{"id":4258,"date":"2015-11-12T11:54:31","date_gmt":"2015-11-12T13:54:31","guid":{"rendered":"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/?p=4258"},"modified":"2015-11-12T11:54:31","modified_gmt":"2015-11-12T13:54:31","slug":"jornal-84-materialismo-historico-a-origem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/2015\/11\/jornal-84-materialismo-historico-a-origem\/","title":{"rendered":"Jornal 84: Materialismo hist\u00f3rico: a origem"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/3.jpg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-4261 alignright\" alt=\"3\" src=\"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/3-300x126.jpg\" width=\"300\" height=\"126\" srcset=\"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/3-300x126.jpg 300w, https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/3.jpg 650w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<style type=\"text\/css\"><!--\nh2 { margin-top: 0.17in; direction: ltr; line-height: 0.17in; text-align: justify; orphans: 2; widows: 2; }h2.western { font-family: \"Liberation Sans\",sans-serif; font-size: 14pt; font-weight: normal; }h2.cjk { font-size: 14pt; font-weight: normal; }h2.ctl { font-size: 14pt; font-weight: normal; }p { margin-bottom: 0.1in; direction: ltr; line-height: 120%; text-align: justify; orphans: 2; widows: 2; }p.western { font-family: \"Calibri\",serif; font-size: 11pt; }p.cjk { font-family: \"Calibri\"; font-size: 11pt; }p.ctl { font-family: \"Times New Roman\"; font-size: 11pt; }\n--><\/style>\n<p>A origem do materialismo hist\u00f3rico \u00e9 fascinante! Sua hist\u00f3ria tem in\u00edcio no fato de que as classes sociais foram uma necessidade para o desenvolvimento das for\u00e7as produtivas desde a Revolu\u00e7\u00e3o Neol\u00edtica (a descoberta da agricultura e da pecu\u00e1ria, h\u00e1 cerca de 10-12 mil anos) at\u00e9 a Revolu\u00e7\u00e3o Industrial (1776-1830). Nesses milhares de anos, a articula\u00e7\u00e3o do trabalho excedente com a car\u00eancia (a produ\u00e7\u00e3o n\u00e3o era suficiente para atender a todos) fez com que as sociedades igualit\u00e1rias desenvolvessem as for\u00e7as produtivas muito mais lentamente do que as sociedades de classe e, por essa raz\u00e3o, aos poucos, o igualitarismo primitivo foi sendo substitu\u00eddo pela domina\u00e7\u00e3o de classe. (Tratamos dessas quest\u00f5es no \u00faltimo Jornal Espa\u00e7o Socialista, n\u00ba 83) Essa a raz\u00e3o do longo per\u00edodo de predom\u00ednio das classes sociais na hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>As sociedades de classe, sabemos, apenas podem existir se a classe dominante planejada e cotidianamente, de forma organizada e sistem\u00e1tica, for\u00e7ar os trabalhadores a produzirem a sua riqueza privada. For\u00e7ar, aqui, no sentido literal: pelo uso da for\u00e7a, da viol\u00eancia.<\/p>\n<p>As sociedades escravistas apenas podem existir e se reproduzir se os senhores de escravos, cotidianamente, organizarem a aplica\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia sobre os seus escravos. Algo similar ocorre com o feudalismo: se n\u00e3o for pela a\u00e7\u00e3o consciente da classe dominante na organiza\u00e7\u00e3o da opress\u00e3o dos &#8220;de baixo&#8221;, n\u00e3o h\u00e1 modo de produ\u00e7\u00e3o feudal que perdure. No modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista, a situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 essencialmente diferente.<\/p>\n<p>Isto \u00e9 uma lei universal: as classes dominantes t\u00eam que criar o Estado, as leis, o ex\u00e9rcito, o dinheiro, o mercado; t\u00eam que organizar o transporte, a Educa\u00e7\u00e3o, a ideologia justificadora de seu poder, t\u00eam que organizar a produ\u00e7\u00e3o, o com\u00e9rcio, o transporte, etc., pois, caso contr\u00e1rio, n\u00e3o h\u00e1 reprodu\u00e7\u00e3o poss\u00edvel das sociedades de classe. Nos nossos dias, sem que a classe dominante crie, organize e mantenha desde os instrumentos de repress\u00e3o (o Direito, o Estado, a pol\u00edtica, a ideologia, os costumes, a tortura, as pris\u00f5es, a pol\u00edcia, etc.) at\u00e9 a produ\u00e7\u00e3o (articular em unidades produtivas mat\u00e9ria-prima, for\u00e7a de trabalho, capital etc.) n\u00e3o h\u00e1 reprodu\u00e7\u00e3o de capital poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Percebam o efeito disso na consci\u00eancia dos seres humanos, no longo prazo: ainda que a riqueza seja produzida pelos trabalhadores, quem organiza e mant\u00e9m a explora\u00e7\u00e3o dos trabalhadores n\u00e3o s\u00e3o os pr\u00f3prios trabalhadores e sim as classes dominantes. Disso decorrem duas ilus\u00f5es que possuem uma enorme apar\u00eancia de verdade, bem consideradas as coisas, foram unanimemente consideradas verdadeiras no passado e, mesmo hoje, sua apar\u00eancia de verdade n\u00e3o se dissipou por completo.<\/p>\n<p>A primeira ilus\u00e3o \u00e9 a de que os &#8220;verdadeiros&#8221; produtores seriam as classes dominantes, n\u00e3o os trabalhadores. Arist\u00f3teles, o maior pensador grego, n\u00e3o tinha d\u00favidas nesse sentido. Bem mais tarde, na passagem do s\u00e9culo 18 ao 19, os melhores economistas j\u00e1 sabiam que toda a riqueza \u00e9 produzida pelos trabalhadores. Mas, argumentavam que se a burguesia n\u00e3o organizasse a produ\u00e7\u00e3o, o trabalhador n\u00e3o teria emprego e a produ\u00e7\u00e3o n\u00e3o ocorreria. Conclu\u00edam, ent\u00e3o, que a verdadeira classe respons\u00e1vel pela produ\u00e7\u00e3o e pela prosperidade social seria a burguesia. Ela seria a &#8220;aut\u00eantica&#8221; classe produtora.<\/p>\n<p>Por outro lado, todas as classes trabalhadoras pr\u00e9-capitalistas (ou seja, excetuando-se a classe oper\u00e1ria) n\u00e3o podiam se opor, de fato e na pr\u00e1tica, \u00e0 essa ilus\u00e3o. Como as classes sociais ainda eram indispens\u00e1veis para o r\u00e1pido desenvolvimento das for\u00e7as produtivas, aos trabalhadores n\u00e3o restava alternativa sen\u00e3o a de serem explorados. Essa situa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica fazia com que, mesmo entre os trabalhadores, soasse como verdadeira a ilus\u00e3o de que eles dependiam da classe dominante \u2013 a ilus\u00e3o de que a classe dominante deveria, sempre, dirigir a sociedade. Daqui nasceu a segunda ilus\u00e3o: a de que a classe dominante seria a criadora da &#8220;civiliza\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>A primeira ilus\u00e3o, diz\u00edamos, era a de a classe dominante ser a &#8220;aut\u00eantica&#8221; classe produtora. A segunda ilus\u00e3o \u00e9 esta: que a sociedade de classes \u00e9 obra da classe dominante; ou seja, que \u00e9 o projeto pensado pela classe dominante que faz da sociedade o que a sociedade \u00e9.<\/p>\n<p>Marx e Engels, desde a juventude at\u00e9 a maturidade, denunciaram a desumanidade (isto \u00e9, a aliena\u00e7\u00e3o) que se instaurou, ent\u00e3o: a separa\u00e7\u00e3o entre o trabalho intelectual e o trabalho manual(1). O trabalho intelectual \u00e9 a organiza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o que cabe \u00e0 classe dominante. Organizar a produ\u00e7\u00e3o implica, claro est\u00e1, em organizar tamb\u00e9m a sociedade no seu todo. A finalidade do trabalho intelectual \u00e9 reproduzir a explora\u00e7\u00e3o dos trabalhadores. Contudo, \u00e9 do trabalho manual, que transforma a natureza em meios de produ\u00e7\u00e3o e de subsist\u00eancia, que se origina toda a riqueza social.<\/p>\n<p>Brotava da vida cotidiana uma concep\u00e7\u00e3o que, hoje, sabemos falsa. Tal como, ao fazer um machado, \u00e9 o &#8220;projeto&#8221; imaginado que predomina sobre a pedra e a madeira, em uma sociedade de classes seria o projeto de domina\u00e7\u00e3o da classe dominante que criaria a sociedade. Quem pensa, quem planeja, quem organiza seria o criador da sociedade; quem trabalha, produz a riqueza, seria criatura; quem produz n\u00e3o passaria do resultado da realiza\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica do projeto da classe dominante. A ideia organizaria o mundo material: o idealismo \u00e9 a m\u00e1xima express\u00e3o filos\u00f3fica dessa ilus\u00e3o.<\/p>\n<p>Vejam: a base hist\u00f3rica que articulou o trabalho excedente com a car\u00eancia e que perdurou por mais de uma dezena de milhares de anos \u00e9 o fundamento \u00faltimo para que as concep\u00e7\u00f5es de mundo idealistas fossem sempre superiores \u00e0s materialistas, at\u00e9 chegarmos ao s\u00e9culo 19 com Marx e Engels.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>Idealismo e materialismo<\/h2>\n<p>H\u00e1 muitas variantes do idealismo, cada qual correspondendo \u00e0s necessidades e possibilidades hist\u00f3ricas de cada momento. Desde Plat\u00e3o e Arist\u00f3teles, passando pelo per\u00edodo medieval, com Agostinho e Tom\u00e1s de Aquino, entrando pelo Per\u00edodo Moderno, de Galileu, Descartes e Bacon at\u00e9 Hegel, as grandes concep\u00e7\u00f5es de mundo assumiam como uma inquestion\u00e1vel evid\u00eancia que o que existe (o mundo todo) seria formado por duas partes, a mat\u00e9ria e o esp\u00edrito. E que, nessa dualidade, o esp\u00edrito seria sempre superior porque criaria a mat\u00e9ria.<\/p>\n<p>As varia\u00e7\u00f5es s\u00e3o muitas: do Mundo das Ideias em Plat\u00e3o, do Logos de Arist\u00f3teles, passando pelo Deus medieval, at\u00e9 a natureza idealizada pelos principais pensadores modernos \u2013 insistimos, em que pese as muitas diferen\u00e7as \u2013 de Plat\u00e3o a Hegel todos compartilharam de uma no\u00e7\u00e3o decisiva: a ideia, o esp\u00edrito, seria o eterno, o imut\u00e1vel, o que n\u00e3o teria hist\u00f3ria e que determinaria a mat\u00e9ria. A mat\u00e9ria seria o mundo em que vivemos, sempre mut\u00e1vel, sempre em transforma\u00e7\u00e3o, permanentemente em movimento. O esp\u00edrito, a ideia, seria, portanto, o verdadeiramente existente, o verdadeiro ser \u2013 \u00e0 mat\u00e9ria caberia o papel inferior de ser o local em que nossa hist\u00f3ria tem lugar, em que nascemos, crescemos e perecemos.<\/p>\n<p>Lembremos que isso n\u00e3o decorre de um acaso, de um &#8220;defeito&#8221; ou &#8220;debilidade&#8221; dos pensadores. As concep\u00e7\u00f5es de mundo idealistas eram o reflexo, na consci\u00eancia dos homens, da ilus\u00e3o de que \u00e9 a classe dominante que ordena a sociedade \u00e0 sua imagem e semelhan\u00e7a, de que vida humana &#8220;material&#8221; \u00e9 determinada pela finalidade, pelo projeto, pelo &#8220;esp\u00edrito&#8221; da classe dominante. De que a classe dominante &#8220;cria&#8221; a sociedade, deduziam que o esp\u00edrito seria superior e criador da mat\u00e9ria: o idealismo. Hegel (suas principais obras s\u00e3o de 1806 e 1812-3) \u00e9 o apogeu e a mais genial elabora\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica idealista. Em um artigo futuro poderemos tratar de seu pensamento.<\/p>\n<p>O que agora nos importa \u00e9 que tamb\u00e9m n\u00e3o foi por acaso, ou pela genialidade de alguns pensadores, que o materialismo se tornou superior ao idealismo. Foi o fim da necessidade hist\u00f3rica das classes sociais que encerrou o per\u00edodo em que o idealismo foi o reflexo mais adequado, na consci\u00eancia, do mundo em que vivemos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>A superioridade do materialismo<\/h2>\n<p>A passagem do s\u00e9culo 18 ao 19 trouxe, para a hist\u00f3ria da humanidade, dois gigantescos processos revolucion\u00e1rios: a Revolu\u00e7\u00e3o industrial e a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa.<\/p>\n<p>Na Inglaterra, se iniciando em 1776 e indo at\u00e9 1830, tivemos a Revolu\u00e7\u00e3o Industrial. O enorme mercado mundial que surgiu com as Grandes Navega\u00e7\u00f5es (1430-1600), os lucros acumulados pela burguesia, associados \u00e0 penetra\u00e7\u00e3o do capitalismo no campo, em especial na Inglaterra, fazendo surgir, nas cidades, uma massa de trabalhadores desempregados dispostos a qualquer servi\u00e7o em troca de qualquer sal\u00e1rio \u2013 esses tr\u00eas fatores tornaram lucrativa a Revolu\u00e7\u00e3o Industrial. Pela substitui\u00e7\u00e3o do m\u00fasculo humano pela for\u00e7a da m\u00e1quina a vapor na produ\u00e7\u00e3o, a produtividade do trabalho aumentou absurdamente. O investimento era alt\u00edssimo para a \u00e9poca, mas o retorno era r\u00e1pido e a lucratividade ainda maior. A acumula\u00e7\u00e3o de capital se acelerava na mesma medida em que aumentava a produ\u00e7\u00e3o, at\u00e9 que&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>T\u00eam in\u00edcio as crises c\u00edclicas!<\/h2>\n<p>Como vimos nas edi\u00e7\u00f5es 79 e 80 do Jornal Espa\u00e7o Socialista, as crises c\u00edclicas e, depois, a crise estrutural, s\u00e3o consequ\u00eancias da mesma contradi\u00e7\u00e3o essencial ao modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista: a produ\u00e7\u00e3o tende a ser maior do que o consumo e, com isso, a abund\u00e2ncia derruba os pre\u00e7os abaixo do custo de produ\u00e7\u00e3o. Com queda no lucro, os capitalistas suspendem a produ\u00e7\u00e3o e a crise se instaura. Enquanto a superprodu\u00e7\u00e3o (a abund\u00e2ncia) pode ser destru\u00edda pelas crises, elas s\u00e3o c\u00edclicas. Isto \u00e9, destru\u00edda a superprodu\u00e7\u00e3o pela crise, a produ\u00e7\u00e3o pode ser novamente retomada. Mas, quando a superprodu\u00e7\u00e3o \u00e9 de tal ordem que n\u00e3o pode ser mais destru\u00edda nem com as crises, a crise se torna permanente, estrutural, no dizer de M\u00e9sz\u00e1ros. As for\u00e7as produtivas encontram nas rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o capitalista um obst\u00e1culo crescente ao seu pleno desenvolvimento. Em poucas palavras, seu desenvolvimento \u00e9 limitado \u00e0s necessidades do capital e essas necessidades se tornaram t\u00e3o desumanas que o capital apenas pode desenvolver suas for\u00e7as produtivas destruindo a humanidade.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 a primeira das revolu\u00e7\u00f5es que formam a base da atual superioridade do materialismo frente ao idealismo: a abund\u00e2ncia, trazida pela Revolu\u00e7\u00e3o Industrial, instaura uma contradi\u00e7\u00e3o antag\u00f4nica entre a sociedade de classes e o desenvolvimento das for\u00e7as produtivas. A supera\u00e7\u00e3o da sociedade de classes torna-se, portanto, uma necessidade hist\u00f3rica. \u00c9 uma necessidade que surge no interior da sociedade, que surge objetivamente antes de se refletir na consci\u00eancia e se converter em um projeto de supera\u00e7\u00e3o do capitalismo: o comunismo, de Marx e Engels.<\/p>\n<p>A segunda grande revolu\u00e7\u00e3o que est\u00e1 na base da superioridade contempor\u00e2nea do materialismo frente ao idealismo \u00e9 a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa. Ela mostrou que todos os grandes pensadores burgueses at\u00e9 ela haviam cometido um enorme engano. Pensavam eles que a natureza teria dotado os seres humanos de algumas qualidades imut\u00e1veis e eternas: ser\u00edamos racionais, ego\u00edstas e propriet\u00e1rios privados. De Locke e Hobbes (s\u00e9culo 17), a Rousseau, Kant (s\u00e9culo 18) e Hegel (primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo 19), o que predominou foi a no\u00e7\u00e3o de que o motor da hist\u00f3ria seria um &#8220;esp\u00edrito&#8221; humano universal, eterno, imut\u00e1vel: todos ser\u00edamos eternamente ego\u00edstas, mesquinhos e concorrenciais.<\/p>\n<p>Pois bem, a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa mostrou, com todas as letras e todos os pingos nos &#8220;is&#8221;, que \u00e9 a luta de classes que molda a hist\u00f3ria da sociedade de classes e, por extens\u00e3o, que s\u00e3o os seres humanos que fazem a sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria. A humanidade saiu dos 26 anos da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa sabendo que s\u00e3o os humanos os \u00fanicos senhores de nossa hist\u00f3ria; sabendo que nem \u00e9 a natureza, nem s\u00e3o os deuses, quem comanda nossos destinos. Sabendo que o &#8220;esp\u00edrito&#8221; que criaria o mundo n\u00e3o passava de uma ilus\u00e3o. Os deuses s\u00e3o cria\u00e7\u00f5es dos homens, \u00e9 anunciado nos primeiros anos do s\u00e9culo 19.<\/p>\n<p>Tornou-se, s\u00f3 ent\u00e3o, poss\u00edvel um materialismo que substitu\u00edsse o idealismo. Pois, apenas o materialismo pode tirar todas as consequ\u00eancias, tanto da descoberta de que s\u00e3o os seres humanos os \u00fanicos construtores de seu destino, quanto da evid\u00eancia hist\u00f3rica de que n\u00e3o \u00e9 o &#8220;esp\u00edrito&#8221; que cria a &#8220;materialidade&#8221; do mundo. T\u00e3o somente uma concep\u00e7\u00e3o materialista pode refletir na consci\u00eancia dos homens a nova fase hist\u00f3rica na qual o desenvolvimento da humanidade requer tanto a supera\u00e7\u00e3o da sociedade de classes, quanto do idealismo, que \u00e9 sua express\u00e3o intelectual. \u00c9 essa necessidade e possibilidade hist\u00f3rica que est\u00e1 na origem dessas duas personalidades geniais: Marx e Engels.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>Marx, Engels e a hist\u00f3ria<\/h2>\n<p>A Revolu\u00e7\u00e3o Industrial e a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa evidenciaram dois fatos hist\u00f3ricos que Marx e Engels, ent\u00e3o, puderam adotar como seus pressupostos.<\/p>\n<p>O primeiro: n\u00e3o s\u00e3o nem os deuses, nem qualquer &#8220;esp\u00edrito&#8221;, nem a natureza os criadores dos seres humanos. A hist\u00f3ria dos homens \u00e9 resultado \u00fanico e exclusivo das a\u00e7\u00f5es humanas.<\/p>\n<p>O segundo pressuposto: os seres humanos, para viverem, precisam trabalhar, isto \u00e9, transformar a natureza em meios de produ\u00e7\u00e3o e de subsist\u00eancia. Para o fazerem, precisam construir na consci\u00eancia, isto \u00e9, &#8220;idealmente&#8221; (Marx), antes de transformarem a natureza. Veremos logo abaixo que, ao transformarem o mundo, transformam tamb\u00e9m as suas rela\u00e7\u00f5es com o mundo e consigo pr\u00f3prios: transformam &#8220;sua pr\u00f3pria natureza&#8221; de seres humanos (Marx). Por isso, cada momento consegue-se tirar mais da natureza com menos trabalho, as sociedades crescem, aumenta a divis\u00e3o do trabalho, os indiv\u00edduos se desenvolvem, etc.<\/p>\n<p>Em poucas palavras, o modo como, ao longo do tempo, os humanos organizam a transforma\u00e7\u00e3o da natureza \u00e9 a base a partir da qual se organizam as rela\u00e7\u00f5es sociais. O trabalho funda os diversos modos de produ\u00e7\u00e3o, as diversas forma\u00e7\u00f5es sociais. Estava descoberto o trabalho como o que funda toda a hist\u00f3ria da humanidade!<\/p>\n<p>Que o trabalho \u00e9 a fonte de toda a riqueza social, os economistas burgueses j\u00e1 haviam reconhecido, pois esse \u00e9 um fato com fortes repercuss\u00f5es na organiza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o capitalista. Marx e Engels deram o passo seguinte. O trabalho \u00e9 muito mais do que a origem de toda a riqueza social: do trabalho escravo saiu a sociedade escravista, do trabalho do servo se elevou a sociedade feudal e, por fim, do trabalho prolet\u00e1rio se origina a sociedade burguesa. A ideia de que seria o &#8220;esp\u00edrito&#8221; da classe dominante que criaria a sociedade estava desmascarada como uma mera ilus\u00e3o. O trabalho, e n\u00e3o o &#8220;esp\u00edrito&#8221; da classe dominante, \u00e9 o que est\u00e1 na origem de todas as sociedades.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria, ent\u00e3o, passou a ser inteiramente compreens\u00edvel, totalmente explic\u00e1vel, a partir de como, a cada momento da hist\u00f3ria, o trabalho \u00e9 organizado. O desenvolvimento das for\u00e7as produtivas pode ser, ent\u00e3o, reconhecida como o momento predominante na evolu\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria. At\u00e9 o final de suas vidas, tanto Marx quanto Engels v\u00e3o aperfei\u00e7oando o reconhecimento te\u00f3rico desse fato. Os dois pensadores v\u00e3o coletando argumentos e fatos hist\u00f3ricos para demonstrar que a hist\u00f3ria \u00e9 exclusivamente humana. Isto \u00e9, nem \u00e9 feita pelos Deuses, nem por qualquer &#8220;esp\u00edrito&#8221;, nem pela natureza, mas apenas pelas rela\u00e7\u00f5es que os humanos estabelecem entre si na busca de retirar da natureza os meios de produ\u00e7\u00e3o e de subsist\u00eancia.<\/p>\n<p>Por v\u00e1rias media\u00e7\u00f5es (que n\u00e3o s\u00e3o dif\u00edceis de serem intu\u00eddas, ao menos em geral), se o trabalho funda toda a sociedade, o trabalho prolet\u00e1rio (aquele trabalho assalariado que transforma a natureza em mercadorias) \u00e9 fundante do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista. Por isso \u2013 aqui, tamb\u00e9m, com v\u00e1rias media\u00e7\u00f5es \u2013 o proletariado \u00e9 a classe revolucion\u00e1ria: a \u00fanica que tem interesse e necessidade hist\u00f3ricos de superar a explora\u00e7\u00e3o do homem pelo homem (ver o Jornal Espa\u00e7o Socialista n\u00ba 77).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>O materialismo<\/h2>\n<p>Descoberto que \u00e9 o trabalho (e, n\u00e3o, o &#8220;esp\u00edrito&#8221; da classe dominante) que funda a sociedade, estava tamb\u00e9m descoberto o elo que faltava para que uma concep\u00e7\u00e3o radicalmente materialista superasse o idealismo de Hegel e de seus sucessores contempor\u00e2neos.<\/p>\n<p>O materialismo, de Marx e Engels, se apoia no conhecimento de que a vida surgiu no planeta Terra com base em um longo desenvolvimento da mat\u00e9ria inorg\u00e2nica. O mundo inorg\u00e2nico possui sua hist\u00f3ria: na evolu\u00e7\u00e3o do universo, as formas mais simples da mat\u00e9ria v\u00e3o dando origem a formas mais complexas atrav\u00e9s dos processos qu\u00edmicos e f\u00edsicos. De um in\u00edcio em que temos basicamente hidrog\u00eanio e h\u00e9lio (os \u00e1tomos mais simples), o universo evoluiu em dire\u00e7\u00e3o a elementos e compostos qu\u00edmicos cada vez mais complexos. Conhecemos os detalhes dessa produ\u00e7\u00e3o, um processo que tem lugar no n\u00facleo das estrelas, principalmente.<\/p>\n<p>Em um dado patamar do desenvolvimento da mat\u00e9ria inorg\u00e2nica, surgiu a vida(2). A vida nada mais \u00e9 do que os \u00e1tomos inorg\u00e2nicos sob uma nova organiza\u00e7\u00e3o que, por ser nova, \u00e9 portadora de novas qualidades. Nada disso \u00e9 misterioso: tal como a \u00e1gua, formada pelo hidrog\u00eanio e o oxig\u00eanio, possui qualidades muito distintas da desses dois gases, uma nova organiza\u00e7\u00e3o dos \u00e1tomos de carbono, \u00e1gua e alguns outros elementos, resulta na vida. O que a caracteriza e a distingue da mat\u00e9ria inorg\u00e2nica n\u00e3o s\u00e3o os \u00e1tomos que a comp\u00f5e, mas sim a nova qualidade que surge com o novo modo de organiza\u00e7\u00e3o desses \u00e1tomos. Essa qualidade \u00e9 a reprodu\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica. E, com a reprodu\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica surge um processo material que antes n\u00e3o existia: a evolu\u00e7\u00e3o da vida \u00e9 determinada pela sele\u00e7\u00e3o natural (tende a sobreviver a esp\u00e9cie de vida melhor adaptada ao ambiente) e, n\u00e3o mais, pelas rea\u00e7\u00f5es f\u00edsicas e qu\u00edmicas da mat\u00e9ria inorg\u00e2nica.<\/p>\n<p>A sele\u00e7\u00e3o natural, bilh\u00f5es de anos depois, terminou dando origem a uma forma de vida mais adapt\u00e1vel \u00e0s varia\u00e7\u00f5es do ambiente e que, por isso, tende a sobreviver. Os animais \u2013 que vivem em bandos (greg\u00e1rios) e que s\u00e3o capazes de acumular informa\u00e7\u00f5es sobre o mundo em que vivem \u2013 tendem a se reproduzir melhor que outros seres vivos. O gregarismo possibilita que novas necessidades sejam enfrentadas como novos modos de organizar as atividades coletivas; uma consci\u00eancia capaz de armazenar e processar as informa\u00e7\u00f5es possibilita que se reaja ao ambiente de forma cada vez mais eficiente etc(3).<\/p>\n<p>Essa tend\u00eancia de desenvolvimento \u2013 que se prolongou por milh\u00f5es de anos \u2013 terminou conduzindo a animais greg\u00e1rios que passam a trabalhar (ou seja, que passam a retirar da natureza os meios de produ\u00e7\u00e3o e de subsist\u00eancia por meio do trabalho). O que diferencia o trabalho de todas as formas anteriores de transforma\u00e7\u00e3o pelos animais do ambiente em que vivem \u00e9 que, no trabalho, o que vai ser feito na pr\u00e1tica \u00e9, antes, constru\u00eddo na consci\u00eancia. Antes de se fazer uma lan\u00e7a, planeja-se a lan\u00e7a. A lan\u00e7a \u00e9 a realiza\u00e7\u00e3o do projeto pr\u00e9-concebido. Isso pode parecer pouca coisa. Mas \u00e9 f\u00e1cil se perceber que n\u00e3o o \u00e9.<\/p>\n<p>Ao transformar o mundo de acordo com um plano, o que n\u00f3s pensamos acerca do mundo (e sobre n\u00f3s pr\u00f3prios) entra em confronto direto com o que mundo de fato \u00e9. Com isso, podemos corrigir nossas ideias acerca do mundo, acerca dos nossos companheiros e de n\u00f3s pr\u00f3prios. Quanto mais conhecemos o mundo em que vivemos, maior nossa capacidade produtiva. Ao produzirmos cada vez mais, as sociedades podem se tornar cada vez maiores, podemos desenvolver as for\u00e7as produtivas e a divis\u00e3o do trabalho: a hist\u00f3ria humana est\u00e1 em andamento.<\/p>\n<p>Para que tudo isso ocorra, a consci\u00eancia precisa refletir cada vez mais perfeitamente o que \u00e9 o mundo em que vivemos: para tanto produz desde a religi\u00e3o, a ci\u00eancia, a filosofia, a matem\u00e1tica, a astronomia etc. at\u00e9 os costumes, a linguagem, a ideologia etc., ou seja, todas as produ\u00e7\u00f5es da consci\u00eancia humana (o que os idealistas chamavam equivocadamente de &#8220;esp\u00edrito&#8221; e, hoje, alguns denominam, ainda mais equivocadamente, de &#8220;imaterial&#8221;).<\/p>\n<p>Surgiu como um animal, pelo trabalho, se converte em ser humano, estava encontrado o elo que articula a nossa hist\u00f3ria com a hist\u00f3ria de todo o universo!<\/p>\n<p>Toda a hist\u00f3ria humana, com todas as suas realiza\u00e7\u00f5es &#8220;espirituais&#8221; e &#8220;materiais&#8221; (para brincar com o velho idealismo), \u00e9 o resultado de uma longa evolu\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria. A mat\u00e9ria inorg\u00e2nica, por suas leis pr\u00f3prias, evoluiu e tornou poss\u00edvel o surgimento da vida. A vida, por suas leis pr\u00f3prias, evoluiu dando origem aos animais. Alguns, dentre eles, passaram a trabalhar. Pelo trabalho, surgiu toda a hist\u00f3ria humana.<\/p>\n<p>Vejam: a vida nada mais \u00e9 que uma forma superior da mat\u00e9ria \u2013 \u00e9 mat\u00e9ria, portanto, em uma forma superior de organiza\u00e7\u00e3o. De modo similar, a hist\u00f3ria humana \u00e9 uma forma superior de organiza\u00e7\u00e3o da vida. Portanto, tudo o que existe \u00e9 mat\u00e9ria, com suas diferentes formas de organiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A mat\u00e9ria inorg\u00e2nica tem sua hist\u00f3ria determinada pelos processos qu\u00edmicos e f\u00edsicos. Dela, emerge a mat\u00e9ria org\u00e2nica que tem sua hist\u00f3ria determinada pela reprodu\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica, pela sele\u00e7\u00e3o natural. Da vida sai o trabalho, que determina a hist\u00f3ria da mat\u00e9ria social pelo desenvolvimento das for\u00e7as produtivas, o que requer o desenvolvimento dos indiv\u00edduos e de formas sempre mais desenvolvidas de consci\u00eancia. Tudo o que existe \u00e9 a mat\u00e9ria em movimento, em constante evolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Veja: tudo o que existe \u00e9 mat\u00e9ria. N\u00e3o existe a dualidade esp\u00edrito-mat\u00e9ria do velho idealismo! Por isso, materialismo. E, a mat\u00e9ria, \u00e9 um constante processo de evolu\u00e7\u00e3o, uma hist\u00f3ria permanente. Por isso, hist\u00f3rica. Por essa raz\u00e3o \u00e9 que se denomina, muitas vezes, por materialismo hist\u00f3rico a concep\u00e7\u00e3o de mundo elaborada por Marx e Engels.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Textos recomendados: de Engels, Do socialismo ut\u00f3pico ao cient\u00edfico, \u00e9 muit\u00edssimo interessante sobre essa quest\u00e3o. Um texto mais complexo para o leitor iniciante \u00e9 A Sagrada Fam\u00edlia, de Marx e Engels, uma fant\u00e1stica ironia contra seus companheiros idealistas Bauer, Stirner, etc. De Ivo Tonet, O m\u00e9todo cient\u00edfico (Instituto Luk\u00e1cs, 2014), possui muitas indica\u00e7\u00f5es \u00fateis. Finalmente, de Marx, A mis\u00e9ria da filosofia, um texto que ele pr\u00f3prio considerava a melhor introdu\u00e7\u00e3o ao seu pensamento \u2013 com a pequena corre\u00e7\u00e3o, assinalada por ele, de que onde se l\u00ea compra a venda de trabalho, dever-se-ia ler for\u00e7a de trabalho.<\/p>\n<h2>Notas:<\/h2>\n<ol>\n<li>H\u00e1 uma no\u00e7\u00e3o, muito difundida, de que a separa\u00e7\u00e3o do trabalho manual do intelectual \u00e9 a separa\u00e7\u00e3o do ato de pensar do ato de fazer. Nada mais falso: todos os seres humanos pensam, sendo prolet\u00e1rios ou burgueses. Nessa acep\u00e7\u00e3o empregada por Marx e Engels, o trabalho intelectual \u00e9 a atividade de organiza\u00e7\u00e3o da sociedade e da produ\u00e7\u00e3o pela classe dominante e, o trabalho manual, essencialmente, \u00e9 aquele que transforma a natureza em meios de produ\u00e7\u00e3o e de subsist\u00eancia. Uma sociedade em que uma parte ordena e outra parte produz da forma que foi ordenado, \u00e9 uma sociedade de classes.<\/li>\n<li>De fato, conhecemos apenas a vida no nosso planeta. Mas isso tende a mudar em pouco tempo, com a descoberta de \u00e1gua corrente em Marte e com a investiga\u00e7\u00e3o dos outros planetas do sistema solar.<\/li>\n<li>De fato, conhecemos apenas a vida no nosso planeta. Mas isso tende a mudar em pouco tempo, com a descoberta de \u00e1gua corrente em Marte e com a investiga\u00e7\u00e3o dos outros planetas do sistema solar.<\/li>\n<\/ol>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A origem do materialismo hist\u00f3rico \u00e9 fascinante! 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