoria produzida em menos tempo tenha um menor valor do que as outras. O valor da mercadoria \u00e9 o tempo de trabalho nela contido. O seu valor no mercado \u00e9 a m\u00e9dia que socialmente se gasta para produzi-la: isso \u00e9 o tempo de trabalho socialmente necess\u00e1rio. O pre\u00e7o, que \u00e9 a express\u00e3o em dinheiro desse valor, pode variar de acordo com a oferta e a procura, mas n\u00e3o o valor. A quantidade de trabalho cristalizada em uma mercadoria n\u00e3o se altera com a oferta e a procura (pense no tomate, na feira: seu pre\u00e7o varia ao longo das horas, mas n\u00e3o o tempo de trabalho socialmente necess\u00e1rio que cont\u00e9m).<\/p>\n<p>Veja: as &#8220;circunst\u00e2ncias&#8221; (Marx) do mercado \u2013 a concorr\u00eancia \u2013 estabelecem, por cima da vontade ou desejo dos compradores e vendedores, qual o valor m\u00e9dio de toda mercadoria. Esse valor m\u00e9dio \u00e9 o &#8220;tempo de trabalho socialmente necess\u00e1rio&#8221; para se produzir aquela mercadoria. Quem produzir a mercadoria abaixo dessa m\u00e9dia ter\u00e1 mais lucro. Quem produzir acima do tempo de trabalho socialmente necess\u00e1rio, vender\u00e1 menos e seu lucro ser\u00e1 menor e, at\u00e9 mesmo, poder\u00e1 ter preju\u00edzo.<\/p>\n<p>Como o tempo de trabalho socialmente necess\u00e1rio estabelece o quanto cada mercadoria vale para trocar por qualquer outra mercadoria, esse valor \u00e9 denominado de valor de troca (para diferenciar do valor de uso, isto \u00e9, a utilidade de qualquer coisa produzida pelos humanos). O valor de troca de cada mercadoria \u00e9, portanto, a quantidade de trabalho que cada uma cont\u00e9m, ou seja, o tempo de trabalho socialmente necess\u00e1rio para a produ\u00e7\u00e3o de cada uma delas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>O valor da for\u00e7a de trabalho<\/h2>\n<p>Maluco \u00e9 aquele que queima dinheiro: essa \u00e9 a loucura que, em nossa sociedade, leva o cara para um hosp\u00edcio, rapidinho. Uma segunda loucura, quase t\u00e3o grande, \u00e9 trabalhar de gra\u00e7a. Trabalhar, que n\u00e3o seja em troca de sal\u00e1rio: loucura, indiscutivelmente!<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que havia trabalhadores assalariados nas sociedades de classe antes do capitalismo. Contudo, at\u00e9 uns 250 anos atr\u00e1s, o usual era trabalhar sem receber sal\u00e1rio. A enorme maioria dos trabalhadores do planeta n\u00e3o recebia um sal\u00e1rio. Em nosso pa\u00eds, at\u00e9 1898 o trabalho escravo era &#8220;normal&#8221;. At\u00e9 bem depois da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa (1789-1815), em vastas regi\u00f5es da Europa ainda se mantinha o trabalho servil, feudal. Apenas no s\u00e9culo 20, a condi\u00e7\u00e3o de trabalho assalariado se esparramou por todo o planeta e se transformou em uma dura realidade na vida de todos os trabalhadores.<\/p>\n<p>O simples fato de a maioria da popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o receber sal\u00e1rios fazia com que parte importante do produzido n\u00e3o pudesse ser trocada por dinheiro. As trocas eram muito menos frequentes. A maior parte do que os trabalhadores consumiam era por eles produzida ou, quando trocavam, o faziam in natura, isto \u00e9, trocavam um produto por outro, sem usarem dinheiro. Essa situa\u00e7\u00e3o diminu\u00eda muito a possibilidade de se acumular capital. Era preciso converter todos os trabalhadores em assalariados para que tudo pudesse ser mercadoria e, assim, a burguesia pudesse se enriquecer mais rapidamente. Mas, ainda mais importante, era a necessidade de &#8220;liberar&#8221; a enorme quantidade de for\u00e7a de trabalho que, fechada nos feudos sob a forma do trabalho dos servos, era inacess\u00edvel \u00e0 explora\u00e7\u00e3o pela burguesia. Portanto, a situa\u00e7\u00e3o atual, em que todo o trabalho se converteu em trabalho assalariado, \u00e9 bem recente na hist\u00f3ria da humanidade. (Assim como o desemprego, como vimos no Jornal Espa\u00e7o Socialista n. 80).<\/p>\n<p>Transformar o trabalho em trabalho assalariado significa transformar a for\u00e7a de trabalho em uma mercadoria. O sal\u00e1rio \u00e9 o pre\u00e7o da for\u00e7a de trabalho. Como j\u00e1 vimos toda mercadoria tem seu valor determinado pela quantidade de trabalho social m\u00e9dio que cont\u00e9m, isto \u00e9, pelo tempo de trabalho socialmente necess\u00e1rio para sua produ\u00e7\u00e3o. Ao se converter em mercadoria, a remunera\u00e7\u00e3o que o trabalhador recebe pela venda de sua for\u00e7a de trabalho n\u00e3o tem mais qualquer rela\u00e7\u00e3o com suas necessidades pessoais \u2013 \u00e9 determinada pelo tempo socialmente necess\u00e1rio para que sua for\u00e7a de trabalho seja produzida.<\/p>\n<p>Como o tomate, a lagosta e a alface do nosso exemplo da feira, a oferta e procura podem aumentar ou diminuir o pre\u00e7o da for\u00e7a de trabalho \u2013 o sal\u00e1rio \u2013 mas n\u00e3o seu valor. Seu valor, como o de toda mercadoria, corresponde ao tempo m\u00e9dio que a sociedade gasta para produzi-lo. Esse tempo m\u00e9dio se expressa no quanto de comida, de roupa, de rem\u00e9dios, de servi\u00e7os como transporte, Educa\u00e7\u00e3o, etc. s\u00e3o imprescind\u00edveis para que o trabalhador consiga trabalhar no dia seguinte, na semana seguinte, no ano seguinte, etc. E, para que n\u00e3o faltem trabalhadores, para que sempre exista o ex\u00e9rcito industrial de reserva (sobre isso, veja o Jornal n.80) \u00e9 preciso que tenham os filhos que ser\u00e3o os futuros trabalhadores.<\/p>\n<p>O trabalhador, ao vender sua for\u00e7a de trabalho, ir\u00e1 receber o correspondente em dinheiro ao valor da mercadoria que est\u00e1 vendendo. O capitalista, ao comprar a for\u00e7a de trabalho, estar\u00e1 pagando por ela o seu valor de troca, o seu valor de mercadoria. N\u00e3o h\u00e1, nessa rela\u00e7\u00e3o entre vendedor e comprador, qualquer roubo, desonestidade ou comportamento indevido &#8220;moralmente&#8221;, no sentido da moral burguesa.<\/p>\n<p>Como tamb\u00e9m n\u00e3o est\u00e1 em contradi\u00e7\u00e3o com a moral burguesa o fato de que, sempre que conseguir, o trabalhador procurar\u00e1 ludibriar o comprador de sua for\u00e7a de trabalho e que o capitalista far\u00e1 algo similar. Mas n\u00e3o \u00e9 desses pequenos furtos que vem a acumula\u00e7\u00e3o do capital. O capital se acumula, a burguesia se enriquece, comprando a for\u00e7a de trabalho pelo seu valor de troca real. Por isso, independente de onde o trabalhador vender sua for\u00e7a de trabalho, receber\u00e1 mais ou menos a mesma coisa (tais como o tomate e a alface custar\u00e3o mais ou menos a mesma coisa nas diversas feiras da cidade).<\/p>\n<p>Sendo assim, de onde vem a acumula\u00e7\u00e3o do capital? Da mais-valia! (Imagino o leitor: ufa! At\u00e9 que enfim o autor chegou ao assunto!)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>A mais-valia<\/h2>\n<p>Todas as mercadorias perdem o seu valor ao serem consumidas. Um carro, uma m\u00e1quina, etc., quando usados, perdem parte do seu valor. Miraculosamente, h\u00e1 uma mercadoria que, uma vez consumida, resulta em um valor maior do que o seu! Imaginem: uma mercadoria que, quem a consumir, n\u00e3o perde valor, antes, pelo contr\u00e1rio, ganha valor!! \u00c9 a galinha dos ovos de ouro da f\u00e1bula: come milho e p\u00f5e ovos de ouro! N\u00e3o. Essa mercadoria \u00e9 a for\u00e7a de trabalho. Compra-se uma for\u00e7a de trabalho por, digamos, &#8220;30 moedas&#8221; e dela resulta uma mercadoria que vale muito mais! \u00c9 o milagre dos milagres: a for\u00e7a de trabalho \u00e9 aquela mercadoria que, ao ser consumida (e s\u00f3 pode ser consumida na produ\u00e7\u00e3o), produz um valor maior do que o seu pr\u00f3prio. Esse valor maior \u00e9 a mais-valia (1).<\/p>\n<p>No dia a dia as coisas funcionam assim: o trabalhador fica no emprego por, digamos, 8 horas ao dia. Uma parte dessas horas, digamos 3 horas, \u00e9 o tempo de trabalho socialmente necess\u00e1rio para pagar o seu sal\u00e1rio. O restante de suas 8 horas, isto \u00e9, as 5 horas, correspondem \u00e0 mais-valia (2). Essa rela\u00e7\u00e3o entre o tempo de trabalho socialmente necess\u00e1rio para pagar o sal\u00e1rio e o restante, a mais-valia, se altera constantemente. Pois, como vimos no Jornal n. 80, a concorr\u00eancia entre os capitalistas faz com que necessitem produzir cada vez mais pagando cada vez menos sal\u00e1rio: ou seja, vence a concorr\u00eancia e fica no mercado aquele capitalista que for capaz de reduzir cada vez mais o tempo de trabalho socialmente necess\u00e1rio para cobrir o sal\u00e1rio de seus trabalhadores, ampliando assim sua mais-valia. Os capitalistas, por isso, cotidianamente, procuram ampliar a mais-valia que expropriam de seus trabalhadores (conferir, sobre isso, o Jornal Espa\u00e7o Socialista n.80 em que tratamos do desemprego).<a href=\"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/j81-13.jpg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignleft\" alt=\"j81-13\" src=\"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/j81-13-275x300.jpg\" width=\"275\" height=\"300\" \/><\/a><\/p>\n<p>Isso \u00e9 da maior import\u00e2ncia: a mais-valia \u00e9 produzida quando se produz uma mercadoria. Ela \u00e9 a quantidade de trabalho socialmente necess\u00e1ria nela cristalizada e que n\u00e3o retorna ao trabalhador sob a forma de sal\u00e1rio. Nos trabalhos assalariados que n\u00e3o h\u00e1 produ\u00e7\u00e3o de mercadoria (os funcion\u00e1rios p\u00fablicos, os administradores e &#8220;supervisores&#8221; nas f\u00e1bricas e no agrobusiness, os trabalhadores nos bancos e no com\u00e9rcio etc.) n\u00e3o h\u00e1 produ\u00e7\u00e3o de mais-valia. Isso tem forte impacto nas classes sociais, mas, como dissemos, n\u00e3o trataremos, nesse artigo, da rela\u00e7\u00e3o entre a mais-valia e as classes sociais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A forma absoluta e relativa da mais-valia<\/p>\n<p>H\u00e1 apenas duas formas pelas quais o capitalista pode ampliar a mais-valia: a forma absoluta e a forma relativa.<\/p>\n<p>A forma absoluta \u00e9 a mais comum e a mais antiga. Em um dado mercado, um conjunto de capitalistas concorre entre si. Vamos imaginar que todos fazem seus assalariados trabalharem por 8 horas por dia e retiram 5 horas de mais-valia (3 horas ficando para os sal\u00e1rios). Se um patr\u00e3o conseguir for\u00e7ar os seus trabalhadores a receberem um sal\u00e1rio menor, digamos, o equivalente a 2,5 horas por dia (ou, o que d\u00e1 no mesmo, aumentar a jornada para 10 horas sem aumento de sal\u00e1rio), acumular\u00e1 mais capital que seus concorrentes.<\/p>\n<p>A vantagem da forma absoluta de amplia\u00e7\u00e3o da mais-valia \u00e9 que ela \u00e9 r\u00e1pida, por vezes sequer precisa de novos investimentos ou qualquer reforma gerencial. Decide-se! Os trabalhadores que n\u00e3o aceitarem s\u00e3o demitidos. A desvantagem, n\u00e3o pequena, \u00e9 que provoca uma revolta imediata entre os trabalhadores. A sabotagem aumenta, a produtividade dos trabalhadores cai, a &#8220;m\u00e1 vontade&#8221; passa a dominar os locais do trabalho. Muitas vezes explodem greves ou conflitos mais graves. Por isso a mais-valia absoluta pode ser empregada com alguns limites que s\u00e3o dados pela luta de classe, pela intensidade do desemprego, pela capacidade de resist\u00eancia dos trabalhadores e assim por diante.<\/p>\n<p>Outra forma, muito atual em nosso pa\u00eds, de amplia\u00e7\u00e3o absoluta da mais-valia \u00e9 transferir as empresas para cidades pequenas, do interior do pa\u00eds, onde n\u00e3o h\u00e1 trabalhadores com experi\u00eancia de greves e outras formas de resist\u00eancia, que contam com sindicatos domesticados \u2013 na enorme maioria, ligados \u00e0 CUT e \u00e0 For\u00e7a Sindical \u2013 e, ainda, em que o tempo de trabalho socialmente necess\u00e1rio para produzir a for\u00e7a de trabalho \u00e9 bem menor que nas grandes cidades (o transporte, a moradia, a alimenta\u00e7\u00e3o, a Educa\u00e7\u00e3o, etc. tendem a ser bem mais baratos, entre outras coisas). Nesse caso, os investimentos de capital s\u00e3o consider\u00e1veis, mas a troca da for\u00e7a de trabalho mais cara e com tradi\u00e7\u00e3o de lutas por outra mais barata e desorganizada, dominada por sindicatos domesticados, tem sido muito lucrativa. Toritama, em Pernambuco, e Toledo, no Paran\u00e1, s\u00e3o exemplos sempre citados.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>A mais-valia relativa<\/h2>\n<p>Diferentemente da mais-valia absoluta, o aumento relativo da mais-valia \u00e9 conseguido pela altera\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o (por isso mais-valia relativa) entre o valor da for\u00e7a de trabalho e o valor das mercadorias produzidas pelo trabalhador. Voltemos ao nosso exemplo: um conjunto de capitalistas concorrendo entre si com assalariados que trabalham 8 horas por dia e, destas, 3 horas s\u00e3o para os sal\u00e1rios. Se a comida, a moradia, o transporte dos trabalhadores ficarem mais baratos, o tempo de trabalho socialmente necess\u00e1rio para produzir a for\u00e7a de trabalho tamb\u00e9m cai. Ou seja, se o desenvolvimento do capitalismo levar \u00e0 industrializa\u00e7\u00e3o da fabrica\u00e7\u00e3o de vestu\u00e1rio, dos alimentos, dos produtos farmac\u00eauticos, etc. fazendo com que essas mercadorias percam valor (porque gasta-se menos tempo de trabalho para produzi-las), o valor da for\u00e7a de trabalho tamb\u00e9m tender\u00e1 a cair. Com isso, ao inv\u00e9s de o sal\u00e1rio consumir 3 horas da jornada de trabalho, passar\u00e1 a consumir 2,5 ou 2 horas: amplia-se, assim, a mais-valia.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 tamb\u00e9m outro modo relativo de se ampliar a mais-valia: melhores tecnologias, maquin\u00e1rios mais sofisticados e potentes retiram de cada trabalhador uma produ\u00e7\u00e3o muito maior. Com isso, o necess\u00e1rio para produzir seu sal\u00e1rio pode reduzir-se, das 3 horas anteriores, para 2,5 ou 2 horas. E, aqui h\u00e1 uma vantagem adicional para o capital. N\u00e3o raramente uma tecnologia mais desenvolvida requer menos trabalhadores. Pagando-se menos sal\u00e1rios, a mais-valia amplia-se ainda mais. Por vezes, aumenta tanto, que compensa ao capitalista ter menos trabalhadores, mesmo que alguns sejam especializados e recebam sal\u00e1rios bem superiores aos de seus colegas.<\/p>\n<p>Com a mais-valia relativa temos, portanto, um segundo &#8220;milagre&#8221; (o primeiro foi a galinha dos ovos de ouro que \u00e9 a mercadoria for\u00e7a de trabalho): ao mesmo tempo em que o trabalhador continua comprando a mesma comida, a mesma roupa, morando na mesma casa e alguns trabalhadores (sempre minoria) se transformam em especialistas e t\u00eam seus sal\u00e1rios significativamente aumentados, a mais-valia se ampliou! Isso \u00e9 poss\u00edvel toda vez que o tempo socialmente necess\u00e1rio para produzir a for\u00e7a de trabalho diminuir. E isso ocorre toda vez que a industrializa\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o dos bens de primeira necessidade forne\u00e7a comida, roupas, rem\u00e9dios, moradias etc. cada vez mais baratas aos trabalhadores ou quando o desenvolvimento tecnol\u00f3gico e gerencial possibilitar a diminui\u00e7\u00e3o das horas destinadas ao sal\u00e1rio dos trabalhadores.<\/p>\n<p>Para que o capitalista busque a amplia\u00e7\u00e3o da mais-valia, com frequ\u00eancia, e empregue uma combina\u00e7\u00e3o dos v\u00e1rios modos de amplia\u00e7\u00e3o absoluta e relativa em nada altera a ess\u00eancia do que vimos sobre a mais-valia. O que importa ao capital \u00e9, evidentemente, ampliar a mais-valia e, n\u00e3o, se essa amplia\u00e7\u00e3o \u00e9 relativa ou absoluta.<\/p>\n<p>Como dissemos, n\u00e3o tratar\u00edamos aqui da rela\u00e7\u00e3o da mais-valia com as classes sociais. O fato de nem todo trabalho assalariado ser produtivo de mais-valia tem uma import\u00e2ncia muito grande na luta de classes; o fato de que nem todo trabalhador que produz mercadorias e, portanto, mais-valia, seja parte do proletariado, a classe revolucion\u00e1ria, \u00e9 outro importante fato que n\u00e3o poder\u00e1 ser aqui abordado.<a href=\"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/j81-12.jpg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-4143 alignright\" alt=\"j81-12\" src=\"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/j81-12-220x300.jpg\" width=\"220\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/j81-12-220x300.jpg 220w, https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/j81-12.jpg 441w\" sizes=\"(max-width: 220px) 100vw, 220px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Contudo, o que vimos at\u00e9 aqui j\u00e1 nos possibilita compreender porque Marx concluiu uma palestra a sindicalistas ingleses dizendo que &#8220;Em vez do lema conservador de: &#8216;Um sal\u00e1rio justo para uma jornada de trabalho justa!&#8217;, [o proletariado] dever\u00e1 inscrever na sua bandeira esta divisa revolucion\u00e1ria: &#8216;Aboli\u00e7\u00e3o do sistema de trabalho assalariado!'&#8221; Pois, n\u00e3o h\u00e1 sal\u00e1rio &#8220;justo&#8221;: o sal\u00e1rio significa que a capacidade produtiva de todos n\u00f3s foi reduzida a uma mercadoria. Enquanto mercadoria, a for\u00e7a de trabalho adquire uma nova utilidade (um novo valor de uso): a produ\u00e7\u00e3o da mais-valia. Ao produzir a mais-valia j\u00e1 est\u00e1 determinado como ser\u00e1 distribu\u00edda a riqueza: para a burguesia, a acumula\u00e7\u00e3o do capital; para o trabalhador, o sal\u00e1rio que o obriga a viver toda a vida como trabalhador, deixando para seus filhos a heran\u00e7a do mesmo destino de explora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Veja: a explora\u00e7\u00e3o n\u00e3o depende do valor do sal\u00e1rio! Nem o valor do sal\u00e1rio \u00e9 determinado pela luta dos trabalhadores! O m\u00e1ximo que a luta economicista (Lenin) pode conseguir \u00e9 aumentar um pouco o pre\u00e7o (o sal\u00e1rio) da for\u00e7a de trabalho, jamais o seu valor. O sal\u00e1rio j\u00e1 \u00e9 a explora\u00e7\u00e3o! Por isso, temos que lutar pela &#8216;Aboli\u00e7\u00e3o do sistema de trabalho assalariado!&#8217;, ou seja, do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista.<\/p>\n<ol>\n<li>Um certo modismo, um exagerado apego \u00e0 import\u00e2ncia de ser original, somados ao culto da novidade e alguns interesses editoriais, fizeram com que, em algumas tradu\u00e7\u00f5es recentes dos textos de Marx, mais-valia venha traduzida por mais-valor. N\u00e3o se impressione, caro leitor, \u00e9 a mesma categoria de Marx traduzida de uma forma novidadesca.<\/li>\n<li>Para simplificar o nosso exemplo, estamos desconsiderando aqui os custos, os juros, a desvaloriza\u00e7\u00e3o do maquin\u00e1rio e das instala\u00e7\u00f5es, etc. Deixar esses elementos de lado n\u00e3o altera o essencial do aqui discutido.<\/li>\n<\/ol>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>Textos recomendados:<\/h2>\n<p>Dois textos de Marx: 1) Cap\u00edtulo V do Livro I de O Capital (a melhor tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 a da Abril Cultural, depois renomeada para Nova Cultural. A edi\u00e7\u00e3o da Boitempo, a mais recente, possui v\u00e1rios problemas e \u00e9 de pior qualidade). 2) &#8220;Sal\u00e1rio, pre\u00e7o e lucro&#8221;: h\u00e1 v\u00e1rias edi\u00e7\u00f5es no pa\u00eds.<\/p>\n<p>De Engels, uma obra-prima: A situa\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora inglesa, com uma bela edi\u00e7\u00e3o organizada por Jos\u00e9 Paulo Netto para a Boitempo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Antes de tudo, uma advert\u00eancia ao leitor: h\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o muito importante entre a mais-valia e a luta de classes.<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":4142,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4141"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4141"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4141\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4147,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4141\/revisions\/4147"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4142"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4141"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4141"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4141"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}